segunda-feira, 29 de setembro de 2014

uma bomba


"De repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo 
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda"
António José Forte (1931-1988), poeta português. In: Uma Faca nos Dentes

De um e outro lado do que sou


"De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação, 
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.
Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece."
Nuno Júdice (1949-). In: Meditação sobre Ruínas

verdades


"Estão todas as verdades 
à espera em todas as coisas: 
não apressam o próprio nascimento 
nem a ele se opõem, 
não carecem do fórceps do obstetra, 
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)"
...
Walt Whitman (1819-1892). Leaves of Grass [Folhas de Relva] (1855)

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

If you forget me

...
"Everything carries
me to you,
as if everything 
that exists,
aromas, light, metals,
were little boats
that sail toward
those isles of yours
that wait for me."
...
Pablo Neruda (1904-1973). If you forget me [Si tu me olvidas]

Nove noites


"Numa das vezes em que me falou de suas viagens pelo mundo, perguntei aonde queria chegar e ele me disse que estava em busca de um ponto de vista. Eu lhe perguntei: 'Para olhar o quê?'. Ele respondeu: 'Um ponto de vista em que eu já não esteja no campo de visão'. (...)
Também demorei a entender o que ele queria dizer com aquilo, o que havia de mais terrível nas suas palavras: que, ao contrário dos outros, vivia fora de si. Via-se como um estrangeiro e, ao viajar, procurava apenas voltar para dentro de si, de onde não estaria mais condenado a se ver. Sua fuga foi resultado do seu fracasso. De certo modo, ele se matou para sumir do seu campo de visão, para deixar de se ver."
Bernardo Carvalho (1960-). Nove noites (2002). São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 111-12

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

eu e minha mulher morta



"abracei o corpo da minha mulher, segurei-lhe a mão, a sua cabeça no meu ombro, criei um pequeno embalo, como para adormecê-la, ou como se faz a quem chora e queremos confortar. vai ficar tudo bem, vai correr tudo bem. o que era impossível, e o impossível não melhora, não se corrige. estávamos encostados à parede, sob o cortinado, como fazíamos na juventude para os beijos e para as partilhas tolas de enamorados. estávamos escondidos de todos, eu e a minha mulher morta que não me diria mais nada, por mais insistente que fosse o meu desespero, a minha necessidade de respirar através dos seus olhos. a minha necessidade vital de respirar através do seu sorriso. eu e a minha mulher morta que se demitia de continuar a justificar-me a vida e que, abraçando-me como podia, entregava-me tudo de uma só vez. e eu, incrível, deixava tudo de uma só vez ao cuidado nenhum do medo e recomeçava a gritar."

Valter Hugo Mãe (1971-), escritor angolano. a máquina de fazer espanhóis (2010). São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 21.

velhice


"...a posição deles era já a de iguais, ligados uns aos outros pelos destinos tão inevitáveis e equiparados que agora cumpriam. que paisagem de velhos tão nítida era aquela. pouco importava que o orgulho lhes trouxesse ao de cima o passado profissional, mais ou menos brilhante, mais verdadeiro ou mentiroso, porque muitos mentem sem pudor para não se deixarem humilhar, pouco importava tudo isso porque tão na extremidade da vida eram todos a mesma coisa..."

Valter Hugo Mãe (1971-), escritor angolano. a máquina de fazer espanhóis (2010). São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 28.

Soneto da Maioridade



"O Sol, que pelas ruas da cidade
Revela as marcas do viver humano
Sobre teu belo rosto soberano
Espalha apenas pura claridade.

Nasceste para o Sol; és mocidade
Em plena floração, fruto sem dano
Rosa que enfloresceu, ano por ano
Para uma esplêndida maioridade.

Ao Sol, que é pai do tempo, e nunca mente
Hoje se eleva a minha prece ardente:
Não permita ele nunca que se afoite

A vida em ti, que é sumo de alegria
De maneira que tarde muito a noite
Sobre a manhã radiosa do teu dia."

