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domingo, 20 de março de 2016

Luta pelo prazer

"– Numa sociedade toda organizada em torno da luta pelo poder, quando a vida social se transforma em luta pelo prazer... já pensou, querido? Veja se me entende: para que a vida seja luta pelo poder, é preciso que todo mundo faça isso, porque assim os mais poderosos sempre ganham, com dinheiro, violência, armas, etc., entende? Agora, se um grupo grande, como a juventude, por exemplo, não vai nessa, quando descobre que não há prazer algum no trabalho, na guerra, na burocracia, na submissão, no uso da força bruta, nas armas, no dinheiro, no consumo... É uma ousadia imensa, imperdoável! Mas é essa a nossa guerra... a juventude e o prazer são as nossas armas! Faltavam os coiotes... os mutantes..."

Roberto Freire (1927-2008). Coiote (1986). Rio de Janeiro: Guanabara, p. 395

quinta-feira, 17 de março de 2016

Coiote

"Fomos para o jardim e paramos sob uma árvore frondosa e florida de onde dava para ver Coiote, através dos vidros da estufa. Rosário me explicou que só pessoas muito especiais, dotadas de talentos e sensibilidade diferentes das demais é que enlouquecem, é que se tornam esquizofrênicas na juventude. Estudando as relações familiares doentias que, segundo os antipsiquiatras, produzem a esquizofrenia, ela estava chegando à seguinte conclusão: essas pessoas especiais, quando têm seus talentos e sensibilidade impedidos de se exercitar, por causa dos diversos tipos de repressão familiar, sobretudo pelas chantagens afetivas típicas nas relações entre pais e filhos, acabam por se alienar, desistem de viver suas vidas, tornam-se esquizofrênicas.

E Rosário tentava libertá-los morando com eles, procurando criar para esses jovens outro tipo de família, protegendo-os das repressões. Estava observando que, quando conseguia essa liberação, os clientes revelavam e expressavam talentos geniais para algumas coisas e, sempre, uma quase total impossibilidade de aceitar a vida burguesa; não apresentavam o menor pragmatismo (escolha de profissão, perseverança, hábitos sociais higiênicos, disciplina, método) e sofriam tremenda dificuldade para o relacionamento afetivo e sexual.

Porém, não se podia mais classificá-los como loucos. A personalidade deles não estava mais dividida, fragmentada. Viviam o real como todo mundo. Apenas não se adaptavam à vida social convencional. Não eram mais doentes e, sim, problemas. E a doutora Rosário afirmava serem eles problemas políticos e éticos, não médicos, o que quer dizer, patológicos. Mas, para completar a tese, precisava encontrar um esquizofrênico sadio.

– Quando eu o vi, senti que Coiote era uma dessas pessoas especiais, que nascera diferente dos outros. Vinha dele, mesmo dormindo, uma energia muito livre, forte, algo que eu só percebia, às vezes, nos meus clientes ao fim do tratamento e, assim mesmo, numa intensidade e quantidade bem menores. O que me causa espanto e muito encanto, claro, é que Coiote revela nitidamente nunca ter sido vitimado pela repressão. A energia que vinha dele parecia pura e direta... louca, mas terrivelmente fascinante e perturbadora. Teoricamente, eu sabia que era possível existirem pessoas assim... esquizofrênicas em estado puro, entende?"

Roberto Freire (1927-2008). Coiote (1986). 4ª ed., Rio de Janeiro: Guanabara, pp. 135-137

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Angústia, depressão e fobia



"Se não conseguimos enfrentar a heterorregulação autoritária e se também não conseguimos nos submeter totalmente a ela, vamos, portanto, passar a viver num estágio intermediário, instável e perigoso de vida, conhecido pelo nome de neurose. Esse estágio é caracterizado por sintomas típicos como a ansiedade, a angústia, a depressão e a fobia. Querer e não poder ser eu mesmo, querer e não poder viver o meu tipo de amor específico, querer e não poder criar com liberdade em função de pulsações interiores apenas, querer sentir-se com todo o desejo e direito a lutar pela própria auto-regulação e ao mesmo tempo se sentir impotente para isso causam na pessoa 'forte ansiedade', isto é, a sensação de urgência, de pressa e de medo ao mesmo tempo, como se estivéssemos ameaçados de morte caso não conseguíssemos realizar os anseios vitais.

Se já ultrapassamos para pior essa fase, se o que estamos vivendo agora prova a dificuldade aparentemente insuperável de realizar nossos anseios vitais, algo surge em nós que supera a ansiedade e passamos a viver dominados por outro sintoma, ainda mais doloroso, como se estivéssemos amarrados, constrangidos, imobilizados, asfixiados. Estamos descrevendo a 'angústia', que, em geral, descrevemos como um aperto quase físico entre o peito e a garganta. A palavra angústia vem do latim 'angor', que quer dizer aperto, estreitamento.

Dessas sensações de urgência vital para realizar os anseios de auto-regulação espontânea e original e de aprisionamento, imobilização, asfixia, podemos passar a algo quase insuportável, uma vez que já possuímos características de derrota completa e sentimo-nos em ameaça de morte iminente. Trata-se da 'depressão', caso em que nossas forças parecem estar indo embora e levando a esperança e a possibilidade de qualquer reação.

