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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Jogo cruzado

“Uma mente dominada por sentimentos inferiores é capaz de obrigar a própria consciência a pactuar com eles, forçando-a, ardilosamente, a pôr as piores ações em harmonia com as melhores razões e a justificá-las umas pelas outras, numa espécie de jogo cruzado."

José Saramago (1922-2010). O homem duplicado (2002). São Paulo: Companhia das Letras

terça-feira, 12 de abril de 2016

Consciência


“Uma mente dominada por sentimentos inferiores é capaz de obrigar a própria consciência a pactuar com eles, forçando-a, ardilosamente, a pôr as piores ações em harmonia com as melhores razões e a justificá-las umas pelas outras, numa espécie de jogo cruzado”. 

José Saramago (1922-2020) O homem duplicado (2002)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Solidão



"...a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz".

José Saramago (1922-2010). O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Bisleya, 2012, p. 214

Estou vivo



"...então sentou-se na cadeira onde Fernando Pessoa passara a noite, traçou a perna como ele, cruzou as mãos sobre o joelho, tentou sentir-se morto, olhar com olhos de estátua o leito vazio, mas havia uma veia a pulsar-lhe na fonte esquerda, a pálpebra do mesmo lado agitava-se, Estou vivo, murmurou, depois em voz alta, sonora, Estou vivo, e como não havia ali ninguém que pudesse desmenti-lo, acreditou."

José Saramago (1922-2010). O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Bisleya, 2012, p. 221

A morte do general Sanjurjo



"De repente, a tragédia. O general Sanjurjo morreu horrivelmente carbonizado, ia ocupar o seu lugar na diretoria militar do movimento, o avião, ou por levar carga a mais, ou por falta de força do motor, se não é que tudo vai dar à mesma causa, não conseguiu alçar o voo, foi bater numas árvores, depois contra um muro, à vista de toda aquela gente espanhola que acudira ao bota-fora, e ali, sob um sol impiedoso, arderam o avião e o general numa imensa tocha, ainda assim teve sorte o aviador, Ansaldo de seu nome, escapou com ferimentos e queimaduras sem maior gravidade. Dizia o general que não senhor, não pensava em deixar Portugal tão cedo, e era mentira, mas estas falsidades devemos ter a misericórdia de compreendê-las, são o pão da política, embora não saibamos se Deus pensa da mesma maneira, quem nos dirá que não foi punição divina, toda a gente sabe que Deus castiga sem pau nem pedra, do fogo é que já tem uma longa prática. Agora, ao mesmo tempo que o general Queipo de Llano proclama a ditadura militar em toda a Espanha, é o corpo do general Sanjurjo, também marquês de Riff, velado na igreja de Santo António do Estoril, e quando dizemos corpo, é o que dele resta, um tocozinho negro, parece um caixãozinho de criança, homem que tão corpulento era em vida, reduzido ao triste tição, é bem verdade que não somos nada neste mundo, por mais que custa a acreditar."

José Saramago (1922-2010). O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Bisleya, 2012, p. 356

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Observando o Tejo



"...aqui está pois o Tejo, aqui estão os rios que correm pela minha aldeia, todos correndo com esta água que corre, para o mar que de todos os rios recebe a água e aos rios a restitui, retorno que desejaríamos eterno, porém não, durará só o que o sol durar, mortal como nós todos, gloriosa morte será a daqueles homens que na morte do sol morrerem, não viram o primeiro dia, verão o último."

José Saramago (1922-2010). O ano da morte de Ricardo Reis (1984). Bisleya, 2012, p. 106-7

Foto: casal observando o rio Tejo, em Lisboa - Portugal

domingo, 24 de novembro de 2013

O último dia do ano



"Hoje é o último dia do ano. Em todo o mundo que este calendário rege andam as pessoas entretidas a debater consigo mesmas as boas ações que tencionam praticar no ano que entra, jurando que vão ser retas, justas, equânimes, que da sua emendada boca não voltará a sair uma palavra má, uma mentira, uma insídia, ainda que as merecesse o inimigo, claro que é das pessoas vulgares que estamos falando, as outras, as de exceção, as incomuns, regulam-se por razões suas próprias para serem e fazerem o contrário sempre que lhes apeteça ou aproveite, essas são as que não se deixam iludir, chegam a rir-se de nós e das boas intenções que mostramos, mas, enfim, vamos aprendendo com a experiência, logo nos primeiros dias de janeiro teremos esquecido metade do que havíamos prometido, e, tendo esquecido tanto, não há realmente motivo para cumprir o resto, é como um castelo de cartas, se já lhe faltam as obras superiores, melhor é que caia tudo e se confundam os naipes. Por isso é duvidoso ter-se despedido Cristo da vida com as palavras da escritura, as de Mateus e Marcos, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste, ou as de Lucas, Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito, ou as de João, Tudo está cumprido, o que Cristo disse foi, palavra de honra, qualquer pessoa popular sabe que é esta a verdade, Adeus mundo, cada vez a pior."

