terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Zbigniew Preisner

domingo, 13 de dezembro de 2009

[APART]

As crianças moravam em apart-hotéis.
Primeiro, apart-berçário, depois
apart-escolas, até chegar no
apart-singles, não sem antes passar pelos
apart-quartéis.

Decio Bar (1943-1991)

CLIQUE AQUI e ouça Road, de Preisner

sábado, 5 de dezembro de 2009

Cartomante

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Adoniran Barbosa

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...


Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Fernando Pessoa

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Grade

Agora, a mansão à beira do lago já está
concluída, e os trabalhadores estão
começando a grade.
São barras de ferro com pontas de aço, capazes
de tirar a vida de qualquer um que se
arrisque sobre elas.
Como grade, é uma obra-prima e impedirá a
entrada de todos os famintos e vagabundos
e de todas as crianças vadias à procura de
um lugar para brincar.
Entre as barras e sobre as pontas de aço nada
passará, exceto a Morte, a Chuva e o Amanhã.

Carl Sandburg (1878-1967)

domingo, 22 de novembro de 2009

Como lidar com pessoas que "se acham"?

Por não suportar a dependência, a pessoa orgulhosa menospreza os sentimentos das outras pessoas, se colocando sempre como um "ser superior", como se estivesse num pedestal difícil de ser alcançado. Precisa fazer com que o outro se sinta diminuído para que ela se sinta superior.

O conceito exagerado de si próprio, o amor-próprio demasiado, a necessidade de poder, são apenas máscaras que buscam compensar a falta de amor que sentem por si mesmas.

No campo profissional o orgulho vem junto com a sensação de que "eu sou melhor que os outros" por algum motivo. Isso leva a pessoa a ter uma imagem de si inflada, aumentada, nem sempre correspondendo à realidade. Surge com isso a necessidade de aparecer, de ser visto, passando inclusive por cima de padrões éticos, de regras, e procurando colocar os outros colaboradores ou colegas minimizados, desprezando suas idéias e seu trabalho.

Geralmente pessoas com essas características ocupam cargos elevados e utilizam seu poder para impor suas vontades, manipulando as pessoas ao seu redor com o intuito de conseguirem que tudo seja feito conforme seus desejos.

É mais fácil lidar com pessoas assim depois de analisar e entender os motivos de seu comportamento. Entendido isso, você pode ignorar a maneira de ser dessa pessoa, e não se sentir inferior em hipótese alguma por isso. Procure tratá-la como um ser humano igual a você, sem supervalorizar aquilo que ela mais busca, que é ter mais e mais poder, seja sobre quem for.

Tenha consciência de que essa forma de ser é apenas uma máscara que funciona como proteção para impressionar e se fazer respeitado ou temido, quando na verdade a pessoa, no fundo, se sente muito distante disso.

Não se deixe impressionar, ignore e deixe que ela encontre seu caminho e um dia perceba que o que ela precisa desenvolver não é ser mais que ninguém, mas sim a humildade em ser quem ela simplesmente é.

Rosemeire Zago, Psicóloga

Agora olhe para a foto acima e reflita: nossa vida não é nada mais que um curto espaço de tempo vivido em um minúsculo ponto do Universo. Nessa perspectiva, tem sentido a gente se achar superior a qualquer outro ser humano?

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Nada fica de nada
Viúva na praia
A morte de um escritor
O defunto
A elegância do ouriço
Qualquer um

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Casino Royale


The coldest blood runs through my veins
You know my name

domingo, 8 de novembro de 2009

A morte de um escritor

"O rosto de Oliver não era estranho a Dalgliesh; ele o vira frequentemente em fotografias ao longo dos anos, e as imagens cuidadosamente escolhidas haviam transmitido sua mensagem, impregnando os traços finos de força intelectual e até de nobreza. Agora tudo havia mudado. Os olhos vidrados estavam semi-abertos, dando ao morto um aspecto de arguta malevolência, e sentia-se um débil fedor de urina, vindo de uma mancha na parte da frente da calça - a humilhação final da morte súbita e violenta".

"Olhando para baixo, para as mãos enluvadas da professora Glenister movendo-se sobre o cadáver, a mente de Dalgliesh obedecia às suas próprias compulsões, mesmo enquanto ele reagia aos imperativos do presente. Impressionava-o, como em seu primeiro caso de assassinato, nos tempos de jovem detetive, o absoluto da morte. Uma vez que o corpo esfriava e o rigor mortis iniciava seu avanço inevitável e previsível, era quase impossível acreditar que aquele trambolho endurecido de pelo, ossos e músculos algum dia estivera vivo. Animal algum jamais ficava tão morto quanto o homem. Seria porque muito mais se perdera com aquele endurecimento final - não apenas as paixões animais e as urgências da carne, mas também toda a abrangência de vida da mente humana? Aquele corpo pelo menos deixava um memorial a sua existência, mas mesmo seu rico legado de imaginação e acertos verbais parecia uma bagatela infantil diante daquela negatividade final".

P. D. James, O Farol

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Escolhas e decisões

Quão previsíveis e resguardados tinham sido seus cinquenta e oito anos de vida, a infância superprotegida, a escola preparatória cuidadosamente escolhida, os estudos até os dezoito anos numa escola pública pouco conhecida mas respeitada, a faculdade, como seria de se esperar, em Oxford. Ele decidira abraçar a profissão do pai, não porque ela o entusiasmasse e nem mesmo - hoje ele percebia - como resultado de uma opção consciente, mas devido a um vago respeito filial e ao conhecimento de que havia um emprego garantido esperando por ele. Seu casamento fora menos um caso de paixão que uma escolha entre as garotas adequadas disponíveis no Clube de Tênis de Warnborough e nos clubes de artes dramáticas locais. Jamais tomara uma decisão realmente difícil, jamais fora torturado por uma opção complexa, jamais se envolvera com esportes perigosos ou realizara algum feito que ultrapassasse as conquistas de sua carreira. Seria - ponderava ele - porque era filho único, mimado e superprotegido? De sua infância, as palavras que evocava mais frequentemente eram de sua mãe: "Não mexa aí, querido, é perigoso", "Saia daí, querido, você pode cair", "Acho melhor esquecer essa garota, querido, ela não é bem seu tipo".

