quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Revés

"Porque só conhece a vida quem já mergulhou nas profundezas. Só um revés confere ao homem sua força impetuosa integral. Principalmente o gênio criador precisa desta solidão temporária forçada para medir, das profundezas do desespero, do exílio distante, o horizonte e a extensão de sua verdadeira missão."

Joseph Fouché (1759-1820). Citado por Stefan Zweig. Retrato de um Homem Político: Joseph Fouché (1929)

Tédio

"Acordei hoje muito cedo, num repente embrulhado, e ergui-me logo da cama, sob o estrangulamento de um tédio incompreensível. Nenhum sonho o havia causado; nenhuma realidade o poderia ter feito. Era um tédio absoluto e completo, mas fundado em qualquer coisa. No fundo obscuro da minha alma, invisíveis, forças desconhecidas travavam uma batalha em que meu ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito. Uma náusea física da vida inteira nasceu com o meu despertar. Um horror a ter que viver ergueu-se comigo da cama. Tudo me pareceu oco e tive a impressão fria de que não há solução para problema algum. Uma inquietação enorme fazia-me estremecer os gestos mínimos. Tive receio de endoidecer, não de loucura, mas de ali mesmo. O meu corpo era um grito latente. O meu coração batia como se soluçasse."

Fernando Pessoa (1888-1935). Livro do desassossego. Porto: Assírio e Alvim, 2013, n. 98. Citado por Adriano Oliveira. O tédio no 'Livro do Desassossego'.

O pensamento fácil


"Na Babel em que todos podem falar ao mesmo tempo, irão se sobressair aqueles que se fizerem mais vistos, claro que por seus próprios meios. Todavia, como todos podem falar, o número de coisas a serem vistas e ouvidas é infindável, de tal modo que para que se possa tomar parte neste circuito que se quer infinito, tudo deve ser feito segundo o critério da facilidade. Tudo deve ser fácil de ver, de ouvir, de interagir.

A timeline da rede social será melhor vista, isto quer dizer, mais rapidamente vista, quanto mais fáceis forem as coisas que se apresentem. Nesta faceta, a internet mostra-se muito mais conformista que revolucionária. E todos aqueles que objetivam ganhar e aumentar visibilidade devem assim proceder, não importa a direção política que sigam. [...]

Qualquer ato que possa demandar um maior tempo e esforço é, de imediato, rechaçado, posto que se identifica com a encarnação da chatice. Assim, são os nossos desejos, afetos e pensamentos que também devem se acomodar ao critério da rapidez e da facilidade. [...]

O ‘pensamento fácil’ é o modo difuso como raciocina o indivíduo deste começo de século. É a renúncia antecipada a qualquer resquício de complexidade. Pois esta última implica demora, esforço, e tais coisas são abominadas como sendo os antônimos absolutos da facilidade. Conformando-se aos tempos informacionais, o 'pensamento fácil' abole a barreira entre o simples e o simplório. Trabalha com definições curtas, como na lógica do estabelecimento do número máximo de caracteres. [...]

Desse modo, também a linguagem, as capacidades expressivas são alteradas pelo critério da brevidade, que é a regra linguística do 'pensamento fácil'. [...]

Se também nós nos acomodarmos ao ‘pensamento fácil’, cada vez mais perderemos a capacidade de realizar a crítica do presente, pois enquanto nos dão a facilidade como regra, o mundo se complexifica, nos pedindo cada vez mais o forjar de alternativas novas. Estas demandam sempre esforço, pertinácia e tempo. Um tempo que não é o das facilidades e um pensamento que não se contenta com simplismos. O desafio é, então, atuar no virtual sem se deixar seduzir pelo ‘pensamento fácil’, nem endossá-lo.”

Fran Alavina. A internet e as artimanhas do pensamento fácil. In: Carta Capital, 17/08/2016

Prefiro a derrota

"Prefiro a derrota com o conhecimento da beleza das flores que a vitória no meio dos desertos, cheia de cegueira da alma a sós com a sua nulidade separada."

