sábado, 30 de agosto de 2008

Dolores

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
"Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência..."
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.


Uma tal esperança imploro a Deus.


Adélia Prado

domingo, 10 de agosto de 2008

Ventre Feroz



Dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação revelam que trinta e sete países do mundo estão sob a ameaça de uma grave crise alimentar. Em alguns países da Ásia, África e América Latina, a falta de alimentos já foi causa de violentos motins populares. Como as autoridades devem lidar com esse problema? Veja como, em Minas Gerais, no século XVIII, a administração portuguesa se organizou para evitar a eclosão de revoltas populares contra a falta de alimentos.

Entre os anos de 1717 e 1719, o governador da Capitania de São Paulo e Minas do ouro, Dom Pedro Miguel de Almeida Portugal, enfrentou uma séria ameaça à ordem nos principais distritos mineradores do centro-sul do Brasil. Considerada, naquele momento, a galinha dos ovos de ouro do Império português, a rica região das Minas foi aterrorizada por uma série de notícias vindas do sertão do Rio São Francisco (atual Norte de Minas) a respeito de um movimento rebelde liderado por alguns criadores de gado daquela região. Tais fazendeiros estariam se unindo para impedir a entrada de gado nas Minas, o que afetaria seriamente o abastecimento da região, já que a maior parte do gado de corte que chegava aos centros mineradores para a alimentação do povo vinha do sertão. O principal líder desse movimento seria Manuel Nunes Viana, um português já conhecido das autoridades coloniais por seu envolvimento na Guerra dos Emboabas (1708-1710), quando portugueses e paulistas se enfrentaram numa disputa pelas minas de ouro recém descobertas. Dessa vez, o temor das autoridades era de que esse régulo pudesse provocar nos centros mineradores um outro tipo de distúrbio social, conhecido na historiografia como Motim da Fome. Para as autoridades, a violência coletiva provocada pela falta de alimentos criaria nas Minas uma situação de instabilidade e insegurança que não só afetaria a cobrança de impostos, mas também atrairia invasores estrangeiros, conscientes das precárias defesas portuguesas no litoral.


Em 1717, Dom Pedro Miguel de Almeida Portugal, 3º Conde de Assumar (1688-1756), foi nomeado pelo rei de Portugal, D. João V (1689-1750), para governar a turbulenta Capitania de São Paulo e Minas do ouro, recebendo a missão de manter a ordem entre os mineiros e garantir a arrecadação dos impostos devidos à Coroa portuguesa.
[Palco de uma série de revoltas contra a voracidade do fisco português nas duas primeiras décadas do século XVIII, a região das Minas pertenceu à Capitania de São Paulo até 1720. Naquele ano, o rei de Portugal criou a Capitania de Minas Gerais, com estruturas administrativa e fiscal próprias, organizadas com o objetivo principal de aumentar a arrecadação tributária para o Império português].

Assim que chegou à região das Minas em 1717, o recém empossado governador teve notícia de que um rico fazendeiro do sertão, Manuel Nunes Viana, pretendia arrematar o contrato dos gados e carregações que vinham do sertão do Rio São Francisco para o abastecimento da região mineradora. Quem oferecesse a maior quantia em dinheiro à Coroa portuguesa pelo contrato seria o contratador, com o direito de se apropriar dos impostos que pagavam tais mercadorias ao entrarem na Capitania. Porém, chegou ao conhecimento do governador que Manuel Nunes Viana estaria se utilizando de violência e intimidação para impedir que outras pessoas se lançassem com ele na disputa pelo contrato. Diante disso, o governador mudou a praça da arrematação da Vila de Sabará para a Vila de Nossa Senhora do Carmo (hoje, cidade de Mariana), onde havia instalado a sede do governo e sua residência. Acreditava o Conde que, com a sua presença, desapareceriam os temores que o fazendeiro queria inspirar.


Manuel Nunes Viana ficou sem o contrato, mas para se vingar, voltou para a Barra do Rio das Velhas (região onde o Rio São Francisco se encontra com o Rio das Velhas), onde tinha suas fazendas, e mandou publicar uma ordem para que nenhum fazendeiro da região recebesse gado vindo do norte e nordeste nas suas terras, onde era costume andar alguns meses engordando antes de ser introduzido nas Minas. [Como era rico e influente naquela região, Manuel Nunes Viana não teve dificuldades em se tornar líder de um amplo movimento rebelde cujo objetivo principal, ao que tudo indica, era mostrar ao governador da Capitania que quem ditaria as regras naqueles sertões distantes não seriam os representantes da Coroa portuguesa
].