P. D. James, O Farol

sábado, 31 de outubro de 2009

Coincidência

(...) um outro amigo, R., me contou sobre certo livro raro que ele vinha tentando localizar sem sucesso, vasculhando livrarias e catálogos em busca de uma obra supostamente notável, que ele queria muito ler, e como, certa tarde, enquanto andava pela cidade, ele tomou um atalho pela estação Grand Central, subiu a escada que vai dar na avenida Vanderbilt e avistou uma jovem de pé junto à balaustrada de mármore, com um livro nas mãos: o mesmo livro que ele vinha tentando localizar tão desesperadamente.

Embora não seja do tipo que costuma falar com estranhos, R. ficou espantado demais com a coincidência para conseguir permanecer calado. "Acredite ou não", disse ele à jovem, "eu tenho andado à procura desse livro por toda parte."

"Ele é maravilhoso", respondeu a jovem. "Acabei de ler neste instante."

"Sabe onde posso achar outro exemplar?", perguntou R. "Não posso nem lhe dizer o quanto isso significa para mim."

"Este aqui é para você", respondeu a mulher.

"Mas ele é seu", disse R.

"Ele era meu", respondeu a mulher, "mas agora eu já acabei de ler. Eu vim aqui hoje para entregá-lo a você."

Paul Auster, O caderno vermelho

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Soberba

Aniquilarei a altivez de sua numerosa população, e sua arrogância transformar-se-á em luto

Baruc, 4


Nunca permitas que o orgulho domine o teu espírito ou tuas palavras, porque ele é a origem de todo o mal

Tobias, 4, 14


Fazei, Senhor, que o orgulho desse homem seja cortado com sua própria espada

Judite, 9, 12


A soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda

Provérbios, 16


A zombaria e a ofensa são próprias dos orgulhosos; a vingança os espreita como um leão

Eclesiásticos, 27, 31


[...] para que todas as árvores junto às águas não se exaltem na sua estatura, nem levantem o seu topo no meio dos ramos espessos, nem as que bebem as águas venham a confiar em si, por causa da sua altura; porque todos os orgulhosos estão entregues à morte e se abismarão às profundezas da terra, no meio dos filhos dos homens, com os que descem à cova

Ezequiel, 31, 14


A soberba dos mortais será abatida, e o orgulho dos homens será humilhado. Só o Senhor será exaltado naquele tempo

Isaías, 2, 11

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Quando Nietzsche chorou

"As metas se realizaram, sim. Mas sem satisfação, Friedrich. De início, a euforia de um novo sucesso durava meses. Gradualmente, porém, foi se tornando mais volátil - semanas, depois dias, até horas - até que agora o sentimento se evapora tão rapidamente, que já nem penetra em minha pele. Acredito agora que minhas metas foram imposturas: jamais foram o verdadeiro destino do rapaz infinitamente promissor. Muitas vezes, sinto-me desorientado: as antigas metas deixaram de funcionar e perdi o dom de inventar metas novas. Quando penso no fluxo de minha vida, sinto-me traído ou enganado, como se tivesse sido vítima de uma piada celestial, como se tivesse esgotado minha vida dançando à melodia errada." [...]

"Metas? As metas estão na cultura, no ar. Nós as respiramos. Todos os meninos com quem cresci inalaram as mesmas metas. Todos queríamos pular para fora do gueto judaico, subir na vida, ter sucesso, riqueza, respeitabilidade. Era o que todos queríamos! Nenhum de nós jamais se pôs deliberadamente a escolher metas; elas estavam bem ali, as consequências naturais de meu tempo, meu povo, minha família."

"Mas elas [as metas] não serviram para você, Josef. Não foram suficientemente firmes para sustentar uma vida. Bem, talvez fossem bastante firmes para os sem-visão, ou para os medíocres que correm a vida toda atrás de objetivos materiais ou mesmo para os que atingem o sucesso mas têm o dom de continuamente fixar novas metas fora do alcance deles. Mas você, como eu, é um homem de visão. Você olhou para longe demais na vida. Você viu que era fútil alcançar metas erradas e fútil fixar novas metas erradas. Multiplicações por zero dão sempre zero!" [...]

"Chegar aos quarenta abalou a idéia de que tudo me era possível. Subitamente, entendi o fato mais óbvio da vida: que o tempo é irreversível, que minha vida estava se consumindo. É claro que eu já sabia disso antes, mas sabê-lo aos quarenta foi uma espécie diferente de saber. Agora, sei que que o rapaz infinitamente promissor foi meramente uma ordem de marchar, que promissor é uma ilusão, que infinitamente não tem sentido e que estou em fileira cerrada com todos os outros homens em direção à morte."

"É estranho, Josef, como um cemitério consegue me acalmar. Contei-lhe que meu pai foi um pastor luterano. Mas será que lhe contei que meu quintal e meu local de brincar era o adro da aldeia? Por sinal, você conhece o ensaio de Montaigne sobre a morte, em que nos aconselha a morar em um quarto com vista para um cemitério? Aclara nossa mente - alega ele - e mantém as prioridades da vida em perspectiva."

Fragmentos do livro Quando Nietzche chorou, de Irvin D. Yalom

sábado, 10 de outubro de 2009

Babaji

Babaji (Supertramp, 1977): Que voz! Ouça aqui

Ma vie

Tu t'en vas sans moi, ma vie.
Tu roules.
Et moi j'attends encore de faire un pas.
Tu portes ailleurs la bataille.
Tu me désertes ainsi.
Je ne t'ai jamais suivie.
Je ne vois pas clair dans tes offres.
Le petit peu que je veux, jamais tu ne l'apportes.
A cause de ce manque, j'aspire à tant.
A tant de choses, à presque l'infini...
A cause de ce peu qui manque, que jamais tu n'apportes.

