quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Ainda estás aqui

"Lança teu medo
aos ares

Em breve
acaba teu tempo
em breve
cresce o céu
sob a grama
despencam teus sonhos
nenhures

Ainda
cheira o cravo
canta o melro
ainda tens um amante
e palavras para doar
ainda estás aqui

Sê o que és
Dá o que tens"


Rose Ausländer (1901-1988). Ainda estás aqui. In: modo de usar & co. (blog)

seu desejo de vencer

"Ele provavelmente hoje descreveria o seu desejo de vencer como apenas uma preferência, nada mais. O curioso é que o seu jogo parece ter melhorado um pouquinho nos dois anos depois que ele deixou de ligar tanto. É como se o seu estilo duro e seco não tivesse mais nenhum outro objetivo além de si próprio e tivesse começado a se alimentar de si próprio e ficado mais cheio, mais livre, com arestas menos ásperas (...). 

Como quase todos os homens muito grandes, ele está ficando confortável cedo com o fato de que o seu lugar no mundo é bem pequeno e o seu real impacto nas pessoas é ainda menor."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 274; 276

Perda

"Gately vive sentindo uma terrível noção de perda, narcoticamente falando, de manhã, ainda, mesmo depois de tanto tempo limpo. O padrinho dele lá no Grupo Bandeira Branca diz que tem gente que nunca se recupera da perda daquilo que eles achavam que era o seu único melhor amigo e amante; eles simplesmente têm que rezar diariamente pedindo aceitação e colhões de aço pra seguir adiante e passar pela dor e pela perda, pra esperar até que o tempo endureça bem a casca da ferida. O padrinho, Francis Furibundo G., não enche nem por um átimo o saco de Gately por ele sentir uns sentimentos negativos sobre isso tudo: pelo contrário, ele elogia Gately pela sua sinceridade ao desmontar e chorar que nem um bebê e falar tudo numa manhã bem cedo no telefone público, da sensação de perda. É um mito isso de que ninguém sente falta. Da Substância particular de cada um. Caralho, você não ia precisar de ajuda se não sentisse falta."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 280-1

algo diferente de fracasso



"Até onde Schacht vê, a postura filosófica de Schitt é que para ganhar um número suficiente de vezes para ser considerado um sucesso você tem tanto que ligar muito para aquilo tudo quanto não ligar nada. Schacht não liga o bastante, provavelmente, não mais, e encarou o seu gradual afastamento da equipe A de simples da ATE com uma equanimidade que alguns dos ATEs acharam espiritual e outros o mais claro sinal de bunda-molice e de fim-de-linha. (...) Hal de um jeito esquisito e interno quase meio que admira e inveja Schacht ter se entregado estoicamente às profissões orais e parado de sonhar com chegar ao Circuito depois de se formar – um ar de algo diferente de fracasso no desligamento de Schacht, algo que não se pode definir direito, como você não consegue lembrar direito uma palavra que você sabe que sabe, por dentro – Hal não consegue sentir direito o desprezo pela queda competitiva de Teddy Schacht que seria um desprezo basicamente natural em alguém que ligasse tão tremendissimamente tanto, e assim os dois tendem a se decidir por não falar do assunto (...)".