Em cartas enviadas ao Conde de Vimieiro, governador da Bahia, e ao ouvidor geral da Comarca do Rio das Velhas, entre 1717 e 1719, o Conde de Assumar pedia socorro, pois parecia não ter condições de colocar fim ao movimento liderado por Viana, sendo “este o maior mal que se experimenta neste governo, por falta de tropas com que reprimir essas insolências”. Em uma carta ao Conde de Vimieiro, datada de 1718, Assumar referia-se à vulnerabilidade do poder na região das Minas diante do perigo de uma revolta popular causada pela falta de carne, porque “este governo não tem meio nenhum com que reprimir um levantamento do povo, que daqui por diante será inevitável se Manuel Nunes puser aqui, como pode e como intenta, em sítio de gados”. Conclui-se, pelas palavras do governador, que Manuel Nunes Viana tentava “sublevar este governo”, pois “faltando os gados nestas Minas, certamente entrarão os povos em desesperação”.


Em uma carta de 12 de dezembro de 1718, enviada ao ouvidor geral da Comarca do Rio das Velhas, o governador ressaltava a importância de se prender o fazendeiro amotinador, pois se ele escapasse “tenho aviso que [com] o que quer fazer é quase infalível a perdição deste governo, porque então nos há de querer sitiar por fome”.


Em 1719, após várias cartas e inúmeras tentativas malogradas de prender Manuel Nunes Viana, caíram de repente as Minas em profunda paz. Não há, na documentação analisada, informações precisas sobre como se deu o fim do movimento no sertão, nem qualquer indício de que tenham ocorrido nos centros mineradores revoltas contra o governo relacionadas à falta de carne entre 1717 e 1719. Mas é certo que durante toda a primeira metade do século XVIII, a região das Minas viveu sob a ameaça constante da crise de subsistência e do motim da fome. Como provas dessa ameaça, existem inúmeros documentos do governo e das câmaras em que é clara a preocupação das autoridades com os aumentos abusivos de preços dos alimentos e com qualquer movimentação popular contra a carestia que pudesse ser vista como “princípio de motim”. Como exemplo, há o movimento que ocorreu na vila de São João Del Rei em 1722 contra o aumento do preço da cachaça, exigindo do governador da Capitania de Minas Gerais na época, D. Lourenço de Almeida, extensa negociação para evitar que a inquietação dos moradores explodisse em violência coletiva de difícil controle.


O fato é que, em Minas Gerais, esse tipo de ameaça levou o governo da Capitania e as câmaras localizadas nas vilas a empreenderem uma política de controle da comercialização de alimentos e de estímulo à produção interna de gêneros de primeira necessidade.


Nas Minas do século XVIII, a população que ameaçava amotinar-se em épocas de carestias visava à manutenção de um acordo estabelecido entre as autoridades portuguesas e os colonos, o qual obrigava o governo da Capitania e as câmaras (verdadeiras “prefeituras” coloniais) a garantirem um fluxo regular e estável de alimentos para os centros urbanos, em troca do sossego da população.


Segundo a historiadora Carla Anastasia, em seu livro Vassalos rebeldes: violência coletiva nas Minas na primeira metade do século XVIII (Belo Horizonte: C/Arte, 1998), esse tipo de negociação marcou as relações entre colonos e autoridades em toda a América portuguesa. Segundo essa autora, as revoltas ocorridas no Brasil colonial durante a primeira metade do século XVIII derivaram do “descumprimento de acordos que geravam expectativas de procedimentos justos por parte da Coroa e em sintonia com os privilégios pessoais internalizados pela população”.


Em 1720, uma noção bem clara do direito ao alimento encontrava-se já firmemente integrada no domínio das formas de organização e atividade do poder no território mineiro. Prova disso é que, no dia 04 de fevereiro daquele ano, o Conde de Assumar, em carta ao ouvidor geral da Comarca do Rio das Velhas, referia-se à necessidade de se prover a Vila de Pitangui com roças de mantimentos, para evitar uma revolta do povo contra as autoridades, pois segundo o Conde, “o ventre é um animal tão feroz que não aguarda medidas nenhumas quando lhe falta o necessário”.


