quarta-feira, 29 de junho de 2016

Suicidas

“Os suicidas prefiguram os destinos longínquos da humanidade. Eles são anunciadores e, como tais, deve-se respeitá-los; a sua hora virá; eles serão celebrados, render-lhes-emos uma homenagem pública e dir-se-á que só eles, no passado, tudo entreviram e tudo adivinharam [...] eles souberam antes dos outros que a impossibilidade pura e simples será um dia o quinhão de todos; em lugar de ser uma maldição, será um privilégio.”

Emil Cioran (1911-1995), filósofo romeno, radicado na França

Matança

"Enquanto desciam, sobrevoando os Matadouros, o cheiro subia até eles, o cheiro e a zoeira de carne descobrindo sua mortalidade – como a contraparte escura de alguma ficção diurna que, como parecia cada vez mais provável, eles haviam ido até lá para ajudar a promover. [...]

Sob os olhares curiosos dos Amigos do Acaso espalhavam-se ruas e becos numa grade cartesiana, esboçada em tom de sépia, por quilômetros a fio. 'A Grande Cidade Bovina do Mundo', murmurou Lindsay, maravilhado. De fato, os lombos dos bois eram muito mais numerosos do que as copas de chapéus de seres humanos. Daquela altitude, era como se os Amigos, que em aventuras passadas amiúde contemplaram imensas manadas de gado a vagar pelas planícies do Oeste, formando desenhos sempre a modificar-se, como nuvens, vissem ali aquela liberdade informe sendo racionalizada, obrigada a mover-se apenas em linhas retas e ângulos retos, numa progressiva redução de opções, até a curva final, passando pelo portão final, que levava ao local da matança."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 16

Contra o dia




"A maior parte das pessoas é obediente e burra, como os bois. O delírio significa literalmente sair do sulco que você cavou. Encare esta situação como uma espécie de delírio produtivo."


Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 46

América

"O jovem Max Khäutsch, recém-nomeado capitão dos Trabants, estava em sua primeira missão internacional, chefiando a Segurança Especial K&K, já tendo demonstrado na Áustria sua utilidade como assassino, dos mais letais, ao que parecia. O método habitual dos Habsburgo era livrar-se dele em algum momento predeterminado em que sua utilidade estivesse diminuída, mas ninguém estava disposto a tentar. Apesar de jovem, segundo se dizia ele dava a impressão de ter acesso a recursos além dos que eram seus, de se sentir à vontade em meio às sombras e de não ter absolutamente nenhum princípio, além de nutrir um desprezo constante pela diferença entre vida e morte. A decisão de enviá-lo à América parecia apropriada."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 52

Cicatrizes




"A multidão – Lew esperava encontrar apenas um punhado de descontentes – era grande, e depois de algum tempo começou a transbordar pela rua. Desempregados vindos de outras cidades, exaustos, sujos, flatulentos, carrancudos... estudantes procurando oportunidades de traquinadas... Mulheres em número surpreendente, ostentando as marcas de suas profissões, cicatrizes deixadas pelas lâminas das máquinas de embalar carne, olhos cansados de tanto costurar além da hora de dormir em salas mal iluminadas sem relógio, mulheres de lenço na cabeça, mantilhas de crochê, chapéus extravagantes com flores, outras sem chapéu algum, mulheres que só queriam descansar os pés depois de tantas horas levantando coisas, carregando coisas, caminhando pelas avenidas dos desempregados, suportando os insultos do dia..."


Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 54

Que merda

"Lew pegou um panatela e acendeu-o. Depois de duas ou três baforadas lentas: 'Você já saiu do trabalho nesta cidade quando o céu ainda está claro e os lampiões estão começando a ser acesos nas grandes avenidas e nas margens do lago, e as garotas todas já saíram dos escritórios e lojas e estão indo para casa, e os restaurantes se preparando para servir o jantar, e as vitrines estão reluzentes, e as carruagens todas enfileiradas diante dos hotéis, e –'

'Não', Nate impaciente, com um olhar fixo, 'raramente. Eu fico no trabalho até tarde.'