Fernando Pessoa (1888-1935). Livro do Desassossego, p. 209

Como escapar?

"Eu não tinha interesses. Eu não tinha interesse por nada. Não fazia a mínima ideia de como iria escapar. Os outros, ao menos, tinham algum gosto pela vida. Pareciam entender algo que me era inacessível. Talvez eu fosse retardado. Era possível. Frequentemente me sentia inferior. Queria apenas encontrar um jeito de me afastar de todo mundo. Mas não havia lugar para ir. Suicídio? Jesus Cristo, apenas mais trabalho. Sentia que o ideal era poder dormir por uns cinco anos, mas isso eles não permitiriam."

Charles Bukowski (1920-1994). Misto-quente (1982). Porto Alegre: L&PM.

sábado, 20 de agosto de 2016

O poder do dinheiro


"Scarsdale Vibe discursava para a delegação de Las Animas-Huerfano do Fórum pela União e Defesa da Indústria (F.U.D.I.), reunida no cassino de um exclusivo resort de águas termais perto do Divisor de Águas. [...]

'Isso mesmo, nós os usamos', Scarsdale já no meio daquele discurso que se tornara sua obra-prima oratória costumeira, 'nós os arreamos e sodomizamos, fotografamos sua degradação, nós os obrigamos a subir em estruturas de ferro elevadas e penetrar em minas, esgotos e abatedouros, a carregar pesos desumanos, colhemos deles os músculos, a visão, a saúde, e temos a bondade de lhes deixar uns poucos anos de vida miserável. É claro que fazemos isso. E por que não? Eles não servem para mais nada, mesmo. Pode-se esperar deles que atinjam a condição humana integral, adquirindo educação, formando famílias, promovendo a cultura ou a raça? Nós pegamos o que podemos pegar enquanto nos deixam pegar. Olhem só para eles - a marca de seu destino absurdo salta aos olhos. A música vai parar de tocar de repente, e são eles que vão ficar de fora, apalermados, quase todos desafinados, jamais inteiramente conscientes, se tivessem bom senso já teriam pulado fora do jogo há muito tempo para procurar um refúgio antes que fosse tarde demais. Talvez, mesmo se tivessem feito isso, não teriam encontrado nenhum refúgio.

'Nós vamos comprar tudo', fazendo o gesto óbvio com o braço, 'todo este país. O dinheiro fala, a terra escuta, onde o anarquista se escondia, onde o ladrão de cavalos exercia seu ofício, nós, os pescadores de americanos, havemos de lançar nossas redes com grades perfeitamente retas, com quadrados de quatro hectares terraplenados, protegidos contra pragas, prontos para serem edificados. Onde alienígenas catavam lenha e caçavam ratos em nome de seus míseros sonhos comunistas, a boa gente das pradarias virá em multidões para povoar estas serras, gente limpa, trabalhadeira, cristã, enquanto nós, contemplando seus pequenos bangalôs de férias, habitaremos palácios milionários dignos de nossos status, que serão financiados pelo dinheiro das hipotecas dessa gente. Quando as cicatrizes dessas batalhas já tiverem secado há muito tempo, e os montes de escória estiverem cobertos por capim e flores silvestres, e a chegada da neve não for mais uma maldição e sim uma promessa, ansiosamente aguardada por trazer um influxo de gente com dinheiro para gastar em diversões hibernais, quando os fios reluzentes dos teleféricos costurarem todas as encostas, e tudo se reduzir a festivais, esportes salutares e corpos selecionados pela eugenia, quem ainda haverá de se lembrar dessa gentalha sindicalizada, cadáveres congelados cujos nomes, aliás falsos, jamais foram registrados? Quem vai querer saber que outrora os homens brigavam como se uma jornada de trabalho de oito horas, e umas poucas moedas a mais ao final da semana, fossem da maior importância, e compensassem o vento implacável a penetrar o telhado furado, as lágrimas a congelar num rosto de mulher tão gasto quanto o de uma índia envelhecida antes do tempo, o choramingar de crianças cujas barrigas nunca se sentem satisfeitas, cujo futuro, o daquelas que sobreviveram, sempre foi trabalhar para nós, levar e trazer, dar de comer e amamentar, vigiar as cercas das extensões de nossas propriedades, velar pelo nosso sono e nos proteger de intrusos e questionadores?'."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 1003-1004

