“...até que um belo dia ele se enforcou. Não deixou nenhum bilhete, e ninguém soube explicar. Menos ainda sua mulher e suas filhas. Quando fui à casa do enforcado dar meus pêsames, tive a impressão de que o sofrimento havia sido adiado pelo impacto da surpresa: como se em todos aqueles anos nunca houvesse lhes ocorrido que ali, na sua própria casa, vivia com elas um estranho disfarçado, com identidade falsa, um marajá na figura de marceneiro, e agora o haviam chamado de volta, e ele, de imediato, sem uma palavra, despira seu disfarce de tantos anos e partira para retornar ao seu lugar. O último homem, literalmente o último homem no mundo que iria se enforcar. Jamais em nossa vida nenhuma de nós poderia imaginar que isto lhe passava pela cabeça. E sem nenhum motivo: pensando bem a vida o tratou muito bem, família, amigos, trabalho, era o tipo de homem, como dizem, satisfeito com o que tinha, e que sabia dar valor às coisas. Por exemplo, ele amava comer, sentar-se aqui nesta poltrona todas as noites e adormecer segurando o jornal, e amava especialmente aquelas suas óperas, que ouvia e cantava de manhã até a noite e, bem, às vezes nós achávamos que era um pouco exagerado, mas ficávamos de boca fechada, por que ele não poderia se divertir um pouco? Afinal, existem maridos cuja metade do salário vai embora na loteria esportiva e coisas do gênero, não perdem um jogo de futebol, e com ele eram as óperas. O senhor há de concordar que é um passatempo de gente culta. E também adorava divertir as pessoas, era o campeão das pegadinhas – campeão nada, rei. Talvez o senhor não acredite que naquela manhã, no máximo três horas antes da tragédia, ele estava fazendo uma omelete para as meninas e fingiu que engolia o azeite fervendo. Que susto nós levamos, até que começamos a rir. O que mais se pode dizer, meu senhor, cada pessoa é um enigma, até mesmo as mais próximas da gente.”
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quinta-feira, 13 de agosto de 2015
Cada pessoa é um enigma
“...até que um belo dia ele se enforcou. Não deixou nenhum bilhete, e ninguém soube explicar. Menos ainda sua mulher e suas filhas. Quando fui à casa do enforcado dar meus pêsames, tive a impressão de que o sofrimento havia sido adiado pelo impacto da surpresa: como se em todos aqueles anos nunca houvesse lhes ocorrido que ali, na sua própria casa, vivia com elas um estranho disfarçado, com identidade falsa, um marajá na figura de marceneiro, e agora o haviam chamado de volta, e ele, de imediato, sem uma palavra, despira seu disfarce de tantos anos e partira para retornar ao seu lugar. O último homem, literalmente o último homem no mundo que iria se enforcar. Jamais em nossa vida nenhuma de nós poderia imaginar que isto lhe passava pela cabeça. E sem nenhum motivo: pensando bem a vida o tratou muito bem, família, amigos, trabalho, era o tipo de homem, como dizem, satisfeito com o que tinha, e que sabia dar valor às coisas. Por exemplo, ele amava comer, sentar-se aqui nesta poltrona todas as noites e adormecer segurando o jornal, e amava especialmente aquelas suas óperas, que ouvia e cantava de manhã até a noite e, bem, às vezes nós achávamos que era um pouco exagerado, mas ficávamos de boca fechada, por que ele não poderia se divertir um pouco? Afinal, existem maridos cuja metade do salário vai embora na loteria esportiva e coisas do gênero, não perdem um jogo de futebol, e com ele eram as óperas. O senhor há de concordar que é um passatempo de gente culta. E também adorava divertir as pessoas, era o campeão das pegadinhas – campeão nada, rei. Talvez o senhor não acredite que naquela manhã, no máximo três horas antes da tragédia, ele estava fazendo uma omelete para as meninas e fingiu que engolia o azeite fervendo. Que susto nós levamos, até que começamos a rir. O que mais se pode dizer, meu senhor, cada pessoa é um enigma, até mesmo as mais próximas da gente.”
quarta-feira, 15 de julho de 2015
Tudo pó
"(...) Arquiteto, artista,
doutor,
profissões de mercado. Mas até os mercados passam. Tudo se esboroa, se
desfaz e volta
ao pó,
doutor,
profissões de mercado. Mas até os mercados passam. Tudo se esboroa, se
desfaz e volta
ao pó,
tudo isso é pó e volta ao pó. Se o teu filho realizar feitos
incríveis, encher toda
Bat Yam de orgulho e sua casa de fortuna,
fama e tudo o mais, e uma Mercedes também, e for ungido no
melhor dos
óleos, com o passar dos anos o pó tudo cobrirá.
O nome se apagará, o óleo secará e restará apenas o pó da
ferrugem, e também
esta vai se dispersar, afinal,
aos quatro ventos. Uma poeira esquecida, mãe, a poeira do
nada, invisível,
imperceptível, a poeira das casas
esquecidas, que existiram e desmoronaram, dunas de areia
varridas pelo vento,
pó voltando ao pó,
de um punhado de poeira cósmica se formou essa estrela, e para
um buraco
negro ela retorna.
