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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Fragmentos da História de Pará de Minas



Um livro pelo qual tenho muito carinho é "Fragmentos da História de Pará de Minas", resultado de inúmeros encontros aos sábados, no Museu Histórico da cidade, de um grupo de professores e alunos do curso de História da FAPAM - Faculdade de Pará de Minas, mais a funcionária do Museu, Ana Maria Campos, entre 2002 e 2007, para pesquisar no rico acervo documental do município (inventários, testamentos, processos-crime, jornais etc. do século XIX e início do XX). São mais de 60 textos ricamente documentados sobre o nosso passado, em diferentes aspectos: economia, religião, escravidão, educação, criminalidade, cultura. Infelizmente, a obra está esgotada, mas há exemplares disponíveis para empréstimo na Biblioteca da FAPAM, na Biblioteca Pública Municipal de Pará de Minas e em várias bibliotecas de escolas públicas da cidade.

sábado, 18 de outubro de 2014

A desobediência civil


"...o Estado nunca enfrenta intencionalmente a consciência intelectual ou moral de um homem, mas apenas seu corpo, seus sentidos. Não está equipado com inteligência ou honestidade superiores, mas com força física superior. Não nasci para ser forçado a nada. Respirarei a meu próprio modo. Vejamos quem é mais forte."


Henry David Thoreau (1817-1862). A desobediência civil (1848). Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 39

sábado, 23 de agosto de 2014

História


"Admito que quem estuda a História pode ter crença infantil e comovente no poder organizador do nosso espírito e do método em si, mas deve além disso respeitar a incompreensível verdade, a realidade e a originalidade do fenômeno. Estudar a História, meu caro, não é uma brincadeira nem uma ocupação infantil e irresponsável. Estudar a História requer o conhecimento prévio de que com esse estudo se almeja algo impossível de atingir, e todavia necessário e importantíssimo. Estudar a História significa entregar-se ao caos, conservando a crença na ordem e no sentido. É uma tarefa muito séria, rapaz, talvez mesmo trágica."

Hermann Hesse (1877-1962). O jogo das contas de vidro (1943). 4ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, p. 201

Padre Jacobus



"...ele falava do Padre Jacobus. Com ele Servo aprendeu uma coisa que lhe seria quase impossível aprender em Castália nessa época; não só adquiriu uma visão geral dos métodos e meios de conhecimento e de pesquisa históricos, e um começo de prática no seu uso, como além disso aprendeu a considerar a História e a vivenciá-la não só como um ramo da ciência, porém como uma realidade, como vida, e para isso requer-se a respectiva transformação da própria vida pessoal, elevando-a à História. De um homem que possuísse só erudição ele não poderia aprender isso. Jacobus, além de erudito, era um contemplativo e um sábio. Além do mais, vivenciava as experiências e ajudava a criá-las; não se aproveitara do posto em que seu destino o colocara para se aquecer no conforto de uma existência contemplativa, mas havia deixado os ventos do mundo soprarem em seu aposento de sábio, e as necessidades e os pressentimentos de sua época penetrarem em seu coração, participando dela em suas culpas e responsabilidades. Não se contentara apenas em lançar um olhar a fatos de um longínquo passado, classificando-os e decifrando-os, e não se ocupara só com a vida das ideias, mas se preocupara também com a rebeldia da matéria e dos homens."

Hermann Hesse (1877-1962). O jogo das contas de vidro (1943). 4ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, p. 229

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O Cínico (I)



"(...) certa vez, quando Diógenes tomava sol, aproximou-se o grande Alexandre, o homem mais poderoso da terra, que lhe disse: 'Pede-me o que quiseres'; ao que Diógenes respondeu: 'Afasta-te do meu sol'. Diógenes não sabia o que fazer com o enorme poder de Alexandre; bastava-lhe, para estar contente, o sol, que é a coisa mais natural, à disposição de todos, ou melhor, bastava-lhe a profunda convicção da inutilidade de tal poder, já que a felicidade vem de dentro e não de fora do homem." 

