quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

The sense of an ending



"Later on in life, you expect a bit of rest, don't you? You think you deserve it. I did, anyway. But then you begin to understand that the reward of merit is not life's business."

Julian Barnes (1946-). The sense of an ending. New York: Vintage Books, 2012, p. 65

Fear


"I had a friend who trained as a lawyer, then became disenchanted and never practised. He told me that the one benefit of those wasted years was that he no longer feared either the law or lawyers. And something like that happens more generally, doesn't it? The more you learn, the less you fear. 'Learn' not in the sense of academic study, but in the practical understanding of life."

Julian Barnes (1946-). The sense of an ending. New York: Vintage Books, 2012, p. 91

Life story



"How often do we tell our own life story? How often do we adjust, embellish, make sly cuts? And the longer life goes on, the fewer are those around to challenge our account, to remind us that our life is not our life, merely the story we have told about our life. Told to others, but – mainly – to ourselfes."

Julian Barnes (1946-). The sense of an ending. New York: Vintage Books, 2012, p. 104

Things OK



"When you're young – when I was young – you want your emotions to be like the ones you read about in books. You want them to overturn your life, create and define a new reality. Later, I think, you want them to do something milder, something more practical: you want them to support your life as it is and has become. You want them to tell you that things are OK. And is there anything wrong with that?"

Julian Barnes (1946-). The sense of an ending. New York: Vintage Books, 2012, p. 121

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

No meio desse fluir


"Cada estação traz mudanças distintas às plantas e aos animais que cercam o rio. Nuvens de todos os tamanhos aparecem e se movem, e a superfície do rio, iluminada pelo sol, reflete essas formas brancas conforme vêm e vão, às vezes de um modo fiel, às vezes distorcido. Sempre que mudam as estações, a direção do vento oscila como se alguém houvesse apertado um interruptor. E corredores conseguem detectar cada detalhe na mudança sazonal quando o vento toca em nossa pele, no cheiro e na direção do vento. No meio desse fluir, tenho consciência de mim mesmo como uma minúscula peça no gigantesco mosaico da natureza. Sou apenas um fenômeno natural substituível, como a água do rio que corre sob a ponte na direção do mar."

Haruki Murakami (1949-). Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 81

Pontos positivos


"Dezesseis é uma idade intensamente problemática. Você se preocupa com coisas ínfimas, não consegue se situar de uma forma objetiva, torna-se proficiente em habilidades estranhas e sem sentido e é subjugado por complexos inexplicáveis. À medida que fica mais velho, porém, por meio de tentativa e erro você aprende a conseguir o que precisa, e a jogar fora o que deve ser descartado. E começa a reconhecer (ou a se resignar) que, uma vez que suas falhas e deficiências são bem próximas do infinito, é melhor você procurar os pontos positivos e aprender a se virar com o que tem."

Haruki Murakami (1949-). Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 129

domingo, 18 de janeiro de 2015

O que não temo


"– Você me fez confessar os temores que tenho. Mas eu também vou lhe contar o que eu não temo. Eu não temo ficar sozinho nem ser espezinhado pelos outros nem ter de deixar para trás o que quer que eu tenha que deixar para trás. E não tenho medo de cometer um erro, nem mesmo um grande erro, um erro que dure para a vida inteira e talvez por toda a eternidade."

James Joyce (1882-1941).
Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 305

Competição


"...por algum motivo, nunca me importei muito se derroto os outros ou se perco deles. Esse sentimento permaneceu um tanto inalterado depois que cresci. Não faz diferença o campo de atuação – derrotar alguém simplesmente não é meu barato. interesso-me muito mais por atingir os objetivos que fixei para mim mesmo...".

Haruki Murakami (1949-).
Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 15

A essência de correr


"As pessoas às vezes zombam de quem corre todo dia, alegando que é uma tentativa desesperada de viver mais. Mas não acho que esse seja o motivo pelo qual a maioria corre. A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo. Se você quer desfrutar os anos, é muito melhor vivê-los com objetivos claros e plenamente vivo do que numa bruma, e acredito que correr ajude a fazer isso. Forçar a si mesmo ao máximo dentro de seus limites individuais: essa é a essência de correr, e uma metáfora aplicável à vida – e, para mim, ao ato de escrever, também. Acredito que muitos corredores concordariam."