Lew soprou um anel de fumaça, e mais alguns outros, concêntricos. 'Pois é, que merda, Nate'."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 56-7

Acordar

"...em pouco tempo, tornou-se claro – horrivelmente claro – que ninguém naquela cidade sabia fazer café, como se houvesse uma espécie de consenso aparvalhado, ou mesmo uma postura municipal, no sentido de que as pessoas não deviam acordar nunca. As amuradas das pontes viviam apinhadas de pessoas vendo o rio Scioto passar preguiçosamente. Os bares estavam cheios de gente bebendo em silêncio, bebendo bem devagar até cair, o que costumava ocorrer por volta das oito da noite, hora em que tudo costumava fechar na cidade."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 70

Tempo para pensar

"...uma questão que ele nunca conseguiu resolver direito, no fundo. Se pudesse se dar ao luxo de ter tempo para pensar, para não fazer nada além de colocar os pés sobre uma grade de madeira, enrolar um cigarro, ficar olhando para a serra, deixando que as brisas passassem por ele – é claro –, mas na vida que levava não havia um minuto que não pertencesse a outra pessoa. Qualquer discussão sobre assuntos mais sérios, como em que ele devia insistir, de que devia abrir mão, quanto devia a quem, tinha de ser travada em meio à correria, com pessoas que ele esperava que depois não fossem traí-lo."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 95

saudades

"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!"

Florbela Espanca (1894-1930), poetisa portuguesa. Correspondência (1930)

Objeto urgente



"O que sou neste instante? Sou uma máquina de escrever fazendo ecoar as teclas secas na úmida e escura madrugada. Há muito já não sou gente. Quiseram que eu fosse um objeto. Sou um objeto. Que cria outros objetos e a máquina cria a nós todos. Ela exige. O mecanicismo exige e exige a minha vida. Mas eu não obedeço totalmente: se tenho que ser um objeto, que seja um objeto que grita. Há uma coisa dentro de mim que dói. Ah como dói e como grita pedindo socorro. Mas faltam lágrimas na máquina que sou. Sou um objeto sem destino. Sou um objeto nas mãos de quem? tal é o meu destino humano. O que me salva é grito. Eu protesto em nome do que está dentro do objeto atrás do atrás do pensamento-sentimento. Sou um objeto urgente."

Clarice Lispector (1920-1977). Água Viva (1973). Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990. p. 91-92

Fracasso

"Ter dentro de mim o contrário do que sou é em essência imprescindível: não abro mão de minha luta e de minha indecisão e o fracasso – pois sou um grande fracassado – o fracasso me serve de base para eu existir. Se eu fosse um vencedor? morreria de tédio. 'Conseguir' não é o meu forte. Alimento-me do que sobra de mim e é pouco. Sobra porém um certo secreto silêncio." 

Clarice Lispector (1920-1977). Um sopro de vida, p. 46

terça-feira, 21 de junho de 2016

Fim do mundo

"Antes de ser destruída, a Terra assistiria a uma demonstração da perfeição absoluta em matéria de reprodução sonora, o maior sistema de som jamais construído. Mas não se ouviu um concerto, nenhuma música, nenhuma fanfarra, e sim uma simples mensagem.
– Povo da Terra, atenção, por favor – disse uma voz, e foi maravilhoso. Som quadrafônico perfeito, com níveis de distorção tão baixos que o mais corajoso dos homens não conseguiria conter uma lágrima.
– Aqui fala Prostetnic Vogon Jeltz, do Conselho de Planejamento do Hiperespaço Galáctico – prosseguiu a voz. – Como todos vocês certamente já sabem, os planos para o desenvolvimento das regiões periféricas da Galáxia exigem a construção de uma via expressa hiperespacial que passa pelo seu sistema estelar e infelizmente o seu planeta é um dos que terão de ser demolidos. O processo levará pouco menos de dois minutos terrestres. Obrigado.
O sistema de som voltou ao silêncio.
Um terror cego se apoderou de toda a população da Terra. O terror transmitia-se lentamente através das multidões, como se fossem limalhas de ferro sobre uma chapa de madeira e houvesse um ímã deslocando-se embaixo da madeira. Instaurou-se novamente o pânico, uma vontade desesperada de fugir, só que não havia para onde.
Observando o que estava acontecendo, os vogons ligaram o sistema de som outra vez. Disse a voz:
– Esta surpresa é injustificável. Todos os planos do projeto, bem como a ordem de demolição, estão em exposição no seu departamento local de planejamento, em Alfa do Centauro, há 50 dos seus anos terrestres, e portanto todos vocês tiveram muito tempo para apresentar qualquer reclamação formal, e agora é tarde demais para criar caso.
O sistema de som foi desligado novamente e seu eco foi morrendo por todo o planeta. As naves imensas começaram a virar lentamente no céu, com facilidade. Na parte de baixo de cada nave abriu-se uma escotilha, um quadrado negro vazio.
A esta altura, alguém tinha conseguido ligar um transmissor de rádio, localizar uma frequência e enviar uma mensagem às naves vogons, falando em nome do planeta. Ninguém jamais ouviu o que foi dito, apenas a resposta. O imenso sistema de som voltou a transmitir. A voz estava irritada:
– Como assim, nunca estiveram em Alfa do Centauro? Ora bolas, humanidade, fica só a quatro anos-luz daqui! Desculpem, mas, se vocês não se dão ao trabalho de se interessar pelas questões locais, o problema é de vocês. – Após uma pausa, disse: – Energizar raios demolidores.
Das escotilhas saíram fachos de luz.
– Diabo de planeta apático – disse a voz. – Não dá nem para ter pena."

