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domingo, 18 de janeiro de 2015

O que não temo


"– Você me fez confessar os temores que tenho. Mas eu também vou lhe contar o que eu não temo. Eu não temo ficar sozinho nem ser espezinhado pelos outros nem ter de deixar para trás o que quer que eu tenha que deixar para trás. E não tenho medo de cometer um erro, nem mesmo um grande erro, um erro que dure para a vida inteira e talvez por toda a eternidade."

James Joyce (1882-1941).
Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 305

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Confissão

"– Quanto tempo passou desde a sua última confissão, meu filho?
– Muito tempo, padre.
– Um mês, meu filho?
– Mais, padre.
– Três meses, meu filho?
– Mais, padre.
– Seis meses?
– Oito meses, padre.
Havia começado. O padre perguntou:
– E o que você recorda desde então?
Começou a confessar os pecados: missas perdidas, orações não feitas, mentiras.
– Mais alguma coisa, meu filho?
Pecados de raiva, de inveja dos outros, de gula, de vaidade, de desobediência.
– Mais alguma coisa, meu filho?
– Preguiça.
– Mais alguma coisa, meu filho?
Não havia como escapar. Ele murmurou:
– Eu... cometi pecados de impureza, padre.
O padre não virou a cabeça.
– Sozinho, meu filho?
– E... com outras pessoas.
– Mulheres, meu filho?
– Sim, padre.
– Eram mulheres casadas, meu filho?
Ele não sabia. Os pecados pingaram-lhe dos lábios um por um, pingaram em gotas vergonhosas daquela alma que supurava e escorria como úlcera, um sórdido fluxo de vício. Os pecados escorreram, vagarosos, imundos. Ainda havia o que contar. Ele baixou a cabeça, vencido."

James Joyce (1882-1941). Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 175-6

Coração selvagem

"Estava sozinho. Estava despreocupado, feliz e próximo ao coração pulsante da vida. Estava sozinho e era jovem e caprichoso e tinha o coração selvagem, estava sozinho em meio a uma desolação de brisas ingovernáveis e águas salgadas e à colheita marinha de conchas e emaranhados e luz cinzenta e velada do sol..."

James Joyce (1882-1941).
Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 208

Anjo selvagem


"Viver, errar, cair, triunfar, recriar a vida a partir da vida! Um anjo selvagem tinha aparecido diante de seus olhos, o anjo da juventude e da beleza mortal, um emissário das belas cortes da vida, para descortinar-lhe em um instante de êxtase todos os caminhos do erro e da glória. Adiante e adiante e adiante e adiante!"

James Joyce (1882-1941).
Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 210

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Retiro


"O reitor não pediu para ouvir a lição do catecismo. Simplesmente enlaçou as mãos em cima da escrivaninha e disse:
– O retiro vai começar na tarde de quarta-feira em honra a São Francisco Xavier, cujo dia é sábado. O retiro vai se estender de quarta-feira a sexta-feira. Na sexta-feira as confissões serão ouvidas durante a tarde inteira após os rosários. Se qualquer garoto tiver um confessor especial, o melhor é não mudar. A missa vai ser celebrada na manhã de sábado às nove horas, com comunhão geral para todo o colégio. O sábado vai ser um dia livre. O domingo também, claro. Mas com o sábado livre e o domingo livre talvez certos garotos estejam dispostos a pensar que a segunda-feira também seria um dia livre. Tomem cuidado para não incorrer nesse erro. Acho que você, Lawless, é um tanto propenso a incorrer nesse erro.
– Eu, senhor? Por quê, senhor?
Um rumor de alegria silenciosa espalhou-se entre os garotos quando o reitor abriu um sorriso lúgubre. O coração de Stephen aos poucos começou a encolher e a desbotar de medo como uma flor ao murchar."
James Joyce (1882-1941). Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 129

Palmatória


"O Padre Arnall entrou e a lição de latim começou e Stephen permaneceu sentado, escorado na carteira com os braços cruzados. O Padre Arnall entregou os livros de temas e disse que aquilo era um escândalo e que todos deveriam ser reescritos de imediato com as correções necessárias. (...)
A porta se abriu em silêncio e se fechou. Um sussurro discreto percorreu a classe: era o prefeito de estudos. Fez-se um instante de silêncio sepulcral e então veio o sonoro baque de uma palmatória na última carteira. O coração de Stephen deu um salto por conta do medo.
– Tem algum garoto querendo levar uma surra por aqui, Padre Arnall?, bradou o prefeito de estudos. – Tem algum vagabundo preguiçoso e desleixado querendo levar uma surra nessa classe?"

James Joyce (1882-1941). Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 56-7

noite escura de um segredo


"Seria a noite escura de um segredo. Quando a noite caísse ainda cedo as lâmpadas iluminariam, aqui e acolá, o sórdido bairro dos bordéis. Ele seguiria um curso errante para cima e para baixo das ruas, andando em círculos cada vez mais próximos em um tremor de medo e alegria, até que os pés de repente o levassem a dobrar em uma esquina escura. As putas estariam saindo das casas e se aprontando para a noite, bocejando preguiçosamente depois de tirar um cochilo e de ajeitar os alfinetes nos cabelos. Ele passaria por elas calmamente enquanto aguardava um movimento repentino da própria vontade ou um chamado repentino à própria alma pecaminosa vindo daquelas carnes perfumadas. Porém, enquanto perambulava em busca desse chamado, os sentidos, embotados por esse único desejo, percebiam de maneira aguda tudo o que os feria ou os envergonhava". 

James Joyce (1882-1941). Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 123