Príncipe do Mal

"Ao cruzar o continente europeu, os rapazes manifestaram seu assombro ao constatar quão mais infectado de luz se haviam tornado os terrenos noturnos que passavam lá embaixo – ninguém jamais os vira tão claros, pois as lanternas isoladas e redes esparsas de luz de gás haviam sido substituídas pela iluminação de rua eletrificada, como se pelotões avançados do dia estivessem progressivamente invadindo e colonizando os confins desarmados da noite. Agora porém, finalmente, sobrevoando o sul da Califórnia e contemplando a incandescência que jorrava dos subúrbios residenciais e praças urbanas, quadras esportivas, cinemas, pátios de manobras e estações ferroviárias, claraboias de fábricas, antenas, ruas e avenidas com filas de faróis de automóveis constantemente a se arrastar para além do horizonte, sentiam-se na posição de testemunhas inquietas de alguma conquista final, um triunfo sobre a noite cuja razão de ser nenhum deles compreendia de todo.

'Deve ter a ver com turnos de trabalho extras', arriscou Randolph, 'cada vez mais frequentes, avançando pela noite adentro.'

'Tantos empregos adicionais', entusiasmou-se Lindsay, 'devem indicar uma expansão ainda maior da já prodigiosa economia norte-americana, o que sem dúvida é uma boa notícia para nós, levando-se em conta a fração considerável do nosso capital que lá está investida.'

'Isso mesmo, trabalham como mouros pra viver na miséria e morrer cedo', Darby rosnou, 'é graças a isso que nós podemos ficar aqui voando, no bem-bom.' [...]

Como se fortificado pela absorção de uma quantidade crítica daquela luz implacável, Miles falou, sua voz quase falhando sob o peso de uma emoção difícil de discernir. 'Lúcifer, filho da manhã, portador da luz... Príncipe do Mal.'"

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 1035

Em L.A.


"Lew sabia que outros profissionais do seu ramo, aqueles que atuavam dos dois lados da lei até não saberem mais de que lado estavam, que haviam chegado ao topo, alguns deles, os piores dos piores, agora, já tendo aparado muito tempo atrás os bigodes grisalhos, levando uma vida pacífica naquela costa ocidental, estavam enriquecendo com negociatas imobiliárias apenas um pouco mais legítimas do que os assaltos a trens que no passado constituíam sua principal fonte de renda... bandoleiros mais modestos, embora outrora assassinos de quatro costados, agora levavam existências pacatas em pequenos chalés perto de Pico, com suas esposas jovens e animadas, sempre a preparar tortas, atuando como consultores para aquelas fábricas de sombras que produziam em série filmes que transformavam aqueles tempos de loucura de antigamente em pacotes de entretenimento inofensivo. Lew jamais imaginou que chegasse a ver tal coisa, porém dava por si dizendo isso todos os dias."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 1045

O mundo dos mortos


"Não dormindo jamais, ruidoso como um dia de festa interminável, o 'Inconveniência', outrora um veículo de peregrinação celeste, transformou-se em seu próprio destino, onde qualquer desejo que possa ser formulado é ao menos considerado, ainda que nem sempre realizado. Para que todos os desejos se realizassem, seria necessário que em toda a Criação conhecida, o bem não buscado e não compensado tivesse evoluído de algum modo a ponto de se tornar ao menos mais acessível a nós. Ninguém a bordo do 'Inconveniência' jamais observou nenhum sinal de tal coisa. Eles sabem – Miles tem certeza – que ela está lá, como uma tempestade que se aproxima, porém permanece invisível. Em breve verão o manômetro indicar uma queda. Sentirão a virada do vento. Colocarão óculos protetores com vidros escuros para a glória do que virá rasgar os céus. Eles voam em direção à graça."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 1087

Redação

"Jesse chegou da escola com o seguinte dever de casa a fazer: 'Escreva uma redação sobre o que significa ser americano'.

