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domingo, 23 de outubro de 2016

Kafka e os livros

“É bom quando nossa consciência sofre grandes ferimentos, pois isso a torna mais sensível a cada estímulo. Penso que devemos ler apenas livros que nos ferem, que nos afligem. Se o livro que estamos lendo não nos desperta como um soco no crânio, por que perder tempo lendo-o? Para que ele nos torne felizes, como você diz? Oh Deus, nós seríamos felizes do mesmo modo se esses livros não existissem. Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio. Um livro deve ser um machado para o mar congelado que há dentro de nós.”

Franz Kafka (1883-1924). Diários

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Ler

"Leituras que arrastam leituras, páginas que se desdobram, em um desfiladeiro sem fim. Nenhum método, nenhuma teoria, nenhum 'projeto'. Tudo muito distante de qualquer rigor. Nenhuma direção fixa, nenhum 'objetivo'. Nada parecido. Só o prazer de ler sem parar e, sem parar, entregando-me ao sabor das palavras, misturando, até que se dissolvam uma na outra, literatura e vida. É como gosto de ler."

José Castello. Orgulho e vaidade. In: Pernambuco - Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Ritual da leitura


"...nesse começo de insônia, aquele ritual da leitura, toda noite, à sua cabeceira, quando ele era pequeno – hora certa e gestos imutáveis –, tinha um pouco de prece. Aquele súbito armistício depois da barulhada do dia, aqueles reencontros fora de todas as contingências, o momento de recolhido silêncio antes das primeiras palavras do conto, nossa voz enfim igual a ela mesma, a liturgia dos episódios... Sim, a história lida cada noite preenchia a mais bela das funções da prece, a mais desinteressada, a menos especulativa e que não diz respeito senão aos homens: o perdão das ofensas. [...] Sem saber, descobríamos uma das funções essenciais do conto e, mais amplamente, da arte em geral, que é impor uma trégua ao combate entre os homens.

O amor ganhava pele nova.

Era gratuito.

Gratuito. Era bem assim que ele entendia. Um presente. Um momento fora dos momentos. Apesar de tudo. A história noturna o liberava do peso do dia. Largávamos as amarras. Ele ia com o vento, imensamente leve, e o vento era a nossa voz.

Como preço dessa viagem, não se exigia nada dele, nem um tostão, não se pedia a menor compensação. E não era nem mesmo uma recompensa. (Ah! as recompensas – como era preciso se mostrar digno de ter sido recompensado!). Aqui, tudo se passava no país da gratuidade.
A gratuidade, que é a única moeda da arte."

Daniel Pennac (1944-). Como um romance (1992). Porto Alegre: L± Rio de Janeiro: Rocco, 2008, p.31-32

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Livros salvam

"...eu acho mesmo que os livros nos salvam, de alguma maneira. Salvam a gente de levar uma vida besta, doutrinada pela tevê. Salvam a gente de ficar olhando só pra fora, só para o que acontece na vida dos outros, sem nos dedicar a alguns momentos de introspecção. Salvam a gente de ser preconceituoso. Salvam a gente do desconhecimento, do embrutecimento, do mau-humor, da solidão, salvam a gente de escrever errado. Se existe salvador da pátria, não conheço outro.

Quando me refiro a alguém que lê, estou me referindo a alguém que lê bastante, que lê com paixão, que lê compulsivamente. Porque ler dois ou três livros por ano, apesar de estar dentro da média brasileira, está longe de ser comemorado. Vira um programinha excêntrico: 'Vou aproveitar que hoje está nevando e ler um livro'. Nada disso. Livro salva quem nele se vicia. Salva quem não consegue se saciar. Quem quer saber mais, conhecer mais, se aprofundar mais. É imersão. Mergulho. Salva a gente da secura da vida."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 130

domingo, 20 de março de 2016

Livros de papel

“E ela está falando de livros. Do seu livro, o recém-lançado Words Onscreen: The Fate of Reading in a Digital World, e dos livros em geral, em papel ou não. As conclusões, que ela apurou de vários estudos realizados nos últimos anos em diversos países, são consistentes e fascinantes: os livros de papel, que deveriam ter morrido com a explosão digital, estão mais vivos do que nunca. A razão, Naomi diz, que todas pesquisas concluem é simples: para a aquisição rápida de informação, preferimos as telas de computadores, tablets, smartphones; para a leitura profunda, aquela que, nas palavras dela, ‘mudam vidas, que é o que os bons livros devem fazer’, optamos pelos livros.

