sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Os aventureiros do absoluto



Tsvetaeva recusa sem hesitar o dualismo da arte e da vida. No entanto, mesmo que superando essa separação, opõe céu e terra, interior e exterior, ser e existir, imortalidade e vida – dualismo bem mais antigo, já que provém não da revolução romântica, mas daquela dos monoteístas, que opõem o Deus infinito ao mundo finito. Embaixo, portanto, a existência cotidiana (byt) odiosa, pois consagrada à simples sobrevivência: dia após dia, devemos, por nós e pelos outros (sobretudo quando se é mulher e mãe), nos levantar, procurar água para beber, alimento para comer, lenha para se aquecer, devemos passear com os filhos, dar-lhes banho, cuidar deles quando ficam doentes. Tudo isso é a “materialidade não transfigurada”, um rochedo que é preciso recomeçar a escalar todos os dias. É o que os outros chamam de vida. Portanto, Tsvetaeva não ama a vida nesse sentido restrito da palavra, não tem êxito nesse tipo de vida. “Não amo a vida terrestre, jamais a amei.” “Não sei viver aqui embaixo.” “Não posso viver, isto é, durar, eu não sei viver os dias, cada dia.”

Na falta de habitar essa vida, Tsvetaeva se refugia em outra, preferindo o interior ao exterior, o ser, à existência, o céu, à terra. “Amo o céu e os anjos: lá em cima e com eles eu saberia como proceder.” No outro mundo, no alto, ela atingirá o júbilo; no reino da Alma ela será a primeira, no juízo final do verbo, a justiça lhe será feita. Esse outro mundo, mais concretamente, se chama vida interior, ou ainda alma. Tsvetaeva tem que se resignar a ater-se a ele: habitá-lo é sua “doença incurável”. (...) “Ela não existe, a vida que teria suportado minha presença.” Mais exatamente, é da própria impossibilidade de viver feliz nessa vida que Tsvetaeva deduz a necessidade de uma realidade superior: “A vida me acua cada vez mais (profundamente) para o interior. (...) Viver não me dá prazer e essa rejeição me faz concluir muito claramente que outra coisa existe no mundo. (Manifestamente, a imortalidade)”.

Tzvetan Todorov. A Beleza salvará o Mundo (Wilde, Rilke e Tsvetaeva: os aventureiros do absoluto). Rio de Janeiro: Difel, 2011. p. 193-4

sábado, 19 de janeiro de 2013

velhos sonhos de infância


"O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua...
Sentou-se... e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!"

Mario Quintana (1906-1994)

Fonte: Jornal da Poesia

Família


"No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem trabalha - com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e escolhera.

Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto - ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido."

Clarice Lispector. Laços de família (1960). 24ª ed. Rio de janeiro: Francisco Alves, 1993. p. 30-1

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

The boy in the suitcase



"In the old Vesterbro apartment buildings on the other side of the street, she could see into the still-lit kitchens. On the ground floor, a young man was making coffee in a bistro coffeepot, calling back his half of a conversation to someone behind him. He put the coffeepot on a tray with a collection of cups and turned away from the window with a smile on his face. Nina couldn’t help wondering if the lives of other people were really as simple as they looked. As simple, and as happy.

Probably not, she thought drily. It was a distortion of a kind she was an expert at providing for herself, or so her therapist had informed her. She was always busy telling herself that she was the only one who didn’t fit in, while everyone else was one big happy community. And she was also an expert at making herself believe that she was the only one who could save the world an put things right, while others were too busy buying flat-screen televisions and redecorating their kitchens and making bistro coffee and being happy."

Lene Kaaberbøl & Agnete Friis. The boy in the suitcase. Soho Crime, 2011, p. 164 

Given the title, this you expect: A suitcase pulled out of a locker at the Copenhagen train station contains a 3-year-old boy. This you don’t: He’s alive. With that single detail what might have been a mere homicide morphs into a more bizarre puzzle. Holding the bag, as it were, is Nina Borg, a Red Cross nurse and the star of the best-selling Danish crime series of which this is the first book. She’s afraid of what will happen to the boy if she turns him over to the authorities, and soon enough she finds the beaten body of the friend who’d given her the locker’s key without explanation. Adding to her confusion, she doesn’t speak the boy’s language. In the city’s red-light district, where many nationalities gather, Nina finds a language match — Lithuanian — and a kind prostitute to act as translator. At the same time the boy’s mother discovers that he was kidnapped for the same man who had adopted her first-born. “He collects my children, she thought, with a chill of horror.

