sábado, 27 de junho de 2015

The house was dark



"The house was dark. I stood looking at it in the darkness, just aware of its bulk in the feeble light of a broken moon, and I thought it looked even bigger than it really was, like a stone-giant's head, a huge moonlit skull full of shapes and memories, staring out to sea and attached to a vast, powerful body buried in the rock and sand beneath, ready to shrug itself free (...).

The house stared out to sea, out to the night, and I went into it."

Iain Banks (1954-2013). The Wasp Factory (1984). London: Abacus, 2013, p. 110

Desexplicar

"Escrever nem uma coisa
Nem outra –
A fim de dizer todas –
Ou, pelo menos, nenhumas.

Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar –
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes."

Manoel de Barros. Poesia Completa. LeYa, 2013, p. 242

Sheeps

"I remember I used to despise sheep for being so profoundly stupid. I'd seen them eat and eat, I'd watched dogs outsmart whole flocks of them, I'd chased them and laughed at the way they ran, watched them get themselves into all sorts of stupid, tangled situations (...). It was years, and a long slow process, before I eventually realised what sheep really represented: not their own stupidity, but our power, our avarice and egotism.

After I'd come to understand evolution and know a little about history and farming, I saw that the thick white animals I laughed at for following each other around and getting caught in bushes were the product of generations of farmers as much as generations of sheeps; we made them, we moulded them from the wild, smart survivors that were their ancestors so that they would become docile, frightened, stupid, tasty wool-producers."

Iain Banks (1954-2013). The Wasp Factory (1984). London: Abacus, 2013, p. 192-3

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Indiferença

"[...] ocorrera-me a convicção de que no mundo, em qualquer canto, tudo tanto faz. Fazia muito tempo que eu vinha pressentindo isso, mas a plena convicção surgiu no último ano, assim, de repente. Senti de repente que para mim dava no mesmo que existisse um mundo ou que nada houvesse em lugar nenhum. Passei a perceber e a sentir com todo o meu ser que diante de mim não havia nada. No começo me parecia sempre que, em compensação, tinha havido muita coisa antes, mas depois intuí que antes também não tinha havido nada, apenas parecia haver, não sei por quê. Pouco a pouco me convenci de que também não vai haver nada jamais. Então de repente parei de me zangar com as pessoas e passei a quase nem notá-las. De fato, isso se manifestava até nas mínimas ninharias: estou, por exemplo, andando na rua e vou dando encontrões nas pessoas. E não era por andar mergulhado em pensamentos: sobre aquilo que eu tinha para pensar, já então cessara completamente de pensar: tudo me era indiferente. E se ao menos eu tivesse resolvido as questões; ah, não resolvi nenhuma, e quantas havia? Mas para mim tudo ficou indiferente, e as questões todas se afastaram."

Fiódor Dostoiévski (1821-1881). O Sonho de um Homem Ridículo (1877)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Fragmentos da História de Pará de Minas



Um livro pelo qual tenho muito carinho é "Fragmentos da História de Pará de Minas", resultado de inúmeros encontros aos sábados, no Museu Histórico da cidade, de um grupo de professores e alunos do curso de História da FAPAM - Faculdade de Pará de Minas, mais a funcionária do Museu, Ana Maria Campos, entre 2002 e 2007, para pesquisar no rico acervo documental do município (inventários, testamentos, processos-crime, jornais etc. do século XIX e início do XX). São mais de 60 textos ricamente documentados sobre o nosso passado, em diferentes aspectos: economia, religião, escravidão, educação, criminalidade, cultura. Infelizmente, a obra está esgotada, mas há exemplares disponíveis para empréstimo na Biblioteca da FAPAM, na Biblioteca Pública Municipal de Pará de Minas e em várias bibliotecas de escolas públicas da cidade.

Meu sonho



"Em uma casa no Batel, em Curitiba, a Arte & Letra é editora, livraria e café. Pertence aos irmãos Thiago e Frede Tizzot. Os verbos mais conjugados por ali são vaguear, ler, beber, comer (um pedaço de torta). Comprar. Esbarrar. Espantar-se (com o nascimento do livro). 'Outro dia, o Frede estava na varanda fazendo as matrizes das xilogravuras da nossa coleção artesanal', conta Thiago. 'Os clientes paravam, olhavam, perguntavam e começavam a entender o processo até a edição pronta. É um envolvimento diferente com o objeto.' Ao trabalhar títulos de literatura que acham bons e merecem ser conhecidos, os livreiros ignoram sem remorso o que não se enquadra no critério. Fogem do comum, das listas de mais vendidos. A laboriosa curadoria inclui a confecção de uma revista literária. Entre os achados, contos de autores fora de catálogo ou nunca traduzidos no Brasil."