Douglas Adams (1952-2001). O guia do mochileiro das galáxias (1979). São Paulo: Arqueiro, 2010. p. 33-34

O guarda

"...então por que você continua nessa? Por quê? Por causa das garotas? O uniforme de couro? O machismo da coisa? Ou é só por que você acha um desafio interessante enfrentar o tédio imbecilizante desse trabalho?
Arthur olhava para um e para outro, sem entender nada.
– Ah... – disse o guarda – ah... ah... sei não. Acho que eu faço isso só pra... só por fazer, sabe. A titia me disse que trabalhar como guarda de espaçonave é uma boa carreira para um rapaz vogon, sabe, o uniforme, a pistola de raio paralisante na cintura, o tédio imbecilizante...
– Está vendo, Arthur? – disse Ford, como quem chegou à conclusão de uma argumentação. – E você que pensava que estava na pior. [...]
– Toda resistência é inútil! – berrou o guarda, e depois acrescentou: – Sabe, se eu persistir, vou acabar sendo promovido a oficial superior gritador, e normalmente não tem vaga pra quem não grita nem empurra gente, por isso acho melhor ficar mesmo fazendo o que sei fazer."

Douglas Adams (1952-2001). O guia do mochileiro das galáxias (1979). São Paulo: Arqueiro, 2010. p. 59-60

sábado, 11 de junho de 2016

Mergulho

"Somos criaturas que precisam mergulhar na profundidade para lá respirar, como o peixe mergulha na água para respirar, só que minhas profundidades são no ar da noite. A noite é o nosso estado latente. E é tão úmida que nascem plantas. Em casa as luzes se apagam para que se ouçam mais nítidos os grilos, e para que os gafanhotos andem sobre as folhas quase sem as tocarem, as folhas, as folhas, as folhas – na noite a ansiedade suave se transmite através do oco do ar, o vazio é um meio de transporte."

Clarice Lispector (1920-1977). A paixão segundo G.H. (1964). Rio de Janeiro: José Olympio, 1977. p. 135

A verdade


"Mas vê, meu amor, a verdade não pode ser má. A verdade é o que é – e, exatamente por ser imutavelmente o que é, ela tem que ser a nossa grande segurança, assim como ter desejado o pai ou a mãe é tão fatal que isto tem que ter sido o nosso fundamento. Assim, pois, entende? por que teria eu medo de comer o bem e o mal? se eles existem é porque é isto que existe."

Clarice Lispector (1920-1977). A paixão segundo G.H. (1964). Rio de Janeiro: José Olympio, 1977. p. 171

Depressão

"...pessoas na posição depressiva são frequentemente estigmatizadas como fracassadas ou perdedores. Obviamente que nada poderia estar mais longe da verdade. Se essas pessoas estão na posição depressiva, é somente porque tentaram muito, ou sobrecarregaram-se em demasia, a tal ponto que ficaram doentes, com depressão. Em outras palavras, se essas pessoas estão na posição depressiva, é porque o mundo delas simplesmente não era bom o suficiente para elas. Elas queriam mais, queriam melhor e queriam diferente. E não apenas para elas próprias, mas para todos ao seu redor. Então se são perdedores e fracassados, isso é somente porque eles estabeleceram um padrão alto demais. Eles poderiam ter varrido tudo para debaixo do tapete, ou fingido, como muitas pessoas fazem, que tudo é para o melhor, no melhor dos mundos possíveis. No entanto, diferente da maioria das pessoas, eles tiveram a força e a honestidade para admitir que algo estava errado."