A partir do momento em que a Coroa portuguesa estabeleceu nas Minas os principais centros administrativos, entre 1711 e 1718, até os primeiros anos do século XIX, não ocorreram na Capitania crises de subsistência que levassem a população mineira a se amotinar, como as que atingiram a Bahia e o Rio de Janeiro nos séculos XVII e XVIII. Em Salvador, por exemplo, as autoridades encontravam grande resistência por parte dos senhores de engenho e produtores de tabaco da região para investirem na plantação de mandioca (que servia de alimento à população), o que aliado às secas constantes, ocasionava crises de subsistência e muitos motins da fome. Durante uma grave crise alimentar ocorrida em 1688, a falta de farinha de mandioca nos mercados de Salvador fez com que trezentos soldados da Infantaria (que eram pagos em farinha) se amotinassem. E no Rio de Janeiro, em 1726, a crise alimentar era tão grave que se espalhava rapidamente pelo interior da Capitania, levando a que as câmaras de importantes centros produtores de farinha, como Cabo Frio, Campos e Ilha Grande, negassem o envio de alimentos para a cidade do Rio de Janeiro, o que gerou descontentamento e motins na sede da Capitania.


Na capitania mineira, os aumentos de preços dos alimentos foram freqüentes na primeira metade do século XVIII, mas em nenhum momento a situação de perigo durou tempo suficiente para que a inquietação dos mineiros se transformasse em revoltas de difícil controle. A explicação para isso está na ação das autoridades coloniais que, buscando preservar a estrutura administrativa e fiscal estabelecida nas Minas, preocuparam-se com a organização do comércio de alimentos e com a produção interna dos principais gêneros de subsistência.


Visando à quietação do povo, as autoridades locais de Vila Rica (hoje, cidade de Ouro Preto), por exemplo, exigiam que os “carniceiros” vendessem carne nos lugares em que o povo pedisse; que cortassem o gado em locais que fossem visíveis, “pela desconfiança que possa haver do povo de que a carne não seja de boi”; que os comerciantes de gado comparecessem nas reuniões com os oficiais da Câmara para “averiguação e bem comum do povo desta vila”; que os lavradores não vendessem farinha mal torrada ou mal peneirada, “com muita canjica”; que ninguém atravessasse mantimentos para revender por maior preço; e que ninguém pesasse ou mandasse pesar mantimentos com pesos de pedra.


Paralelamente a essa política de controle do pequeno comércio nas vilas e arraiais mineiros, foi preciso também dar início a uma política de aquecimento da produção interna de alimentos, através da concessão, pelo governo, de títulos de propriedade de terras (cartas de sesmaria), que teve como principal objetivo aumentar a oferta de gêneros de primeira necessidade no mercado.


Nas Minas do século XVIII, o que determinou a política de sesmarias, iniciada logo com a chegada do primeiro governador, Antônio de Albuquerque Coelho e Carvalho, naquela região, em 1711, foi, certamente, a situação de fome que parecia não dar trégua aos primeiros povoadores. Embora o rápido crescimento populacional exigisse que as autoridades empreendessem uma política de concessão de terras para povoar o interior e fixar uma população que errava pelo território mineiro, a maior preocupação das autoridades era com a subsistência do povo, que nos primeiros anos das Minas chegou a desaparecer de determinadas localidades devido à falta de alimentos.


Nesse sentido, a carta de sesmaria era um estímulo à produção porque legitimava a posse da terra. Quem a recebia passava a ser proprietário de um sítio ou fazenda com limites definidos, podendo até mesmo, posteriormente, vender sua propriedade no mercado.


Com a concessão de cartas de sesmaria, as autoridades buscavam também povoar os caminhos para as Minas, de forma que os passageiros encontrassem neles roças e ranchos localizados em pontos estratégicos, o que facilitava a circulação de pessoas e mercadorias. Além disso, estando habitados os caminhos, os riscos de ataques de escravos fugidos, índios e salteadores eram menores, o que também ajudava a garantir maior previsibilidade para o abastecimento. Em 1711, por exemplo, o governador Antônio de Albuquerque recebeu instruções do próprio rei para que continuasse concedendo cartas de sesmaria aos moradores do Caminho Novo, que ligava as Minas ao Rio de Janeiro, por ser muito conveniente, “assim para haver mais povoadores no dito caminho, como por haverem nele mantimentos bastantes de que são falta”.