Viviane Zandonadi. Viveiro de livros. In: revista Vida Simples. Maio 2015, p. 41

Your room

"You returned to your room, to the loneliness of your room, that smallest of small rooms that sometimes drove you out in search of prostitutes, but it would be wrong to say you were unhappy there, for you had no trouble adjusting to your reduced circumstances, you found it invigorating to learn that you could get by on almost nothing, and as long as you were able to write, it made no difference where or how you lived."

Paul Auster (1947-). Winter Journal. London: faber and faber, 2012, p. 76

Aforismo

"Se possível, não devemos alimentar animosidade contra ninguém, mas observar bem e guardar na memória os procedimentos de cada pessoa, para então fixarmos o seu valor, pelo menos naquilo que nos concerne, regulando, assim, a nossa conduta e atitude em relação a ela, sempre convencidos da imutabilidade do caráter."

Arthur Schopenhauer (1788-1860). Aforismos para a sabedoria de vida

Writing

"Spartan surroundings, yes, but surroundings have never been of any importance as far as your work is concerned, since the only space you occupy when you write your books is the page in front of your nose, and the room in which you are sitting, the various rooms in which you have sat these forty-plus years, are all but invisible to you as you push your pen across the page of your notebook or transcribe what you have written onto a clean page with your typewriter, the same machine you have been using since your return from France in 1974, an Olympia portable you bought secondhand from a friend for forty dollars – a still functioning relic that was built in a West German factory more than half a century ago and will no doubt go on functioning long after you are dead. The number of your studio apartment pleased you for its symbolic aptness. 1-I, meaning the single self, the lone person sequestered in that bunker of a room for seven or eight hours a day, a silent man cut off from the rest of the world, day after day sitting at his desk for no other purpose than to explore the interior of his own head."

Paul Auster (1947-). Winter Journal. London: faber and faber, 2012, p. 106-7

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Sossego

"Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a delícia
de ver a dor sumir quando sossego."

Adélia Prado (1935-). Branca de neve. In: Miserere. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 10

Morangos mofados



"...é daquele emaranhado cheio de dor e angústia fria e solidão escura que ela arranca essa beleza que joga para fora." (p. 119)

"Mas sabes principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa. Por trás de todos os artifícios, só não saberás nunca que neste exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva." (p. 114)

"Quase a noite inteira, um podia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados." (p. 141)

"Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram." (p. 142)

"Um tranquilizante levinho levinho aí umas cinco miligramas, que o senhor tome três por dia, ao acordar, após o almoço, ao deitar-se, olhos vidrados, mente quieta, coração tranquilo, sístole, pausa, diástole, pausa, sístole, pausa, diástole, sem vãs taquicardias, freio químico nas emoções. Assim passaria a movimentar-se lépido entre malinhas 007, paletós cardin, etiquetas fiorucci, suavemente drogado, demônios suficientemente adormecidos para não incomodar os outros. Proibido sentimentos, passear sentimentos, passear sentimentos desesperados de cabeça para baixo, proibido emoções cálidas, angústias fúteis, fantasias mórbidas e memórias inúteis, um nirvana da bayer e se é bayer. Suspirou, suspirava muito ultimamente, apanhou a receita, assinou um cheque com fundos, naturalmente, e saiu antes de ouvir um delicado porque, afinal, o senhor ainda é tão jovem." (p. 146-7)

"Feito febre, baixava às vezes nele aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todos os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de alguma forma se modificaria. Mais que sensação, densa certeza viscosa impedindo qualquer movimento em direção à luz. E além da certeza, a premonição de um futuro onde não haveria o menor esboço de uma espécie qualquer não sabia se de esperança, fé, alegria, mas certamente qualquer coisa assim.

