sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Pessoas habitadas

"...pessoas habitadas são aquelas possuídas, de fato, por si mesmas, em diversas versões. Os habitados estão preenchidos de indagações, angústias, incertezas, mas não são menos felizes por causa disso. Não transformam suas 'inadequações' em doença, mas em força e curiosidade. Não recuam diante de encruzilhadas, não se amedrontam com transgressões, não adotam as opiniões dos outros para facilitar o diálogo. São pessoas que surpreendem com um gesto ou uma fala fora do script, sem nenhuma disposição para serem bonecos de ventríloquos. Ao contrário, encantam pela verdade pessoal que defendem. Além disso, mantêm com a solidão uma relação mais do que cordial."

Martha Medeiros

Fonte: Jornal O Globo [
http://essenciaunica.wordpress.com/]

O alienista


"...era difícil imaginar mais racional sistema terapêutico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a perfeição moral que em cada um deles excedia às outras, Simão Bacamarte cuidou em atacar de frente a qualidade predominante. Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento oposto; e não ia logo às doses máximas, – graduava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posição social do enfermo. Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções honoríficas, etc."

Machado de Assis (1839-1908).
O alienista (1882). São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2014, p. 83

Polidez

"Era um rapaz de trinta anos, amável, conversado, polido, tão polido que não cumprimentava alguém sem levar o chapéu ao chão; na rua, acontecia-lhe correr uma distância de dez a vinte braças para ir apertar a mão a um homem grave, a uma senhora, às vezes a um menino, como acontecera ao filho do juiz de fora. Tinha a vocação das cortesias."

Machado de Assis (1839-1908).
O alienista (1882). São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2014, p. 48

A visita do Governador Geral


"Por esta época Sua Excelência, o Governador Geral Clarimundo Ladisbão, senhor absoluto da Província e que corria seus domínios seguido de grande comitiva, veio dar a Ouro Preto, o que foi ensejo de grandes festejos públicos, com graves prejuízos para os cofres municipais. Várias obras que se arrastavam pelos anos afora foram rapidamente ultimadas para que o senhor Governador as inaugurasse, apressou-se a formatura dos estudantes para que o senhor Governador a paraninfasse e o Prefeito chegou mesmo a sugerir que se realizassem logo as célebres festividades da Semana Santa para que o senhor Governador delas participasse – o que infelizmente não foi possível, dada a peremptória recusa da Cúria local."

Fernando Sabino (1923-2004).
O Grande Mentecapto (1979). Rio de Janeiro: Record, 1980, p. 65.

Viramundo


"Sabido é que a primeira notícia existente sobre Geraldo Viramundo se refere à sua estada na cidade de Ouro Preto, já com 28 anos, isto é, dez anos depois de ter deixado Mariana. Ora, por mais longa que seja a estrada que liga as duas cidades, não há possibilidade de alguém levar dez anos para percorrê-la, a menos que adote o sistema que se tornou efetivo na administração pública de minha terra por tantos anos: um passo para a frente e dois para trás. Há quem diga que Viramundo passou esses anos às margens e ao longo da própria estrada, sempre desejoso de partir, nunca desejoso de chegar, vivendo como um anacoreta, de raízes, frutos silvestres, eventualmente de esmolas, vestindo peles de animais e afastado do convívio dos homens. Mas é uma hipótese meramente romântica, aventada pelos que tentam fazer de Viramundo apenas um místico, um vagabundo, ou ambas as coisas. (...). Na realidade, quem fosse viver na minha terra de frutos silvestres e vestir-se de peles de animais andaria nu e morreria de fome. Quanto à alternativa das esmolas, esta se destrói ante a rigorosa tradição mineira de não propiciá-la senão na forma de promissórias devidamente avalizadas."