The NewYork Times
By Susannah Meadows
Published: November 16, 2011

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Sócio do ócio



"doce ociosidade
sacia minha sede de ser assim
largado no mundo caído na vida
terra mãe luz da manhã

doce sociedade ociosa sempre no cio
já aboliram a escravatura
pendure sua rede mate sua sede
de se espreguiçar

de volta ao princípio
onde o que come é comido
cru ou cozido
vou te devorar

viva nossa carne mortal
de partículas imortais
para pulsar
filhos do sol

até que se cumpra
nosso destino cósmico
sou sócio do ócio
eu sou"

Chacal (1951-)

Decisão



"Lembro dele e fico triste, mas a gente já nem se visitava muito, sabe? Ele tava bem estragado. Mas era um cara com um coração bom. Depois que ele se matou acho que isso ficou mais claro. Ele foi bom pra todo mundo do jeito torto dele. Nunca nos deixou faltar nada, se tu pensa bem. Lembro dele segurando minha nuca e dando conselhos. Ele pegava forte pela nuca e começava a dar a real. O pai sempre sabia o que tava fazendo. Decidia rápido e não voltava atrás. Ele tomou uma decisão."

Daniel Galera. Barba ensopada de sangue (2012). Cia das Letras, p. 408

aurora boreal


"Os planos todos dispersos
os primeiros estranhamentos com o filho,
mecânico e pesado o coração destila
uma coleção de remorsos.
Fecho os olhos de horror e eis que
das obscuras raízes
do centro de minha fronte
das rendas negras da carne
esplêndida e cintilante
desponta
a aurora boreal"

Antonio Carlos de Brito (1944-1987). In: Heloisa Buarque de Hollanda (org.). 26 poetas hoje, p. 46

Às vezes é preciso abandonar o barco


"Às vezes é preciso abandonar o barco,
A luta, o carrossel, o circo inteiro,
E partir como ave migratória para o norte
Em busca de terras de verão e sol,
Mas quando isto for preciso
Que se faça com rosto limpo,
A face descoberta e voltada para a frente,
Que não haja mentiras nem tristeza.
Queimem-se as lembranças, quebrem-se
As garrafas; enterrem-se cinzas e cacos.
Seja-se até os ossos mais frágeis
Uma ave migratória: a volta existe
Mas é outra história, e não desculpa
A permanência no ponto de partida."

Flávio Aguiar. In: Heloisa Buarque de Hollanda (org.). 26 poetas hoje (1ª ed.: 1975), p. 138

Dias de amarrar barbante ao redor do nada


"Hoje acordei bem prático, sofístico,
sem pudores de lógica e moral,
fechado em mim, feito uma ostra, um dístico
ou uma pedra (mas não filosofal).
Devia haver mais dias como este,
livres de compromissos com dois mil
anos de ocidentalismo, a nordeste,
a sul, a sotavento do Brasil
ou do que quer que seja. Simplesmente
ser, sim, mas contingência pura, só,
nada que deixe um rastro ou excedente
em sangue, fezes, páginas ou pó.
Dias de amarrar barbante ao redor
do nada, e capturar um deus menor."

Paulo Henriques Britto. De 'Cinco sonetos frívolos'. In: 'Formas do nada'

Tudo se perde


"Tudo se perde, nada se aproveita,
eu sei. Porém a impressão permanece:
alguma (pouca) coisa que foi feita
pode talvez merecer uma espécie
de não exatamente eternidade,
mas mais que o imediato esquecimento.
Será ilusão? Será pura vaidade?
Bem provável. Sendo assim, me contento
com o vago prazer (se é mesmo prazer)
de rabiscar num caderno, ao acaso,
o que talvez jamais venha a ser lido
por mais ninguém. Nem por mim. Escrever
é preciso. Por quê? Não vem ao caso.
E faz sentido? Não. Não faz sentido."

Paulo Henriques Britto. 'Formas do nada'

Nada disso foi do jeito que eu quis


"Nada disso foi do jeito que eu quis.
Se fosse como eu quis, não haveria
de ser tão sofrido, tão infeliz.
Mas eu – o eu que sou – eu não seria.

