sábado, 23 de agosto de 2014

Poder



"Era agradável e sedutor exercer domínio sobre os outros e brilhar aos olhos alheios, mas encerrava, por outro lado, algo demoníaco e perigoso, e a história universal consistia numa fila ininterrupta de senhores, chefes, poderosos e mandantes que, com raríssimas exceções, haviam principiado bem e terminado mal, e haviam, pelo menos aparentemente, aspirado ao poder em prol do bem, para mais tarde se tornarem possessos e embriagados por esse mesmo poder, amando o poder pelo poder."

Hermann Hesse (1877-1962). O jogo das contas de vidro (1943). 4ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, p. 163

História


"Admito que quem estuda a História pode ter crença infantil e comovente no poder organizador do nosso espírito e do método em si, mas deve além disso respeitar a incompreensível verdade, a realidade e a originalidade do fenômeno. Estudar a História, meu caro, não é uma brincadeira nem uma ocupação infantil e irresponsável. Estudar a História requer o conhecimento prévio de que com esse estudo se almeja algo impossível de atingir, e todavia necessário e importantíssimo. Estudar a História significa entregar-se ao caos, conservando a crença na ordem e no sentido. É uma tarefa muito séria, rapaz, talvez mesmo trágica."

Hermann Hesse (1877-1962). O jogo das contas de vidro (1943). 4ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, p. 201

Padre Jacobus



"...ele falava do Padre Jacobus. Com ele Servo aprendeu uma coisa que lhe seria quase impossível aprender em Castália nessa época; não só adquiriu uma visão geral dos métodos e meios de conhecimento e de pesquisa históricos, e um começo de prática no seu uso, como além disso aprendeu a considerar a História e a vivenciá-la não só como um ramo da ciência, porém como uma realidade, como vida, e para isso requer-se a respectiva transformação da própria vida pessoal, elevando-a à História. De um homem que possuísse só erudição ele não poderia aprender isso. Jacobus, além de erudito, era um contemplativo e um sábio. Além do mais, vivenciava as experiências e ajudava a criá-las; não se aproveitara do posto em que seu destino o colocara para se aquecer no conforto de uma existência contemplativa, mas havia deixado os ventos do mundo soprarem em seu aposento de sábio, e as necessidades e os pressentimentos de sua época penetrarem em seu coração, participando dela em suas culpas e responsabilidades. Não se contentara apenas em lançar um olhar a fatos de um longínquo passado, classificando-os e decifrando-os, e não se ocupara só com a vida das ideias, mas se preocupara também com a rebeldia da matéria e dos homens."

Hermann Hesse (1877-1962). O jogo das contas de vidro (1943). 4ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, p. 229

A noite está dentro de mim


"A noite está dentro de mim,
girando no meu sangue.
Sinto latejar na minha boca
as pupilas cegas da lua.
Sinto as estrelas, como dedos
movendo a solidão em que caminho.
Logo o perfume da poesia
sobe aos meus olhos trêmulos, cerrados,
ouço a música das coisas que acordam
sobre o corpo negro da terra
e a voz do vento distante
e a voz das palmeiras abertas em raios
e a voz dos rios viajantes.

E a noite está dentro de mim.
Como um pássaro,
meu sonho ergue as asas no coração da sombra.
Ouço a música das flores que tombam,
o tropel das nuvens que passam
e a minha voz que se eleva
como uma prece na planície solitária.

Então sinto a noite fugindo de mim,
sinto a noite fugindo dos homens
e o sol que avança na garupa do mar
e as nuvens curvas que enchem o céu
como grandes corcéis de fogo cor-de-rosa
desaparecendo sugados pela treva."

Lúcio Cardoso (1912-1968). Amanhecer. In: modo de usar & co (blog)

Histórias



“São tudo histórias, menino. A história que está sendo contada, cada um a transforma em outra, na história que quiser. Escolha, entre todas elas, aquela que seu coração mais gostar, e persiga-a até o fim do mundo. Mesmo que ninguém compreenda, como se fosse um combate. Um bom combate, o melhor de todos, o único que vale a pena. O resto é engano, meu filho, é perdição.”

