sexta-feira, 24 de julho de 2015

O incolor Tsukuru Tazaki



"Deveria ter morrido naquele momento, Tsukuru Tazaki costuma pensar. Assim, este mundo que existe aqui e agora não existiria mais. Isso lhe parece fascinante. O fato de não existir o mundo do agora, o fato de não ser mais real o que aqui é considerado realidade. O fato de que, assim como ele não existiria mais neste mundo, este mundo também não existiria mais para ele.

Mas, ao mesmo tempo, Tsukuru não compreendeu de verdade por que nessa época precisou chegar tão perto da morte, até o extremo. Havia sim uma razão concreta, mas por que o fascínio pela morte era tão intenso, a ponto de envolvê-lo por cerca de seis meses? Envolver: sim, essa é a palavra apropriada. Como o personagem bíblico que foi engolido por uma enorme baleia e sobreviveu na barriga dela, Tsukuru caiu no estômago da morte e passou dias sem ver o tempo passar, dentro de um vazio escuro e estagnado.

Ele viveu esse período como um sonâmbulo, ou como um defunto que ainda não se deu conta de que está morto. Acordava quando o sol se erguia, escovava os dentes, vestia a roupa que encontrava por perto, pegava o trem para ir à faculdade e anotava as aulas. (...) ele apenas agia seguindo o cronograma à sua frente. Não falava com ninguém a não ser que fosse necessário e, quando voltava para o apartamento onde morava sozinho, ele se sentava no chão, encostava-se à parede e pensava sobre a morte ou a ausência da vida. À sua frente um abismo escuro abria a boca grande que dava diretamente ao centro da Terra. Lá se via o vazio que revolteava na forma de duras nuvens e se ouvia um profundo silêncio que comprimia os tímpanos."

Haruki Murakami (1949-). O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 7-8

Um período para enlouquecer

"É curioso; parece que, mesmo em uma vida aparentemente pacata e consistente, sempre há um período de grande colapso. Um período para enlouquecer, talvez possamos dizer. As pessoas devem precisar de um marco como esse na vida."

Haruki Murakami (1949-). O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 71

Creative business seminar

"(...) começou um negócio que mistura seminários de desenvolvimento pessoal e centro de treinamento de empresas. Ele o chama de 'creative business seminar'. Ele desfruta de um sucesso surpreendente hoje, tem um escritório em um arranha-céu no centro de Nagoia e emprega considerável número de funcionários. (...)

– 'Creative business seminar'?

– A denominação é nova, mas o conteúdo basicamente não muda de um curso de desenvolvimento pessoal – disse Sara. – Em resumo, é um curso de lavagem cerebral rápido e acessível para formar trabalhadores obedientes e dedicados. Em vez de livros sagrados usa manuais, e em vez da iluminação ou do paraíso promete promoções e altos salários. Uma nova religião da era do pragmatismo."

Haruki Murakami (1949-). O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 133-4

Na estação



"Com alto-falante na mão, o funcionário da estação continua gritando, implorando, o sinal de partida do trem continua tocando quase que ininterruptamente e as máquinas das catracas continuam fazendo a leitura silenciosa das vastas informações dos cartões, dos bilhetes e dos passes. Os longos trens que chegam e partem em ciclos de alguns segundos vomitam as pessoas sistematicamente como se fossem gado acostumado e paciente, para em seguida sugarem tantas outras, e partem para a próxima estação fechando as portas impacientemente. Se alguém tiver o próprio pé pisado pela pessoa de trás no meio da multidão, subindo ou descendo a escada, e perder um dos sapatos, será impossível recuperá-lo. Ele irá desaparecer engolido pela areia movediça violenta chamada horário de pico."