Assim, não me lamento. Até me sinto
como quem tem não o que foi pedido,
e sim o que, guiado pelo instinto,
não pelo querer, teria querido.

O que de mais duro a vida me deu
– que dura mais quanto mais me custou
dele me acostar, e torná-lo meu –

o que não escolhi, mas me escolheu,
é o que, ao fim e ao cabo, mais eu sou.
Não é o eu que eu me quis. Mas sou eu."

Paulo Henriques Britto (1951-). In: Estadão. Revista Piauí - edição 65 (fevereiro de 2012)

Então viver é isso


"Então viver é isso,
é essa obrigação de ser feliz
a todo custo, mesmo que doa,
de amar alguma coisa, qualquer coisa,
uma causa, um corpo, o papel
em que se escreve,
a mão, a caneta até,
amar até a negação de amar,
mesmo que doa,
então viver é só
esse compromisso com a coisa,
esse contrato, esse cálculo
exato e preciso, esse vício,
só isso."

Paulo Henriques Britto (1951-). Liturgia da matéria (1982)

Noite após noite


"Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno."

Paulo Henriques Britto (1951-). Macau (2003)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Le Comte de Monte-Cristo


Comme ces aventureux capitaines qui s'embarquent pour un dangereux voyage, qui méditent une périlleuse expédition, je préparais les vivres, je chargeais les armes, j'amassais les moyens d'attaque et de défense, habituant mon corps aux exercices les plus violents, mon âme aux chocs les plus rudes, instruisant mon bras à tuer, mes yeux à voir souffrir, ma bouche à sourire aux aspects les plus terribles; de bon, de confiant, d'oublieux que j'étais, je me suis fait vindicatif, dissimulé, méchant, ou plutôt impassible comme la sourde et aveugle fatalité. Alors, je me suis lancé dans la voie qui m'était ouverte, j'ai franchi l'espace, j'ai touché au but: malheur à ceux que j'ai recontrés sur mon chemin! (p. 710)

(...)

Il n'y a ni bonheur ni malheur en ce monde, il y a la comparaison d'un état à un autre, voilà tout. Celui-là seul qui a éprouvé l'extrême infortune est apte à ressentir l'extrême félicité. Il faut avoir voulu mourir, Maximilien, pour savoir combien il est bon de vivre. (p. 772)

Alexandre Dumas. Le Comte de Monte-Cristo. Tome II. Classiques de Poche

Sou de poucos amigos


"Sou de poucos amigos
Grandes partidas
Partes rompidas
Sou de não falar demais
Despedidas no cais
Sou cor lilás
Sou feita de névoas
Nódulos e néctares
Sou de aparecer de repente
De repetir sentimentos
Forçar certos momentos
Sou do tamanho de mim
Molécula carmim
Malévola no fim."

Paula Taitelbaum. Ménage à trois

Feliz Natal


"agora vejamos
quem está na minha lista para o Natal:
tem as três garotas furiosas
que me disseram para nunca mais
ligar de novo
e tem o cara do
Jiffy-Lube que disse que não tinha
tempo de trocar o óleo do meu carro
ontem
e tem aquele cara negro
do posto do pedágio
que levou pro lado pessoal
quando eu estava apenas brincando.
tem o cara que me vendeu
esta casa
que fez ele mesmo o encanamento
e fiação.
tem o machão que ganhou
8 milhões para lutar com o campeão
e desistiu porque disse
que tinha cólicas estomacais.
e tem o jóquei
do outro dia
que não aguentaria
a abertura da grade
quando eu tinha apostado nele 20 pila como vencedor,
e 20 como placê,
e daí todas as pessoas
que virão no dia de Natal ou
na véspera
ou no dia seguinte
porque é a temporada.
e daí também tem todos os vizinhos
que não vão falar comigo
porque me ouviram outra
noite
quando eu corria pelo jardim em frente da casa
bêbado e pelado praguejando,
atirando pedras.
e daí tem todos os balconistas
nos caixas em todo lugar
que parecem com estátuas de plástico
enquanto eu espero em suas longas filas
tentando reter um
movimento intestinal.

e daí, meu amigo, tem
você"

Charles Bukowski (1920-1994)

minha sujeira


"uma namorada chegou
me construiu uma cama
esfregou e encerou o chão da cozinha
esfregou as paredes
aspirou o pó
limpou a privada
a banheira
esfregou o chão do banheiro
e cortou minhas unhas e
meus cabelos.

então
naquele mesmo dia
o encanador veio e consertou a torneira da cozinha
e a privada
e o homem do gás consertou o aquecedor
e o homem do telefone, o telefone.
agora me sento aqui em meio a tanta perfeição.
tudo está tranquilo.
rompi com minhas 3 namoradas.

me sinto melhor quando tudo está
bagunçado.
vai levar alguns meses até que as coisas voltem ao
normal:
não consigo encontrar sequer uma barata para viver em comunhão.

perdi meu ritmo.
não consigo dormir.
não consigo comer.

roubaram-me
minha sujeira."