Haruki Murakami (1949-). Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 73

Este é meu corpo


"Este é meu corpo, com todas as suas limitações e idiossincrasias. Assim como meu rosto, mesmo que eu não goste, é o único que tenho, então preciso me virar com ele mesmo. À medida que envelheço, naturalmente fico resolvido em relação a isso. Você abre a geladeira e pode preparar uma boa – na verdade, até uma deliciosa – refeição com as sobras. Tudo que resta ali são uma maçã, uma cebola, queijo e ovos, mas não dá para se queixar. Precisa se virar com o que tem. À medida que envelhece você aprende até mesmo a ser feliz com o que tem. Essa é uma das poucas vantagens de envelhecer."

Haruki Murakami (1949-).
Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 76

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Confissão

"– Quanto tempo passou desde a sua última confissão, meu filho?
– Muito tempo, padre.
– Um mês, meu filho?
– Mais, padre.
– Três meses, meu filho?
– Mais, padre.
– Seis meses?
– Oito meses, padre.
Havia começado. O padre perguntou:
– E o que você recorda desde então?
Começou a confessar os pecados: missas perdidas, orações não feitas, mentiras.
– Mais alguma coisa, meu filho?
Pecados de raiva, de inveja dos outros, de gula, de vaidade, de desobediência.
– Mais alguma coisa, meu filho?
– Preguiça.
– Mais alguma coisa, meu filho?
Não havia como escapar. Ele murmurou:
– Eu... cometi pecados de impureza, padre.
O padre não virou a cabeça.
– Sozinho, meu filho?
– E... com outras pessoas.
– Mulheres, meu filho?
– Sim, padre.
– Eram mulheres casadas, meu filho?
Ele não sabia. Os pecados pingaram-lhe dos lábios um por um, pingaram em gotas vergonhosas daquela alma que supurava e escorria como úlcera, um sórdido fluxo de vício. Os pecados escorreram, vagarosos, imundos. Ainda havia o que contar. Ele baixou a cabeça, vencido."

James Joyce (1882-1941). Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 175-6

Coração selvagem

"Estava sozinho. Estava despreocupado, feliz e próximo ao coração pulsante da vida. Estava sozinho e era jovem e caprichoso e tinha o coração selvagem, estava sozinho em meio a uma desolação de brisas ingovernáveis e águas salgadas e à colheita marinha de conchas e emaranhados e luz cinzenta e velada do sol..."

James Joyce (1882-1941).
Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 208

Anjo selvagem


"Viver, errar, cair, triunfar, recriar a vida a partir da vida! Um anjo selvagem tinha aparecido diante de seus olhos, o anjo da juventude e da beleza mortal, um emissário das belas cortes da vida, para descortinar-lhe em um instante de êxtase todos os caminhos do erro e da glória. Adiante e adiante e adiante e adiante!"

James Joyce (1882-1941).
Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 210

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Livros que li em 2014


Literatura Brasileira:

- Água Viva (Clarice Lispector) [releitura]
- A paixão segundo G.H. (Clarice Lispector) [releitura]
- Angústia (Graciliano Ramos)
- S. Bernardo (Graciliano Ramos)
- Nove noites (Bernardo Carvalho)
- Benjamim (Chico Buarque)
- O alienista (Machado de Assis)
- O Grande Mentecapto (Fernando Sabino)
- Amálgama (Rubem Fonseca)
- Fim (Fernanda Torres)
- Passageiro do fim do dia (Rubens Figueiredo)

Literatura em Língua Estrangeira (originais ou traduções em inglês, francês e espanhol):

