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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

terrível na pureza da sua loucura


"Ai, Minas de minha alma, alma de meu orgulho, orgulho de minha loucura, acendei uma luz no meu espírito, iluminai os desvãos do meu entendimento e mostrai-me onde se esconde esse vagabundo maravilhoso, esse meu irmão oligofrênico que no fundo vem a ser o melhor da minha razão de existir. Foi ele, esse iluminado de olhos cintilantes e cabelos desgrenhados que um dia saltou dentro de mim e gritou basta! num momento em que meu ser civilizado, bem penteado, bem vestido e ponderado dizia sim a uma injustiça. Foi ele quem amou a mulher e a colocou num pedestal e lhe ofertou uma flor. Foi ele quem sofreu quando jovem a emoção de um desencanto, e chorou quando menino a perda de um brinquedo, debatendo-se na camisa-de-força com que tolhiam o seu protesto. Este ser engasgado, contido, subjugado pela ordem iníqua dos racionais é o verdadeiro fulcro da minha verdadeira natureza, o cerne da minha condição de homem, herói e pobre-diabo, pária, negro, judeu, índio, santo, poeta, mendigo e débil mental, Viramundo! que um dia há de rebelar-se dentro de mim, enfim liberto, poderoso na sua fragilidade, terrível na pureza da sua loucura."

Fernando Sabino (1923-2004).
O Grande Mentecapto (1979). Rio de Janeiro: Record, 1980, p. 188

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A visita do Governador Geral


"Por esta época Sua Excelência, o Governador Geral Clarimundo Ladisbão, senhor absoluto da Província e que corria seus domínios seguido de grande comitiva, veio dar a Ouro Preto, o que foi ensejo de grandes festejos públicos, com graves prejuízos para os cofres municipais. Várias obras que se arrastavam pelos anos afora foram rapidamente ultimadas para que o senhor Governador as inaugurasse, apressou-se a formatura dos estudantes para que o senhor Governador a paraninfasse e o Prefeito chegou mesmo a sugerir que se realizassem logo as célebres festividades da Semana Santa para que o senhor Governador delas participasse – o que infelizmente não foi possível, dada a peremptória recusa da Cúria local."

Fernando Sabino (1923-2004).
O Grande Mentecapto (1979). Rio de Janeiro: Record, 1980, p. 65.

Viramundo


"Sabido é que a primeira notícia existente sobre Geraldo Viramundo se refere à sua estada na cidade de Ouro Preto, já com 28 anos, isto é, dez anos depois de ter deixado Mariana. Ora, por mais longa que seja a estrada que liga as duas cidades, não há possibilidade de alguém levar dez anos para percorrê-la, a menos que adote o sistema que se tornou efetivo na administração pública de minha terra por tantos anos: um passo para a frente e dois para trás. Há quem diga que Viramundo passou esses anos às margens e ao longo da própria estrada, sempre desejoso de partir, nunca desejoso de chegar, vivendo como um anacoreta, de raízes, frutos silvestres, eventualmente de esmolas, vestindo peles de animais e afastado do convívio dos homens. Mas é uma hipótese meramente romântica, aventada pelos que tentam fazer de Viramundo apenas um místico, um vagabundo, ou ambas as coisas. (...). Na realidade, quem fosse viver na minha terra de frutos silvestres e vestir-se de peles de animais andaria nu e morreria de fome. Quanto à alternativa das esmolas, esta se destrói ante a rigorosa tradição mineira de não propiciá-la senão na forma de promissórias devidamente avalizadas."

Fernando Sabino (1923-2004). O Grande Mentecapto (1979). Rio de Janeiro: Record, 1980, p. 59