Vinicius de Moraes (1913-1980). Soneto da Maioridade (1954). In: Nova Antologia Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 155

coisa nenhuma


"Enfim, era tudo muito calado onde se esperava a morte, até o que se dizia perdia sentido e funcionava apenas como uma reverberação do silêncio, coisa nenhuma, coisa rigorosamente nenhuma."

Valter Hugo Mãe (1971-), escritor angolano. a máquina de fazer espanhóis (2010). São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 65

violência na terceira idade



"isto é violência na terceira idade. sabem por quê, porque o nosso inimigo é o corpo. porque o corpo é que nos ataca. estamos finalmente perante o mais terrível dos animais, o nosso próprio bicho, o bicho que somos. que decide que é chegado o momento de começar a desligar-nos os sentidos e decide como e quando devemos padecer de que tipo de dor ou loucura. pois eu que tenho cem anos e podia quase ser vosso pai quero dizer-vos que ser-se velho é viver contra o corpo. o estupor do bicho que nós somos e que já não nos suporta mais. a violência na terceira idade."

valter hugo mãe (1971-), escritor angolano. a máquina de fazer espanhóis (2010). São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 126

fantasia



"...muito do que não existe é do mais importante da vida, não despreze nada, senhor silva, agarre-se a uma fantasia se for boa, que a realidade é benfeita desses momentos mais espertos de lhe fugirmos de vez em quando."

valter hugo mãe (1971-), escritor angolano. a máquina de fazer espanhóis (2010). São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 181

sexo nos corpos



"...estamos muito calados hoje. estamos calados, colega silva. e o doutor bernardo respondeu-lhe, estamos a comer, é da fome. e eu disse, o anísio anda a namorar. o esperto do anísio anda a ver raparigas enquanto nós nos pomos para aqui a pensar que já não há nada para fazer com esta idade. e o silva da europa animou-se todo e comentou, bem que me parecia que aquela conversa do sexo nos corpos, e a máquina querer sexo, e as hormonas ou sei lá o quê, tinha de ser explicada de um modo menos intelectual. não é que o diabo anda a ver se ainda põe ovos com o rabinho comido de supositórios."

valter hugo mãe (1971-), escritor angolano. a máquina de fazer espanhóis (2010). São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 213

domingo, 7 de setembro de 2014

Dia de dilúvio


"Quando chove assim tão seguidamente na serra
e começa a pingar água na casa e a goteira
cresce e a pia entope e alaga o chão,
quando não cessa esse barulho insistente
de água penetrando em tudo e rolando,
sinto uma desproteção total violenta
e eu mesmo sendo dissolvido também
nessa casa alagada, não me acho
enquanto solidez: vou flutuando
como onda inconstante na correnteza."

Leonardo Fróes (1941-). Dia de dilúvio. In: modo de usar & co (blog)

O canto do menino


"O canto desse menino
talvez tenha sido em vão.
Mas ele fez o que pôde.
Fez sobretudo o que sempre
lhe mandava o coração."

Thiago de Mello (1926-). Faz escuro mas eu canto (1966). 12ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989, p. 81

Morte


"Nos recôncavos da vida
jaz a morte.
Germinando
no silêncio.
Floresce
como um girassol no escuro.
De repente vai se abrir.
No meio da vida, a morte
jaz profundamente viva."

Thiago de Mello (1926-). Faz escuro mas eu canto (1966). 12ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989, p. 64

na construção da manhã



"Cidadão brasileiro,
natural do Amazonas,
39 anos, casado,
eleitor e reservista,
pai de dois filhos e poeta,
que ficou desempregado.
Nunca no entanto tive tanto trabalho,
trabalho o tempo inteiro e não me canso
porque trabalho cantando
na construção da manhã:
manhã geral de amor que vai chegar."