Henri Michaux (1899-1984)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Na Estação Central

Na Estação Central, no meio do dia
uma mulher está mijando na calçada.
Com as costas para a parede e as pernas afastadas
ela inclina-se, o cabelo caindo sobre o rosto,
a saia sombria e o casaco nem sequer levantado.
Sua urina bate na pedra com força
e evapora em direção à sarjeta.
Ela não é velha, nem jovem,
não é suja, nem limpa,
nem em trapos, mas quase.
Ela está no centro da cidade, o fantasma no banquete.
Executivos saindo do trem de Londres
assustam-se incrédulos mas pulam o rio
e mansamente juntam-se à fila do táxi.
A gente de Glasgow passa apressada,
mal olha, ou se atreve a olhar,
ou olha severamente, dura como aço, como
o olhar do poeta, não duro como aço
mas severo, rápido, diminuindo o passo
um pouco, registrador maldito, seus sentimentos
confusos como as folhas de novembro.
Ela é uma estátua em um redemoinho,
surrada por nada que ele possa dizer em palavras,
sangrando nas ondas de conversa
e transita fluidos terríveis de necessidade.
Somente dois homens francamente param,
com um sorriso largo, jogam-lhe um insulto
enquanto cruzam a rua para apostar no jogo.
Sem eles a indignidade,
a dignidade, seria incompleta.

Edwin Morgan (1920 -)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O Outro

Eu chegava todo dia no meu escritório às oito e trinta da manhã. O carro parava na porta do prédio e eu saltava, andava dez ou quinze passos, e entrava.

Como todo executivo, eu passava as manhãs dando telefone­mas, lendo memorandos, ditando cartas à minha secretária e me exasperando com problemas. Quando chegava a hora do almoço, eu havia trabalhado duramente. Mas sempre tinha a impressão de que não havia feito nada de útil.

Almoçava em uma hora, às vezes uma hora e meia, num dos restaurantes das proximidades, e voltava para o escritório. Havia dias em que eu falava mais de cinqüenta vezes ao telefone. As cartas eram tantas que a minha secretária, ou um dos assistentes, assinava por mim. E, sempre, no fim do dia, eu tinha a impressão de que não havia feito tudo o que precisava ser feito. Corria contra o tempo. Quando havia um feriado, no meio da semana, eu me irritava, pois era menos tempo que eu tinha. Levava diariamente trabalho para casa, em casa podia produzir melhor, o telefone não me chamava tanto.

Um dia comecei a sentir uma forte taquicardia. Aliás, nesse mesmo dia, ao chegar pela manhã ao escritório surgiu ao meu lado, na calçada, um sujeito que me acompanhou até a porta dizendo "doutor, doutor, será que o senhor podia me ajudar?". Dei uns trocados a ele e entrei. Pouco de­pois, quando estava falando ao telefone para São Paulo, o meu coração disparou. Durante alguns minutos ele bateu num ritmo fortíssimo, me deixando extenuado. Tive que deitar no sofá, até passar. Eu estava tonto, suava muito, quase desmaiei.

Nessa mesma tarde fui ao cardiologista. Ele me fez um exame minucioso, inclusive um eletrocardiograma de esforço, e, no final, disse que eu precisava diminuir de peso e mudar de vida. Achei graça. Então, ele recomendou que eu parasse de trabalhar por algum tempo, mas eu disse que isso, também, era impossível. Afinal, me prescreveu um regime alimentar e mandou que eu caminhasse pelo menos duas vezes por dia.

No dia seguinte, na hora do almoço, quando fui dar a caminhada receitada pelo médico, o mesmo sujeito da véspera me fez parar pedindo dinheiro. Era um homem branco, forte, de cabelos castanhos compridos. Dei a ele algum dinheiro e prossegui.

O médico havia dito, com franqueza, que se eu não tomasse cuidado poderia a qualquer momento ter um enfarte. Tomei dois tranqüilizantes, naquele dia, mas isso não foi suficiente para me deixar totalmente livre da tensão. À noite não levei trabalho para casa. Mas o tempo não passava. Tentei ler um livro, mas a minha atenção estava em outra parte, no escritório. Liguei a televisão mas não consegui agüentar mais de dez minutos. Voltei da minha caminhada, depois do jantar, e fiquei impaciente sentado numa poltrona, lendo os jornais, irritado.

Na hora do almoço o mesmo sujeito emparelhou comigo, pedindo dinheiro. "Mas todo dia?", perguntei. "Doutor", ele respondeu, "minha mãe está morrendo, precisando de remédio, não conheço ninguém bom no mundo, só o senhor." Dei a ele cem cruzeiros.

Durante alguns dias o sujeito sumiu. Um dia, na hora do almoço, eu estava caminhando quando ele apareceu subitamente ao meu lado. "Doutor, minha mãe morreu”. Sem parar, e apressando o passo, respondi, "sinto muito". Ele alargou as suas passadas, mantendo-se ao meu lado, e disse "morreu". Tentei me desvencilhar dele e comecei a andar rapidamente, quase correndo. Mas ele correu atrás de mim, dizendo "morreu, morreu, morreu", estendendo os dois braços contraídos numa expectativa de esforço, como se fossem colocar o caixão da mãe sobre as palmas de suas mãos. Afinal, parei ofegante e perguntei, "quanto é?". Por cinco mil cruzeiros ele enterrava a mãe. Não sei por que, tirei um talão de cheques do bolso e fiz ali, em pé na rua, um cheque naquela quantia. Minhas mãos tremiam. "Agora chega!”, eu disse.

No dia seguinte eu não saí para dar a minha volta. Almocei no escritório. Foi um dia terrível, em que tudo dava errado: papéis não foram encontrados nos arquivos, uma importante concorrência foi perdida por diferença mínima; um erro no planejamento financeiro exigiu que novos e complexos cálculos orçamentários tivessem que ser elaborados em regime de urgência. À noite, mesmo com os tranqüilizantes, mal consegui dormir.

De manhã fui para o escritório e, de certa forma, as coisas melhoraram um pouco. Ao meio-dia saí para dar a minha volta.

