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domingo, 24 de novembro de 2013
Livro de Haicais
"café quente
e um cigarro –
Meditação zen pra quê?"
................
"Estou tão louco
que poderia morder
Os topos das montanhas"
Jack Kerouac. Livro de Haicais. Porto Alegre: L&PM, 2013
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Desolation
"À noite, na cama, aquecido e feliz no meu saco de dormir no bom beliche de cânhamo, via minha mesa e minhas roupas à luz do luar e sentia: 'Pobre desse rapaz Raymond, o dia dele é tão cheio de mágoa e preocupação, as razões dele são tão efêmeras, precisar viver é algo tão aterrador e penoso...', e com isso, dormia como um carneirinho. Será que somos anjos caídos que não quiseram acreditar que o nada é nada e portanto nascemos para perder aqueles que amamos e os amigos queridos um por um e afinal nossa própria vida, para ter essa comprovação?... Mas a manhã fria retornava, com nuvens escapando da garganta Lightning como se fossem uma fumaça gigante, o lago lá embaixo sempre de um cerúleo neutro, e o vazio o mesmo de sempre. Ó dentes da terra que rangem, para onde tudo isso nos levaria a não ser para alguma eternidade dourada, para comprovar que sempre estivemos errados, para comprovar que a comprovação em si mesma não valia nada..."
Jack Kerouac. Os vagabundos iluminados (1958). Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 246
Imagem: vista de uma trilha em direção ao pico Desolation, onde Jack Kerouac passou 63 dias como observador de incêndios ("fire lookout") no verão de 1956
quarta-feira, 1 de maio de 2013
ah, para quê?
"Então, por um instante, tive a mais tremenda sensação de pena dos seres humanos, sejam eles o que forem, o rosto, a boca cheia de dor, personalidades, tentativas de ser alegres, pequenas petulâncias, sensação de perda, piadinhas chatas e vazias que logo seriam esquecidas: ah, para quê? Eu sabia que o som do silêncio estava em todo lugar e que portanto tudo em todo lugar era silêncio. Suponha que de repente acordássemos e víssemos que o que achamos ser isto ou aquilo na verdade não é nada disto nem daquilo?"
Jack Kerouac. Os vagabundos iluminados (1958). Porto Alegre: L&PM, 2011, p. 204
Foto: Jack Kerouac (1922-1969) e Allen Ginsberg (1926-1997)
sexta-feira, 26 de abril de 2013
Noite de inverno no deserto
"Voltei para o acampamento e estendi o saco de dormir e agradeci ao Senhor por tudo que Ele me oferecia. Agora a lembrança de toda aquela tarde diabólica fumando maconha com mexicanos de mãos leves em uma sala cheirando a mofo iluminada por velas era um sonho, um sonho ruim, como um dos sonhos que tive sobre a esteira de palha no Riacho do Buda, na Carolina do Norte. Meditei e rezei. Realmente não existe nenhum tipo de noite de sono no mundo que possa se comparar à noite de sono que se tem em uma noite de inverno no deserto, desde que se esteja bem acomodado e aquecido em um saco de dormir de pena de pato. O silêncio é tão intenso que dá para ouvir o próprio sangue rugindo nos ouvidos, mas mais alto do que isso, de longe, é o bramido misterioso que eu sempre identifico com o bramido do diamante da sabedoria, o misterioso bramido do próprio silêncio, que é um magnífico Shhhh que serve como lembrete de algo que a gente parece ter esquecido em meio à estafa dos dias desde que nascemos. Gostaria de explicar isso às pessoas que eu amo, à minha mãe, ao Japhy, mas simplesmente não existem palavras que possam descrever o nada e a pureza daquilo."
