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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Lobo da Estepe



“Como não haveria de ser eu um Lobo da Estepe e um mísero eremita em meio a um mundo cujos objetivos não compartilho, cuja alegria não me diz respeito! (...) E, de fato, se o mundo tem razão, se essa música dos cafés, essas diversões em massa e esses tipos americanizados que se satisfazem com tão pouco têm razão, então estou louco. Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes – aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem alegria nem alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível.”

Hermann Hesse (1877-1962). O Lobo da Estepe (1927). Rio de Janeiro: BestBolso, 2009

Solidão



“...como admirava, então, aquelas enevoadas tardes de outono ou de inverno! Como respirava, ansioso e embevecido, a sensação de isolamento e melancolia, quando, noite adentro, enrolado em meu capote, atravessava as chuvas e tempestades de uma natureza hostil e revoltada, e caminhava errante, pois naquele tempo já era só, mas ia repleto de profunda satisfação e de versos, que mais tarde escrevia, em meu quarto, à luz de uma vela, sentado à beira da cama.”

Hermann Hesse (1877-1962). O Lobo da Estepe (1927). Rio de Janeiro: BestBolso, 2009

sábado, 17 de agosto de 2013

Uma confraria de tolos


"Mercadores e impostores ganharam o controle da Europa, chamando de 'Iluminismo' a seu insidioso evangelho. O dia do gafanhoto havia chegado, mas das cinzas da humanidade não se elevou nenhuma Fênix. O humilde e piedoso Pedro, o Camponês, foi à cidade vender seus filhos aos senhores da Nova Ordem, para objetivos que podemos qualificar de questionáveis, na melhor hipótese. Ampliou-se o movimento giratório; rompeu-se a Grande Cadeia do Ser, como uma série de clipes de papel montados em fileira por um idiota babão; a morte, a destruição, a anarquia, o progresso, a ambição e o autoaperfeiçoamento seriam o novo destino de Pedro. E este seria um destino cruel: agora se defrontava com a perversão de ser obrigado a IR TRABALHAR."

John Kennedy Toole (1937-1969). Uma confraria de tolos. Rio de Janeiro: BestBolso, 2012. p. 42

domingo, 4 de agosto de 2013

L'ennemi


"Le 24 mars 1999, les passagers qui attendaient le départ du vol pour Barcelone assistèrent à un spectacle sans nom. Comme l'avion en était à sa troisième heure de retard inexpliqué, l'un des voyageurs quitta son siège et vint se fracasser le crâne à plusieurs reprises sur l'un des murs du hall. Il était animé d'une violence si extraordinaire que personne n'osa s'interposer. Il continua jusqu'à ce que mort s'ensuivît.

Les témoins de ce suicide inqualifiable précisèrent un détail. Chaque fois que l'homme venait se taper la tête contre la paroi, il ponctuait son geste d'un hurlement. Et ce qu'il criait, c'était:

- Libre! Libre! Libre!"

Amélie Nothomb. Cosmétique de l'ennemi. Paris: Albin Michel, 2001, p. 123

L'auteur parle

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Demian (II)


"Muitas vezes havia brincado com imagens do futuro e havia entressonhado os destinos que me estavam reservados, como poeta talvez ou talvez como profeta, como pintor, ou de que modo fosse. E tudo isso era um equívoco. Eu não existia para fazer versos, para rezar ou para pintar. Nem eu nem nenhum homem existíamos para isso. Tudo era secundário. O verdadeiro ofício de cada um era apenas chegar até si mesmo. Depois, podia acabar poeta ou louco, profeta ou criminoso. Isso já não era coisa sua, e além de tudo, em última instância, carecia de todo alcance. Sua missão era encontrar seu próprio destino, e não qualquer um, e vivê-lo interiormente até o fim. Tudo o mais era ficar a meio caminho, era retroceder para refugiar-se no ideal da coletividade, era adaptação e medo da própria individualidade interior. Essa nova imagem ergueu-se claramente diante de mim, terrível e sagrada, mil vezes vislumbrada, talvez já expressa alguma vez, mas somente agora vivida. Eu era um impulso da natureza, um impulso em direção ao incerto, talvez do novo, talvez do nada, e minha função era apenas deixar que esse impulso atuasse, nascido das profundezas primordiais, sentir em mim sua vontade e fazê-lo meu por completo. Esta, e somente esta, era a minha função.

