domingo, 30 de agosto de 2015

Banho de mar


"Durante a estada do seu regimento na Normandia, Reiter costumava se banhar nos rochedos de Portbail, perto de Ollonde, ou nos do norte de Carteret. Seu batalhão estava concentrado no vilarejo de Besneville. De manhã saía, com as armas e uma mochila onde levava queijo, pão e meia garrafa de vinho, e ia andando até a praia. Ali escolhia uma pedra, fora da vista de qualquer um, e, depois de nadar e mergulhar pelado horas a fio, se estendia em sua pedra e comia e bebia e relia seu livro 'Alguns animais e plantas do litoral europeu'.

Às vezes encontrava estrelas-do-mar, que ele ficava espiando tanto quanto seus pulmões aguentavam, até que finalmente se decidia a tocar nelas antes de emergir. Uma vez viu um par de peixes ósseos, Gobius paganellus, perdidos numa selva de algas, que ele seguiu por um instante (a selva de algas era como a cabeleira de um gigante morto), até que uma angústia estranha, poderosa, se apossou dele e ele teve de sair rapidamente, porque se houvesse ficado um pouco mais debaixo d'água a angústia o teria arrastado para o fundo.

Às vezes sentia-se tão bem, cochilando na sua laje úmida, que nunca mais teria se reincorporado ao batalhão. E em mais de uma ocasião pensou seriamente nisso, desertar, viver como um vagabundo na Normandia, encontrar uma gruta, comer da caridade dos camponeses ou de pequenos furtos que iria realizando e que ninguém denunciaria. Teria olhos de nictalope, pensou. Com o tempo minhas roupas ficariam reduzidas a farrapos e finalmente viveria nu. Nunca mais voltaria para a Alemanha. Um dia morreria afogado e radiante de felicidade."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 644-5

Kafka and the small girl



"It was during this early period in Berlin that Kafka and Dora, on one of their walks in a local park, encountered a small girl who was weeping because she had lost her doll. Kafka, always touched by the sufferings of small children, told her that the doll was not lost. It had gone on a journey during which it had written Kafka a letter. The sceptical child, during a break in her tears, asked for proof, and Kafka promised to return the next day with one of the letters. After taking great care to compose a letter, he returned with it the next day and read it out to the girl. It explained that the doll had grown tired of living in the same family all the time and had wanted a change of scene. Kafka kept up these daily letters for nearly three weeks, each one making clear that the doll had had to get away and preparing the child for the ultimate realization that she would not be back."

Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 364-5

Foto: Franz Kafka (1883-1924)

Liberdade

"Sentia-se livre, como nunca antes havia sido em sua vida, e embora mal alimentado e portanto fraco, também se sentia com força para prolongar esse impulso de liberdade, de soberania, até onde fosse possível."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 705

Felicidade

"...lia e relia sem trégua o caderno de Ansky, memorizando cada palavra e sentindo algo muito estranho que às vezes se parecia com a felicidade e outras vezes com uma culpa vasta como o céu. E que ele aceitava a culpa e a felicidade e que inclusive, algumas noites, as somava, e que o resultado dessa soma sui generis era felicidade, mas uma felicidade sinistra que o dilacerava sem a menor consideração e que para Reiter não era a felicidade, mas sim Reiter."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 706

Literatura

"O senhor vai me dizer que a literatura não consiste unicamente em obras-primas mas está, sim, povoada de obras ditas menores. Eu também acreditava nisso. A literatura é um vasto bosque e as obras-primas são os lagos, as árvores imensas ou estranhíssimas, as eloquentes flores preciosas ou as grutas escondidas, mas um bosque também é composto de árvores comuns, de matagais, de charcos, de plantas parasitas, de cogumelos e florezinhas silvestres. (...)

Todo livro que não seja uma obra-prima é carne de canhão, esforçada infantaria, peça sacrificável, dado que reproduz, de múltiplas maneiras, o esquema da obra-prima."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 747-8

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Franz will never get well



"She herself [Milena] had written to Brod in the second half of 1920, expressing her worries about Kafka, and was perplexed by his seeming incapacity to deal with life's practicalities. She had been with him to a post office and seen him almost unable to complete a basic transaction or tormented at the discovery that he had been given too much change. 'This world is and remains mysterious to him', she told Brod. With her typical passion, Milena declared: 'But Franz cannot live. Franz does not have the capacity for living. Franz will never get well. Franz will die soon. (...) I rather think that all of us, each and every one of us, is sick and that he is the only well person, the only person who sees rightly and feels rightly, the only pure person.'"

Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 318-320

Insônia

"Durante muitos dias Juan de Dios Martínez pensou nos quatro infartos que Herminia Noriega sofreu antes de morrer. Às vezes punha-se a pensar nisso enquanto comia ou enquanto urinava no banheiro de uma cafeteria ou num pê-efe frequentado por policiais judiciários, ou antes de dormir, justo no momento de apagar a luz, ou talvez segundos antes de apagar a luz, e quando isso acontecia simplesmente não podia apagar a luz e se levantava da cama, se aproximava da janela e espiava a rua, uma rua vulgar, feia, silenciosa, escassamente iluminada, depois ia à cozinha, botava a água para ferver e fazia um café, e às vezes, enquanto tomava o café quente e sem açúcar, um café de merda, ligava a tevê e ficava assistindo aos programas que chegavam pelos quatro pontos cardeais do deserto, nessa hora pegava os canais mexicanos e americanos, canais de loucos aleijados que cavalgavam sob as estrelas e cumprimentavam com palavras ininteligíveis, em espanhol ou spanglish, mas ininteligíveis todas aquelas porras de palavras, e então Juan de Dios Martínez deixava a xícara de café em cima da mesa, cobria a cabeça com as mãos e de seus lábios escapava um ulular tênue e preciso, como se chorasse ou lutasse para chorar, mas quando finalmente retirava as mãos apareciam, iluminadas pela tela da tevê, suas fuças de sempre, sua pele infecunda e seca de sempre, sem o mais ínfimo rastro de uma lágrima."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 510-11

Haas gostava de pensar


"Haas gostava de sentar no chão, encostado na parede, na parte sombreada do pátio. E gostava de pensar. Gostava de pensar que Deus não existia. Uns três minutos, no mínimo. Também gostava de pensar na insignificância dos seres humanos. Cinco minutos. Se não existisse a dor, pensava, seríamos perfeitos. Insignificantes e alheios à dor. Perfeitos, caralho. Mas lá estava a dor para foder com tudo. Por fim pensava no luxo. O luxo de ter memória, o luxo de saber um idioma ou vários idiomas, o luxo de pensar e não sair correndo."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 536

Slavery



"You know my old saying, 'Slavery was never abolished, it was only extended to include all the colors'.

And what hurts is the steadily diminishing humanity of those fighting to hold jobs they don’t want but fear the alternative worse. People simply empty out. They are bodies with fearful and obedient minds. The color leaves the eye. The voice becomes ugly. And the body. The hair. The fingernails. The shoes. Everything does.

As a young man I could not believe that people could give their lives over to those conditions. As an old man, I still can’t believe it. What do they do it for? Sex? TV? An automobile on monthly payments? Or children? Children who are just going to do the same things that they did?"

Charles Bukowski (1920-1994). Reach for the Sun: Selected Letters (1978-1994), Vol. 3

É hora

"Quando soube que tinha pouco tempo de vida, me ligou de Seattle e a seu modo se despediu de mim. Me lembro que perguntei se estava com medo. Não sei por que lhe fiz essa pergunta. Ele me respondeu com outra. Me perguntou se eu estava com medo. Não, não estou, respondi. Então eu também não, disse ele."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 602

O Natal em Santa Teresa

"O último caso de 1997 foi bem parecido com o penúltimo, só que em vez do saco plástico com o cadáver no extremo oeste da cidade, o saco foi encontrado no extremo leste, na estrada de terra que corre, digamos, paralela à linha fronteiriça que depois se bifurca e se perde ao chegar às primeiras montanhas e aos primeiros desfiladeiros. A vítima, segundo os legistas, estava morta havia muito tempo. De aproximadamente dezoito anos de idade, media entre um metro e cinquenta e oito e um metro e sessenta. O corpo estava nu, mas dentro do saco foram encontrados um par de sapatos de salto alto, de couro, de boa qualidade, pelo que se pensou que podia se tratar de uma puta. Também foi encontrada uma calcinha branca, tipo tanga. Tanto este caso como o anterior foram encerrados após três dias de investigações nem um pouco entusiasmadas. O Natal em Santa Teresa foi comemorado como de costume. Montaram presépios, estouraram piñatas, tomaram tequila e cerveja. Até nas ruas mais humildes ouvia-se gente rindo. Algumas dessas ruas eram totalmente escuras, parecendo buracos negros, e os risos que saíam não se sabe de onde eram o único sinal, a única informação que os vizinhos e os estranhos tinham para não se perderem."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 603