Jack Kerouac. Os vagabundos iluminados (1958). Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 162
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Os vagabundos iluminados
"O quintal era cheio de pés de tomate prestes a amadurecer, e hortelã, hortelã, tudo cheirava a hortelã, e uma bela árvore antiga sob a qual eu adorava me sentar para meditar naquelas noites frescas estreladas e perfeitas de outubro na Califórnia, incomparáveis às de qualquer lugar do mundo. Tínhamos uma cozinhinha perfeita com fogão a gás, mas sem geladeira, mas não fazia mal. Também tínhamos um banheirinho perfeito com banheira e água quente, e um cômodo principal, coberto com almofadas e esteiras de palha e colchões para dormir, e livros, livros, centenas de livros, tudo desde Catulo até Pound incluindo Blyth e discos de Bach e Beethoven (e até mesmo um disco bem animadinho de Ella Fitzgerald com Clark Terry tocando trompete de maneira muito interessante) e um bom fonógrafo Webcor de três velocidades que tocava alto o bastante para mandar o telhado pelos ares: e o telhado não passava de compensado, as paredes também; certa noite, em uma de nossas bebedeiras zen-lunáticas, exultante, enfiei o punho através da parede, e Coughlin viu o que eu tinha feito e enfiou uns dez centímetros da cabeça ali."
Jack Kerouac. Os vagabundos iluminados (1958). Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 21
Na montanha
"Foi lindo. O tom rosado desapareceu e então um anoitecer arroxeado se impôs e o bramir do silêncio parecia o murmúrio de uma maré de diamantes que atravessava as camadas líquidas dos nossos ouvidos, suficiente para acalmar um homem durante mil anos. Rezei por Japhy, por sua segurança e felicidade futuras e para que ele se tornasse um Buda no final. Tudo aquilo era completamente sério, tudo completamente alucinado, tudo completamente feliz. (...)
Todos os músculos doloridos e a fome na minha barriga já estavam bem ruins, e as pedras escuras que nos rodeavam, o fato de que não havia nada ali para acalmar você com beijos e palavras gentis, mas bastava estar ali meditando e orando pelo mundo acompanhado de outro jovem intenso - já estava bom demais ter nascido só para morrer, como todos nós. Algo resultará disso nas vias lácteas da eternidade que se estendem à frente de nossos olhos espectrais nada amarelados, meus amigos. Tive vontade de dizer a Japhy tudo que estava pensando mas sabia que não fazia diferença e além disso ele já sabia mesmo e o silêncio é a montanha dourada."
Jack Kerouac. Os vagabundos iluminados (1958). Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 75-6
sábado, 28 de abril de 2012
Os subterrâneos
A vez que o vizinho alegre dela o jovem escritor John Golz veio (religiosamente oito horas por dia à máquina de escrever, escreve histórias para revistas, admirador de Hemingway, com frequência dá comida a Mardou e é um rapaz simpático de Indiana e é cheio de boas intenções e está longe de ser um subterrâneo cheio de subterfúgios manhoso feito serpente e interessante e sim um cara aberto, jovial, brinca com as crianças no pátio meu Deus) - veio ver Mardou, eu estava lá sozinho (por algum motivo, Mardou estava num bar dentro do esquema que tínhamos combinado, a noite que ela saiu com um rapaz negro que ela não gostava muito mas só de sarro e ela disse a Adam que estava fazendo isso porque ela queria transar com um rapaz negro de novo, o que me fez ficar com ciúme, mas Adam disse "Se dissessem a ela que você saiu com uma menina branca para ver se você conseguia transar com branca de novo ela certamente ia ficar toda prosa, Leo") - aquela noite, eu estava na casa dela esperando, lendo, John Golz veio filar um cigarro e vendo que eu estava sozinho o garoto quis falar sobre literatura - "Olha, pra mim a coisa mais importante é a seletividade", e eu explodi e disse: "Ah não me vem com esses papos que você aprendeu no colégio que eu já ouvi uma porrada de vezes muito antes de você nascer quase pelamordideus diz uma coisa nova e interessante sobre literatura" - arrasando o rapaz, mal-humorado, principalmente porque eu estava irritado e porque ele parecia inofensivo e portanto parecia não ter perigo nenhum berrar com ele, no que aliás eu estava absolutamente certo - arrasando o rapaz, que era amigo dela, coisa que não se faz - não, no mundo não há lugar para esse tipo de coisa, e então o que a gente faz, e onde? quando? buá buá buá, chora o bebê no estouro da meia-noite.