Giovanni Reale/Dario Antiseri. O florescimento do cinismo. In: História da Filosofia. Volume I. 11ª ed. São Paulo: Paulus, 2012. p. 233

Foto: cena da peça "O Cínico", de Rony Morais. Texto: Flávio Marcus da Silva

terça-feira, 10 de setembro de 2013

American history



"He talked about the Nazis and the war, and then he advanced the startling theory that Hitler's admiration of the United States had inspired him to use American history as a model for his conquest of Europe. Look at the parallels, Born said, and it's not as far-fetched as you'd think: extermination of the Indians is turned into the extermination of the Jews; westward expansion to exploit natural resources is turned into eastward expansion for the same purpose; enslavement of the blacks for low-cost labor is turned into subjugation of the Slavs to produce a similar result. Long live America, Adam, he said, pouring another shot of cognac into both our glasses. Long live the darkness inside us."

Paul Auster. Invisible. London: faber and faber, 2009, p. 45

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Memórias de Adriano


"O vinho inicia-nos nos mistérios vulcânicos do solo e nas riquezas minerais ocultas. Uma taça de Samos degustada ao meio-dia, em pleno sol, ou, ao contrário, saboreada numa noite de inverno, num estado de fadiga tal que nos permita sentir no fundo do diafragma seu fluxo quente, sua abrasadora dispersão ao longo das artérias, é uma sensação quase sagrada e, por vezes, demasiado forte para um cérebro humano." (p. 19)
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"Nada se compara à beleza de uma inscrição latina votiva ou funerária: umas poucas palavras gravadas sobre a pedra resumem com majestade impessoal tudo o que o mundo necessita saber de nós. Foi em latim que administrei o império; meu epitáfio será talhado em latim sobre a parede do meu mausoléu, às margens do Tibre, mas em grego terei vivido e pensado." (p. 42-3)
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"O homem mais tenebroso tem seus momentos iluminados: tal assassino toca corretamente a flauta; tal feitor, que dilacera a chicotadas o dorso dos escravos, é talvez um bom filho; tal idiota partilharia comigo seu último pedaço de pão. Existem poucos a quem não se possa ensinar convenientemente alguma coisa. Nosso grande erro é tentar encontrar em cada um, em particular, as virtudes que ele não tem, negligenciando o cultivo daquelas que ele possui." (p. 47)
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"Um ser ébrio de vida não prevê a morte; ela não existe; ele a nega em cada uma de suas atitudes. Se a recebe é provavelmente sem o saber; a morte não é para ele senão um choque ou um espasmo. Sorrio amargamente ao dizer a mim mesmo que, hoje, dentre dois pensamentos, um eu consagro a meu próprio fim, como se fossem necessários tantos preparativos para decidir este corpo gasto a enfrentar o inevitável. Naquela época, ao contrário, um homem jovem, que tanto teria a perder se não vivesse alguns anos mais, arriscava todos os dias alegremente seu futuro." (p. 61-2)
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"Mal havia chegado a Cárax, o imperador, cansado, fora sentar-se na praia, em frente das pesadas águas do golfo Pérsico. Nessa época ele ainda não duvidava da vitória, mas, pela primeira vez, sentiu-se esmagado pela vastidão do mundo, pelo sentimento da idade e dos limites que nos encerram a todos. Grossas lágrimas correram pelas faces enrugadas daquele homem que ninguém teria julgado capaz de chorar. O poderoso chefe que levara as águias romanas até as praias ainda inexploradas compreendeu, nesse momento, que nunca chegaria a navegar naquele mar tão sonhado: a Índia, a Bactriana e todo o obscuro Oriente, cuja simples antevisão a distância tanto o perturbava, permaneceriam para ele apenas como um sonho e alguns nomes. No dia seguinte as más notícias o forçaram a tornar a partir. Desde então, cada vez que o destino me disse não, lembrei-me daquelas lágrimas choradas uma noite, numa praia longínqua, por um velho que, pela primeira vez, encarava sua vida e sua idade face a face, como talvez nunca tivesse feito até então." (p. 95-6)