Não pensem que essas são conclusões extraídas de pesquisas com gente de meia idade, da geração anterior à era digital. Muito pelo contrário: a pesquisa mais recente e mais vasta, que Naomi usou como coração da sua obra, envolveu adolescentes e jovens entre 17 e 26 anos. E não deixou a menor dúvida. O livro, segundo eles, oferece imersão, experiência individual, ‘sem interrupções’, diz um dos pesquisados, ‘sem barulhinhos na tela’, ‘obrigando a pensar’.

A entrevistadora pergunta a Naomi se isso não vai mudar no futuro, com a permanência das obras digitais e gerações com cérebros diferenciados, programados para as tarefas múltiplas e simultâneas. Ela diz que não. Mudanças substanciais na ‘fiação’ do cérebro humano demoram milênios, acrescenta. Estamos operando com a mesma fiação dos clássicos gregos — compreendemos a narrativa e a linguagem do mesmo modo, e é essa experiência, íntima e pessoal, que o livro traz.”

Ana Maria Bahiana, para o blog da Companhia das Letras, 19 de março de 2015. Jornada pelo coração da galáxia de Gutemberg: uma fábula. 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Literatura

"A literatura — a arte — não deixa de salvar. Trata-se, contudo, de uma redenção turbulenta. Se ela nos livra dos clichês e vícios de pensamento, se ela nos liberta do inferno da repetição, e isso é verdade, ao ampliar nossos horizontes ela nos lança em um mundo mais complexo e mais indecifrável ainda. A literatura não resolve nada — não 'cura' dor alguma. O que ela nos oferece são novas maneiras de observar e conviver com essa dor."

José Castello (1951-), escritor, jornalista e crítico literário brasileiro

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

La sociedad de la ignorancia


"El crecimiento y mejora en las posibilidades de los humanos reales para hacerse cargo de la información que producen en conjunto es básicamente aritmético o, en todo caso, está muy lejos del crecimiento exponencial de la información que hay que considerar, recopilar, conocer, analizar, sintetizar, comprender, reflexionar, someter a la adecuada crítica, o incorporar a la visión personal y general del mundo.
Por todo ello, orientarse con criterio y sentido personal dentro de la cultura o conocimiento colectivos resulta cada vez más difícil, costoso y problemático. [...]

No olvidemos que, en último término, la base neuronal y biológica humana prácticamente no ha cambiado en los últimos milenios de evolución. En última instancia, la capacidad cerebral es la misma y el día continúa teniendo veintecuatro horas. En cambio, ha aumentado muchísimo la cantidad de la información y la complejidad del conocimiento necesarios para hacerse cargo del propio mundo y de las vitales decisiones futuras."

Gonçal Mayos & Antoni Brey (orgs.). La sociedad de la ignorancia. Barcelona: Ediciones Península, 2011, p. 33

Las nuevas generaciones...

"Las nuevas generaciones dedican cada vez más tiempo a utilizar nuevas formas de comunicación en red que les permiten dejar de ser espectadores pasivos para convertirse en nodos activos, en emisores y receptores simultáneamente, y en consumidores, pero también en productores de todo tipo de contenidos. Se trata, sin duda, de un mundo de posibilidades inagotables, pero para la discusión que aquí nos ocupa debemos preguntarnos si dicho medio es el adecuado para fomentar, en último término, la elaboración de conocimiento en la mente de las personas. 