Eram dias parados, aqueles. Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos – acordar, comer, caminhar, dormir –, dentro dele algo permanecia imóvel. Como se seu corpo fosse apenas a moldura do desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos, olhos fixos na distância. Ausentou-se, diriam ao vê-lo, se o vissem. E não seria verdade. Nesses dias, estava presente como nunca, tão pleno e perto que estava dentro do que chamaria – tivesse palavras, mas não as tinha ou não queria tê-las – vaga e precisamente de: A Grande Falta." (p. 71)

Caio Fernando Abreu (1948-1996). Morangos mofados (1982). 9ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Partir

"Ah, seja como for, seja por onde for, partir!
Largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar,
Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância Abstrata,
Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas,
Levado, como a poeira, plos ventos, plos vendavais!
Ir, ir, ir, ir de vez!
Todo o meu sangue raiva por asas!
Todo o meu corpo atira-se pra frente!
Galgo pla minha imaginação fora em torrentes!
Atropelo-me, rujo, precipito-me!...
Estoiram em espuma as minhas ânsias
E a minha carne é uma onda dando de encontro a rochedos!"


Fernando Pessoa (1888-1935). Poemas escolhidos. São Paulo: Klick Editora, p. 93

Nada a temer

"O pássaro medieval passa da obscuridade à luz da sala de banquete, depois de novo às trevas. Um dos argumentos oh-tão-razoáveis contra a ansiedade em relação à morte é: se não tememos nem odiamos a eternidade que precedeu nosso breve mas claro momento de vida, por que deveríamos abominar a segunda eternidade de trevas? Porque, claro, durante a primeira, o universo – ou pelo menos uma muito, muito insignificante parte do cosmos – evoluiu de maneira a permitir a criação de alguma coisa de incontestavelmente interessante que, por meio de mutações genéticas, e através de uma sucessão de ancestrais simiescos rosnando enquanto manejavam instrumentos primitivos, finalmente chegou às três gerações de professores que produziram o que parece ser... eu. De modo que esta obscuridade tinha alguma razão de ser – pelo menos do meu ponto de vista egocêntrico; enquanto o segundo período de trevas definitivas é absolutamente indefensável." 

["L'oiseau médiéval passe de l'obscurité à la lumière de la salle de banquet, puis de nouveau aux ténèbres. Un des arguments oh-si-raisonnables contre l'anxiété de la mort est: si on ne craint et ne hait pas l'éternité qui a précédé notre bref mais clair moment de vie, pourquoi devrait-on abhorrer la seconde éternité de ténèbres? Parce que, bien sûr, pendant la première, l'univers – ou du moins, une très, très insignifiante partie du cosmos – a évolué de façon à permettre la création de quelque chose d'incontestablement intéressant qui, à force de mutations génétiques, et à travers une succession d'ancêtres simiesques maniant des outils primitifs en grognant, a finalement abouti aux trois générations de maîtres d'école et de professeurs qui ont produit ce qui se trouve être... moi. De sorte que cette obscurité-là avait quelque raison d'être – du moins, de mon point de vue égocentrique; tandis que la seconde période de ténèbres définitives est absolument indéfensable."]

Julian Barnes. Rien à craindre. Paris: Mercure de France (folio), 2009, p. 188

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Os maiores valores

"Os maiores valores e ganhos são os mais difíceis de ser apreciados. Não raro chegamos a duvidar que existam. Logo os esquecemos. Eles são a mais alta realidade. Talvez os fatos mais assombrosos e mais reais nunca sejam comunicados de homem a homem. A verdadeira colheita de minha vida diária é intangível e indescritível como as cores da manhã ou do anoitecer. É um pouco de poeira das estrelas que eu apanho, um pedaço do arco-íris que eu colho."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 209

Notas de flauta

"O roceiro sentou à sua porta num anoitecer de setembro, depois de um dia de dura faina, a mente ainda às voltas com o trabalho. Depois de tomar banho, sentou-se pra recrear e recriar seu homem intelectual. Era uma noite bastante fria, e alguns vizinhos previam uma geada. Pouco depois de se entregar ao fio de seus pensamentos, ele ouviu alguém tocando uma flauta, e aquele som se harmonizava com seu estado de espírito. Ainda pensava no trabalho; mas o que lhe pesava era que, embora esse pensamento continuasse a lhe girar na mente e ele se visse planejando e programando contra sua vontade, ainda assim aquilo pouco lhe interessava. Era apenas a descamação de sua pele, que estava se soltando continuamente. Mas as notas da flauta lhe chegavam aos ouvidos vindas de uma outra esfera, diferente de onde ele trabalhava e sugeriam trabalho para certas faculdades adormecidas dentro dele."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 213-14