Vi que o sujeito que me pedia dinheiro estava em pé, meio escondido na esquina, me espreitando, esperando eu passar. Dei a volta e caminhei em sentido contrario. Pouco depois ouvi o barulho de saltos de sapatos batendo na calçada como se alguém estivesse correndo atrás de mim. Apressei o passo, sentindo um aperto no coração, era como se eu estivesse sendo perseguido por alguém, um sentimento infantil de medo contra o qual tentei lutar, mas neste instante ele chegou ao meu lado, dizendo, "doutor, doutor". Sem parar, eu perguntei, "agora o quê?". Mantendo-se ao meu lado, ele disse, "doutor, o senhor tem que me ajudar, não tenho ninguém no mundo". Respondi com toda autoridade que pude colocar na voz, "arranje um emprego". Ele disse, "eu não sei fazer nada, o senhor tem que me ajudar". Corríamos pela rua. Eu tinha a impressão de que as pessoas nos observavam com estranheza. "Não tenho que ajudá-lo coisa alguma", respondi. "Tem sim, senão o senhor não sabe o que pode acontecer", e ele me segurou pelo braço e me olhou, e pela primeira vez vi bem como era o seu rosto, cínico e vingativo. Meu coração batia, de nervoso e cansaço. "É a última vez", eu disse, parando e dando dinheiro para ele, não sei quanto.

Mas não foi a última vez. Todos os dias ele surgia, repentina­mente, súplice e ameaçador, caminhando ao meu lado, arruinando a minha saúde, dizendo é a última vez doutor, mas nunca era. Minha pressão subiu ainda mais, meu coração explodia só de pensar nele. Eu não queria mais ver aquele sujeito, que culpa eu tinha de ele ser pobre?

Resolvi parar de trabalhar uns tempos. Falei com os meus colegas de diretoria, que concordaram com a minha ausência por dois meses.

A primeira semana foi difícil. Não é simples parar de repente de trabalhar. Eu me senti perdido, sem saber o que fazer. Mas aos poucos fui me acostumando. Meu apetite aumentou. Passei a dormir melhor e a fumar menos. Via televisão, lia, dormia depois do almoço e andava o dobro do que andava antes, sentindo-me ótimo. Eu estava me tornando um homem tranqüilo e pensando seriamente em mudar de vida, parar de trabalhar tanto.

Um dia saí para o meu passeio habitual quando ele, o pedinte, surgiu inesperadamente. Inferno, como foi que ele descobriu o meu endereço? "Doutor, não me abandone!" Sua voz era de mágoa e ressentimento. "Só tenho o senhor no mundo, não faça isso de novo comigo, estou precisando de um dinheiro, esta é a última vez, eu juro!" — e ele encostou o seu corpo bem junto ao meu, enquanto caminhávamos, e eu podia sentir o seu hálito azedo e podre de faminto. Ele era mais alto do que eu, forte e ameaçador.

Fui na direção da minha casa, ele me acompanhando, o rosto fixo virado para o meu, me vigiando curioso, desconfiado, implacável, até que chegamos na minha casa. Eu disse, "espere aqui".

Fechei a porta, fui ao meu quarto. Voltei, abri a porta e ele ao me ver disse "não faça isso, doutor, só tenho o senhor no mundo". Não acabou de falar ou se falou eu não ouvi, com o barulho do tiro. Ele caiu no chão, então vi que era um menino franzino, de espinhas no rosto e de uma palidez tão grande que nem mesmo o sangue, que foi cobrindo a sua face, conseguia esconder.

Rubem Fonseca

sábado, 26 de setembro de 2009

Cidade maravilhosa

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

I was in the darkness

I was in the darkness;
I could not see my words
Nor the wishes of my heart.
Then suddenly there was a great light --

"Let me into the darkness again."

Stephen Crane

sábado, 19 de setembro de 2009

Passado

"La borró de la fotografía de su vida no porque no la hubiese amado, sino, precisamente, porque la quiso. La borró junto con el amor que sintió por ella. La gente grita que quiere crear un futuro mejor, pero eso no es verdad, el futuro es un vacío indiferente que no le interesa a nadie, mientras que el pasado está lleno de vida y su rostro nos excita, nos irrita, nos ofende y por eso queremos destruirlo o retocarlo. Los hombres quieren ser dueños del futuro sólo para poder cambiar el pasado. Luchan por entrar al laboratorio en el que se retocan las fotografías y se rescriben las biografías y la historia".

Milan Kundera

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Vem sentar-te comigo

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar. Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Fernando Pessoa (1914)

sábado, 5 de setembro de 2009

Strange days

Strange days have found us
Strange days have tracked us down
They're going to destroy
Our casual joys
We shall go on playing or find a new town
Yeah!

Strange eyes fill strange rooms
Voices will signal their tired end
The hostess is grinning,
Her guests sleep from sinning
Hear me talk of sin and you know this is it
Yeah!

Strange days have found us
And through their strange hours we linger alone
Bodies confused
Memories misused
As we run from the day to a strange night of stone

Ouça aqui

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O Homem Urso

Um estudo magistral sobre a loucura, com imagens inesquecíveis!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Case-se com ele

Quando percebeu que jamais voltaria à dieta e começou a engordar, o prestigiado escritor de novelas policiais decidiu derrubar as paredes que separavam seu amplo escritório do quarto de hóspedes e transformar tudo em uma kitnet particular, com todas as comodidades que um homem de letras obeso e preguiçoso necessitava: uma escrivaninha em madeira maciça com quatro gavetas; duas cadeiras antigas muito resistentes (herança da avó portuguesa); uma confortável poltrona em couro; uma cama King Size em ferro, estilo Art Nouveau; um guarda-roupa de mogno com espelho; um computador conectado à internet; uma impressora a laser; uma televisão 38 polegadas, bem no centro de uma enorme estante em estilo clássico, projetada especialmente para ele por um amigo designer, onde também se encontravam um CD player, um sofisticado aparelho DVD e vários filmes de seus diretores favoritos: Almodóvar, Hitchcock, Bergman, Woody Allen e Buñuel; um banheiro; uma mini-cozinha e uma outra estante (esta em estilo rústico, herança de um tio professor que havia se matado aos 40 anos) cheia de livros, com destaque para os romances policiais, sobretudo os ingleses das décadas de 30, 40 e 50, e obras clássicas de autores brasileiros, ingleses, franceses e russos.