A construção e a manutenção das vias de comunicação também faziam parte da política de abastecimento do governo e das câmaras. Vila Rica, em especial, necessitava de uma infra-estrutura de comunicações que garantisse a conexão não só com as roças das redondezas, mas também com os núcleos produtivos localizados em regiões mais afastadas do centro urbano. Em 29 de janeiro de 1714, por exemplo, os oficiais da Câmara de Vila Rica decidiram mandar um funcionário partir em diligência para consertar os caminhos e pontes que se encontravam fora do termo da vila, “para mais prontamente se poderem conduzir os mantimentos para esta vila e seguirem-se utilidades aos povos e moradores dela”.


Preocupadas com a possibilidade de ocorrerem motins em razão do desabastecimento nas Minas, as autoridades coloniais, durante o século XVIII, estimularam a produção interna de alimentos e fiscalizaram o seu comércio; tentaram garantir a conservação das vias de comunicação que ligavam as unidades produtivas aos mercados consumidores; e diante de qualquer ameaça de revolta, negociaram a paz, seguindo o conselho do nobre português Antônio Rodrigues da Costa, conselheiro do rei para assuntos de ultramar, para quem, em um documento de 1712, motins e rebeliões
“são os princípios por onde caminham as monarquias para a sua ruína”.

Adaptado de SILVA, Flávio Marcus da. Subsistência e Poder: a política do abastecimento alimentar nas Minas setecentistas. Belo Horizonte: Editora ufmg, 2008, 294 p.

domingo, 3 de agosto de 2008

Desvios

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

Manoel de Barros

O chão tem gula de meu olho

Estou atravessando um período de árvore.
O chão tem gula de meu olho por motivo que meu
olho tem escórias de árvore.
O chão deseja meu olho vazado pra fazer parte do cisco
que se acumula debaixo das árvores.
O chão tem gula de meu olho por motivo que meu olho
possui um coisário de nadeiras.
O chão tem gula de meu olho pelo mesmo motivo que
ele tem gula por pregos por latas por folhas.
A gula do chão vai comer o meu olho.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

Manoel de Barros

O Lutador

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue...
Entretanto, luto.
Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.
Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
outra sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.
O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue nas ruas do sono.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Saúde Mental

Vou correr o risco de postar este texto na íntegra, enviado pelo meu amigo Joandre, e que muito alegrou meu dia: "Saúde Mental", de Rubem Alves. Também recomendo "Shirley Valentine".

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se. Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é uma coisa muito perigosa... Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente “equipamento duro”, e a outra denomina-se software, “equipamento macio”. O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades “espirituais” - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo “espirituais”, sendo que o programa mais importante é a linguagem. Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.

Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou.

Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias. Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o rock pode ser tomado à vontade. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento.

Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato. Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram.

Rubem Alves

domingo, 29 de junho de 2008

A obra do gênio

Faz parte das regras do convívio social respeitar as pessoas pelos cargos que ocupam, pela titulação, pela idade, pela competência, pela riqueza, etc., mas não vejo razão para exageros da parte de quem respeita nem da de quem é respeitado. No Brasil, políticos, empresários, juízes, médicos, artistas, etc. são muitas vezes colocados sobre pedestais, e ali, muitos deles se julgam semi-deuses. Eles merecem ser respeitados, mas julgá-los importantes demais e fazê-los crer que realmente o são é ridículo. Tudo flui, já dizia Platão; dinheiro, cargos e posição social acabam, e muito rápido! A vida é um piscar de olhos. Segundo o célebre historiador austríaco Ernst Gombrich, o Tempo é “um rio com ondas ruidosas como as ondas do mar. O vento é forte, a crista das ondas é coberta de espuma. Ao ritmo das ondas, gotículas sobem à superfície e depois desaparecem. A crista da onda as carrega por um instante, depois elas voltam a cair, como engolidas, e desaparecem. Saiba que cada um de nós não é nada mais do que essa gota cintilante, minúscula, sobre as ondas do tempo que correm debaixo de nós para mergulhar na névoa indefinível do futuro. Nós emergimos da água, olhamos à nossa volta e, antes mesmo de percebermos, já desaparecemos. É impossível nos ver no grande rio do Tempo. Constantemente novas gotas vêm à tona. E o que chamamos de nosso destino nada mais é do que nossa luta no meio dessa multidão de gotas, o tempo de um simples subir e descer da onda”.
No rio do Tempo, poucas pessoas deixam obras realmente geniais. Não vejo diferença entre a boa obra de um juiz ou de um político e a de uma mãe que criou seus filhos com amor e dedicação. A obra do gênio é diferente. Ela é imortal, universal, e é assim que eu vejo a obra de Johann Sebastian Bach (1685-1750). Sua música é genial. Ao ouvi-la, temos a sensação de que não foi um simples mortal que a compôs, mas um espírito realmente superior.