Fernando Sabino (1923-2004). O Grande Mentecapto (1979). Rio de Janeiro: Record, 1980, p. 59

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

No chão agora


Ainda dá tempo. Dar fim à vida.  Um tiro nos miolos. Pular de cabeça num precipício. Ficar exposto à força da natureza em meio a uma grande tempestade. Ou deixar a vida fluir. Acontece que Miguel não suporta o viver. Está no seu limite. No limiar do nada. Ou da loucura. Pesadelos, sonhos, terror. Assim se revela a maior parte dos personagens de Flávio Marcus da Silva nos contos, crônicas, poemas de seu último livro “No chão agora”. Literatura de primeira grandeza! Se eu fosse especialista na teoria da literatura até faria um comentário teórico, dentro de todas as regras. Entretanto ainda não sou capaz de fazer isso...  O que posso dizer é que gosto dos escritos de Flávio Marcus porque gosto. Ponto. Entretanto, quero apontar alguns fatos que me chamaram mais atenção na leitura de seu livro: 
1 - A perspicácia de Flávio Marcus em desenhar o pensamento do outro. (Serão os seres humanos tão semelhantes em si no pensar? Indago.) No conto “Fogo de palha” ele deixa isso bem nítido: “Na cabeça de Rita o pai consentiu, a menina levou o cãozinho e cuidou muito bem dele, amou-o como se ama a um filho. Que lindo! Só que isso não aconteceu. O cãozinho continuou abandonado, perdido, triste, morrendo de fome. Rita foi embora por outro caminho, sem olhar para trás, com a consciência tranquila, feliz pelo desfecho que imaginou e que, na sua cabeça, era o real. ‘Que bom que deu tudo certo para ele’, pensou.” (p. 12)
2 - Poderia dizer que o livro é um registro histórico. Os cenários descritos nos 32 textos reproduzem de modo primoroso o viver do povo da nossa cidade, do nosso país, neste ano de 2014. Na cidade, a falta de água. As dificuldades pelas quais as pessoas estão passando, a mudança na rotina diária na casa e no trabalho. Não há em nossa lembrança tempo de tanta escassez de água e de falta de chuvas na região de Pará de Minas. E os pernilongos que não permitem que as pessoas durmam em paz? Pernilongos não chegam a ser novidade. Surgem a cada ano e nos incomodam, no entanto, por períodos mais curtos. Mas incômodos juntados deixam as pessoas ao limiar da desesperança: “Três e meia da madrugada./ Atento, escuto:/ Duas bombas vizinhas levam água das caixas reserva para/ as principais, /meu filho ronca, /Os pernilongos infernizam, sibilantes, /implacáveis,/ E essas vozes, que eu não sei... / não sei... Acho que enlouqueci.”/ (No poema “Insônia e pernilongos’) (p.65).
3 - A crítica social se faz presente em cada texto que compõe “No chão agora”. Arrisco a dizer que também faz parte do que ouso chamar de registro histórico. Seja de modo explícito, seja de maneira irônica: a Copa do Mundo realizada neste ano; a situação política e social do país; as diferenças de classe, as injustiças, a deficiência da Educação, o uso excessivo e fútil das redes sociais virtuais. A hipotética “liberdade” da imprensa, que até hoje impõe ao povo a voz do poder dominante. 
4 - A multiplicidade de vozes que se contrastam. Percebo que narradores e personagens têm opinião própria. Cada um diz o que quer, sem deixar claro a interferência do ponto de vista do autor. Notei que o autor até deixa uma dica no poema “Dois modos”: “dois modos de ver dois modos de viver/ há outros/ felizmente”/. (p.36) Em outros textos também encontro exemplos desse fato: em “Sucesso é ser feliz” (p.41) vemos a diferença dos quereres dos pais em relação à educação tecnológica e futurística que almejam para o filho e a simplicidade do desejo do filho, que apenas quer ser feliz. No texto “Caminhos”, a voz do pai que fala do filho é de compreensão: “Hoje sei que meu filho é um vencedor. Venceu preconceitos e seguiu seu caminho, impulsionado pelo destino, fiel a si mesmo. Poucos podem dizer que venceram na vida como ele. Eu não posso. Mas estou feliz por ele.” (p.81). Já no conto “Meu filho não deu em nada”, o pai lamenta que o filho “não prestou para futebol judô coisas de macho não prestou para advogado médico engenheiro administrador – pra nada” (p.19). Na verdade, no decorrer da leitura do conto ficamos sabendo que o moço trabalha e muito naquilo que ama: “livros poesias contos peças de teatro esculturas enfeites”. E mais: tem uma namorada e dinheiro suficiente para comprar uma casa do jeitinho que querem e para a viagem que planejam a Amsterdã.
5 - O texto que encerra o livro e também lhe serve de título “No chão agora” traz em sua última linha um suspiro de gratidão: “Obrigado Deus por eu me saber e amar ser tão pequeno.” Seria a redenção do homem após tantas agruras sofridas pelo narrador ou personagens dos outros escritos...
E então? É ler para ter o prazer da literatura em “No chão agora”, de Flávio Marcus da Silva, publicado pela Virtual Books, Pará de Minas, em setembro de 2014.

