sábado, 24 de dezembro de 2022

ELA ODEIA PAPAI NOEL

O sofá onde ela dorme fica no meio de uma floresta, numa clareira onde os moradores dos bairros da região jogam fora tudo que não lhes serve mais, de comida estragada a peças de carro, móveis e eletrodomésticos.

Ela tem 53 anos. Mora na rua desde 1999, quando brigou com a família por causa do seu vício em álcool, visto por todos como fraqueza, falta de Deus, de amor e de vergonha na cara. Não aguentou a pressão e saiu de casa. Procurou emprego como confeiteira, que era o que sabia fazer, mas não encontrou. Em seguida, procurou em lojas de roupas, mercearias e outros comércios. Conseguiu trabalhar um tempo como empacotadora em um supermercado, mas começou a faltar, por causa do vício, e acabou demitida.

No sofá, ela se enrosca num grande cobertor de lã e se prepara para dormir, olhando as estrelas no céu limpo que a cobre nesta noite de 24 de dezembro de 2022.

Para ela, o Natal não existe. Não como a maioria das pessoas o vê, regado a comida e presentes, felicitações e famílias reunidas. Nem mesmo vai ao Centro POP receber as sacolinhas das associações de caridade, todos os anos lá, entregando o que conseguiram arrecadar, para depois sumirem e só voltarem no ano seguinte.

Ela tem ódio do Papai Noel. Que velhinho é aquele, que não liga para as pessoas passando fome, os refugiados, os doentes mentais abandonados pelas famílias, os destroçados pela vida, os suicidas? Quem ele representa com aquela barriga estufada e suas roupas de inverno? Os famintos da Etiópia é que não, com certeza.

Está quase dormindo. À meia-noite vai acordar, com as badaladas do sino da igreja, mas logo voltará a dormir, indiferente ao que estará acontecendo lá fora, nas casas e apartamentos, nas igrejas e associações.

Antes de fechar os olhos, porém, vê se aproximar do sofá alguém que, à luz da lanterna que ela acende, está vestido de vermelho e leva na cara uma barba ridícula de Papai Noel. Ela não acredita. Isso nunca tinha acontecido antes. Como eles a descobriram?

Lentamente, ela se abaixa, pega no chão um facão enorme, bem afiado, e se levanta, indo de encontro ao Papai Noel.

“Seu maldito”, ela diz, e avança sobre ele, facão em punho. Papai Noel grita: “Não faça isso, sou eu!”. Ele tira a barba e ela reconhece seu amigo José Pedro, que vive numa barraca de lona no centro da cidade. “Onde você arrumou isso, seu imbecil?”. “Roubei do Papai Noel que distribui balas perto da igreja.” “Tira isso agora.”

Ele tira a roupa e joga no chão. São onze horas da noite. Em um saco que traz dependurado no pescoço, ele pega uma garrafa de cachaça. Os dois se sentam no sofá e bebem. Por um tempo conversam sobre suas tristes vidas, até que ela tem a ideia de fazer uma fogueira. Pegam pedaços de madeira e restos de móveis esparramados pelo lixão e acendem um fogo.

É meia-noite. Quando ouvem os sinos da igreja tocarem, ela pega a roupa e a barba do Papai Noel e joga na fogueira. Não dizem ‘Feliz Natal’. Não dizem nada.

 

 



quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

PENSO NAS ABELHAS

Sonho que estou na cozinha preparando uma vitamina de mamão com aveia e mel.

Sou um homem urbano, casado, com filhos, mas no sonho moro no campo, sozinho, numa casa pequena e agradável, e passo grande parte do meu tempo cuidando de abelhas, que produzem o mel que eu vendo na cidade e doo a um centro de desintoxicação para dependentes químicos que fica perto da minha propriedade.

Vejo-me trabalhando nas colmeias, tirando e colocando quadros repletos de favos, verificando a produção.

Num flash, o cenário muda e estou conversando com um senhor idoso, que, ao que parece, dirige o centro de desintoxicação. Vejo alguns dos abrigados circulando pelo pátio, conversando, fumando, alguns altivos e gritadores, outros cabisbaixos e silenciosos, só ouvindo. Uma turma está no campo, cuidando da horta, das vacas e cabras. Eles produzem queijo, que vendem por um bom preço nos mercados da região.

