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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Não podemos escapar de quem somos


"Não podemos escolher o que queremos e o que não queremos, e essa é a dura e solitária verdade. Às vezes queremos o que queremos mesmo sabendo que isso vai nos matar. Não podemos escapar de quem somos. (Uma coisa tenho que admitir sobre meu pai: pelo menos ele tentou querer a coisa sensata – minha mãe, a pasta executiva, eu – antes de enlouquecer de vez e fugir disso.)"

Donna Tartt (1963-). O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 718

Glória perversa

"Kitsey tem razão? Se seu eu mais profundo está cantando e te atraindo direto para a fogueira, o melhor é se afastar? Tapar os ouvidos com cera? Ignorar toda a glória perversa que seu coração está gritando pra você? Pôr-se no rumo que vai te levar devidamente à norma, expediente razoável e checkups médicos regulares, relacionamentos estáveis e progressão fixa na carreira, 'New York Times' e brunch no domingo, tudo com a promessa de ser de alguma forma uma pessoa melhor?"

Donna Tartt (1963-). O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 710

arte


"Porque, entre realidade, de um lado, e o ponto onde a mente toca a realidade, de outro, há uma zona intermediária, uma borda de arco-íris onde a beleza ganha vida, onde duas superfícies muito diferentes se misturam e se confundem para suprir o que a vida não oferece; e esse é o espaço onde toda arte existe, e toda mágica."

Donna Tartt (1963-). O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 718

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Nunca esqueça que você não é um deles


"...fiquei agarrando taças de champanhe dos garçons que às vezes passavam por perto, de vez em quando um canapé, minúsculos quiches, blinis em miniatura com caviar, estranhos indo e vindo, preso e assentindo educadamente em meio à multidão de bem-nascidos, ricos e poderosos...
('Nunca esqueça que você não é um deles', meu colega viciado do departamento de contabilidade tinha sussurrado no meu ouvido quando me viu socializando entre clientes importantes num leilão de arte impressionista e moderna.)
...paralisando e me virando para sorrir com grupos aleatórios quando o fotógrafo passava, detido em fragmentos de conversas extremamente tediosas à minha volta sobre jogos de golfe, política, esportes das crianças, escolas das crianças, terceira, quarta e quinta casa em Hyères, Hyannis, Paris, Londres, Jackson Hole e Júpiter (...).
Teria ficado feliz em sair daquela sala e continuar andando durante dias e meses até chegar a alguma praia do México, talvez alguma costa isolada onde poderia vagar sozinho e usar as mesmas roupas até se desintegrarem e ser o gringo doido com óculos de armação de tartaruga que vivia de consertar cadeiras e mesas."
Donna Tartt (1963-). O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 590; 594

sábado, 29 de novembro de 2014

Na escola


"...a escola era solitária. Os alunos de dezoito e dezenove anos não socializavam com os mais novos e, embora houvesse muitos da minha idade e mais novos ainda (inclusive um de doze anos esguio cujos boatos diziam ter um QI de duzentos e sessenta), suas vidas eram tão enclausuradas e suas preocupações tão tolas e com cara de estrangeiras, que era como se falassem alguma língua perdida de ensino fundamental que eu tinha esquecido. Moravam em casa com os pais; preocupavam-se com coisas do tipo curvas de desempenho, italiano no exterior e estágios de verão na ONU; surtavam se você acendia um cigarro na frente deles; eram sérios, bem-intencionados, perfeitos, sem noção da vida. Considerando o que eu tinha em comum com qualquer um deles, dava na mesma sair com crianças de oito anos."
Donna Tartt (1963-). O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 382

Cadáveres

"...só o que eu via era morte: calçadas repletas de mortos, cadáveres saindo em massa de ônibus e correndo pra casa do trabalho, nada restando de qualquer um deles dali a cem anos além de obturações, marca-passos e talvez alguns fragmentos de pano e osso."

Donna Tartt (1963-). O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 418

depressão não era a palavra certa


"...depressão não era a palavra certa. Aquilo era um mergulho que encerrava tristeza e repulsa muito além do pessoal: uma náusea doentia e encharcada contra toda a humanidade e todo o esforço humano desde o princípio dos tempos. A repugnância sofredora da ordem biológica. Velhice, doença, morte. Ninguém escapava. Até os belos eram como frutas macias prestes a estragar. E mesmo assim de alguma forma as pessoas ainda continuavam fodendo e se reproduzindo e atirando nova forragem no túmulo, produzindo mais e mais novos seres para sofrer desse jeito como se fosse algo redentor, ou bom, ou até moralmente admirável: arrastando mais criaturas inocentes para o jogo em que se perde de um jeito ou de outro. Bebês se contorcendo e mamães complacentes e drogadas arrastando os pés. 'Ah, ele não é uma gracinha? Ohhh'. Crianças gritando e escorregando no parquinho sem a menor ideia de que infernos futuros as esperam: empregos maçantes, hipotecas desastrosas, casamentos ruins, perda de cabelo, prótese de quadril, xícaras solitárias de café numa casa vazia e uma bolsa de colostomia no hospital. A maioria das pessoas parecia satisfeita com o fino esmalte decorativo e a ardilosa iluminação de palco que, às vezes, fazia a atrocidade intrínseca da desagradável situação humana parecer de certa forma mais misteriosa ou menos repugnante. As pessoas apostavam, jogavam golfe, plantavam jardins, negociavam ações, faziam sexo, compravam carros novos, praticavam ioga, trabalhavam, rezavam, redecoravam a casa, ficavam abaladas pelas notícias, preocupavam-se à toa com os filhos, fofocavam sobre os vizinhos, debruçavam-se sobre críticas de restaurantes, fundavam instituições de caridade, apoiavam candidatos, iam ao U.S. Open, jantavam, viajavam, distraíam-se com todo tipo de dispositivo, atolando-se incessantemente com informações, textos, mensagens, entretenimento vindo de todas as direções para tentar se forçar a esquecer: onde estamos, o que somos. Mas sob a luz forte não havia como disfarçar as coisas. Aquilo estava podre da cabeça aos pés. Dedicar seu tempo ao escritório; gerar aposentadoria; mastigar os lençóis e sufocar com pêssego em calda no asilo."

