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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Ponto de vista

"Estamos vendo a imagem da cidade.

Ela é captada pelo olhar de um pássaro notívago a sobrevoar bem alto no céu. A cidade, em perspectiva, é um ser vivo gigante; um aglomerado de vidas que se entrelaçam. Inúmeros vasos sanguíneos estendem-se às mais recônditas extremidades do corpo, circulando o sangue e substituindo células, ininterruptamente. Através deles, novas informações são transmitidas e as antigas, recolhidas; novos desejos de consumo são transmitidos e os antigos, recolhidos; novas contradições são transmitidas e as antigas, recolhidas. Esse corpo, ritmado pela pulsação, emite por toda parte pequenos lampejos de luz, produz calor e se move discretamente. A meia-noite se aproxima e, apesar de o horário de pico já ter passado, o metabolismo basal – para manutenção da vida – continua, sem sinais de desaceleração. O gemido da cidade soa como uma melodia em baixo contínuo. Um gemido monótono e constante que incuba a percepção do porvir."

Haruki Murakami (1949-). Após o anoitecer (2004). Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p. 7

Após o anoitecer

"Sente que uma parte do chão que a sustenta está sendo arrancada. O peso existente no interior de seu corpo desaparece e ele se transforma numa caverna. Os órgãos, a sensibilidade, os músculos e a memória, tudo que, até então, fazia com que ela fosse ela aos poucos e habilmente vai sendo retirado por alguém. Em decorrência disso, ela sabe que já não é mais nada, a não ser uma existência conveniente que só serve de passagem para as coisas exteriores. Um profundo sentimento de isolamento apodera-se dela, deixando-a totalmente arrepiada. Ela grita bem alto: 'Não! Eu não quero que me transformem nisso!' Mas, apesar de achar que está gritando, na prática a voz que lhe sai da garganta é baixinha, um quase nada."

Haruki Murakami (1949-). Após o anoitecer (2004). Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p. 119

Sombra

"– Sabe, a nossa vida não se divide simplesmente em claro e escuro. Entre essas duas coisas existe uma zona intermediária chamada sombra. Reconhecer e compreender as diversas tonalidades que compõem essa sombra é o que faz uma inteligência saudável. E para adquirir essa inteligência saudável é necessário tempo e esforço. Eu não acho que você seja uma pessoa com personalidade sombria.
Mari pensa sobre o que Takahashi acaba de lhe dizer.
– Mas sou covarde.
– Não mesmo. Uma menina covarde jamais sairia sozinha pela cidade, ainda por cima à noite. Você veio até aqui em busca de algo, não é mesmo?
– Aqui? – pergunta Mari.
– Isso mesmo. Um lugar diferente do que está acostumada; um lugar distante de seu território."

Haruki Murakami (1949-). Após o anoitecer (2004). Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p. 190

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O incolor Tsukuru Tazaki




“De julho do segundo ano da faculdade até janeiro do ano seguinte, Tsukuru Tazaki viveu pensando praticamente só em morrer. Nesse meio-tempo ele completou vinte anos, mas o marco não significou nada em especial para ele. Naquela época, acabar com a própria vida lhe parecia a coisa mais natural e lógica a ser feita. Até hoje ele não sabe bem por que não deu o passo derradeiro. Afinal, naquele momento, atravessar a soleira que separa a vida e a morte era mais fácil do que engolir um ovo cru.”

Haruki Murakami. O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 7

sexta-feira, 24 de julho de 2015

O incolor Tsukuru Tazaki



"Deveria ter morrido naquele momento, Tsukuru Tazaki costuma pensar. Assim, este mundo que existe aqui e agora não existiria mais. Isso lhe parece fascinante. O fato de não existir o mundo do agora, o fato de não ser mais real o que aqui é considerado realidade. O fato de que, assim como ele não existiria mais neste mundo, este mundo também não existiria mais para ele.