Vejo agora queijos maturando numa sala climatizada e com azulejos brancos nas paredes, muito limpa. Um rapaz está lá dentro, observando a produção e tomando notas numa caderneta.

De repente estou de novo conversando com o velho, que me diz frases soltas, como “eles andam descalços na horta e no curral”, “o caminho que leva à cachoeira é muito estreito”, “à noite sirvo chá com bolachas”, “gosto de colocar mel na vitamina que faço no meio da tarde”.

E assim estou de volta à cozinha da minha casa, preparando uma vitamina de mamão com aveia e mel. Não consigo sair dali. Preparo a bebida várias vezes, enquanto cenas e imagens nebulosas se formam na minha cabeça.

Com o som do liquidificador ao fundo, vejo-me deitado numa cama beliche, no centro de desintoxicação para dependentes químicos. Sou um paciente (ou abrigado, não sei como se diz), e é noite, tento dormir, mas não consigo. Sinto uma agitação estranha, uma inquietação, que me faz mover os pés freneticamente. O lençol se solta das bordas da cama e meu cobertor cai no chão. Uma mulher de olhos tranquilos me traz um comprimido, que eu tomo, e em pouco tempo me sinto melhor.

O liquidificador continua rugindo. Tiro a tampa do copo e coloco mais mel. Gosto com muito mel. Sento-me numa cadeira e começo a escrever: “As abelhas seguem o caminho que leva à cachoeira à procura de flores e água. Estão acostumadas a beber água no riacho.” Paro. Não sei mais o que escrever. Desligo o liquidificador e, finalmente, posso beber um copo da vitamina. Está deliciosa.

Tiro os sapatos, pego uma agulha, que desinfeto no fogo, cruzo uma das pernas e começo a procurar bichos de pé. Não vejo nada de anormal. Levanto a outra perna e também não encontro nada. Não ando descalço em currais e hortas, sou muito cuidadoso. Calço de novo os sapatos e saio em direção às caixas de abelhas. Elas estão calmas hoje. Não exigem muito de mim.

Sigo pelo caminho estreito, cercado de matos, até a cachoeira. Lá tiro meu macacão de trabalhar com as abelhas, minhas roupas de baixo, e entro no lago formado pela queda d’água. Está gelado, mas vou até onde não dá mais pé e mergulho fundo. É bom. Sinto-me rejuvenescer. Sou jovem de novo, cheio de vida, não preciso me preocupar com nada.

Quando acordo, vejo a imagem da cachoeira se distanciando em névoa, e a realidade cai sobre mim como uma pedra enorme se soltando de um prédio. Sou velho, feio, cheio de contas para pagar, mas estou bem, sou forte, vou seguir em frente, até o fim.

Levanto-me da cama e preparo um chá de camomila, que tomo comendo bolachas de coco. Coloco a bolacha quase inteira no chá, até amolecer, e ponho tudo na boca. A parte molhada se dissolve rapidamente, a seca, eu mastigo, sentindo a crocância do biscoito e o sabor distante do coco.  

Enquanto como mais uma bolacha, observando da janela um avião que se distancia no horizonte de prédios e luzes, penso nas abelhas se alimentando, trabalhando, vivendo, sem raciocinar, sem se preocupar, simplesmente sendo... 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

SONHO DE UM HISTORIADOR

 

Quem foi o homem que há mais de duzentos anos seguiu por este caminho, margeando o ribeirão, e entrou nesta casa, carregando um saco de milho ou feijão? Ou talvez levando uma flor, um crucifixo, ou quem sabe um livro?

Numa casa antiga como esta, muita coisa aconteceu, e é bem provável que, em seus primórdios, um homem tenha entrado nela carregando um saco de mantimentos, uma flor, um crucifixo ou um livro. E tenha conversado com as pessoas lá dentro, almoçado ou jantado.

Fico imaginando as pessoas entrando na casa, cumprimentando-se, comendo, sorrindo, chorando, sentindo as roupas apertadas ou largas sobre seus corpos, o gosto da comida, o frescor da água, a quentura e o sabor do café.