Goza a terra


"Vai, vai pescar e caçar todos os dias ao derredor – e ao redor do derredor – e descansa sem receio junto aos riachos e às lareiras. Lembra teu Criador enquanto és jovem. Levanta-te despreocupado antes do alvorecer, e vai em busca de aventuras. Que o meio-dia te encontre em outros lagos, e que seja lar onde quer que a noite te surpreenda. Não existem campos mais vastos a percorrer nem jogos mais importantes a jogar. Cresce agreste de acordo com tua natureza, como aqueles juncos e samambaias que nunca se tornarão feno. (...) Que teu sustento não te seja profissão, e sim esporte. Goza a terra, não sejas o dono dela. É por falta de iniciativa e de fé que estão os homens onde estão, comprando e vendendo, gastando a vida como servos."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 200

Foto: Lago Walden (Concord, Massachusetts), em novembro

E assim escrevo...

"Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso."

Fernando Pessoa (1888-1935). Poemas escolhidos. São Paulo: Klick Editora, p. 43

Manhãs de primavera

"Ah! entrei naquelas várzeas em muitas manhãs inaugurais de primavera, saltando de uma saliência a outra, de uma raiz de salgueiro a outra, quando o agreste vale ribeirinho e os bosques estavam banhados numa luz tão pura e brilhante que despertaria os mortos, se estivessem adormecidos em seus túmulos, como supõem alguns. Não é necessária nenhuma prova mais sólida da imortalidade. Todas as coisas devem viver a uma tal luz. Onde estava, ó Morte, teu aguilhão? Onde estava, ó Túmulo, tua vitória então?"

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 300

Um outro toque


"Se um homem não mantém o passo com seus companheiros, talvez seja porque ouve um outro toque de tambor. Ele que acompanhe a música que ouve, por mais marcada ou distante que seja. Não importa que amadureça ao tempo de uma macieira ou de um carvalho."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 307

Meus vizinhos

"Meus vizinhos me contam suas aventuras com damas e cavalheiros famosos, as personalidades que encontraram à mesa de jantar; mas essas coisas me interessam tanto quanto o conteúdo do Daily Times. Os interesses e as conversas giram principalmente em torno das roupas e das maneiras; mas um ganso é sempre um ganso, prepare-se-o como quiser. Eles que falam da Califórnia e do Texas, da Inglaterra e das Índias, do Exmo. Sr. ____ da Geórgia ou de Massachusetts, todos eles fenômenos fugazes e transitórios, até que me preparo para saltar e fugir dali como o bei mameluco. Tenho prazer em seguir meus rumos – não desfilar com pompa e ostentação, num local em evidência, mas andar junto com o Construtor do universo, se puder –; não viver neste Século XIX agitado, nervoso, alvoroçado, trivial, mas me postar ou me sentar pensativamente enquanto ele passa."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 311

Deem-me a verdade

"Mais do que o amor, do que o dinheiro, do que a fama, deem-me a verdade. Sentei a uma mesa onde havia ricos pratos, vinho em abundância e serviço obsequioso, mas não havia sinceridade nem verdade; e saí com fome daquela mesa pouco hospitaleira. A hospitalidade era fria como gelo. Pareceu-me que não precisariam de gelo para se congelar. Falaram-me sobre a idade do vinho e a fama da safra; mas eu pensava num vinho mais velho, mais novo e mais puro, de uma safra mais gloriosa, que eles não tinham e não poderiam comprar. (...) Havia um homem em minha vizinhança que vivia no oco de uma árvore. Suas maneiras eram realmente régias. Mais valeria que eu tivesse ido visitá-lo."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 312

sábado, 9 de maio de 2015

Simplicidade


"É bom que um homem se vista com tanta simplicidade que pode tocar em si mesmo no escuro, e que viva sob todos os aspectos de forma tão despojada e pronta que, se um inimigo tomar a cidade, ele pode, como o velho filósofo, sair pelo portão com as mãos vazias, sem nenhuma preocupação."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 36

Viver

"Essa coisa de gastar a melhor parte da vida ganhando dinheiro para gozar uma duvidosa liberdade em sua parte menos valiosa me faz lembrar aquele inglês que primeiro foi à Índia fazer fortuna para poder depois voltar à Inglaterra e levar uma vida de poeta. 'Mas como!', exclama um milhão de irlandeses erguendo-se de todos os barracos na terra, 'essa ferrovia que a gente construiu não é boa?'. Sim, respondo eu, relativamente boa, isto é, vocês poderiam ter feito pior; mas, como vocês são meus irmãos, eu preferiria que tivessem gastado o tempo melhor do que cavando nessa lama."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 62