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 277-8

No AA de Boston



"O Bandeira Branca é uma das reuniões do AA da região que a Ennet exige que seus residentes frequentem. Você tem que ser visto numa reunião do AA ou do NA todas as noites da semana ou tchau, sem mais. Um funcionário da Casa tem que acompanhar os residentes quando eles vão às reuniões determinadas, para eles poderem ser oficialmente vistos lá. Os conselheiros dos residentes da Casa sugerem que eles sentem bem na frente do salão onde possam ver os poros do nariz do orador e tentar se Identificar em vez de Comparar. De novo, 'Identificação' significa empatia. Identificar-se, a não ser que você esteja decidido a se Comparar, não é uma coisa muito difícil, aqui. Porque se você senta bem na frente e presta bastante atenção, todas as estórias de declínio, queda e rendição dos oradores são essencialmente iguais, e iguais à sua: prazer com a Substância, aí muito gradualmente menos prazer, aí um prazer significativamente menor por causa dos pequenos apagões em que você de repente acorda no meio da estrada andando a 145 Km/h acompanhado de pessoas que não conhece, noites em que você acorda numa roupa de cama estranha ao lado de alguém que nem se assemelha a qualquer espécie conhecida de mamífero, apagões de três dias de que você sai e precisa comprar um jornal até para saber em que dia está; sim aos poucos um prazer cada vez menor mas com certa necessidade física da Substância agora, em vez do antigo prazer voluntário; aí num dado momento de repente simplesmente pouquíssimo prazer, combinado com uma terrível necessidade cotidiana que te põe as mãos tremendo, aí o pavor, a angústia, fobias irracionais, vagas lembranças de prazer que parecem sirenes, problemas com vários tipos de autoridades, dores de cabeça de agarrar os joelhos, leves convulsões e a litania do que o AA de Boston chama de Perdas... (...) – aí mais Perdas, com a Substância parecendo ser o único consolo para a dor das Perdas que se acumulam, e claro que você fecha os olhos para o fato de que é a Substância que está causando essas mesmas Perdas de que ela te consola –".

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 355-6

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Vício

"...um paradoxo pouco mencionado do vício em Substâncias é: que assim que você fica suficientemente escravizado por uma Substância para precisar largar a Substância para salvar sua vida, a Substância escravizadora se tornou algo tão profundamente importante para você que você vai praticamente enlouquecer quando ela for tirada de você. Ou que algum tempo depois que a sua Substância escolhida foi simplesmente tirada de você para salvar a sua vida, enquanto você se abaixa para as orações matutinas e vespertinas exigidas, você vai se perceber começando a rezar para literalmente perder a cabeça, ser capaz de embrulhar a sua cabeça num jornal velho ou alguma coisa assim e deixá-la num beco para se virar sozinha, sem você."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 208

Atormentado amor


"Molly Notkin vive se abrindo ao telefone com Joelle van Dyne sobre o único e atormentado amor de toda a vida de Notkin até aqui, um eroticamente circunscrito estudioso de G. W. Pabst da New York University, torturado pela neurótica convicção de que há um número finito de ereções possíveis no mundo num dado momento e de que a tumescência dele representa p. ex. a detumescência de algum fazendeiro de sorgo do Terceiro Mundo, quiçá mais merecedor ou torturado, ou coisa assim, de modo que sempre que ele tumesce ele sofre a mesma espécie de culpa que uma pessoinha doutorada menos excentricamente torturada sofre diante da ideia de, digamos, usar um casaco de pele de bebê-foca. Molly ainda pega o trem de alta velocidade para visitá-lo a cada quinze dias, para estar ao lado dele caso por algum acaso egoísta ele calhe de endurecer, o que gera nele ondas negras de repulsa por si próprio e uma extrema carência de compreensão e amor tolerante."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 227

Debilitantemente Fóbica


"Os seguranças explicam que a senhorinha não é catatônica no sentido estrito de 'catatônico' mas sim 'DF', que é gíria de instituição de saúde mental para 'Debilitantemente Fóbica'. O barato dela aparentemente é que ela está quase psicoticamente apavorada com a possibilidade de estar ou cega ou paralisada ou as duas coisas. Então p. ex. ela fica de olhos fechados 24 horas por dia 7 dias por semana 365 dias por ano por causa do raciocínio de que enquanto ela ficar de olhos bem fechados ela pode viver com a esperança de que se decidir abri-los vai conseguir enxergar, eles dizem; mas que se ela um dia decidisse abrir mesmo os olhos e não conseguisse ver mesmo, raciocina ela, ela teria perdido aquela preciosa tipo margem de esperança de que talvez ela não estivesse cega. Aí eles repassam o raciocínio similar dela de ficar absolutamente imóvel por causa de uma fobia de estar paralisada."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, nota 67, p. 1024