Terezinha Pereira

sábado, 18 de outubro de 2014

Individualidade


"...há apenas um caso em que o homem é capaz de, proposital e conscientemente, desejar para si algo até mesmo nocivo, idiota, até mesmo idiotíssimo, e é precisamente quando quer defender o direito de desejar para si mesmo algo idiotíssimo e não ficar obrigado a desejar para si apenas o que é inteligente. Isso é a suprema idiotice, isso é um capricho pessoal e, na verdade, senhores, pode ser o que de mais vantajoso haja na Terra para os nossos semelhantes, principalmente em certos casos. E, particularmente, pode ser mais vantajoso do que todas as vantagens, mesmo no caso de nos causar um mal indiscutível e de contradizer as conclusões mais corretas de nossa razão quanto a vantagens – porque pelo menos conserva para nós o mais importante e o mais caro, ou seja, nossa personalidade e nossa individualidade."
Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Notas do subsolo (1864). Porto Alegre: L&PM, 2012, p. 39

uma calma que consola


"...mais adiante, no imenso círculo, havia grandes estátuas brancas de rainhas e de outras nobres damas de França, e, ainda mais adiante, no gramado entre as árvores, em todas as direções do parque, esculturas de poetas, de pintores, de sábios; (...) Ramon não pôde conter um sorriso e continuou seu passeio naquele jardim de gênios que, modestos, cercados pela gentil indiferença dos passantes, deviam se sentir agradavelmente livres; ninguém parava para observar o rosto deles ou ler as inscrições nos pedestais. Essa indiferença, Ramon a respirava como a uma calma que consola. Pouco a pouco, um largo sorriso quase feliz apareceu em seu rosto."
Milan Kundera (1929-). A festa da insignificância (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 11-12

Benjamim


"...segue até a avenida à beira-mar, saúda sem resposta os operários encostados num tapume, e afunda na areia os pés cheios de bolhas. Molha as canelas e procura avistar as ilhas negras, invisíveis no quadro-negro de oceano e céu fundidos. Mas quem já fixou a vista ou a memória na escuridão absoluta sabe que, pouco a pouco, sempre se revelam aqui e ali contornos de um negror ainda mais profundo. E se não tivesse as pernas bambas e o peito arfante, Benjamim se arriscaria a nadar até as ilhas que ele não sabe ao certo se enxerga ou recorda."
Chico Buarque. Benjamim (1995). São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 91

Narciso

"...um Narciso não é um orgulhoso. O orgulhoso despreza os outros. Os subestima. O Narciso os superestima, porque observa nos olhos de cada um sua própria imagem e quer embelezá-la. Cuida, assim, gentilmente de todos os seus espelhos."
Milan Kundera (1929-). A festa da insignificância (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 23

Marionetes


"...morremos, e continuamos ainda alguns anos com aqueles que nos conheceram, mas não demora a ocorrer outra mudança: os mortos se tornam velhos mortos, ninguém se lembra mais deles e eles desaparecem no nada; apenas alguns, raríssimos, deixam seus nomes nas memórias, mas, privados de todo testemunho autêntico, de toda lembrança real, transformam-se em marionetes...".
Milan Kundera (1929-). A festa da insignificância (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 31

uma cafeteria


"Naquela noite não desgrudei dela. Ficamos um instante na cafeteria que pouco a pouco foi se esvaziando de estudantes e professores, no fim ficamos só nós duas, a faxineira e um homem de meia-idade, um sujeito muito simpático e muito triste que atendia no balcão. Depois nos levantamos (ela disse que a cafeteria naquela hora parecia sinistra; eu calei minha opinião, mas agora não vejo por que não dá-la: a cafeteria naquela hora me parecia magnífica, gasta e majestosa, pobre e libérrima, penetrada pelos últimos esplendores do sol do vale, uma cafeteria que me pedia com um sussurro que ficasse ali até o fim e lesse um poema de Rimbaud, uma cafeteria pela qual valia a pena chorar)...".
Roberto Bolaño (1953-2003). Amuleto (1999). São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 40

