quinta-feira, 24 de março de 2016
papo furado
"Não existe ninguém vitorioso na vida, é pura cascata, papo furado.
Não há santos nem gênios, tudo não passa de conversa mole pra boi
dormir, conto da carochinha, só pro jogo continuar. Cada homem se
esforça pra sobreviver e ter sorte, se puder, o resto não dá pra
engolir.”
Charles Bukowski (1920-1994). Crônica de um amor louco
Paisagens sublimes (II)
"A humilhação é um risco constante no mundo dos homens. Não é raro
que nossa vontade seja desafiada e nossos desejos, frustrados. Paisagens
sublimes, portanto, não nos confrontam com nossa inadequação. [...] As
paisagens sublimes repetem, em termos solenes, uma lição que a vida
cotidiana nos ensina cruelmente: o Universo é mais poderoso do que nós;
somos frágeis e transitórios; não temos alternativa senão aceitar
limitações à nossa vontade e precisamos nos dobrar a necessidades
maiores do que nós mesmos."
Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 167
Paisagens sublimes
"As paisagens sublimes, através de sua grandeza e força, desempenham
um papel simbólico em nos fazer aceitar, sem amargor nem queixas, os
obstáculos que não conseguimos superar e os acontecimentos que não
entendemos. Como bem sabia o Antigo Testamento, pode ser proveitoso
armazenar dados relativos à pequenez da humanidade junto aos elementos
da natureza que fisicamente a superam – as montanhas, o cinturão da
terra, os desertos.
Se o mundo é injusto ou está além de nosso entendimento,
os lugares sublimes sugerem que não surpreende que as coisas sejam
assim. Somos joguetes das forças que criaram os oceanos e moldaram as
montanhas. Lugares sublimes nos levam gentilmente a reconhecer as
limitações que, de outra forma, poderiam nos causar ansiedade ou raiva
no curso comum dos acontecimentos. Não é apenas a natureza que nos
desafia. A vida humana não é menos devastadora, mas são os vastos
espaços naturais que talvez nos ofereçam o melhor e mais respeitoso
lembrete de tudo o que nos transcende. Se passarmos algum tempo com
eles, talvez nos ajudem a aceitar com mais elegância os grandes e
inconcebíveis acontecimentos que molestam nossa vida e nos retornarão,
inevitavelmente, ao pó."
Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 175
Marcadores:
Alain de Botton,
Psicologia etc
Prazer em viajar
"...o prazer que extraímos das viagens talvez dependa mais do estado
de espírito em que viajamos do que do destino. Se pudéssemos aplicar o
estado de espírito de quem viaja aos nossos lugares, constataríamos que
esses lugares não são menos interessantes do que os desfiladeiros em
montanhas altas e as florestas cheias de borboletas da América do Sul
vista por Humboldt."
Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 238
Marcadores:
Alain de Botton,
Psicologia etc
Muito com pouco
"Quando observamos como certas pessoas sabem conduzir suas
experiências – suas experiências insignificantes e cotidianas – de tal
maneira que se transformam em solo arável, dando frutos três vezes por
ano, ao passo que outras – e quantas não são! – são empurradas por ondas
avassaladoras do destino, as mais diversas correntes do tempo e das
nações, e ainda assim continuam no topo, balançando como uma rolha,
somos tentados a dividir a humanidade entre uma minoria (realmente
mínima) daqueles que sabem fazer muito com pouco e uma maioria que sabe
fazer pouco com muito."
Friedrich Nietzsche (1844-1900). Citado por Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 245
Marcadores:
Alain de Botton,
Psicologia etc
domingo, 20 de março de 2016
Lei do retorno
Não seja grosseiro e arrogante com o próximo, não humilhe ninguém,
pois isso cria uma energia negativa que volta para você um dia, tenha
certeza disso, volta mesmo, mais cedo ou mais tarde. Plante coisas boas,
gentilezas, compreensão, carinho... Ouça o próximo, seja generoso, que
isso volta também, para você, para seus filhos, para a sua vida... Antes
de falar e agir por impulso, coloque-se no lugar do outro. Isso se
chama compaixão. Tenha compaixão. Tenha paciência. Não se coloque acima
de ninguém. Trate o próximo como você quer ser tratado.