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Toque as coisas com consideração e elas serão suas



"Ela nunca... nunca viu que Marlon Brando se percebia tão agudamente enquanto corpo que 'não precisava' de modos. Ela nunca viu que daquele jeito entre aspas descuidado ele na verdade tocava de fato tudo que tocava como se fosse parte dele. Do seu próprio corpo. O mundo que ele só parecia tratar com rispidez era para ele uma entidade dotada de sentidos, sensibilidade. E ninguém... e ela nunca entendeu isso. (...). Ela nunca viu que o Brando estava jogando o equivalente de uma boa partida de tênis de alto nível em estúdios de costa a costa, Jim, era o que ele estava fazendo de verdade. Jim, ele se mexia que nem um alevino descuidado, um grande músculo, musculosamente naïf, mas sempre, veja bem, um alevino no centro de uma corrente límpida. Aquele tipo de graça animal. O filho da mãe não desperdiçava 'um' gesto, era isso que fazia aquilo virar arte, esse des-cuidado abrutalhado. O lema dele era o de um tenista: toque as coisas com consideração e elas serão suas; você vai mandar nelas; elas vão se mexer ou ficar paradas ou se mexer pra você; elas vão se recostar e abrir as pernas e entregar as suas suturas mais íntimas a você. Vão te ensinar todos os truques que elas conhecem. Ele sabia o que os beatniks sabem e o que o grande jogador de tênis sabe, filho: aprenda a fazer nada, com a tua cabeça inteira e com o corpo, e tudo vai ser feito pelo que está em volta de você. Eu sei que você não está entendendo. Ainda. Eu conheço essa cara boquiaberta. Eu sei muitíssimo bem o que isso quer dizer, filho. Não faz mal. Você vai entender. Jim, o que eu sei eu sei."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 163

Você é um corpo


"Filho, você está com dez anos, e isso não é uma notícia mole pra alguém de dez anos, mesmo que você tenha quase um metro e oitenta, uma possível aberração pituitária. Filho, você é um corpo, filho. Essa cabecinha rápida de prodígio-científico que deixa tua mãe tão orgulhosa que não para de matraquear: filho, são só espasmos neurais, essas ideias na tua cabeça são só o barulho do teu cérebro em ponto morto, e cabeça ainda é só corpo, Jim. Guarde isso de cor. Cabeça é corpo. Jim, se segure aqui no meu ombro pra esta notícia dura pros teus dez anos: você é uma máquina um corpo um objeto, Jim, tanto quanto esse rutilante Montclair, aquela mangueira enrolada ali ou aquele rastelo ali pras pedrinhas da entrada ou santo Deus aquela aranha horrível e gorda se esticando na teia mais ali bem pertinho do cabo do rastelo, está vendo? Está vendo? 'Latrodectus mactans', Jim. Viúva. Pegue essa raquete aqui e se mexa com graciosidade e consciência até ali e mate aquela viúva pra mim, meu jovem Jim. Anda. Faz ela abrir o bico. Não faça prisioneiros. Meu garoto. Um brinde a uma área desaranhificada da garagem comunitária. Ah. Corpos por todo canto. Uma bola de tênis é o corpo definitivo, garoto. A gente está chegando ao ponto crucial do que eu tenho que tentar te comunicar antes da gente ir lá fora e começar a dar vazão a esse teu potencial medonho. Jim, uma bola de tênis é o corpo definitivo. Perfeitamente redonda. Distribuição equilibrada de massa. Mas vazia por dentro, totalmente, um vácuo. Suscetível a caprichos, efeitos, a força – usada bem ou mal. Ela vai refletir o teu caráter. Pegue ali uma bolinha naquele cesto de roupa suja barato de plástico verde que eu deixo ali perto dos maçaricos de propano e uso pra treinar um saque de vez em quando, Jimbo. Maravilha. Agora olhe a bola. Sopese. Sinta o peso. Aqui, deixa eu... rasgar assim pra... abrir. Ufa. Viu? Nada além de um ar evacuado aqui dentro com o cheiro de algum inferno de látex. Vazio. Puro potencial. Perceba que eu rasguei aqui na sutura. É um corpo. Você vai aprender a tratar essa bola com consideração, filho, alguém até pode dizer um tipo de amor, que ela vai se abrir para você, fazer o que você pede, estar à tua doce disposição amorosa."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 165

