sexta-feira, 29 de abril de 2016

Un té

"Para celebrar que había decidido continuar viva, entró en el Comercial a tomar un té, y lo hizo con la satisfacción de quien por fin se atreve a tomar una decisión largo tiempo aplazada, pues hacía años – desde que se casara o tal vez desde mucho antes – que no entraba a solas en un bar. Por eso, al apoyarse en la barra y pedir el té, sintió que estaba viviendo unos momentos de intensa libertad."

Enrique Vila-Matas (1948-). Suicidios ejemplares (1991). Barcelona: Anagrama, 2000. p. 48-9

Vitória

"Não se preocupe, ninguém tem
a linda mulher, não mesmo, e
ninguém tem o estranho e
escondido poder, ninguém é
excepcional ou maravilhoso ou
mágico, eles apenas parecem ser.


É tudo um truque, uma vigarice,
não compre isso, não acredite nisso.
O mundo está cheio de bilhões de pessoas
cujas vidas e mortes são inúteis e quando
um deles se sobressai e a luz da história
brilha sobre eles, esqueça, não é o que
parece, é apenas outro número para enganar
os tolos novamente.

Não há homens fortes, não há
mulheres lindas.
No mínimo, você pode morrer sabendo
disso,
e você terá
a única vitória
possível."

Charles Bukowski (1920-1994). O segredo

Arte

"Para se conhecer o ser humano, é preciso estudar áreas do conhecimento como as ciências sociais, a biologia, a psicologia. Mas a literatura e as artes também são um meio de conhecimento. Os romances retratam o indivíduo na sociedade, seja por meio de Balzac ou Dostoiévski, e transmitem conhecimentos sobre sentimentos, paixões e contradições humanas. A poesia é também importante, nos ajuda a reconhecer e a viver a qualidade poética da vida. As grandes obras de arte, como a música de Beethoven, desenvolvem em nós um sentimento vital, que é a emoção estética, que nos possibilita reconhecer a beleza, a bondade e a harmonia. Literatura e artes não podem ser tratadas no currículo escolar como conhecimento secundário."

Edgar Morin (1921-), antropólogo e filósofo francês

Sombras


"estou apavorada.
a mim sobreveio o que eu mais temia.
não estou em dificuldades:
estou em não poder mais.
não abandonei o vazio e o deserto.
vivo em perigo.
teu canto não me ajuda
cada vez mais ameaças
mais nervos
mais sombras negras."


Alejandra Pizarnik (1936-1972), poetisa argentina. In: Pernambuco - Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado. Dez poemas de Alejandra Pizarnik

Amanhã

"Amanhã
Me vestirão com cinzas da madrugada,
Me encherão a boca de flores.
Aprenderei a dormir
Na memória de um muro,
Na respiração
De um animal que sonha."


Alejandra Pizarnik (1936-1972), poetisa argentina. In: Pernambuco - Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado.

Poder

"Cedo eu descobri que o que eu mais queria na vida era o poder. O poder estar sempre com as pessoas que eu amo, o poder andar despreocupado pelas ruas, apreciar cenários, paisagens, bichos, gente que passa. O poder tomar outro caminho só porque naquela direção um verde me despertou a curiosidade. O poder trabalhar no que me alegra. O poder ser dono do meu tempo e fazer o que quiser sem precisar me aposentar. O poder estar sempre disponível para quem está perto e precisa. O poder ter certeza de que o abraço recebido é de afeto e não de interesse. O poder ser eu mesmo e envelhecer saudável. Céus, como ambiciono todo esse poder!"

Francisco Azevedo. O arroz de Palma, p. 235.

Educação

"A educação não tem como objeto real armar o cidadão para uma guerra, a da competição com os demais. Sua finalidade, cada vez menos buscada e menos atingida, é a de formar gente capaz de se situar corretamente no mundo e de influir para que se aperfeiçoe a sociedade humana como um todo. A educação feita mercadoria reproduz e amplia as desigualdades, sem extirpar as mazelas da ignorância. Educação apenas para a produção setorial, educação apenas profissional, educação apenas consumista, cria, afinal, gente deseducada para a vida.”

Milton Santos (1926-2001). O espaço do cidadão. São Paulo: Nobel, 2000, p. 126

Nocturno

"...y la vida seguía y seguía y seguía, como un collar de arroz en donde cada grano llevara un paisaje pintado, granos diminutos y paisajes microscópicos, y yo sabía que todos se ponían el collar en el cuello pero nadie tenía la suficiente paciencia o fortaleza de ánimo como para sacarse el collar y acercárselo a los ojos y descifrar grano a grano cada paisaje, en parte porque las miniaturas exigían vista de lince, vista de águila, en parte porque los paisajes solían deparar sorpresas desagradables como ataúdes, cementerios a vuelo de pájaro, ciudades deshabitadas, el abismo y el vértigo, la pequeñez del ser y su ridícula voluntad, gente que mira la televisión, gente que asiste a los partidos de fútbol, el aburrimiento como un portaaviones gigantesco circunnavegando el imaginario chileno. Y ésa era la verdad. Nos aburríamos."