Haruki Murakami (1949-). O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 308

um mero engenheiro

"Quantas horas as pessoas gastam no trajeto para o trabalho no dia a dia? Tsukuru tenta mensurar. Em média uma hora a uma hora e meia só para ir, ele calcula. Quando um assalariado comum que trabalha no centro de Tóquio, casado e com um ou dois filhos, deseja comprar uma casa, inevitavelmente precisa ser no 'subúrbio', e isso o faz levar esse tempo nos deslocamentos. Nas vinte e quatro horas do dia, cerca de duas a três horas são gastas 'somente' no ato de se locomover em função do trabalho. No trem lotado, se a pessoa tiver sorte talvez consiga ler um jornal ou um livro de bolso. Talvez seja até possível estudar espanhol ou ouvir a sinfonia de Haydn no iPod. Dependendo da pessoa, talvez consiga ficar absorta em longas especulações metafísicas, de olhos fechados. Mas, em geral, deve ser difícil considerar que essas duas ou três horas do dia sejam o momento mais valioso e de melhor qualidade da vida de cada um. Quantas horas da vida são tomadas em função da locomoção (provavelmente) sem sentido e desaparecem? Em que medida esse tempo esgota e desgasta as pessoas?

Mas esse não é um problema com que Tsukuru Tazaki, que trabalha em uma companhia ferroviária e lida principalmente com o projeto de estações, deva se preocupar. Cada pessoa deve cuidar da sua vida. Afinal, a vida é 'delas', e não de Tsukuru Tazaki. Cada pessoa deve julgar individualmente quanto a sociedade em que vive é feliz ou infeliz. O que ele precisa pensar é apenas em como guiar de forma adequada e segura o fluxo de certo número de pessoas. Não são exigidas dele reflexões. Só lhe é exigida eficácia. Ele não é um pensador nem um sociólogo, mas um mero engenheiro."

Haruki Murakami (1949-). O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 309-310

quarta-feira, 22 de julho de 2015

A estrada é maior

"O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua
Oiço: cada som é consigo.

Sou como a praia a que invade
Um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.

Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.

Cheguei à janela
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.

Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.

Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada."

Fernando Pessoa (1888-1935)

Berlim, 1914



"To avoid complete collapse, he made a firm resolution that, if he could not marry Felice, he would resign his post at the Institute (or ask for a prolonged period of absence), go to Berlin and try to live as a literary journalist. The Berlin to which he would have moved was that of the painter Ernst Ludwig Kirchner, whose famous Potsdamer Platz was painted in this year [1914]. 'You have to realize what Berlin meant to us back then in Vienna,' the Austrian novelist Flesch von Brünningen had written the year before. 'For us, Berlin was crazy, debauched, metropolitan, anonymous, gargantuan, futuristic. It was literary and political and artistic (the city for painters.) In short: an infernal cesspool and paradise in one.' In not choosing this frenetic metropolis and remaining in Prague, Kafka closed off another avenue of escape, though the idea of Berlin stayed with him, until, in the last year of his life, he finally moved there."

Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 200

Imagem: "Potsdamer Platz" (1914), de Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938)

Vegonha



“É que aqui, essas horas são cheias de assombrações. Se o senhor visse a multidão de almas que andam soltas pelas ruas... Assim que escurece, começam a sair. E ninguém gosta de vê-las. São tantas, e nós tão pouquinhos, que nem tratamos de rezar para que saiam de suas penas. Nossas orações não dariam para todos. No máximo um pedaço de um pai-nosso para cada uma. E isso não adiantaria nada. E além do mais, no meio tem os nossos pecados. Nenhum de nós, dos que ainda vivemos, está nas graças de Deus. Ninguém poderá erguer seus olhos ao céu sem sentir-se sujo de vergonha. E a vergonha não tem cura.”

Juan Rulfo (1917-1986). Pedro Páramo (1955). Rio de Janeiro: BestBolso, 2008, p. 63

Minha querência

“Lá você vai encontrar a minha querência. O lugar que eu amei. Onde os meus sonhos emagreceram. Meu povoado, levantado sobre a planície. Cheio de árvores e de folhas, como um cofre onde guardamos nossas memórias. Você vai sentir que ali a gente gostaria de viver para a eternidade. O amanhecer; a manhã; o meio-dia e a noite, sempre os mesmos; mas com a diferença do ar. Lá, onde o ar muda a cor das coisas; onde a vida se ventila como se fosse um murmúrio; como se fosse um puro murmúrio da vida...”

