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sábado, 12 de novembro de 2016

alone

there is a black hole in my office
freezing the air.

the whole thing widens
its mouth, screaming,
calling for
darkness around me; my head
pulses,
my beard tickles
my skin.


and i’m old.

i’m dying.

the cold air
pulls me
from my guts,
from my brain,
from my heart

and i go
silently
and peacefully

into

the

abyss.

Flávio Marcus da Silva (1975-)

domingo, 20 de março de 2016

Lei do retorno


Não seja grosseiro e arrogante com o próximo, não humilhe ninguém, pois isso cria uma energia negativa que volta para você um dia, tenha certeza disso, volta mesmo, mais cedo ou mais tarde. Plante coisas boas, gentilezas, compreensão, carinho... Ouça o próximo, seja generoso, que isso volta também, para você, para seus filhos, para a sua vida... Antes de falar e agir por impulso, coloque-se no lugar do outro. Isso se chama compaixão. Tenha compaixão. Tenha paciência. Não se coloque acima de ninguém. Trate o próximo como você quer ser tratado.

De mim para mim e para quem mais quiser e/ou precisar

Sertão é isto:




Sertão é o imprevisível. A morte na tocaia, indiferente, mansa, só esperando. Apeia-se aqui e ali, nas beiras dos rios, nos bambuzais, nas matas, nos ranchos de pousada. Come-se paçoca de carne, pequi, torresmo. Bebe-se cachaça. O destino é seguir sempre, buscando: o de comer, o de beber... viver... Vida solta indomada, e a gente no lombo dela, sem arreio, sem peias. No pelo.

“Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados”, diz Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas. Meu sertão é minha alma: meus rios, pastos e montanhas, minha verdade: vastidão desolada e rica onde sou eu mesmo, sem cabresto: cavalo solto, livre, pronto para morrer, satisfeito. Meu sertão... Ele também me rodeia dos lados, sai de dentro de mim e me protege, que nem escudo, das certezas desse mundão aí fora. É guerra encarniçada, difícil.

Meu sertão me salva do previsível da vida, dos modelos de razão, que fecham a gente em grades, que nem prisão. Porque no sertão, como diz Riobaldo, “o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo!”. É o que eu penso.

Que me julguem, pois. Que me humilhem. Não me importo. Aí fora tudo é parcial. Ninguém vê total, puro. Vê só o que quer, o que pode. Não tem verdade.

Dentro de mim: verdade minha. Só. Sou o que sou, desamarrado, livre. Sei meu valor.

Que me espezinhem, pois. Que me torrem a paciência. Não me importo. Sou bicho do mato. Sou.

Riobaldo falou: “Sertão: é dentro da gente”. É isso.

Flávio Marcus da Silva (1975-)

quinta-feira, 17 de março de 2016

Visões de Outsider



Rui segue seu caminho pelo rio da vida. Na superfície, sozinho, respira serenamente o ar puro da manhã e observa os balões vermelhos brilhantes dos homens que se arrastam no fundo e se entorpecem de felicidadezinhas e presunçõezinhas, produzindo bolhas, cheios de certezas. Rui não tem certeza de nada. Só quer se manter à tona, ver e sentir claramente, sem turvações. De dentro, os homens olham para cima e o observam através da água. A imagem que percebem é a de um louco, um ser vago e monstruoso, que a maioria ignora, mas que um ou outro ataca quando pode, com mordidas e arranhões. Rui não se importa. Segue seu caminho, observando os balões e as bolhas, ouvindo o burburinho das diversões efêmeras, dos negócios e empreendimentos, das vitórias e derrotas. Não está nem aí. Seu projeto é não ter projeto. Quer a vida viva, que não é boa nem ruim. Não busca a felicidade, não quer chegar a lugar nenhum, nem conquistar nada. Quer ser. Por isso segue assim, indiferente aos balões e às bolhas. Às vezes cruza com outros de sua espécie – seres estranhos, à tona como ele – e do fundo de si lhe vem uma paz que é quase uma certeza, uma luz que ele não entende – e nem quer entender. Trocam impressões, dicas de livros e filmes, quase todos marginais: visões de outsider... E seguem seus caminhos. 

Às vezes Rui mergulha no rio, para ver de perto o que se passa no fundo, os afazeres e conexões dos que são felizes e querem chegar a algum lugar, possuir alguma coisa, e buscam e conquistam; mistura-se com eles, planeja, faz, negocia, corre atrás e, feliz da vida, alcança o que, sem querer, quer. Porque é assim. É a água turva incontestável, poderosa, sempre molhada. Ela é o que é: real, verdadeira, única matéria de vida possível – quem pensa diferente é louco. E ainda por cima dá aos homens balões vermelhos e brilhantes, que eles fazem subir e descer, subir e descer... – distraçõezinhas que os tornam felizes e lhes dão a impressão de serem importantes...

Felizes e importantes...

Quando mergulha e se mistura ao imenso cardume, Rui vê dinheiro em tudo – “Isso aqui dá dinheiro”, diz para si, inebriado de água turva, segurando firme seu balão; mas chega uma hora que se assusta com o que diz. E com o susto acorda, solta o balão e volta para a superfície, ofegante, como se no fundo não pudesse respirar. Ao chegar, enche de novo os pulmões com o ar puro do dia ou da noite, sozinho, sozinho... E ainda cheio de susto, percebe que está de terno e gravata, todo engomado, no estilo padrão que tem que ser. Nunca conseguiu entender... Por que usam isso lá embaixo? Para quê? E arranca a vestimenta que o aprisiona e sufoca, sente o ar fresco selvagem em seu peito nu, respira melhor, sente a vida melhor... E não é feliz nem triste. É.

