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sábado, 12 de novembro de 2016

Não me abraces



"Existe sim, eu juro por Pã e por Dioniso,
um fogo escondido debaixo das cinzas;
desconfio de mim. Não me abraces; muitas vezes,
rio calmo rói o muro pela base."


Calímaco, XII: 139

Photo: © Kyle • Thompson

não há alívio


"não há alívio, só gurus e deuses auto-
nomeados e camelôs.
quanto mais as pessoas dizem, tanto menos há
para dizer. 
até mesmo os melhores livros são serragem seca. [...]



tamanha tristeza: tudo tentando
abrir-se em
flor.
todo dia deveria ser um milagre em vez de
uma maquinação."


Charles Bukowski (1920-1994). As pessoas parecem flores finalmente. Porto Alegre: L&PM, 2015, p. 223

sono profundo


"a morte nem sempre chega como uma bomba
ou uma puta gorda
às vezes a morte rasteja polegada a polegada
como uma pequena aranha rastejando na sua barriga
enquanto você
dorme."


Charles Bukowski (1920-1994). As pessoas parecem flores finalmente. Porto Alegre: L&PM, 2015, p. 245

Hemingway


"em seu derradeiro dia
Hemingway acenou para
alguns garotos indo para a escola,
eles acenaram de volta, e ele nunca tocou o suco de laranja
à sua frente;
então ele enfiou aquela arma em sua boca como um
canudinho
e apertou o gatilho
e um dos poucos imortais da América
era sangue e miolos pelas paredes e pelo
forro da sala"


Charles Bukowski (1920-1994). As pessoas parecem flores finalmente. Porto Alegre: L&PM, 2015, p. 238

Foto: Ernest Hemingway (1899-1961)

morrer

"aqui estou eu sentado sozinho
feito um frouxo

ouvindo Chopin

o vento noturno soprando
através das
cortinas rasgadas.

hoje ganhei 546 dólares nas corridas mas
agora estou pensando que
morrer é uma coisa tão
estranha e ordinária.

só espero nunca precisar
de uma dentadura postiça antes de
ir embora."

Charles Bukowski (1920-1994). As pessoas parecem flores finalmente. Porto Alegre: L&PM, 2015, p. 271

sobrevivi


"minha própria 
história:
este modo terrível de
viver.



mas sinto que agora agarrei
a vitória
sobre toda essa inútil
negra e furiosa
histeria.



sobrevivi a tudo
isso e
podem me dar porradas com suas
vidas raivosas e
me queimar em meu
leito de morte.



mas de algum modo
encontrei uma paz
perpétua
que nunca conseguirão
tirar 
de mim."


Charles Bukowski (1920-1994). As pessoas parecem flores finalmente. Porto Alegre: L&PM, 2015, p. 280

quero morrer depressa


"Silêncio depressa! Tragam dos mares fundos silêncios
Tragam do ar mais distante silêncio!
Tragam silêncio do centro da terra depressa!
Tragam do inferno o silêncio dos condenados que descansam.
Tragam do céu o silêncio das beatitudes
O silêncio do voo dos anjos pelos tempos sem espaço, tragam depressa
O silêncio dos mortos recém-nascidos, tragam depressa.
Tragam o silêncio dos corpos, dos bêbados dormindo
Tragam o silêncio dos loucos
O silêncio dos mundos, dos tempos.
O silêncio do que ainda vai se realizar, tragam depressa
Tragam por Deus, que eu quero morrer depressa!"


Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Antologia Poética. Rio de Janeiro: Leitura, 1962, p. 44

alone

there is a black hole in my office
freezing the air.

the whole thing widens
its mouth, screaming,
calling for
darkness around me; my head
pulses,
my beard tickles
my skin.


and i’m old.

i’m dying.

the cold air
pulls me
from my guts,
from my brain,
from my heart

and i go
silently
and peacefully

into

the

abyss.