Neel Burton. The anatomy of melancholy (TED video)

Accident nocturne


“Para minha grande surpresa, eu não conseguia mais ler romances policiais. Mas assim que eu abri ‘As Maravilhas celestes’, que estampava na folha de rosto esta indicação: ‘Leituras para a noite’, eu adivinhei o quanto essa obra seria valiosa para mim. Nebulosas. A Via Láctea. O mundo sideral. As constelações do Norte. O zodíaco, os universos longínquos… Enquanto eu avançava pelos capítulos, eu não sabia mais por que eu estava deitado naquela cama, naquele quarto de hotel. Eu tinha esquecido onde eu estava, em que país, em que cidade, e isso não tinha mais importância. Nenhuma droga, nem o éter, nem a morfina, nem o ópio não me teria proporcionado aquela paz que me invadia pouco a pouco. Eu só precisava virar as páginas. Desde muito tempo deveriam ter me aconselhado tais ‘Leituras’. Isso teria me evitado tormentos inúteis e noites agitadas. A Via Láctea. O mundo sideral. Enfim, o horizonte para mim se ampliava até o infinito, e havia uma doçura extrema em ver de longe ou em imaginar todas aquelas estrelas variáveis, temporárias, apagadas ou desaparecidas. Eu não era nada naquele infinito, mas eu podia enfim respirar.”

Patrick Modiano. Accident nocturne. Paris: Galllimard, 2003, p. 142-3

No original: “À ma grande surprise, je ne parvenais plus à lire les romans policiers. Mais à peine avais-je ouvert ‘Les Merveilles célestes’ qui portait sur la page de garde cette indication: ‘Lectures du soir’, que je devinais combien cet ouvrage allait compter pour moi. Nébuleuses. La Voie lactée. Le monde sidéral. Les constellations du Nord. Le zodiaque, les univers lointains… À mesure que j’avançais dans les chapitres, je ne savais même plus pourquoi j’étais allongé sur ce lit, dans cette chambre d’hôtel. J’avais oublié où j’étais, dans quel pays, dans quelle ville, et cela n’avait plus d’importance. Aucune drogue, ni l’éther, ni la morphine, ni l’opium ne m’aurait procuré cet apaisement qui m’envahissait peu à peu. Il suffisait de tourner les pages. On aurait dû, depuis longtemps, me conseiller ces ‘lectures du soir’. Cela m’aurait évité bien des tourments inutiles et des nuits agitées. La Voie lactée. Le monde sidéral. Enfin, l’horizon pour moi s’élargissait jusqu’à l’infini, et il y avait une extrême douceur à voir de loin ou à deviner toutes ces étoiles variables, temporaries, éteintes ou disparues. Je n’étais rien dans cet infini, mais je pouvais enfin respirer.”

Sofre-se

"Domingo escuro, sensação de desterro, a vida difícil.
Sofre-se muito e cada vez mais,
também porque as vigílias são mais longas.
Ainda que durmas, deves-te levantar e cuidar da vida,
sujeitar-te à pouca destreza de um corpo
que não aprende as sutilezas da alma
e a todo instante perturba-te o repouso.
Precisas comer, limpar-te, mostrar-te apresentável
a quem chama na porta, salvar-te com compostura
do teu destino metabólico,
dormir na própria cruz sem sobressaltos,
como um bebê brincando com suas fezes.
Ó meu Deus, dizer o que eu disse
e não ter dúvidas de que escrevi um poema
é saber na carne: verdadeiramente
dar-Vos graças é meu dever e salvação."


Adélia Prado (1935-). A criatura. In: Miserere. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 51

Suicídio

"Levo a arma à minha têmpora e esfrego a lateral de minha cabeça contra o cano de metal.
É um pouco gostoso – quase como uma massagem – quando empurro o cano da P-38 com mais força no ponto mais macio do meu crânio.
É como se a P-38 fosse uma chave-mestra que tento encaixar em um antigo cadeado e quando fizer a conexão ouvirei um clique e uma porta se abrirá, eu entrarei e me salvarei.
– Gire a chave, Leonard – murmuro para mim mesmo. – Você só precisa apertar o dedo indicador e tudo ficará bem. Seus pensamentos vão parar. Sem mais problemas. Você poderá finalmente apenas descansar.
Estou a ponto de puxar o gatilho quando outra pergunta aleatória surge em minha cabeça.
Pergunto-me se Linda já se lembrou de que hoje é meu aniversário.
Por alguma razão, isso me parece importante agora e quanto mais eu me pergunto, mais percebo que não posso morrer sem saber a resposta.
Baixo a P-38 e verifico as mensagens de voz em meu telefone.
Não há nenhuma.
Verifico o meu e-mail.
Nada.
Nem qualquer mensagem de texto.
Eu rio – quero dizer, eu uivo, porque parece tão apropriado por algum motivo.
Que aniversário esse.
Que vida.
Ergo a P-38 e volto a pressionar o cano em minha têmpora.
Fecho os olhos.
Aperto o gatilho."