Flávio Marcus da Silva (1975-)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Fragmentos da História de Pará de Minas



Um livro pelo qual tenho muito carinho é "Fragmentos da História de Pará de Minas", resultado de inúmeros encontros aos sábados, no Museu Histórico da cidade, de um grupo de professores e alunos do curso de História da FAPAM - Faculdade de Pará de Minas, mais a funcionária do Museu, Ana Maria Campos, entre 2002 e 2007, para pesquisar no rico acervo documental do município (inventários, testamentos, processos-crime, jornais etc. do século XIX e início do XX). São mais de 60 textos ricamente documentados sobre o nosso passado, em diferentes aspectos: economia, religião, escravidão, educação, criminalidade, cultura. Infelizmente, a obra está esgotada, mas há exemplares disponíveis para empréstimo na Biblioteca da FAPAM, na Biblioteca Pública Municipal de Pará de Minas e em várias bibliotecas de escolas públicas da cidade.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Livros que li em 2014


Literatura Brasileira:

- Água Viva (Clarice Lispector) [releitura]
- A paixão segundo G.H. (Clarice Lispector) [releitura]
- Angústia (Graciliano Ramos)
- S. Bernardo (Graciliano Ramos)
- Nove noites (Bernardo Carvalho)
- Benjamim (Chico Buarque)
- O alienista (Machado de Assis)
- O Grande Mentecapto (Fernando Sabino)
- Amálgama (Rubem Fonseca)
- Fim (Fernanda Torres)
- Passageiro do fim do dia (Rubens Figueiredo)

Literatura em Língua Estrangeira (originais ou traduções em inglês, francês e espanhol):

- The Book of Illusions (Paul Auster)
- L'affaire Saint-Fiacre (Georges Simenon)
- Retrato en sepia (Isabel Allende)
- Leviathan (Paul Auster)
- Le tour d'écrou (Henry James)
- El astillero (Juan Carlos Onetti)
- Imperial Bedrooms (Bret Easton Ellis)
- La colère de Maigret (Georges Simenon)
- Maigret et la jeune morte (Georges Simenon)
- On s'habitue aux fins du monde (Martin Page)

Literatura Estrangeira (traduções em português, literatura portuguesa ou em língua portuguesa):

- Divórcio em Buda (Sándor Márai)
- Notas do subsolo (Dostoievski)
- Hollywood (Charles Bukowski)
- Fahrenheit 451 (Ray Bradbury)
- Van Gogh (David Haziot)
- O barão nas árvores (Italo Calvino)
- Antes de nascer o mundo (Mia Couto)
- Juventude (J. M. Coetzee)
- Viagem ao fim da noite (Louis-Ferdinand Céline)
- Abaixo de zero (Bret Easton Ellis)
- O jogo das contas de vidro (Hermann Hesse)
- A máquina de fazer espanhóis (Valter Hugo Mãe)
- A desobediência civil (Henry David Thoreau)
- Amuleto (Roberto Bolaño)
- A festa da insignificância (Milan Kundera)
- Um sonho americano (Norman Mailer)
- O pintassilgo (Donna Tartt)
- Contos do nascer da Terra (Mia Couto)

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O Cínico (III)


"O cínico diz o que pensa a todos, e até mesmo do modo mais cáustico, sem nenhuma discriminação, quer se trate de um simples homem comum, de um famoso filósofo, de um rei poderoso (...)". 

Giovanni Reale. História da Filosofia. Vol. III. São Paulo: Loyola, 1994. p. 27

Foto: cena da peça "O Cínico", de Rony Morais. Texto: Flávio Marcus da Silva

O Cínico (II)



"(...) procuro o homem que viva segundo a sua mais autêntica essência, procuro o homem que, além de toda exterioridade, de todas as convenções ou de todas as regras impostas pela sociedade, e além do capricho do destino e da fortuna, reencontre a sua natureza genuína, viva em conformidade com ela e assim seja feliz (...)". 

Giovanni Reale. Diógenes e a radicalização do cinismo. In: História da Filosofia. Vol. III. São Paulo: Loyola, 1994. p. 24

Foto: cena da peça "O Cínico", de Rony Morais. Texto: Flávio Marcus da Silva

O Cínico (I)



"(...) certa vez, quando Diógenes tomava sol, aproximou-se o grande Alexandre, o homem mais poderoso da terra, que lhe disse: 'Pede-me o que quiseres'; ao que Diógenes respondeu: 'Afasta-te do meu sol'. Diógenes não sabia o que fazer com o enorme poder de Alexandre; bastava-lhe, para estar contente, o sol, que é a coisa mais natural, à disposição de todos, ou melhor, bastava-lhe a profunda convicção da inutilidade de tal poder, já que a felicidade vem de dentro e não de fora do homem." 

Giovanni Reale/Dario Antiseri. O florescimento do cinismo. In: História da Filosofia. Volume I. 11ª ed. São Paulo: Paulus, 2012. p. 233

Foto: cena da peça "O Cínico", de Rony Morais. Texto: Flávio Marcus da Silva

domingo, 6 de outubro de 2013

Um grito na noite


Ouço um grito no meio da noite. Continuo na cama, sem conseguir dormir. Já estou acostumado com gritos por aqui. Esse parece que foi no andar de baixo, no apartamento da prostituta. Coitada...