Eu havia provado a fundo a solidão. Mas agora pressentia uma solidão ainda mais profunda, e pressentia-a inevitável." (p. 148)
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"Quinze dias depois matriculei-me na Universidade de H. Tudo nela decepcionou-me. O curso de História da Filosofia, que comecei a frequentar, pareceu-me tão vulgar e trivial como as atividades dos jovens estudantes. Tudo seguia padrões rígidos, todos faziam as mesmas coisas, e a calorosa alegria das faces juvenis tinha uma expressão lamentavelmente vazia e impessoal. Quanto a mim, desfrutava minha liberdade; vivia tranquila e ordenadamente nas proximidades das velhas muralhas da cidade e tinha sobre a mesa um par de volumes de Nietzsche. Vivia com o filósofo, sentia a solidão de sua alma, vislumbrava o destino que o impulsionava sem tréguas, sofria com ele e me sentia feliz sabendo de alguém que havia seguido inexoravelmente seu caminho.

Uma noite, saí a passear pelas ruas da cidade, sob a rude carícia do ar outonal, e ouvi os cantos que os grupos de estudantes entoavam nas cervejarias. Pelas janelas abertas saía em nuvens a fumaça do tabaco e, em denso retumbar, o canto sonoro e rítmico, mas sem asas, inanimado e uniforme.

Parado numa esquina, ouvia ressoar numa das cervejarias próximas aquela alegria juvenil religiosamente exercitada todas as noites. Em toda a parte dominava a comunidade, o instinto gregário, a repulsa ao destino e o refúgio no recolhimento do rebanho." (p. 154-5)
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"Saboreando minha alegria, empreendi o longo caminho de volta à minha casa na fria noite outonal. Aqui e ali tropecei ainda com estudantes que se retiravam para a casa fazendo algazarra e cambaleando. Não raro tinha comparado sua maneira singular de divertir-se com a minha vida solitária, certas vezes com alguma inveja e em outras com desprezo. Mas nunca havia sentido como hoje, com plena serenidade e secreta energia, quão pouco me importava aquilo e quão distante e perdido era para mim aquele mundo. Lembrei-me dos honrados burgueses de minha cidade natal, velhos e dignos senhores, que conservavam a recordação de seu tempo de estudantes como a memória de um paraíso bem-aventurado e consagravam à perdida 'liberdade' daqueles anos um culto como o que os poetas e outros românticos dedicam à sua infância. Em toda parte era o mesmo! Todos os homens buscavam a 'liberdade' e a 'felicidade' num ponto qualquer do passado, só de medo de ver erguer-se diante deles a visão da responsabilidade própria e da própria trajetória. Durante alguns anos farreavam e bebiam, para logo submeterem-se ao rebanho e se converterem em senhores graves ao serviço do Estado." (p. 158-9)

Hermann Hesse (1877-1962). Demian (1919). 21ª ed. Rio de Janeiro: Record

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Demian


“Às vezes contávamos um para o outro os nossos sonhos. Pistórius sabia interpretá-los. Recordo agora um deles, para o qual encontrou uma explicação singular. Sonhei que estava voando, mas não por faculdade própria, e sim lançado através dos ares por impulso violento que não podia dominar. A sensação desse vôo, deliciosa a princípio, não tardou em tranformar-se em medo ao ver-me disparado a alturas vertiginosas. Aí descobria satisfeito que podia regular a ascensão e a descida, conforme retivesse ou deixasse escapar o hálito.