'Oba, oba.' Reef tinha no rosto a mesma expressão que surgia no rosto de seu pai quando ele se preparava para mais uma atividade envolvendo dinamite. 'Me dá aquele lápis um minuto.'

'Já fiz.' O que Jesse havia escrito era o seguinte:

SIGNIFICA FAZER O QUE ELES MANDAM E ACEITAR O QUE ELES DÃO E NÃO ENTRAR EM GREVE SENÃO OS SOLDADOS DELES MATAM A GENTE.

'Essa frase é o que eles chamam de tópico da redação?'

'É a redação toda.'

'Ah.'"

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 1078

Revés

"Porque só conhece a vida quem já mergulhou nas profundezas. Só um revés confere ao homem sua força impetuosa integral. Principalmente o gênio criador precisa desta solidão temporária forçada para medir, das profundezas do desespero, do exílio distante, o horizonte e a extensão de sua verdadeira missão."

Joseph Fouché (1759-1820). Citado por Stefan Zweig. Retrato de um Homem Político: Joseph Fouché (1929)

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Perder

"Só uma coisa importa: aprender a ser o perdedor."

E. M. Cioran (1911-1995). In: James Geary. O Mundo em uma Frase: uma breve história do aforismo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 150

O rei burguês

"A opereta, que estava arrasando em Viena no momento, chamava-se O rei burguês, a história do soberano de um país fictício da Europa Central que, sentindo-se alienado de seu povo, resolve andar pelas ruas disfarçado de membro da classe média urbana.

'Por que não como um camponês, Alteza? Um cigano, ou um trabalhador?'

'É necessário um certo nível de conforto, Schleppingsdorff. Quem passa todo o dia trabalhando e dormindo não tem tempo para fazer observações, quanto mais pensar... não é mesmo?'"

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 919

Ferrovias


"Frank sabia que sempre que o brujo falava com um branco sobre 'caminhos' ele pensava, com não muita boa vontade, nas estradas de ferro, que ele odiava como a maioria de sua gente, por elas destruírem a terra e o que outrora nela crescia e vivia. Frank respeitava essa atitude – quem, a certa altura da vida, não tinha sentido ódio da ferrovia? Ela penetrava, ela rasgava ao meio cidades, manadas selvagens, divisores de águas, gerava pânico econômico e exércitos de mulheres e homens desempregados, e gerações de citadinos endurecidos, sem sentimentos e sem princípios, que reinavam com poder absoluto, ela levava embora tudo de modo indiscriminado, para ser vendido, abatido, carregado para onde o amor não alcança."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 935

O mundo não me agrada

"Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semiparalítica fez em vingança: quebrar um jarro. Não sou semiparalítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos todos semiparalíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação. E o pior – vive-se, sem ao menos uma explicação. E ter empregadas, chamemo-las de uma vez de criadas, é uma ofensa à humanidade. E ter a obrigação de ser o que se chama apresentável me irrita. Por que não posso andar em trapos, como homens que às vezes vejo na rua com barba até o peito e uma bíblia na mão, esses deuses que fizeram da loucura um meio de entender? E por que, só porque escrevi, pensam que tenho que continuar a escrever? Avisei a meus filhos que amanheci em cólera, e que eles não ligassem. Mas eu quero ligar. Quereria fazer alguma coisa definitiva que rebentasse com o tendão tenso que sustenta meu coração."