Juan Rulfo (1917-1986). Pedro Páramo (1955). Rio de Janeiro: BestBolso, 2008, p. 70

Damiana Cisneros

“– Esta cidade está cheia de ecos. Parece até que estão trancados no oco das paredes ou debaixo das pedras. Quando você caminha, sente que vão pisando seus passos. Ouve rangidos. Risos. Umas risadas já muito velhas, como cansadas de rir. E vozes já desgastadas pelo uso. Você ouve tudo isso. Acho que vai chegar o dia em que esses sons se apagarão.

Isso era o que Damiana Cisneros vinha me dizendo, enquanto atravessávamos a cidade.

– Teve um tempo em que andei ouvindo durante muitas noites o barulho de uma festa. Os ruídos chegavam até a Media Luna. Cheguei perto para ver aquela animação e vi isto: o que estamos vendo agora. Nada. Ninguém. As ruas tão solitárias como estão agora.” 

Juan Rulfo (1917-1986). Pedro Páramo (1955). Rio de Janeiro: BestBolso, 2008, p. 53

Susana e o padre

"– Sim, padre.
– Não diga: 'Sim, padre.' Repete o que eu for dizendo.
– O que o senhor vai me dizer? Vai pegar a minha confissão outra vez? Por que outra vez?
– Esta não vai ser uma confissão, Susana. Só vim conversar com você. Preparar você para a morte.
– Eu já vou morrer?
– Vai, filha.
– Então por que não me deixa em paz? Estou com vontade de descansar. Devem ter pedido ao senhor que viesse tirar meu sono. Que ficasse aqui comigo até meu sono ir embora. E o que eu vou fazer depois para encontrar meu sono? Nada, padre. Então por que o senhor não vai embora de uma vez e me deixa tranquila?
– Vou deixar você em paz, Susana. Conforme você for repetindo as palavras que eu disser, irá adormecendo. Vai sentir como se você mesma se ninasse. E vai ver que quando você dormir, ninguém mais irá despertá-la... Você não vai voltar a despertar nunca mais.
– Está bem, padre. Vou fazer o que o senhor disser."

Juan Rulfo (1917-1986). Pedro Páramo (1955). Rio de Janeiro: BestBolso, 2008, p. 125-6

Sozinho

"Pedro Páramo viu como os homens iam embora. Sentiu desfilar na sua frente o trote de cavalos escuros, confundidos com a noite. O suor e o pó; o tremor da terra. Quando viu os pirilampos cruzando outra vez suas luzes, percebeu que todos os homens tinham ido. Só restava ele, sozinho, como um tronco duro começando a se despedaçar por dentro."

Juan Rulfo (1917-1986). Pedro Páramo (1955). Rio de Janeiro: BestBolso, 2008, p. 121

Pedro Páramo

"– Sou eu, dom Pedro – disse Damiana. – Não quer que traga seu almoço?

Pedro Páramo respondeu:

– Vou até lá. Estou indo.

Apoiou-se nos braços de Damiana Cisneros e fez a tentativa de caminhar. Depois de alguns tantos passos caiu, suplicando por dentro; mas sem dizer uma única palavra. Deu uma batida seca contra a terra e foi se desmoronando como se fosse um montão de pedras."

Juan Rulfo (1917-1986). Pedro Páramo (1955). Rio de Janeiro: BestBolso, 2008, p. 137

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O culto das aparências

“A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre mas quem cria pobreza.

Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.

Recordo-me que certa vez entendi comprar uma viatura em Maputo. Quando o vendedor reparou no carro que eu tinha escolhido quase lhe deu um ataque. 'Mas esse, senhor Mia, o senhor necessita de uma viatura compatível'. O termo é curioso: 'compatível'.

Estamos vivendo num palco de teatro e de representações: uma viatura já é não um objecto funcional. É um passaporte para um estatuto de importância, uma fonte de vaidades. O carro converteu-se num motivo de idolatria, numa espécie de santuário, numa verdadeira obsessão promocional.

Esta doença, esta religião que se podia chamar viaturolatria atacou desde o dirigente do Estado ao menino da rua. Um miúdo que não sabe ler é capaz de conhecer a marca e os detalhes todos dos modelos de viaturas. É triste que o horizonte de ambições seja tão vazio e se reduza ao brilho de uma marca de automóvel.