sábado, 24 de maio de 2008

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Crepúsculo

Hemos perdido aun este crepúsculo.
Nadie nos vio esta tarde con las manos unidas
mientras la noche azul caía sobre el mundo.

He visto desde mi ventana
la fiesta del poniente en los cerros lejanos.

A veces como una moneda
se encendía un pedazo de sol entre mis manos.

Yo te recordaba con el alma apretada
de esa tristeza que tú me conoces.

Entonces, dónde estabas?
Entre qué gentes?
Diciendo qué palabras?
Por qué se me vendrá todo el amor de golpe
cuando me siento triste, y te siento lejana?

Cayó el libro que siempre se toma en el crepúsculo,
y como un perro herido rodó a mis pies mi capa.

Siempre, siempre te alejas en las tardes
hacia donde el crepúsculo corre borrando estatuas.

Pablo Neruda

Tempo

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh, não aguardes, que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Gregório de Matos

domingo, 27 de abril de 2008

Você sabe com quem está falando?

"Quantos guardas de trânsito, quantos policiais, quantos fiscais, quantos funcionários de repartição pública, quantos empregados de hotéis, lojas, aeroportos, cinemas, quantos cidadãos comuns, já não ouviram esta frase dita por quem se considera socialmente superior pela riqueza, pelo poder, pela educação, pelo status, pela cor da pele, pelos laços familiares, ou por simples presunção e arrogância? Com o ‘você sabe’ o superior tenta impor sua vontade reafirmando a hierarquia social à margem e por cima da lei. Ele está fora e à margem da lei, mas está acima dela. É sintomático da cultura da desigualdade que ele não seja considerado marginal como os que estão por fora e à margem da lei, mas por baixo dela. O marginal de cima é ‘doutor’, o marginal de baixo é bandido. Entre os dois marginais, labuta a multidão dos sofridos cidadãos sujeitos aos rigores da lei. No caso do ‘você sabe’, se o inferior atrevido insiste na aplicação da lei, pode ser punido por desacato à autoridade".

José Murilo de Carvalho - Pontos e Bordados (Editora UFMG)

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Lacuna

"O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá, um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo."

Dom Casmurro (Machado de Assis)

Resíduo

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo

no queixo de tua filha.

De teu áspero silêncio

um pouco ficou, um pouco

nos muros zangados,

nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,

retrato.

(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa

o insuportável mau cheiro da memória.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Robinson Crusoe

“...I went to work, and with the carpenter’s saw I cut a spare topmast into three lenghts and added them to my raft, with a great deal of labour and pains; but the hope of furnishing myself with necessaries encouraged me to go beyond what I should have been able to have done upon another occasion.”

Las Madres de la Plaza de Mayo

Aujourd’hui je suis allé voir Las Madres de la Plaza de Mayo, qui sont venues à BH invitées par le groupe Tortura nunca mais, duquel fait partie ma collègue Heloísa Greco. Il faut avouer que j’ai presque pleuré en écoutant ces mères, qui depuis plus de 20 ans luttent pour savoir ce qui s’est passé avec leurs fils disparus, certainement morts par le régime militaire. En Argentine, elles ont fondé une organisation dont le symbole est le pañuelo qu’elles mettent à la tête. Aujourd’hui, ces braves mères luttent pour la justice sociale, pour les droits de l’homme, pour une vie plus digne à tous les pauvres du monde. Elles ont décidé de prendre les valeurs pour lesquels luttaient leurs fils comme leurs valeurs à elles, et elles voyagent partout pour essayer de montrer aux jeunes d’aujourd’hui que la lutte n’est pas encore finie.
Belo Horizonte, le 31 août, 1999