[...] además de niños prodigio o eficientes ejecutivos también están proliferando a nuestro alrededor individuos incapaces de concentrarse en un texto de más de cuatro páginas, personas que solo pueden asimilar conceptos predigeridos en formatos multimedia, estudiantes que confunden aprender con recopilar, cortar y pegar fragmentos de información hallados en Internet, o un número creciente de analfabetos funcionales. Si bien es cierto que el nuevo medio pone a nuestro alcance todo el saber disponible, eso no implica necesariamente que seamos capaces de sacar provecho de él. [...]

Es difícil focalizar y centrarse, y esa necesidad de cambiar de manera constante el foco de nuestra atención acaba por modelar nuestra forma de razonar hasta ubicarnos en un estado de dispersión que, en términos conceptuales, es incompatible con la concentración que requiere cualquier reflexión de cierta consistencia."

Antoni Brey. La sociedad de la ignorancia. Una reflexión sobre la relación del individuo con el conocimiento en el mundo hiperconectado. In: Gonçal Mayos & Antoni Brey (orgs.). La sociedad de la ignorancia. Barcelona: Ediciones Península, 2011, p. 66-68

Expertos


"En definitiva, pues, el experto, gran especialista en una franja cada vez más estrecha del saber es, lógicamente, cada vez más ignorante en el saber de otros campos. Además, sus conocimientos únicamente tienen sentido en el entramado económico que los ha motivado. Son productivos y funcionales, saberes instrumentales que tanto en su forma como en su fondo encajan mejor en la 'techné' griega, el saber de los esclavos productivos, que en el 'logos' que nos muestra el ser de las cosas. En la naturaleza del experto no existe necesariamente una tendencia a convertirse en sabio y, de hecho, todos los mecanismos que hoy operan a su alrededor le empujan en la dirección contraria. Cuando el experto cierra la puerta de su despacho y se va a casa se convierte en uno más. Fuera de sua especialidad, pasa a formar parte de la siguiente categoría: la masa."

Antoni Brey. La sociedad de la ignorancia. Una reflexión sobre la relación del individuo con el conocimiento en el mundo hiperconectado. In: Gonçal Mayos & Antoni Brey (orgs.). La sociedad de la ignorancia. Barcelona: Ediciones Península, 2011, p. 74

El conocimiento en el mundo hiperconectado


"Persiste una lógica errónea que nos lleva a pensar que el uso de herramientas cada vez más sofisticadas implica necesariamente un mayor conocimiento, y confundimos la destreza para utilizar un complejo programa informático que nos permite escribir con el hecho de escribir algo interesante, o incluso con saber escribir. [...]

La sociedad de la ignorancia es, a fin de cuentas, el estado más avanzado de un sistema capitalista que basa la estabilidad de la sociedad en el progreso, entendido básicamente como crecimiento económico, pero que, una vez satisfechas las necesidades básicas, solo es posible mantener gracias a la existencia de unas masas ahitas, fascinadas y esencialmente ignorantes [sumidas en la inmediatez compulsiva de un consumismo alienante]". 

Antoni Brey. La sociedad de la ignorancia. Una reflexión sobre la relación del individuo con el conocimiento en el mundo hiperconectado. In: Gonçal Mayos & Antoni Brey (orgs.). La sociedad de la ignorancia. Barcelona: Ediciones Península, 2011, p. 79-80

INNOVACIÓN

"¡Creamos en la innovación, en el cambio, porque hasta aquí parece darnos excelentes resultados!

Y sin embargo, nada progresa indefinidamente en línea recta, en la vida social. De modo que volver la vista atrás, de vez en quando, y pararse a considerar si hemos olvidado algo fundamental en los viejos recodos, incorporarlo para seguir adelante, parece un ejercicio mínimo de sentido común, que podría, tal vez, ayudarnos a establecer nuevos equilibrios."