Donna Tartt (1963-).
O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 444-5

E todas aquelas mulheres grávidas?


"E todas aquelas mulheres grávidas? 'Ah, Theo! Ele não é adorável?' Kitsey me empurrando inesperadamente um recém-nascido de uma amiga – eu num horror todo sincero saltando pra trás como se fosse um fósforo aceso.

'Ah, às vezes leva um tempo pra nós, homens', disse complacente Race Goldfarb, observando meu desconforto, erguendo a voz acima dos bebês aos berros e tropeços numa área da sala supervisionada pela babá. 'Mas deixa eu te dizer, Theo, quando segurar o seu próprio toquinho nos braços pela primeira vez...' – acariciando a barriga da mulher grávida – 'seu coração simplesmente amolece. Porque na primeira vez em que vi o pequeno Blaine' – rosto pegajoso, cambaleando ao redor desajeitadamente – 'e olhei praqueles grandes olhos azuis, praqueles lindos olhinhos de bebê... eu fui transformado. Fiquei apaixonado. Foi, tipo, ei, amiguinho! Você está aqui para me ensinar tudo! E, estou te dizendo, diante daquele primeiro sorriso eu simplesmente me derreti todo, como acontece com todos nós, não é, Lauren?'.

'Certo', falei educado, indo até a cozinha e me servindo de uma grande dose de vodca. Meu pai também ficava absurdamente melindroso perto de mulheres grávidas (...) e, longe da sabedoria convencional de se 'derreter todo', nunca tinha conseguido suportar crianças ou bebês, muito menos toda a cena de pais corujas, mulheres sorrindo tolamente enquanto acariciavam a própria barriga e homens com crianças amarradas contra o peito. Ele simplesmente saía pra fumar ou então se esquivava sombrio pra um canto, parecendo um traficante aliciador de menores toda vez que era obrigado a participar de qualquer tipo de evento escolar ou festa infantil. Aparentemente eu tinha herdado isso dele e talvez de vovô Decker também, essa violenta aversão procriadora zunindo alto na minha corrente sanguínea; parecia algo congênito, de fábrica, genético."

Donna Tartt (1963-). O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 490

domingo, 23 de novembro de 2014

O Pintassilgo


"Às vezes eu prestava atenção na corrente no tornozelo do pintassilgo, ou pensava em como aquela era uma vida cruel para uma criaturinha viva – esvoaçando brevemente, sempre forçado a pousar no mesmo lugar desesperador."

Donna Tartt (1963-). O Pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 283

Imagem: "O Pintassilgo" (1654), de Carel Fabritius (1622-1654)

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Lendo Walden


"A outra turma de literatura inglesa avançada estava lendo 'Grandes esperanças'. A minha estava lendo 'Walden'; eu me escondi na frieza e no silêncio do livro, um refúgio do brilho de chapa metálica do deserto. Durante o intervalo da manhã (quando nos juntavam e nos faziam sair pra um pátio com cercas de arame, perto das máquinas de sanduíches), eu ficava no canto mais sombreado que podia encontrar com minha edição de bolso e, com um lápis vermelho, ia lendo e sublinhando várias frases particularmente encorajadoras: 'A massa dos homens leva uma vida de desespero mudo'. 'Um desespero estereotipado mas inconsciente se esconde mesmo sob os chamados jogos e divertimentos da humanidade'. O que Thoreau teria achado de Las Vegas: suas luzes e sua algazarra, seu lixo e seus delírios, suas projeções e fachadas ocas?"

Donna Tartt (1963-). O Pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 217

domingo, 16 de novembro de 2014

Natureza-morta


"'Quanto tempo ele levou pra pintar isso?'

Minha mãe, que até então estava um pouco perto demais da pintura, deu um passo para trás para avaliá-la (...).

'Bem, os holandeses inventaram o microscópio', disse ela. 'Eram joalheiros, fabricantes de lentes. Querem tudo o mais detalhado possível, porque até as coisas mais ínfimas significam algo. Toda vez que vir moscas ou insetos numa natureza-morta – uma pétala murcha, um ponto preto na maçã –, é uma mensagem secreta que o pintor
 está te passando. Ele está te dizendo que as coisas vivas não duram – tudo é temporário. A morte na vida. É por isso que se diz natureza-morta. Talvez você não perceba de cara, com toda a beleza e a exuberância, a manchinha de podridão. Mas se olhar melhor – ali está'."

Donna Tartt (1963-).
O Pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 27