Hans Reiter

"Aos treze anos Hans Reiter parou de estudar. Isso aconteceu em 1933, ano em que Hitler subiu ao poder. Aos doze tinha começado a estudar numa escola do Arraial das Garotas Tagarelas. Mas, por várias razões, todas elas perfeitamente justificáveis, não gostava da escola, de modo que se distraía pelo caminho, que para ele não era horizontal ou acidentalmente horizontal ou ziguezagueantemente horizontal, mas vertical, uma prolongada queda para o fundo do mar onde tudo, as árvores, o capim, os pântanos, os bichos, as cercas, se transformava em insetos marinhos ou em crustáceos, em vida suspensa e alheia, em estrelas do mar e aranhas do mar, cujo corpo, sabia o jovem Reiter, é tão minúsculo que nele não cabe o estômago do animal, de modo que o estômago se estende pelas suas patas, que por sua vez são enormes e misteriosas, quer dizer, encerram (ou pelo menos para ele encerravam) um enigma, pois a aranha do mar possui oito patas, quatro de cada lado, mais outro par de patas, muito menores, na realidade infinitamente menores e inúteis, no extremo mais próximo da cabeça, e essas patas ou patinhas diminutas pareciam ao jovem Reiter que não eram isso, patas ou patinhas, e sim mãos, como se a aranha do mar, num longo processo evolutivo, houvesse desenvolvido finalmente dois braços e por conseguinte duas mãos, mas ainda não soubesse que os tinha. Quanto tempo a aranha do mar ainda ia passar ignorando que tinha mãos? (...)

E assim ia para a escola no Arraial das Garotas Tagarelas e, evidentemente, sempre chegava tarde. E além do mais pensando em outras coisas."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 618

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O incolor Tsukuru Tazaki




“De julho do segundo ano da faculdade até janeiro do ano seguinte, Tsukuru Tazaki viveu pensando praticamente só em morrer. Nesse meio-tempo ele completou vinte anos, mas o marco não significou nada em especial para ele. Naquela época, acabar com a própria vida lhe parecia a coisa mais natural e lógica a ser feita. Até hoje ele não sabe bem por que não deu o passo derradeiro. Afinal, naquele momento, atravessar a soleira que separa a vida e a morte era mais fácil do que engolir um ovo cru.”

Haruki Murakami. O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 7

Cada pessoa é um enigma




“...até que um belo dia ele se enforcou. Não deixou nenhum bilhete, e ninguém soube explicar. Menos ainda sua mulher e suas filhas. Quando fui à casa do enforcado dar meus pêsames, tive a impressão de que o sofrimento havia sido adiado pelo impacto da surpresa: como se em todos aqueles anos nunca houvesse lhes ocorrido que ali, na sua própria casa, vivia com elas um estranho disfarçado, com identidade falsa, um marajá na figura de marceneiro, e agora o haviam chamado de volta, e ele, de imediato, sem uma palavra, despira seu disfarce de tantos anos e partira para retornar ao seu lugar. O último homem, literalmente o último homem no mundo que iria se enforcar. Jamais em nossa vida nenhuma de nós poderia imaginar que isto lhe passava pela cabeça. E sem nenhum motivo: pensando bem a vida o tratou muito bem, família, amigos, trabalho, era o tipo de homem, como dizem, satisfeito com o que tinha, e que sabia dar valor às coisas. Por exemplo, ele amava comer, sentar-se aqui nesta poltrona todas as noites e adormecer segurando o jornal, e amava especialmente aquelas suas óperas, que ouvia e cantava de manhã até a noite e, bem, às vezes nós achávamos que era um pouco exagerado, mas ficávamos de boca fechada, por que ele não poderia se divertir um pouco? Afinal, existem maridos cuja metade do salário vai embora na loteria esportiva e coisas do gênero, não perdem um jogo de futebol, e com ele eram as óperas. O senhor há de concordar que é um passatempo de gente culta. E também adorava divertir as pessoas, era o campeão das pegadinhas – campeão nada, rei. Talvez o senhor não acredite que naquela manhã, no máximo três horas antes da tragédia, ele estava fazendo uma omelete para as meninas e fingiu que engolia o azeite fervendo. Que susto nós levamos, até que começamos a rir. O que mais se pode dizer, meu senhor, cada pessoa é um enigma, até mesmo as mais próximas da gente.”