Amuleto


"Assim, pois, os rapazes fantasmas cruzaram o vale e despencaram no abismo. Um trânsito breve. E seu canto fantasma ou o eco do seu canto fantasma, que é como dizer o eco do nada, seguiu marchando ao mesmo passo que eles, que era o passo do destemor e da generosidade, em meus ouvidos. Uma canção apenas audível, um canto de guerra e de amor, porque os meninos sem dúvida se dirigiam para a guerra, mas faziam isso recordando as atitudes teatrais e soberanas do amor."
Roberto Bolaño (1953-2003). Amuleto (1999). São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 131

A festa da insignificância


"Ela passa por cima do corrimão e se atira no vazio. No fim de sua queda, quando colide brutalmente com a dureza da superfície da água, fica paralisada pelo frio, mas, depois de alguns longos segundos, ergue o rosto e, como é boa nadadora, todos os seus automatismos se insurgem contra sua vontade de morrer. Ela mergulha de novo a cabeça, tenta aspirar água, bloquear a respiração. Nesse momento, ouve um grito. Um grito que vem da outra margem. Alguém a viu. Compreende que morrer não vai ser fácil e que seu maior inimigo não será seu reflexo incontrolável de boa nadadora, mas alguém com quem ela não contava. Será obrigada a lutar. Lutar para salvar sua morte."
Milan Kundera (1929-). A festa da insignificância (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 48

uma garrafa de armanhaque


"Sabendo perfeitamente que não poderia ganhar a vida fazendo o que gostaria de fazer (mas será que sabia o que gostaria de fazer?), havia escolhido, depois de seus estudos, um emprego em que fora obrigado a valorizar não a sua originalidade, suas ideias, seus talentos, mas apenas sua inteligência, ou seja, essa capacidade aritmeticamente mensurável que não se distingue nos diferentes indivíduos senão quantitativamente, uns tendo mais, outros menos, Alain tendo mais, de modo que ele era bem pago e podia comprar de quando em quando uma garrafa de armanhaque."
Milan Kundera (1929-). A festa da insignificância (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 75

Insignificância


"A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la."
Milan Kundera (1929-). A festa da insignificância (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 132

Acho que eu não sou daqui

"[...] procurar algum lugar mais calmo, longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita. Tenho quase certeza que eu não sou daqui... " ♫ ♪
Legião Urbana

Circumstancial evidence


"'Circumstancial evidence is a very tricky thing', answered Holmes thoughtfully; 'it may seem to point very straight to one thing, but if you shift your own point of view a little, you may find it pointing in an equally uncompromising manner to something entirely different.'"

Arthur Conan Doyle (1859-1930). The Boscombe Valley Mystery. In: The Adventures of Sherlock Holmes (1892). London: Penguin Books, 1994, p. 79

A desobediência civil


"...o Estado nunca enfrenta intencionalmente a consciência intelectual ou moral de um homem, mas apenas seu corpo, seus sentidos. Não está equipado com inteligência ou honestidade superiores, mas com força física superior. Não nasci para ser forçado a nada. Respirarei a meu próprio modo. Vejamos quem é mais forte."


Henry David Thoreau (1817-1862). A desobediência civil (1848). Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 39

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

uma bomba


"De repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo 
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda"
António José Forte (1931-1988), poeta português. In: Uma Faca nos Dentes

De um e outro lado do que sou


"De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação, 
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.
Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece."
Nuno Júdice (1949-). In: Meditação sobre Ruínas

verdades


"Estão todas as verdades 
à espera em todas as coisas: 
não apressam o próprio nascimento 
nem a ele se opõem, 
não carecem do fórceps do obstetra, 
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)"
...
Walt Whitman (1819-1892). Leaves of Grass [Folhas de Relva] (1855)

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

If you forget me

...
"Everything carries
me to you,
as if everything 
that exists,
aromas, light, metals,
were little boats
that sail toward
those isles of yours
that wait for me."
...
Pablo Neruda (1904-1973). If you forget me [Si tu me olvidas]