Jack Kerouac, Os subterrâneos (1958). Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 92-93.
domingo, 1 de maio de 2011
Kerouac
Sobre o livro Big Sur e seu autor, Jack Kerouac (1922-1969):Fiel a seu modo de escrita paroxístico, chegará ao final do relato de seu apocalipse em Big Sur em dez dias, em Orlando, em outubro de 1961. Em nenhum momento se permitirá fazer papel bonito. Restituirá sem artifícios aqueles dias sem alegria exaltados por bebidas ordinárias, pelo abuso de tokay, um vinho açucarado, a bebida assassina dos pobres, naqueles dias anunciadores da separação dos "irmãos de sangue": Neal e ele, nos dias de miséria sexual e esterelidade. É o livro da coragem e da autenticidade (de uma rara autenticidade) de Kerouac, o não-herói. O fato de não sair engrandecido o faz grande, justamente. Ele descreve sua sordidez, seus embates medíocres, sua dependência. A descrição do delirium é de uma exatidão clínica notável, sob um fundo de memória que sabemos ser fenomenal e de um lirismo contido. Não se esqueceu de nada, não faltou sequer um detalhe. Precisou de um ano de decantação.
Quando sai o livro, em setembro de 1962, a crítica é, paradoxalmente, como sublinha Gerald Nicosia, menos rude, talvez porque diga sem rodeios, tanto a Saturday Review quanto o New York Times, que o beatnik Kerouac, como era de se esperar, terminou enlouquecendo. (p. 209).
(...)
Com Big Sur terminado no outono de 1961, Kerouac pensa nessa ocasião ter concluído sua obra. Aproxima-se dos quarenta anos e não terá mais do que dois livros em preparação - a última parte de Desolation Angels foi escrita no verão precedente na Cidade do México -, Vanity of Duluoz, que acabamos de citar, e Pic, que ele completará pouco antes de morrer. Por hora, ele entra numa longa fase de esterelidade e de relativa sobrevida de aproximadamente dez anos. Será para ele como o percurso em uma terra de desolação, com todos os estigmas de retirada do mundo doloroso, marcado de invectivas, de mal-entendidos, de encolhimento do espaço social e da comunicação. Kerouac estará cada vez mais sozinho, acentuando o vazio à sua volta e o desgosto do isolamento, tentando desajeitadamente remediá-los. Todos os traços de sua personalidade, que ele chama de paranóica, e de seu "comportamento esquizo", segundo sua expressão, que o tornam insuportável agravam-se somados ao alcoolismo inveterado e debilitante. Então ele vitupera, acusa, se insurge, interpela ou tenta infelizes e lacrimosas efusões. Progressivamente, vai se desligando de todos os elos históricos e passa a gravitar em uma solidão total na qual é um injustiçado, uma vítima eletiva. Está imerso na incompreensão de um mundo que o elouquece. (p. 234-235)
Kerouac, de Yves Buin. Porto Alegre: L&PM, 2007.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Big Sur
Ao meio-dia o sol enfim sempre aparece, forte, batendo na varanda alta onde estou sentado com livros e café e à tarde eu pensei nos antigos índios que devem ter habitado esse cânion por milhares de anos, em como no século X esse vale devia ter o mesmo aspecto, só com árvores diferentes: esses índios antigos simplesmente os ancestrais dos índios mais recentes digamos de 1860 - Como todos morreram e em silêncio enterraram seus ressentimentos e expectativas - Como o córrego podia ser alguns centímetros mais fundo já que a atividade madeireira dos últimos 60 anos prejudicou um pouco as vertentes - Como as mulheres pilavam as bolotas, bolotas ou bolopts, até que enfim achei as nozes naturais do vale e elas tinham um gosto doce - E os homens caçavam veados - Na verdade só Deus sabe o que eles faziam porque eu não estava aqui - Mas o mesmo vale, mil anos de pó mais ou menos por cima das pegadas deles de 960 d. C. - E até onde eu vejo o mundo é velho demais para que possamos falar sobre ele com as nossas palavras tão novas - Vamos passar tão quietos pela vida (passando, passando) como o povo do século X aqui nesse vale só que com um pouco mais de barulho e algumas pontes e barragens e bombas que sequer vão durar um milhão de anos - Sendo que o mundo é apenas