Clarice Lispector (1920-1977). A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 33

Deserção

"O que chamou a atenção de Cyprian mais do que qualquer mudança de vestuário foi o aspecto radiante de um espírito redespertado que Ratty, agora claramente libertado da máscara rígida de sua velha personalidade profissional, estava ainda aprendendo a controlar. 'Não estou disfarçado, não, não, este é o meu eu verdadeiro – a carreira de funcionário público, isso tudo terminou pra mim, na verdade a culpa foi sua, Cyprian. A maneira como você enfrentou o Theign foi uma inspiração para muitos de nós – e de repente surgiram vazios de pessoal em toda a Whitehall, em alguns departamentos chegou a haver uma deserção em massa. Quem nunca trabalhou lá não pode imaginar a felicidade que é livrar-se daquilo finalmente. Era como se eu estivesse a patinar no gelo, um belo dia simplesmente entrei a deslizar na sala do diretor, coisa curiosa, nem me lembro de ter aberto a porta antes, interrompi uma reunião, despedi-me, beijei a datilógrafa ao sair, e não é que ela correspondeu ao meu beijo, largou o que estava a fazer e veio comigo? Simplesmente largou tudo. Sophrosyne Hawkes, uma linda rapariga – lá está ela."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 937

Viagens no tempo

"'Estamos na nossa era de exploração', declarava ela, 'adentrando aquela terra jamais mapeada que nos aguarda além das fronteiras e dos mares do Tempo. Lá nossa jornada se dá à luz mortiça do futuro, e voltamos ao dia burguês e suas ilusões gerais de segurança para relatar o que vimos. O que são esses nossos sonhos utópicos senão formas defeituosas de viagens no tempo?'"

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 947

Meia-noite e vinte


"Chegou a noite, afinal, e com ela passamos a falar de nossas vidas recentes. Antero tentou explicar as atividades de sua empresa de tendências e comunicação, ou era de publicidade e marketing, ou de gamificação e etnografia voltada pro mercado. Enfim, era algum tipo de enganação em larga escala. Mas nos últimos anos ele havia conquistado clientes como Ambev, Volkswagen, Sony e Unilever. Viajava pra São Paulo a cada duas semanas e pro exterior pelo menos uma vez por mês. [...] Ele se comportava como um guru mercadológico, ou seja, como um pateta. Sua existência, aos meus olhos, se aproximava de um esquete de humor absurdo que não tinha hora pra terminar nem reconhecia diferença entre palco e vida."

Trecho do novo romance de Daniel Galera, Meia-noite e vinte, nas livrarias a partir de 12 de setembro. 

Perto de Vjosa


"Num raro dia de sol, perto de uma cidadezinha no vale do Vjosa, ele e Yash se permitiram relaxar por um momento para apreciar a vista.

'Eu ficava aqui a vida toda.'

'Isso não me parece conversa de nômade.'

'Mas olha só.' Uma bela paisagem, pensava Reef, uma dúzia de minaretes erguendo-se ao sol por entre as árvores, um riozinho cujo fundo dava para se ver atravessando a cidade, a luz amarela de um café ao pôr do sol que talvez eles viessem a frequentar regularmente, os cheiros e os murmúrios e a certeza antiquíssima de que a vida, por mais que de vez em quando se reduzisse à arte de agir como uma presa inteligente, era preferível à praga de águias que começava a tomar conta da terra.

'Isso é que é o pior de tudo', disse Yashmeen. 'É tão belo.'

'Espera só até você ver o Colorado.'

Ela olhou para ele, e após uma ou duas batidas de coração ele olhou para ela. Ljubica, que naquele momento estava nos braços de Reef, apertou o rostinho contra o peito do pai e ficou olhando para a mãe como sempre fazia quando percebia que Yash estava prestes a começar a chorar."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 976