Caio Fernando Abreu (1948-1996). Onde andará Dulce Veiga?

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

esse caminho não leva a lugar nenhum



"Numa das curvas mais traiçoeiras da Mulholland, Rip diminuiu a marcha e estacionou à beira da estrada e saiu e fez um gesto para que eu saísse também. Fui até onde ele estava. Apontou a quantidade de carros arrebentados ao pé do morro. Alguns enferrujados e incinerados, outros novos e amassados, de cores brilhantes, quase obscenos ao fulgor da luz do sol. Tento contar os carros; deve haver vinte ou trinta lá embaixo. Rip me falou de amigos seus que morreram naquela curva; gente que não conhecia a estrada. Gente que cometeu erros no meio da noite e saiu voando para o nada. Rip contou que, em noites sossegadas, bem tarde, pode-se ouvir o chiar de pneus e, em seguida, um longo silêncio; uma freada e depois, quase inaudível, um impacto. E, às vezes, ao se ouvir com atenção, há gritos na noite que não duram muito. Rip disse que duvidava que fossem chegar a tirar os veículos dali, que na certa vão esperar até que o local fique repleto de carros e usar isso como exemplo e enterrar tudo. E ali, na montanha, olhando de cima para o Valley tórrido, coberto de poluição, e sentindo os ventos quentes voltando e a poeira rodopiando aos meus pés e o sol, gigantesco, uma bola de fogo, nascendo, acreditei nele. Depois, quando entramos no carro ele tomou uma rua que eu tinha certeza não ter saída. 
– Aonde estamos indo? – perguntei.
– Não sei. Rodando por aí.
– Mas esse caminho não leva a lugar nenhum.
– Não interessa.
– O que interessa então? – pergunto, depois de um tempo.
– Simplesmente que estamos nisso, garotão."

Bret Easton Ellis (1964-). Abaixo de zero (1985). Porto Alegre: L&PM, 2011, p. 161-2

Nós somos responsáveis pelo outro



"Nós somos responsáveis pelo outro, estando atentos a isso ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto sobre a vida de todos, e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas. O que não significa, porém, que nós nos responsabilizamos por isso, que prestamos a devida atenção a esse fato quando agimos ou tomamos decisões."

Zygmunt Bauman (1925-). Capitalismo parasitário. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 75-6

Leônia



"A cidade de Leônia refaz a si própria todos os dias: a população acorda todas as manhãs em lençóis frescos, lava-se com sabonetes recém-tirados da embalagem, veste roupões novíssimos, extrai das mais avançadas geladeiras latas ainda intactas, escutando as últimas lengalengas do último modelo de rádio.

Nas calçadas, envoltos em límpidos sacos plásticos, os restos da Leônia de ontem aguardam a carroça do lixeiro. Não só tubos retorcidos de pasta de dente, lâmpadas queimadas, jornais, recipientes, materiais de embalagem, mas também aquecedores, enciclopédias, pianos, aparelhos de jantar de porcelana: mais do que pelas coisas que todos os dias são fabricadas vendidas compradas, a opulência de Leônia se mede pelas coisas que todos os dias são jogadas fora para dar lugar às novas. Tanto que se pergunta se a verdadeira paixão de Leônia é de fato, como dizem, o prazer das coisas novas e diferentes, e não o ato de expelir, de afastar de si, expurgar uma impureza recorrente. O certo é que os lixeiros são acolhidos como anjos e a sua tarefa de remover os restos da existência do dia anterior é circundada de um respeito silencioso, como um rito que inspira a devoção, ou talvez apenas porque, uma vez que as coisas são jogadas fora, ninguém mais quer pensar nelas."