De mim para mim e para quem mais quiser e/ou precisar
Nota de suicídio
"[...] Eu tenho uma deusa como esposa que transpira ambição e empatia
e uma filha que me lembra demais como eu costumava ser, cheia de amor e
alegria, beijando cada pessoa que ela encontra porque todos são bons e
ninguém lhe fará mal nenhum. E isso me apavora ao ponto de eu mal
conseguir funcionar. Eu não posso suportar a ideia de Frances se tornar o
triste, autodestrutivo e mórbido roqueiro que eu me tornei.
Eu tive muito, muito mesmo, e eu sou grato por isso, mas desde os sete
anos passei a ter ódio de todos os humanos em geral. Apenas porque
parece tão fácil para as pessoas que têm empatia se darem bem. Apenas
porque eu amo e sinto demais por todas as pessoas, eu acho.
Obrigado do fundo do meu ardente e nauseado estômago por suas cartas e
preocupação nestes últimos anos. Eu sou um bebê errático e triste! Eu
não tenho mais paixão, e por isso, lembre-se, é melhor queimar de vez do
que se apagar aos poucos.
Paz, amor, empatia.
Kurt Cobain
Frances e Courtney, eu estarei em seus altares.
Por favor, siga em frente, Courtney, pela Frances.
Pela vida dela, que será muito mais feliz sem mim.
EU AMO VOCÊS, EU AMO VOCÊS!"
Trecho final da carta de despedida que Kurt Cobain escreveu pouco antes de cometer suicídio no dia 5 de abril de 1994, aos 27 anos
Paz, amor, empatia.
Kurt Cobain
Frances e Courtney, eu estarei em seus altares.
Por favor, siga em frente, Courtney, pela Frances.
Pela vida dela, que será muito mais feliz sem mim.
EU AMO VOCÊS, EU AMO VOCÊS!"
Trecho final da carta de despedida que Kurt Cobain escreveu pouco antes de cometer suicídio no dia 5 de abril de 1994, aos 27 anos
Sertão é isto:
Sertão é o imprevisível. A morte na
tocaia, indiferente, mansa, só esperando. Apeia-se aqui e ali, nas
beiras dos rios, nos bambuzais, nas matas, nos ranchos de pousada.
Come-se paçoca de carne, pequi, torresmo. Bebe-se cachaça. O destino é
seguir sempre, buscando: o de comer, o de beber... viver... Vida solta
indomada, e a gente no lombo dela, sem arreio, sem peias. No pelo.
“Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear
o senhor dos lados”, diz Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas. Meu
sertão é minha alma: meus rios, pastos e montanhas, minha verdade:
vastidão desolada e rica onde sou eu mesmo, sem cabresto: cavalo solto,
livre, pronto para morrer, satisfeito. Meu sertão... Ele também me
rodeia dos lados, sai de dentro de mim e me protege, que nem escudo, das
certezas desse mundão aí fora. É guerra encarniçada, difícil.
Meu sertão me salva do previsível da vida, dos modelos de razão, que
fecham a gente em grades, que nem prisão. Porque no sertão, como diz
Riobaldo, “o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de
mais juízo!”. É o que eu penso.
Que me julguem, pois. Que me humilhem. Não me importo. Aí fora tudo é parcial. Ninguém vê total, puro. Vê só o que quer, o que pode. Não tem verdade.
Dentro de mim: verdade minha. Só. Sou o que sou, desamarrado, livre. Sei meu valor.
Que me espezinhem, pois. Que me torrem a paciência. Não me importo. Sou bicho do mato. Sou.
Riobaldo falou: “Sertão: é dentro da gente”. É isso.
Flávio Marcus da Silva (1975-)
Que me julguem, pois. Que me humilhem. Não me importo. Aí fora tudo é parcial. Ninguém vê total, puro. Vê só o que quer, o que pode. Não tem verdade.
Dentro de mim: verdade minha. Só. Sou o que sou, desamarrado, livre. Sei meu valor.
Que me espezinhem, pois. Que me torrem a paciência. Não me importo. Sou bicho do mato. Sou.
Riobaldo falou: “Sertão: é dentro da gente”. É isso.