o que é, se movendo e passando, na verdade tudo bem a longo prazo e nada do que reclamar - Até as rochas do vale tinham ancestrais rochosos, um bilhão de bilhões de anos atrás, não deixaram nenhum uivo de queixume - Nem as abelhas, ou os primeiros ouriços do mar, ou a amêijoa, ou a pata cortada - Tudo a visão É-A-VIDA do mundo, bem diante do meu nariz enquanto eu olho, - E olhando para aquele vale na verdade eu percebo que tenho que preparar o almoço e não vai ser diferente do almoço daqueles homens antigos e ainda por cima gostoso - Tudo é a mesma coisa, a neblina diz "Nós somos neblina e voamos nos dissolvendo como coisas efêmeras", e as folhas dizem "Nós somos folhas e tremelicamos ao vento, nada mais, chegamos e partimos, crescemos e caímos" - Até os sacos de papel no lixo dizem "Nós somos sacos de papel feitos de polpa de madeira pelos homens, temos um certo orgulho de ser sacos enquanto isso for possível, mas depois voltaremos a ser polpa de madeira com nossas irmãs folhas quando chegar a época das chuvas" - Os tocos de árvore dizem "Nós somos tocos de árvores arrancadas do solo pelos homens, às vezes pelo vento, temos grandes tendões cheios de terra que bebem do solo" - Os homens dizem "Nós somos homens, arrancamos árvores, fazemos sacos de papel, achamos que temos boas ideias, fazemos o almoço, olhamos em volta, fazemos um grande esforço para perceber que tudo é a mesma coisa" - Enquanto a areia diz "Nós somos areia, nós já sabemos", e o mar diz "Nós sempre vamos e voltamos, caímos e ploch" - O grande azul vazio do céu diz "Tudo isso volta para mim, então parte outra vez, e volta outra vez, então parte outra vez, e eu não estou nem aí, de um jeito ou de outro tudo me pertence" - O céu azul acrescenta "Não me chame de eternidade, me chame de Deus se você quiser, todos vocês tagarelas estão no paraíso: a folha é o paraíso, o toco de árvore é o paraíso, o saco de papel é o paraíso, o homem é o paraíso, a areia é o paraíso, o mar é o paraíso, a neblina é o paraíso" - Você consegue imaginar que o homem com insights maravilhosos como esses pode enlouquecer em um mês? (porque você tem que admitir que os sacos de papel e as areias falantes estavam dizendo a verdade) - Mas eu lembro de ver uma massa de folhas de repente se agitar com o vento, depois flutuar depressa pelo córrego em direção ao mar, fazendo com que eu sentisse um horror inefável na mesma hora "Ah meu Deus, estamos todos sendo arrastados pro mar não importa o que a gente diga ou faça" - E um pássaro que estava num galho torto some de repente sem eu escutar nada.Jack Kerouac, Big Sur (1962). Porto Alegre: L&PM, 2010. p. 35-36.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
On the Road
"Oh, cara! cara! cara!", balbuciou Dean. "E isso não é nem o começo - e agora finalmente estamos juntos indo para o Leste, nunca tínhamos ido para o Leste juntos, Sal, pensa nisso, vamos curtir Denver juntos e ver o que todos estão fazendo, mesmo que isso não nos interesse muito, a questão é que nós sabemos o que AQUILO significa e sacamos a VIDA e sabemos que tudo está ÓTIMO." Depois, me puxando pela manga, e suando horrores, ele me segredou: "Agora saca só esse pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir essa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão onde pretendem - e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles têm que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos puramente angustiados e angustiantes, suas almas realmente não terão paz a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles e eles sabem disso, e isso também os preocupa num círculo vicioso que não tem fim. Escuta só: 'Bem, agora'", imitou ele, "'não sei, talvez devêssemos parar para encher o tanque de gasolina ali naquele posto. Li recentemente no National Petroffious Petroleum News que esse tipo de gasolina tem grande quantidade de O-Octane e alguém já me falou que ela até possui um aditivo semi-oficial de alta potência e quem sabe... bem, não sei se deveríamos, acho que talvez...'. Cara, você também saca tudo isso". (p. 257-58)(...)