Dinamite

"A explosão foi tremenda, estilhaços e pedaços de homens e animais voando para todos os lados, jorros de vapor superaquecido a fluir por milhões de fumeiros irregulares surgidos por entre os fragmentos em movimento, um imenso hemisfério indistinto de poeira cinzenta, com laivos rosados de sangue, elevou-se e espalhou-se, e os sobreviventes andavam às cegas no meio do pó, tossindo desesperadamente. Alguns atiravam no vazio, outros já não lembravam onde ficavam os ferrolhos e os gatilhos, ou mesmo o que eram tais coisas. Mais tardes calculou-se que sessenta 'federales' haviam morrido instantaneamente, e os outros ficaram ao menos fora de combate. Durante dias, até os abutres tinham medo de se aproximar do local. O Vigésimo Batalhão amotinou-se e matou dois de seus oficiais, optou-se pela retirada, e todos voltaram correndo, cada um a seu modo, para Torreón. O general González, ferido e desonrado, suicidou-se."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 989

Mãe Jones

"Fazendo o reconhecimento de terreno, julgaram uma vez ver de relance ninguém menos que a 'Mãe' Jones, sendo empurrada para dentro de um vagão de trem e expulsa da cidade, uma atitude que na época chegava a ser cômica, pois ela logo dava meia-volta e retornava, tendo amigos entre os ferroviários ao longo de toda a rede, os quais a deixavam tomar qualquer trem e saltar onde ela bem entendesse. O que Frank percebeu naquela senhora de cabelos brancos era sua atitude de que-se-fodam, um desejo de aprontar que ela conseguira conservar em si, protegido da idade, dos plutocratas e daquilo que seus defensores contratados denominavam 'vida', como se soubessem o que era tal coisa – protegido como uma criança, a criança que ela fora um dia..."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 1007

Fantasmas

"Em campos de batalha, após o conflito, balas de canhão espalhadas por toda parte, ele havia convivido com milhares de fantasmas, todos eles cheios de ressentimentos, a zanzar, ou plantados nos portões dos cemitérios e em casas de fazendas abandonadas onde sobreviventes semienlouquecidos eram os que mais costumavam vê-los, se bem que alguns deles nem sabiam direito de que lado estavam daquela fronteira quase invisível..."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 1005

domingo, 7 de agosto de 2016

Desaparecer


EVANESCENCE

[substantivo]

o evento de desfazer-se e gradualmente sumir. desaparecer; dissipar-se ou desaparecer como vapor; a condição de ser transitório.

Etimologia: do Latim ēvānēscere “desaparecer”.

Tomás

"Ora, Tomás era livre, ao passo que nós – todos nós, os amigos dele – vivíamos restritivamente. Éramos pessoas organizadas, titulares de contas bancárias e cartões de crédito, adquiríamos bens e pagávamos nossas dívidas. Éramos pessoas de bem. E das grades dessa prisão, vigiados pelos mil olhos da moral, víamos com inveja, frustração e até com ódio o fluxo da vida em liberdade: o desejo, as aventuras, os atos irresponsáveis e prazerosos."

Sergio Faraco. A Dama do Bar Nevada, p. 34

Contra o dia


"'Que horas são, Yashmeen, não é possível que ainda seja tão cedo.'

'Talvez o tempo esteja mais lento, como dizem lá em Zurique. No meu relógio são onze.'

'Mas olha o céu.' De fato, era estranho. As estrelas não haviam aparecido, havia uma luminescência esquisita no céu, aquela luz obstruída de um dia de tempestade.

Isso durou um mês. Aqueles que julgavam ser um sinal cósmico estremeciam ao olhar para o céu a cada entardecer, imaginando catástrofes cada vez mais extravagantes. Outros, para quem o laranja não parecia um tom adequado ao apocalipse, ficavam sentados em bancos de praça, lendo tranquilos, acostumando-se com aquele curioso brilho pálido. À medida que as noites foram se sucedendo e nada acontecia e o fenômeno em pouco tempo foi se reduzindo aos tons habituais de violeta, a maioria das pessoas já não se lembrava da tensão, da sensação de aberturas e possibilidades, que haviam experimentado antes, e mais uma vez voltaram a pensar apenas no próximo orgasmo, alucinação, estupor, sono, para que pudessem atravessar a noite e proteger-se contra o dia."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 809-810