É urgente que as nossas escolas exaltem a humildade e a simplicidade como valores positivos.

A arrogância e o exibicionismo não são, como se pretende, emanações de alguma essência da cultura africana do poder. São emanações de quem toma a embalagem pelo conteúdo.”

Mia Couto, escritor moçambicano. Os sete sapatos sujos [Quinto sapato: A vergonha de ser pobre e o culto das aparências]. In: contioutra.com

Tudo pó

"(...) Arquiteto, artista,
doutor,
profissões de mercado. Mas até os mercados passam. Tudo se esboroa, se
desfaz e volta
ao pó,

tudo isso é pó e volta ao pó. Se o teu filho realizar feitos
incríveis, encher toda
Bat Yam de orgulho e sua casa de fortuna,
fama e tudo o mais, e uma Mercedes também, e for ungido no
melhor dos
óleos, com o passar dos anos o pó tudo cobrirá.
O nome se apagará, o óleo secará e restará apenas o pó da
ferrugem, e também
esta vai se dispersar, afinal,

aos quatro ventos. Uma poeira esquecida, mãe, a poeira do
nada, invisível,
imperceptível, a poeira das casas
esquecidas, que existiram e desmoronaram, dunas de areia
varridas pelo vento,
pó voltando ao pó,
de um punhado de poeira cósmica se formou essa estrela, e para
um buraco
negro ela retorna.

Médico, arquiteto, a casa dos sonhos e tapetes luxuosos na
melhor área de Bat
Yam. Tudo pó.
Volte, descanse, minha mãe, depois das montanhas eu volto, e
você e eu nos esconderemos,
Não nos alcançará nem mesmo a nuvem, que existiu antes de
todo ser, e que
só ela, afinal, restará."

Amós Oz (1939-). O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 108-9

Prague


"The office was becoming unbearable (...). He went through the motions of his work in a kind of numbness: 'And most of the time in the office I do what I am supposed to, am quite calm when I can be sure that my boss is satisfied, and do not feel that my condition is dreadful.' At night the demons – 'the great agitation in me' – returned to torment him in his lonely room in a house where he felt no one understood him, and where he watched in the middle of the night the lights and shadows thrown on the walls and ceilings by the electric lights of Niklasstrasse and the Cech Bridge. Kafka's Prague was sometimes reduced to this: a tight domestic web wrapped around him as if he were a trapped insect."

Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 93

capable of anything

"...after a conversation with his mother about marriage and children towards the end of the year he was convinced 'how untrue and childish is the conception of me that my mother builds up for herself'. She considered that if he were to get married and have children, all his hypochondria and anxiety would vanish, his interest in literature would decline to a professional man's sideline or hobby, and he would find himself concentrating on his career, like any normal person.

Needless to say, Kafka did not see it that way. Whatever the difficulties and obstacles he was currently experiencing, his intuition that he was capable of great things continued to possess him. One night he lay on his bed 'and again became aware of all my abilities as though I were holding them in my hand... capable of anything...'."

Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 101

Kafka

"Kafka was now moving steadily towards a total commitment to writing in order, in some sense, to define his whole existence. The obvious constraints on such an absolute dedication remained unchanged – work, family, the uncooperative physical body – but he now began to believe that his incapacity in other directions demanded a retrenchment to the one activity he knew he could do well. 'It is easy to recognize a concentration in me of all my forces on writing,' he wrote in his journal at the beginning of January 1912. 'When it became clear in my organism that writing was the most productive direction for my being to take, everything rushed in that direction...'."

Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 105

Writing



"Shouldn't I stake all I have on the one thing I can do? What a hopeless fool I should be if I didn't! My writing may be worthless; in which case, I am definitely and without doubt utterly worthless. If I spare myself in this respect, I am no really sparing myself, I am committing suicide."

Franz Kafka (1883-1924). Citado por Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 131

Maria também está perdida



"Maria também está perdida, vagueia entre mosteiros,
dorme, levanta, se arruma, às vezes com algum homem,
vão e vêm. Sua beleza fenece. No rosto,
rugas do sol, do vento e da geada. A terra prometida
desapareceu, ou foi somente uma miragem. O que ela deu
já tomaram, e o que restou se perderá.