Mas, ao mesmo tempo, Tsukuru não compreendeu de verdade por que nessa época precisou chegar tão perto da morte, até o extremo. Havia sim uma razão concreta, mas por que o fascínio pela morte era tão intenso, a ponto de envolvê-lo por cerca de seis meses? Envolver: sim, essa é a palavra apropriada. Como o personagem bíblico que foi engolido por uma enorme baleia e sobreviveu na barriga dela, Tsukuru caiu no estômago da morte e passou dias sem ver o tempo passar, dentro de um vazio escuro e estagnado.

Ele viveu esse período como um sonâmbulo, ou como um defunto que ainda não se deu conta de que está morto. Acordava quando o sol se erguia, escovava os dentes, vestia a roupa que encontrava por perto, pegava o trem para ir à faculdade e anotava as aulas. (...) ele apenas agia seguindo o cronograma à sua frente. Não falava com ninguém a não ser que fosse necessário e, quando voltava para o apartamento onde morava sozinho, ele se sentava no chão, encostava-se à parede e pensava sobre a morte ou a ausência da vida. À sua frente um abismo escuro abria a boca grande que dava diretamente ao centro da Terra. Lá se via o vazio que revolteava na forma de duras nuvens e se ouvia um profundo silêncio que comprimia os tímpanos."

Haruki Murakami (1949-). O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 7-8

Um período para enlouquecer

"É curioso; parece que, mesmo em uma vida aparentemente pacata e consistente, sempre há um período de grande colapso. Um período para enlouquecer, talvez possamos dizer. As pessoas devem precisar de um marco como esse na vida."

Haruki Murakami (1949-). O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 71

Creative business seminar

"(...) começou um negócio que mistura seminários de desenvolvimento pessoal e centro de treinamento de empresas. Ele o chama de 'creative business seminar'. Ele desfruta de um sucesso surpreendente hoje, tem um escritório em um arranha-céu no centro de Nagoia e emprega considerável número de funcionários. (...)

– 'Creative business seminar'?

– A denominação é nova, mas o conteúdo basicamente não muda de um curso de desenvolvimento pessoal – disse Sara. – Em resumo, é um curso de lavagem cerebral rápido e acessível para formar trabalhadores obedientes e dedicados. Em vez de livros sagrados usa manuais, e em vez da iluminação ou do paraíso promete promoções e altos salários. Uma nova religião da era do pragmatismo."

Haruki Murakami (1949-). O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 133-4

Na estação



"Com alto-falante na mão, o funcionário da estação continua gritando, implorando, o sinal de partida do trem continua tocando quase que ininterruptamente e as máquinas das catracas continuam fazendo a leitura silenciosa das vastas informações dos cartões, dos bilhetes e dos passes. Os longos trens que chegam e partem em ciclos de alguns segundos vomitam as pessoas sistematicamente como se fossem gado acostumado e paciente, para em seguida sugarem tantas outras, e partem para a próxima estação fechando as portas impacientemente. Se alguém tiver o próprio pé pisado pela pessoa de trás no meio da multidão, subindo ou descendo a escada, e perder um dos sapatos, será impossível recuperá-lo. Ele irá desaparecer engolido pela areia movediça violenta chamada horário de pico."

Haruki Murakami (1949-). O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 308

um mero engenheiro

"Quantas horas as pessoas gastam no trajeto para o trabalho no dia a dia? Tsukuru tenta mensurar. Em média uma hora a uma hora e meia só para ir, ele calcula. Quando um assalariado comum que trabalha no centro de Tóquio, casado e com um ou dois filhos, deseja comprar uma casa, inevitavelmente precisa ser no 'subúrbio', e isso o faz levar esse tempo nos deslocamentos. Nas vinte e quatro horas do dia, cerca de duas a três horas são gastas 'somente' no ato de se locomover em função do trabalho. No trem lotado, se a pessoa tiver sorte talvez consiga ler um jornal ou um livro de bolso. Talvez seja até possível estudar espanhol ou ouvir a sinfonia de Haydn no iPod. Dependendo da pessoa, talvez consiga ficar absorta em longas especulações metafísicas, de olhos fechados. Mas, em geral, deve ser difícil considerar que essas duas ou três horas do dia sejam o momento mais valioso e de melhor qualidade da vida de cada um. Quantas horas da vida são tomadas em função da locomoção (provavelmente) sem sentido e desaparecem? Em que medida esse tempo esgota e desgasta as pessoas?