Moro no décimo andar de um prédio com mais de mil apartamentos, uma verdadeira cidade. No momento estamos sem prefeito. Há três meses o síndico se jogou do nono andar e se arrebentou todo lá embaixo. No velório, nem abriram o caixão. Até hoje ninguém quis substituí-lo. Tinha trinta e cinco anos, o rapaz. Morava sozinho, sofria de insônia e depressão. Ficava na sacada do seu apartamento fumando a madrugada inteira, no escuro. Dava para vê-lo daqui – ou melhor, a sua sombra – e o arder do fogo na ponta do seu cigarro quando ele tragava – e tragava forte, como se quisesse puxar de volta a vida que lhe escapava pelos poros. Em madrugadas de lua cheia dava para ver o seu rosto. Às vezes ele acariciava a barba com uma das mãos. Às vezes tirava os óculos e chorava.

Uma vez, de madrugada, vendo-o prostrado na sacada, eu quis ligar para ele. Era só abrir a gaveta da escrivaninha, pegar a agenda e procurar seu nome, na letra B. Até hoje está lá: Bruno síndico. Pois é... Eu quis ligar, mas não liguei. Fiquei ali, escondido atrás da cortina, observando-o no seu silêncio, na sua dor – que era como uma aura ao redor do seu corpo, uma energia quase palpável, mais escura que o escuro do seu apartamento apagado, mais fria que o frio da noite. Dava para sentir. Mas eu não liguei. Afinal, ligar para quê? Eu não tinha nada a ver com ele, não o conhecia, a gente mal se cumprimentava. Ao invés de ligar, fiz um café. Eram três da madrugada. Voltei à janela e olhei-o de novo, discretamente. Ele fumava um cigarro atrás do outro, e bebia o que, pelo formato da garrafa, me pareceu ser conhaque, ou uma espécie de licor. 

Uma semana depois ele se matou. Coitado...

E agora um grito. Um grito de mulher no andar de baixo, no apartamento da prostituta. Tenho certeza que é ela. Deve estar apanhando de um cliente, a vagabunda. Se estiver, bem feito para ela.

Droga, não consigo dormir. Daqui a pouco tenho que ir à missa. Não posso faltar de jeito nenhum.

Flávio Marcus da Silva

Imagem: Kahlil Gibran in Rainbows (detalhe), de James R. Eads

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A febre do registro


A foto a seguir mostra uma multidão de turistas fotografando a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, no Museu do Louvre, em Paris. É realmente assustador! O quadro é pequenininho, as pessoas não podem nem chegar muito perto, por questões de segurança, e mesmo assim ele atrai multidões, todos os dias, para fotografá-lo. É a febre do registro, da necessidade de fixar o presente (muito mais que vivenciá-lo) e, acima de tudo, mostrar aos outros a experiência (que, muitas vezes, nem apreciada foi). Segundo o fotógrafo Fábio Seixo, em matéria publicada no blog Hypeness, as pessoas viajam hoje "muito mais para marcar território e dizer que estiveram lá do que para curtir a viagem". Reflexão interessante.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Instantes


Que antes de partir sentemo-nos ao lado do cão dormindo na soleira da porta e deixemo-nos tomar pela ausência de seu olhar e pela imobilidade de suas patas sobre o tapete de retalhos, e sintamos, junto com ele, o mais profundo dos silêncios.

Que antes de partir façamos um café bem forte, com pouco açúcar, e bebendo-o, admiremos pela última vez a orquídea fantasmagórica que aos poucos definha sobre a mesa da sala de jantar, ao lado de Goethe, Poe e Clarice.

Que antes de partir coloquemos em caixas de papelão todos os cadernos de memórias, cartas e fotos antigas, e também os vários livros de contos e crônicas que escrevemos na juventude, quando acreditávamos que a palavra pudesse nos salvar do abismo do esquecimento.

Que antes de partir ouçamos pela última vez os concertos de Brandenburgo, de Bach, e tomemos a última taça de vinho, sentindo a música e a bebida nos elevar o espírito às alturas do insondável.

Que antes de partir possamos viver cada instante de cada momento sem esperar nada da vida, e que o instante seja tudo para nós, no Tempo-Morte que lentamente nos devora.

Que a dor dos que nos amam não nos doa, e não dure; e que de tudo que fomos e fizemos nesta vida reste apenas um cheiro doce de rosas amarelas colhidas com o nascer do sol, ou uma brisa de outono a soprar lembranças sobre um túmulo esquecido, ou um luar prateado numa fria noite de inverno.

Eu e todos os meus eus agora reunidos neste aconchego de instantes sem esperança – nesta sala a que chamamos Liberdade – damo-nos as mãos e aguardamos serenos, pensando:

Que antes de partir saibamos viver o que há de mais precioso no mundo: o que somos.

E que a um sono de paz finalmente nos entreguemos, sem medo, sem dor...

Para sempre.

Flávio Marcus da Silva

sábado, 31 de agosto de 2013

Opção pelo simples



Tem gente que sofre horrores para se enquadrar no modelo burguês de família perfeita: padrão de vida elevado, filhos com inteligência acima da média e sem nenhum desvio de comportamento, pais exemplares em todos os quesitos da perfeição: amorosos, bem sucedidos, respeitados, baluartes da moral e dos bons costumes, etc. Nesse modelo, as falhas, quando surgem, devem ser rapidamente corrigidas, para não comprometerem a harmonia do quadro, a imagem de sucesso e felicidade que se quer passar. 