A terra prometida é uma mentira. Não existe nenhum
Homem das Neves nos vales mágicos.
Só o mar ainda a espera, e o que não houve
se foi. Esta noite, com o jovem.
Amanhã, sozinha."

Amós Oz (1939-). O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 126

A vida é um incêndio

"A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida..."


Mario Quintana (1906-1994)

domingo, 5 de julho de 2015

Seu estilo de vida foi previamente projetado

“Aqui no Ocidente, um estilo de vida baseado em gastos desnecessários foi propositalmente cultivado e encorajado no público pelos grandes negócios. Empresas de todos os tipos apostam alto na tendência do público em ser descuidado com o seu dinheiro. (...)

As grandes empresas não ganharam seus milhões promovendo seriamente as qualidades dos seus produtos, mas criando uma cultura de centenas de milhões de pessoas que compram bem mais do que precisam e tentam afastar a insatisfação com dinheiro. (...)

A ferramenta definitiva das empresas para sustentar esse tipo de cultura é desenvolver as 40 horas de trabalho por semana como o estilo de vida normal. Com essas condições de trabalho, as pessoas precisam ‘viver’ à noite e nos fins de semana. Esta configuração nos deixa naturalmente mais propensos a gastar muito com entretenimento e conveniências [concentrados em ‘pacotes’, tudo muito prático – e caro], já que o nosso tempo livre é tão escasso. (...)

Faz poucos dias que eu voltei a trabalhar e já percebi que as atividades mais saudáveis que eu realizava estão rapidamente desaparecendo da minha vida: caminhar, me exercitar, ler, meditar e escrever.

A similaridade evidente entre essas atividades é que elas custam muito pouco ou nenhum dinheiro, mas exigem tempo. (...)

A última coisa que eu quero fazer quando chego em casa é me exercitar. Também é a última coisa que eu quero fazer depois do jantar ou antes de dormir ou assim que eu acordo, e esses seriam os únicos momentos possíveis para fazer isso num dia de semana.

Esse parece ser um problema simples com uma solução simples: trabalhar menos para ter mais tempo livre. Eu já provei para mim mesmo que posso ter um estilo de vida que me satisfaz com menos dinheiro do que eu ganho hoje. Infelizmente, isso é praticamente impossível na empresa onde trabalho, e em muitas outras. Ou você trabalha as suas oito horas por dia, ou não trabalha. (...)

(...) o dia de trabalho com oito horas é muito lucrativo para as grandes empresas, não graças à quantidade de trabalho realizado nessas oito horas (o trabalhador médio de escritório trabalha de fato menos de três dessas oito horas), mas porque faz com que as pessoas se tornem mais propensas a comprar. Fazer com que as pessoas tenham pouco tempo livre significa que elas vão pagar bem mais por conveniência, prazer e qualquer outro alívio que possam comprar. (...)

Fomos conduzidos a uma cultura projetada para nos deixar cansados, famintos por complacência, dispostos a pagar muito por conveniência e entretenimento e, o mais importante, vagamente insatisfeitos com as nossas vidas, a ponto de continuarmos querendo coisas que não temos. Nós compramos tanto porque sempre parece que tem alguma coisa faltando na nossa vida. (...)

Eu não acho que seja necessário afastar-se de todo desse mau sistema e ir viver na floresta fingindo ser um surdo-mudo, como Holden Caulfield sonhava. Mas com certeza seria bom que a gente tivesse plena consciência do que o grande comércio realmente deseja de nós. Eles vêm trabalhando há décadas para criar milhões de consumidores ideais, e eles conseguiram. A não ser que você seja uma verdadeira anomalia, o seu estilo de vida foi previamente projetado.”