Charles Bukowski (1920-1994)

domingo, 23 de dezembro de 2012

Dr. Watson and Mr. Sherlock Homes



I knew that seclusion and solitude were very necessary for my friend in those hours of intense mental concentration during which he weighed every particle of evidence, constructed alternative theories, balanced one against the other, and made up his mind as to which points were essential and which immaterial. I therefore spent the day at my club and did not return to Baker Street until evening. It was nearly nine o'clock when I found myself in the sitting-room once more.

My first impression as I opened the door was that a fire had broken out, for the room was so filled with smoke that the light of the lamp upon the table was blurred by it. As I entered, however, my fears were set at rest, for it was the acrid fumes of strong coarse tobacco which took me by the throat and set me coughing. Through the haze I had a vague vision of Holmes in his dressing-gown coiled up in an armchair with his black clay pipe between his lips. Several rolls of paper lay around him. 

"Caught cold, Watson?" said he.

"No, it's this poisonous atmosphere."

"I suppose it is pretty thick, now that you mention it."

"Thick! It is intolerable."

"Open the window, then! You have been at your club all day, I perceive."

"My dear Holmes!"

"Am I right?"

"Certainly, but how---------?"

He laughed at my bewildered expression.

Arthur Conan Doyle. The Hound of the Baskervilles (1902). Dover Publications, 1994. p. 18

The art of losing


"The art of losing isn't hard to master;

so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster."

Elizabeth Bishop (1911-1979)

From 'The Complete Poems - 1927-1979', by Elizabeth Bishop, published by Farrar, Straus & Giroux

“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério. ”

Elizabeth Bishop (1911-1979)

Tradução de Paulo Henriques Britto

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

a man silent at the window


"this fear of being what they are:
dead. 

at least they are not out on the street, they
are careful to stay indoors, those
pasty mad who sit alone before their tv sets,
their lives full of canned, mutilated laughter.

their ideal neighborhood
of parked cars
of little green lawns
of little homes
the little doors that open and close
as their relatives visit
throughout the holidays
the doors closing
behind the dying who die so slowly
behind the dead who are still alive
in your quiet average neighborhood
of winding streets
of agony
of confusion
of horror
of fear
of ignorance.

a dog standing behind a fence.

a man silent at the window."

Charles Bukowski (1920-1994)

sábado, 15 de dezembro de 2012

Barba ensopada de sangue


Tu fez muitos amigos aqui?

Alguns.

Achei que tu tava meio ermitão.

A vida aqui é normal.

Normal pra ti. Eu sinceramente não entendo por que tu precisa viver enfiado num lugar abandonado desses no meio do inverno enquanto podia estar em Porto Alegre ou até em São Paulo como o teu irmão. Eu acho que tu só tá chateado com a morte do teu pai e vai acabar voltando. Mas tu que sabe da tua vida, claro. Tu é adulto. Sei que tu gosta de ficar sozinho, desde pequenininho tu era desse jeito e sempre respeitei, mas com essa falta de vontade de fazer alguma coisa que preste da tua vida eu nunca concordei não. Vai ficar aqui dando aula de natação pruns gatos-pingados até quando? Sozinho com aquela cachorra nojenta. Ela vai morrer logo. Isso aqui não é lugar pra constituir uma vida. Nunca deixei de achar que essa tua falta de iniciativa é culpa do teu pai, ele que sempre me dizia pra te deixar em paz. Passava a mão na tua cabeça. Deixa o guri estudar educação física. Deixa o guri pedalar e nadar, é o que ele gosta. Tu herdou o pior do teu pai, que não era a garrafa nem os charutos nem a falta de respeito que tinha comigo, mas sim essa noção absurda de que vocês poderiam viver no meio do mato como se vivia mil anos atrás e que só por acaso nasceram no século vinte e um e vivem numa grande cidade onde se podem realizar coisas, criar coisas, ganhar dinheiro, viajar pelo mundo –

Eu nasci no século vinte. O pai também.

