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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Meia-noite e vinte


"Chegou a noite, afinal, e com ela passamos a falar de nossas vidas recentes. Antero tentou explicar as atividades de sua empresa de tendências e comunicação, ou era de publicidade e marketing, ou de gamificação e etnografia voltada pro mercado. Enfim, era algum tipo de enganação em larga escala. Mas nos últimos anos ele havia conquistado clientes como Ambev, Volkswagen, Sony e Unilever. Viajava pra São Paulo a cada duas semanas e pro exterior pelo menos uma vez por mês. [...] Ele se comportava como um guru mercadológico, ou seja, como um pateta. Sua existência, aos meus olhos, se aproximava de um esquete de humor absurdo que não tinha hora pra terminar nem reconhecia diferença entre palco e vida."

Trecho do novo romance de Daniel Galera, Meia-noite e vinte, nas livrarias a partir de 12 de setembro. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Às vezes desconfia que está infeliz



“Nos dias seguintes pensa pela primeira vez na ideia de voltar a Porto Alegre ou pelo menos sair dali e se mudar para outro lugar. Começa a dormir demais. Levanta no meio da manhã com o motor dos barcos que voltam da pescaria ou a conversa da rapaziada que vem fumar maconha na escadinha. Passa mel e óleo de gergelim numa fatia bem grossa de pão integral e mastiga sentindo o vento salgado na cara. Quando entra lua cheia o tempo não muda até a lua mudar de fase. Vento leste traz tempo ruim. Quem lhe ensinou essas coisas? Não consegue lembrar. O inverno o entusiasma por razões que não compreende. Gosta de requentar toda noite o panelão de sopa, de sentir a lufada de ar polar queimando a pele quando abre o zíper da roupa de borracha depois de nadar. Fica à vontade na estação que os outros esperam passar. Sente a presença constante de uma coisa indefinida que está demorando para acontecer. Fases assim são o mais próximo que conhece da infelicidade. Às vezes desconfia que está infeliz. Mas se ser infeliz é isso, pensa, a vida é de uma clemência prodigiosa. Pode ser que ainda não tenha visto nem sombra do pior mas se sente preparado."

Daniel Galera (1979-). Barba ensopada de sangue. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 238

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Persuasão

"Não tem nada mais ridículo do que uma pessoa tentando convencer outra. Trabalhei com persuasão minha vida toda, a persuasão é o maior câncer do comportamento humano. Ninguém nunca devia ser convencido de nada. As pessoas sabem o que querem e sabem do que precisam. Sei disso porque sempre fui especialista em persuadir e inventar necessidades, e é por isso que tá cheio de plaquinha naquela parede. Não tenta me dissuadir. Se tu me convencesse a não me matar, tu me transformaria num aleijado, eu viveria mais alguns anos derrotado, mutilado e doente, implorando por misericórdia. Isso é sério. Não tenta me persuadir. Persuadir uma pessoa a não seguir o coração é obsceno, a persuasão é uma coisa obscena, a gente sabe do que precisa e ninguém pode nos aconselhar. O que eu vou fazer tá decidido há muito tempo, antes de eu próprio ter a ideia."
Daniel Galera (1979-). Barba ensopada de sangue (2012). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 32

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Decisão



"Lembro dele e fico triste, mas a gente já nem se visitava muito, sabe? Ele tava bem estragado. Mas era um cara com um coração bom. Depois que ele se matou acho que isso ficou mais claro. Ele foi bom pra todo mundo do jeito torto dele. Nunca nos deixou faltar nada, se tu pensa bem. Lembro dele segurando minha nuca e dando conselhos. Ele pegava forte pela nuca e começava a dar a real. O pai sempre sabia o que tava fazendo. Decidia rápido e não voltava atrás. Ele tomou uma decisão."

Daniel Galera. Barba ensopada de sangue (2012). Cia das Letras, p. 408

sábado, 15 de dezembro de 2012

Barba ensopada de sangue


Tu fez muitos amigos aqui?

Alguns.

Achei que tu tava meio ermitão.

A vida aqui é normal.

Normal pra ti. Eu sinceramente não entendo por que tu precisa viver enfiado num lugar abandonado desses no meio do inverno enquanto podia estar em Porto Alegre ou até em São Paulo como o teu irmão. Eu acho que tu só tá chateado com a morte do teu pai e vai acabar voltando. Mas tu que sabe da tua vida, claro. Tu é adulto. Sei que tu gosta de ficar sozinho, desde pequenininho tu era desse jeito e sempre respeitei, mas com essa falta de vontade de fazer alguma coisa que preste da tua vida eu nunca concordei não. Vai ficar aqui dando aula de natação pruns gatos-pingados até quando? Sozinho com aquela cachorra nojenta. Ela vai morrer logo. Isso aqui não é lugar pra constituir uma vida. Nunca deixei de achar que essa tua falta de iniciativa é culpa do teu pai, ele que sempre me dizia pra te deixar em paz. Passava a mão na tua cabeça. Deixa o guri estudar educação física. Deixa o guri pedalar e nadar, é o que ele gosta. Tu herdou o pior do teu pai, que não era a garrafa nem os charutos nem a falta de respeito que tinha comigo, mas sim essa noção absurda de que vocês poderiam viver no meio do mato como se vivia mil anos atrás e que só por acaso nasceram no século vinte e um e vivem numa grande cidade onde se podem realizar coisas, criar coisas, ganhar dinheiro, viajar pelo mundo –

Eu nasci no século vinte. O pai também.

– e estudar coisas fascinantes e viver uma vida moderna, interessante, cheia de cultura e aproveitar isso pra ter uma família própria que também vai poder se beneficiar disso tudo e assim por diante. Esse tipo de coisa que os antepassados da gente acham que a gente vai fazer, sabe? Ele não me deixava cobrar isso de ti na tua adolescência e agora tu pensa que deixar a barba crescer numa quitinete de veraneio alugada, mofada e com cheiro de peixe ganhando o suficiente pra pagar a conta de luz é uma vida boa o bastante. Não é como eu vejo. Uma hora tu vai querer casar, vai querer fazer uma casa pra ti. Essa tua namorada nova é de Porto Alegre, não é? Ela quer passar o resto da vida aqui? Duvido que queira. Pretende ficar com ela? Pensa em casar com ela algum dia? Pretende ter filhos? Eles vão ter acesso a uma escola decente neste lugar? Tu me disse que ela é uma guria culta, tá fazendo mestrado. Deve ser uma pessoa com ambição. Eu já vi esse filme antes. Esse filme já passou e tu te dá mal nele.

Daniel Galera. Barba ensopada de sangue. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 282-283