Marina Subirats. La sociedad del conocimiento y las dificultades de su producción. In: Gonçal Mayos & Antoni Brey (orgs.). La sociedad de la ignorancia. Barcelona: Ediciones Península, 2011, p. 89

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Leer y viajar

"¿Y qué fue lo que aprendieron los alumnos de Amalfitano? Aprendieron a recitar en voz alta. Memorizaron los dos o tres poemas que más amaban para recordarlos y recitarlos en los momentos oportunos: funerales, bodas, soledades. Comprendieron que un libro era um laberinto y un desierto. Que lo más importante del mundo era leer y viajar, tal vez la misma cosa, sin detenerse nunca. [...] Que leyendo se aprendía a dudar y a recordar. Que la memoria era el amor."

Roberto Bolaño (1953-2003). Los sinsabores del verdadero policía. Barcelona: Anagrama, 2011, p. 146

Leitura

"[...] Pois eu já parei várias aulas, já deixei de dar aula quando constatei que nenhum dos meus alunos lera o texto. Preferi que eles fossem ler. As leis estão escritas, os contratos, os tratados, as principais ideias. Privar nossas crianças da habilidade consistente de ler e interpretar textos escritos, longos, elaborados, é um crime. Não podemos permitir que, sob a capa de uma pedagogia bacaninha, a imbecilidade reine nas escolas brasileiras."

Comentário de Luiz Henrique Assis Garcia, meu ex-colega de doutorado, hoje professor do curso de Ciência da Informação da UFMG

domingo, 20 de setembro de 2015

O poder da arte

“Nós precisamos oferecer algo aos jovens que vá além do sucesso material. A resposta para isso é a arte. A arte é uma experiência espiritual. A arte é transcendental. A arte tem o poder de eletrificar e transformar a vida do ser humano. É uma forma de salvação neste vácuo que vemos hoje, nesta cultura pós-religiosa. É isso que quero oferecer aos jovens. (...)

Estamos em um período de grande impaciência com obras de arte complexas. É raro encontrar um jovem que se sinta atraído por Dostoiévski ou Kafka. (...)

Hoje em dia, os alunos não têm interesse nenhum por ler algo que seja longo, um romance extenso. Há sim um pequeno número que se atrai por isso, mas, hoje, em geral, os jovens querem coisas mais rápidas e fáceis. No começo da minha carreira, nos anos 1970, nós líamos romances muito longos, era isso que dávamos para os alunos, mas, com o tempo, eles pararam de ter paciência e passaram a detestar este tipo de literatura. Então, isso me preocupa.”

Camille Paglia. In: Fronteiras do Pensamento

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A literatura em perigo



"Se hoje eu me pergunto por que amo a literatura, a resposta, que de forma espontânea vem à minha cabeça é: porque me ajuda a viver. Já não lhe peço, como na adolescência, que me evite as feridas que poderia sofrer nos meus contatos com pessoas reais. Mais que excluir as experiências vividas, me permite descobrir mundos que situam-se em continuidade com elas e entendê-las melhor. Creio que sou o único que a vê assim. A literatura, mais densa e eloquente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, amplia o nosso universo, nos convida a imaginar outras maneiras de concebê-lo e de organizá-lo. Todos nos conformamos a partir do que nos oferecem as outras pessoas: a princípio nossos pais, depois os que nos rodeiam. A literatura abre até o infinito esta possibilidade de interação com os outros, portanto, nos enriquece infinitamente. Nos oferece sensações insubstituíveis que fazem que o mundo real tenha mais sentido e seja mais belo. Não é só um simples divertimento, uma distração reservada às pessoas mais cultas, senão, permite que todos respondamos melhor a nossa vocação de seres humanos."

Tzvetan Todorov (1939-) La literatura en peligro (tradução: Fernanda Jiménez), p.17

sábado, 5 de setembro de 2015

Literatura



"O senhor vai me dizer que a literatura não consiste unicamente em obras-primas mas está, sim, povoada de obras ditas menores. Eu também acreditava nisso. A literatura é um vasto bosque e as obras-primas são os lagos, as árvores imensas ou estranhíssimas, as eloquentes flores preciosas ou as grutas escondidas, mas um bosque também é composto de árvores comuns, de matagais, de charcos, de plantas parasitas, de cogumelos e florezinhas silvestres. (...)