Descobrimos num cartório um documento que diz que, no início do século XX, esta casa tinha vários cômodos, instalações sanitárias e de luz elétrica, um local de despejo, uma casa anexa com um moinho de fubá, um rego d’água, açude, um galinheiro coberto de telhas e cercado com tela de arame, e, fazendo parte da propriedade, um pomar em bom estado de conservação, uma jazida de pedra sabão e vinte hectares de terras de vargem e melado.

Hoje, preservada, a casa continua com vários cômodos, mas não sabemos onde era a casa de despejo nem onde ficavam o moinho, o galinheiro, o pomar e a jazida de pedra sabão (ou pedra talco, como era conhecida). A investigação só está começando.

Somos três historiadores e um ilustrador. Vamos escrever um livro ilustrado sobre a história desta casa, suas terras e seus principais moradores.

Sento-me na escada que dá acesso ao salão principal. Vejo uma mulher negra de pé, perto de uma pedra, a pouca distância de onde estou, olhando para mim. Seu cabelo está todo desgrenhado e seu vestido rasgado. Quem é ela? De repente vejo homens a cavalo chegando. A mulher sai correndo e se embrenha na mata. Os homens vão atrás, gritando.

Entro na casa. O piso de madeira antiga faz barulho sob meus pés. Vejo quadros na parede, um sofá azul, com detalhes barrocos, e um jarro com flores vermelhas aveludadas. As janelas são grandes e estão abertas.  

Vou à cozinha, sento-me numa cadeira, perto de um armário, e começo a folhear um livro com ilustrações muito antigas da casa. Ouço barulhos de panelas. Uma mulher prepara o almoço: costelinha de porco, arroz, feijão fradinho, couve e angu. A família chega e se acomoda na grande mesa da cozinha e, enquanto come, conversa sobre o que cada um fez durante o dia. Um rapaz diz que seus camaradas de Pitangui vão esperá-lo amanhã bem cedo na saída do arraial para irem ao Curral Del Rei. Vão comprar iguarias que não são produzidas ali, para vender em toda a região: roupas, vestidos, pólvora, metais, queijos e vinhos portugueses.

Caminho pelo quintal e vejo um rego d’água indo em direção a uma casa pequena praticamente emendada à casa principal. Entro e encontro um moinho de fubá, girando lentamente com a força da água. Um homem negro, manuseando um instrumento parecido com uma pá, coloca o fubá em sacos e junta tudo em um canto. Ele trabalha sem parar.

Acordo do meu sonho e não vejo mais ninguém. O moinho desapareceu. A sala e a cozinha estão vazias. Estou cansado, mas quero ler, pesquisar, escrever, sonhar. Precisamos trabalhar.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

VIVER NÃO PRECISA SER TÃO COMPLICADO

Enquanto escrevo este texto, sinto meu estômago se revirar. É como se eu quisesse vomitar e não chegasse a me sentir tão mal a ponto de fazê-lo. Em qualquer posição que eu fique, a sensação está lá. Some quando resolve sumir, o que pode acontecer em alguns minutos ou horas.

Depois das cinco cirurgias a que fui submetido no intestino e estômago, sinto essa aflição com frequência. Não consigo explicar o que acontece comigo, mas o médico que fez minha última endoscopia disse que está tudo normal, que as cirurgias foram difíceis, muita coisa foi mexida, mas que, fora um mal-estar eventual, dependendo do tipo de alimento que eu ingerir, não haveria mais nada que fugisse da normalidade. Parece que ele falou sobre o processo de esvaziamento do estômago, que pode ter sido afetado pelas cirurgias, mas nada preocupante. Estou bem. Depois do que passei no hospital, esse mal-estar é praticamente nada. Tento analisar tudo dentro de um contexto que engloba o que outras pessoas passam e, principalmente, as dificuldades que enfrentei e superei.

Passei por períodos tenebrosos no CTI. Na terceira cirurgia, que corrigiu o que deu errado na primeira e na segunda, acordei numa sala muito iluminada, sentindo dores excruciantes no alto e baixo ventre. Havia pequenas mangueiras saindo de baixo do cobertor que cobria o local da cirurgia, cada uma drenando um líquido diferente. Do meu nariz também saía uma mangueirinha, que escoava uma água escura que vinha do meu estômago. Havia um aparelho ligado ao meu corpo que fornecia todos os meus dados vitais a quem pudesse interessar. As horas passavam lentamente. Entre o vai e vem das técnicas de enfermagem, de vez em quando aparecia um médico, com uma prancheta nas mãos, fazendo anotações. Eu não podia me alimentar pela boca, nem água eu podia tomar, só soro na veia e um tipo de alimentação líquida que era introduzida no meu corpo por uma artéria no pescoço.