O medo da morte se identifica com o medo das coisas, forças ou pessoas que nos heterorregulam. Assim, começamos a viver o sintoma chamado 'fobia'. Diante do medo total e aparentemente inespecífico e sem causa evidente, nos isolamos, nos escondemos, nos imobilizamos, para, finalmente, em um gesto no qual utilizamos o saldo de energia que nos sobrou dessa luta inglória, dar os últimos passos que nos restam: aceitar passiva e obedientemente a heterorregulação e embarcar, com a grande massa de 'cordeiros' dos sistemas políticos autoritários, no genocídio ecológico das sociedades heterorreguladoras e antinaturais; ou enlouquecemos, quer dizer, deixamo-nos dividir em pelo menos dois, nos esquizofrenizamos de modo a nos tornar irresponsáveis, irrazoáveis e insociáveis; ou, finalmente, nos deixamos suicidar como consequência de nossa incapacidade, tanto de viver de modo autônomo quanto submetidos à heterorregulação."

Roberto Freire (1927-2008). Penso, logo hesito. In: Roberto Freire. O tesão pela vida: SOMA, uma terapia anarquista. São Paulo: Francis, 2006, p. 47-8

Faça o amor, não faça a guerra

"Partindo do slogan hippie, aparentemente tão ingênuo, o 'faça o amor, não faça a guerra', pode identificar-se sua filosofia: o corpo não está a serviço das Forças Armadas, da competição e da produção industrial, mas é local de encontro e trocas, espaço do prazer que a palavra pode enriquecer, mas não substituir. Desse corpo hierarquizado, do qual os símbolos mais evidentes são as vestimentas e os uniformes, passa-se a um corpo fraternal, local de troca ou de nudez, que se torna o símbolo de encontros, discussões, mais que de exploração e de consumo sexual. 

Essa revolução não violenta fez do corpo o seu campo de 'batalha' pela recusa do corpo produtivo, do corpo obediente, do corpo eficiente a serviço da competição e da violência. [...]"

Roberto Freire (1927-2008). Eu sou meu corpo. In: Roberto Freire. O tesão pela vida: SOMA, uma terapia anarquista. São Paulo: Francis, 2006, p. 55

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Alegria

"Não há nada mais incômodo, desagradável e perturbador para uma sociedade autoritária, e sob a ideologia do sacrifício, do que um homem alegre. A alegria é uma agressão e ofende porque provoca inveja e rompe pactos de mediocridade. O homem saudável é revolucionário e alegre. A beleza pode ser, ao mesmo tempo, raiz e fruto do prazer. Só o prazer nos dá (com o contraponto da dor) o sabor da vida."

Roberto Freire (1927-2008). Ame e dê vexame

Tesão de viver


"...o tesão de viver só é possível ser alcançado se a vivência biológica e espiritual da pessoa pende mais, proporcionalmente, para o lado do prazer. Mas ninguém pode estar sentindo prazer por qualquer coisa se não sentir também, e ao mesmo tempo, alguma dor no contato ou vivência com o oposto do que nos causa prazer. Portanto, colocar o prato da balança com mais peso no sentido do prazer nos obriga a fazer uma opção ideológica e, em seguida, uma ação política que nos leve à rejeição do que nos causa qualquer forma de dor e, simultaneamente, a opção pela vivência mais plena do que nos provoca prazer. Estou querendo dizer que o gosto do prazer só é identificável (e isso é exclusivamente individual) se já sentimos o gosto da dor, que corresponde à vivência da experiência oposta do que nos provocou prazer. O contrário também é verdade. Exemplo: se eu não odiar as pessoas, não poderei amar ninguém; se eu não for odiado por algumas pessoas, não poderei ser amado por ninguém. Ou ainda, em outra instância: se eu não trabalhei, sofrendo e me frustrando em coisas contrárias à minha vocação, não poderei avaliar a totalidade do prazer que significa poder criar e produzir de acordo com meus potenciais humanos originais. Claro, embora sejam muito raras, existem algumas pessoas sortudas, aquelas que só conhecem o mel e o sal da existência, não tendo tido nunca necessidade de fazer o que não gosta e conviver com quem não ama."

Roberto Freire (1927-2008). Sem tesão não há solução. São Paulo: Trigrama, 1990, p. 61

Sociedade de consumo

"Devido à sua própria natureza competitiva, a sociedade burguesa não só faz os homens se enfrentarem entre si, faz também a massa humana enfrentar o mundo natural. Assim como os homens se transformam em mercadorias, o mesmo sucede com todos e cada um dos aspectos do reino natural que devem ser manufaturados, comercializados desenfreadamente.

Daí deriva a chamada sociedade de consumo. As necessidades são elaboradas pelos meios de comunicação de massa, para criar uma demanda pública de mercadorias perfeitamente inúteis, cada uma das quais foi criada cuidadosamente para se deteriorar ao cabo de um período de tempo previsto. O saque do espírito humano pelo mercado é comparável e paralelo ao saque da Terra pelo capital."

Roberto Freire (1927-2008). Sem tesão não há solução. São Paulo: Trigrama, 1990, p. 183