Tratou também de se afastar o máximo possível da sociedade: parou de ir a velórios e festas, de ligar para amigos e parentes, de atender a telefonemas [embora adorasse receber notícias da família: "Ontem seu tio tentou se matar tomando uma cartela inteira de remédio para dormir". "Seu primo comprou um carro importado e no dia seguinte arrebentou-o num muro: deu perda total, coitado". "Sua irmã continua apanhando do marido" (...) - "Bem feito", dizia ele. E gostava também de receber notícias de seus ex-colegas de faculdade. Há alguns meses ficou sabendo que, tirando ele, que era um escritor de sucesso, só dois da turma tinham seguido carreira no mundo das letras: tinham terminado o Mestrado em Lingüística e trabalhavam corrigindo redações em cursinhos pré-vestibulares (e na época da faculdade, eram os mais metidos, com suas intervenções "brilhantes" - que ninguém entendia nada - cheias de referências a autores estrangeiros: "Pessoal, esse texto ainda não foi traduzido para o português, mas vou indicá-lo assim mesmo". "Essa citação eu tirei de uma palestra proferida pelo Barthes na Sorbonne, que infelizmente está em francês, e não tem legenda".) "E eu pergunto", disse o escritor, ao desligar o telefone: "Para que estudar tanto e saber tantas línguas, se vão acabar mesmo é corrigindo redação em cursinho ou, quando muito, dando aulas em escolinhas infames ou em faculdades de quinta categoria, recebendo uma miséria?". Os outros ex-colegas estavam em melhor situação: eram comerciantes, pequenos empresários, donas de casa, jornalistas...].

A esposa, que desde o início do casamento sentia náuseas só de vê-lo nu, ao perceber as mudanças no seu corpo – a cabeça se arredondando, a barriga crescendo, os membros inchando –, deixou definitivamente de transar com ele nos finais de semana (o que antes ela fazia por obrigação), recolhendo-se ao seu quarto todas as noites por volta de nove horas. Trancava a porta, despia-se e chorava, remoendo no peito a dor que a acompanhava desde que aceitara casar-se com ele, “o famoso escritor”: vinte anos mais velho, sistemático, mal-humorado, narcisista e arrogante. Mas a mãe insistiu: "Case-se com ele, minha filha, ele é rico, experiente, tem prestígio, vai cuidar bem de você".

E ela se casou.

Flávio Marcus da Silva

Aniversário

Ele chegou em casa por volta de oito da noite. Tirou a roupa e, de frente para o espelho, apalpou a indesejada barriguinha, que crescia a olhos vistos desde que completara trinta anos (embora já tivesse experimentado várias dietas: da sopa, da proteína, do carboidrato, dos pontos, do tipo sangüíneo...). Aproximou o rosto do espelho e observou as rugas que se formavam na testa e ao redor dos olhos, os pêlos que saíam das duas narinas cheias de muco, a barba de cinco dias falhada nos pontos onde as cicatrizes de espinha eram mais profundas, o cabelo oleoso e despenteado, o olhar vazio, sem vida.

Era seu aniversário de trinta e três anos. Estava sozinho em casa, sem qualquer esperança de receber uma visita ou um telefonema. Não tinha amigos e há muitos anos não dava notícias à família, que vivia no interior. Ocupava um cargo importante no Estado, mas odiava o seu trabalho. Todos os dias era a mesma rotina de processos, procurações, requerimentos e ofícios; o mesmo formalismo no vestir, andar e falar; a mesma sensação de vazio e tempo perdido, que nem o prestígio e o alto salário conseguiam preencher. Seus únicos prazeres eram o passeio pelo centro da cidade após o expediente, quando visitava livrarias e jantava em restaurantes requintados, e a TV a cabo, que assistia todas as noites em casa, deitado no enorme sofá da sala, completamente nu.

Naquela noite ele trouxe para casa um bolo de aniversário que havia encomendado em uma confeitaria perto do prédio onde trabalhava. Ele mesmo havia escolhido o recheio: de nozes e damasco; e a cobertura: de limão e caramelo. Assim que se despiu, dirigiu-se à cozinha e se serviu de um pedaço, que comeu em pé, enquanto abria a geladeira e pegava uma latinha de guaraná diet. Levou a caixa com o bolo e o refrigerante para a sala, onde ligou a televisão e se acomodou no sofá, preparando-se para assistir a mais um episódio do seu seriado americano favorito. Com a mão esquerda, sem usar faca ou qualquer outro talher, serviu-se de mais um pedaço do bolo, lambuzando a boca e o queixo enquanto comia. Do nariz escorria um líquido gelatinoso, que ele espalhava pelo rosto com as mãos e depois limpava no peito, na barriga ou nas almofadas do sofá. Os olhos estavam úmidos e avermelhados.

Às duas horas da madrugada, ele desligou a TV, foi para a janela que dava para a frente da casa e acendeu um cigarro. Deve ter ficado ali uns dez minutos fumando e observando a rua deserta, até que o velho casal de aposentados apareceu na calçada, do outro lado, e começou a fuçar o lixo do vizinho. Ele conhecia a história daquele casal, sabia de suas excentricidades e maluquices, mas mesmo assim resolveu tentar uma abordagem. Chamou-os com rápidos movimentos dos braços, que imediatamente foram vistos pelo velho. A mulher observava atentamente uma cabeça de boneca, segurando-a com as duas mãos, bem perto dos olhos, quando recebeu um cutucão do marido. Da janela, o rapaz fazia sinais, pedindo para que o casal se aproximasse. Quando os dois atravessaram a rua e pararam em frente ao portão da casa, ele disse: “Eu tenho aqui um bolo de aniversário. Vocês querem um pedaço?”. O velho balançou a cabeça em sinal de afirmação.

O que havia sobrado do bolo foi entregue ao casal, que pareceu nem ter notado a nudez do rapaz quando ele se aproximou do portão. A velha colocou o bolo junto com a cabeça de boneca em uma sacola de plástico e saiu na frente, sem dizer nada. O velho ficou parado, olhando a casa e as plantas do jardim por alguns segundos. Depois, baixou a cabeça e seguiu a mulher.

Ao ver que os dois haviam virado a esquina, o rapaz entrou, foi à cozinha, fez um café e esperou o dia raiar.