Flávio Marcus da Silva (1975-)
Nós não passamos nas ferrovias
"A própria nação, com todas as suas ditas melhorias internas, que,
aliás, são todas externas e superficiais, é uma instituição simplesmente
tão pesada e hipertrofiada, tão entulhada de coisas e tropeçando na
armadilha de seus bens, tão estragada pelo luxo e pelo esbanjamento, por
falta de cálculo e de um objetivo digno, quanto os milhões de lares que
existem na Terra; e o único remédio para isso, em ambos os casos, é uma
economia rigorosa, uma simplicidade de vida inflexível e
mais do que espartana, e a elevação de propósitos. Ela vive rápido
demais. Os homens pensam que é essencial que a Nação tenha comércio,
exporte gelo, fale por telégrafo, ande a 50 quilômetros por hora, sem
qualquer hesitação [...]; já se devemos viver como símios ou como
homens, é uma questão um pouco mais incerta. Pois, se não trazemos
dormentes, se não forjamos trilhos, dedicando dias e noites a esse
trabalho, mas ficamos consertando nossas vidas para melhorá-las, quem
construirá as ferrovias? E se as ferrovias não forem construídas, como
chegaremos ao céu em tempo? Mas, se ficarmos em casa e cuidarmos de
nossos afazeres, quem vai querer ferrovias? Nós não passamos nas
ferrovias; elas é que passam sobre nós."
Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 96-7
Livros de papel
“E ela está falando de livros. Do seu livro, o recém-lançado Words
Onscreen: The Fate of Reading in a Digital World, e dos livros em geral,
em papel ou não. As conclusões, que ela apurou de vários estudos
realizados nos últimos anos em diversos países, são consistentes e
fascinantes: os livros de papel, que deveriam ter morrido com a explosão
digital, estão mais vivos do que nunca. A razão, Naomi diz, que todas
pesquisas concluem é simples: para a aquisição rápida de informação,
preferimos as telas de computadores, tablets, smartphones; para a
leitura profunda, aquela que, nas palavras dela, ‘mudam vidas, que é o
que os bons livros devem fazer’, optamos pelos livros.
Não pensem que essas são conclusões extraídas de pesquisas com gente de
meia idade, da geração anterior à era digital. Muito pelo contrário: a
pesquisa mais recente e mais vasta, que Naomi usou como coração da sua
obra, envolveu adolescentes e jovens entre 17 e 26 anos. E não deixou a
menor dúvida. O livro, segundo eles, oferece imersão, experiência
individual, ‘sem interrupções’, diz um dos pesquisados, ‘sem barulhinhos
na tela’, ‘obrigando a pensar’.
A entrevistadora pergunta a Naomi se isso não vai mudar no futuro, com a permanência das obras digitais e gerações com cérebros diferenciados, programados para as tarefas múltiplas e simultâneas. Ela diz que não. Mudanças substanciais na ‘fiação’ do cérebro humano demoram milênios, acrescenta. Estamos operando com a mesma fiação dos clássicos gregos — compreendemos a narrativa e a linguagem do mesmo modo, e é essa experiência, íntima e pessoal, que o livro traz.”
Ana Maria Bahiana, para o blog da Companhia das Letras, 19 de março de 2015. Jornada pelo coração da galáxia de Gutemberg: uma fábula.
A entrevistadora pergunta a Naomi se isso não vai mudar no futuro, com a permanência das obras digitais e gerações com cérebros diferenciados, programados para as tarefas múltiplas e simultâneas. Ela diz que não. Mudanças substanciais na ‘fiação’ do cérebro humano demoram milênios, acrescenta. Estamos operando com a mesma fiação dos clássicos gregos — compreendemos a narrativa e a linguagem do mesmo modo, e é essa experiência, íntima e pessoal, que o livro traz.”
Ana Maria Bahiana, para o blog da Companhia das Letras, 19 de março de 2015. Jornada pelo coração da galáxia de Gutemberg: uma fábula.
Marcadores:
Educação,
Ler,
Psicologia etc
A utilidade do inútil
"Não é verdade - nem mesmo em tempos de crise - que só é útil o que
produz lucro ou tem uma finalidade prática. Existem saberes considerados
'inúteis' que são indispensáveis para o crescimento da humanidade.
Útil, portanto, é tudo aquilo que nos ajuda a termos uma vida mais plena
e um mundo melhor."
Sobre o livro A Utilidade do Inútil, de Nuccio Ordine
Luta pelo prazer
"– Numa sociedade toda organizada em torno da luta pelo poder, quando
a vida social se transforma em luta pelo prazer... já pensou, querido?