Todo livro que não seja uma obra-prima é carne de canhão, esforçada infantaria, peça sacrificável, dado que reproduz, de múltiplas maneiras, o esquema da obra-prima."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 747-8

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Books


"I think we ought to read only the kind of books that wound and stab us. If the book we are reading doesn't wake us up with a blow on the head, what are we reading for?... we need the books that affect us like a disaster, that grieve us deeply, like the death of someone we loved more than ourselves, like being banished into forests far from everyone, like a suicide. A book must be the axe for the frozen sea inside us."

Franz Kafka (1883-1924). Citado por Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 51

Imagem: Franz Kafka, de Andy Warhol (1980)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Meu sonho



"Em uma casa no Batel, em Curitiba, a Arte & Letra é editora, livraria e café. Pertence aos irmãos Thiago e Frede Tizzot. Os verbos mais conjugados por ali são vaguear, ler, beber, comer (um pedaço de torta). Comprar. Esbarrar. Espantar-se (com o nascimento do livro). 'Outro dia, o Frede estava na varanda fazendo as matrizes das xilogravuras da nossa coleção artesanal', conta Thiago. 'Os clientes paravam, olhavam, perguntavam e começavam a entender o processo até a edição pronta. É um envolvimento diferente com o objeto.' Ao trabalhar títulos de literatura que acham bons e merecem ser conhecidos, os livreiros ignoram sem remorso o que não se enquadra no critério. Fogem do comum, das listas de mais vendidos. A laboriosa curadoria inclui a confecção de uma revista literária. Entre os achados, contos de autores fora de catálogo ou nunca traduzidos no Brasil."

Viviane Zandonadi. Viveiro de livros. In: revista Vida Simples. Maio 2015, p. 41

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Lendo Walden


"A outra turma de literatura inglesa avançada estava lendo 'Grandes esperanças'. A minha estava lendo 'Walden'; eu me escondi na frieza e no silêncio do livro, um refúgio do brilho de chapa metálica do deserto. Durante o intervalo da manhã (quando nos juntavam e nos faziam sair pra um pátio com cercas de arame, perto das máquinas de sanduíches), eu ficava no canto mais sombreado que podia encontrar com minha edição de bolso e, com um lápis vermelho, ia lendo e sublinhando várias frases particularmente encorajadoras: 'A massa dos homens leva uma vida de desespero mudo'. 'Um desespero estereotipado mas inconsciente se esconde mesmo sob os chamados jogos e divertimentos da humanidade'. O que Thoreau teria achado de Las Vegas: suas luzes e sua algazarra, seu lixo e seus delírios, suas projeções e fachadas ocas?"

Donna Tartt (1963-). O Pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 217

