
“...até que um belo dia ele se
enforcou. Não deixou nenhum bilhete, e ninguém soube explicar. Menos ainda sua
mulher e suas filhas. Quando fui à casa do enforcado dar meus pêsames, tive a
impressão de que o sofrimento havia sido adiado pelo impacto da surpresa: como
se em todos aqueles anos nunca houvesse lhes ocorrido que ali, na sua própria
casa, vivia com elas um estranho disfarçado, com identidade falsa, um marajá na
figura de marceneiro, e agora o haviam chamado de volta, e ele, de imediato,
sem uma palavra, despira seu disfarce de tantos anos e partira para retornar ao
seu lugar. O último homem, literalmente o último homem no mundo que iria se
enforcar. Jamais em nossa vida nenhuma de nós poderia imaginar que isto lhe
passava pela cabeça. E sem nenhum motivo: pensando bem a vida o tratou muito
bem, família, amigos, trabalho, era o tipo de homem, como dizem, satisfeito com
o que tinha, e que sabia dar valor às coisas. Por exemplo, ele amava comer,
sentar-se aqui nesta poltrona todas as noites e adormecer segurando o jornal, e
amava especialmente aquelas suas óperas, que ouvia e cantava de manhã até a
noite e, bem, às vezes nós achávamos que era um pouco exagerado, mas ficávamos
de boca fechada, por que ele não poderia se divertir um pouco? Afinal, existem
maridos cuja metade do salário vai embora na loteria esportiva e coisas do gênero,
não perdem um jogo de futebol, e com ele eram as óperas. O senhor há de
concordar que é um passatempo de gente culta. E também adorava divertir as
pessoas, era o campeão das pegadinhas – campeão nada, rei. Talvez o senhor não
acredite que naquela manhã, no máximo três horas antes da tragédia, ele estava
fazendo uma omelete para as meninas e fingiu que engolia o azeite fervendo. Que
susto nós levamos, até que começamos a rir. O que mais se pode dizer, meu
senhor, cada pessoa é um enigma, até mesmo as mais próximas da gente.”
Amós Oz. O mesmo
mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 101