Na segunda noite no CTI, tive direito a um banho de leito e a um pouco de água nos meus lábios ressecados. Não vou entrar em detalhes sobre o que é um banho de leito. Duas enfermeiras chegaram com os utensílios necessários, mexeram meu corpo de um lado para o outro, esfregando-o com toalhas úmidas, trocaram a roupa de cama e terminaram o serviço. Nessa noite, depois do banho, uma das enfermeiras me trouxe um pouco de água e molhou meus lábios com um paninho. Fazia muito calor. Tanto o banho quanto a água nos lábios me trouxeram um alívio indescritível. Acho que posso chamar o que senti de prazer, ou de uma grande alegria. Eu não pensava na vida fora do hospital. Minha realidade era aquilo: uma cama de CTI, meu corpo ligado a sondas e fios, sentindo sede e dores lancinantes. Não havia previsão de alta. Eu era um paciente de risco. Esse era o meu mundo. Para suportar minha situação, eu não pensava no futuro, só no agora, nos próximos minutos, no máximo nas próximas duas ou três horas.

Eu vivia numa bolha, num círculo estreito no qual ganhar alta do hospital era algo muito distante no tempo e no espaço. Nessa bolha, pequenos prazeres, como um banho de leito e um pouco de água nos lábios, eram o suprassumo da alegria. Quando tiraram a sonda do meu nariz, no terceiro dia de CTI, o prazer foi tão grande, que era como se eu tivesse trocado de vida, saído de uma bolha pequena e ganhado mais espaço e mais alegria de viver. No vigésimo dia de internação, já no quarto e tomando banho no banheiro, quando me autorizaram a dieta líquida, fui no céu e voltei. Finalmente, dieta líquida! Depois, tudo foi melhorando rapidamente: dieta leve, dieta liberada, retirada das sondas que saíam da minha barriga, passeios pelo corredor, enfim: a alta já podia ser vislumbrada.

Hoje vejo minha vida a partir de uma perspectiva que eu chamo de perspectiva da bolha. Meus limites são bem maiores do que os que eu via a partir da cama do CTI, mas procuro não os ampliar muito, para não me perder em sonhos grandiosos demais e não sentir prazer nas pequenas coisas boas que eu tenho e me acontecem todos os dias. Respiro bem, como bem, tenho meus filhos e esposa perto de mim, posso ler e escrever. Dentro daquela bolha do CTI, o que eu tenho hoje era quase inimaginável. Agora eu tenho. Posso estabelecer objetivos além dos limites da minha bolha atual, mas não preciso de tanto, dá para viver bem assim, como estou, melhorando um pouco de cada vez, aqui e ali, crescendo acolá, e só. Viver não precisa ser tão complicado.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

OBRAS

Ele mora num bairro tranquilo, longe do centro, mas ultimamente os vizinhos estão muito atarefados com as reformas de suas casas, o que provoca um coro de barulhos insuportável. São três vizinhos com reforma, um na frente, um ao lado e outro no fundo. Pelo menos não há barulho à noite, depois das sete, o que não adianta muito, porque ele sofre de insônia e está em desmame do remédio que toma para dormir. Seu psiquiatra adotou uma estratégia bem conservadora para tirar o remédio: trocar os comprimidos pela versão em gotas, fazer a correspondência entre a dosagem diária em comprimido com a dosagem em gotas, e tirar uma gota por semana. Esta semana ele está em seis gotas e desesperado, porque seu cérebro decidiu não desligar quando deveria, deixando-o acordado na cama ou perambulando pela casa até por volta de duas e meia da madrugada, quando finalmente consegue dormir. Mas ele também não coopera: toma duas ou três xícaras de café depois das dez, fuma tanto que as paredes do quarto estão todas amarelas e impregnadas com cheiro de nicotina, ouve música, assiste a jornais e novelas, levanta peso – nada que facilite o sono. No outro dia, quando sai para trabalhar, está um bagaço, cansado, desanimado, com os olhos vermelhos, abrindo a boca de cinco em cinco segundos, o que torna sua jornada no escritório uma verdadeira tortura. 