Roberto Bolaño (1953-2003). Nocturno de Chile (2000). Barcelona: Anagrama, 2014, p. 123

terça-feira, 12 de abril de 2016

Viver

"Somos as escolhas que fazemos e as que omitimos, a audácia que tivemos e os fantasmas aos quais sacrificamos a possível alegria e até pessoas a quem amamos; a vida que abraçamos e a que desperdiçamos. Em suma, fazemos a escritura da nossa complicada história."

Lya Luft (1938-). Pensar é transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2004. p. 57-58

Felicidade



“Use seu tempo e dinheiro (já que você tem ao menos o suficiente) para sua alegria. A vida é uma mesa posta, com venenos mortais, pratos insossos e outros deliciosos. Alguns conscientemente escolhem veneno, achando que viver é sofrer, e ponto final. Outros comem - e vivem - sem sal.

Mas há os que, quando podem, pegam as delícias da vida e assim se salvam da areia movediça da depressão.

Espero que você não ache o prazer ruim. Opte pelo positivo. Queira ser um pouco feliz, entusiasme-se por alguma coisa possível de atingir dentro de suas condições, faça um esforço para se libertar do pessimismo.
Pensar sempre negativo vira doença, uma osteoporose da alma.”

Lya Luft (1938-). Pensar é transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2004. p. 46

Ócio criativo

"...o que se solicita aos empregados – sobretudo se são trabalhadores intelectuais – são ideias e não parafusos. E a quantidade total de ideias produzidas não é diretamente proporcional à quantidade de horas de permanência no interior de uma empresa.

Na minha opinião é exatamente o contrário: quanto menos se sai da empresa, quanto mais se permanece trancafiado lá dentro, como num aquário, de manhã à noite, menos se recebe estímulos criativos.

Além disso, é preciso recordar que as pessoas que se habituam a ficar no local de trabalho além do horário de expediente regular tendem a matar o tempo inventando novos procedimentos para impor aos outros. E assim, aos poucos, a empresa se reduz a um amontoado de regulamentos inúteis à sua eficiência, danosos à sua produtividade e letais à sua criatividade."

Domenico De Masi (1938-). O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000, p. 174

Redução de pessoal

"Todos os executivos já sabem que são supérfluos por ao menos quatro ou cinco horas de cada dia de trabalho. Sabem que dos trinta anos da vida deles que dedicam à empresa, só uns dez ou quinze bastariam. Sabem também que muitos dentre eles são como folhas de uma árvore no outono: basta um computador novo e uma categoria inteira de trabalhadores é liquidada. [...]

As empresas hoje estão sujeitas a contínuas comoções organizacionais: se fundem, terceirizam - como se diz no jargão - escritórios inteiros, vendem ou compram outras empresas. E as pessoas que trabalham nelas vivem à mercê desses terremotos. 

Muitas vezes o funcionário descobre só através dos jornais que a empresa para a qual trabalha está para fazer uma fusão ou um desmembramento. Do disse-me-disse dos corredores acaba sendo informado de que essas operações implicam uma redução de pessoal e que ele, provavelmente, faz parte dos chamados 'excedentes'. Tem início assim o seu longo calvário, feito de temores, esperanças, notícias pela metade, ameaças e bajulações, que frequentemente se conclui com uma aposentadoria precoce: lhe dão o fundo de garantia, que aqui na Itália também chamam de 'escorregão', e se desfazem dele como se fosse uma embalagem descartável. E, assim, um cinquentão que foi educado para concentrar toda a própria identidade no trabalho e na dedicação à empresa - mas indefeso diante de um colosso econômico que é soberano com respeito à sua posição sempre menos sindicalizada e protegida - é precocemente privado de uma coisa e da outra."

Domenico De Masi (1938-). O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000, p. 243-4-5

Alienados


"Existem executivos que nunca caminharam pelas ruas do centro às dez da manhã, que vivem o mundo exterior só na dimensão dos domingos, que nunca foram ao cinema numa sessão das três e meia da tarde, em pleno dia de semana.