Sobre isso disse Pistórius: ‘O impulso que te faz voar é o nosso grande patrimônio humano, comum a todos. É o sentimento de relação com as raízes de todas as forças. Mas tememos abandonar-nos a ele. É tão perigoso! Por isso quase todos renunciam de bom grado a voar e preferem caminhar, pela escala burguesa, apoiados nos preceitos legais. Tu não. Tu continuas voando corajosamente. E súbito descobres algo maravilhoso: percebes que pouco a pouco te vais assenhoreando do impulso e que junto com a magna força geral que te arrasta há outra força minúscula e sutil que te é própria: um órgão e um timão. Sem ela vaguearias ao acaso pelos ares, como acontece, por exemplo, com os loucos. Eles têm vislumbres mais profundos que os da escala burguesa; mas não possuem a chave, carecem de um timão que lhes permita marcar o rumo, e flutuam à deriva nos espaços. Mas tu não, Sinclair; tu consegues por meio de um órgão novo, de um regulador respiratório. E agora podes ver quão pouco pessoal é tua alma em seus estratos mais profundos. Tal regulador não é, nem de leve, uma invenção tua! É o órgão de equilíbrio dos peixes, a bexiga natatória. Ainda existem hoje algumas espécies de peixes, estranhas e conservadoras, nas quais a bexiga natatória é ao mesmo tempo uma espécie de pulmão que, em determinadas circunstâncias, serve efetivamente para respirar. Exatamente da mesma forma como utilizas no sonho os pulmões para regular teu vôo’.” (p. 127-8)
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“- Afirmaste certa vez – disse-me um dia – que a música te agradava por ser totalmente destituída de moralidade. Está certo. Mas o que importa é que também tu não sejas moralista. Não há por que te comparares com os demais, e se a natureza te criou para morcego, não deves aspirar a ser avestruz. Às vezes te consideras por demais esquisito e te reprovas por seguires caminhos diversos da maioria. Deixa-te disso. Contempla o fogo, as nuvens e quando surgirem presságios e as vozes soarem em tua alma abandona-te a elas sem perguntares se isso convém ou é do gosto do senhor teu pai ou do professor ou de algum bom deus qualquer. Com isso só conseguimos perder-nos, entrar na escala burguesa e fossilizar-nos. Meu caro Sinclair, nosso deus se chama Abraxas e é deus e demônio a um só tempo; sintetiza em si o mundo luminoso e o obscuro. Abraxas nada tem a opor a qualquer de teus pensamentos e a qualquer de teus sonhos. Não te esqueças disso.” (p. 132)
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“Também não quero dizer que devas fazer simplesmente tudo aquilo que te ocorra. Contudo, não deves tentar afastar essas ocorrências, que muitas vezes trazem consigo um sentido perfeito, nem afugentá-las com pretextos moralizantes, pois é quando se tornam verdadeiramente nocivas. Em lugar de crucificar-te a ti mesmo ou a outrem, o melhor é bebermos todos o mesmo cálice, elevando solenemente nosso espírito e pensando no mistério do sacrifício. Também, sem necessidade desses atos, podemos tratar com amor e tolerância a nossos instintos, que então nos mostram seu sentido... Quando te ocorrer de novo algo verdadeiramente insensato e pecaminoso, quando sentires a tentação de matar alguém ou cometer alguma obscenidade monstruosa, pensa que é Abraxas quem devaneia assim em teu interior! O homem a quem quiseres matar nunca será este ou aquele; esses não passam de disfarces. Quando odiamos um homem, odiamos em sua imagem algo que trazemos em nós mesmos. Também o que não está em nós mesmos nos deixa indiferentes.” (p. 134-5)