Marguerite Yourcenar. Memórias de Adriano (1951). Rio de Janeiro: Record/Altaya

Foto: Marguerite Yourcenar (1903-1987), escritora belga, primeira mulher eleita para a Academia Francesa de Letras, em 1980

sábado, 26 de maio de 2012

O cavaleiro inexistente


Alguém mais anda procurando Agilulfo: é Gurdulu, que, todas as vezes que descobre uma panela vazia ou um cano de chaminé ou uma tina, para e exclama:
- Senhor patrão! Comande, senhor patrão!
Sentado num gramado à beira de uma estrada, fazia um longo discurso no gargalo de um frasco quando uma voz o interpelou:
- O que procura aí dentro, Gurdulu?
Era Torrismundo que, celebradas solenemente as núpcias com Sofrônia, na presença de Carlos Magno, cavalgava com a esposa e um rico séquito pela Curvaldia, da qual fora armado conde pelo imperador.
- Procuro meu patrão – diz Gurdulu.
- Dentro daquele frasco?
- Meu patrão é alguém que não existe; assim, pode não estar tanto num frasco quanto numa armadura.
- Mas o seu patrão dissolveu-se no ar!
- Então, sou o escudeiro do ar?
- Se me seguir, será meu escudeiro.
Chegaram à Curvaldia. Não se reconhecia mais a região. Em lugar das aldeias haviam surgido cidades com palácios de pedra, e moinhos, e canais.
- Voltei, boa gente, para ficar com vocês...
- Viva! Bravo! Viva ele! Viva a esposa dele!
- Esperem para manifestar sua felicidade com a notícia que tenho para dar-lhes: o imperador Carlos Magno, a cujo nome sagrado doravante vocês se inclinarão, investiu-me do título de conde da Curvaldia!
- Ah... Mas... Carlos Magno...? Fala a sério...
- Não entendem? Agora têm um conde! Vou defendê-los de novo contra as prepotências dos cavaleiros do Graal!
- Oh, há bastante tempo já expulsamos aquela gente da Curvaldia! Veja, nós obedecemos durante tanto tempo... Mas agora percebemos que se pode viver bem sem dever nada a cavaleiros nem a condes... Cultivamos a terra, construímos oficinas para artesãos, moinhos, tratamos de fazer respeitar nossas leis, defender nossas fronteiras, enfim, vamos em frente, não temos do que nos lamentar. É um jovem generoso e não esquecemos o que fez por nós... Gostaríamos que ficasse aqui... mas de igual para igual...
- De igual para igual? Não me querem como conde? Mas é uma ordem do imperador, não entendem? É impossível que se recusem!
- É, sempre se diz assim: impossível... Mesmo livrar-se daqueles do Graal parecia ser impossível... E então só tínhamos podadeiras e forcados... Não queremos mal a ninguém, senhorzinho, especialmente a quem nos salvou... É um jovem valoroso, tem prática de tantas coisas que nós não sabemos... Se morar aqui, de igual para igual, sem praticar prepotências, quem sabe não acaba se tornando o primeiro entre nós...
- Torrismundo, estou cansada de tantas travessias – disse Sofrônia erguendo o véu. – Esta gente tem uma expressão ponderada e cortês e a cidade me parece mais bonita e mais bem abastecida do que tantas outras... Por que não procuramos chegar a um acordo?
- E nosso séquito?
- Todos poderiam ser cidadão da Curvaldia – responderam os moradores -, e terão conforme o que produzirem.
- Terei de considerar igual a mim este escudeiro, Gurdulu, que nem sabe se existe ou não?
- Até ele aprenderá... Nem nós sabíamos que estávamos no mundo... Também a existir se aprende...

Italo Calvino, O cavaleiro inexistente. São Paulo: Cia das Letras, 2005, pp. 111-113

terça-feira, 12 de julho de 2011

Francisco de Goya

Para distrair-se e matar as horas intérminas, recorreu às pastas de estampas e arrumou os seus Goyas; os primeiros estados de certas pranchas dos Caprichos, provas reconhecíveis pelo seu tom avermelhado, outrora adquiridas a peso de ouro, alegraram-no e ele se abismou nelas, acompanhando as fantasias do pintor, enamorado de suas cenas vertiginosas, de suas feiticeiras cavalgando gatos, de suas mulheres forcejando por arrancar os dentes de um enforcado, de seus bandidos, de seus súcubos, de seus demônios e anões.