Existem milhões desses executivos que vivem num tipo de quartel psíquico e são infelizes porque são limitados. Suas casas são bonitas, mas nelas passam só as noites, os escritórios onde trabalham o dia inteiro são horríveis, moram em bairros agradáveis, cheios de áreas verdes, mas passam a quase totalidade do tempo trancafiados entre quatro paredes de cimento. E para os próprios filhos, na maioria desempregados, sonham com um trabalho parecido com o deles. Enquanto estes mesmos filhos, de vinte ou trinta anos, esconjuram um emprego similar, como se fosse a peste.

Eu acredito que os executivos de meia-idade sejam, sob um certo aspecto, pessoas doentes. E o que é pior: a doença deles é contagiosa.

Transmitem aos mais jovens um estilo de vida baseado no excesso de esforço, na subordinação, em vez da dignidade, e também uma gestão arcaica e opressiva dos tempos e dos espaços, recorrendo à chantagem psicológica: ou você se comporta dessa maneira, ou não terá nunca uma boa carreira. Deveriam ser isolados, para não contagiarem os executivos das novas gerações (por isso eu sou muito cauteloso antes de enviar um aluno meu para fazer um estágio numa empresa). Mas também deveriam ser tratados com carinho. São uns alienados [...]".

Domenico De Masi (1938-). O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000, p. 236-7

Consciência


“Uma mente dominada por sentimentos inferiores é capaz de obrigar a própria consciência a pactuar com eles, forçando-a, ardilosamente, a pôr as piores ações em harmonia com as melhores razões e a justificá-las umas pelas outras, numa espécie de jogo cruzado”. 

José Saramago (1922-2020) O homem duplicado (2002)

The Fiend of Athens

"...the plot of 'The Fiend of Athens' [O Demônio/Maníaco de Atenas] concerned a mild-mannered Athenian accountant with horn-rimmed glasses who is walking to work one morning when he sees his own picture on the front page of a newspaper, with the headline FIEND OF ATHENS STILL AT LARGE [Demônio/Maníaco de Atenas ainda à solta]. Athenians in the street immediately start pointing at him and chasing him, and he's on the brink of being apprehended when he's rescued by a gang of terrorists or criminals who mistake him for their fiendish leader. The gang has a bold plan to do something like blow up the Parthenon, and the hero keeps trying to explain to them that he's just a mild-mannered accountant, not the Fiend, but the gang is so counting on his help, and the rest of the city is so intent on killing him, that there finally comes an amazing moment when he whips off his glasses 'and becomes their fearless leader' - the Fiend of Athens! He says, 'OK, men, this is how the plan is going to work'."

Jonathan Franzen (1959-). Freedom (2010). New York: Picador, 2010, p. 121-2

Moço do elevador



"Com muita frequência no Brasil, mas às vezes também na Itália, sobretudo nos hotéis ou nas diretorias empresariais, vejo rapazes que, para ganhar o pão de cada dia, passam o dia inteiro dentro de um elevador, apertando os botões correspondentes aos andares onde os clientes desejam sair. Eu me pergunto: como é possível depreciar a este ponto a vida e a inteligência de um rapaz, mantendo-o fechado, mofando, oito horas por dia num elevador, para fazer um trabalho completamente idiota e inútil?"

Domenico De Masi (1938-). O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000, p. 277-8

Educar para a criatividade

"Muitas empresas, depois de terem selecionado pessoas medíocres, pelo fato de serem dóceis e portanto manobráveis, e depois de terem sufocado todo e qualquer vislumbre de iniciativa por parte delas com um amontoado de procedimentos e controles, sentem agora a necessidade de revitalizar a criatividade e submetem essas mesmas criaturas a pseudoformadores, especialistas no assunto. É como se eu preferisse as mulheres louras, mas me casasse com uma morena e depois a obrigasse a ir ao cabeleireiro oxigenar os cabelos. Esses formadores de criatividade, quase sempre americanos ou franceses, frequentemente desprovidos de qualquer fundamento científico, assim como do conhecimento do resultado de pesquisas sérias, submetem os alunos pagantes, ou melhor, 'bem' pagantes, a exercícios psicofísicos 'fantásticos', uma salada feita de ioga, banalizada, e joguinhos de charadas, palavras-cruzadas e por aí vai. Desconfio instintivamente de todas essas técnicas istriônicas que sabe-se lá onde vão dar e que transformam a criatividade, ou seja, a expressão mais misteriosa e preciosa da espécie humana, numa espécie de gincana.

Educar um jovem ou um executivo para a criatividade hoje significa ajudá-lo a identificar sua vocação autêntica, ensiná-lo a escolher os parceiros adequados, a encontrar ou criar um contexto mais propício à criatividade, a descobrir formas de explorar os vários aspectos do problema que o preocupa, de fazer com que sua mente fique relaxada e de como estimulá-la até que ela dê à luz uma ideia justa."