Flávio Marcus da Silva (1975-)

seu novo livro


"eu jogo seu novo livro
na cesta de papéis.
eu não o quero
por perto.



agora ele é um
escritor de sucesso
o que significa 
que seu trabalho
não deixa mais
ninguém
zangado
enojado
ou triste.



nunca faz
ninguém 
rir.



nunca faz
ninguém
ter aquele arrepio de maravilhamento
ao ler
aquilo."


Charles Bukowski (1920-1994). As pessoas parecem flores finalmente. Porto Alegre: L&PM, 2015, p. 276

Tenho de brigar

"Vou brigar contigo.
Vou apanhar e vou sangrar
mas vou brigar.
Tenho de lutar contigo, tenho
de gritar bem alto nomes feios
que sobem à garganta.
Eles crescerão no ar da rua,
subirão às sacadas dos sobrados
e todos ouvirão.
Fui eu quem disse. O magricela. O triste.


Tenho de brigar,
rolar no chão contigo, intimamente
abraçados na raiva. Tenho de
a pontapé ferir o teu escroto.
Pouco importa me batas pelo dobro.
Pouco importa me arrases. Meu irmão
não chamo a socorrer-me. Quero ser
o perdedor que ganha de seu medo."

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Boitempo (1968, 1973, 1979). In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 982

domingo, 23 de outubro de 2016

BUK


"o mundo tem estado mais escuro que um apagão
dentro de um cubículo cheio de morcegos famintos"
------------
"e eu cerrei meus punhos
bem fundo em meus
bolsos, agarrei a escuridão
e segui em frente."
------------
"e nossos poucos bons momentos serão raros
porque temos um senso crítico
e não somos fáceis de enganar com risadas"
------------
"e em todo lugar todas as coisas iam correndo,
cruéis e não cruéis, aranhas e vagabundos
e soldados e jogadores e loucos"

Charles Bukowski (1920-1994). As pessoas parecem flores finalmente. Porto Alegre: L&PM, 2015

Com o resto do lixo


"o desperdício de palavras
continua com uma espantosa
persistência
enquanto o garçom passa correndo com a bandeja
lotada
para todos aqueles garotos espertos que riem
de nós.
pouco importa. pouco importa.
enquanto os cadarços dos seus sapatos estiverem
amarrados e
ninguém chegar perto demais
por trás.
só ser capaz de lixar-se e
ser indiferente já é vitória
o bastante.
essas mentes constipadas que buscam
sentidos mais amplos
serão despachadas com o resto
do lixo.
para fora.
se houver luz
ela o 
encontrará."


Charles Bukowski (1920-1994). As pessoas parecem flores finalmente. Porto Alegre: L&PM, 2015, p. 77

Tudo certo com o mundo


"ele acreditava que tudo estava
certo com o mundo.
e não dava para reclamar dele:
era um professor de carreira que nunca havia
estado na cadeia ou em um puteiro;
cujo carro usado nunca morreu
na autoestrada; que
nunca havia precisado de mais do que
três drinques durante a mais louca
das suas noitadas;
que nunca havia sido fichado, execrado ou
levado porrada;
que nunca havia sido mordido por um cachorro;
que recebia regularmente cartas cordiais de Gary
Snyder, e cujo rosto era
amável, sem marcas e
carinhoso. finalmente, 
sua mulher nunca o havia traído
muito menos sua sorte."


Charles Bukowski (1920-1994). As pessoas parecem flores finalmente. Porto Alegre: L&PM, 2015, p. 81

As pessoas parecem flores finalmente


"ele a viu em uma loja de bebidas
e isso mexeu com ele
mexeu mexeu mexeu
igual a carne de tubarão ainda viva à luz do sol remexendo-se."
-----------------
"meus sapatos no armário como lírios
esquecidos,
meus sapatos agora sós
como cães andando por ruas mortas,
e eu recebi uma carta de uma
mulher em um hospital,
amor, ela diz, amor,
mas eu não lhe respondo,
eu não me entendo,
ela me envia fotografias
dela mesma
tiradas do hospital
e eu me lembro dela em outras
noites,
não morrendo,
seus sapatos com saltos como punhais
ao lado dos meus
no armário;
como aquelas noites fortes
mentiram por nós,
como aquelas noites ficaram quietas
enfim,
meus sapatos agora sós no armário,
sobrevoados por casacos e
camisas amassadas,
e eu olho para a abertura deixada
pela porta
e as paredes, e não
escrevo
uma resposta."