quarta-feira, 19 de março de 2008

Experiência fantástica

Decolar do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro

domingo, 13 de janeiro de 2008

Volta para casa


Finalmente tinha chegado o dia da tão esperada “volta para casa”. Nunca vou me esquecer desta cena: a imagem turva da cidade através da janela do avião, embaçada pelas lágrimas que não paravam de cair, e logo o grande oceano à frente, à minha espera, para a longa travessia. Ó Lisboa! Como te conheço! Como te sofri! Como te amo! Como te odeio! Com suas ruas e colinas cheias de história e encanto! Com seus sons, seus cheiros, sua dor... Como te senti!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Pourquoi je ne suis pas normal?

Il faut construire quelque chose avant de mourrir. Nous vivons dans une société qui valorise beaucoup l’argent, les choses qu’on possède, c’est-à-dire les voitures, les maisons, les fermes, les bijoux, les vêtements, etc. La philosophie de cette société c’est qu’on vaut ce qu’on a. Donc, je ne suis rien, parce que je n’ai rien. J’ai quelques livres, bien sûr. Pourtant, ça ne vaut rien dans une société comme la nôtre. J’ai envie de partir. Tout le monde ici veut savoir ce que je fais, pourquoi je n’ai pas d’argent, etc. À Pará de Minas surtout, les gens ne savent pas comprendre la situation dans laquelle je me trouve. Je suis un jeune qui ne termine jamais ses études et qui n’a pas d’argent pour se marier, pendant que d’autres jeunes en ont beaucoup plus que moi et ont dejà terminé les études il y a longtemps. Pourquoi je ne suis pas normal? C’est pour ça que je veux partir d’ici avec Maisa. Peut-être on pourrait aller vivre au Portugal. Ça serait merveilleux. J’espère qu’au Portugal il y aura Friends. Aujourd’hui j’ai vu le troisième épisode des nouveaux et je crois que je commence à m’habituer avec Chandler. Il a beaucoup changé depuis le dernier épisode, mais ça va. Les autres sont les mêmes. Tant mieux.

Belo Horizonte,
le 13 novembre, 2000

Heloísa Bizoca

Hier, quand j’étais chez Heloísa, une femme est arrivée. Elle voulait parler sur la lutte contre la torture pendant la dictature militaire au Brésil et sur les droits humains en général, ce qui nous a empêché de continuer notre traduction. Elle est en train d’écrire une thèse de doctorat sur ce sujet et en visitant Heloísa, elle cherchait à obtenir quelques contacts à Belo Horizonte. Pendant qu’elles se parlaient, je me promenait dans la petite bibliothèque d'Heloísa. Je ne me sens jamais fatigué quand je regarde les livres. J’adore les toucher, les feuilleter, sentir avec mes doigts leurs textures, en lire quelques paragraphes et m’amuser en m’imaginant un écrivain très connu, très riche. Un jour je vais écrire un roman; une histoire de mystère, a gripping one; et mon rêve, après l’avoir écrit, c’est d’abord de le publier chez quelque editeur. Quelquefois je m’imagine au Bouillon de culture, en train de partager mes opinions sur la littérature policière [les romans noirs] avec Bernard Pivot et d’autres écrivains. Je rêve; j’adore rêver. Mais les livres que j’ai vu dans la bibliothèque d’Heloísa sont plutôt marxistes. À côté de Marx, on y trouve Lenine, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Christopher Hill, Hobsbawm et beaucoup d’autres. Ces livres et les idées de ses auteurs sont la passion d’Heloísa, une militante qui croit encore à la lutte de classes. Elle est fantastique, Heloísa. Je l’aime fort; je me sens très bien près d’elle. J’adore aussi son café, sa petite maison — très simple mais très acueillante —, ses livres, ses idées sur la vie, sur la politique, sur les besoins du Brésil, sur les hommes; j’admire beaucoup son radicalisme, sa volonté de lutter pour des choses qui n'ont rien à voir avec le succès personnel et l’argent. Aujourd’hui, la plupart des jeunes veulent le succès, n’ayant aucun intérêt au sort des autres. C’est honteux, mais c’est la réalité.