Amós Oz. O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 101

Paz interior


"A celulose e outras substâncias similares são o que chamamos de fibra vegetal. Seu consumo, apesar de não nos proporcionar elementos energéticos aproveitáveis, é benéfico. Não sendo absorvida, a fibra faz que o bolo alimentício, em seu percurso pelo tubo digestivo, mantenha seu volume. E isso gera pressão dentro do intestino, o que estimula sua atividade, fazendo que os restos da digestão avancem facilmente ao longo de todo o tubo digestivo. Ter diarreia é bom, salvo raras exceções, mas ir ao banheiro uma ou duas vezes por dia proporciona tranquilidade e temperança, uma espécie de paz interior. Não uma grande paz interior, não sejamos exagerados, mas sim uma pequena e reluzente paz interior."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 439

I must change

I must change.
I must stop wasting my money.
I must work fewer hours.
I must get rid of all this junk.
I must eat healthier food.
I must exercise.
I must write more.
I must read more.
I must watch less TV.
I must, I must, I must!


The Minimalists

Jews



"At eight o'clock on the evening of 6 September, Kafka looked from the street into the banqueting room of the Jewish Town Hall, where more than a hundred Russian Jewish émigrés were queuing for their American visas. Around half past midnight, he looked through the illuminated windows again. (...) The electric light shone all night long on the sleeping forms stretched out on chairs, and Kafka looked longingly on these people – hungry as they were, prone to disease, victims of anti-Semitic threats hurled at them through the windows – and confessed that 'if I'd been given the choice to be what I wanted, then I'd have chosen to be a small Eastern Jewish boy in the corner of the room, without a trace of worry'. Their soon-to-be-realized dream of escape, their concentrated purpose, their risk of everything for a certain goal, the fact, above all, that 'they are one people', moved him with its simple manifestation of something from which he felt himself to be totally excluded. Instead he was going nowhere, except to his death."

Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 308-9

Foto: Jewish Town Hall (prédio com o relógio), em Praga - República Tcheca

o mais essencial

"Pois o que alguém é para si mesmo, o que o acompanha na solidão e ninguém lhe pode dar ou retirar, é manifestamente para ele mais essencial do que tudo quanto puder possuir ou ser aos olhos dos outros."

Arthur Schopenhauer (1788-1860). Aforismos para a sabedoria de vida

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Imma

"Ao cabo de uma semana Imma ainda não havia voltado. Lola a imaginou pequenina, de olhar impávido, um rosto de camponesa culta ou de professora secundária aparecendo num vasto campo pré-histórico, uma mulher de quase cinquenta anos vestida de preto percorrendo sem olhar para os lados, sem olhar para trás, um vale em que ainda era possível discernir as marcas dos grandes predadores das marcas dos herbívoros. Imaginou-a detida numa encruzilhada enquanto os caminhões de transporte de grande tonelagem passavam a seu lado sem diminuir a velocidade, levantando poeiradas que não a tocavam, como se sua indecisão e seu desamparo constituíssem um estado de graça, uma redoma que a protegia das inclemências da sorte, da natureza e de seus semelhantes."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 177-8

Admiração


"...a televisão americana está cheia de sorrisos e dentaduras cada vez mais perfeitas. Querem que depositemos nossa confiança neles? Não. Querem nos fazer crer que são boa gente, incapaz de prejudicar quem quer que seja? Também não. Na realidade não querem nada da gente. Só querem nos mostrar suas dentaduras, seus sorrisos, sem nos pedir nada em troca, salvo nossa admiração. Admiração. Querem que olhemos para eles, só isso. Suas dentaduras perfeitas, seus corpos perfeitos, seus modos perfeitos, como se estivessem permanentemente se desprendendo do sol e fossem nacos de fogo, pedaços de inferno ardente, cuja presença neste planeta obedece unicamente à necessidade de reverência."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 251

O inútil

"O inútil se impõe não como qualidade de vida mas como moda ou distintivo de classe, e tanto a moda quanto os distintivos de classe necessitam admiração, reverência. Claro, as modas têm uma expectativa de vida curta, um ano, quatro no máximo, depois passam por todas as etapas da degradação. O distintivo de classe, pelo contrário, só apodrece quando apodrece o cadáver que o portava."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 251