Depois, percorreu-lhe todas as outras séries de águas-fortes e aquatintas, os Provérbios de um horror tão macabro, os temas de guerra de uma ira tão feroz, a prancha do Garrote finalmente, de que acarinhava uma maravilhosa prova de ensaio, impressa em papel espesso, sem cola, com linhas claras visíveis atravessando a pasta.

A selvagem inspiração, o talento áspero, desvairado de Goya, o prendiam; todavia, a universal admiração conquistada por suas obras afastavam-no um tanto delas, e ele havia renunciado, fazia anos, a enquadrá-las, receoso de, pondo-as em evidência, o primeiro imbecil que o viesse visitar se julgasse obrigado a proferir asnices e a extasiar-se, por cortesia, diante delas.

Joris-Karl Huysmans, Às avessas (1884), São Paulo: Penguin, 2011, p. 166.

Imagem: Caprichos (70), de Francisco de Goya (1746-1828)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

As Aventuras da Virtude

(...) a república nascida da derrota dos jacobinos era, do ponto de vista político, um regime anêmico e dividido. Na ausência dos grandes homens que haviam criado o extraordinário movimento de ideias do século XVIII e que tinham contribuído para a convergência dos ideais ilumistas da filosofia de Rousseau, das lições da Revolução Americana e das energias liberadas pela Revolução na França, sobrou um país dividido, com um Exército poderoso e uma classe política incapaz. A república do ano III já nasceu condenada ao fracasso. Em que pesem a generosidade e a lucidez de Madame de Staël, e até mesmo de Benjamin Constant, faltavam ao regime republicano a força dos ideais e a determinação das instituições. A forma sonhada por muitos estava lá, mas vazia dos conteúdos que haviam sido atribuídos a ela nos sonhos e projetos de tantos homens e mulheres ao longo das décadas anteriores. Naquelas circunstâncias, era uma república impossível, fadada a perecer sob o peso da história que havia presidido seu nascimento. Mas o fracasso republicano, o fechamento do longo e frutuoso período de constituição do republicanismo francês, foi também o momento inaugural de uma herança que até hoje é um dos pilares da cultura democrática e republicana da modernidade. Pouco importa se o século XIX será uma longa luta pela consolidação de muitos dos ideais formulados ao longo do século XVIII. O nascimento de uma matriz republicana francesa foi a criação de uma nova forma de ver e fazer política, a qual será decisiva para os caminhos e aventuras que marcaram as nações que, a partir de então, se confrontaram com o sonho e as dificuldades de se construir um regime baseado na liberdade, na igualdade e na fraternidade.

Newton Bignotto, As Aventuras da Virtude: As ideias republicanas na França do século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 366-7.

sábado, 28 de agosto de 2010

A Revolução Francesa e os livros

A Literatura de libelo do final do reinado de Luís XV tornou-se devastadoramente pertinente no final do reinado de Luís XVI. Amoldou-se aos fatos de 1787-88, fornecendo uma estrutura geral para um novo suprimento de anedotas e propos. Ajudou os contemporâneos a entenderem as coisas, apresentando-lhes uma narrativa básica que recuava no tempo, passava por Luís XVI e Luís XV e chegava a Luís XIV, Mazarin, Maria de Médicis e Henrique III. O gênero literário que se desenvolvera a partir do obscuro torneio verbal da corte renascentista produziu best-sellers e, no processo de sua evolução, cobriu mais de dois séculos de história política. Incorporou material novo e novas técnicas de retórica num conjunto de histórias, num folclore político, organizado em torno de um tema central com uma moral única: a monarquia degenerara em despotismo. Em vez de propiciar uma discussão séria dos negócios de Estado, essa literatura fechou o debate, polarizou as opiniões e isolou o governo. Atuou segundo o princípio de simplificação radical, uma tática efetiva em tempo de crise, quando a definição de posições obriga o público a tomar partido e a ver as questões como sendo absolutas: isto ou aquilo, preto ou branco, eles ou nós. Em 1787 e 1788, não importava o fato de a Bastilha estar praticamente vazia e Luís XVI não desejar nada mais do que o bem-estar de seus súditos. O regime estava condenado. Perdera o último round na longa luta para controlar a opinião pública. Perdera a legitimidade. (p. 262)