"Mais um...".

Flávio Marcus da Silva

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Baratas

Ele devia ter uns vinte e oito anos. Morava com a mulher e o filho na casa da sogra – uma viúva gorda e vaidosa –, que com a pensão deixada pelo marido militar sustentava a casa sozinha e ainda pagava a faculdade do genro, sem chiar.

Ao acordar todos os dias por volta de onze e meia da manhã, ele almoçava – quase sempre reclamando da comida "sem sal" ou "salgada demais", "com gosto de queimado" ou "sem gosto de nada" –, levava o filho de cinco anos à escola e ia direto para a Biblioteca Pública estudar.

Em casa, a jovem esposa gostava de ouvir música Punk e fumar maconha a tarde inteira, o que impedia qualquer um de se concentrar no que quer que fosse. Por isso, nesse período, a casa era só dela.

Na Biblioteca, porém, o que ele menos fazia era estudar. Ficava fuçando os livros nas estantes, reclamando da "bagunça", da "sujeira", da falta disso e daquilo, do atendimento das funcionárias "mal vestidas", "incompetentes" e "burras", do barulho, do calor, da iluminação.

Depois de encher bastante o saco do pessoal da Biblioteca, ele costumava dar uma volta pelo centro da cidade. Como a esposa dividia com ele a mesada que recebia da mãe, ele costumava fazer compras à tarde: sapatos, calças, camisas, bermudas, chinelos, CDs, chocolates, remédios; e quase todos os dias tomava café numa lanchonete em frente à igreja, onde também reclamava de tudo: do pão de queijo "sem queijo", do pastel de carne "sem carne", do café "fraco demais" ou "forte demais", da empadinha "sem recheio", dos mosquitos pousando nos bolos e biscoitos, das tortas "sem gosto".

Uma vez ele quase levou uma surra do dono da lanchonete, que, sentado na cozinha, ao ouvi-lo reclamar de um bolo de fubá, levantou-se num salto e, com os punhos fechados, dirigiu-se à porta que dava para o balcão, disposto a arrancar a socos todos os dentes da sua boca – mas foi impedido pela filha, que jogou um tabuleiro de empadinhas recém saídas do forno sobre a mesa e correu pra frente da porta implorando "Pai, pelo amor de Deus, não faça isso".

Para ele, humilhar e constranger as pessoas era um prazer a mais na sua vida. Distribuía críticas e comentários venenosos, sorrisos irônicos e olhares de escárnio a qualquer um que cruzasse o seu caminho. Achava-se superior a todo mundo, imbatível, dono de todas as verdades.

Mas de muitas verdades ele nem desconfiava.

Não desconfiava, por exemplo, que em casa, pelo menos duas vezes por semana, sua jovem e linda esposa recebia a visita de um rapaz negro, estudante de Enfermagem, que a fazia gozar como nunca na cama do casal; que as funcionárias da Biblioteca imitavam o seu jeito de falar meio fanhoso e efeminado, riam do seu "cabelinho de bicha" e comentavam detalhes das últimas transas da sua mulher com o "enfermeiro tripé", primo de uma delas; que vários professores deixavam as provas dele para serem corrigidas por último, com muita atenção, para que a elas fossem atribuídas as piores notas possíveis, sem que ele tivesse a mínima condição de reclamar; que requerimentos entregues por ele em repartições públicas da cidade eram sempre misturados aos últimos da fila; que lojistas, frentistas e mecânicos faziam questão de passá-lo pra trás, sempre que possível; e por aí vai.

Mas a pessoa que mais o odiava era a filha do dono da lanchonete.

Uma vez por semana, ela entrava na velha casa abandonada da esquina e escolhia duas ou três baratas bem gordas entre as milhares que infestavam o lugar. Deixava-as em uma caixa de papelão e, na sexta-feira (dia dele ir à lanchonete comer pastel de carne com refrigerante), ela preparava o recheio.

Por volta de três da tarde, usando uma caneta vermelha, a jovem riscava uma das trinta baratinhas desenhadas em uma lista intitulada Baratas, que ela levava toda sexta-feira para a lanchonete. Depois, escolhia a barata mais gorda da caixa e a picava bem fininho, em minúsculos pedacinhos, usando uma faca afiada reservada especialmente para isso. Misturava à barata alho, sal, pimenta do reino, salsinha, cebola picadinha e refogava tudo em óleo, acrescentando, em seguida, o extrato de tomate e a carne.

Sua meta era fazê-lo comer trinta baratas gordas.

Flávio Marcus da Silva

domingo, 23 de agosto de 2009

Atrás da montanha

Da enorme janela panorâmica, que ocupava uma parede inteira da sua sala de estar, o homem tinha uma visão privilegiada da cidade, com suas casas e prédios estendendo-se até as margens do rio de águas escuras que cortava a região e desaparecia atrás de uma imponente montanha ao sul. Desde que conseguiu fraudar a Previdência Social e se aposentar por invalidez, ele se dizia todas as manhãs, ao se levantar, que naquele dia atravessaria a cidade a pé, alugaria um barco e desceria o rio até o vilarejo mais próximo, onde ficaria hospedado em uma pensão barata por dois dias. Dez anos de aposentadoria já haviam se passado e ele não conhecia o rio nem o vilarejo, que, diziam, tinha o cemitério mais antigo da região.

O homem adorava cemitérios. Todo sábado à tarde, depois de tomar uma xícara de café preto bem forte, ele vestia uma calça jeans surrada e uma camisa de algodão, calçava um velho par de tênis, besuntava o rosto e os braços com protetor solar fator 50 e saía em direção ao cemitério local. Era lá que estavam enterrados seus avós, pais, tios e alguns poucos amigos. Na cidade, seu único parente vivo era uma tia corcunda de oitenta anos, que vivia sozinha numa velha casa de madeira, construída no início do século XIX pelos primeiros membros da sua família que chegaram à cidade, vindos de Sintra, Portugal. Os historiadores locais, que viviam de compilar documentos e publicar textos que ninguém lia, diziam que os primeiros moradores daquela casa haviam sido expulsos de Portugal, acusados de bruxaria.