David Cain. Trechos do artigo “Your Lifestyle Has Already Been Designed”. In: raptitude.com. Uma tradução completa do artigo pode ser encontrada no site papodehomem.com.br

Os ombros de meu pai

"A energia de meu pai não faz nenhum efeito. Energia de um
pobre coitado.
Cansada, mortiça,
impotente. O que há nele, em vez disso, é um toque de
tristeza. Um ar de
resignação. Um judeu de meia-idade. Humilde cidadão. O que
poderá fazer e
acrescentar,
com suas débeis opiniões. E às vezes meu pai cita o versículo:
Assim como as fagulhas voam para o alto, o homem nasceu
para o trabalho.
Mas o que ele quer
me dizer com isso? Que eu voe para o alto? Que arranje um
emprego? Ou que
não lute em batalhas perdidas? A severidade de meu pai. Seus
ombros
derrotados.
Por causa deles parti. Para eles estou voltando."

Amós Oz (1939-). O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 89

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Que mal eu te fiz?




"Dubi Dombrov – acorda às dez da manhã, suado, tonto e
sombrio,
vai ao banheiro dar uma mijada, as pálpebras ainda coladas,
depois abre a
torneira e lava-se em água fria.
Pensa em fazer a barba. Desiste. Veste a mesma camisa
cheirando a azedo do dia anterior e
vai aos trancos e apalpadelas até a cozinha fazer café.
Ao pegar no escorredor uma xícara limpa, uma aranha foge
rápida. Ora, por quê?
O que que há? O que foi que eu fiz? Que mal eu te fiz? Por que
até você foge
de mim?"

Amós Oz. O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 65

Books


"I think we ought to read only the kind of books that wound and stab us. If the book we are reading doesn't wake us up with a blow on the head, what are we reading for?... we need the books that affect us like a disaster, that grieve us deeply, like the death of someone we loved more than ourselves, like being banished into forests far from everyone, like a suicide. A book must be the axe for the frozen sea inside us."

Franz Kafka (1883-1924). Citado por Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 51

Imagem: Franz Kafka, de Andy Warhol (1980)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Kafka



"Hugo Hecht, Kafka's primary-school friend who followed him to the Gymnasium, remembered Kafka as a very well-behaved pupil – 'always very pure' – who declined to take part in the normal ribald sexual talk of adolescent schoolboys. He was 'very nicely dressed' but also 'somewhat remote and distant from us'. He seemed to his contemporaries to live, as it were, behind 'a glass wall', not unfriendly or haughty, but reserved. He always responded to conversational approaches and wasn't a spoilsport, but he would never make the first move. He was, said Emil Utitz, 'quiet, shy and a little mysterious'."

Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 28-9

Nasci

"Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, (...) reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Génio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu carácter nato quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser. (...)

O último rasto de influência dos outros no meu carácter cessou com isto.

Reconheci (...) a tranquila posse de mim.

Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci."

Fernando Pessoa (1888-1935). Páginas Íntimas e de Auto-interpretação

sábado, 27 de junho de 2015

The house was dark



"The house was dark. I stood looking at it in the darkness, just aware of its bulk in the feeble light of a broken moon, and I thought it looked even bigger than it really was, like a stone-giant's head, a huge moonlit skull full of shapes and memories, staring out to sea and attached to a vast, powerful body buried in the rock and sand beneath, ready to shrug itself free (...).

The house stared out to sea, out to the night, and I went into it."

Iain Banks (1954-2013). The Wasp Factory (1984). London: Abacus, 2013, p. 110

Desexplicar

"Escrever nem uma coisa
Nem outra –
A fim de dizer todas –
Ou, pelo menos, nenhumas.

Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar –
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes."

Manoel de Barros. Poesia Completa. LeYa, 2013, p. 242

Sheeps

"I remember I used to despise sheep for being so profoundly stupid. I'd seen them eat and eat, I'd watched dogs outsmart whole flocks of them, I'd chased them and laughed at the way they ran, watched them get themselves into all sorts of stupid, tangled situations (...). It was years, and a long slow process, before I eventually realised what sheep really represented: not their own stupidity, but our power, our avarice and egotism.

After I'd come to understand evolution and know a little about history and farming, I saw that the thick white animals I laughed at for following each other around and getting caught in bushes were the product of generations of farmers as much as generations of sheeps; we made them, we moulded them from the wild, smart survivors that were their ancestors so that they would become docile, frightened, stupid, tasty wool-producers."

Iain Banks (1954-2013). The Wasp Factory (1984). London: Abacus, 2013, p. 192-3