Thiago de Mello (1926-). Faz escuro mas eu canto (1966). 12ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989, p. 48

Like a rolling stone



"How does it feel, how does it feel?
To be on your own, with no direction home
A complete unknown, like a rolling stone"

Bob Dylan

regresso



"As lágrimas corriam, os olhos não podiam mais ver, mas aquela asfixia mortal tinha-se desvanecido. Quando caiu em si, sentindo o gosto de sal em seus lábios e percebendo que estava chorando, houve um momento em que lhe pareceu tornar-se de novo um menino e não ter maldade nenhuma. Sorriu, envergonhou-se um pouco de suas lágrimas, finalmente ergueu-se e prosseguiu viagem. Sentia-se inseguro, não sabia aonde a fuga o haveria de conduzir nem o que seria dele. Comparava-se a uma criança, mas não havia mais nenhum combate ou vontade dentro dele, sentia-se mais leve e conduzido, como que atraído e chamado por uma voz longínqua e bondosa, como se sua viagem não fosse uma fuga, mas sim um regresso. Foi ficando cansado e a razão também: ela já não falava mais, ou descansava, ou então já não se cria mais indispensável."

Hermann Hesse (1877-1962). O jogo das contas de vidro (1943). 4ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, p. 596

Vida simples

"...o destino de quem deseja e vai atrás de uma vida mais simples é a liberdade, e não a opressão ou a privação. Liberdade de dizer não ao consumismo, liberdade de não precisar de tantas coisas, liberdade para pensar de forma independente de qualquer anúncio publicitário, liberdade de trabalhar menos para curtir mais a família e os amigos (já que não será preciso ter dinheiro para comprar 'o mundo inteiro')…"

planetasustentavel.abril.com.br

Diferente



"Em casa ele até que ficava feliz, escutando Joni Mitchell e lendo livros, mas isso não adiantava de nada na escola. Era engraçado, porque a maioria das pessoas provavelmente acharia o contrário – que ler livros em casa só poderia ajudar, mas não ajudava; tornava-o diferente, e por ser diferente ele se sentia pouco à vontade, e por se sentir pouco à vontade sentia-se flutuando para longe de tudo e de todos, dos colegas, dos professores e das aulas."

Nick Hornby (1957-), escritor inglês. Um Grande Garoto. Rio de Janeiro: Rocco, 2000

Chega um dia


"Chega um dia em que o dia se termina
antes que a noite caia inteiramente.
Chega um dia em que a mão, já no caminho,
de repente se esquece do seu gesto.
Chega um dia em que a lenha já não chega
para acender o fogo da lareira.
Chega um dia em que o amor, que era infinito,
de repente se acaba, de repente.

Força é saber amar doce e constante
com o encanto de rosa alta na haste,
para que o amor ferido não se acabe
na eternidade amarga de um instante."

Thiago de Mello (1926-). Faz escuro mas eu canto (1966). 12ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989, p. 60

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O poeta e o músico



"O poeta que louva o sublime e o terrível da vida no passo ritmado de seus versos, o músico que os leva a vibrações sonoras, capazes de tudo exprimir num puro presente, é um portador de luz, multiplicador de alegria e claridade na Terra, mesmo que ele nos conduza primeiro entre lágrimas e dolorosa tensão. Talvez o poeta cujos versos nos arrebatam tenha sido um triste solitário e o músico, um sonhador melancólico, mas também então a sua obra participa da harmonia dos deuses e das estrelas. O que ele nos dá não é mais sua escuridão, o seu sofrimento ou o temor, é uma gota de pura luz, de eterna serenidade."

Hermann Hesse (1877-1962). O jogo das contas de vidro (1943). 4ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, p. 377-8

A menina e a fruta



"Um dia, apanhando goiabas com a menina,
ela abaixou o galho e disse pro ar
– inconsciente de que me ensinava –
'goiaba é uma fruta abençoada'.
Seu movimento e rosto iluminados
agitaram no ar poeira e Espírito:
o Reino é dentro de nós,
Deus nos habita.
Não há como escapar à fome da alegria!"

Adélia Prado (1935-). A menina e a fruta. In: Terra de Santa Cruz (1981). Poesia reunida. São Paulo: Arx, 1991, p. 256

Poema a meu pai


"Meu pai morreu longe de mim
(eu é que estava longe dele).
Tantos anos se passaram
e ainda não lhe vi a sepultura.
Continuo longe.
Mas sua presença me sacode
como um choque elétrico,
uma bebida forte que me arde
por dentro.
Está vivo nos meus dedos,
nos cabelos ralos
— a nuca dá arrepios de se ver.
Está cada vez mais perto de mim
(eu é que estou mais perto dele)."