Saímos de Sacramento com o sol raiando e na hora do almoço já estávamos cruzando o deserto de Nevada, depois de uma vertiginosa passagem pelas Sierras que obrigou a bichona e os turistas a se agarrarem uns aos outros no banco de trás. Agora íamos na frente, estávamos no comando. Dean estava feliz outra vez. Tudo o que ele precisava era de uma roda na mão e quatro na estrada. Falava de quão mal Old Bull Lee dirigia e fez umas demonstrações: "Sempre que aparece algum caminhão gigantesco e sobrecarregado como aquele que vem vindo ali, Old Bull leva um tempo interminável para percebê-lo porque não consegue enxergar direito. Ele simplesmente não vê". Apertou furiosamente os olhos para imitar a cara de Old Bull ao volante. "E eu dizia a ele: 'Ei, cuidado Bull, um caminhão'. E ele respondia: 'O quê? O que foi que você disse, Dean?' 'Caminhão, caminhão.' E no último segundo ele jogava o carro contra o caminhão, assim." E Dean se jogou com o Plymouth de encontro ao caminhão que avançava na direção oposta, dançando e rebolando à sua frente por um instante, dando tempo de ver a fúria na cara do caminhoneiro crescendo rapidamente à nossa frente, e o pessoal do banco de trás se encolhendo ofegante, arfando, todos horrorizados, e no último segundo Dean desviou. "Era bem assim, sabe, exatamente assim, oh, como ele dirigia mal." Eu não estava nem um pouco assustado; conhecia Dean. Mas o povo no banco de trás perdeu a voz. Na verdade, tinham medo de reclamar. Sabe-se lá Deus o que o Dean seria capaz de fazer se eles tivessem a audácia de reclamar, pensavam. Ele tocou o pé na tábua cruzando todo o deserto dessa maneira, fazendo várias demonstrações de como não dirigir, de como seu pai guiava seus calhambeques, como os grandes motoristas se lançam rápido demais no começo e acabam derrapando no fim da curva, e assim por diante." (p. 259)
(...)