Hermann Hesse. Demian (1919). 21ª ed. Rio de Janeiro: Record

terça-feira, 2 de julho de 2013

El túnel


"Creo haber dicho que me he propuesto hacer este relato en forma totalmente imparcial y ahora daré la primera prueba, confesando uno de mis peores defectos: siempre he mirado con antipatía y hasta con asco a la gente, sobre todo a la gente amontonada; nunca he soportado las playas en verano. Algunos hombres, algunas mujeres aisladas me fueron muy queridos, por otros sentí admiración (no soy envidioso), por otros tuve verdadera simpatía; por los chicos siempre tuve ternura y compasión (sobre todo cuando, mediante un esfuerzo mental, trataba de olvidar que al fin serían hombres como los demás); pero, en general, la humanidad me pareció siempre detestable. No tengo inconvenientes en manifestar que a veces me impedía comer en todo el día o me impedía pintar durante una semana el haber observado un rasgo; es increíble hasta qué punto la codicia, la envidia, la petulancia, la grosería, la avidez y, en general, todo ese conjunto de atributos que forman la condición humana pueden verse en una cara, en una manera de caminar, en una mirada. Me parece natural que después de un encuentro así uno no tenga ganas de comer, de pintar, ni aun de vivir. Sin embargo, quiero hacer constar que no me enorgullezco de esta característica: sé que es una muestra de soberbia y sé, también, que mi alma ha albergado muchas veces la codicia, la petulancia, la avidez y la grosería. Pero he dicho que me propongo narrar esta historia con entera imparcialidad, y así lo haré."

Ernesto Sabato. El túnel (1948). Barcelona: Austral, 2011, p. 47-48

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Siddhartha (II)



From that hour Siddhartha ceased to fight against his destiny. There shone in his face the serenity of knowledge, of one who is no longer confronted with conflict of desires, who has found salvation, who is in harmony with the stream of events, with the stream of life, full of sympathy and compassion, surrendering himself to the stream, belonging to the unity of all things. (p. 136)

“When someone is seeking,”, said Siddhartha, “it happens quite easily that he only sees the thing that he is seeking; that he is unable to find anything, unable to absorb anything, because he is only thinking of the thing he is seeking, because he has a goal, because he is obsessed with his goal. Seeking means: to have a goal; but finding means: to be free, to be receptive, to have no goal. You, O worthy one, are perhaps indeed a seeker, for in striving towards your goal, you do not see many things that are under your nose.” (p. 140)

Hermann Hesse, Siddhartha (1922), Bantam Books

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Siddhartha


"At times he heard within him a soft, gentle voice, which reminded him quietly, complained quietly, so that he could hardly hear it. Then he suddenly saw clearly that he was leading a strange life, that he was doing many things that were only a game, that he was quite cheerful and sometimes experienced pleasure, but that real life was flowing past him and did not touch him. Like a player who plays with his ball, he played with his business, with the people around him, watched them, derived amusement from them; but with his heart, with his real nature, he was not there. His real self wandered elsewhere, far way, wandered on and on invisibly and had nothing to do with his life."

"You are like me; you are different from other people. You are Kamala and no one else, and within you there is a stillness and sanctuary to which you can retreat at any time and be yourself, just as I can. Few people have that capacity and yet everyone could have it."

Hermann Hesse, Siddhartha (1922), Bantam Books, p. 71

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Lobo da Estepe

"Vi a mim mesmo arrastando-me pelo deserto do além, como um peregrino morto de cansaço, carregado com os inúmeros livros inúteis que havia escrito, com todos os artigos e opúsculos que havia publicado, seguido de um exército de leitores que se viram obrigados a tragar tudo aquilo. Meu Deus! E além disso, ali estavam também Adão e a maçã, e toda a restante culpa hereditária. Tinha de purgar tudo aquilo e só então poder-se-ia levantar a questão se havia algo pessoal, algo próprio que considerar, ou se todos os meus atos e suas conseqüências não seriam mais que espumas boiando no mar, ondulação sem sentido na torrente dos acontecimentos".

Hermann Hesse (1927)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O Lobo da Estepe

"Nunca existira um homem com tão profunda e apaixonada necessidade de independência como ele. Em sua juventude, quando ainda era pobre e tinha dificuldades em ganhar a vida, preferia passar fome e andar malvestido a sacrificar uma parcela de sua independência. Nunca se vendera por dinheiro ou vida fácil às mulheres ou aos poderosos, e mil vezes desprezara o que aos olhos do mundo representava vantagens e regalias, a fim de salvaguardar sua liberdade. Nenhuma idéia lhe era mais odiosa e terrível do que a de exercer um cargo, submeter-se a horários, obedecer a ordens. Um escritório, uma repartição, uma sala de audiência, eram-lhe tão odiosos quanto a morte, e o que de mais espantoso podia imaginar em sonhos seria o confinamento num quartel. Sabia subtrair-se a todas essas coisas, à custa de grandes sacrifícios, e nisso residiam sua força e virtude, nisso era inflexível e incorruptível, nisso seu caráter era firme e retilíneo. Só que a essa virtude estavam intimamente ligados seu sofrimento e seu destino".