– e estudar coisas fascinantes e viver uma vida moderna, interessante, cheia de cultura e aproveitar isso pra ter uma família própria que também vai poder se beneficiar disso tudo e assim por diante. Esse tipo de coisa que os antepassados da gente acham que a gente vai fazer, sabe? Ele não me deixava cobrar isso de ti na tua adolescência e agora tu pensa que deixar a barba crescer numa quitinete de veraneio alugada, mofada e com cheiro de peixe ganhando o suficiente pra pagar a conta de luz é uma vida boa o bastante. Não é como eu vejo. Uma hora tu vai querer casar, vai querer fazer uma casa pra ti. Essa tua namorada nova é de Porto Alegre, não é? Ela quer passar o resto da vida aqui? Duvido que queira. Pretende ficar com ela? Pensa em casar com ela algum dia? Pretende ter filhos? Eles vão ter acesso a uma escola decente neste lugar? Tu me disse que ela é uma guria culta, tá fazendo mestrado. Deve ser uma pessoa com ambição. Eu já vi esse filme antes. Esse filme já passou e tu te dá mal nele.

Daniel Galera. Barba ensopada de sangue. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 282-283

domingo, 9 de dezembro de 2012

ando assim

"ando assim
tipo um erro flácido ambulante
sem êxito, hesitante
disco riscado
fora de catálogo
no pó do instante
ando assim oco, uma crosta
vodu cansado que com a sorte
nem mais dialoga - diamante
ando assim sem linguagem
sem faro, espantalho fora de foco
ando assim
mais opaco que olímpico
esquivo, íntimo, insípido
um mastodonte pensando
desamparado
aspirando a paralelepípedo
ando assim meio buster keaton
um tanto de lágrima hasteando o riso
ando assim raso
indiferente
me divertindo um bocado
eu ando mijando no poste
porque o banheiro
está sempre lotado"

Marcelo Montenegro (1971-)

Fonte: Germina Literatura

Fernando Pessoa


"Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância 
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração."

......................

"Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e ervas..."

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"A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou."

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"Vim para aqui repousar,
Mas esqueci-me de me deixar lá em casa,
Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente,
A vaga náusea, a doença incerta, de me sentir."

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"Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão."

...........................................................................

"Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afetos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses."

........................................

"Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada."

...................................

"Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno -
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar -
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável."

......................................................................................................

"Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é."

...............................................................

"Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,

Não me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há."


Fernando Pessoa (1888-1935). Obra poética. Volume único. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1977

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Repara


"Repara. Há sempre alguém
guardando a tralha. Tremendo a foto.
Aprimorando a tara.

Há um deus maluco embaralhando
as cartas. Uma banana quase preta
na fruteira. E o último gole
da cerveja em lata."

...........................................................

"De tudo, talvez, permaneça
o que significa. O que
não interessa. De tudo,
quem sabe, fique aquilo
que passa. Um gerânio
de aflição. Um gosto
de obturação na boca.
Você de cabelo molhado
saindo do banho.
Uma piada. Um provérbio.
Um buquê de presságios.
Sons de gotas na torneira da pia.
Tranqueiras líricas
na velha caixa de sapatos.
De tudo, talvez, restem
bêbadas anotações
no guardanapo.
E aquela música linda
que nunca toca no rádio."

Marcelo Montenegro (1971 -)

sábado, 24 de novembro de 2012

uma porta fechada com a chave para dentro


"Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradavam.
Não pedia mais nada.
Então saí pelo corredor para retirar o lixo
e atrás de mim, com um pé-de-vento,
a porta se fechou.
Fiquei sem chaves e às escuras
sentindo as vozes de meus vizinhos
através das suas portas.
É transitório, disse para mim mesmo;
porém assim também podia ser a morte:
um corredor escuro,
uma porta fechada com a chave para dentro.
O lixo nas mãos."