Belo Horizonte, le 21 juillet, 2000

Amor

“Huberto Naranjo llevaba largo tiempo sin mujer. Más tarde supe que esa privación de afecto y de sexo era para él lo más difícil de sobrellevar en la montaña. En cada visita a la ciudad corría al primer prostíbulo que surgiera a su paso y durante unos instantes, siempre demasiado breves, se hundía en el marasmo abismante de una sensualidad urgente, rabiosa y finalmente triste, que apenas aliviaba el hambre acumulada sin darle en realidad ninguna dicha. Cuando podía ofrecerse el lujo de pensar en sí mismo, lo agobiaba el anhelo de tener en los brazos a una muchacha que fuera sólo suya, de poseerla por completo, de que ella lo esperara, lo deseara y le fuera fiel.”

Eva Luna

Love


“There will remain, here in my journal, the things Henry has said. I receive them like gifts of jewels, incense, and perfumes. Henry’s words fall, and I catch them with such care that I forget to talk. I am the slave fanning him with peacock feathers. He talks about God, Dostoevsky, and the finesse of Fred’s writing. He draws a distinction between that finesse and his own dramatic, sensational, potent writing. He can say with humility, ‘Fred has a finesse which I lack, erudition, the quality of an Anatole France.’ And I say, ‘But don’t you see, he lacks the passion, just as France lacked it. It is what you have!’ At the thought of this, as we walk along a boulevard, I want to kiss the man whose passion rushes like lava through a chill intellectual world. I want to give up my life, my home, my security, my writing, to live with him, to work for him, to be a prostitute for him, anything, even to be fatally hurt by him.”

Anaïs Nin [1903-1977]

I did what I loved

When I was a child, I wasn’t concerned about anything. I only played and was very happy. I liked studying, but my best memories are on playing with my cousin at my father’s farm. I had a rustic life. I grew-up among cows, horses and pigs, and it was great. We used to wake-up earlier than the rest of the family to see the sun-rises and to begin doing lots of things. One of the most extraordinary things we used to do was to build up little tents with dry grass and wood. It was fantastic because we considered those rustic buildings our own homes. We used to go fishing too. Fishing was like a battle. The best fisher would take the bigger fish, and during those moments it was impossible for us to see time passing. When I was thirteen, my life began to change. I continued to be a child, I really loved playing, but at that moment, I became more serious. I used to read a lot. I loved reading detective stories and imagining that I was a Sherlock Holmes or a Hercule Poirot and that I could solve any mysteries. In my class, the girls began to think they were already women and it was strange because my comrades and I still had a child soul. I didn’t know what to do and the common problems of a teenager began. I was worried about the society's opinion on me, that I had to go out with my friends and to pretend to be grown-up, what I really wasn’t. Instead, I sank in my books and in its imaginary world. I only began to go to parties and to act like an adult when I felt that I was ready to. However, it was impossible for me to avoid people's looks. They thought I wasn’t normal. Today, I laugh when I think about what happened to me. I was so stupid! But I was happy, I had a healthy childhood and when I was a teenager, I did what I loved.


Belo Horizonte, september 1999


quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Ponto



Vídeo muito interessante!

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Tristeza

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!

Um sino dobra em mim Ave-Maria!

Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,

Faz na vidraça rendas de Veneza...

O vento desgrenhado chora e reza

Por alma dos que estão nas agonias!

E flocos de neve, aves brancas, frias,

Batem as asas pela Natureza ...

Chuva ... tenho tristeza! Mas porquê?!

Vento ... tenho saudades! Mas de quê?!

Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!

Gritem ao mundo inteiro esta amargura,

Digam isto que sinto que eu não posso!!...


Florbela Espanca [1894-1930]

Sem remédio

Aqueles que me têm muito amor

Não sabem o que sinto e o que sou ...

Não sabem que passou, um dia, a Dor

À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,

Este frio que anda em mim, e que gelou

O que de bom me deu Nosso Senhor!

Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos da Dor, essa cadência

Que é já tortura infinda, que é demência!

Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,

A mesma angústia funda, sem remédio,

Andando atrás de mim, sem me largar!