Italo Calvino (1923-1985). As cidades invisíveis (1972). São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 105

Imperial Bedrooms



"During the last week of December if we aren't in bed we're at the movies or watching screeners and Rain simply nods when I tell her everything that's wrong with the movie we've just seen and she doesn't argue back. 'I liked it', she will say, putting a light touch on everything, her upper lip always provocatively lifted, her eyes always drained of intent, programmed not to be challenging or negative. This is someone trying to stay young because she knows that what matters most to you is the youthful surface. This is supposed to be part of the appeal: keep everything young and soft, keep everything on the surface, even with the knowledge that the surface fades and can't be held together forever – take advantage before the expiration date appears in the nearing distance. The surface Rain presents is really all she's about, and since so many girls look like Rain another part of the appeal is watching her try to figure out why I've become so interested in her and not someone else."

Bret Easton Ellis (1965-). Imperial Bedrooms (2010) [sequência de "Abaixo de zero", de 1985]. New York: Vintage Books, 2010, p. 51

Loucura


“Loucura, eu penso, é sempre um extremo de lucidez. Um limite insuportável. Você compreende, compreende, compreende e compreende cada vez mais, e o que você vai compreendendo é cada vez mais aterrorizante – então você ‘pira’. Para não ter que lidar com o horror.”

Caio Fernando Abreu (1948-1996). Cartas

Lobo da Estepe



“Como não haveria de ser eu um Lobo da Estepe e um mísero eremita em meio a um mundo cujos objetivos não compartilho, cuja alegria não me diz respeito! (...) E, de fato, se o mundo tem razão, se essa música dos cafés, essas diversões em massa e esses tipos americanizados que se satisfazem com tão pouco têm razão, então estou louco. Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes – aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem alegria nem alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível.”

Hermann Hesse (1877-1962). O Lobo da Estepe (1927). Rio de Janeiro: BestBolso, 2009

Solidão



“...como admirava, então, aquelas enevoadas tardes de outono ou de inverno! Como respirava, ansioso e embevecido, a sensação de isolamento e melancolia, quando, noite adentro, enrolado em meu capote, atravessava as chuvas e tempestades de uma natureza hostil e revoltada, e caminhava errante, pois naquele tempo já era só, mas ia repleto de profunda satisfação e de versos, que mais tarde escrevia, em meu quarto, à luz de uma vela, sentado à beira da cama.”

Hermann Hesse (1877-1962). O Lobo da Estepe (1927). Rio de Janeiro: BestBolso, 2009

Profissões liberais



"A liberdade dessas profissões consiste em serem escolhidas pelo estudante. Isso dá uma aparência de liberdade, apesar de na maioria dos casos ser a escolha mais da família do que do aluno e haver muitos pais que prefiram morder a língua a deixar ao filho a liberdade da escolha. Mas talvez seja uma calúnia o que estamos dizendo, afastemos essa objeção! Admitamos que exista liberdade, mas ela se limita à escolha da profissão. Depois disso acabou-se a liberdade. Desde os estudos feitos na universidade, o médico, o advogado, o técnico estão presos a um currículo escolar muito rígido, que termina com uma série de exames. Caso eles passem nos exames, recebem seu diploma e poderão exercer sua profissão com aparente liberdade. Serão porém escravos de poderes baixos, vão depender do sucesso, do dinheiro, do seu orgulho, da procura de fama, da simpatia ou antipatia que despertarão nos outros. Têm que se candidatar a eleições, ganhar dinheiro, tomar parte na luta brutal das castas, das famílias, dos partidos e dos jornais. Em compensação, têm a liberdade de obter sucesso e fortuna e ser odiados pelos que não os tiveram, ou vice-versa."

