Mostrando postagens com marcador Augusto Frederico Schmidt. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Augusto Frederico Schmidt. Mostrar todas as postagens

sábado, 12 de novembro de 2016

quero morrer depressa


"Silêncio depressa! Tragam dos mares fundos silêncios
Tragam do ar mais distante silêncio!
Tragam silêncio do centro da terra depressa!
Tragam do inferno o silêncio dos condenados que descansam.
Tragam do céu o silêncio das beatitudes
O silêncio do voo dos anjos pelos tempos sem espaço, tragam depressa
O silêncio dos mortos recém-nascidos, tragam depressa.
Tragam o silêncio dos corpos, dos bêbados dormindo
Tragam o silêncio dos loucos
O silêncio dos mundos, dos tempos.
O silêncio do que ainda vai se realizar, tragam depressa
Tragam por Deus, que eu quero morrer depressa!"


Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Antologia Poética. Rio de Janeiro: Leitura, 1962, p. 44

domingo, 6 de outubro de 2013

Se eu morrer primeiro



"Se eu morrer primeiro
E me vires gelado, de mãos cruzadas, 
Cheio de flores no caixão –
Tu me olharás horrorizada.
Mas sobre a imagem sepultada
O esquecimento, em breve tempo,
Chegará.

E eu não serei mais que um instante,
Muito distante
Vago e apagado
Do teu passado
E nada mais.

Se morreres, porém, antes de mim,
E gelada eu te olhar
Cheia de flores no caixão –
Tanta dor conterá meu coração
Que, se Deus não quiser também levar-me,
Serei apenas uma sombra errante
Buscando sempre a tua sombra
E nada mais!"

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Nova antologia poética. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964, p. 23-4

infinita igualdade



"De repente, sem que houvesse nenhum motivo conhecido,
No meio da multidão diferente e indiferente
Me deu uma vontade enorme de morrer...

Não sei se foi a brusca solidão em que me encontrei,
Não sei se foi uma sensação de pequenez que sinto às vezes –
Mas desejei absurdamente morrer.

E foi a primeira vez que olhei para a morte sem nenhum terror,
Com uma certa ternura até.

Eu estava sozinho na rua.
Sozinho e desconhecido,
Sempre tão isolado assim.

Os homens passavam sorrindo,
As mulheres sorriam no braço dos homens,
E havia um perfeito equilíbrio na multidão.
E então principiei a pensar na minha vida.

Na minha vida para sempre desequilibrada
E nesta realidade incompreensível e triste de ser poeta.
E desejei desaparecer, quem sabe, por perceber que sobrava.

A morte foi o único remédio que encontrei,
Porque me faria não contar mais.

E naquele momento eu teria fechado os olhos perfeitamente feliz

E perfeitamente feliz me teria perdido na infinita igualdade..."

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Nova antologia poética. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964, p. 27-8

Desejo



"Desejo de não ser herói e nem poeta
Desejo de não ser senão feliz e calmo.
Desejo das volúpias castas e sem sombra
Dos fins de jantar nas casas burguesas.

Desejo manso das moringas de água fresca
Das flores eternas nos vasos verdes.
Desejo dos filhos crescendo vivos e surpreendentes
Desejo de vestidos de linho azul da esposa amada.

Oh! não as tentaculares investidas para o alto
E o tédio das cidades sacrificadas.
Desejo de integração no cotidiano.
Desejo de passar em silêncio, sem brilho
E desaparecer em Deus – com pouco sofrimento
E com a ternura dos que a vida não maltratou."

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Nova antologia poética. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964, p. 69

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Vou para o outono


"Vou para o outono, e - ai de mim! - já ouço
o vento a desgrenhar as pobres árvores.
Vou para o outono, para o doce outono,
E em breve o inverno é que virá, e o escuro.

Que fiz, Deus meu, de tudo o que me deste,
Da alegria, das cores e da flama
Que desfrutei na clara mocidade
E tão vil dispersei ingloriamente?

Vou para o outono, para o instante triste,
Para esse tempo que precede ao frio.
Vou para o outono, e sinto a alma vazia...

Ah! Não guardei, do meu verão perdido,
Esse calor, que mesmo à própria morte
Olhar nos faz sem medos nem cuidados."

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Sonetos. Rio de Janeiro: Rio Gráfica e Editora, 1965, p. 125

Impregnado de morte vou vivendo


"Impregnado de morte vou vivendo.
E enquanto os dias, claros e felizes,
Ou escuros e tristes, vão correndo,
Vou na morte confiando, e nela apenas.