José Saramago (1922-2010). O ano da morte de Ricardo Reis (1984). Bisleya, 2012, p. 54-5

Foto: Largo Agostinho da Silva, em Lisboa - Portugal

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

História do cerco de Lisboa

"...a gente que aqui está, cristã e moura, é toda ela filha da mesma natureza e de um mesmo princípio, o que significará, supomos, que Deus, da natureza pai e único autor do princípio de que os princípios provieram, é inquestionavelmente o pai e o autor destes desavindos filhos, os quais, ao combaterem um contra o outro, ofendem gravemente a paternidade comum em seu não repartido amor, podendo até dizer-se, sem exagerar, que é sobre o inerme corpo de Deus velho que vêm pelejando até à morte as criaturas suas filhas". 

"Vivo sozinho nesta casa, e há muitos anos, não tenho mulher, excepto quando a necessidade aperta, e então continuo a não ter, sou uma pessoa sem atributos especiais, normal até nos defeitos, e não esperava muito da vida, enfim, esperava co
nservar a saúde porque é uma comodidade, e que o trabalho não me faltasse, a isto, que não é pouco, reconheço, se limitavam as minhas ambições, agora gostaria que a vida me desse o que nunca me lembro de ter tido, o sabor que ela certamente tem". (p. 231)

"...nisso deram as grandezas, um mundo de coisas fugazes, transitórias, que o certo é todas o serem, sem excepção, pois já o rasto do avião se dissipou e do resto dará o tempo conta a seu tempo, é só ter a paciência de esperar". (p. 64)

"Certas relações harmoniosas criam-se e duram graças a um sistema complexo de pequenas inverdades, de renúncias, uma espécie de bailado cúmplice de gestos e posturas, tudo resumível no nunca assaz citado provérbio, ou sentença, Tu que sabes e eu que sei, cala-te tu, que eu me calarei". (p. 80)

"A chuva não diminuíra. À porta do prédio da editora, Raimundo Silva, de mau humor, espreitava o céu por entre os ramos nus das árvores, mas o céu era uma pegada nuvem, sem abertas de azul, e a chuva caía com uma regularidade irritante, nem mais, nem menos". (p. 98)

José Saramago, História do cerco de Lisboa (1989). São Paulo: Cia das Letras, 2011

quarta-feira, 6 de junho de 2012

As intermitências da morte (II)


 
E a morte se apaixona pelo violoncelista que ela veio buscar...

Com seu vestido novo comprado ontem numa loja do centro, a morte assiste ao concerto. Está sentada, sozinha, no camarote de primeira ordem, e, como havia feito durante o ensaio, olha o violoncelista. Antes que as luzes da sala tivessem sido baixadas, quando a orquestra esperava a entrada do maestro, ele reparou naquela mulher. Não foi o único dos músicos a dar pela sua presença. Em primeiro lugar porque ela ocupava sozinha o camarote, o que, não sendo caso raro, tão-pouco é frequente. Em segundo lugar porque era bonita, porventura não a mais bonita entre a assistência feminina, mas bonita de um modo indefinível, particular, não explicável por palavras, como um verso cujo sentido último, se é que tal cousa existe num verso, continuamente escapa ao tradutor. E finalmente porque a sua figura isolada, ali no camarote, rodeada de vazio e ausência por todos os lados, como se habitasse um nada, parecia ser a expressão da solidão mais absoluta. A morte, que tanto e tão perigosamente havia sorrido desde que saiu do seu gelado subterrâneo, não sorri agora. Do público, os homens tinham-na observado com dúbia curiosidade, as mulheres com zelosa inquietação, mas ela, como uma águia descendo rápida sobre o cordeiro, só tem olhos para o violoncelista. Com uma diferença, porém. No olhar desta outra águia que sempre apanhou as suas vítimas há algo como um ténue véu de piedade, as águias, já o sabemos, estão obrigadas a matar, assim lho impõe a sua natureza, mas esta aqui, neste instante, talvez preferisse, perante o cordeiro indefeso, abrir num repente as poderosas asas e voar de novo para as alturas, para o frio ar do espaço, para os inalcançáveis rebanhos das nuvens. A orquestra calou-se. O violoncelista começa a tocar o seu solo como se só para isso tivesse nascido. Não sabe que aquela mulher do camarote guarda na sua recém-estreada malinha de mão uma carta de cor violeta de que ele é destinatário, não o sabe, não poderia sabê-lo, e apesar disso toca como se estivesse a despedir-se do mundo, a dizer por fim tudo quanto havia calado, os sonhos truncados, os anseios frustrados, a vida, enfim. Os outros músicos olham-no com assombro, o maestro com surpresa e respeito, o público suspira, estremece, o véu de piedade que nublava o olhar agudo da águia é agora uma lágrima.

José Saramago, As intermitências da morte. São Paulo: Cia das Letras, p. 191-192

domingo, 3 de junho de 2012

As intermitências da morte

Apesar de tudo, a morte que agora se está levantando da cadeira é uma imperatriz. Não deveria estar nesta gelada sala subterrânea, como se fosse uma enterrada viva, mas sim no cimo da mais alta montanha presidindo aos destinos do mundo, olhando com benevolência o rebanho humano, vendo como ele se move e agita em todas as direcções sem perceber que todas elas vão dar ao mesmo destino, que um passo atrás o aproximará tanto da morte como um passo em frente, que tudo é igual a tudo porque tudo terá um único fim, esse em que uma parte de ti sempre terá de pensar e que é a marca escura da tua irremediável humanidade.

José Saramago, As intermitências da morte. São Paulo: Cia das Letras, 2005, p. 163.