Hermann Hesse (1877-1962). O jogo das contas de vidro (1943). 4ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, p. 91-92

a mais sublime energia do desejo



"O que tu chamas de paixão não é nenhuma energia psíquica, mas um atrito entre a alma e o mundo exterior. Onde reinam os sentimentos apaixonados não existe um plus de energéticos desejos e aspirações, mas esses sentimentos se dirigem a uma meta solitária e falsa, e por essa razão a atmosfera se torna tensa e pesada. Quem centralizar a mais sublime energia do desejo, quem a dirigir ao verdadeiro ser, à perfeição, terá uma aparência mais calma do que a pessoa apaixonada, porque a labareda do seu ardor não é sempre visível, e porque, por exemplo, ao discutir, essa pessoa não grita nem gesticula. Mas eu te digo: esse homem arde, queima!"

Hermann Hesse (1877-1962). O jogo das contas de vidro (1943). 4ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, p. 102

sábado, 9 de agosto de 2014

Educação



Rubem Alves, no seu livro PINÓQUIO ÀS AVESSAS "aponta para o perigo que correm nossas crianças ao ingressarem em escolas que não consideram seu potencial e suas capacidades individuais e criativas, antes tentam enquadrá-las num sistema educacional rígido, conservador, anacrônico e sufocante.

Felipe, o personagem principal da história, um menino que adora pássaros e sonha se tornar um cuidador de pássaros quando crescer, descobre, indo para a escola, que os adultos são aquilo que fazem para ganhar dinheiro e que ser cuidador de pássaros não dá dinheiro, que ser cuidador de passarinhos não é uma atividade produtiva. Não se faz vestibular para ser cuidador de passarinhos.

Quando dormia, Felipe sempre sonhava. E sonhava que professores eram pássaros que ensinavam a voar, que cada um ensinava a voar de um jeito e que havia vários jeitos de voar. (...)

E na escola, o menino vai descobrindo e aprendendo coisas. Aprendendo que na escola há horas certas para pensar as coisas, como na TV, a gente aperta um botão e faz mudar o canal; que na escola é a campainha que faz mudar o canal do pensamento; que cada professor sabe apenas de uma coisa, e que nenhum sabe o nome do pássaro azul que ele viu voando quando vinha para a escola; que a escola é uma grande corrida, onde uns ganham e outros perdem; que os conhecimentos não valem pela sua utilidade, mas porque vão cair na prova e no vestibular; e que quando se pensa sobre coisas que a gente gosta e não sobre o assunto que a professora está falando as crianças podem ser diagnosticadas como crianças com distúrbio de atenção. Distúrbio de atenção é quando a atenção está no lugar que o coração deseja e não no lugar onde o professor manda."

Elis Zampieri, no blog "Sobre Educação", a respeito do livro "Pinóquio às avessas: uma estória sobre crianças e escolas para pais e professores", de Rubem Alves

Dom Quixote



"Em suma, ele engolfou-se tanto em sua leitura, que lendo passava as noites em claro, e os dias em turvo; e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro de maneira que veio a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo aquilo que lia nos livros, tanto de encantamentos como pelejas, batalhas, duelos, ferimentos, galanteios, amores, desgraças e disparates impossíveis; e assegurou-se-lhe de tal modo na imaginação que era verdade toda aquela máquina daquelas sonhadas invenções que lia, que para ele não havia outra história mais certa no mundo. [...]

Então, consumido já seu juízo, veio a dar no mais estranho pensamento em que jamais deu louco algum no mundo, e foi que lhe pareceu conveniente e necessário, tanto para o aumento de sua honra como para serviço de sua república, fazer-se cavaleiro andante, e ir pelo mundo afora com suas armas e cavalo a buscar aventuras e a exercitar-se em tudo aquilo em que ele lera."

Miguel de Cervantes (1547-1616). Dom Quixote (1605)

Ofensas



"As ofensas, que na verdade consistem sempre na exteriorização da falta de consideração, colocar-nos-iam bem menos fora de nós mesmos se, por um lado, não nutríssimos uma representação tão exagerada do nosso elevado valor e da nossa dignidade – portanto, um orgulho desmesurado – e, por outro, se estivéssemos bastante cientes daquilo que, via de regra, no fundo do coração, cada um crê e pensa dos outros. 