Domenico De Masi (1938-). O ócio criativo (2000). Rio de Janeiro: Sextante, 2000, p. 303-4 [Domenico de Masi é um dos mais importantes sociólogos italianos, conhecido pelo conceito de "ócio criativo", título de um dos seus livros mais vendidos no Brasil. É professor de Sociologia na Universidade La Sapienza de Roma, onde atua como diretor da faculdade de Ciências da Comunicação].

Taste of eternity

"Patty felt like she'd taken some powerful drug that wasn't wearing off, or like she'd fallen into an incredibly vivid dream that she wasn't waking up from, except that she was fully aware, from second to second to second, that it wasn't a drug or a dream but just life happening to her, a life with only a present and no past [...]. And she was 21 and could feel her 21ness in the young, clean, strong wind that was blowing down from Canada. Her little taste of eternity."

Jonathan Franzen (1959-). Freedom (2010). New York: Picador, 2010. p. 162

sábado, 2 de abril de 2016

La muerte


"La muerte me llevó a meditar sobre la vida. Pero ¿qué vida? Me dije que ya empezaba a ser hora, en una época tan confusa como la nuestra, de preguntarse qué era lo que realmente entendíamos por vida, es decir, de preguntarnos de qué hablábamos cuando hablábamos de ella y si no estábamos en el fondo hablando siempre de la muerte. Seguramente habría que empezar a matizar la definición de experiencia... Yo también tenía un recuerdo algo lejano, más bien confuso, de ella. ¿Quién vivía en total plenitud? ¿Vivía alguien? Y, por cierto, ¿qué clase de vida llevaba la vida?"

Enrique Vila-Matas (1948-). Exploradores del abismo. Barcelona: Anagrama, 2007, p. 270

Loucos

"Hamlet está dizendo: Quando todo mundo é normal, racional, equilibrado, poupa, tem plano de saúde, se veste equilibradamente, combina bege com marrom, azul marinho com azul celeste, usa sapato preto fechado; quando as mulheres vão para a entrevista com colar de pérolas e tailleur e os homens de terno escuro e gravata bordô; quando todos dizem que querem contribuir para a empresa, e querem dar tudo de si a nível de pessoa humana, enquanto gente, para que essa empresa cresça; quando todos publicam que são felizes, quando todos dizem sem cessar 'esta é minha vida e minha vida é legal, porque estou viajando, porque estou comendo este prato, VEJAM'; quando todos dizem a mesma coisa, eu preciso dizer que ser louco é a única possibilidade de ser sadio neste mundo doente." 

Leandro Karnal

Exploradores do nada

"Solitarios de gran coraje, ciertos genios atrincherados me traen siempre el recuerdo de esos deseos en Kafka de ser como un piel roja, siempre a caballo, pero sin ver ya la cabeza del caballo, a galope desenfrenado. Solitarios de sí mismos, exploradores de la nada más vacía que hay detrás de toda platea repleta de público..."

Enrique Vila-Matas (1948-). Exploradores del abismo. Barcelona: Anagrama, 2007, p. 282

Solitários de si mesmos

"Esconderse era el destino de todos esos amantes de la gloria solitaria, todos esos artistas que acabaron necesitando el aislamiento radical porque sabían que eso les aproximaba más al absurdo general de la existencia y a la soledad que tarde o temprano habría de llegarles a la hora de la muerte. Solitarios de sí mismos y tenaces exploradores del vacío, todos ellos, un buen día, se fueron en dirección a un horizonte helado, 'se fueron lejos para quedarse aquí', que diría Kafka. [...] Las tumbas de esos artistas son hoy en día sepulcros metafóricamente conectados, tumbas en las que ellos pueden ya descansar tranquilos, como si estuvieran debajo de sus antiguos y fastidiosos escenarios."

Enrique Vila-Matas (1948-). Exploradores del abismo. Barcelona: Anagrama, 2007, p. 283

sábado, 26 de março de 2016

Cozinhas


"...sujeito que mora sozinho [...]. Muitas vezes o aspecto da cozinha reflete o estado do espírito. Os sujeitos confusos, inseguros e maleáveis são pensadores. A cozinha deles se assemelha às ideias que têm: cheias de lixo, metal encardido, impurezas, mas eles sabem disso e até acham graça. Às vezes, com violenta erupção de fogo, desafiam as divindades eternas e surgem com o fulgor intenso que volta e meia chamamos de criação [...]. Mas quem mantém a cozinha sempre limpa é anormal. Cuidado com ele. O estado de sua cozinha equivale às ideias que tem: tudo em ordem, arrumado; permitiu que a vida o condicionasse rapidamente a um firme e resistente complexo de raciocínio defensivo e tranquilizador. É só se prestar atenção no que diz durante dez minutos pra se ter certeza de que tudo o que dirá pelo resto da vida será intrinsecamente inexpressivo e sempre sem graça. É um monolito. Existem mais criaturas desse tipo do que de qualquer outro. Portanto, quem estiver a fim de encontrar um homem vivo precisa, antes de mais nada, dar uma olhada na cozinha do cara – economiza tempo e dinheiro."