Mas esse não é um problema com que Tsukuru Tazaki, que trabalha em uma companhia ferroviária e lida principalmente com o projeto de estações, deva se preocupar. Cada pessoa deve cuidar da sua vida. Afinal, a vida é 'delas', e não de Tsukuru Tazaki. Cada pessoa deve julgar individualmente quanto a sociedade em que vive é feliz ou infeliz. O que ele precisa pensar é apenas em como guiar de forma adequada e segura o fluxo de certo número de pessoas. Não são exigidas dele reflexões. Só lhe é exigida eficácia. Ele não é um pensador nem um sociólogo, mas um mero engenheiro."

Haruki Murakami (1949-). O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 309-310

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

No meio desse fluir


"Cada estação traz mudanças distintas às plantas e aos animais que cercam o rio. Nuvens de todos os tamanhos aparecem e se movem, e a superfície do rio, iluminada pelo sol, reflete essas formas brancas conforme vêm e vão, às vezes de um modo fiel, às vezes distorcido. Sempre que mudam as estações, a direção do vento oscila como se alguém houvesse apertado um interruptor. E corredores conseguem detectar cada detalhe na mudança sazonal quando o vento toca em nossa pele, no cheiro e na direção do vento. No meio desse fluir, tenho consciência de mim mesmo como uma minúscula peça no gigantesco mosaico da natureza. Sou apenas um fenômeno natural substituível, como a água do rio que corre sob a ponte na direção do mar."

Haruki Murakami (1949-). Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 81

Pontos positivos


"Dezesseis é uma idade intensamente problemática. Você se preocupa com coisas ínfimas, não consegue se situar de uma forma objetiva, torna-se proficiente em habilidades estranhas e sem sentido e é subjugado por complexos inexplicáveis. À medida que fica mais velho, porém, por meio de tentativa e erro você aprende a conseguir o que precisa, e a jogar fora o que deve ser descartado. E começa a reconhecer (ou a se resignar) que, uma vez que suas falhas e deficiências são bem próximas do infinito, é melhor você procurar os pontos positivos e aprender a se virar com o que tem."

Haruki Murakami (1949-). Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 129

domingo, 18 de janeiro de 2015

Competição


"...por algum motivo, nunca me importei muito se derroto os outros ou se perco deles. Esse sentimento permaneceu um tanto inalterado depois que cresci. Não faz diferença o campo de atuação – derrotar alguém simplesmente não é meu barato. interesso-me muito mais por atingir os objetivos que fixei para mim mesmo...".

Haruki Murakami (1949-).
Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 15

A essência de correr


"As pessoas às vezes zombam de quem corre todo dia, alegando que é uma tentativa desesperada de viver mais. Mas não acho que esse seja o motivo pelo qual a maioria corre. A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo. Se você quer desfrutar os anos, é muito melhor vivê-los com objetivos claros e plenamente vivo do que numa bruma, e acredito que correr ajude a fazer isso. Forçar a si mesmo ao máximo dentro de seus limites individuais: essa é a essência de correr, e uma metáfora aplicável à vida – e, para mim, ao ato de escrever, também. Acredito que muitos corredores concordariam."

Haruki Murakami (1949-). Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 73

Este é meu corpo


"Este é meu corpo, com todas as suas limitações e idiossincrasias. Assim como meu rosto, mesmo que eu não goste, é o único que tenho, então preciso me virar com ele mesmo. À medida que envelheço, naturalmente fico resolvido em relação a isso. Você abre a geladeira e pode preparar uma boa – na verdade, até uma deliciosa – refeição com as sobras. Tudo que resta ali são uma maçã, uma cebola, queijo e ovos, mas não dá para se queixar. Precisa se virar com o que tem. À medida que envelhece você aprende até mesmo a ser feliz com o que tem. Essa é uma das poucas vantagens de envelhecer."

Haruki Murakami (1949-).
Do que eu falo quando eu falo de corrida (2007). Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 76