Ele trabalha de sete da manhã ao meio-dia, de segunda a sábado, e à tarde escreve contos e crônicas, o que ultimamente tem sido complicado, por causa do barulho.

Hoje ele resolveu assistir ao vai e vem dos pedreiros na obra da casa ao lado. Sentou-se na calçada, fumando um cigarro, e observou o trabalho daqueles que classificou como serventes, por serem mais jovens e fazerem o serviço mais pesado. O pedreiro era com certeza o mais velho, que dava ordens e orientava. Estavam construindo um segundo piso na casa, onde provavelmente seria uma suíte, com janelas grandes de correr dando para a rua.

Observou tanto os homens trabalhando, que resolveu escrever um conto sobre eles. Foi para casa e mesmo com o barulho das obras lhe assaltando a cabeça por todos os lados, escreveu um texto que lhe agradou muito. De manhã tinha realizado um trabalho que detestava: fechar folhas de pagamento de funcionários. Na verdade, detestava tudo que fazia no escritório. Sua recompensa vinha à tarde, quando podia escrever. Era seu maior prazer. O problema é que, se dependesse de escrever para sobreviver, certamente morreria de fome. A vida é assim. Há aqueles sortudos que conseguem amar o que fazem e ganhar bem a vida com isso, e aqueles que amam fazer coisas que não lhes rendem nem um tostão furado e têm que trabalhar em serviços que odeiam até se aposentarem, se não morrerem antes.

É noite. Ele acaba de comer um talharim ao molho branco e coloca água para ferver para fazer um café. Acende um cigarro, vai até a sala e se debruça sobre a janela da frente. Vê os besouros batendo nas luzes dos postes e um gato preto atravessando a rua. Está tudo silencioso e tranquilo. Vai à cozinha, e enquanto fuma mais um cigarro, pensa nos dias em que terá todo o tempo livre para escrever, sem insônia, sem barulho, sem trabalho. Suas obras...    

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

O QUE É LITERATURA?

 

Sentei-me para escrever com a cabeça vazia, sem nenhuma história interessante para contar. Por que essa ânsia de escrever, de colocar no papel qualquer coisa que eu sinta ou faça? Terapia, talvez. Escrever é uma necessidade para mim. Se eu não escrevo, não me tranquilizo, não me refaço para seguir adiante (como é difícil seguir adiante!). O que eu fiz hoje? Não sei se vai interessar a alguém uma coisa tão banal, mas quem sabe? Tomei um sorvete com calda de morango e leite condensado numa sorveteria do centro, minutos após sair do banco, onde recebi um auxílio-doença referente à minha última cirurgia no abdômen. Que horas eram? Onze da manhã? Um pouco mais ou menos que isso. O fato é que não eram horas para tomar sorvete, sem contar que estava chovendo e ventando frio. Não eram horas, não era dia, nem semana, nem mês, nem ano. Eu não posso me empanturrar de doces enquanto luto ferrenhamente contra a balança. Ah, essa maldita compulsão alimentar, essa luta que não tem fim. Como fico livre disso? Toda segunda-feira eu começo uma dieta. Na terça ou na quarta eu a jogo para o alto comendo um pouco de tudo que encontro na geladeira. Depois vem a culpa. Antes mesmo de terminar de comer, ela vem e destrói todo o prazer, toda a alegria de comer e viver.

Estou abafado. Preciso puxar o ar mais vezes que o normal para me aliviar. Escrever também me alivia, ver as ideias se concatenando em frases cheias de mim mesmo, do que eu amo ou odeio, do que me faz bem ou mal. Escrever me dá a sensação de que estou deixando uma obra, algo mais concreto do que simplesmente trabalhar e ganhar dinheiro para sustentar os filhos na faculdade, até se formarem e me abandonarem. A obra literária é para mim um legado. Mesmo que o que eu escreva não seja literatura, é importante para mim qualquer texto que eu deixar. É uma forma de desobsessão, de livrar meu ser do que me faz mal, e também de mostrar o que sou, sem medo, sem autopiedade, me preparando para o fim. Não tenho outra escolha. Escrever, morrer...