Robert Darnton, Os best-sellers proibidos da França pré-revolucionária. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O triunfo da ética protestante

Após a derrota dos radicais, em 1660, e a liquidação definitiva do antigo regime em 1688, os dirigentes da Inglaterra organizaram um império comercial de extrema eficácia e um sistema de dominação de classes que se revelou extraordinariamente resistente à passagem do tempo. A ética protestante impôs-se, pelo menos, às ideias e sentimentos que puderam encontrar expressão impressa. A sociedade produziu grandes cientistas, grandes romances. Inventou o romance. Newton e Locke ditaram normas ao mundo intelectual. Esta foi uma civilização poderosa, que para a maior parte das pessoas representou um progresso face ao que antes existia. Porém que certeza podemos ter, em última análise, de que esse mundo era o melhor dentre os possíveis - um mundo em que poetas enlouqueceram, em que Locke tinha medo da música e da poesia, e Newton tinha ideias secretas e irracionais que não se atrevia a tornar públicas?

(...)

A ética protestante dominou tanto as atitudes morais das classes médias, a filosofia mecanicista dominou tão completamente o pensamento científico, que nem foi preciso renovar a lei de censura ao expirar ela em 1695 - não devido a um possível triunfo dos princípios libertários dos radicais, mas simplesmente porque a censura já não era necessária. Iguais a Newton nesse ponto, os formadores de opinião dessa sociedade se autocensuravam. Nada era impresso que pudesse assustar os proprietários. O que assim passava ao mundo subterrâneo e clandestino só podemos suspeitar. Alguns poucos poetas tinham ideias românticas que destoavam desse mundo; mas não era preciso levá-los demasiado a sério. A autocensura implicava a satisfação consigo mesmo.


Christopher Hill, O mundo de ponta-cabeça: Idéias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640. São Paulo: Cia das Letras, 1987. p. 366-367.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O mundo de ponta-cabeça

Dizer que uma coisa está de ponta-cabeça, ou posta de pernas para o ar, afinal de contas é uma descrição bastante relativa. A idéia de que esta é a posição errada só vale na medida em que a olhamos de cima para baixo. Marx disse que encontrou Hegel de ponta-cabeça e o colocou na posição correta; mas certamente não era assim que Hegel via a sua própria posição. Marx pensava que a Prússia de seu tempo era um mundo de pernas para o ar. A idéia de que o debaixo possa ir ter em cima, de que o último possa ser o primeiro e o primeiro, último, de que a "comunidade... denominada Cristo ou o amor universal" possa banir "a propriedade, cujo nome é diabo ou cobiça", e de que "as servidões internas da mente" (a cobiça, o orgulho, a hipocrisia, os medos, o desespero e a doença mental) possam ser "causadas, todas, pelas servidões externas que uma espécie de gente impõe a outra" - essas idéias não são necessariamente opostas à ordem: simplesmente contemplam uma ordem diferente. Podemos estar muito condicionados pela via ascendente que o mundo tomou nesses últimos trezentos anos, a ponto de não conseguirmos ser justos com os homens do século XVII que anteviram as possibilidades do avesso, das pernas para o ar, da reviravolta do mundo. Mas pelo menos devemos tentar entendê-los (p. 367).

Christopher Hill, O mundo de ponta-cabeça: Idéias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640. Tradução e apresentação de Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Cia das Letras, 1987.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Os fuzilamentos da Moncloa

Uma das obras mais visitadas no Museu do Prado, em Madri, é um quadro do pintor Francisco de Goya chamado Os fuzilamentos da Moncloa [pintado em 1814]. Retrata uma cena assustadora ocorrida na noite de 3 de maio de 1808 em Montana Del Príncipe Pio, nos arredores da capital espanhola. Do lado direito do quadro, sobre um fundo de tom escuro e pesado, uma fileira de soldados aponta seus fuzis para um grupo de pessoas ajoelhadas à esquerda. No centro, uma lanterna no chão projeta uma luz fantasmagórica sobre um homem que, de camisa branca e calça bege, ergue os braços em direção aos atiradores. Pede clemência? Tenta explicar alguma coisa? Faz um último ato de protesto? Ninguém nunca saberá. O instante congelado pelas tintas de Goya é de puro medo e desespero. Aos pés do homem de camisa branca estão empilhados três ou quatro cadáveres cobertos de sangue. Ao seu lado, outras pessoas esperam pelo tiro fatal. Algumas cobrem os olhos. Outras pendem a cabeça, num gesto de resignação.