Ivo Barroso (1929). Poema a meu pai. In: Moacyr Félix. 41 Poetas do Rio. Rio de Janeiro: Funarte, 1998

Bulha



"Às vezes me levanto de madrugada, com sede,
flocos de sonho pegados na minha roupa,
vou olhar os meninos nas suas camas.
O que nestas horas mais sei é: morre-se.
...
A menina que durante o dia desejou um vestido
está dormindo esquecida e isto é triste demais,
porque ela falou comigo: 'acho que fica melhor com babado'
e riu meio sorriso, embaraçada por tamanha alegria.
Como é possível que a nós, mortais, se aumente o brilho nos olhos
porque o vestido é azul e tem um laço?
Eu bebo a água e é uma água amarga
e acho o sexo frágil, mesmo o sexo do homem."

Adélia Prado (1935-). Bulha. In: O coração disparado (1978). Poesia reunida. São Paulo: Arx, 1991, p. 256

Retrato



"Eu não tinha este rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios, 
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, 
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança, 
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?"

Cecília Meireles (1901-1964). Retrato. In: Antologia Poética

muito longo, não li



"A regra na internet hoje é dois ou três parágrafos (...). Criaram uma sigla para isso: tldr, 'too long, didn't read' (muito longo, não li). Acho sintomático e triste porque não é a questão de ser mal escrito ou enfadonho, mas simplesmente porque é longo. Aqueles artigos e entrevistas com aprofundamento que líamos antigamente hoje estão cada vez mais raros. O que importa é a fofoca, o imediatismo sem edição, cheio de erros de português e de apuração. É o estado do jornalismo, e não só da crítica cultural, cuja tendência é mesmo acabar."

Pablo Villaça, crítico, professor e criador do site Cinema em Cena, para o Jornal O TEMPO, 31 de agosto de 2014

O conjurador de chuva



"...concentrava dentro de seu ser o tempo, vibrando em concordância com ele e trazendo-o consigo, de modo a poder dar ordens às nuvens e aos ventos: não por um ato de vontade arbitrário, mas por uma união, uma ligação que abolia por completo a diferença entre ele e o mundo, entre sua essência íntima e o universo exterior. Então ele ficava parado escutando, num enlevo; punha-se de cócoras, com todos os poros abertos, não só sentindo a vida dos ares e das nuvens em seu íntimo, como também dirigindo essa vida, produzindo-a...".

Hermann Hesse (1877-1962). O jogo das contas de vidro (1943). 4ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, p. 559

sábado, 23 de agosto de 2014

Poder



"Era agradável e sedutor exercer domínio sobre os outros e brilhar aos olhos alheios, mas encerrava, por outro lado, algo demoníaco e perigoso, e a história universal consistia numa fila ininterrupta de senhores, chefes, poderosos e mandantes que, com raríssimas exceções, haviam principiado bem e terminado mal, e haviam, pelo menos aparentemente, aspirado ao poder em prol do bem, para mais tarde se tornarem possessos e embriagados por esse mesmo poder, amando o poder pelo poder."

Hermann Hesse (1877-1962). O jogo das contas de vidro (1943). 4ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, p. 163

História


"Admito que quem estuda a História pode ter crença infantil e comovente no poder organizador do nosso espírito e do método em si, mas deve além disso respeitar a incompreensível verdade, a realidade e a originalidade do fenômeno. Estudar a História, meu caro, não é uma brincadeira nem uma ocupação infantil e irresponsável. Estudar a História requer o conhecimento prévio de que com esse estudo se almeja algo impossível de atingir, e todavia necessário e importantíssimo. Estudar a História significa entregar-se ao caos, conservando a crença na ordem e no sentido. É uma tarefa muito séria, rapaz, talvez mesmo trágica."

Hermann Hesse (1877-1962). O jogo das contas de vidro (1943). 4ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, p. 201