O meu modelo de família é mais flexível: acolhe melhor as imperfeições, os tropeços, as sinuosidades dos caminhos. O que dá para resolver, a gente resolve. O que não dá, a gente vive. E não se preocupa em mascarar, fingir. Para quê?

Em casa não tenho super-filhos nem super-esposa. Não sou super-pai nem super-marido. Não somos super nada. Somos o que damos certo e o que fracassamos. O que se enquadra e o que foge para as margens. O que aprendemos, sofrendo ou não. O que vivemos, felizes ou não. 

Somos o que somos.

Comparações com outras famílias não nos ferem, porque, quase sempre, o que se compara com o que somos ou temos não representa, para nós, o essencial, o que realmente importa para uma vida plena e feliz, mas o excesso, o desnecessário. Nossa opção foi pelo simples, mas com direito a algumas gracinhas de vez em quando.

Flávio Marcus da Silva

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Ser professor



Ser professor, para mim, é um prazer, mas também um sofrimento. Prazer, quando eu consigo fazer contato com meus alunos, mesmo que em meio a discussões e desacordos (é aquele fervilhar de olhares, aquela troca profícua entre espíritos sintonizados, interessados). É bom demais! Sofrimento, quando não há contato (ou se há, é com um ou outro gato pingado), e, nesses casos, a minha vontade é de ir embora, sumir. Ainda bem que na maioria das vezes há contato. Mas quando não há, o sofrimento é demais. A sensação de fracasso é terrível. Uma vez, quando fui dar uma palestra para adolescentes numa escola particular de Pará de Minas, senti um vazio tão grande que era de assustar (nenhuma conexão!). Eu só estava ali em corpo. Foi um horror! De vez em quando isso acontece... Faz parte. Apesar de..., eu amo ser professor.

Na foto, minha turma de História na UFMG – Formandos 1997. Sou o primeiro em pé, à esquerda (aos 22 anos). Minha opção: ser professor

domingo, 4 de março de 2012

O mistério da caixa-preta

Aproveitei o carnaval para ler. O livro escolhido? “O mistério da caixa-preta e outras histórias” do escritor patafufo Flávio Marcus da Silva. Uma delícia de livro! São contos. Alguns eu já havia lido no site GRNews [na coluna Crônicas de um patafufo]. E achei ótimo relê-los. Aproveitei para ler para minha filha o conto “Muito esquisito” e rimos juntas. É que o conto passa pela fantasia de todo pai e de todo filho. O pai super herói! Eu sempre falei com ela que sou uma onça e ai de quem ousar machucá-la. Não cometeria a indelicadeza de contar a história. Mas já deixei claro o tema.

Flávio é um acendedor de luzes. Sabe como poucos os cômodos da alma. E vai sem dó. Escancara as portas do “Barba Azul”. Deixa todas as feras soltas. Não há como contestá-lo. Ele abre portas e janelas deste submundo que mora em nós e deixa entrar o ar. As nossas mazelas ficam esparramadas pelas páginas e longe de temê-las! O olhar de frente só nos faz entender a nossa pequenez e ao mesmo tempo a nossa grandeza. Não há contradição. Há sim, um humor cortante. (...)

Ana Cláudia SSaldanha


domingo, 22 de janeiro de 2012

Partir

O jovem Pierre acordou às três da madrugada, todo molhado de suor, apesar do frio intenso que invadia o seu quarto pelas frestas da janela em rajadas de vento e neve.

Enrolou-se num pesado casaco de lã e foi alimentar o fogo na lareira.

Às quatro horas ele daria início à limpeza do cadafalso, pois antes mesmo do nascer do sol haveria uma nova execução, seguida de outras trinta, naquele dia sombrio de inverno do ano de 1793, em Paris.

Esfregou vagarosamente as mãos sobre o fogo que ardia e estalava num dos cantos do quarto, pensando nas expressões de espanto, desespero, ódio, angústia, medo e também de indiferença e resignação que tantas vezes ele vira nos rostos dos condenados minutos antes da lâmina da guilhotina cortar fora as suas cabeças. Algumas rodopiavam no ar antes de cair na cesta de vime que ficava no chão, próximo ao patíbulo. Outras, maiores, mais redondas e gordas, caíam como jacas maduras ou pesados queijos Roquefort, sem muita acrobacia, produzindo, ao atingir o fundo da cesta, um baque só um pouco mais audível que o de uma cabeça menor. Outras, porém, devido ao formato do crânio e da face, ou talvez em decorrência de uma contração muscular mais forte no pescoço do condenado, além de rodopiarem várias vezes no ar, saltavam dos troncos com tanta força, que caíam fora da cesta até dois ou três metros adiante, para delírio da multidão que se aglomerava ao redor da guilhotina.

O que pensavam os infelizes naquela hora? O que passava pelas suas cabeças nos segundos que antecediam a decapitação? O que eles sentiam no momento em que a lâmina ceifava a carne e os ossos dos seus pescoços? E no segundo seguinte, quando a cabeça, já separada do tronco, caía ao chão?

“Tenho que ir”, disse para si mesmo o jovem Pierre, enquanto comia um pedaço de queijo e se dirigia à saída, espantando com o pé esquerdo uma enorme ratazana que seguia lentamente pelo corredor.