Luta insana



"Tá mas só que como é que eu posso responder só sim ou não se eu quero parar com a coca? Se eu acho que eu quero com certeza eu acho que eu quero. Eu não tenho mais septo. A coca tipo dissolveu a porra do meu septo. Ó. Dá pra ver algum septo quando eu ergo assim? Eu com certeza do fundo do meu coração eu achei que eu queria parar e tal e coisa. Desde isso do septo. Aí mas aí se eu queria parar esse tempo todo, por que é que eu não consegui parar? Está vendo o que eu estou te dizendo? Não é tudo uma questão de querer e coisa e tal? E tal e coisa? Como é que pode isso de morar aqui e ir nas reuniões e tudo isso não me fazer querer parar? Mas eu acho que eu já posso parar. Como é que eu ia estar aqui se eu não quisesse parar? Eu estar aqui já não é uma prova que eu quero parar? Mas aí então como é que pode que eu não consigo parar, se eu quero parar, aí é que está."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p.185

Eu não posso negar o que eu não entendo


"Eu não estou 'negando' nada. Eu só estou pedindo pra você definir 'alcoólico'. Como é que você pode pedir pra eu me atribuir uma palavra se você se recusa a definir o significado da palavra? Eu trabalho defendendo vítimas de danos morais, com um sucesso razoável há dezesseis anos, e a não ser por aquela ridícula suposta convulsão no jantar da Ordem dos Advogados esse ano e aquele besta daquele juiz me banir do tribunal quando ele estiver presidindo – e deixa só eu te dizer aqui que eu sustento a minha afirmação de que o sujeito se masturba por baixo da toga atrás da mesa com depoimentos 'detalhados' tanto de colegas quanto de empregados da lavanderia dos tribunais – exceto por uns poucos incidentes eu segurei a bebida e mantive a minha cabeça tão erguida quanto a de muito advogado mais graúdo que eu. Pode acreditar. E a senhora, minha jovem, tem quantos anos? Eu não estou 'em negação', pra falar de alguma coisa empírica e objetiva. Eu estou com problemas no pâncreas? Estou. Eu tenho dificuldade pra lembrar certos intervalos das administrações de Kemp e Limbaugh? Nem contesto. Existe uma pequena turbulência doméstica na questão da minha ingestão de álcool? Ora, sim, com certeza. Por acaso senti uma certa formigação na minha desintoxicação? Senti. Eu não tenho problemas em admitir sem rodeios as coisas que eu consigo entender. For'm'i'g'ação, com 'm' e 'g', isso mesmo. Mas que coisa é essa que você exige que eu admita? Será que é 'negação' postergar o momento da assinatura até que o vocabulário do contrato esteja claro para todas as partes ali comprometidas? Isso mesmo, isso mesmo, você não está entendendo o que eu estou dizendo aqui, muito bem! E você não pretende seguir em frente sem pedir esclarecimentos. Caso encerrado. Eu não posso negar o que eu não entendo. Essa é a minha posição."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p.183