Matthew Quick (1973-). Perdão, Leonard Peacock. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013. p. 166-7

Café e cigarro


"...no terraço a gente só ouvia o ruído alegre do alumínio das panelas, e eu estava achando muito bom que fosse tudo exatamente assim, quando ela me perguntou 'que que você tem?', mas eu, sentindo o cheiro poderoso do café que já vinha em grossas ondas do coador lá na cozinha, eu não disse nada, sequer lhe virei o rosto, continuei alisando o Bingo, meu vira-lata, e fui pensando que o primeiro cigarro da manhã, aquele que eu acenderia dali a pouco depois do café, era, sem a menor sombra de dúvida, uma das sete maravilhas.

Raduan Nassar (1935-). Um copo de cólera (1978). São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 27-28

minha intensa escuridão

"...fique aí, no círculo da tua luz, e me deixe aqui, na minha intensa escuridão, não é de hoje que chafurdo nas trevas: não cultivo a palidez seráfica, não construo com os olhos um olhar pio, não meto nunca a cara na máscara da santidade, nem alimento a expectativa de ver a minha imagem entronada num altar; ao contrário dos bons samaritanos, não amo o próximo, nem sei o que é isso, não gosto de gente, para abreviar minhas preferências; afinal, alguém precisa, pilantra – e uso aqui tua palavrinha mágica – 'assumir' o vilão tenebroso da história, alguém precisa assumi-lo pelo menos pra manter a aura lúcida, levitada sobre tua nuca; assumo pois o mal inteiro, já que há tanto de divino na maldade, quanto de divino na santidade; e depois, pilantra, se não posso ser amado, me contento fartamente em ser odiado."

Raduan Nassar (1935-). Um copo de cólera (1978). São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 63-64

Esporro

"...eu só sei que pra cobrir a fúria da arrancada do seu carro eu quase estourei a boca com o meu 'foda-se' e não vendo mais as pernas do seu Antônio, só o arbusto se mexendo, mobilizei todos os meus foles e berrei um 'puta-que-pariu-todo-mundo!', rasgando o peito, rebentando co'a jugular, me regalando grandemente co'a volúpia do meu escândalo, notando uma janela recatada da colina em frente se abrir e fechar numa só ventania, mas eu berrava 'fodam-se' 'fodam-se' e com isso ia pondo pra fora o bofe, a carniça e o bucho, enquanto via surpreso e comovido o meu avesso, e sentia até vontade de virar cambotas de macaco no gramado."

Raduan Nassar (1935-). Um copo de cólera (1978). São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 78

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Almoço nu


"Encarou-me através da ectoplásmica e hesitante carne terapêutica... quando você larga a droga, quinze quilos materializam-se no espaço de um mês... uma substância macia, pastosa e rosada que cede à primeira carícia silenciosa da junk... Vi isso acontecer... quase cinco quilos perdidos em dez minutos... de pé, segurando a seringa com uma das mãos... segurando as calças com a outra."

William S. Burroughs (1914-1997). Almoço nu (1959). São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 258

O ciclo da morfina

"O sistema nervoso vegetativo se expande e se contrai em resposta a ritmos viscerais e estímulos externos. Expande-se quando recebe estímulos reconhecidos como prazerosos – sexo, comida, contatos sociais agradáveis etc. – e se contrai em resposta a dor, ansiedade, medo, desconforto e tédio. A morfina altera todo esse ciclo de expansão e contração, liberação e tensão. A função sexual é desativada, os movimentos peristálticos são inibidos, as pupilas param de se retrair em resposta à luz e à escuridão. O organismo não se contrai por causa da dor nem se expande por conta de fontes normais de prazer. Ele se ajusta ao ciclo da morfina. O dependente é imune ao tédio. Consegue passar horas encarando o próprio sapato ou simplesmente deitado na cama. Não precisa de sexo, contatos sociais, trabalho, diversão ou exercício, apenas de morfina."

William S. Burroughs (1914-1997). Almoço nu (1959). São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 287-8

A Doença


"A Doença é a dependência de drogas, e por quinze anos fui um dependente. Quando falo em dependência, estou dizendo que era viciado em junk (um termo genérico para o ópio e/ou seus derivados, incluindo todos os sintéticos, de Demerol a Palfium). Usei diversos tipos de junk: morfina, heroína, Dilaudid, cucodal, Pantopon, Diocodid, Diosane, ópio, Demerol, Dolofina e Palfium. Fumei junk, comi junk, cheirei junk, apliquei junk na veia, na pele, no músculo, enfiei supositórios de junk no reto. A agulha não importa. Tanto faz se você cheira, fuma, come ou enfia no cu, pois o resultado é sempre o mesmo: dependência. [...]