Lá fora o frio era cortante, mas Pierre estava bem agasalhado; e também aquele não era o seu primeiro inverno como trabalhador pobre nas madrugadas escuras e geladas de Paris.

Quando ele chegou à praça onde se erguia o cadafalso, o vento soprava preguiçosamente alguns pequenos flocos de neve, castigando-lhe a face desprotegida, que ardia e queimava de frio. Havia neve depositada no chão de terra batida, mas não em quantidade suficiente para esconder as marcas de sangue deixadas por algumas cabeças que tinham sido lançadas ao solo, como balas de canhão, no dia anterior. A lâmina encontrava-se também com manchas e respingos escuros de sangue coagulado e congelado, assim como a parte do estrado que ficava próxima ao local de decapitação.

Seu trabalho era limpar tudo aquilo até a chegada da carroça que traria o primeiro condenado do dia, juntamente com uma multidão de curiosos, que se deliciava com cada espetáculo do Terror.

Começou a limpeza pela lâmina, que ele esfregou com força até que todos os resíduos de sangue desaparecessem, tomando muito cuidado para conservar intactos os seus dedos que, mesmo enluvados, tremiam de frio. Depois começou a esfregar o chão do estrado, cujas manchas resistiam mais à escova e ao sabão. Mas foi interrompido pela chegada de um amigo, que subiu a escada sorrindo, meio cambaleante, como se acabasse de sair de uma festa.

"Olá, Pierre", disse o amigo.

“Olá, Henri!”, respondeu Pierre, levantando-se lentamente e afastando com o pé o balde e a escova para o amigo passar.

“Pierre, meu caro... Não tenho muito tempo para você hoje. Aliás, em breve não terei tempo para mais nada. Só vim para te esclarecer uma dúvida que, na última vez que nos encontramos, neste mesmo cadafalso, você começou a me explicar, mas não terminou, porque fomos interrompidos pela chegada da carroça, lembra?”.

“Claro que me lembro!”, disse Pierre empolgado, com os olhos pregados no rosto pálido do amigo, que perguntou: “E então?”.

Em resposta, Pierre reformulou a sua dúvida: “Naquele dia, o que eu queria saber era se a cabeça, separada do tronco, logo após o encontro da lâmina com o pescoço, tem consciência de que ela se encontra decapitada”.

Henri passou a mão direita em seu pescoço nu, seguindo com os dedos o contorno de uma linha avermelhada e grossa que o rodeava como um cordão apertado, e respondeu:

“Como eu mantive os olhos abertos, pude ver uma parte do estrado e também a cesta de vime, que ficava ali embaixo. Ouvi as pessoas gritando e também o assobio da lâmina que descia veloz. Naquele momento, a única imagem que me veio à mente foi a do meu filho de dois anos correndo e brincando no pátio da nossa casa, feliz, enquanto eu lia um livro de M. de Voltaire. Mas quando a lâmina separou minha cabeça do tronco, no exato momento do corte, tanto a imagem reconfortante da memória quanto a da terrível realidade desapareceram, para no mesmo instante darem lugar a um turbilhão de imagens confusas, mas que eu pude identificar como sendo o céu, o sol, as pessoas, os prédios, o chão, tudo em movimento, girando, girando velozmente, até eu ver, numa espécie de fixidez instável – como se eu estivesse bêbado –, os pés de uma enorme multidão”.

“Mas e depois?”, perguntou Pierre, os olhos brilhando de curiosidade.

“Depois, no instante seguinte, eu vi uma luz, uma luz branca que brilhava intensamente à minha frente, e eu estava de pé, com a cabeça de volta ao tronco, sem dor, sem medo, sentindo uma espécie de chamado, um chamado silencioso, vindo da luz. Mas eu não queria entrar. Eu lutei, desvencilhei-me daquele campo de forças com determinação... gritei que não, que não... E aqui estou eu: um morto que vaga pela cidade, e que é visto por alguns, como você, que possuem um dom especial que eu ainda não sei explicar...”.

Henri fez uma breve pausa, enquanto olhava o vazio, e continuou:

“Mas como eu disse, não dá mais para ficar. Vou me entregar. Eles já me procuram, me cercam, tentam uma aproximação... Vou me entregar, Pierre... vou partir, como muitos outros partiram... Partir...”.

Silêncio.

Os dois amigos se olharam, preparando-se para um abraço fraterno, quando, de repente:

“A carroça”, disse Pierre, levantando os olhos em direção à avenida. No segundo seguinte, voltando-se novamente para o amigo:

“Henri...”.

Mas ele já tinha partido.

Flávio Marcus da Silva

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Pombos

Numa ensolarada tarde de sábado, quando voltavam de um passeio pelo bairro, o jovem professor e sua esposa viram dois pombos cinzentos se esfregando no telhado de sua nova residência, bem em cima da garagem. Naquele dia, o jovem casal não percebeu a dimensão hitchcockiana do problema que em breve eles teriam que enfrentar.

Dois pombinhos de namorico no telhado de uma casa. Que problema há nisso?