É assim



"É assim que você recusa um encontro extramuros pra não ser mais convidado. Diga alguma coisa tipo Eu lamento muito não poder sair pra ver o relançamento de 8 e 1/2 ['Oito e meio', filme de Fellini] num monitor gigante no Festival do Celuloide de Cambridge nesta sexta, Kimberly, ou Daphne, mas é que, sabe, se eu pular corda duas horas e daí correr de ré por Newton até vomitar eles me deixam assistir cartuchos de jogos e aí a minha mãe lê o OED em voz alta pra mim até a hora de apagar as luzes às 2200, & c.; aí você pode ter certeza de que dali em diante Daphne/Kimberly/Jennifer vai esticar as suas anteninhas pra outro lado em busca de socialização-ritual-tipo-dança-e-namoro-adolescente. Fique alerta. A estrada se alarga e muitos desvios são sedutores. Esteja constantemente concentrado e atento: o talento selvagem é o seu próprio conjunto de expectativas e pode te abandonar em qualquer um dos desvios da chamada vida americana normal a qualquer momento, então fique 'alerta'. (...)

É assim que você passa pelo seu crescimento adolescente e sente cada membro do corpo doer como uma enxaqueca porque grupos escolhidos de músculos foram exercitados até ficarem espessos e intênseis e resistem no que o crescimento dos ossos tenta esticá-los, e eles doem o tempo todo. Existe medicação pra essa situação. (...)

É assim que você lê os rankings mensais da ATE e da ATEU e da ATONAN (...). A ideia dos rankings é ajudar a determinar onde você está, não quem você é. Decore os seus rankings mensais, depois esqueça. É assim, ó: nunca diga a ninguém onde você está. 

E também é desse jeito que você deixa de ter medo de dormir ou de sonhar. Nunca diga a ninguém onde você está. Por favor aprenda a pragmática da manifestação do medo: às vezes palavras que parecem exprimir na verdade 'invocam'."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p.181

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Esperando a maconha



"Ler enquanto esperava a maconha estava fora de cogitação. Ele considerou a ideia de se masturbar, mas não se masturbou. Nem chegou tanto a rejeitar a ideia, foi mais que não reagiu a ela e ficou olhando ela ir embora boiando. Ele pensou muito generalizadamente em desejos e ideias que eram observados, mas que não levavam à ação, pensou em impulsos que morriam de fome por falta de expressão e secavam e saíam boiando secos...".


David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 31

Cair de novo



"São as manhãs depois dos sonhos com aranhas e alturas que doem mais, quando às vezes são necessários três cafés e dois banhos e às vezes uma corrida para afrouxar a mão que lhe aperta a garganta da alma; (...) essas manhãs mais negras abrem dias em que Orin por horas a fio mal consegue imaginar como é que ele há de chegar ao fim do dia. (...) – a certeza que a alma tem de que o dia terá não que ser atravessado mas como que escalado, verticalmente, e de que ir dormir de novo no fim do dia vai ser como cair, de novo, de algum lugar alto e íngreme."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 51

cacos e beleza


"...Schtitt lidava com o tênis competitivo mais como um matemático puro do que como um engenheiro. A maioria dos técnicos de tênis juvenil é basicamente de engenheiros, uns nerdzinhos práticos mão-na-massa, resolvedores-de-problemas tipo-trator, obcecados por dados estatísticos, com de repente uma quedinha a mais por psicologia de curto prazo e discursos motivacionais. (...) Schtitt sabia que o tênis de verdade não era a mistura de organização estatística e potencial expansivo que os engenheiros do jogo reverenciavam, mas na verdade o contrário – 'não' organização, 'limite', os lugares em que as coisas se rompem em cacos e beleza. (...) infinidade de infinidades de escolha e execução, limitada pelo talento e pela imaginação do eu e do adversário, recurvada sobre si própria pelas fronteiras delimitadoras da habilidade e da imaginação que derrubavam finalmente um dos jogadores, que evitavam que ambos vencessem, que faziam daquilo, finalmente, um jogo, essas fronteiras do eu."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 86-7

Impulso estranho

"Olhei pela janela. O sol brilhava e os lojistas tinham saído para se aquecer na calçada e ver o movimento. Mas por que estavam cobrindo os ouvidos com as mãos? E por que os passantes corriam pela rua como se perseguidos por um espectro monstruoso? Logo tudo voltou ao normal: o incidente foi apenas um momento de loucura em que as pessoas não suportaram mais as frustrações de suas vidas e cederam a um impulso estranho."