Veja se me entende: para que a vida seja luta pelo poder, é preciso que
todo mundo faça isso, porque assim os mais poderosos sempre ganham, com
dinheiro, violência, armas, etc., entende? Agora, se um grupo grande,
como a juventude, por exemplo, não vai nessa, quando descobre que não há
prazer algum no trabalho, na guerra, na burocracia, na submissão, no
uso da força bruta, nas armas, no dinheiro, no consumo... É uma ousadia
imensa, imperdoável! Mas é essa a nossa guerra... a juventude e o prazer
são as nossas armas! Faltavam os coiotes... os mutantes..."
Roberto Freire (1927-2008). Coiote (1986). Rio de Janeiro: Guanabara, p. 395
essa questão do deslocamento
"A vida é um hospital em que cada paciente está obcecado com a ideia
de mudar de cama. Este quer sofrer em frente ao radiador, e aquele
imagina que melhoraria se estivesse junto à janela. [...]
Sempre me parece que estarei bem onde não estou, e essa questão sobre o deslocamento ocupa perenemente minha alma."
Charles Baudelaire (1821-1867). Citado por Alain de Botton. A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 40
Marcadores:
Baudelaire,
Psicologia etc
Arranca-me daqui!
"As nuvens passam tranquilamente. Abaixo de nós, estão inimigos e
colegas, os lugares de nosso terror e de nossa dor; todos eles
infinitesimais, meros rabiscos na terra. Podemos conhecer
suficientemente a perspectiva dessa velha lição, mas ela raras vezes
parece tão verdadeira quanto no momento em que estamos sentados junto à
janela fria de um avião, quando a aeronave se torna mestre de uma
profunda filosofia – e discípula fiel da exortação de Baudelaire:
'Carruagem, leva-me contigo! Navio, arranca-me daqui!
Leva-me para longe, muito longe. Aqui, a lama é feita de nossas lágrimas!'"
Leva-me para longe, muito longe. Aqui, a lama é feita de nossas lágrimas!'"
Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 40
Marcadores:
Alain de Botton,
Psicologia etc
Um olhar para baixo
"Aprendo mais com abelhas do que com aeroplanos.
É um olhar para baixo que eu nasci tendo.
É um olhar para o ser menor, para o
insignificante que eu me criei tendo.
O ser que na sociedade é chutado como uma
barata – cresce de importância para o meu
olho.
Ainda não entendi por que herdei esse olhar
para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades
machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão –
Antes que das coisas celestiais.
Pessoas pertencidas de abandono me comovem:
tanto quanto as soberbas coisas ínfimas."
É um olhar para baixo que eu nasci tendo.
É um olhar para o ser menor, para o
insignificante que eu me criei tendo.
O ser que na sociedade é chutado como uma
barata – cresce de importância para o meu
olho.
Ainda não entendi por que herdei esse olhar
para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades
machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão –
Antes que das coisas celestiais.
Pessoas pertencidas de abandono me comovem:
tanto quanto as soberbas coisas ínfimas."
Manoel de Barros (1916-2014). Poesia Completa. São Paulo: LeYa, 2013, p. 335
Marcadores:
Manoel de Barros,
Poemas,
Poetas brasileiros
Viajar
"Não é necessariamente em casa que melhor encontramos nosso
verdadeiro eu. A mobília insiste que não podemos mudar porque ela não
muda; o ambiente doméstico nos mantém amarrados à pessoa que somos na
vida comum, mas que talvez não sejamos essencialmente."
Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 62
Marcadores:
Alain de Botton,
Psicologia etc
Os "sem noção" das redes sociais
"Os historiadores do futuro terão que se debruçar também sobre aquela
categoria dos "sem noção". Categoria antropológica das mais curiosas,
reúne indivíduos que ouviram o galo
cantar, mas não sabem exatamente onde. Trazem sempre um arsenal de
chavões, frases feitas, palavras de ordem, extraídos do lugar comum
propagado pela mídia. Quando questionados, costumam assumir uma
postura ofensiva, como se as verdades mais universais tivessem sido
feridas. Retrucam com o mesmo repertório de sempre, como se a
repetição pudesse conferir o estatuto de verdade às próprias opiniões.