- The Book of Illusions (Paul Auster)
- L'affaire Saint-Fiacre (Georges Simenon)
- Retrato en sepia (Isabel Allende)
- Leviathan (Paul Auster)
- Le tour d'écrou (Henry James)
- El astillero (Juan Carlos Onetti)
- Imperial Bedrooms (Bret Easton Ellis)
- La colère de Maigret (Georges Simenon)
- Maigret et la jeune morte (Georges Simenon)
- On s'habitue aux fins du monde (Martin Page)

Literatura Estrangeira (traduções em português, literatura portuguesa ou em língua portuguesa):

- Divórcio em Buda (Sándor Márai)
- Notas do subsolo (Dostoievski)
- Hollywood (Charles Bukowski)
- Fahrenheit 451 (Ray Bradbury)
- Van Gogh (David Haziot)
- O barão nas árvores (Italo Calvino)
- Antes de nascer o mundo (Mia Couto)
- Juventude (J. M. Coetzee)
- Viagem ao fim da noite (Louis-Ferdinand Céline)
- Abaixo de zero (Bret Easton Ellis)
- O jogo das contas de vidro (Hermann Hesse)
- A máquina de fazer espanhóis (Valter Hugo Mãe)
- A desobediência civil (Henry David Thoreau)
- Amuleto (Roberto Bolaño)
- A festa da insignificância (Milan Kundera)
- Um sonho americano (Norman Mailer)
- O pintassilgo (Donna Tartt)
- Contos do nascer da Terra (Mia Couto)

Retiro


"O reitor não pediu para ouvir a lição do catecismo. Simplesmente enlaçou as mãos em cima da escrivaninha e disse:
– O retiro vai começar na tarde de quarta-feira em honra a São Francisco Xavier, cujo dia é sábado. O retiro vai se estender de quarta-feira a sexta-feira. Na sexta-feira as confissões serão ouvidas durante a tarde inteira após os rosários. Se qualquer garoto tiver um confessor especial, o melhor é não mudar. A missa vai ser celebrada na manhã de sábado às nove horas, com comunhão geral para todo o colégio. O sábado vai ser um dia livre. O domingo também, claro. Mas com o sábado livre e o domingo livre talvez certos garotos estejam dispostos a pensar que a segunda-feira também seria um dia livre. Tomem cuidado para não incorrer nesse erro. Acho que você, Lawless, é um tanto propenso a incorrer nesse erro.
– Eu, senhor? Por quê, senhor?
Um rumor de alegria silenciosa espalhou-se entre os garotos quando o reitor abriu um sorriso lúgubre. O coração de Stephen aos poucos começou a encolher e a desbotar de medo como uma flor ao murchar."
James Joyce (1882-1941). Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 129

Palmatória


"O Padre Arnall entrou e a lição de latim começou e Stephen permaneceu sentado, escorado na carteira com os braços cruzados. O Padre Arnall entregou os livros de temas e disse que aquilo era um escândalo e que todos deveriam ser reescritos de imediato com as correções necessárias. (...)
A porta se abriu em silêncio e se fechou. Um sussurro discreto percorreu a classe: era o prefeito de estudos. Fez-se um instante de silêncio sepulcral e então veio o sonoro baque de uma palmatória na última carteira. O coração de Stephen deu um salto por conta do medo.
– Tem algum garoto querendo levar uma surra por aqui, Padre Arnall?, bradou o prefeito de estudos. – Tem algum vagabundo preguiçoso e desleixado querendo levar uma surra nessa classe?"

James Joyce (1882-1941). Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 56-7

noite escura de um segredo


"Seria a noite escura de um segredo. Quando a noite caísse ainda cedo as lâmpadas iluminariam, aqui e acolá, o sórdido bairro dos bordéis. Ele seguiria um curso errante para cima e para baixo das ruas, andando em círculos cada vez mais próximos em um tremor de medo e alegria, até que os pés de repente o levassem a dobrar em uma esquina escura. As putas estariam saindo das casas e se aprontando para a noite, bocejando preguiçosamente depois de tirar um cochilo e de ajeitar os alfinetes nos cabelos. Ele passaria por elas calmamente enquanto aguardava um movimento repentino da própria vontade ou um chamado repentino à própria alma pecaminosa vindo daquelas carnes perfumadas. Porém, enquanto perambulava em busca desse chamado, os sentidos, embotados por esse único desejo, percebiam de maneira aguda tudo o que os feria ou os envergonhava". 