"Oh, esses caipiras burros, estúpidos, tapados, jamais mudarão, são completa e absolutamente estúpidos. Chega o momento de agir e eles ficam paralisados, histéricos, assustados - nada os amedronta mais do que aquilo que querem (...)." (p. 265)
Jack Kerouac (1922-1969), On the Road (1957); tradução de Eduardo Bueno, Porto Alegre: L&PM, 2009
terça-feira, 6 de abril de 2010
Jack Kerouac
Perambulei catando baganas nas calçadas. Cruzei por um boteco na rua Market e a mulher que estava lá dentro me lançou um olhar terrível enquanto eu passava; era a proprietária, aparentemente ela pensou que eu fosse entrar ali armado de pistola e assaltar o botequim. Caminhei um pouco mais. Subitamente me ocorreu que ela tinha sido minha mãe uns duzentos anos atrás na Inglaterra e eu, seu filho salteador, retornando do cárcere para assombrar seu honesto ganha-pão na taverna. Enregelado pelo êxtase, estanquei na calçada. Olhei para a rua. Não conseguia saber se era mesmo a Market ou a rua do Canal em Nova Orleans; afinal ela ia dar na água, água ambígua e universal, exatamente como a rua 42 em Nova York, que também leva em direção à água, de modo que você nunca sabe bem onde está. Pensei no fantasma de Ed Dunkel se arrastando pela Times Square. Eu delirava. Quis voltar e dar uma espiada na minha estranha mãe dickensiana no boteco. Eu tremia da cabeça aos pés. Era como se um pelotão inteiro de memórias me conduzisse de volta a 1750, na Inglaterra, só que agora eu estava em São Francisco, em outra vida, noutro corpo. "Não", parecia gritar aquela mulher, com seu olhar aterrorizado, "não volte para atormentar sua mãe honesta e trabalhadora. Você já não é mais meu filho, assim como seu pai, meu primeiro marido. Aqui, esse grego generoso se apiedou de mim" (o proprietário era um grego de braços peludos). "Você é mau, com tendências à baderna e à bebedeira e, o que é pior, ao roubo infame dos frutos do meu humilde trabalho nesta taverna. Oh, filho! Você jamais se ajoelhou e rezou pela remissão de todos os seus pecados e más ações? Pobre menino! Suma daqui! Não amedronte mais meu espírito; eu fiz bem em te esquecer. Não reabra velhas feridas; que seja como você nunca tivesse voltado e me encarado - jamais houvesse visto minha humilde labuta, meus parcos centavos penosamente batalhados - os quais está sempre ávido para agarrar, sempre pronto para roubar, oh, desalmado, maldoso e sombrio filho da minha própria carne. Meu filho! Meu filho!" (...) E por um instante alcancei o estágio do êxtase que sempre quis atingir, que é a passagem completa através do tempo cronológico num mergulhar em direção às sombras intemporais, e iluminação na completa desolação do reino mortal e a sensação de morte mordiscando meus calcanhares e me impelindo para frente como um fantasma perseguindo seus próprios calcanhares, e eu mesmo correndo em busca de uma tábua de salvação de onde todos os anjos alçaram vôo em direção ao vácuo sagrado do vazio primordial, o fulgor potente e inconcebível reluzindo na radiante Essência da Mente, incontáveis terras-lótus desabrochando na mágica tepidez do céu. Eu podia ouvir um farfalhar indescritível que não estava apenas nos meus ouvidos, mas em todos os lugares, e não tinha nada a ver com sons. Percebi ter morrido e renascido incontáveis vezes, mas simplesmente não me lembrava justamente porque as transições da vida para a morte e de volta à vida são tão fantasmagoricamente fáceis, uma ação mágica para o nada, como adormecer e despertar um milhão de vezes na profunda ignorância, e em completa naturalidade. Compreendi que somente devido à estabilidade da Mente essencial é que essas ondulações de nascimento e morte aconteciam, como se fosse a ação do vento sobre uma lâmina de água pura e serena como um espelho. Senti uma satisfação suave, serpenteante como um tremendo pico de heroína numa veia principal; como aquele gole de vinho que te traz um arrepio de satisfação num fim de tarde; meus pés se arrepiaram. Pensei que ia morrer naquele exato instante. Mas não morri e caminhei uns sete quilômetros, catei dez longas baganas e as levei para o quarto de Marylou no hotel e derramei os restos de tabaco no meu velho cachimbo e o acendi (p. 215-17).Jack Kerouac (1922-1969), On the Road (1957), trad. Eduardo Bueno, Porto Alegre: L&PM, 2009
sexta-feira, 2 de abril de 2010
On the Road
Aquela noite em Harrisburg tive de dormir num banco da estação ferroviária; ao amanhecer os bilheteiros me enxotaram. Não é verdade que você começa a vida como uma criancinha crédula sob a proteção paterna? E então chega o dia da indiferença, em que o cara descobre que é um desgraçado, um miserável, fraco, cego e nu, e com a aparência de um fantasma fatigado e fatídico avança trêmulo por uma vida de pesadelo. Me arrastei para fora da estação, desfigurado. Estava fora de mim. Daquela manhã tudo o que eu podia perceber era sua própria palidez, como a palidez de um túmulo. Eu estava morto de fome, tudo que me restava em termos calóricos eram as últimas pastilhas para a garganta que eu tinha comprado meses atrás em Shelton, Nebraska; chupei-as por causa do açúcar. Eu não sabia esmolar. Arrastei-me para fora da cidade com uma força que mal me permitiu chegar aos seus limites. Sabia que seria preso se passasse mais uma noite em Harrisburg (p. 139).(...)