O quadro de Goya é um trágico testemunho dos acontecimentos que abalaram a Península Ibérica no ano em que a família real portuguesa chegou ao Brasil. Na véspera daquelas execuções em massa, os espanhóis se rebelaram contra a invasão das tropas francesas e a deposição do rei Carlos IV. A repressão foi violenta e implacável. Entre a tarde do dia 2 e a noite do dia 3, centenas de rebeldes foram fuzilados nos subúrbios de Madri. Começava ali um dos confrontos mais sangrentos das guerras napoleônicas - e que teriam consequências profundas para os dois lados em disputa. (p. 242-243).

Laurentino Gomes, 1808. 3. ed. São Paulo: Planeta, 2009. p. 242-3.

O Brasil e os livros

"O Brasil não é lugar de literatura. (...) Na verdade, a sua total ausência é marcada pela proibição geral de livros e a falta dos mais elementares meios pelos quais seus habitantes possam tomar conhecimento do mundo e do que se passa nele. Os habitantes estão mergulhados em grande ignorância e sua consequência natural: o orgulho". James Henderson, 1821

James Henderson, A History of the Brazil - comprising its geography, commerce, colonization, aboriginal inhabitants. London: Longman, 1821. p. 76.

1808

"Imagine que, num dia qualquer, os brasileiros acordassem com a notícia de que o presidente da República havia fugido para a Austrália, sob a proteção de aviões da Força Aérea dos Estados Unidos. Com ele, teriam partido, sem aviso prévio, todos os ministros, os integrantes dos tribunais superiores de Justiça, os deputados e senadores e alguns dos maiores líderes empresariais. E mais: a esta altura, tropas da Argentina já estariam marchando sobre Uberlândia, no Triângulo Mineiro, a caminho de Brasília. Abandonado pelo governo e todos os seus dirigentes, o Brasil estaria à mercê dos invasores, dispostos a saquear toda e qualquer propriedade que encontrassem pela frente e assumir o controle do país por tempo indeterminado.

Provavelmente, a primeira sensação dos brasileiros diante de uma notícia tão inesperada seria de desamparo e traição. Depois, de medo e revolta.

E foi assim que os portugueses reagiram na manhã de 29 de novembro de 1807, quando circulou a informação de que a rainha, o príncipe regente e toda a corte estavam fugindo para o Brasil sob a proteção da Marinha britânica. Nunca algo semelhante tinha acontecido na história de qualquer país europeu. Em tempos de guerra, reis e rainhas haviam sido destronados ou obrigados a se refugiar em territórios alheios, mas nenhum deles tinha ido tão longe a ponto de cruzar um oceano para viver e reinar do outro lado do mundo. Embora os europeus dominassem colônias imensas em diversos continentes, até aquele momento nenhum rei havia colocado os pés em seus territórios ultramarinos para uma simples visita - muito menos para ali morar e governar. Era, portanto, um acontecimento sem precedentes tanto para os portugueses, que se achavam na condição de órfãos de sua monarquia da noite para o dia, como para os brasileiros, habituados até então a ser tratados como uma simples colônia extrativista de Portugal.