James Joyce (1882-1941). Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 123

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Olhar para o futuro


"...o que mais ameaçava Rosane era uma dúvida: será que, no fundo, o jeito de Rosane, sua opção, era de fato melhor? Rosane queria estudar, queria aprender, queria ter educação, queria uma profissão mais qualificada, poder ganhar mais, poder comprar mais coisas, queria ser respeitada por eles, os outros, aquela gente toda – queria poder morar em outro lugar, melhorar de vida, ser outra pessoa, ser alguém, alguém – isso era o certo, era o que todos diziam, era sabido e apregoado em toda parte – ali estava o que era bom fazer, o que era bom ter sempre na cabeça e não desistir nunca.

Dali, daquele ângulo bem definido e cada vez mais estreito, é que se devia olhar para o mundo em redor. Era dali que se devia lançar o olhar para o futuro. Mas a cada dia as dificuldades se mostravam tão flagrantes, os obstáculos eram tão descarados em seu poder e se levantavam tão desproporcionais às forças de Rosane que ela às vezes parava com um susto, uma surpresa, e de repente topava com um imenso vazio à sua volta."


Rubens Figueiredo (1956-). Passageiro do fim do dia (2010). São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 63-4

Novamente em casa


"Eu estava novamente em casa. Era ótimo. Recurvei-me sobre minha barriga. No Vietnã, os exércitos estavam lutando. Nos becos, os vagabundos mamavam em suas garrafas de vinho. Vi uma aranha escalando o peitoril da janela. Vi um jornal velho no chão. Havia uma foto de três garotas pulando uma cerca e mostrando muito das pernas. O lugar todo se parecia comigo e tinha meu cheiro. O papel de parede me conhecia. Era perfeito. Estava consciente de meus pés e meus cotovelos e meus cabelos. Não me sentia como se tivesse 45 anos de idade. Sentia-me como um maldito monge que recém houvesse recebido uma revelação. Sentia-me como se estivesse apaixonado por algo que fosse muito bom, mas não sabia exatamente o quê, exceto que estava ali, bem perto. Escutei todos os sons, os ruídos das motocicletas e dos carros. Ouvi os cães latindo. Pessoas rindo. Então dormi. Dormi e dormi e dormi. Enquanto uma planta olhava através da minha janela, enquanto velava meu sono. O sol seguia sua labuta e a aranha ficou a rastejar por ali."

Charles Bukowski (1920-1994). Ao sul de lugar nenhum - Histórias da vida subterrânea (1973). Porto Alegre: L&PM, 2011.

O ex-juiz e sua esposa

"...os amigos do juiz tinham morrido nos melhores hospitais, tinham mudado para outro país, mais de um foi assassinado, outros estavam de cama, inválidos, outros não queriam saber de mais nada a não ser prostitutas, filmes pornográficos e doses cada vez maiores de remédios estimulantes. Por sua vez, a esposa do juiz, depois que os filhos foram estudar no exterior e lá ficaram de uma vez, passou primeiro por uma fase de apatia: não arrumava mais nada em casa nem exigia das empregadas os cuidados a que o ex-juiz estava habituado.

Depois deu início a uma série de tratamentos de beleza e cirurgias plásticas. Aderiu a variadas crenças esotéricas e, em seu apartamento, era comum o juiz ter de abrir os janelões na tentativa de atenuar o cheiro dos incensos. Objetos em feitio de animais fantásticos, ou formados só por arabescos que se multiplicavam em serpentes e em penachos de muitas pontas, objetos feitos de pedra, de cristal, de metais dourados, verdes, apareciam em todo canto da casa em vários tamanhos. E a esposa, com adereços ciganos, hindus, africanos espalhados pela roupa e pelo corpo, empolgada a cada trimestre por uma nova redescoberta de si mesma, parecia ignorar quem era ou tinha sido um dia o seu marido, o juiz, o ex-juiz."