Escrevo também para ajudar quem possa um dia ler meus textos, se isso acontecer. Não sei como. Os escritores me ajudam muito. Lembro-me de quando li, no início dos anos 90, “Ame e dê vexame”, “Sem tesão não há solução”, “Cleo e Daniel” e “Coiote”, de Roberto Freire. Esses livros me ajudaram a atravessar a crise da adolescência, a descobrir a importância do prazer de viver, valorizando meu ser original e único. Funcionaram para mim como textos sagrados sobre como viver a vida e me relacionar com os outros, sem explorar ninguém. Por um longo tempo me ajudaram, até que me vi cercado, encurralado e prensado pelas relações de poder capitalistas. Muitas daquelas ideias anárquicas e libertárias caíram por terra, mas continuo sonhando com um mundo mais justo, onde as pessoas possam viver felizes e realizadas, fazendo o que mais gostam.

Hoje ganhei de presente o livro “L’Atelier Noir”, de Annie Ernaux. Trata-se de um diário da escritora com anotações importantes sobre a construção dos seus textos literários. Talvez essa leitura me estimule ainda mais a escrever, me ensine a organizar as ideias com mais facilidade, a fazer literatura. Não quero ser simplesmente alguém que escreve. Quero ser escritor, produzir textos literários. Há uma enorme diferença entre uma pessoa que escreve bem e outra que faz literatura. Já li vários textos pretensamente literários que definitivamente não são literatura. É o que mais tem. Literatura não é rebuscamento, floreios e palavrório difícil de entender. Nem nada correto demais, de fácil compreensão. Pode até ser tudo isso, mas não só. Literatura corta, fere, mexe, sacode, incomoda, extasia, toca fundo e investiga a alma humana. Literatura é beleza, na sua essência mais profunda, verdades talhadas à faca, ideias em movimento... Não sei explicar direito. Só sei ler e sentir.

 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

DEPOIS DE AMANHÃ

Ele está em seu quarto, fumando e comendo pedaços de carne de porco com farinha. Sente-se incapaz de se reerguer e se embrenhar de novo nos comércios, nas trocas incansáveis de um mundo que avança e não para. Pensa com indiferença nos lugares de espera e solidão, de dor e quietação: hospitais, clínicas psiquiátricas, asilos, prisões, casas de morrer – a sua e as de muitos outros –, onde o tempo parece seguir ritmos diferentes.

Ele vê a vida como um fluxo intenso de pessoas e coisas que estão lá fora, do outro lado da porta, do jardim, do portão, enquanto ele está dentro, olhando por minúsculas frestas nas janelas.

Está agora deitado de lado em sua cama, com dois travesseiros sob a cabeça e um entre as pernas, respirando ofegante, assustado, tentando se livrar de uma angústia no peito.

Esses três parágrafos foram sua primeira tentativa de escrever algo minimamente literário em dois anos.

Ficaram péssimos, eu sei, mas foram três parágrafos que ele escreveu com ardor, com sangue, saindo e voltando do escritório diversas vezes, abrindo e fechando a geladeira, comendo o resto do marmitex que pediu no almoço, apagando frases inteiras, reescrevendo, desistindo, voltando atrás, dizendo ‘sou capaz, preciso recomeçar.’ Só ele sabe como foi difícil.

Estou no escritório. Ele não está aqui. Está na sala catando guimbas de cigarro e recolhendo o prato onde comeu um miojo com frango desfiado ontem à noite. Come mal, parou de fazer exercícios, está sozinho. Quer voltar a fazer as coisas que ama, que sabe fazer bem, mas não está fácil.

Ele voltou. Vai continuar a escrever.

Lá fora estão os seres viventes, os que fazem o mundo girar.

No hospital...

No hospital ficou trinta e cinco dias internado por causa de uma obstrução intestinal grave, que deu muito trabalho para os médicos e lhe mostrou o quão imprevisível é a vida.

Sonda nasogástrica, jejunostomia, dreno tubular sentinela, gastrostomia, drenagem de abscessos, prisão de ventre, lavagem intestinal, toque retal, diarreia, tonteira, desmaios, trocas de fraldas e muito mais.

Do lado de fora, as horas passavam que nem loucas desvairadas.

‘Coragem, você consegue’, diz para si, e se levanta.