-----------------
"eu era tão amarelo de covardia quanto o sol talvez
mas também tão quente e tão verdadeiro quanto o sol
em algum lugar lá dentro de mim
mas nunca ninguém acharia esse lugar.
eu certamente acabaria para sempre chorando os blues em
uma
xícara de café em um parque para velhos jogarem
xadrez ou algum outro jogo bobo.
merda! merda!"

-----------------
"eu podia entender a lua inclinando-se sobre um bar no
beco
ao pedir um drinque, mas eu não podia entender nada
sobre mim mesmo
eu estava assassinado, eu era um merda, e era uma
matilha de cães,
eu era papoulas ceifadas por rajadas de metralhadora
eu era uma vespa presa em uma teia de aranha
eu era cada vez menos e menos e ainda assim tentando
alcançar
algo"


Charles Bukowski (1920-1994). As pessoas parecem flores finalmente. Porto Alegre: L&PM, 2015

domingo, 16 de outubro de 2016

pois eles tinham coisas para dizer

"os canários estavam lá, e o limoeiro
e a mulher velha com verrugas;
e eu estava lá, uma criança
e eu tocava as teclas do piano
enquanto eles conversavam –
mas não tão alto
pois tinham coisas para dizer
todos os três;
e eu os espiava a cobrirem os canários à noite
com sacos:
'assim eles conseguem dormir, querido.'


eu toquei o piano bem baixo
uma nota por vez,
os canários sob seus sacos,
e havia pimenteiras,
pimenteiras roçando o telhado feito chuva
e pendendo de fora da janela
como chuva verde,
e eles conversavam, os três
sentados em um semicírculo na noite quente,
e as teclas eram pretas e brancas
e respondiam a meus dedos
como a magia secreta
de um mundo adulto à espera;
e agora eles se foram, todos os três
e eu estou velho:
pés de piratas pisotearam
os assoalhos bem varridos
da minha alma,
e os canários não cantam mais."

Charles Bukowski (1920-1994). As pessoas parecem flores finalmente. Porto Alegre: L&PM, 2015, p. 13

As pessoas parecem flores finalmente


"que cantoria prossegue nas
ruas –
as pessoas parecem flores
finalmente

a polícia guardou suas
insígnias
o exército rasgou seus uniformes e
destroçou suas armas. não há mais necessidade de
cadeias ou jornais ou hospícios ou
trancas nas portas.

uma mulher vem correndo até minha porta
ME COMA! ME AME!
ela grita.

ela é bela como um charuto
depois de jantar um bom filé. eu
a possuo.

mas depois de sua partida
eu me sinto esquisito
tranco a porta
vou à escrivaninha e pego a pistola
da gaveta. ela tem seu próprio senso de
amor.
AMOR! AMOR! AMOR! a multidão canta nas
ruas.

eu atiro pela janela
o vidro corta meu rosto e
braços. acerto um garoto de 12 anos
um velho de barba
e uma adorável moça algo parecida a uma
violeta.

a multidão para de cantar para
me olhar.
estou parado na janela quebrada
o sangue em meu
rosto.

'isso', eu grito para eles, 'é em defesa da
pobreza de si mesmo e em defesa da liberdade
de não amar!'

'deixe-o em paz', alguém diz,
'ele está louco, viveu uma vida ruim por
tempo demais.'

entro na cozinha
sento-me e encho um
copo de uísque.

resolvo que a única definição da
Verdade (que muda)
é ela ser a única coisa ou ato ou
crença que a multidão
rejeita.

estão socando minha
porta. é a mesma mulher de novo.
ela é tão bela como encontrar um
sapo verde e gordo no
jardim.

eu tenho 2 balas restantes e
uso
ambas.

nada no ar a não ser
nuvens. nada no ar a não ser
chuva. a vida de cada homem é curta demais para
encontrar sentido e
todos os livros quase um
desperdício.

sento e os ouço
a cantar.
sento e os
ouço."