Realidade



"Imposturas e ilusões são estimadas como as mais sólidas verdades, ao passo que a realidade é fabulosa. Se os homens observassem constantemente apenas as realidades, e não se deixassem iludir, a vida, comparada às coisas que conhecemos, seria como um conto de fadas ou uma história das 'Mil e uma noites'. Se respeitássemos apenas o que é inevitável e tem o direito de existir, as ruas ressoariam com música e poesia. Quando somos sábios e não temos pressa, percebemos que somente as coisas grandes e valiosas têm alguma existência absoluta e permanente – que os pequenos medos e os pequenos prazeres não passam de sombras da realidade. Esta é sempre revigorante e sublime."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 100

A escrita

"Por mais que possamos admirar os ocasionais rompantes de eloquência do orador, as mais nobres palavras escritas geralmente estão muito além ou acima da linguagem oral fugidia, tal como o firmamento com suas estrelas está além das nuvens. Lá estão as estrelas, e os que sabem, podem lê-las. Desde sempre os astrônomos observam e comentam os astros. Não são exalações como nossas conversas diárias e o hálito que se evapora. (...) O orador se entrega à inspiração de uma ocasião passageira, e fala à multidão diante dele, fala aos que podem ouvi-lo; mas o escritor, que tem como ocasião sua vida mais constante, e que se distrairia com o momento e a multidão que inspiram o orador, fala ao intelecto e ao coração da humanidade, a todos em qualquer época que podem entendê-lo."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 105

Poeta

"Muitas vezes vi um poeta se retirar depois de gozar o mais valioso num sítio, enquanto o encoscorado sitiante pensava que ele tinha apenas apanhado algumas maçãs silvestres. Ora, o dono passa muitos anos sem saber que um poeta lhe pôs o sítio em verso, a mais admirável das cercas invisíveis, fechou-o devidamente no curral, ordenhou-lhe o leite, deixou aflorar a nata, tirou todo o creme e deixou ao agricultor apenas o leite desnatado."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 88-9

Desperdício de vida

"Por que teríamos de viver com tanta pressa e desperdício de vida? Estamos decididos a morrer de inanição antes de passar fome. Os homens dizem que mais vale prevenir dando um ponto agora do que remediar com nove pontos depois, e então previnem com mil pontos hoje para não precisar dar nove amanhã."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 97

Ócio


"...dias em que o ócio era o trabalho mais atraente e produtivo. Muitas manhãs roubei, preferindo passar assim a parte mais valiosa do dia; pois eu era rico não em dinheiro, e sim em horas de sol e dias de verão, e gastava-os prodigamente".

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 185

Ocupação tranquilizadora

"É uma ocupação tranquilizadora, num daqueles belos dias de outono quando é possível apreciar todo o calor do sol em sua plenitude, sentar num toco de árvore a uma altura como esta, olhando o lago de cima, e estudar os círculos ondeantes que se inscrevem incessantemente em sua superfície, a qual, não fossem eles, seria invisível entre as imagens refletidas dos céus e das árvores. Não há qualquer perturbação nessa vasta superfície que não seja de imediato suavemente afastada e apaziguada, pois, tal como quando se agita a água de um cântaro, os círculos trêmulos procuram as bordas, e então tudo retoma a placidez. Não há o salto de um peixe ou o cair de um inseto no lago que não seja logo anunciado em ondulações curvas, em linhas de beleza, como se fosse o jorro constante de sua fonte, a delicada pulsação de sua vida, o alçar de seu seio. Os frêmitos de alegria e os frêmitos de dor são indiscerníveis. Como são pacíficos os fenômenos do lago!"

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 182

Lago de Flints


"Lago de Flints! Tal é a pobreza de nossa nomenclatura. Que direito tinha o agricultor sujo e obtuso, cuja terra chegava até essa água celestial, de margens que desnudou impiedosamente, de dar seu nome a ela? Um Flint sovina, que preferia a superfície reluzente de um dólar ou de um luzidio centavo, onde podia mirar sua cara despudorada; o qual considerava como invasores até os patos selvagens que pousavam ali; os dedos convertidos em garras aduncas e calosas pelo longo hábito de agarrar as coisas feito uma harpia (...)

Não respeito a labuta, a lavoura onde tudo tem seu preço, de quem é capaz de levar a paisagem, de levar seu Deus ao mercado, se isso lhe render alguma coisa; que vai ao mercado como se este fosse seu deus; em cujas terras nada cresce em liberdade (...)"

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 189-90