O mais divertido é ver o susto que tomam quando percebem a fragilidade
dessas opiniões, quando confrontados com dados irrefutáveis... Abandonam
o debate como crianças emburradas que, quando perdem o jogo, atiram o
tabuleiro no chão. Fica evidente que, para os "sem noção", o ato de
pensar, raciocinar e refletir é ainda extremamente inusual e, por isso,
doloroso. Em razão disso, preferem terceirizar, abdicando do
exercício daquilo que, desde Sócrates e Platão, é o que nos constitui
como seres humanos. O resultado é o mal banal de que fala Hannah
Arendt: esse fungo viscoso e rasteiro que se prolifera insidiosamente
pelas redes sociais..."
Adriana Romeiro
quinta-feira, 17 de março de 2016
Olhos imperfeitos
"...não temos uma ideia clara de nós mesmos; nosso reflexo no espelho
reflete apenas o que desejamos ver, ou o que suportamos ver [...]
Tampouco podemos confiar nos outros para nos ver. Porque eles também só
veem o que desejam ver, com os seus olhos imperfeitos."
Joyce Carol Oates (1938-). Levo você até lá (2002). São Paulo: Globo, 2004, p. 281
No oeste
"As imensas distâncias silenciosas do oeste. Onde a morte das pessoas
não tem importância. A morte de espécies inteiras não tem importância. A
única realidade é o Tempo: o drama natural da terra é o Tempo. Na
civilização, essa verdade tão simples é obscurecida. No oeste, não se
pode escapar disso. Todas as coisas estão mudando, afundando, sofrendo
erosão. Na minha vida, um simples dia (uma simples hora!, quando eu
estive doente de amor por Vernor Matheius) era percebido como algo
profundo. No oeste, um simples dia não era nada. Um ano, uma vida
inteira – nada. O piscar de um olho. Tampouco havia qualquer coisa a
dizer da beleza terrivelmente selvagem das formações de rochas
avermelhadas pelas quais passei dirigindo, e assim eu nada diria sobre
elas. A morte do meu pai não faria sombra ali. Tudo ali era tragado numa
superexposição de luz."
Joyce Carol Oates (1938-). Levo você até lá (2002). São Paulo: Globo, 2004, p. 310
Visões de Outsider
Rui segue seu caminho pelo rio da vida. Na superfície, sozinho,
respira serenamente o ar puro da manhã e observa os balões vermelhos
brilhantes dos homens que se arrastam no fundo e se entorpecem de
felicidadezinhas e presunçõezinhas, produzindo bolhas, cheios de
certezas. Rui não tem certeza de nada. Só quer se manter à tona, ver e
sentir claramente, sem turvações. De dentro, os homens olham para cima e
o observam através da água. A imagem que percebem é a
de um louco, um ser vago e monstruoso, que a maioria ignora, mas que um
ou outro ataca quando pode, com mordidas e arranhões. Rui não se
importa. Segue seu caminho, observando os balões e as bolhas, ouvindo o
burburinho das diversões efêmeras, dos negócios e empreendimentos, das
vitórias e derrotas. Não está nem aí. Seu projeto é não ter projeto.
Quer a vida viva, que não é boa nem ruim. Não busca a felicidade, não
quer chegar a lugar nenhum, nem conquistar nada. Quer ser. Por isso
segue assim, indiferente aos balões e às bolhas. Às vezes cruza com
outros de sua espécie – seres estranhos, à tona como ele – e do fundo de
si lhe vem uma paz que é quase uma certeza, uma luz que ele não entende
– e nem quer entender. Trocam impressões, dicas de livros e filmes,
quase todos marginais: visões de outsider... E seguem seus caminhos.
Às vezes Rui mergulha no rio, para ver de perto o que se passa no
fundo, os afazeres e conexões dos que são felizes e querem chegar a
algum lugar, possuir alguma coisa, e buscam e conquistam; mistura-se com
eles, planeja, faz, negocia, corre atrás e, feliz da vida, alcança o
que, sem querer, quer. Porque é assim. É a água turva incontestável,
poderosa, sempre molhada. Ela é o que é: real, verdadeira, única matéria
de vida possível – quem pensa diferente é louco. E ainda por cima dá
aos homens balões vermelhos e brilhantes, que eles fazem subir e descer,
subir e descer... – distraçõezinhas que os tornam felizes e lhes dão a
impressão de serem importantes...
Felizes e importantes...