Rubens Figueiredo (1956-). Passageiro do fim do dia (2010). São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 130-1

No trabalho II


"O cimento até então era o seu trabalho, era o seu dia – obediente na mistura, dócil no tempo de dar a liga, o cimento era sempre o mesmo, não mudava, era o seu salário, o seu patrão. Estava por trás de tudo, por baixo de tudo, e era na direção do cimento que seus braços compridos se moviam: armar o pequeno lago de água limpa no alto do montinho de cimento e areia, depois misturar tudo com aquela água, em golpes medidos de uma enxada ou pá, e por último, com a ajuda da pá, encher os baldes ou os carrinhos de mão com a massa úmida, pesada – às vezes, numa sombra de irritação, num cansaço antecipado, ele já acordava pensando naquilo, sentia até o cheiro: na hora em que pegava o açúcar na colher para pôr dentro da caneca de café com leite, adivinhava no ouvido o chiado da lâmina da pá ao ser enfiada no monte de areia."

Rubens Figueiredo (1956-). Passageiro do fim do dia (2010). São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 101

No trabalho


"Rosane ficava o dia inteiro para lá e para cá, dentro e fora do escritório, em troca de um salário que era pouco mais do que nada, quase que só o suficiente para pagar a comida, o transporte e alguma roupa. Mesmo assim – Pedro percebia –, os patrões ainda se lamentavam, achavam que era muito, que tinham muita despesa com os empregados, deixavam claro que cumpriam um papel social oneroso ao dar emprego às pessoas, ao pagar salários e reconhecer alguns direitos. Nada de especial tinha acontecido, a situação era a mesma de antes. Mas só ultimamente Pedro começou a ter a sensação de que os patrões, se precisassem, sem sequer notar o que estavam fazendo, seriam capazes de retirar até a última gota de energia de Rosane e deixá-la exaurida."

Rubens Figueiredo (1956-). Passageiro do fim do dia (2010). São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 183

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

micro

"Fazer pactos com o nada
renegociar o vazio
palavrear carências
aliar-se ao pouquíssimo"

Ajo (poeta espanhola). In: modo de usar & co (blog)

Na biblioteca


"Na biblioteca de paredes altas e mofadas do prédio quase centenário da faculdade, Pedro tentava ler os livros e os capítulos pedidos pelos professores. Mas sua atenção morria sem fôlego no amontoado de palavras estranhas, alheias. Adormecia nas marteladas sem ritmo de frases cada vez mais distantes. Os títulos e subtítulos começaram a soar estridentes, hostis, como uns latidos. Seus olhos se desviavam espontaneamente para as imensas árvores de mais de cem anos no parque em frente, emolduradas pelas janelas muito altas. Ele se demorava ali à toa num torpor, observando a folhagem densa, a profusão dos galhos, a leve transformação das cores e das sombras à medida que o sol baixava."

Rubens Figueiredo (1956-).
Passageiro do fim do dia (2010). São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 44

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Bibliotecas e cemitérios


“Havia dois lugares em todo o Universo onde ela estava certa de não ser incomodada: as bibliotecas e os cemitérios. O silêncio dos mortos e dos livros não tinha nada de embaraçoso. (...) Ela sabia que era aceita e amada nesses lugares sem nenhuma condição. Pode-se confiar nos mortos e nos livros. Anos antes, quando, na escola, lhe pediam para escrever na sua ficha de apresentação o que ela queria fazer mais tarde, ela pensava nos cemitérios e nas bibliotecas. Ou ela seria morta, ou escreveria.”