Concordo que pode até ser agradável receber de vez em quando a visita de uma dessas aves em casa, ou talvez até tê-la como hóspede definitivo em algum canto do telhado, onde ela pode fazer seu ninho e viver em paz com seus filhotes. (Algumas são até muito bonitas, com suas plumagens em tons brilhantes de cinza, preto e verde). Se fosse só isso – e para corrigir o exagero que eu cometi acima ao empregar a palavra “agradável” – eu diria que seria até suportável. Mas quando o substantivo é “pombo’, não há na sintaxe do discurso que lhe serve nenhum espaço para o advérbio “poucos”. Não existe UM pombo em nenhum telhado do mundo. Se há pombos no seu ou em qualquer outro telhado, eles são muitos, dezenas, centenas, e se reproduzem como ratos, e comem e cagam e fedem como ratos.

Parece que isso nem sequer passou pela cabeça dos dois novos moradores do bairro, pois ao entrarem pelo portão e notarem os dois pombinhos num dos cantos do telhado, eles apenas sorriram um para o outro e entraram na casa, como se flutuassem no ar. E quem tivesse testemunhado de perto aqueles sorrisos e soubesse ler o que se escondia por trás deles, certamente entenderia o motivo da pouca importância que os recém-chegados deram à presença ameaçadora de um casal de pombos em seu telhado – uma imagem que, para ambos, naquele momento, significou o prenúncio do que eles próprios planejavam fazer na cama logo em seguida: dois pombinhos recém-casados, sem filhos e com menos de trinta anos, quando chegam em casa e têm como recepção dois outros pombinhos em plena Lua de Mel só podem pensar mesmo em se empoleirarem na cama e mandarem ver.

Por isso não posso afirmar que o motivo deles não terem estranhado aquela presença alada no telhado, nem tampouco olhado um para o outro com aquele olhar característico de “problema à vista”, fosse a ignorância pura e simples. O mais provável é que, naquele momento, ambos tenham sido desviados da razão pelos hormônios do desejo, que, no início de qualquer casamento convencional, permitem até associações de imagens românticas – óbvias demais, temos que concordar –, como aquelas: um casal de pombos namorando no telhado // um ninho de amor à espera de dois jovens apaixonados, encantados com o início do casamento.

Na tarde seguinte, porém, a associação de imagens foi outra. (Se é que podemos chamá-la de associação de imagens. Talvez melhor seria a percepção de uma semelhança macabra, que significava, naquele momento, um aviso).

Mas, como eu ia dizendo, na tarde seguinte, o olhar do jovem professor foi outro – talvez por não estar numa veia romântica em pleno domingo, com três pacotes de provas para corrigir –, quando viu, ao entrar, sete pombos se acariciando ao redor da caixa d’água.

Aqui cabe um parêntese para explicar que a caixa d’água em questão foi projetada por uma renomada arquiteta para ser um elemento de harmonia no conjunto da fachada da casa: uma combinação de curvas e retas que, no entanto, logo perdeu a simetria planejada para se tornar um mostruário de outras peças decorativas (estas inoportunas e invasoras), cujas características principais, como sabemos, são três: voarem, defecarem e federem.

Naquele momento, ao ver sete ratos alados se esfregando ao redor da caixa d’água, o professor resgatou da sua memória cinematográfica a velha cena do filme “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock, em que Tippi Hedren observa, aterrorizada, um bando de corvos empoleirados no parquinho de uma velha escola americana.

Nenhuma outra cena seria mais apropriada. O prognóstico foi perfeito: a caixa d’água do professor se tornou, com o passar dos dias, o ponto de encontro de uma infinidade de pombos, de várias cores e tamanhos, que ali ficavam horas e horas, emporcalhando tudo ao redor. Saíam apenas para seus vôos regulares sobre o bairro ou para alguns passeios estratégicos pelo telhado da casa, onde verificavam os melhores lugares para os seus ninhos.

E como é espantosa a capacidade reprodutiva desses bichinhos! Não preciso nem dizer que as laterais e cantos do telhado do professor se transformaram num verdadeiro pombal.

Nesta altura do texto é importante explicar que o jovem professor não sabia fazer nada que, fora dos planos afetivo e sexual, um marido de verdade deveria saber, pelo menos na opinião do senso comum: consertar pia, desentupir privada, fazer o carro pegar no tranco, trocar lâmpadas fluorescentes (daquelas compridas) e, é claro, subir no telhado para exterminar pombos – com toda a crueldade de macho que o ato exigia, já que não bastava acabar com os pais, era preciso também aniquilar os filhos.

E é mais do que sabido que quando esses pseudo-maridos precisam pagar outro homem para fazer o serviço, eles adiam a decisão o máximo possível, talvez por vergonha ou por avareza (ou as duas coisas juntas), e o problema cresce – no caso dos pombos, de forma assustadoramente rápida.

Mas sejamos justos: o professor tentou pelo menos acabar com as orgias na caixa d’água, jogando traques e naftalina no telhado, o que no final das contas não adiantou grande coisa.

Espingarda de chumbinho? Proibido. Veneno? Proibido. O que resta, então, ao pobre professor? Conviver com os pombos? Enlouquecer? Se ele conseguisse ao menos não ter que se lembrar do filme do Hitchcock toda vez que entrasse pelo portão da garagem, já estaria satisfeito.

Mas eles estão sempre lá, principalmente à tarde, arrulhando, cagando, copulando, fedendo, enfim, vivendo suas vidas, mais ou menos como qualquer outro ser vivo...

Como qualquer um de nós...

Ou quase.

Flávio Marcus da Silva

sábado, 31 de dezembro de 2011

Felizes acima do peso

Na festinha de aniversário da filha de um conhecido advogado na cidade, o jovem professor e sua esposa dividem a mesa com um casal de amigos. Eles não têm filhos, mas vieram assim mesmo, por vir. Para cumprir o social.

