Mostrando postagens com marcador Affonso Romano de Sant'Anna. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Affonso Romano de Sant'Anna. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Inveja

"O que fazer da inveja
desabrida
de repente
desferida?
O que fazer da inveja
malgerida
ferida entreaberta
no olho voluptuoso
do invejoso
que quanto mais cobiça
a pele alheia
mais se sente leproso?


Sou pobre de tudo,
de espírito muito.
Cobiçar o que em mim?
A paisagem que persigo?
A esperança que rumino?
O meu trabalho no eito?
O leite da mulher amada
na palha onde me deito?

Não mereço a glória
de vossa fúria.
Advirto, é desperdício.
Deve haver para vossa inveja
melhor alvo e exercício.

De qualquer jeito,
como quem não quer nada,
saio meio de esguelha
pondo um dente de alho na janela
e um ramo de arruda na orelha."

Affonso Romano de Sant'Anna (1937-). Poesia Reunida (1965-1999). Volume 2. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 139

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Suicídio


"O suicídio
não é algo pessoal.
Todo suicida
nos leva
ao nosso funeral.

O suicida
não é só cruel consigo.
É cruel, como cruel
só sabe ser
– o melhor amigo.

O suicida
é aquele que pensa
matar seu corpo a sós.
Mas o seu eu se enforca
num cordão de muitos nós.

O suicida
não se mata em nossas costas.
Mata-se em nossa frente,
usando seu próprio corpo
dentro de nossa mente.
[...]
Mais que o espectador
que saiu no entreato,
o suicida
é um ator
que questionou o teatro.
[...]
O suicida, enfim,
é um poeta perverso
e original
que interrompeu seu poema
antes do ponto final."

Affonso Romano de Sant'Anna (1937-). Poesia Reunida (1965-1999). Volume 2. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 45-46

domingo, 19 de maio de 2013

Meu jardim



"Meu conceito de jardim
determina 
o que é praga 
ao redor de mim."

Affonso Romano de Sant'Anna. Poesia reunida - Volume 2. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 277

Artesão



"Quero trabalhar a minha morte e não deixam.
Obrigam-me a morrer a morte alheia
e a viver
a entrecortada vida com artigos, orgasmos, aulas
e a asfixiante dispersão urbana.

Minha morte, no entanto, me chama, me espera.
Às vezes, desconfiada, impaciente outras.
Quer dedicação. Preciso trabalhá-la.
Não como o suicida
e seu compulsivo equívoco,
mas como o artesão."

Affonso Romano de Sant'Anna. Poesia reunida - Volume 2. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 217

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Entre castelos


Tenho conhecido castelos à beira-mar,
castelos no deserto, castelos nos rochedos
castelos na neblina, castelos nas florestas.
No entanto, nunca quis ser rei.

Entre seteiras, torres
pontes levadiças, calabouços
ouço ecos de festins,
duelos de espadas,
roçar de longas saias,
lamentos, cochichos de aias,
tropel de notícias e sussurros
de traição.

Que súdito sou, vagando
nesses adros taciturno, boquiaberto?
Que notícias de guerra trago?
Que segredo entrego ao rei?

Affonso Romano de Sant'Anna. Poesia Reunida (1965-1999) - Volume 2. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 258-259

Foto: Castelo de Loches (França), construído no século IX

Arte mortal


Anda me cercando a morte
por vários lados
abrindo alçapões
até dentro de casa.
Anda me espreitando
querendo intimidades
dentro dos lençóis.

Anda num vai-e-vem
de comadre sirigaita. Vem
lança um boato e parte. Vem
toda manhã
deixa a mensagem
no jornal do espelho
inscrevendo
no meu rosto
sua antiobra de arte.

Affonso Romano de Sant'Anna. Poesia Reunida (1965-1999) - Volume 2. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 280

Sedução mortal


Olho as coisas com um desprendimento
com uma ternura angelical.
Olho-me já de longe, etéreo,
um centímetro acima do instinto vital.
A morte me seduz
e a ela me consagro
com um desprendimento fatal.

Affonso Romano de Sant'Anna. Poesia Reunida (1965-1999) - Volume 2. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 286

Desmonte


Desmontar o acessório.
Assumir as proporções próprias.
Não ser mais que o barco
ou montaria
para evitar naufrágio e ranhuras
no cruzamento
com desbordantes criaturas.

Tirar dos ombros
esse peso: descarregá-lo.
Fardo.

Como se descarrega
um morto, um fantasma
um eu inócuo, torto."

(...)

Affonso Romano de Sant'Anna. Poesia Reunida (1965-1999) - Volume 2. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 145

Vício antigo


Como é que um homem
com 52 anos na cara
se assenta ante uma folha em branco de papel
para escrever poesia?

Não seria melhor investir em ações?
Negociar com armas?
Exportar alimentos?
Ser engenheiro, cirurgião
ou vender secos e molhados num balcão?

Como é que um homem
com 52 anos na cara
continua diante de uma folha em branco
espremendo seu já seco coração?

Affonso Romano de Sant'Anna. Poesia reunida (1965-1999) - Volume 2. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 203-4

Estão se adiantando


Eles estão se adiantando, os meus amigos.
Sei que é útil a morte alheia
para quem constrói seu fim.
Mas eles estão indo, apressados,
deixando filhos, obras, amores inacabados
e revoluções por terminar.

Não era isto o combinado.

Alguns se despedem heróicos,
outros serenos. Alguns se rebelam.
O bom seria partir pleno.

O que faço? Ainda agora
um apressou seu desenlace.
Sigo sem pressa. A morte
exige trabalho, trabalho lento
como quem nasce.

Affonso Romano de Sant'Anna. Poesia reunida (1965-1999) - Volume 2. Porto Alegre: L&PM, 2007. p. 218