[« Il y avait deux lieux dans tout l’Univers où elle était sûre de ne pas être dérangée : les bibliothèques et les cimetières. Le silence des morts et des livres n’a rien d’embarrassant. (...) Elle savait que, sans condition, elle était acceptée et aimée dans ces lieux. On peut faire confiance aux morts et aux livres. Des années plus tôt, quand, à l’école, on lui demandait de noter sur sa fiche de présentation ce qu’elle voudrait faire plus tard, elle pensait aux cimetières et aux bibliothèques. Soit elle serait morte, soit elle écrirait. »]


Martin Page (1975-). On s’habitue aux fins du monde (2005). Paris : J’ai lu, p. 123

domingo, 21 de dezembro de 2014

Não me interessa ter razão


"Não me interessa ter razão, não tenho apetência para esse tipo de poder, de marcar uma posição, dar um murro na mesa. Se entro numa discussão é à maneira chinesa, simplesmente para sugerir que pode haver outra maneira de olhar para as coisas."

"...se nos colocarmos no território de ganhar, vamos suscitar no outro apetites enormes numa vida onde se perdeu quase sempre, e as pessoas agarram-se a esses pequenos triunfos. Se conseguirmos retirar o assunto do território da disput
a é mais fácil convencer as pessoas de que há outros modos de olhar. Dou-me bem com esta forma de fazer guerras. O provérbio chinês 'o general que ganhou a guerra sem fazer nenhuma batalha' é um lema da minha vida."

Mia Couto, em entrevista à RA - Rede Angolana

A arte de parar


"Não se deve confundir ficar sem fazer nada com uma falta total de atividade. Não fazer nada é de fato fazer algo muito importante. É permitir que a vida aconteça – a sua vida. Não fazer nada é algo muito profundo."

David Kundtz.
A essencial arte de parar, p. 23

domingo, 14 de dezembro de 2014

A arte e a ciência de não fazer nada


"Colocar a cabeça constantemente num estado de vigilância é muito perigoso a longo prazo. Só como exemplo, uma recente revisão sistemática de todos os estudos clínicos sobre horas de trabalho e doença cardíaca coronária mostrou que as pessoas que trabalham mais horas têm 40% de risco extra de doença do coração. Isso é quase tão grave quanto fumar. Acho que quando realmente podemos ficar ociosos sem culpa ou vergonha, nosso cérebro pode processar toda a energia emocional – e a princípio isso pode parecer estranho, mas é certamente benéfico para nossa saúde física e mental a longo prazo." (p. 47)
"Acredito que coisas como a desigualdade de riquezas e o tipo de economia de privilégios que temos impedem as pessoas de realmente descobrirem o que gostam de fazer – ou não fazer, conforme o caso." (p. 48)
"Não estou certo sobre o que deveria vir antes: a luta por melhores salários ou por menos trabalho. Isso porque incrementar marginalmente seu salário parece sempre levar a muito mais trabalho em proporção à remuneração, já que as empresas precisam a todo momento maximizar os lucros..." (p. 49)

Entrevista com Andrew Smart, sobre seu livro "Autopilot: The Art and Science of Doing Nothing". OR Books. In: Revista
Vida Simples, jun. 2014

Ação e reação


"...toda ação executada deixa uma semente na área mental da mesma natureza da ação cometida. Portanto, tal semente irá amadurecer gerando um efeito similar à ação realizada. Ou seja, se trapacearmos alguém para nos beneficiar momentaneamente, estaremos criando causas para sermos trapaceados. Já se formos generosos, criamos causas para recebermos generosidade."
"Buda ensina que é um autoengano considerar que é possível se beneficiar prejudicando alguém."

Kelsang Mudita. O budismo e a disciplina moral (entrevista). In: Revista Vida Simples, jun. 2014, p. 191

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Um momento


"Um momento.
E devagar, shhhh...
Que o gato não desperte.
Que os pardais na laranjeira
não se espantem.
Ferve a água, fecho o livro,
maio voltou à janela.
Alguém quer uma xícara de chá?
Algum de vocês deseja
uma xícara de chá?
Na segunda prateleira,
à esquerda, há duas latas
uma vermelha e outra branca.
150 milhões de km
percorreu este raio de sol
que transluz o vidro
e as cortinas
e se fixa na madeira do chão.
Dentro do raio, na não-gravidade,
a poeira cinza enlouquecida
formigando.
A branca não, a vermelha."
Daniel García Helder (1961-), poeta argentino. Intranscendência. In: modo de usar & co (blog)