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

No chão agora


Ainda dá tempo. Dar fim à vida.  Um tiro nos miolos. Pular de cabeça num precipício. Ficar exposto à força da natureza em meio a uma grande tempestade. Ou deixar a vida fluir. Acontece que Miguel não suporta o viver. Está no seu limite. No limiar do nada. Ou da loucura. Pesadelos, sonhos, terror. Assim se revela a maior parte dos personagens de Flávio Marcus da Silva nos contos, crônicas, poemas de seu último livro “No chão agora”. Literatura de primeira grandeza! Se eu fosse especialista na teoria da literatura até faria um comentário teórico, dentro de todas as regras. Entretanto ainda não sou capaz de fazer isso...  O que posso dizer é que gosto dos escritos de Flávio Marcus porque gosto. Ponto. Entretanto, quero apontar alguns fatos que me chamaram mais atenção na leitura de seu livro: 
1 - A perspicácia de Flávio Marcus em desenhar o pensamento do outro. (Serão os seres humanos tão semelhantes em si no pensar? Indago.) No conto “Fogo de palha” ele deixa isso bem nítido: “Na cabeça de Rita o pai consentiu, a menina levou o cãozinho e cuidou muito bem dele, amou-o como se ama a um filho. Que lindo! Só que isso não aconteceu. O cãozinho continuou abandonado, perdido, triste, morrendo de fome. Rita foi embora por outro caminho, sem olhar para trás, com a consciência tranquila, feliz pelo desfecho que imaginou e que, na sua cabeça, era o real. ‘Que bom que deu tudo certo para ele’, pensou.” (p. 12)
2 - Poderia dizer que o livro é um registro histórico. Os cenários descritos nos 32 textos reproduzem de modo primoroso o viver do povo da nossa cidade, do nosso país, neste ano de 2014. Na cidade, a falta de água. As dificuldades pelas quais as pessoas estão passando, a mudança na rotina diária na casa e no trabalho. Não há em nossa lembrança tempo de tanta escassez de água e de falta de chuvas na região de Pará de Minas. E os pernilongos que não permitem que as pessoas durmam em paz? Pernilongos não chegam a ser novidade. Surgem a cada ano e nos incomodam, no entanto, por períodos mais curtos. Mas incômodos juntados deixam as pessoas ao limiar da desesperança: “Três e meia da madrugada./ Atento, escuto:/ Duas bombas vizinhas levam água das caixas reserva para/ as principais, /meu filho ronca, /Os pernilongos infernizam, sibilantes, /implacáveis,/ E essas vozes, que eu não sei... / não sei... Acho que enlouqueci.”/ (No poema “Insônia e pernilongos’) (p.65).
3 - A crítica social se faz presente em cada texto que compõe “No chão agora”. Arrisco a dizer que também faz parte do que ouso chamar de registro histórico. Seja de modo explícito, seja de maneira irônica: a Copa do Mundo realizada neste ano; a situação política e social do país; as diferenças de classe, as injustiças, a deficiência da Educação, o uso excessivo e fútil das redes sociais virtuais. A hipotética “liberdade” da imprensa, que até hoje impõe ao povo a voz do poder dominante. 
4 - A multiplicidade de vozes que se contrastam. Percebo que narradores e personagens têm opinião própria. Cada um diz o que quer, sem deixar claro a interferência do ponto de vista do autor. Notei que o autor até deixa uma dica no poema “Dois modos”: “dois modos de ver dois modos de viver/ há outros/ felizmente”/. (p.36) Em outros textos também encontro exemplos desse fato: em “Sucesso é ser feliz” (p.41) vemos a diferença dos quereres dos pais em relação à educação tecnológica e futurística que almejam para o filho e a simplicidade do desejo do filho, que apenas quer ser feliz. No texto “Caminhos”, a voz do pai que fala do filho é de compreensão: “Hoje sei que meu filho é um vencedor. Venceu preconceitos e seguiu seu caminho, impulsionado pelo destino, fiel a si mesmo. Poucos podem dizer que venceram na vida como ele. Eu não posso. Mas estou feliz por ele.” (p.81). Já no conto “Meu filho não deu em nada”, o pai lamenta que o filho “não prestou para futebol judô coisas de macho não prestou para advogado médico engenheiro administrador – pra nada” (p.19). Na verdade, no decorrer da leitura do conto ficamos sabendo que o moço trabalha e muito naquilo que ama: “livros poesias contos peças de teatro esculturas enfeites”. E mais: tem uma namorada e dinheiro suficiente para comprar uma casa do jeitinho que querem e para a viagem que planejam a Amsterdã.
5 - O texto que encerra o livro e também lhe serve de título “No chão agora” traz em sua última linha um suspiro de gratidão: “Obrigado Deus por eu me saber e amar ser tão pequeno.” Seria a redenção do homem após tantas agruras sofridas pelo narrador ou personagens dos outros escritos...
E então? É ler para ter o prazer da literatura em “No chão agora”, de Flávio Marcus da Silva, publicado pela Virtual Books, Pará de Minas, em setembro de 2014.

Terezinha Pereira