No cemitério, visitava primeiro os túmulos dos ricos, quase todos erguidos com blocos de granito ou mármore escuro, com conjuntos estatuários de bronze esculpidos por artistas de renome e belas inscrições gravadas na pedra ou em metal, impecáveis; depois visitava os dos pobres, que ficavam no alto de um morro sem árvores, com acesso dificultado pela topografia do terreno e pela estreiteza dos caminhos. "Como na vida", dizia para si mesmo, enquanto caminhava entre túmulos de alvenaria, pintados com tinta barata ou cal, ou cobertos de azulejo ou pedra ardósia. Olhava, melancólico, as fotos das pessoas falecidas, a maioria velhos; mas ultimamente vinha notando um aumento muito grande do número de jovens mortos em acidentes de trânsito ou assassinados.

No último sábado, notou que o velório estava lotado. Parou na porta, pensativo. Não conseguiu ler o nome do defunto, mas sabia que era alguém importante, pelo número de carros de luxo no estacionamento, homens de terno e gravata entrando e saindo, coroas de flores (das mais caras e requintadas) dispostas no passeio público e, também, pelo silêncio sepulcral que reinava no recinto, sem gritos de desespero, sem prantos, sem escândalo. O homem não entrou. Achava o cúmulo da hipocrisia ir a velórios quando mal se conhecia o morto e sua família, e cumprimentar parentes e amigos enlutados, com ar grave, fingindo tristeza, só para satisfazer uma curiosidade mórbida ou o desejo sádico de assistir à dor do outro.

Quando morreu seu pai, não contou para ninguém. Velou-o sozinho, em casa, com o caixão aberto em frente à janela panorâmica, tomando café e vendo a cidade se movimentar para cumprir a sina de mais um dia, enquanto, ao fundo, o rio de águas escuras corria lentamente em direção à montanha. No enterro, caía uma chuvinha fina e gelada. Quando a urna atingiu o fundo, convidou o coveiro a fazer uma prece silenciosa e, em seguida, enterraram o velho. A tia corcunda observava tudo de longe, protegida por uma sombrinha, e tão de repente quanto havia surgido, desapareceu.

Naquele dia, voltou para casa, preparou um café com torradas e sentou-se numa poltrona, bem ao lado de onde tinha estado o corpo do pai. Olhou para a janela e acompanhou um barco que descia o rio, até desaparecer na curva que terminava atrás da montanha.

Sob os últimos raios de sol do dia, as águas escuras brilhavam.

Flávio Marcus da Silva

sábado, 22 de agosto de 2009

Vermelho sangue

Na sala de espera da clínica psiquiátrica o jovem professor aguardava sua vez de ser atendido pela psicóloga, enquanto observava um casal de idosos sentado num dos confortáveis bancos à sua frente. [Naquele dia, antes de se encontrar com o médico, ele teria que conversar de novo com a psicóloga]. Olhou para o casal e perguntou em voz alta: “Será que são sempre os mesmos lugares?”. Os velhos se olharam, sem entender, e o jovem acrescentou, com voz de mulher: Hoje você está em uma cabana de madeira, no meio de uma floresta escura e úmida, com uma vassoura na mão. A cabana está suja e você vai limpá-la... “Pelo amor de Deus! Vocês já passaram por isso?”. O casal continuou em silêncio, com os olhos esbugalhados. De um salto, o rapaz se levantou, serviu-se de uma xícara de chá de erva cidreira e resmungou, enquanto bebia: “Assim que eu terminar essa maldita limpeza e pegar a receita, vou sair correndo daqui e tomar um café bem forte no primeiro boteco que eu encontrar".

Foi para a janela e acendeu um cigarro. "Não agüento mais essa gente doida. Hoje tá até bom, só tem dois velhinhos, mas tem dia que é duro: é adolescente chorando, gente retorcendo as mãos, arrancando os cabelos, roendo as unhas, batendo a cabeça na parede, você precisa ver. Às vezes encontro alguns deitados nos bancos ou no chão, prostrados, totalmente grogues, duros que nem defuntos. Mas os que mais me enchem o saco são os falantes. Uma vez um rapaz ficou meia hora na frente do espelho do lavabo olhando uma marca de espinha na testa e gritando: 'Eu sei que é câncer, só pode ser câncer... ai meu Deus, meu Deus... ', e eu não agüentei, tive que rir. Outra vez acompanhei o caso de uma jovem que não aceitava o fato dela não ser a mais bonita, a mais inteligente, a mais rica, a mais importante, enfim, a melhor de todos em tudo na escola onde estudava, e mesmo medicada, sua fala era uma só: 'Naquele dia eu tirei o primeiro lugar', e eu ganhei isso, ganhei aquilo... Coitada. E a mãe escutava aquela ladainha, talvez se sentindo culpada por ter criado um mundo de fantasias em torno da menina, enchendo-a de brinquedos, vestidos, sapatos, celulares... Mas e você? O que tá fazendo aqui? Veio buscar uns remedinhos também? Quer um cigarro?".

Depois de “varrer” uma meia dúzia de arquivos infectados do seu inconsciente, o jovem professor entrou na sala do psiquiatra, descreveu para ele alguns sintomas que guardava na manga para quando precisasse de alguma coisa mais forte, e saiu feliz da vida, com uma receita azul suficiente para mais dois meses. "Foi até fácil convencê-lo a dobrar a dosagem", disse em voz alta, ao entrar no carro, "você não acha?", perguntou. Silêncio... "Amanhã vou convencer o médico-perito a me dar mais uma licença. Se eu tiver que voltar para a sala de aula semana que vem, eu mato o primeiro aluno que me fizer uma pergunta idiota, você pode ter certeza disso".

Parou numa loja de conveniências de um posto de gasolina e pediu um capuccino bem forte, com muito café e chocolate. Enquanto saboreava a bebida, folheou um dos jornais da cidade. "Peraí, esse cara eu conheço...", disse ao ver a foto de um rapaz de trinta e poucos anos ao lado de uma linda jovem estrangeira. "O veado vai se casar com uma alemã!?", exclamou, surpreso. "Será que ninguém desconfia que ele é gay?". Saiu do posto e parou numa farmácia para comprar o remédio. Pediu um copo d'água ao farmacêutico e tomou um comprimido ali mesmo.