No caso dos portugueses, além da surpresa da notícia, havia um fator que agravava a sensação de abandono. Duzentos anos atrás, a noção de Estado, governo e identidade nacional era bem diferente do que se tem hoje. Ainda não existia em Portugal a ideia de que todo poder emana do povo e em seu nome é exercido - o princípio fundamental da democracia. No Brasil de hoje, se, por uma circunstância inesperada, todos os governantes fugissem do país, o povo ainda teria a prerrogativa de se reunir e eleger um novo presidente, deputados e senadores, de modo a recompor imediatamente o Estado e seu governo. As próprias empresas, depois de um período de incerteza pela ausência de seus donos ou dirigentes, poderiam se reorganizar e continuar funcionando. Em Portugal de 1807 não era assim. Sem o rei, o país ficava à míngua e sem rumo. Dele dependiam toda a atividade econômica, a sobrevivência das pessoas, o governo, a independência nacional e a própria razão de ser do Estado português". (p. 31-32).

Laurentino Gomes, 1808. 3. ed. São Paulo: editora Planeta, 2009, p. 31-32.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Um Sopro de Destruição

"As consequências sociais, econômicas e políticas da devastação das florestas, erosão e esgotamento dos solos, degradação do clima, extinção das espécies animais e vegetais. Pauta do dia? Sim - desde 1786.

Muito antes do que se costuma imaginar, já se discutia no Brasil, de forma consistente e criativa, a destruição do meio ambiente. Analisando cerca de 150 textos de época, produzidos por mais de 50 autores, este livro reconstitui pela primeira vez, de maneira lúcida e abrangente, um capítulo fascinante e praticamente esquecido na história do pensamento social brasileiro: a crítica ambiental nos séculos XVIII e XIX.

Nomes como José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Baltasar da Silva Lisboa e Francisco Freire Alemão, entre vários outros, dedicaram-se ao debate ambiental. E - ainda mais espantoso - muitos perceberam que a superação das práticas devastadoras, a partir de um esforço consciente de modernização tecnológica, passava necessariamente pela implementação de reformas socioeconômicas profundas, que rompessem com o legado do colonialismo: o tripé escravidão-latifúndio-monocultura.

Destruir matos virgens, ... e sem causa, como até agora se tem praticado no Brasil, é extravagância insofrível, crime horrendo e grande insulto feito à natureza. Que defesa produziremos no Tribunal da Razão, quando os nossos netos nos acusarem de fatos tão culposos?

A pergunta que José Bonifácio se fez em 1821 vale ainda hoje. Um sopro de destruição nos permite identificar a origem de inúmeros problemas que persistem no país, funcionando como um alerta para a profundidade e urgência da questão ambiental no Brasil". (Orelha do livro).

José Augusto Pádua, Um Sopro de Destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786-1888). 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Richelieu and Olivares

Leitura fascinante! Um estudo biográfico comparativo de dois dos maiores estadistas europeus do século XVII, grandes defensores do Absolutismo Monárquico:

Armand Jean du Plessis, Cardeal Richelieu (1585-1642): primeiro-ministro do rei francês Luís XIII de 1628 a 1642.

Gazpar de Guzmán y Pimentel Ribera Velasco e Tovar, Conde-duque de Olivares (1587-1645): primeiro-ministro do rei espanhol Filipe IV de 1621 a 1643.

It was in their fierce determination to control and reshape the world to their image through every instrument at their disposal, including that of language, that Richelieu and Olivares - in many respects so different - came together as one. But there is something paradoxical about this determination. Living, as Richelieu said, in a corrupt age when men were unwilling to be led by reason; sharing an instinctive pessimism about men and events; aware that some sudden contingency could make the best-laid plans go awry; they fought for power with a tenacity born of the optimistic conviction that they could somehow use it to transform the world. Dangerous men, perhaps, but these were dangerous times. (p.31)

J. H. Elliot, Richelieu and Olivares. NY: Canto edition, 1991.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A queda de José Bonifácio