Lydia Davis. Tipos de perturbação - Ficções. São Paulo: Companhia das Letras

Talento ilimitado



"A Fragata Millicent Kent contou ao Mario que embora reconhecesse ser uma grande jogadora, c/ um atordoante estilo arraste-o-caveirão-para-a-rede-e-cresça-como-um-titã-pra-cima-da-adversária na tradição do jogo de força de Betty Stove/Venus Williams, e destinada a um futuro quase ilimitado no Circuito, ela ia confiar a ele aqui em segredo que ela nunca gostou de verdade do tênis competitivo, que o seu verdadeiro amor e paixão era a dança interpretativa moderna, atividade para a qual ela admitia ter dons e talentos menos inconscientemente naturais a empregar, mas que adorava, e que tinha passado praticamente cada minuto seu fora de quadra quando menininha treinando de malha justa na frente de um espelho extralargo no quarto dela em casa na pacata Montclair, NJ, mas que o tênis era onde ela tinha um talento ilimitado e ganhava afagos psíquicos e ofertas de bolsas em internatos...".

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 128-9

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

The sense of an ending



"Later on in life, you expect a bit of rest, don't you? You think you deserve it. I did, anyway. But then you begin to understand that the reward of merit is not life's business."

Julian Barnes (1946-). The sense of an ending. New York: Vintage Books, 2012, p. 65

Fear


"I had a friend who trained as a lawyer, then became disenchanted and never practised. He told me that the one benefit of those wasted years was that he no longer feared either the law or lawyers. And something like that happens more generally, doesn't it? The more you learn, the less you fear. 'Learn' not in the sense of academic study, but in the practical understanding of life."

Julian Barnes (1946-). The sense of an ending. New York: Vintage Books, 2012, p. 91

Life story



"How often do we tell our own life story? How often do we adjust, embellish, make sly cuts? And the longer life goes on, the fewer are those around to challenge our account, to remind us that our life is not our life, merely the story we have told about our life. Told to others, but – mainly – to ourselfes."

Julian Barnes (1946-). The sense of an ending. New York: Vintage Books, 2012, p. 104

Things OK



"When you're young – when I was young – you want your emotions to be like the ones you read about in books. You want them to overturn your life, create and define a new reality. Later, I think, you want them to do something milder, something more practical: you want them to support your life as it is and has become. You want them to tell you that things are OK. And is there anything wrong with that?"

Julian Barnes (1946-). The sense of an ending. New York: Vintage Books, 2012, p. 121

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

No meio desse fluir


"Cada estação traz mudanças distintas às plantas e aos animais que cercam o rio. Nuvens de todos os tamanhos aparecem e se movem, e a superfície do rio, iluminada pelo sol, reflete essas formas brancas conforme vêm e vão, às vezes de um modo fiel, às vezes distorcido. Sempre que mudam as estações, a direção do vento oscila como se alguém houvesse apertado um interruptor. E corredores conseguem detectar cada detalhe na mudança sazonal quando o vento toca em nossa pele, no cheiro e na direção do vento. No meio desse fluir, tenho consciência de mim mesmo como uma minúscula peça no gigantesco mosaico da natureza. Sou apenas um fenômeno natural substituível, como a água do rio que corre sob a ponte na direção do mar."

Haruki Murakami (1949-). Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 81

Pontos positivos


"Dezesseis é uma idade intensamente problemática. Você se preocupa com coisas ínfimas, não consegue se situar de uma forma objetiva, torna-se proficiente em habilidades estranhas e sem sentido e é subjugado por complexos inexplicáveis. À medida que fica mais velho, porém, por meio de tentativa e erro você aprende a conseguir o que precisa, e a jogar fora o que deve ser descartado. E começa a reconhecer (ou a se resignar) que, uma vez que suas falhas e deficiências são bem próximas do infinito, é melhor você procurar os pontos positivos e aprender a se virar com o que tem."