Sabedoria de vida

"...o que alguém é para si mesmo, o que o acompanha na solidão e ninguém lhe pode dar ou retirar, é manifestamente para ele mais essencial do que tudo quanto puder possuir ou ser aos olhos dos outros. Um homem espiritualmente rico, na mais absoluta solidão, consegue se divertir primorosamente com seus próprios pensamentos e fantasias, enquanto um obtuso, por mais que mude continuamente de sociedades, espetáculos, passeios e festas, não consegue afugentar o tédio que o martiriza. Um caráter bom, moderado e brando pode sentir-se satisfeito em circunstâncias adversas; enquanto um caráter cobiçoso, invejoso e mau não se contenta nem mesmo em meio a todas as riquezas. Para aquele que tem constantemente o deleite de uma individualidade extraordinária, intelectualmente eminente, a maioria dos deleites almejados em geral são no todo supérfluos, mais do que isso, são apenas incômodos e inoportunos."

Arthur Schopenhauer (1788-1860). Aforismos para a Sabedoria de Vida

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A velha senhora

"Ao se virarem, Pelletier e Espinoza deram com uma mulher idosa, com uma figura parecida, segundo confessaria Pelletier muito depois, com Marlene Dietrich, uma mulher que apesar dos anos conservava intacta sua determinação, uma mulher que não se agarrava às bordas do abismo mas caía nele com curiosidade e elegância. Uma mulher que caía no abismo sentada."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 37

Resignação


"...ele, como Schwob em Samoa, já tinha iniciado uma viagem, uma viagem que não era em torno do sepulcro de um valente mas em torno de uma resignação, uma experiência em certo sentido nova, pois essa resignação não era o que comumente se chama resignação, nem mesmo paciência ou conformismo, mas era antes um estado de mansidão, uma humildade singular e incompreensível que o fazia chorar sem mais nem menos e em que sua própria imagem, o que Morini percebia de Morini, ia se diluindo de forma gradual e incontida, como um rio que deixa de ser rio ou como uma árvore que pega fogo no horizonte sem saber que está queimando."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 114

Morini

"E que dizer sobre Morini? Sua posição na cadeira de rodas expressava um certo grau de abandono, como se a contemplação da chuva noturna e da vizinhança adormecida satisfizesse a todas as suas expectativas. Às vezes apoiava os dois braços na cadeira, outras vezes apoiava a cabeça numa mão e o cotovelo no braço da cadeira. Suas pernas inermes, como as pernas de um adolescente agônico, estavam enfiadas num jeans talvez largo demais. Vestia uma camisa branca, com os botões do colarinho desabotoados, e no pulso esquerdo trazia um relógio cuja pulseira era larga para ele, mas não tão grande que pudesse cair. Não calçava sapatos, mas chinelos, de tecido preto e reluzente como a noite. Toda a roupa era cômoda, para andar em casa, e pela atitude de Morini quase se podia afirmar que no dia seguinte não tinha intenção de ir trabalhar ou que pensava chegar tarde ao trabalho. 

A chuva, do outro lado da janela, tal como dizia em seu e-mail, caía obliquamente e a lassidão de Morini, sua quietude e abandono tinham algo de mortalmente camponês, submetido de corpo e alma à insônia, sem uma queixa."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 129

2666


"Dizia-se que o poeta e o filósofo eram amantes, mas a verdade é que não pareciam amantes. Um tinha casa, ideias e dinheiro, o outro tinha a lenda, os versos e o fervor dos incondicionais, um fervor canino, de cachorros surrados a pau que caminharam toda a noite ou toda a juventude debaixo da chuva, o infinito temporal de caspa da Espanha, e que por fim encontraram um lugar onde enfiar a cabeça, ainda que esse lugar seja uma lata de água putrefata, com um ar ligeiramente familiar."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 169