"(...) podemos vislumbrar o espírito que prevalecia na mente daquele estadista-filósofo, tantas vezes comparado aos founding fathers norte-americanos, nos gloriosos anos de 1821 e 1822, quando os horizontes que se abriam para a construção de um Brasil independente e próspero pareciam vastos e luminosos. As dinâmicas políticas posteriores, no entanto, abortaram todos os seus projetos. Em julho de 1823 ele foi forçado a abandonar o ministério. Em novembro do mesmo ano foi preso e exilado na França, onde permaneceu até 1829. A elite dos grandes proprietários, que constituía a base do poder econômico e político, não estava disposta a acompanhá-lo em seus propósitos de extinguir a escravidão, dividir as propriedades e combater a rotina predatória e lucrativa da monocultura exportadora. Esse foi o motivo profundo da sua queda, muito mais do que os conflitos conjunturais e intrigas políticas em que se envolveu. É verdade que a sua prepotência no exercício do poder, somada à incapacidade para estabelecer acordos e alianças, contribuiu para sua derrota política. Bonifácio era fundamentalmente um intelectual, que tentou exercer o governo com a mesma impetuosidade com que participava dos debates acadêmicos. O seu desprezo por ostentações de riqueza, títulos de nobreza e artificialismos de etiqueta, além disso, provocou desavenças com a elite da monarquia emergente. Mas tudo isso é relativamente secundário diante da ameaça que o seu projeto quase revolucionário de mudança social e ambiental colocava para essa mesma elite". (p. 158)

José Augusto Pádua, Um Sopro de Destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786-1888). 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O exílio

Estados Unidos, década de 80

Numa das minhas primeiras declarações, logo depois de sair de Cuba, afirmei: "A diferença entre o sistema comunista e o capitalista é que, embora os dois nos deem um chute na bunda, no sistema comunista a gente leva o chute e tem que bater palmas; no capitalista, a gente também leva, mas pode gritar. E vim aqui para gritar". (p. 342)

Nos poucos meses que passei em Miami, não consegui encontrar um só instante de tranquilidade. Vivi cercado de fofocas constantes e confusões, e de uma infinita sucessão de coquetéis, festas e convites. Era como viver num mostruário, uma estranha criatura que precisava ser convidada antes de perder o brilho, antes de chegar um novo personagem que me desbancasse. Não tinha paz para trabalhar e muito menos para escrever. Quanto à cidade - aliás, não é uma cidade e sim um amontoado de casas espalhadas, um povoado de cowboys, onde o cavalo fora substituído pelo automóvel -, ela me assustava. Estava acostumado com uma cidade com ruas e calçadas, uma cidade deteriorada, mas onde era possível andar e entender seu mistério, até mesmo desfrutar esse encanto. Agora, encontrava-me num mundo plástico, carente de mistério, e cuja solidão acabava sendo mais agressiva. Por isso mesmo, comecei logo a sentir saudades de Cuba, da cidade velha de Havana, mas minhas lembranças ruins foram mais poderosas que qualquer saudade. (p. 347)

Estava descobrindo uma fauna que nunca vira em Cuba: os comunistas de luxo. Lembro-me que, no meio de um banquete na Universidade de Harvard, um professor alemão me disse: "De certa forma, entendo que você possa ter sofrido, mas sou um grande admirador de Fidel Castro e estou muito satisfeito com tudo o que fez em Cuba". Enquanto dizia isso, o professor alemão tinha um prato cheio de comida à sua frente. Respondi: "Acho ótimo que admire Fidel Castro, mas, nesse caso, não pode continuar comendo todo esse prato, porque nenhum cubano, exceto o alto comando, pode comer tanto assim". Peguei o prato e o atirei contra a parede. (p. 343)

Sabia que não poderia viver em Miami. Assim, hoje, passados dez anos, percebo que para um exilado não existe nenhum lugar onde possa viver; não existe nenhum lugar, porque aquele lugar com o qual sonhamos, onde descobrimos uma paisagem, lemos nosso primeiro livro, tivemos a primeira aventura amorosa, continua sendo o lugar sonhado. No exílio, ele não passa de um fantasma, a sombra de alguém que nunca consegue alcançar sua completa realidade. Deixei de existir desde que cheguei no exílio; a partir de então, comecei a fugir de mim mesmo. (p. 348)

(...) nunca me considerei nem de esquerda nem de direita; também não quero ser rotulado de político oportunista; sempre digo a minha verdade, assim como um judeu que tenha sofrido com o racismo ou um russo que tenha ficado no Gulag, ou qualquer ser humano que tenha olhos para enxergar as coisas exatamente como são: grito, logo existo. (p. 357)


Reinaldo Arenas, Antes que anoiteça, Edições BestBolso, Rio de janeiro: 2009.