Haruki Murakami (1949-). Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 129

domingo, 18 de janeiro de 2015

O que não temo


"– Você me fez confessar os temores que tenho. Mas eu também vou lhe contar o que eu não temo. Eu não temo ficar sozinho nem ser espezinhado pelos outros nem ter de deixar para trás o que quer que eu tenha que deixar para trás. E não tenho medo de cometer um erro, nem mesmo um grande erro, um erro que dure para a vida inteira e talvez por toda a eternidade."

James Joyce (1882-1941).
Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 305

Competição


"...por algum motivo, nunca me importei muito se derroto os outros ou se perco deles. Esse sentimento permaneceu um tanto inalterado depois que cresci. Não faz diferença o campo de atuação – derrotar alguém simplesmente não é meu barato. interesso-me muito mais por atingir os objetivos que fixei para mim mesmo...".

Haruki Murakami (1949-).
Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 15

A essência de correr


"As pessoas às vezes zombam de quem corre todo dia, alegando que é uma tentativa desesperada de viver mais. Mas não acho que esse seja o motivo pelo qual a maioria corre. A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo. Se você quer desfrutar os anos, é muito melhor vivê-los com objetivos claros e plenamente vivo do que numa bruma, e acredito que correr ajude a fazer isso. Forçar a si mesmo ao máximo dentro de seus limites individuais: essa é a essência de correr, e uma metáfora aplicável à vida – e, para mim, ao ato de escrever, também. Acredito que muitos corredores concordariam."

Haruki Murakami (1949-). Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 73

Este é meu corpo


"Este é meu corpo, com todas as suas limitações e idiossincrasias. Assim como meu rosto, mesmo que eu não goste, é o único que tenho, então preciso me virar com ele mesmo. À medida que envelheço, naturalmente fico resolvido em relação a isso. Você abre a geladeira e pode preparar uma boa – na verdade, até uma deliciosa – refeição com as sobras. Tudo que resta ali são uma maçã, uma cebola, queijo e ovos, mas não dá para se queixar. Precisa se virar com o que tem. À medida que envelhece você aprende até mesmo a ser feliz com o que tem. Essa é uma das poucas vantagens de envelhecer."

Haruki Murakami (1949-).
Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 76

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Confissão

"– Quanto tempo passou desde a sua última confissão, meu filho?
– Muito tempo, padre.
– Um mês, meu filho?
– Mais, padre.
– Três meses, meu filho?
– Mais, padre.
– Seis meses?
– Oito meses, padre.
Havia começado. O padre perguntou:
– E o que você recorda desde então?
Começou a confessar os pecados: missas perdidas, orações não feitas, mentiras.
– Mais alguma coisa, meu filho?
Pecados de raiva, de inveja dos outros, de gula, de vaidade, de desobediência.
– Mais alguma coisa, meu filho?
– Preguiça.
– Mais alguma coisa, meu filho?
Não havia como escapar. Ele murmurou:
– Eu... cometi pecados de impureza, padre.
O padre não virou a cabeça.
– Sozinho, meu filho?
– E... com outras pessoas.
– Mulheres, meu filho?
– Sim, padre.
– Eram mulheres casadas, meu filho?
Ele não sabia. Os pecados pingaram-lhe dos lábios um por um, pingaram em gotas vergonhosas daquela alma que supurava e escorria como úlcera, um sórdido fluxo de vício. Os pecados escorreram, vagarosos, imundos. Ainda havia o que contar. Ele baixou a cabeça, vencido."

James Joyce (1882-1941). Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 175-6

Coração selvagem

"Estava sozinho. Estava despreocupado, feliz e próximo ao coração pulsante da vida. Estava sozinho e era jovem e caprichoso e tinha o coração selvagem, estava sozinho em meio a uma desolação de brisas ingovernáveis e águas salgadas e à colheita marinha de conchas e emaranhados e luz cinzenta e velada do sol..."

James Joyce (1882-1941).
Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 208