Que contraste flagrante entre a susceptibilidade da maioria das pessoas à mais tênue alusão de censura a seu respeito, e aquilo que ouviriam de si, caso surpreendessem as conversas dos seus conhecidos! Deveríamos, antes, ter em mente que a polidez habitual é apenas uma máscara burlesca; desse modo, não gritaríamos tão alto todas as vezes que esta fosse deslocada ou retirada por um breve instante."

Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão. Aforismos para a Sabedoria de Vida

Os mortos não estão mortos



"Atente os seus ouvidos
Mais às coisas que aos Seres
À voz do Fogo, fique atento, 
Ouça a voz das Águas.
Ouça através do Vento
A Savana a soluçar 
É o Sopro dos ancestrais

Os que faleceram jamais se foram
Eles estão na Sombra que se ilumina
E na sombra que se enegrece.
Os Mortos não estão sob a Terra
Eles estão na Árvore que freme,
Estão na Madeira que geme,
Estão na Água que dorme, 
Estão na Cabana, estão na Massa
Os mortos não estão mortos."
...
Birago Diop (1906-1989), poeta senegalês. Sopro. In: modo de usar & co (blog)

Eu sou triste



"Eu sou triste como um prático de farmácia,
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.

Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos pra não fazerem nada com eles.

Também se o Diretor tivesse a minha imaginação
O Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar."

Murilo Mendes (1901-1975). Poemas (1925-1929) e Bumba-meu-Poeta (1930-1931). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p. 37

O inventor das máquinas



"O inventor das máquinas que mudam a vida da terra

trabalha na bruta sala de cimento armado.
Tantos dínamos, êmbolos, cilindros mexem naquela cabeça
que ele não escuta o barulho macio
das almas penadas
esbarrando nos móveis."

Murilo Mendes (1901-1975). Poemas (1925-1929) e Bumba-meu-Poeta (1930-1931). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p. 38

Imagem: "Murilo Mendes" (1930), por Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)

Abaixo de zero



"Manhã de Natal e estou doidão devido ao pó, e uma de minhas irmãs me deu uma agenda encadernada em couro, bem cara, com páginas grandes e brancas e datas impressas elegantemente ao alto das folhas, em filigranas douradas e prateadas. Agradeço-lhe e a beijo, todas essas coisas que se costuma fazer, e ela sorri e se serve de outra taça de champanhe. Tentei manter uma agenda durante um verão, mas não deu certo. Ficava confuso e anotava as coisas à toa e cheguei à conclusão de que eu não tinha atividades o suficiente para manter uma agenda. Sei que não vou usar esta e, provavelmente, vou levá-la comigo para New Hampshire e ela vai ficar jogada na minha escrivaninha por três ou quatro meses, sem ser usada, em branco. Minha mãe nos observa, sentada no sofá da sala, tomando champanhe. Minhas irmãs abrem os presentes displicentemente, indiferentes. Meu pai parece elegante e firme e está preenchendo cheques para mim e minhas irmãs, e eu me pergunto por que ele não preencheu todos antes, mas esqueço e olho pela janela, para o vento quente soprando pelo terreno. A água ondula na piscina."

Bret Easton Ellis (1964-). Abaixo de zero (1985). Porto Alegre: L&PM, 2011, p. 61-2

Poema em linha reta


"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."

Fernando Pessoa [Álvaro de Campos] (1888-1935). Poema em linha reta.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Fui ao rio...



"Fui ao rio e o sentia
próximo de mim, diante de mim.
Os ramos tinham vozes
que não chegavam a mim.
A corrente dizia
coisas que eu não entendia.
Quase me angustiava.
Queria compreendê-lo,
sentir o que nele o céu pálido e vago dizia
com suas primeiras sílabas alargadas,
mas não conseguia.