Médico, arquiteto, a casa dos sonhos e tapetes luxuosos na
melhor área de Bat
Yam. Tudo pó.
Volte, descanse, minha mãe, depois das montanhas eu volto, e
você e eu nos esconderemos,
Não nos alcançará nem mesmo a nuvem, que existiu antes de
todo ser, e que
só ela, afinal, restará."
Amós Oz (1939-). O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 108-9
incríveis, encher toda
Bat Yam de orgulho e sua casa de fortuna,
fama e tudo o mais, e uma Mercedes também, e for ungido no
melhor dos
óleos, com o passar dos anos o pó tudo cobrirá.
O nome se apagará, o óleo secará e restará apenas o pó da
ferrugem, e também
esta vai se dispersar, afinal,
aos quatro ventos. Uma poeira esquecida, mãe, a poeira do
nada, invisível,
imperceptível, a poeira das casas
esquecidas, que existiram e desmoronaram, dunas de areia
varridas pelo vento,
pó voltando ao pó,
de um punhado de poeira cósmica se formou essa estrela, e para
um buraco
negro ela retorna.
Médico, arquiteto, a casa dos sonhos e tapetes luxuosos na
melhor área de Bat
Yam. Tudo pó.
Volte, descanse, minha mãe, depois das montanhas eu volto, e
você e eu nos esconderemos,
Não nos alcançará nem mesmo a nuvem, que existiu antes de
todo ser, e que
só ela, afinal, restará."
Amós Oz (1939-). O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 108-9
Maria também está perdida
"Maria também está perdida, vagueia entre mosteiros,
dorme, levanta, se arruma, às vezes com algum homem,
vão e vêm. Sua beleza fenece. No rosto,
rugas do sol, do vento e da geada. A terra prometida
desapareceu, ou foi somente uma miragem. O que ela deu
já tomaram, e o que restou se perderá.
A terra prometida é uma mentira. Não existe nenhum
Homem das Neves nos vales mágicos.
Só o mar ainda a espera, e o que não houve
se foi. Esta noite, com o jovem.
Amanhã, sozinha."
Amós Oz (1939-). O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 126
Homem das Neves nos vales mágicos.
Só o mar ainda a espera, e o que não houve
se foi. Esta noite, com o jovem.
Amanhã, sozinha."
Amós Oz (1939-). O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 126
domingo, 5 de julho de 2015
Os ombros de meu pai
"A energia de meu pai não faz nenhum efeito. Energia de um
pobre coitado.
Cansada, mortiça,
impotente. O que há nele, em vez disso, é um toque de
tristeza. Um ar de
resignação. Um judeu de meia-idade. Humilde cidadão. O que
poderá fazer e
acrescentar,
com suas débeis opiniões. E às vezes meu pai cita o versículo:
Assim como as fagulhas voam para o alto, o homem nasceu
para o trabalho.
Mas o que ele quer
me dizer com isso? Que eu voe para o alto? Que arranje um
emprego? Ou que
não lute em batalhas perdidas? A severidade de meu pai. Seus
ombros
derrotados.
Por causa deles parti. Para eles estou voltando."
pobre coitado.
Cansada, mortiça,
impotente. O que há nele, em vez disso, é um toque de
tristeza. Um ar de
resignação. Um judeu de meia-idade. Humilde cidadão. O que
poderá fazer e
acrescentar,
com suas débeis opiniões. E às vezes meu pai cita o versículo:
Assim como as fagulhas voam para o alto, o homem nasceu
para o trabalho.
Mas o que ele quer
me dizer com isso? Que eu voe para o alto? Que arranje um
emprego? Ou que
não lute em batalhas perdidas? A severidade de meu pai. Seus
ombros
derrotados.
Por causa deles parti. Para eles estou voltando."
Amós Oz (1939-). O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 89
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Que mal eu te fiz?
"Dubi Dombrov – acorda às dez da manhã, suado, tonto e
sombrio,
vai ao banheiro dar uma mijada, as pálpebras ainda coladas,
depois abre a
torneira e lava-se em água fria.
Pensa em fazer a barba. Desiste. Veste a mesma camisa
cheirando a azedo do dia anterior e
vai aos trancos e apalpadelas até a cozinha fazer café.
Ao pegar no escorredor uma xícara limpa, uma aranha foge
rápida. Ora, por quê?
O que que há? O que foi que eu fiz? Que mal eu te fiz? Por que
até você foge
de mim?"
sombrio,
vai ao banheiro dar uma mijada, as pálpebras ainda coladas,
depois abre a
torneira e lava-se em água fria.
Pensa em fazer a barba. Desiste. Veste a mesma camisa
cheirando a azedo do dia anterior e
vai aos trancos e apalpadelas até a cozinha fazer café.
Ao pegar no escorredor uma xícara limpa, uma aranha foge
rápida. Ora, por quê?
O que que há? O que foi que eu fiz? Que mal eu te fiz? Por que
até você foge
de mim?"
Amós Oz. O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 65
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