Fabián Casas (poeta argentino)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Amor é o que se arrasta pelo chão


"Amor é uma luz à

noite atravessando o nevoeiro

amor é uma tampinha de cerveja
pisada no caminho
do banheiro

amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado

amor é o que acontece
uma vez a cada dez anos

amor é um gato esmagado

amor é o velho jornaleiro na
esquina que
desistiu

amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu

amor é o que desapareceu junto
com a era dos navios encouraçados

amor é o telefone tocando,
a mesma voz ou uma outra
voz mas nunca a voz
correta

amor é traição
amor é o incêndio dos
sem-teto num beco

amor é aço
amor é a barata
amor é uma caixa de correio

amor é a chuva sobre o telhado
de um velho hotel
em Los Angeles

amor é o seu pai num caixão
(aquele que te odiava)

amor é um cavalo com a perna
quebrada
tentando se levantar
enquanto 45.000 pessoas
observam

amor é o jeito que nós fervemos
como a lagosta

amor é tudo que nós dissemos
que não era

amor é a pulga que você não consegue
encontrar

e o amor é um mosquito

amor são 50 lançadores de granada

amor é um penico
vazio

amor é uma rebelião em San Quentin
amor é um hospício
amor é um burro parado numa
rua de moscas

amor é um banco de bar vazio

amor é um filme do Hindenburg
se retorcendo
um momento que ainda grita

amor é Dostoiévski na
roleta

amor é o que se arrasta pelo
chão

amor é a sua mulher dançando
colada com um estranho

amor é uma senhora
roubando um pedaço de
pão

e o amor é uma palavra usada
muitas vezes e
muitas vezes
cedo demais."

Charles Bukowski (1920-1994)

Não sou nada


"Não sou nada.

Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isto, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

(...)

"Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensame
ntos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada."

(...)


"Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha."

(...)

"Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo."

(...)

"Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido - 
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso - e foi afinal o melhor de mim - é que nem os Deuses fazem viver..."

(...)

"Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para
todos os universos.

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim."

Fernando Pessoa. Poemas escolhidos. Klick editora, p. 121, 122, 123, 127 e 128

As pessoas não são boas umas com as outras


há tamanha solidão no mundo
que você pode vê-la no movimento lento dos
braços de um relógio.

pessoas tão cansadas
mutiladas
tanto pelo amor como pelo desamor.

as pessoas simplesmente não são boas umas com as outras
cara a cara.

os ricos não são bons para os ricos
os pobres não são bons para os pobres.

estamos com medo.

nosso sistema educacional nos diz que
podemos ser todos
grandes vencedores.

eles não nos contaram
a respeito das misérias
ou dos suicídios.

ou do terror de uma pessoa
sofrendo sozinha
num lugar qualquer

intocada
incomunicável

regando uma planta.

as pessoas não são boas umas com as outras.
as pessoas não são boas umas com as outras.
as pessoas não são boas umas com as outras.

suponho que nunca serão.
não peço para que sejam.

mas às vezes eu penso sobre
isso.

Charles Bukowski (1920-1994)

A roda enferrujada do dia


A roda enferrujada do dia

roda lentamente
meu desejo insatisfeito
adoecendo os sentidos

A roda gasta do dia
deglute com cegos dentes
a semente
o amor que poderia

A chuva fria do ferro envelhecido
entristece o futuro e o
pendente

E essa dor atemporal se estende
sem cura no metal ruído
polui a alvura de fluidos permanentes
que não passam
que não passam

Rosália Milsztajn

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Dois irmãos


(...) Laval internou-se no subsolo de uma casa à margem do Igarapé de Manaus. Várias vezes foi encontrado no canto da caverna, quieto e emudecido, o rosto cadavérico, a barba espessa que ele conservaria até a imolação. Não era greve de fome nem inapetência. Talvez desespero. Seus poemas, cheios de palavras raras, insinuavam noites aflitas, mundos soterrados, vidas sem saída ou escape. Às sextas-feiras distribuía-os aos alunos, pensando que ninguém os leria, pensando sempre no pior. Lá no íntimo era um pessimista, um desencantado, e tentava compensar esse desencanto por meio da aparência, com seu jeito de dândi. Refutava o rótulo de poeta, mas não se incomodava quando o chamavam de excêntrico ou afetado. Não sei qual dos dois atributos o definia melhor. Nenhum, talvez. Mas foi um mestre. E também um atormentado que escrevia, sabendo que não publicaria nada. Seus poemas repousam por aí, em gavetas esquecidas ou na memória de ex-alunos. 

Milton Hatoum. Dois irmãos. São Paulo: Cia das Letras, 2006, p. 145