Lola

"Depois disse a ele o que na verdade queria dizer: que sabia que ele não era homossexual, que ela sabia que ele estava preso e desejava fugir, que ela sabia que o amor maltratado, mutilado, deixava sempre aberta uma brecha para a esperança, que a esperança era seu projeto (ou o contrário) e que sua materialização, sua objetivação consistia em escapar do manicômio com ela e tomar o caminho da França. E ela, quem é?, perguntou o poeta que tomava dezesseis comprimidos diários e escrevia sobre as suas visões, apontando para Imma que, impávida, lia de pé um dos seus livros, como se suas anáguas e saias fossem de concreto armado e a impedissem de sentar. Ela vai nos ajudar, disse Lola. A verdade é que o plano foi idealizado por ela. Entraremos na França pela montanha, como peregrinos. Iremos a Saint-Jean-de-Luz e ali pegaremos o trem. O trem nos levará pelos campos, que nesta época do ano são os mais formosos do mundo, até Paris. Moraremos em albergues. Esse é o plano de Imma. Trabalharemos ela e eu fazendo faxina ou cuidando de crianças nos bairros ricos de Paris enquanto você escreve poesia. De noite você lerá seus poemas e fará amor comigo. Esse é o plano de Imma, calculado em todos os detalhes. Ao fim de três ou quatro meses ficarei grávida e essa será a prova mais fidedigna de que você não é o fim de uma raça. Que mais poderiam querer as famílias inimigas! Ainda trabalharei mais uns meses, mas chegada a hora Imma trabalhará dobrado. Viveremos como profetas mendigos ou como profetas crianças enquanto os olhos de Paris estiverem focados em outros alvos, a moda, o cinema, os jogos de azar, a literatura francesa e americana, a gastronomia, o produto interno bruto, a exportação de armas, a manufatura de lotes maciços de anestesia, tudo aquilo que no fim das contas será somente a cenografia dos primeiros meses do nosso feto."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 173-4

sexta-feira, 24 de julho de 2015

O incolor Tsukuru Tazaki



"Deveria ter morrido naquele momento, Tsukuru Tazaki costuma pensar. Assim, este mundo que existe aqui e agora não existiria mais. Isso lhe parece fascinante. O fato de não existir o mundo do agora, o fato de não ser mais real o que aqui é considerado realidade. O fato de que, assim como ele não existiria mais neste mundo, este mundo também não existiria mais para ele.

Mas, ao mesmo tempo, Tsukuru não compreendeu de verdade por que nessa época precisou chegar tão perto da morte, até o extremo. Havia sim uma razão concreta, mas por que o fascínio pela morte era tão intenso, a ponto de envolvê-lo por cerca de seis meses? Envolver: sim, essa é a palavra apropriada. Como o personagem bíblico que foi engolido por uma enorme baleia e sobreviveu na barriga dela, Tsukuru caiu no estômago da morte e passou dias sem ver o tempo passar, dentro de um vazio escuro e estagnado.

Ele viveu esse período como um sonâmbulo, ou como um defunto que ainda não se deu conta de que está morto. Acordava quando o sol se erguia, escovava os dentes, vestia a roupa que encontrava por perto, pegava o trem para ir à faculdade e anotava as aulas. (...) ele apenas agia seguindo o cronograma à sua frente. Não falava com ninguém a não ser que fosse necessário e, quando voltava para o apartamento onde morava sozinho, ele se sentava no chão, encostava-se à parede e pensava sobre a morte ou a ausência da vida. À sua frente um abismo escuro abria a boca grande que dava diretamente ao centro da Terra. Lá se via o vazio que revolteava na forma de duras nuvens e se ouvia um profundo silêncio que comprimia os tímpanos."

Haruki Murakami (1949-). O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 7-8

Um período para enlouquecer

"É curioso; parece que, mesmo em uma vida aparentemente pacata e consistente, sempre há um período de grande colapso. Um período para enlouquecer, talvez possamos dizer. As pessoas devem precisar de um marco como esse na vida."

Haruki Murakami (1949-). O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 71

Creative business seminar

"(...) começou um negócio que mistura seminários de desenvolvimento pessoal e centro de treinamento de empresas. Ele o chama de 'creative business seminar'. Ele desfruta de um sucesso surpreendente hoje, tem um escritório em um arranha-céu no centro de Nagoia e emprega considerável número de funcionários. (...)

– 'Creative business seminar'?

– A denominação é nova, mas o conteúdo basicamente não muda de um curso de desenvolvimento pessoal – disse Sara. – Em resumo, é um curso de lavagem cerebral rápido e acessível para formar trabalhadores obedientes e dedicados. Em vez de livros sagrados usa manuais, e em vez da iluminação ou do paraíso promete promoções e altos salários. Uma nova religião da era do pragmatismo."

Haruki Murakami (1949-). O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 133-4