Quando mergulha e se mistura ao imenso cardume, Rui vê dinheiro em tudo – “Isso aqui dá dinheiro”, diz para si, inebriado de água turva, segurando firme seu balão; mas chega uma hora que se assusta com o que diz. E com o susto acorda, solta o balão e volta para a superfície, ofegante, como se no fundo não pudesse respirar. Ao chegar, enche de novo os pulmões com o ar puro do dia ou da noite, sozinho, sozinho... E ainda cheio de susto, percebe que está de terno e gravata, todo engomado, no estilo padrão que tem que ser. Nunca conseguiu entender... Por que usam isso lá embaixo? Para quê? E arranca a vestimenta que o aprisiona e sufoca, sente o ar fresco selvagem em seu peito nu, respira melhor, sente a vida melhor... E não é feliz nem triste. É.
Flávio Marcus da Silva (1975-)
Felizes e importantes...
Quando mergulha e se mistura ao imenso cardume, Rui vê dinheiro em tudo – “Isso aqui dá dinheiro”, diz para si, inebriado de água turva, segurando firme seu balão; mas chega uma hora que se assusta com o que diz. E com o susto acorda, solta o balão e volta para a superfície, ofegante, como se no fundo não pudesse respirar. Ao chegar, enche de novo os pulmões com o ar puro do dia ou da noite, sozinho, sozinho... E ainda cheio de susto, percebe que está de terno e gravata, todo engomado, no estilo padrão que tem que ser. Nunca conseguiu entender... Por que usam isso lá embaixo? Para quê? E arranca a vestimenta que o aprisiona e sufoca, sente o ar fresco selvagem em seu peito nu, respira melhor, sente a vida melhor... E não é feliz nem triste. É.
Flávio Marcus da Silva (1975-)
Coiote
"Fomos para o jardim e paramos sob uma árvore frondosa e florida de
onde dava para ver Coiote, através dos vidros da estufa. Rosário me
explicou que só pessoas muito especiais, dotadas de talentos e
sensibilidade diferentes das demais é que enlouquecem, é que se tornam
esquizofrênicas na juventude. Estudando as relações familiares doentias
que, segundo os antipsiquiatras, produzem a esquizofrenia, ela estava
chegando à seguinte conclusão: essas pessoas especiais, quando têm seus
talentos e sensibilidade impedidos de se exercitar, por causa dos
diversos tipos de repressão familiar, sobretudo pelas chantagens
afetivas típicas nas relações entre pais e filhos, acabam por se
alienar, desistem de viver suas vidas, tornam-se esquizofrênicas.
E Rosário tentava libertá-los morando com eles, procurando criar para
esses jovens outro tipo de família, protegendo-os das repressões. Estava
observando que, quando conseguia essa liberação, os clientes revelavam e
expressavam talentos geniais para algumas coisas e, sempre, uma quase
total impossibilidade de aceitar a vida burguesa; não apresentavam o
menor pragmatismo (escolha de profissão, perseverança, hábitos sociais
higiênicos, disciplina, método) e sofriam tremenda dificuldade para o
relacionamento afetivo e sexual.
Porém, não se podia mais classificá-los como loucos. A personalidade deles não estava mais dividida, fragmentada. Viviam o real como todo mundo. Apenas não se adaptavam à vida social convencional. Não eram mais doentes e, sim, problemas. E a doutora Rosário afirmava serem eles problemas políticos e éticos, não médicos, o que quer dizer, patológicos. Mas, para completar a tese, precisava encontrar um esquizofrênico sadio.
– Quando eu o vi, senti que Coiote era uma dessas pessoas especiais, que nascera diferente dos outros. Vinha dele, mesmo dormindo, uma energia muito livre, forte, algo que eu só percebia, às vezes, nos meus clientes ao fim do tratamento e, assim mesmo, numa intensidade e quantidade bem menores. O que me causa espanto e muito encanto, claro, é que Coiote revela nitidamente nunca ter sido vitimado pela repressão. A energia que vinha dele parecia pura e direta... louca, mas terrivelmente fascinante e perturbadora. Teoricamente, eu sabia que era possível existirem pessoas assim... esquizofrênicas em estado puro, entende?"