O prato com coxinhas, empadas e canapés acaba de chegar.

As crianças brincam no parquinho longe dos pais, que nas dezenas de mesas espalhadas pelo enorme salão colorido conversam ao som de Xuxa e Balão Mágico.

O professor olha para a sua linda e jovem esposa: os cabelos negros, lisos e brilhantes, a pele clara, de uma palidez de conto de fadas – e sente no peito uma dor difícil de explicar, porque não dói: algo como uma nuvem densa e fria, quase gelada, preenchendo os espaços entre o coração e os pulmões, indo até a garganta e voltando, indo e voltando, lentamente.

É a angústia.

A esposa não conversa. Observa os amigos do marido com desprezo. Não sabe o que está fazendo ali, nem por que está casada com um professor pobre e acima do peso. Justo ela, que é tão magra, linda e saudável, e ainda por cima de estirpe nobre, pois seu pai, embora falido, é tataraneto do Marquês de Itamaracá.

Na opinião de algumas colegas de trabalho do jovem professor (professoras como ele no Colégio São Francisco), aquela barriga levemente inflada esticando a camisa de malha tamanho M, que a esposa insiste em fazê-lo vestir (quando está claro para todos que a G é a única possibilidade), é um charme a mais, tornando-o até mais bonito e sexy. Mas sua mulher não concorda com isso de jeito nenhum. Quer vê-lo magro, sem barriga, sem bunda, sem coxa, sem aquele harmonioso preenchimento de gordura que disfarça os ossos salientes do rosto, tornando sua face mais redonda – e mais atraente, na opinião das colegas. Quer vê-lo na balança digital do quarto todos os dias, anotando o peso, calculando o índice de massa corporal e as calorias ingeridas.

A caminhada é um ritual diário sagrado na vida do casal. Pelo menos para a mulher. Porque para ele é uma tortura das mais difíceis de suportar. Ele simplesmente odeia cada segundo passado na avenida, onde caminham todos os dias, faça chuva, sol ou tempestade, morra parente, morra quem quer que seja, acabe o mundo: eles estão lá, no mesmo ritmo, a passos largos, rápidos, em silêncio. Um silêncio pesado e triste que ele preenche conversando baixinho consigo mesmo, preparando aulas, imaginando-se longe dali, em qualquer outro lugar, comendo um pastel, um crepe ou uma torta de limão.

Mas, como eu disse, o pratinho com coxinhas, empadas e canapés acaba de chegar.

Com um olhar fulminante, a esposa faz o marido se lembrar do pacto selado entre eles há duas semanas: nada de gordura, nada de fritura e nada de açúcar. Discretamente ela lhe faz um sinal com a mão, mostrando-lhe a bolsa de couro que ela traz no colo, onde duas barras de cereal se encontram sequinhas, durinhas, com seu gostinho inconfundível de capim seco. Como é sábado, os nomes dos sabores podem variar: trufa e torta de morango (mas no fundo no fundo é tudo a mesma coisa).

O combinado era que, quando a fome apertasse, ele pegaria discretamente uma das barras e se dirigiria ao banheiro para comê-la. Simples e prático.

Mas nesse momento a nuvem densa e fria que cresce em seu peito fica mais pesada e escura (de um cinza quase preto), cheia de ódio e desilusão. E nela surgem raios e relâmpagos, que aos poucos vão quebrando a crosta que serve de fachada para esse casamento infeliz, sacudindo a alma faminta de vida desse jovem quase gordo.

E ele toma uma decisão.

Olha desafiador para a esposa (que o encara com determinação e frieza) e lentamente pega uma coxinha. Não é daquelas coxinhas vagabundas, frias e emborrachadas, que viram uma pasta sem gosto antes mesmo de se misturarem à saliva. Não. É coxinha frita na hora, firme, sequinha por fora, com recheio abundante de frango e catupiry.

Ele dá a primeira mordida. Sente seus dentes quebrarem a fina capa crocante e penetrarem lentamente a maciez tenra da deliciosa massa recheada. E nesse momento de sublime deleite, um pouco de catupiry escorre pelo seu queixo. Ele sorri e passa o dedo no creme, que leva à boca com sofreguidão, sorvendo tudo com um estalar de língua molhada que faz a esposa tremer de indignação e ódio no mais íntimo do seu ser.

Os olhos da mulher estão em chamas.

Mas ele continua.

Um canapé inteiro desaparece na sua boca de uma só vez. E outro. E mais outro. Mais uma coxinha. Uma empada. Um copo de coca-cola bem gelada (da legítima, com açúcar). E outro. E mais outro. E mais uma coxinha. E depois dos parabéns, uma mão cheia de doces, sob o olhar atônito da esposa (que não acredita no que vê). Do bolo ele come dois pedaços, saboreando-os com uma alegria de dar gosto.

O olhar resoluto e frio da esposa diz tudo. Ela se levanta e, sem se despedir de ninguém, desaparece da festa.

Ao chegar em casa, o professor descobre que a mulher foi embora levando todas as suas roupas e objetos pessoais. Dois dias depois ele recebe a visita de um advogado, que lhe explica todos os detalhes do divórcio. Ele aceita tudo sem reclamar.

Finalmente está livre.

O divórcio deixa-o mais pobre e um pouco mais gordo, mas muito mais feliz.

