Mostrando postagens com marcador Patrick Modiano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Patrick Modiano. Mostrar todas as postagens

sábado, 11 de junho de 2016

Accident nocturne


“Para minha grande surpresa, eu não conseguia mais ler romances policiais. Mas assim que eu abri ‘As Maravilhas celestes’, que estampava na folha de rosto esta indicação: ‘Leituras para a noite’, eu adivinhei o quanto essa obra seria valiosa para mim. Nebulosas. A Via Láctea. O mundo sideral. As constelações do Norte. O zodíaco, os universos longínquos… Enquanto eu avançava pelos capítulos, eu não sabia mais por que eu estava deitado naquela cama, naquele quarto de hotel. Eu tinha esquecido onde eu estava, em que país, em que cidade, e isso não tinha mais importância. Nenhuma droga, nem o éter, nem a morfina, nem o ópio não me teria proporcionado aquela paz que me invadia pouco a pouco. Eu só precisava virar as páginas. Desde muito tempo deveriam ter me aconselhado tais ‘Leituras’. Isso teria me evitado tormentos inúteis e noites agitadas. A Via Láctea. O mundo sideral. Enfim, o horizonte para mim se ampliava até o infinito, e havia uma doçura extrema em ver de longe ou em imaginar todas aquelas estrelas variáveis, temporárias, apagadas ou desaparecidas. Eu não era nada naquele infinito, mas eu podia enfim respirar.”

Patrick Modiano. Accident nocturne. Paris: Galllimard, 2003, p. 142-3

No original: “À ma grande surprise, je ne parvenais plus à lire les romans policiers. Mais à peine avais-je ouvert ‘Les Merveilles célestes’ qui portait sur la page de garde cette indication: ‘Lectures du soir’, que je devinais combien cet ouvrage allait compter pour moi. Nébuleuses. La Voie lactée. Le monde sidéral. Les constellations du Nord. Le zodiaque, les univers lointains… À mesure que j’avançais dans les chapitres, je ne savais même plus pourquoi j’étais allongé sur ce lit, dans cette chambre d’hôtel. J’avais oublié où j’étais, dans quel pays, dans quelle ville, et cela n’avait plus d’importance. Aucune drogue, ni l’éther, ni la morphine, ni l’opium ne m’aurait procuré cet apaisement qui m’envahissait peu à peu. Il suffisait de tourner les pages. On aurait dû, depuis longtemps, me conseiller ces ‘lectures du soir’. Cela m’aurait évité bien des tourments inutiles et des nuits agitées. La Voie lactée. Le monde sidéral. Enfin, l’horizon pour moi s’élargissait jusqu’à l’infini, et il y avait une extrême douceur à voir de loin ou à deviner toutes ces étoiles variables, temporaries, éteintes ou disparues. Je n’étais rien dans cet infini, mais je pouvais enfin respirer.”

Suicídio

"Levo a arma à minha têmpora e esfrego a lateral de minha cabeça contra o cano de metal.
É um pouco gostoso – quase como uma massagem – quando empurro o cano da P-38 com mais força no ponto mais macio do meu crânio.
É como se a P-38 fosse uma chave-mestra que tento encaixar em um antigo cadeado e quando fizer a conexão ouvirei um clique e uma porta se abrirá, eu entrarei e me salvarei.
– Gire a chave, Leonard – murmuro para mim mesmo. – Você só precisa apertar o dedo indicador e tudo ficará bem. Seus pensamentos vão parar. Sem mais problemas. Você poderá finalmente apenas descansar.
Estou a ponto de puxar o gatilho quando outra pergunta aleatória surge em minha cabeça.
Pergunto-me se Linda já se lembrou de que hoje é meu aniversário.
Por alguma razão, isso me parece importante agora e quanto mais eu me pergunto, mais percebo que não posso morrer sem saber a resposta.
Baixo a P-38 e verifico as mensagens de voz em meu telefone.
Não há nenhuma.
Verifico o meu e-mail.
Nada.
Nem qualquer mensagem de texto.
Eu rio – quero dizer, eu uivo, porque parece tão apropriado por algum motivo.
Que aniversário esse.
Que vida.
Ergo a P-38 e volto a pressionar o cano em minha têmpora.
Fecho os olhos.
Aperto o gatilho."

Matthew Quick (1973-). Perdão, Leonard Peacock. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013. p. 166-7

Esporro

"...eu só sei que pra cobrir a fúria da arrancada do seu carro eu quase estourei a boca com o meu 'foda-se' e não vendo mais as pernas do seu Antônio, só o arbusto se mexendo, mobilizei todos os meus foles e berrei um 'puta-que-pariu-todo-mundo!', rasgando o peito, rebentando co'a jugular, me regalando grandemente co'a volúpia do meu escândalo, notando uma janela recatada da colina em frente se abrir e fechar numa só ventania, mas eu berrava 'fodam-se' 'fodam-se' e com isso ia pondo pra fora o bofe, a carniça e o bucho, enquanto via surpreso e comovido o meu avesso, e sentia até vontade de virar cambotas de macaco no gramado."

Raduan Nassar (1935-). Um copo de cólera (1978). São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 78