Charles Bukowski (1920-1994). Fabulário geral do delírio cotidiano - Parte II. Porto Alegre: L&PM, 2015, p. 124-5

Hacia la nada

"Nuestra cultura era penosa, no tenía ligazón alguna con la trascendencia, ni siquiera con los dioses que decía adorar. Nuestra cultura se basaba en conquistarlo todo, hasta el universo. Pura actividad sin fin. Una carrera enloquecida hacia la nada."

Enrique Vila-Matas (1948-). Exploradores del abismo. Barcelona: Anagrama, 2007, p. 185

Horizontalidade

"Eu fiquei deitado no meu pequeno sarcófago de espaço. A horizontalidade se derramava à minha volta. Eu era a carne do sanduíche da sala. Eu me senti desperto para uma dimensão básica que tinha negligenciado durante anos de movimento ereto, de estar de pé, correr, parar, saltar, de caminhar infinitamente ereto de um lado da quadra para o outro. Eu tinha me concebido durante anos como algo basicamente vertical, estranho caule aforquilhado com matéria e sangue. Agora eu me sentia mais denso; mais solidamente composto, agora que era horizontal. Impossível alguma coisa me derrubar."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 920

quinta-feira, 24 de março de 2016

Campo e cidade

"O poeta [William Wordsworth] acusava as cidades de fomentarem uma família de emoções contrárias à vida: angústia quanto à nossa posição na hierarquia social, inveja do sucesso alheio, orgulho e desejo de brilhar aos olhos de estranhos. Os cidadãos urbanos não tinham perspectiva, afirmava o autor; eram joguetes do que se comentava nas ruas e nas salas de jantar. Por mais que fossem abastados, tinham um desejo incessante por coisas novas que não lhes faziam falta e das quais não dependia a felicidade."

Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 136

Água Viva (1973), de Clarice Lispector


papo furado

"Não existe ninguém vitorioso na vida, é pura cascata, papo furado. Não há santos nem gênios, tudo não passa de conversa mole pra boi dormir, conto da carochinha, só pro jogo continuar. Cada homem se esforça pra sobreviver e ter sorte, se puder, o resto não dá pra engolir.”

Charles Bukowski (1920-1994). Crônica de um amor louco

Paisagens sublimes (II)

"A humilhação é um risco constante no mundo dos homens. Não é raro que nossa vontade seja desafiada e nossos desejos, frustrados. Paisagens sublimes, portanto, não nos confrontam com nossa inadequação. [...] As paisagens sublimes repetem, em termos solenes, uma lição que a vida cotidiana nos ensina cruelmente: o Universo é mais poderoso do que nós; somos frágeis e transitórios; não temos alternativa senão aceitar limitações à nossa vontade e precisamos nos dobrar a necessidades maiores do que nós mesmos."

Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 167

Paisagens sublimes

"As paisagens sublimes, através de sua grandeza e força, desempenham um papel simbólico em nos fazer aceitar, sem amargor nem queixas, os obstáculos que não conseguimos superar e os acontecimentos que não entendemos. Como bem sabia o Antigo Testamento, pode ser proveitoso armazenar dados relativos à pequenez da humanidade junto aos elementos da natureza que fisicamente a superam – as montanhas, o cinturão da terra, os desertos.

Se o mundo é injusto ou está além de nosso entendimento, os lugares sublimes sugerem que não surpreende que as coisas sejam assim. Somos joguetes das forças que criaram os oceanos e moldaram as montanhas. Lugares sublimes nos levam gentilmente a reconhecer as limitações que, de outra forma, poderiam nos causar ansiedade ou raiva no curso comum dos acontecimentos. Não é apenas a natureza que nos desafia. A vida humana não é menos devastadora, mas são os vastos espaços naturais que talvez nos ofereçam o melhor e mais respeitoso lembrete de tudo o que nos transcende. Se passarmos algum tempo com eles, talvez nos ajudem a aceitar com mais elegância os grandes e inconcebíveis acontecimentos que molestam nossa vida e nos retornarão, inevitavelmente, ao pó."

Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 175