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terça-feira, 12 de abril de 2016

Ócio criativo

"...o que se solicita aos empregados – sobretudo se são trabalhadores intelectuais – são ideias e não parafusos. E a quantidade total de ideias produzidas não é diretamente proporcional à quantidade de horas de permanência no interior de uma empresa.

Na minha opinião é exatamente o contrário: quanto menos se sai da empresa, quanto mais se permanece trancafiado lá dentro, como num aquário, de manhã à noite, menos se recebe estímulos criativos.

Além disso, é preciso recordar que as pessoas que se habituam a ficar no local de trabalho além do horário de expediente regular tendem a matar o tempo inventando novos procedimentos para impor aos outros. E assim, aos poucos, a empresa se reduz a um amontoado de regulamentos inúteis à sua eficiência, danosos à sua produtividade e letais à sua criatividade."

Domenico De Masi (1938-). O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000, p. 174

Redução de pessoal

"Todos os executivos já sabem que são supérfluos por ao menos quatro ou cinco horas de cada dia de trabalho. Sabem que dos trinta anos da vida deles que dedicam à empresa, só uns dez ou quinze bastariam. Sabem também que muitos dentre eles são como folhas de uma árvore no outono: basta um computador novo e uma categoria inteira de trabalhadores é liquidada. [...]

As empresas hoje estão sujeitas a contínuas comoções organizacionais: se fundem, terceirizam - como se diz no jargão - escritórios inteiros, vendem ou compram outras empresas. E as pessoas que trabalham nelas vivem à mercê desses terremotos. 

Muitas vezes o funcionário descobre só através dos jornais que a empresa para a qual trabalha está para fazer uma fusão ou um desmembramento. Do disse-me-disse dos corredores acaba sendo informado de que essas operações implicam uma redução de pessoal e que ele, provavelmente, faz parte dos chamados 'excedentes'. Tem início assim o seu longo calvário, feito de temores, esperanças, notícias pela metade, ameaças e bajulações, que frequentemente se conclui com uma aposentadoria precoce: lhe dão o fundo de garantia, que aqui na Itália também chamam de 'escorregão', e se desfazem dele como se fosse uma embalagem descartável. E, assim, um cinquentão que foi educado para concentrar toda a própria identidade no trabalho e na dedicação à empresa - mas indefeso diante de um colosso econômico que é soberano com respeito à sua posição sempre menos sindicalizada e protegida - é precocemente privado de uma coisa e da outra."

Domenico De Masi (1938-). O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000, p. 243-4-5

Alienados


"Existem executivos que nunca caminharam pelas ruas do centro às dez da manhã, que vivem o mundo exterior só na dimensão dos domingos, que nunca foram ao cinema numa sessão das três e meia da tarde, em pleno dia de semana.

Existem milhões desses executivos que vivem num tipo de quartel psíquico e são infelizes porque são limitados. Suas casas são bonitas, mas nelas passam só as noites, os escritórios onde trabalham o dia inteiro são horríveis, moram em bairros agradáveis, cheios de áreas verdes, mas passam a quase totalidade do tempo trancafiados entre quatro paredes de cimento. E para os próprios filhos, na maioria desempregados, sonham com um trabalho parecido com o deles. Enquanto estes mesmos filhos, de vinte ou trinta anos, esconjuram um emprego similar, como se fosse a peste.

Eu acredito que os executivos de meia-idade sejam, sob um certo aspecto, pessoas doentes. E o que é pior: a doença deles é contagiosa.

Transmitem aos mais jovens um estilo de vida baseado no excesso de esforço, na subordinação, em vez da dignidade, e também uma gestão arcaica e opressiva dos tempos e dos espaços, recorrendo à chantagem psicológica: ou você se comporta dessa maneira, ou não terá nunca uma boa carreira. Deveriam ser isolados, para não contagiarem os executivos das novas gerações (por isso eu sou muito cauteloso antes de enviar um aluno meu para fazer um estágio numa empresa). Mas também deveriam ser tratados com carinho. São uns alienados [...]".

Domenico De Masi (1938-). O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000, p. 236-7

Moço do elevador



"Com muita frequência no Brasil, mas às vezes também na Itália, sobretudo nos hotéis ou nas diretorias empresariais, vejo rapazes que, para ganhar o pão de cada dia, passam o dia inteiro dentro de um elevador, apertando os botões correspondentes aos andares onde os clientes desejam sair. Eu me pergunto: como é possível depreciar a este ponto a vida e a inteligência de um rapaz, mantendo-o fechado, mofando, oito horas por dia num elevador, para fazer um trabalho completamente idiota e inútil?"

Domenico De Masi (1938-). O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000, p. 277-8

Educar para a criatividade

"Muitas empresas, depois de terem selecionado pessoas medíocres, pelo fato de serem dóceis e portanto manobráveis, e depois de terem sufocado todo e qualquer vislumbre de iniciativa por parte delas com um amontoado de procedimentos e controles, sentem agora a necessidade de revitalizar a criatividade e submetem essas mesmas criaturas a pseudoformadores, especialistas no assunto. É como se eu preferisse as mulheres louras, mas me casasse com uma morena e depois a obrigasse a ir ao cabeleireiro oxigenar os cabelos. Esses formadores de criatividade, quase sempre americanos ou franceses, frequentemente desprovidos de qualquer fundamento científico, assim como do conhecimento do resultado de pesquisas sérias, submetem os alunos pagantes, ou melhor, 'bem' pagantes, a exercícios psicofísicos 'fantásticos', uma salada feita de ioga, banalizada, e joguinhos de charadas, palavras-cruzadas e por aí vai. Desconfio instintivamente de todas essas técnicas istriônicas que sabe-se lá onde vão dar e que transformam a criatividade, ou seja, a expressão mais misteriosa e preciosa da espécie humana, numa espécie de gincana.

Educar um jovem ou um executivo para a criatividade hoje significa ajudá-lo a identificar sua vocação autêntica, ensiná-lo a escolher os parceiros adequados, a encontrar ou criar um contexto mais propício à criatividade, a descobrir formas de explorar os vários aspectos do problema que o preocupa, de fazer com que sua mente fique relaxada e de como estimulá-la até que ela dê à luz uma ideia justa."

Domenico De Masi (1938-). O ócio criativo (2000). Rio de Janeiro: Sextante, 2000, p. 303-4 [Domenico de Masi é um dos mais importantes sociólogos italianos, conhecido pelo conceito de "ócio criativo", título de um dos seus livros mais vendidos no Brasil. É professor de Sociologia na Universidade La Sapienza de Roma, onde atua como diretor da faculdade de Ciências da Comunicação].