Entre o fogo e a treva

"Se o Limbo é uma espécie de subúrbio do Inferno, então é precisamente o lugar que me cabe. Entre o fogo e a treva exterior, onde posso desfrutar o equilíbrio."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 819

Bois de canga


"Ela era apenas um dígito no universo binário da entidade que a controlava, desde os esconsos de um longínquo mainframe. Ela e todos que ali trabalhavam. E para consolidar a excelência de seus serviços, para obstar mensagens de erro ou de obsolescência que os expusessem às razias da tecla punitiva, já renegavam seus sentidos, já não reconheciam sentimentos, já eram soldados da era do silício e até prefeririam que lhes substituíssem as células nervosas por plaquetas de transistores, diodos e circuitos integrados. Já não eram integralmente humanos e, ao invés de algozes, eles também eram as vítimas, marchando como marcham os bois de canga, a pontaços de picana."

Sergio Faraco. A Dama do Bar Nevada, p. 81

coisa preta

"E foi assim que Cyprian, fazendo-se passar pelo Magro de Gabrovo, passou a morar num teké chamado Pérola do Bara, e de imediato percebeu uma melhora no seu orçamento semanal, com a diminuição dos gastos com a 'coisa preta', nome dado ao haxixe pelos rapazes dervixes, pois bastava ficar parado um ou dois minutos no corredor e respirar fundo para que padrões de tapetes orientais começassem a brotar em seu campo de visão em tons luminosos de laranja e azul-celeste."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 851

Gente de dar lucro

“...as escolhas foram programadas, são impostas. A partir do condicionamento escolar, quando a criança entra na escola, vão dizer para ela: ‘Você não pode se divertir enquanto aprende’. Porra, aprender é divertido, cara! Tem que ser divertido. Tem que ser com prazer. Mas a criança já vai sendo enquadrada para encarar o trabalho como sacrifício. Você vai se divertir na hora do RECREIO. Setoriza sua alegria. Você vai se divertir nas horas vagas. No fundo, você vai viver nas horas vagas. Você vai fazer o que você gosta nas horas vagas. Você está sendo programado para odiar o seu trabalho, para adorar a sexta-feira, para você, quando for se divertir, estar tão pressionado, que você não vai se divertir, você vai descarregar. E nesse descarrego, você vai consumir. E nesse consumo, você vai dar lucro. Até o seu prazer vai ser controlado, vai ser induzido.”

Eduardo Marinho, artista de rua

Num café perto da Katunska Ulica

"As ameixeiras e romãzeiras estavam começando a florescer, tons incandescentes de branco e vermelho. As últimas manchas de neve já haviam quase desaparecido das sombras azul-anil dos muros de pedra voltados para o norte, porcas e porquinhos corriam alegres, guinchando, nas ruas lamacentas. Andorinhas com filhotes recém-nascidos atacavam seres humanos que elas consideravam intrusivos. Num café perto da Katunska Ulica, junto ao mercado, Cyprian, sentado em frente a uma mesa de um casal de namorados (a principal diferença entre os quais e os pombos, ele refletiu, era o fato de que os pombos eram mais diretos quando se tratava de cagar em cima das pessoas), fazendo um grande esforço para manter a expressão livre de sinais de aborrecimento, foi tomado por uma Revelação Cósmica, a qual caiu do céu como titica de pombo, a saber, que o Amor, o qual pessoas como Bevis e Jacintha sem dúvida imaginavam como uma única Força à solta no mundo, na verdade assemelhava-se mais às trezentas e trinta e três mil ou sabe-se lá quantas formas diferentes de Brama que são adoradas pelos hindus – a súmula, em qualquer momento dado, de todos os diversos subdeuses do amor que milhões de mortais apaixonados, numa dança ilimitada, por acaso estivessem cultuando. Sim, e boa sorte para todos eles.

Sentiu uma alegria sóbria e estranha diante da capacidade, que ele parecia ter adquirido apenas recentemente, de observar a si próprio se aborrecendo. Muito estranho."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 852-3