"Se examinarmos agora a alma do Lobo da Estepe, veremos que ele é distinto do burguês por causa do alto desenvolvimento de sua individualidade, pois toda individualização superior se orienta para o egotismo e propende portanto ao aniquilamento. Vemos que tem em si um forte impulso tanto para o santo quanto para o libertino; portanto, não pode tomar o impulso necessário para atingir o espaço livre e selvagem, por debilidade ou inércia, e permanece desterrado na difícil e maternal constelação da burguesia. Esta é sua situação no espaço do mundo e sua sujeição. A maior parte dos intelectuais e dos artistas pertence a esse tipo. Só os mais fortes entre eles ultrapassam a atmosfera da terra da burguesia e logram entrar no espaço cósmico; todos os demais se resignam ou selam pactos, pertencem a ela, reforçam-na e glorificam-na, pois em última instância têm de professar sua crença para viver. A vida desse infinito número de pessoas não atinge o trágico, mas apenas um infortúnio considerável e uma desventura, em cujo inferno seus talentos engendram e frutificam. Os poucos que se libertaram buscam sua recompensa no absoluto e sucumbem no esplendor".

"Quando se falava com ele e, o que não era habitual, ele se deixava ir além dos limites do convencional e dizia coisas pessoais e singulares, então a palestra passava imediatamente a subordinar-se a ele, uma vez que havia pensado mais do que os outros homens e tinha nas questões espirituais aquela quase fria objetividade, aquela segurança de pensar e de saber que só possuem os homens verdadeiramente espirituais, que carecem de toda ambição, que nunca desejam brilhar nem persuadir aos demais nem arvorar-se em donos da verdade".

Fala o Lobo da Estepe: "Ao mesmo tempo pensava comigo: assim como agora me visto e saio, vou visitar o professor e troco com ele algumas frases amáveis, mais ou menos falsas, tudo isso contra a minha vontade; assim procede a maioria dos homens que vivem e negociam todos os dias, todas as horas, forçadamente e sem na realidade querê-lo; fazem visitas, mantêm conversações, sentam-se durante horas inteiras em seus escritórios e fábricas, tudo à força, mecanicamente, sem vontade; tudo poderia ser realizado com a mesma perfeição por máquinas ou não se realizar; e essa mecânica eternamente continuada é o que lhes impede, assim como a mim, de exercer a crítica de sua própria vida, reconhecer e sentir sua estupidez e superficialidade, sua desesperada tristeza e solidão. E têm razão, muitíssima razão, os homens que assim vivem, que se divertem com seus brinquedinhos, que correm atrás de seus assuntos, em vez de se oporem à mecânica aflitiva e olharem desesperados o vazio, como faço eu, homem marginalizado que sou. Se às vezes desprezo e até me burlo dos homens nestas páginas, não será por isso que os culpe de minha indigência pessoal! Mas eu, que cheguei tão longe e estou à margem da vida, de onde se tomba à escuridão sem fundo, cometo uma injustiça e minto, se pretendo enganar-me e enganar os outros, como se funcionasse também para mim aquela mecânica, como se continuasse a pertencer àquele mundo nobre e infantil do eterno jogo!"

Hermann Hesse, O Lobo da Estepe (Der Steppenwolf, 1927)

"Fui ler aos treze anos Hermann Hesse e tomei um choque: O Lobo na Estepe, ou da Estepe, não sei; aí comecei a escrever um conto que não acabava nunca mais; terminei rasgando, jogando fora...".

Clarice Lispector, em entrevista a Júlio Lerner (1977): Clique aqui