De repente, lá estava eu na Times Square. Tinha viajado doze mil quilômetros pelo continente americano e estava de volta à Times Square; e ainda por cima bem na hora do rush, observando com os meus inocentes olhos de estradeiro a loucura completa e o zunido fantástico de Nova York com seus milhões e milhões de habitantes atropelando uns aos outros sem cessar em troca de uns tostões, um sonho maluco - pegando, agarrando, entregando, suspirando, morrendo, e assim poderiam ser enterrados naquelas horrendas cidades-cemitério que ficam além de Long Island (p. 139-40).
(...)
Certa vez, Carlo Marx e eu nos sentamos frente a frente em duas cadeiras, joelho contra joelho, e eu lhe contei um sonho que tivera, com uma estranha figura árabe que me perseguia através do deserto; uma figura da qual eu tentava escapar mas que finalmente me alcançava pouco antes de chegar à Cidade Protetora. "Quem era"?, perguntou Carlo. Refletimos. Sugeri que talvez fosse eu mesmo vestindo um manto. Não era isso. Algo, alguém, algum espírito nos perseguia, a todos nós, através do deserto da vida, e estava determinado a nos apanhar antes que alcançássemos o paraíso. Naturalmente, agora que reflito sobre isso, trata-se apenas da morte: a morte vai nos surpreender antes do paraíso. A única coisa pela qual ansiamos em nossos dias de vida, e que nos faz gemer e suspirar e nos submetermos a todos os tipos de náuseas singelas, é a lembrança de uma alegria perdida que provavelmente foi experimentada no útero e que somente poderá ser reproduzida (apesar de odiarmos admitir isso) na morte (p. 159).
Jack Kerouac, On the Road - Pé na Estrada, Porto Alegre: L&PM, 2009 (Primeira edição em inglês: 1957)
segunda-feira, 29 de março de 2010
ON THE ROAD
Hoje, em Belo Horizonte, comprei o livro On the Road, de Jack Kerouac. Comecei a ler no ônibus, ainda na Via Expressa, e quando acordei do "transe" - depois de um intervalo que não me pareceu durar mais do que alguns minutos -, eu já chegava em Pará de Minas.Que loucura foi essa?
Fui pesquisar, e entre outras coisas descobri que a versão original de On the Road foi escrita quando o autor tinha 29 anos, entre 9 e 27 de abril de 1951, "num rolo de papel para telex, num total de quarenta metros ininterruptos de prosa em espaço um sem parágrafo, com Kerouac aditivado por doses colossais de benzedrina, suando uma camiseta atrás da outra, datilografando como um alucinado doze mil palavras quatorze horas por dia, movido por aquilo que o poeta Lawrence Ferlinghetti certa vez chamou de febre onívora de observação" (Eduardo Bueno, tradutor da obra de Kerouac).
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