Nove noites


"Numa das vezes em que me falou de suas viagens pelo mundo, perguntei aonde queria chegar e ele me disse que estava em busca de um ponto de vista. Eu lhe perguntei: 'Para olhar o quê?'. Ele respondeu: 'Um ponto de vista em que eu já não esteja no campo de visão'. (...)
Também demorei a entender o que ele queria dizer com aquilo, o que havia de mais terrível nas suas palavras: que, ao contrário dos outros, vivia fora de si. Via-se como um estrangeiro e, ao viajar, procurava apenas voltar para dentro de si, de onde não estaria mais condenado a se ver. Sua fuga foi resultado do seu fracasso. De certo modo, ele se matou para sumir do seu campo de visão, para deixar de se ver."
Bernardo Carvalho (1960-). Nove noites (2002). São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 111-12

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

eu e minha mulher morta



"abracei o corpo da minha mulher, segurei-lhe a mão, a sua cabeça no meu ombro, criei um pequeno embalo, como para adormecê-la, ou como se faz a quem chora e queremos confortar. vai ficar tudo bem, vai correr tudo bem. o que era impossível, e o impossível não melhora, não se corrige. estávamos encostados à parede, sob o cortinado, como fazíamos na juventude para os beijos e para as partilhas tolas de enamorados. estávamos escondidos de todos, eu e a minha mulher morta que não me diria mais nada, por mais insistente que fosse o meu desespero, a minha necessidade de respirar através dos seus olhos. a minha necessidade vital de respirar através do seu sorriso. eu e a minha mulher morta que se demitia de continuar a justificar-me a vida e que, abraçando-me como podia, entregava-me tudo de uma só vez. e eu, incrível, deixava tudo de uma só vez ao cuidado nenhum do medo e recomeçava a gritar."

Valter Hugo Mãe (1971-), escritor angolano. a máquina de fazer espanhóis (2010). São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 21.

velhice


"...a posição deles era já a de iguais, ligados uns aos outros pelos destinos tão inevitáveis e equiparados que agora cumpriam. que paisagem de velhos tão nítida era aquela. pouco importava que o orgulho lhes trouxesse ao de cima o passado profissional, mais ou menos brilhante, mais verdadeiro ou mentiroso, porque muitos mentem sem pudor para não se deixarem humilhar, pouco importava tudo isso porque tão na extremidade da vida eram todos a mesma coisa..."

Valter Hugo Mãe (1971-), escritor angolano. a máquina de fazer espanhóis (2010). São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 28.

Soneto da Maioridade



"O Sol, que pelas ruas da cidade
Revela as marcas do viver humano
Sobre teu belo rosto soberano
Espalha apenas pura claridade.

Nasceste para o Sol; és mocidade
Em plena floração, fruto sem dano
Rosa que enfloresceu, ano por ano
Para uma esplêndida maioridade.

Ao Sol, que é pai do tempo, e nunca mente
Hoje se eleva a minha prece ardente:
Não permita ele nunca que se afoite

A vida em ti, que é sumo de alegria
De maneira que tarde muito a noite
Sobre a manhã radiosa do teu dia."

Vinicius de Moraes (1913-1980). Soneto da Maioridade (1954). In: Nova Antologia Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 155

coisa nenhuma


"Enfim, era tudo muito calado onde se esperava a morte, até o que se dizia perdia sentido e funcionava apenas como uma reverberação do silêncio, coisa nenhuma, coisa rigorosamente nenhuma."

Valter Hugo Mãe (1971-), escritor angolano. a máquina de fazer espanhóis (2010). São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 65

violência na terceira idade



"isto é violência na terceira idade. sabem por quê, porque o nosso inimigo é o corpo. porque o corpo é que nos ataca. estamos finalmente perante o mais terrível dos animais, o nosso próprio bicho, o bicho que somos. que decide que é chegado o momento de começar a desligar-nos os sentidos e decide como e quando devemos padecer de que tipo de dor ou loucura. pois eu que tenho cem anos e podia quase ser vosso pai quero dizer-vos que ser-se velho é viver contra o corpo. o estupor do bicho que nós somos e que já não nos suporta mais. a violência na terceira idade."

valter hugo mãe (1971-), escritor angolano. a máquina de fazer espanhóis (2010). São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 126

fantasia



"...muito do que não existe é do mais importante da vida, não despreze nada, senhor silva, agarre-se a uma fantasia se for boa, que a realidade é benfeita desses momentos mais espertos de lhe fugirmos de vez em quando."

valter hugo mãe (1971-), escritor angolano. a máquina de fazer espanhóis (2010). São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 181