O mundo da junk é moldado em posse e monopólio. O dependente permanece imóvel enquanto é levado por suas pernas de viciado até mais uma recaída na junk. O envolvimento com junk é perfeito e quantitativamente mensurável. Quanto mais junk você usa, menos você tem, e quanto mais você tem, mais você usa. [...]

Junk é o produto ideal... a mercadoria suprema. O vendedor não precisa de lábia. O cliente se arrasta pelo meio do esgoto implorando uma chance de comprar... O vendedor de junk não vende seu produto ao consumidor; vende o consumidor ao seu produto. Não melhora nem otimiza sua mercadoria. Piora a qualidade da mercadoria e otimiza o cliente. Paga seus funcionários em junk."

William S. Burroughs (1914-1997). Almoço nu (1959). São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 263;265

Tempo da junk

"Nick pontuava seu discurso com uma risadinha zombeteira. Era uma espécie de desculpa por fazer uso da fala no mundo telepático dos dependentes, onde somente o fator quantidade – Quanto dinheiro? Quanta junk? – requer expressão verbal. Nós dois sabíamos tudo a respeito da espera. O ramo das drogas, em qualquer nível, opera sem horários. Ninguém entrega alguma coisa na hora combinada, exceto por acidente. O dependente funciona no tempo da junk. Seu corpo é seu relógio, e a junk escorre por dentro dele como em uma ampulheta. Para o viciado, o tempo só significa alguma coisa quando está relacionado com a necessidade. É quando o dependente realiza sua intrusão abrupta no tempo alheio, e como todos os Intrusos, todos os Suplicantes, deve esperar, a menos que consiga coincidir com o tempo extrínseco à junk."

William S. Burroughs (1914-1997). Almoço nu (1959). São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 239-40

Americanos


"Reclinei-me no assento, deixando a mente livre para funcionar em seu próprio ritmo. Se a mente é forçada em excesso, começa a dar problemas como um painel de controle sobrecarregado, isso quando não resolve partir para a sabotagem... E eu não tinha nenhuma margem para erro. Americanos morrem de medo de abrir mão do controle, de deixar as coisas acontecerem por si sós, sem interferência alguma. Se fosse possível, entrariam dentro do próprio estômago para digerir a comida e depois enfiar a merda para fora usando pás."

William S. Burroughs (1914-1997). Almoço nu (1959). São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 239

Histéricos

"Mergulham de cabeça nos negócios. Realizam serviços inomináveis para um agente de marinha mercante grego e paralítico e para toda uma equipe de inspetores alfandegários. Os dois sócios terminam por se desentender e denunciam um ao outro à Embaixada, que os manda procurar a Repartição Para Assuntos Que Não Nos Interessam Nem Um Pouco e os expulsa por uma porta dos fundos que dá para um terreno baldio coberto de merda, onde abutres disputam cabeças de peixe. Histéricos, trocam socos."

William S. Burroughs (1914-1997). Almoço nu (1959). São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 200

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Poder

"Cedo eu descobri que o que eu mais queria na vida era o poder. O poder estar sempre com as pessoas que eu amo, o poder andar despreocupado pelas ruas, apreciar cenários, paisagens, bichos, gente que passa. O poder tomar outro caminho só porque naquela direção um verde me despertou a curiosidade. O poder trabalhar no que me alegra. O poder ser dono do meu tempo e fazer o que quiser sem precisar me aposentar. O poder estar sempre disponível para quem está perto e precisa. O poder ter certeza de que o abraço recebido é de afeto e não de interesse. O poder ser eu mesmo e envelhecer saudável. Céus, como ambiciono todo esse poder!"

Francisco Azevedo. O arroz de Palma, p. 235.

Stay alive

"He didn't know what to do, he didn't know how to live. Each new thing he encountered in life impelled him in a direction that fully convinced him of its rightness, but then the next new thing loomed up and impelled him in the opposite direction, which also felt right. There was no controlling narrative: he seemed to himself a purely reactive pinball in a game whose only object was to stay alive for staying alive's sake."

Jonathan Franzen (1959-). Freedom (2010). New York: Picador, 2010. p. 400