O perfume da morte é o meu perfume:
Sinto-o no coração do grande dia,
Sinto-o também na densa treva enorme,
Sinto-o em tudo o que vive e que palpita.

Só a ideia da morte me consola,
Só a imagem da morte me sossega,
Só a esperança da morte luz em mim.

Só, ao meu grande anseio, a morte aquieta,
Noiva sempre esperada, noiva eterna,
Com quem quero dormir sem despertar."

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Sonetos. Rio de Janeiro: Rio Gráfica e Editora, 1965, p. 131

A noite é a fonte de tudo


"Chegou a noite primeiro,
Pois no princípio era noite.
Depois, no seio noturno,
É que o dia se criou.

Chegou a noite primeiro,
Antes do tempo reinava,
Depois é que a luz nasceu
Da noturna plenitude.

Do seio da noite fresca
Como flor, a aurora veio
E, aos poucos, a luz jorrou.

A noite é a fonte de tudo,
Fonte do próprio desejo
Onde a vida se gerou."

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Sonetos. Rio de Janeiro: Rio Gráfica e Editora, 1965, p. 135

No coração do oceano impenetrável


"Depois de longa viagem, de repente
o porto, as tristes luzes a distância.
Depois do mar, tão íntimo, de novo
A terra, o mundo, as ambições mesquinhas.

Depois dos ares puros do mar alto,
O desconsolo de voltar a terra,
Cheia de perigos e traiçoeiros
Enganos e ilusões; de novo o mundo!

Ah! por que não fiquei na sepultura
De frias e fundas águas solitárias
Pelas luzes do céu, tão-só, velado?

Ah! por que não deixei meu ser mesquinho
Descer à pátria nunca descoberta
No coração do oceano impenetrável?"

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Sonetos. Rio de Janeiro: Rio Gráfica e Editora, 1965, p. 121

águas quietas e escuras


"As águas quietas e escuras guardavam no seio imóvel
a cor dos grandes céus com suas nuvens,
E guardavam um silêncio como não vi maior:
Um silêncio maduro, de coisas se transformando;

Um silêncio fecundo, de natureza crescendo;
Um silêncio inicial, de antes do mundo possuir
Suas formas, o seu ritmo, o seu equilíbrio numeroso;
Um silêncio prestes a se partir num grande grito.

Em torno das águas escuras estava a floresta tropical.
Com a sua exasperada palpitação e o seu denso mistério,
As árvores pareciam esperar um acontecimento inesperado.

Poderíamos, no ermo, sentir os primeiros passos da Noite,
Que vinha com os seus grandes pés escuros
Quebrando frágeis galhos e machucando flores e plantas silvestres."

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Sonetos. Rio de Janeiro: Rio Gráfica e Editora, 1965, p. 66

naufrágios


“Senhor, que inquieta e triste natureza,
Que alma é esta, a alma que me deste?
Foi um capricho teu, ou foi o acaso
Que assim me fez, que me formou assim?

Só hoje estou consciente do mistério
E dos perigos do meu pobre ser.
E é por isso que vivo e desespero
E desespero e vivo, e sofro tanto.

Senhor, por que tão frágil me fizeste?
Por que me abandonaste nestes mares,
À mercê dos tufões e das tormentas?

Por que, Senhor, nas águas me deixaste,
Lenho tão fraco pra tão rudes ondas
Barco feito tão-só para os naufrágios?”

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Sonetos. Rio de Janeiro: Rio Gráfica e Editora, 1965, p. 286

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Morrer


"Morrer, Senhor, de súbito, não quero!
Morrer como quem parte lentamente
Vendo o mundo perder-se pouco a pouco
E com o mundo as imagens da memória.

Morrer sabendo próxima e implacável
A hora de deixar o doce efêmero.
Morrer o olhar voltado para a altura
Para a Face de Deus, ardente e pura.

Morrer como quem vai se despedindo
A fixar as paisagens mais antigas
E os seres mais longínquos, já partidos.

Morrer levando a vida já vivida!
Morrer maduro, e não qual fruto verde
Por violência dos galhos arrancado."

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). In: Antologia Poética. Rio de Janeiro: Leitura, 1962. p. 122

tudo é efêmero


"Nada mais tenho de todas as minhas riquezas.
Mas o que ainda trago comigo não tem preço.
Possuo o conhecimento de que tudo é efêmero
Mas que o amor, efêmero também, ilumina e enfrenta a
[morte.