Aos poucos sai do quarto, abre a porta da frente e pisa na grama do jardim.

Sai, como saiu do hospital, mas, por enquanto, não passa atravessa o portão. Amanhã, talvez, dê uma volta no quarteirão. Ou depois de amanhã.

Flávio Marcus da Silva (1975-)

PRECISO ESCREVER

Estou sentado na frente do computador, olhando a página que há poucos segundos estava em branco, mas que agora eu preencho com o que me vem à mente, sem ordem nem método, sem me preocupar com você, que arriscou iniciar esta leitura, e que talvez não a termine, mas eu entendo. Meu teclado está sujo, os espaços entre as teclas estão marrons de poeira misturada com o que provavelmente sai das mãos do meu filho quando ele fica aqui digitando e comendo: gordura de carne e batata frita, maionese e molho vermelho.

Agora imagino meu corpo sendo chacoalhado violentamente dentro de um avião que atravessa uma zona de turbulência e de repente começa a cair em direção a não sei que região tenebrosa do nosso país, se selva, pasto ou mar – não sei, porque está de noite, o ar condicionado está rugindo como um monstro que nos tritura e engole; sinto frio, tenho medo. Os compartimentos de bagagem se abrem e diversas coisas caem em nossas cabeças, junto com máscaras de oxigênio, que tentamos desesperadamente ajustar sobre nossos narizes e bocas. As luzes se apagam. Vamos morrer!

Essa cena do avião caindo me veio num lampejo de medo que senti da vida segundos antes de escrever ‘Agora imagino meu corpo...’. Que medo é esse? Às vezes penso que minha vida é como um avião caindo ou um navio afundando. No final a morte chega, inexoravelmente, não adianta gritar, chamar Deus, mãe, pai, padre ou pastor.

Mas às vezes também penso que esta vida não é só o chacoalhar de um avião, as coisas caindo em nossas cabeças, falta de ar e desespero. Dependendo do nosso estado mental, há também o voo tranquilo, em que podemos andar pelos corredores, ir ao banheiro, ler um livro, assistir a filmes, trabalhar em nossos notebooks, comer. Tudo são momentos, fases, períodos de paz e turbulência, e a queda final talvez nem seja tão violenta, mas súbita, sem aviso, ou tranquila, num processo lento, com cuidados paliativos bem conduzidos por profissionais capacitados. Há vários modos de morrer.  

O avião em que me encontro não cai. Tudo se acalma, as luzes se acendem, os comissários começam a circular pelos corredores, ajudando passageiros feridos e recolhendo coisas espalhadas por todo lado. Foi só uma turbulência. É assim mesmo. O medo da vida que me levou a escrever sobre o avião foi passageiro, e é normal ter medo, por um tempo.

Estou escrevendo de novo, depois de dois anos de silêncio. As palavras fluem com facilidade da minha cabeça para a tela do computador, e sinto-me alegre por isso. Olho o relógio. Não vejo o tempo passar, é muito bom. Lá fora o céu está nublado, anunciando uma chuva para mais tarde, e assim continua, enquanto escrevo esta frase, ouvindo os passarinhos, a máquina de lavar, os carros passando em frente à casa, o chiar da minha cadeira ao me recostar. Agora sinto-me bem acomodado, mergulhado numa paz que apenas se anunciava quando acordei hoje de manhã, assustado, pensando: ‘Preciso escrever’. Não dá para continuar sem fazer as coisas que eu mais gosto: ler, escrever, pesquisar, estudar, ensinar. Preciso sair do silêncio e me embrenhar de novo na vida em busca do meu algo a mais. É aos poucos que vou conseguir.

Daqui a pouco vou lapidar este texto, retirar palavras e frases que estão sobrando. Acho que usei muito a palavra ‘medo’. Às vezes tenho pânico (para não usar medo) da vida entrar em turbulência e eu não dar conta de tanta confusão, de tantas coisas caindo sobre a minha cabeça, e eu sendo jogado para lá e para cá. Como vai ser da próxima vez? Sobrevivi a um voo terrivelmente sacolejante e sombrio que durou cerca de dois anos. Foi difícil, mas sobrevivi, e agora estou tranquilo de novo, escrevendo. Você chegou até aqui? Obrigado. Fico feliz.