Três semanas depois ele começa a namorar a nova professora de História do Colégio São Francisco, uma mulata linda de morrer, cheia de carne para pegar e de amor para dar. Comem de tudo, reservando as guloseimas mais calóricas para os finais de semana, e exercitam-se na cama quase todas as noites, o que ajuda a manter o excesso de peso num nível aceitável.

Ele adora suas ancas largas, sua bunda redonda e volumosa e até suas celulites.

Formam um casal perfeito...

Acima do peso...

Mas felizes...

Muito felizes.

Flávio Marcus da Silva

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

No avesso de mim

Hoje estou pelo avesso e não é feio.
A solidão está na carne aberta viva e não é feia.
A indiferença em mim pelo que é de aparência e artifício está no meu avesso em grito mudo e não é feia.
Tudo que é parte do que em mim sou eu pelo avesso não é feio.
Nem belo.

- É

Sou eu pelo avesso o avesso de mim,
que sou mais eu ainda do que o não avesso de mim.
Sou eu na mais pura verdade de mim –
na mais pura solidão escura e vibrante e alegre de mim.

Meu coração dói de ser eu pelo avesso e vivo e sofro.
Sozinho eu sofro
e alegre vivo o ser
que pelo avesso me sou e me faz de mim algo
que dentro de mim sou eu.

Sou eu pelo avesso
quando digo Sim
ao que vem do mais fundo
do avesso em mim:
um grito
uma dor no escuro
uma luz:

Liberdade –

O não-medo da morte
O não-medo da vida

No quarto escuro do meu avesso de mim
não há planos nem projetos,
nem vitórias nem derrotas
não há nada que não sou eu –
no escuro iluminado e puro de mim

Sou pura aceitação de mim no avesso

- Sou

E só

Flávio Marcus da Silva

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Subindo na vida

Pulando os degraus de dois em dois, o jovem Teo subia quente o morro da Penha, onde morava com a mãe e três irmãos pequenos. Pai ele não tinha. Nem sabia o nome. De vez em quando aparecia um pretendente, um fodido na vida que se instalava no barraco com sua tralha, mas só ficava uma ou duas semanas – tempo mais do que suficiente para ver o tamanho da encrenca em que se metera e sair, esmurrando portas e mandando mãe e filhos para as putas que os pariram, para nunca mais voltar.

Teo bufava de alegria e cansaço. Parecia um touro satisfeito. Queria chegar logo em casa para contar o dinheiro. Seiscentas pratas limpinhas. Ralou muito para conseguir juntar. Lavou carro, engraxou sapato, vendeu picolé e todo domingo ia para a feira ajudar na barraca de acarajé da negra Eulália, uma baiana que de baiana não tinha nada, nem a roupa, comprada de segunda mão no bazar das putas, no alto do morro.

Teo entrou correndo em casa. A mãe surrava um dos moleques, que gritava sem parar, com a bunda já cheia de vergões vermelhos da vara de marmelo arrancada às pressas no quintal do vizinho (se é que podemos chamar de quintal dois metros quadrados de terra encharcada de esgoto fedendo a merda vinte e quatro horas por dia).

Teo nem ligou. Entrou no quartinho que dividia com os irmãos, e de dentro de um buraco que ele mesmo havia cavado no chão de terra batida, atrás do guarda-roupa, tirou um saco plástico todo amarrotado. Seu dinheiro estava lá, dobradinho. Cinco notas de cem. Às quais, satisfeito, ele acrescentou outra novinha. Quem trocava para ele era o dono de uma padaria no centro. Moedas e notas miúdas por uma nota de cem. Levou quase dois anos para conseguir as seis. Teria conseguido em um ano se não tivesse que ajudar nas despesas de casa. Mas...

Mas ali estavam elas. E ele sentia o seu cheiro, tocava-as levemente com os lábios, acariciava-as, os olhos brilhando de contentamento.

E com a mesma alegria com que subira minutos antes, ele desceu, correndo, pulando de dois em dois, de três em três, os degraus imundos e escalavrados do morro da Penha. Nem sentia que estava no morro. Parecia nas nuvens. E em menos de meia hora já estava na loja experimentando o tênis.

Era o seu sonho aquele tênis. Todos os dias ele passava ali para se certificar de que o preço continuava 599 reais. Respirava aliviado quando via que sim, pois tivera que adiar a compra duas vezes em um ano por causa dos aumentos. Quando o Ronaldinho começou a aparecer na televisão usando-o, o preço pulou de 470 para 550 reais em um dia. Foi um choque para Teo. “Mas é o Ronaldinho”, pensara ele na época, triste pelos meses a mais de ralação que aquilo significaria, mas ao mesmo tempo feliz pelo fato de alguém tão importante para o Brasil colocar nos pés (e que pés!) o objeto de seus sonhos.

Ficou quarenta minutos se olhando no espelho da loja, maravilhado. (É que no barraco não tinha espelho de corpo inteiro e ele queria aproveitar). Enquanto isso o dono da loja mantinha o dedo encostado no botão do alarme, pronto para apertá-lo a qualquer momento, se precisasse.

Mas não foi preciso. Teo pagou pelo par de tênis (em dinheiro e à vista) e foi embora, feliz da vida.

Voltou para o barraco, sentindo-se um rei, o dono do pedaço. Na subida reparou os olhares de respeito e admiração quando cruzava com amigos e conhecidos. Estava muito feliz.

Ele era importante.

Ele era alguém...

Flávio Marcus da Silva