Possuo o conhecimento de que as honrarias e o poder
Não são mais que cinza e menos que a nuvem
Que mancha o leve céu matinal.
Possuo a experiência do sofrimento e da glória
E sei que as feridas mais fundas de hoje
São as pequenas cicatrizes de amanhã.
Sei que a noite se sucede ao dia
E que o dia é ilusório e a noite verdadeira.
Sei que os homens podem ser como chacais
Mas que há um poço de doçura
Em algumas almas e que isso exalta a vida."
...

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). In: Antologia Poética. Rio de Janeiro: Leitura, 1962. p. 135

Desejo de passar em silêncio


"Desejo de não ser nem herói e nem poeta
Desejo de não ser senão feliz e calmo.
Desejo das volúpias castas e sem sombra
Dos fins de jantar nas casas burguesas.

Desejo manso das moringas de água fresca
Das flores eternas nos vasos verdes.
Desejo dos filhos crescendo vivos e surpreendentes
Desejo de vestidos de linho azul da esposa amada.

Oh! não as tentaculares investidas para o alto
E o tédio das cidades sacrificadas.
Desejo de integração no cotidiano.

Desejo de passar em silêncio, sem brilho
E desaparecer em Deus - com pouco sofrimento
E com a ternura dos que a vida não maltratou."

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). In: Antologia Poética. Rio de Janeiro: Leitura, 1962. p. 45

Foto: da esquerda para a direita, Murilo Mendes (1901-1975), Anibal Machado (1894-1964), Jayme Ovalle (1894-1955), Manuel Bandeira (1886-1968) e Augusto Frederico Schmidt (1906-1965)

Beleza


"Quando o tempo desfaz as formas perecíveis,
Para onde vai, qual o destino da Beleza,
Que é a expressão da própria eternidade?

Na hora da libertação das formas,
Qual o destino da Beleza, que as formas puras realizaram?

Qual o destino do que é eterno,
Mas está configurado no efêmero,
No momento inexorável da purificação?

A Beleza não morre.
Não importa que o seu caminho
Seja visitado pela destruição, que é a própria lei
E pelas sombras.

A Beleza não morre.
Deus recolhe as flores que o tempo desfolha;
Deus recolhe a música das fisionomias que o tempo
[escurece e silencia;
Deus recolhe o que venceu as substâncias frágeis
E realizou o milagre do Espírito Impassível
No movimento e na matéria.
Deus recolhe a Beleza como o corpo absorve a sua sombra
Na hora em que a luz realiza o seu destino de unidade e
[pureza."

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). In: Antologia Poética. Rio de Janeiro: Leitura, 1962. p. 60

coisas perdidas


"As colegiais, as raparigas em flor,
Estão escondidas com os seios intatos no fundo da terra,
No fundo da terra onde dormem também
Os grandes do mundo, os bispos vestidos com as sérias 
[roupagens,
E as freiras, e as velhas, e os pobres anônimos
Que vão para o sono sem têrmo
Com os corpos desnudos envoltos em pobres lençóis.

O fundo da terra e o fundo do mar
São tão misteriosos, tão cheios de estranhos segredos,
De coisas perdidas..."
...

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). In: Antologia Poética. Rio de Janeiro: Leitura, 1962. p. 102

Não morrer


"Não morrer - mas ser colhido pela morte.
Ser colhido, porque maduro, para o silêncio.
Não morrer - mas pender para a morte,
Como as frutas que, tocadas pelo tempo,
Se inclinam para o úmido chão.

Não morrer - mas estar com a morte ampla e serena
Nos olhos, no coração e no corpo e na alma.
Estar para o Fim, maduro como as amoras de vez,
Como as amoras da montanha.

Sentir em si a harmonia dos últimos passos
E o consolo dos olhares que não querem mais ver.
Ser levado pelas mãos da morte,
E estar com a morte em si, como esperança, como única
[esperança."

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). In: Antologia Poética. Rio de Janeiro: Leitura, 1962. p. 61

Foto: túmulo no Cemitério do Père Lachaise, em Paris

Noite


"Acorda, meu amor, a hora é de vida.
Vem assistir ao espetáculo da noite.
Vem assistir à silenciosa floração.
Vem contemplar o invisível crescimento dos frutos.

Vem, acorda, a hora é plena e feliz,
Amanhã poderás dormir tranquila e ninguém te despertará.
Amanhã poderás dormir; a noite de dormir
Não é esta noite, mas outra, bem diferente

Outra noite mais fria e tão mais longa,
Sem cantos de pássaros, sem esta lua
Enchendo as estradas e a várzea de claras flores,
Sem este cheiro de magnólias e jasmins."

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). In: Antologia Poética. Rio de Janeiro: Leitura, 1962. p. 110