A poucos metros do prédio onde morava, numa rua estreita de um bairro de classe média, dois carros bloqueavam a passagem. O cara que estava no banco do passageiro de um Honda prateado tinha descido, e com uma latinha de cerveja na mão, conversava com a loira oxigenada que guiava o outro carro, um Peugeot preto. O professor, no seu Santana de cor não identificada, esperou dois minutos e buzinou. O cara fez sinal para ele ter paciência e voltou a conversar, com os braços debruçados na janela do Peugeot. O professor buzinou de novo, e o outro gritou: "Vai pra putaquetepariu".

Ao ouvir aquilo, o professor deu uma ré, respirou fundo e arrancou com violência pra cima dos dois carros. Com o impacto, o rapaz e a latinha voaram longe; a loira arrebentou a cabeça no vidro da frente; e o motorista do Honda saiu correndo com o rosto todo lambuzado de sangue e caiu ao lado do outro cara, que gemia e gritava de dor no asfalto quente. Mesmo machucado, o professor deu outra ré e arrancou de novo, acabando com o seu carro na traseira da loira que, dessa vez, perdeu todos os dentes da frente e desmaiou encima do volante.

Antes que qualquer pessoa o segurasse e chamasse a polícia, o professor desceu do seu Santana destruído, entrou no Honda, arrancou o carro e passou por cima dos dois homens, indo e voltando umas quinze vezes, enquanto gritava Bloody red, bloody red, com os olhos cheios de ódio.

Depois, com o carro parado, abriu a caixa de CDs e colocou This is not America, de Bowie e Metheny. "Que coincidência", disse, virando-se para o banco de trás. "Estava pensando justamente nessa música". Fixou o olhar num ponto próximo à janela direita do carro e perguntou: "Era isso que você queria?".

For this is not America, sha la la la la...

"Anda, fala alguma coisa, caralho".

Flávio Marcus da Silva

This is not America

Outras atividades

Antes de completar trinta e cinco anos, o professor de química mais dedicado e talentoso de que se tinha notícia na cidade abandonou a sala de aula e comprou uma perua adaptada para vender lanches, com a qual passou a ganhar o triplo do que recebia como professor, com a vantagem extra de não ter que preparar aulas nem corrigir trabalhos e provas nos finais de semana.

Todas as manhãs ele parava a perua em frente à entrada de um abatedouro de frangos e vendia café com leite e pão com ovo na chapa para os empregados que saíam do turno da noite ou que começavam o trabalho pela manhã. Anotava os lanches em um caderno e cobrava dos clientes só no dia do pagamento.

Gostava de vê-los comer. Alguns chegavam a dar três mordidas no pão antes de engolir, e ainda bebiam café com leite por cima, misturando tudo na boca, com enorme prazer. O cheiro de vísceras e fezes de frango abatido tomava conta do ar, tornando-o quase irrespirável, mas os trabalhadores nem ligavam; conversavam e riam enquanto comiam, segurando os sanduíches e os copos descartáveis com mãos calejadas, enrugadas, as unhas pretas, sujas de sangue. Alguns eram quase crianças; outros, velhos; mas a maioria era jovem, de vinte, trinta anos no máximo, exibindo suas tatuagens de dragões, lagartos e borboletas; seus dentes podres; lábios trincados; pele encardida, ressecada.

Alguns tinham sido seus alunos no Ensino Médio. Chegavam ao primeiro ano semi-analfabetos, e assim continuavam, até se formarem (quando não desistiam antes, por falta de perspectivas). Os próprios professores, mal pagos, estressados e infelizes, desestimulavam o estudo, com aulas que eram a mais pura enrolação. Insuportáveis. É claro que havia alguns excelentes educadores, mas eram poucos, e diminuíam cada vez mais. Enquanto funcionários do alto escalão do governo elaboravam projetos sofisticados e produziam materiais didáticos com metodologias avançadas para a Educação, os professores abandonavam a sala de aula, deixando para trás, muitas vezes, um ideal, uma paixão, para se dedicarem a outras atividades, mais rentáveis.

Por volta de dez horas da manhã, o ex-professor chegava em casa e encontrava a esposa no fogão, preparando os marmitex que ele entregava todos os dias nas confecções e lojas do centro da cidade. Arroz, feijão, macarrão, salada e bife de frango, porco ou boi. O tempero da mulher era muito elogiado pelos clientes, sempre fiéis. Muitas sacoleiras que vinham de outras cidades para comprar roupa também levavam os marmitex; e para ele era um prazer vê-las sentadas nos degraus das lojas ou nas calçadas, comendo com colheres e garfos descartáveis, levando os bifes à boca com as próprias mãos, lambuzadas de molho e gordura de porco. Ao terminarem, lambiam os dedos e os beiços com sofreguidão.

Às cinco da tarde, estacionava a perua em uma vaga reservada para ele na praça principal da cidade, onde às seis horas muita gente passava, voltando para casa depois do trabalho; às nove, vários casais de namorados passeavam de mãos dadas; e às onze, prostitutas, travestis e garotos de programa ofereciam seus corpos a homens e mulheres à procura de prazer sem compromisso. Ali, vendia cachorro quente e vários tipos de sanduíches, que eram servidos com refrigerante ou suco. Enquanto esperavam seus lanches, os casais de namorados ficavam em silêncio, sentados nos bancos da praça, olhando o movimento. As namoradas geralmente pediam cachorro quente e suco, e os namorados sanduíche de pernil - com cebola, pimentão e bacon - e um copo de refrigerante. Elas comiam com delicadeza; eles, com avidez.

Uma noite, quando se preparava para ir embora, viu uma prostituta novata se aproximar de um carro e imediatamente reconheceu-a: era uma ex-aluna. Na noite seguinte, reconheceu um garoto de programa: era um ex-professor de Educação Física que, como ele, havia desistido da profissão para tentar a sorte em outras atividades.

Flávio Marcus da Silva

Foto: Sebastião Salgado

Vivaldi

Antonio Vivaldi (1678-1741)