Retornava.
– Era eu o que retornava? –
na angústia vaga
de sentir-me só entre as coisas, últimas e secretas.
De repente senti o rio em mim,
corria em mim
com suas margens trêmulas de sinais,
com seus fundos reflexos apenas estrelados.
Corria em mim o rio com suas ramagens.
Eu era um rio ao anoitecer
e suspiravam em mim as árvores
e se apagavam em mim as veredas e o capim.
Me atravessava um rio, me atravessava um rio!"

Juan L. Ortiz (1896-1978), poeta argentino. Fui ao rio... In: modo de usar & co. (blog)

Canção da bebida



"Agora é a hora de deixar de beber.
Parar de uma vez, é preciso.
Foi com certeza o bastante.
Consola-me então, ó Espírito,
nesta noite de 20 para 21 de julho de 1965,
em desespero profundo, e cercado de Trevas."

Gerard Reve (1923-2006), poeta holandês. Canção da bebida. In: Canções espirituais (1966)

Ela


"Ela devora seus filhos
ela bebe o sangue de seus mortos
ela prega aos surdos
ela desconhece valores superiores

Ela perde o caminho
ela cambaleia de traição em traição
de erro em erro
ela dorme nas derrotas

Que ela é desnecessária
toda criança aprende na escola
que o povo não a deseja
finalmente percebeu o povo

Que ela não pode vencer
foi provado por a + b
Os que o provaram
não dormem muito bem

Os que nela creem
cansam-se às vezes com as dúvidas
alguns que a odeiam
sabem que ela está a caminho"

Erich Fried (1921-1988), poeta austríaco. Ela. In: modo de usar & co (blog)

céu azul



"Mãos brancas
cabelos ruivos
olhos azuis

Pedras brancas
sangue ruivo
lábios azuis

Ossos brancos
areia ruiva
céu azul"

Erich Fried (1921-1988), poeta austríaco. Naturalização. In: modo de usar & co (blog)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Confidência



"Tudo o que existe em mim de grave e carinhoso
Te digo aqui como se fosse ao teu ouvido...
Só tu mesma ouvirás o que aos outros não ouso
Contar do meu tormento obscuro e impressentido.

Em tuas mãos de morte, ó minha Noite escura!
Aperta as minhas mãos geladas. E em repouso
Eu te direi no ouvido a minha desventura
E tudo o que em mim há de grave e carinhoso."

Manuel Bandeira (1886-1968). Confidência (1913). In: Os melhores poemas de Manuel Bandeira. 5ª ed. São Paulo: Global, 1988, p. 55

Eu li nos olhos do meu filho



"Ontem vi em meu filho um olhar estranho
Que durou uma notícia trágica um comercial
Eu li nos olhos do meu filho
Que já viram coisas demais a pergunta
Se o mundo ainda vale o esforço que é a vida
Pelo instante que durou uma notícia trágica
Um comercial eu fiquei em dúvida
Se desejava a ele uma vida longa
Ou por amor uma morte prematura."

Heiner Müller (1929-1995), poeta alemão. Tristão 1993. In: modo de usar & co (blog)

De minha cela



"De minha cela perante a folha em branco
Na cabeça um drama para plateia nenhuma
Surdos os vencedores os vencidos mudos
Sobre a cidade estranha um olhar estranho
Cinza-amarelas passam as nuvens sobre mim
Branco-cinza cagam as pombas sobre Berlim"

Heiner Müller (1929-1995), poeta alemão. Olhar estranho: despedida de Berlim. In: modo de usar & co (blog)

en ninguna parte



"No volvían de un lugar determinado, según sus ojos; volvían de haber estado en ninguna parte, en una soledad absoluta y engañosamente poblada por símbolos: la ambición, la seguridad, el tiempo, el poder."

Juan Carlos Onetti (1909-1994), escritor uruguaio. El astillero (1961). Barcelona: Seix Barral, 2009, p. 115