Charles Bukowski (1920-1994). As pessoas parecem flores finalmente. Porto Alegre: L&PM, 2015, p. 25, 26 e 27

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Inveja

"O que fazer da inveja
desabrida
de repente
desferida?
O que fazer da inveja
malgerida
ferida entreaberta
no olho voluptuoso
do invejoso
que quanto mais cobiça
a pele alheia
mais se sente leproso?


Sou pobre de tudo,
de espírito muito.
Cobiçar o que em mim?
A paisagem que persigo?
A esperança que rumino?
O meu trabalho no eito?
O leite da mulher amada
na palha onde me deito?

Não mereço a glória
de vossa fúria.
Advirto, é desperdício.
Deve haver para vossa inveja
melhor alvo e exercício.

De qualquer jeito,
como quem não quer nada,
saio meio de esguelha
pondo um dente de alho na janela
e um ramo de arruda na orelha."

Affonso Romano de Sant'Anna (1937-). Poesia Reunida (1965-1999). Volume 2. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 139

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Suicídio


"O suicídio
não é algo pessoal.
Todo suicida
nos leva
ao nosso funeral.

O suicida
não é só cruel consigo.
É cruel, como cruel
só sabe ser
– o melhor amigo.

O suicida
é aquele que pensa
matar seu corpo a sós.
Mas o seu eu se enforca
num cordão de muitos nós.

O suicida
não se mata em nossas costas.
Mata-se em nossa frente,
usando seu próprio corpo
dentro de nossa mente.
[...]
Mais que o espectador
que saiu no entreato,
o suicida
é um ator
que questionou o teatro.
[...]
O suicida, enfim,
é um poeta perverso
e original
que interrompeu seu poema
antes do ponto final."

Affonso Romano de Sant'Anna (1937-). Poesia Reunida (1965-1999). Volume 2. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 45-46

sábado, 30 de julho de 2016

Cardenal

"Eu caminhava, suado e com o cabelo grudado
na cara
quando vi Ernesto Cardenal que vinha
em direção contrária
e à guisa de saudação eu lhe disse:
padre, no Reino dos Céus
que é o comunismo,
tem lugar para os homossexuais?
Sim, ele disse.
E para os masturbadores impenitentes?
Os escravos do sexo?
Os brincalhões do sexo?
Os sado-masoquistas, as putas, os fanáticos
dos inimigos,
os que não podem mais, os que de verdade
já não podem mais?
E Cardenal disse que sim
E ergui os olhos
E as nuvens pareciam
sorrisos de gato levemente róseos
e as árvores que despontavam a colina
(a colina que havemos de subir)
agitavam os galhos.
As árvores selvagens, como se dissessem
um dia, mais cedo do que tarde, há de vir
a meus braços mirrados, a meus braços ossudos,
a meus braços frios. Um frio vegetal
que te arrepiará os cabelos."


Roberto Bolaño (1953-2003). Poesia de Roberto Bolaño. Organizado por Letras in.verso e re.verso, p. 9

sábado, 11 de junho de 2016

Sofre-se

"Domingo escuro, sensação de desterro, a vida difícil.
Sofre-se muito e cada vez mais,
também porque as vigílias são mais longas.
Ainda que durmas, deves-te levantar e cuidar da vida,
sujeitar-te à pouca destreza de um corpo
que não aprende as sutilezas da alma
e a todo instante perturba-te o repouso.
Precisas comer, limpar-te, mostrar-te apresentável
a quem chama na porta, salvar-te com compostura
do teu destino metabólico,
dormir na própria cruz sem sobressaltos,
como um bebê brincando com suas fezes.
Ó meu Deus, dizer o que eu disse
e não ter dúvidas de que escrevi um poema
é saber na carne: verdadeiramente
dar-Vos graças é meu dever e salvação."


Adélia Prado (1935-). A criatura. In: Miserere. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 51