Roberto Freire (1927-2008). Coiote (1986). 4ª ed., Rio de Janeiro: Guanabara, pp. 135-137
Porém, não se podia mais classificá-los como loucos. A personalidade deles não estava mais dividida, fragmentada. Viviam o real como todo mundo. Apenas não se adaptavam à vida social convencional. Não eram mais doentes e, sim, problemas. E a doutora Rosário afirmava serem eles problemas políticos e éticos, não médicos, o que quer dizer, patológicos. Mas, para completar a tese, precisava encontrar um esquizofrênico sadio.
– Quando eu o vi, senti que Coiote era uma dessas pessoas especiais, que nascera diferente dos outros. Vinha dele, mesmo dormindo, uma energia muito livre, forte, algo que eu só percebia, às vezes, nos meus clientes ao fim do tratamento e, assim mesmo, numa intensidade e quantidade bem menores. O que me causa espanto e muito encanto, claro, é que Coiote revela nitidamente nunca ter sido vitimado pela repressão. A energia que vinha dele parecia pura e direta... louca, mas terrivelmente fascinante e perturbadora. Teoricamente, eu sabia que era possível existirem pessoas assim... esquizofrênicas em estado puro, entende?"
Roberto Freire (1927-2008). Coiote (1986). 4ª ed., Rio de Janeiro: Guanabara, pp. 135-137
quarta-feira, 9 de março de 2016
Ser invisible
"Con la visión de la nieve le entran a Andréi Petróvich Petrescov
deseos de evasión que le vienen de muy lejos, de la infancia, de los
días en que deseaba ser invisible. Son sueños muy precisos de
invisibilidad que le acompañan desde que tiene memoria, son anhelos de
ser invisible y moverse entre otros seres que también resulten ser
etéreos.
El ideal: un sueño preciso, piensa Andréi Petróvich
Petrescov. Y acto seguido se pregunta a sí mismo: ¿Y qué mejor ideal que
la invisibilidad, que es mi sueño más preciso? Ahora bien, ¿cómo
hacerse invisible teniendo seis hijos, una fiscalía, una presidencia de
fiestas, una salud quebradiza, un imponente caserón en el centro de la
ciudad?"
Enrique Vila-Matas (1948-). Exploradores del abismo. Barcelona: Anagrama, 2007, p. 127
Marcadores:
Enrique Vila-Matas,
Espanhol
Fora daqui
"Mientras avanza por el largo pasillo del ala occidental del caserón,
siente su soledad con más intensidad pero también con más placer que
nunca. Lo del placer es absolutamente nuevo para él y le parece que está
estrechamente ligado al dolor de avanzar a solas por el pasillo
familiar. Mientras sigue caminando por ese corredor se adentra con tanta
profundidad en el análisis de ese placer novedoso que acaba teniendo la
sensación de entrar en tierra desconocida, en el espacio donde
se encuentran los límites de su capacidad de pensar. Es como si hubiera
llegado al sitio donde ya no puede ir más allá pensando. Siente un
breve vértigo, como si estuviera andando ya por el corredor que conduce
al espacio vacío que hay fuera de toda familia humana, empezando por la
suya propia."
Enrique Vila-Matas (1948-). Exploradores del abismo. Barcelona: Anagrama, 2007, p. 130
Marcadores:
Enrique Vila-Matas,
Espanhol
domingo, 6 de março de 2016
Vernor Matheius
“O HOMEM DORMINDO. Não com o rosto de alguém em repouso, mas
atormentado, angustiado. Sua testa vincada, sua boca torcida numa
careta. Os globos oculares movendo-se por baixo das pálpebras fechadas.
Um estremecimento de sua lustrosa pele escura como uma ondulação na
superfície da água. ‘Se eu pudesse achar que ele é feio, sem atrativos.
Se eu pudesse vê-lo como não-o-amando’. Eu era uma criança aproximando
da chama as pontas dos dedos, pedindo a dor, desafiando a dor, não acreditando na dor. Tentando imaginar a minha vida sem Vernor Matheius no seu centro. Minha vida sem amá-lo.
Um buraco no coração através do qual o frio árido do universo poderia passar, assobiando.
Estranho para mim, que observava Vernor Matheius enquanto ele dormia, nas raras ocasiões em que tinha o privilégio de vê-lo dormir, que houvesse outros, caucasianos, uma categoria de indivíduos à qual teoricamente eu pertencia, que podia observar Vernor Matheius na sua insondável complexidade e pensar simplesmente ‘negro’. E rejeitá-lo, porque ‘negro’. Que loucura!