Florbela Espanca [1894-1930]

Angústia

Tortura do pensar! Triste lamento!

Quem nos dera calar a tua voz!

Quem nos dera cá dentro, muito a sós,

Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! ... e o pensamento

Sempre a morder-nos bem, dentro de nós ...

Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –

O brilho duma estrela, com o vento! ...

E não se apaga, não ... nada se apaga!

Vem sempre rastejando como a vaga ...

Vem sempre perguntando: “O que te resta? ...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!

Ser pedaço de gelo, ser granito,

Ser rugido de tigre na floresta!


Florbela Espanca [1894-1930]


domingo, 6 de janeiro de 2008

Le temps retrouvé

Hier j’ai vu pour la deuxième fois le film Le temps retrouvé, d’après l’oeuvre de Marcel Proust. C’est un film sur la mémoire de l’écrivain, et pour cela l’histoire n’a pas de chronologie. Proust est dans sa chambre et il se trouve mourrant. Avec l’aide de quelques photos il essaie de parcourir les chemins de sa mémoire, où il trouvera des fantômes, des gens qui ont fait partie de sa vie dans la France du XIXe siècle. Il lui est impossible de suivre un fil conducteur depuis le début jusqu’à la fin, ou le contraire. Les chemins de la mémoire sont pleins de trous et les souvenirs ne suivent pas une règle pour s’éveiller. Les photos, les bruits, les sensations les plus diverses permettent à Proust de se rapeller de quelque situation, de quelqu’un ou de quelque chose. Le Proust mourrant, sur son lit, en regardant une photo de Gilberte, un ancien amour, se souvient du jeune Proust, qui à son tour, assis dans une bibliothèque, se souvient du Proust enfant. Tous les trois se croisent pendant tout le film, mais ils n’arrivent pas à parcourir une route qui pourrait les conduire jusqu’à un point de rencontre où ils se fondraient. Le passé est fragmenté et l’histoire de notre vie n’est qu’un grand bouillon de souvenirs melangés dans une espèce de liquide noir qui rend la formation d’un dessein complet et harmonieux impossible. Ce liquide est toujours en mouvement, et il représente le mouvement de notre mémoire, qui au fur et à mesure que les années passent, devient plus turbulent, plus agité. Au moment de la mort, quand il n’y aura plus rien pour éviter ce malheureux destin que quelque force supérieur nous a imposé, en nous donnant la vie, la tempête va peut-être se calmer. C’est l’heure d’essayer de retrouver le temps, de former des images plus claires, plus complètes sur nôtre passé. Les images viennent, mais c’est dans un grand désordre qu’elles font leur éveil, le mourrant n’arrivant pas à les mettre dans un quadre chronologique complèt. Enfin, il se rend compte que malgré le peu de temps qu’il a passé sur la terre, il n’est pas capable de tout voir. La fin s’approche et rien au monde va éviter la chute final, la grande défaite de la mort.

Belo Horizonte, le 24 août, 1999

Cena do chuveiro



Um banho de chuveiro num motel de beira de estrada. Somente a mão de um gênio poderia transformar um gesto tão banal em sinônimo de medo, suspense, terror, mistério e agonia. Alfred Hitchcock, o mestre do suspense, conseguiu. A cena do assassinato da personagem interpretada por Janet Leigh em “Psicose” [1960] já foi escolhida por críticos franceses como “a mais memorável” da história do cinema. Filmada em setenta ângulos diferentes durante sete dias, a seqüência do chuveiro dura apenas quarenta e cinco segundos, mas já rendeu quatro décadas de fama a Janet Leigh, uma atriz de sorte que parece estar sempre no filme certo na hora certa.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

The Psychoed

As I was going up the stair,
I met a man who was not there,
he wasn’t there again today,
I wish that man would go away.

Hughes Mearns (1875-1965), «The Psychoed»

Halfway down the stairs

Halfway down the stairs
Is a stair where I sit:
There isn’t any other stair quite like it.
I’m not at the bottom,
I’m not at the top:
So this is the stair where I always stop.
Halfway up the stairs
Isn’t up, and isn’t down.
It isn’t in the nursery, it isn’t in the town:
And all sorts of funny thoughts
Run round my head:
«It isn’t really anywhere! It’s somewhere else instead!»

Alan Alexander Milne (1882-1956)