Cheguei a acreditar que a vida sem questionamentos, a vida que é conduzida sem uma contínua inquirição, e sem dúvidas quanto a todas as discriminações herdadas, os preconceitos, era loucura. Em nossas vidas civilizadas estamos rodeados pela loucura, enquanto nos acreditamos iluminados.”
Joyce Carol Oates (1938-). Levo você até lá (2002). São Paulo: Globo, 2004, p. 206-7
Estranho para mim, que observava Vernor Matheius enquanto ele dormia, nas raras ocasiões em que tinha o privilégio de vê-lo dormir, que houvesse outros, caucasianos, uma categoria de indivíduos à qual teoricamente eu pertencia, que podia observar Vernor Matheius na sua insondável complexidade e pensar simplesmente ‘negro’. E rejeitá-lo, porque ‘negro’. Que loucura!
Cheguei a acreditar que a vida sem questionamentos, a vida que é conduzida sem uma contínua inquirição, e sem dúvidas quanto a todas as discriminações herdadas, os preconceitos, era loucura. Em nossas vidas civilizadas estamos rodeados pela loucura, enquanto nos acreditamos iluminados.”
Joyce Carol Oates (1938-). Levo você até lá (2002). São Paulo: Globo, 2004, p. 206-7
A mosca na garrafa
"Mostrar à mosca como escapar de dentro da garrafa era a esperança da
vida de Ludwig Wittgenstein, mas a verdade é que o ser humano não quer
escapar da garrafa; estamos sempre encantados, subjugados pelo interior
da garrafa; suas paredes de vidro nos acariciam e nos consolam; suas
paredes de vidro são o perímetro de nossa experiência e da nossa
aspiração; a garrafa é a nossa pele, nossa alma; estamos acostumados às
distorções visuais do vidro; não desejaríamos ver claramente, sem a
barreira do vidro; não poderíamos respirar um ar mais fresco; não
poderíamos sobreviver fora da garrafa."
Joyce Carol Oates (1938-). Levo você até lá (2002). São Paulo: Globo, 2004, p. 215
Marcadores:
Joyce Carol Oates,
Psicologia etc
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
Death
"The patient had certainly fought well; a difficult patient, a
demanding patient, but a good fighter. He had been a wealthy business
man whose meticulous plans for his future certainly didn't include dying
at forty two. She recalled the look of wild surprise, almost of
outrage, with which he had greeted the realization that death was
something neither he nor his accountant could fix."
P. D. James (1920-2014). Shroud for a Nightingale (1971). New York: Warner Books, 1996, p. 147
Creative thinking
"Orderly surroundings force us to think in an orderly way. Creative
thinking is unconvencional thinking and it flourishes in a disorderly
environment. [...] a chaotic office or studio is more productive.
Chaotic organisations are more creative than well-organised ones.
Distrust the idea that we should strive for order. Order restricts and
limits us."
Rod Judkins. The art of creative thinking. London: Sceptre, 2015, p. 194
I was happy
"...after a while, I had my face in my hands and was sobbing my guts
out. I don't know how long I carried on like that, but even as the tears
poured out of me, I was happy, happier to be alive than I had ever been
before. It was a happiness beyond consolation, beyond misery, beyond
all the ugliness and beauty of the world. Eventually, the tears subside,
and I went into the bedroom to put on a fresh set of clothes."
Paul Auster (1947-). Oracle Night (2003). New York: Picador, 2004, p. 216
Vida simples
"Acredito piamente na vida simples, livre de certas mordomias e de
estúpidos luxos. Considero o fetiche das grifes uma degenerescência do
ser humano. Abomino certas veleidades da mulherada, que é capaz de
torrar milhões para ficar 'um pouquinho' mais bonita. Também acho que
amor, carinho e respeito não se compram com presentes caros. Nunca
compensei as horas em que ficava fora trabalhando trazendo presentes
para meu filho. Quando voltava para casa, lhe oferecia amor e dedicação
totais. Até hoje, os únicos presentes que ele me pede são livros,
viagens e aulas de violão, coisas que estão na minha lista de
necessidades essenciais."
Claudia Giudice. A vida sem crachá. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2015, p. 92
Assinar:
Postagens (Atom)









