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terça-feira, 2 de setembro de 2014

Retrato



"Eu não tinha este rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios, 
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, 
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança, 
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?"

Cecília Meireles (1901-1964). Retrato. In: Antologia Poética

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Não te aflijas com a pétala que voa


"Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
...
Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe, o vento vai falando em mim.

E por perder-me é que me vão lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim."

Cecília Meireles (1901-1964). Melhores poemas. 12ª ed. São Paulo: Global, 2000. p. 78.

Sede assim


"Sede assim – qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens."

Cecília Meireles (1901-1964). Melhores poemas. 12ª ed. São Paulo: Global, 2000. p. 63-4

Eu não estava presente

"Não acuso. Nem perdôo.
Nada sei. De nada.
Contemplo.

Quando os homens apareceram,
eu não estava presente.
Eu não estava presente,
quando a terra se desprendeu do sol.
Eu não estava presente,
quando o sol apareceu no céu.
E, antes de haver o céu,
EU NÃO ESTAVA PRESENTE.

Como hei de acusar ou perdoar?
Nada sei.
Contemplo."
...

Cecília Meireles (1901-1964). Melhores poemas. 12ª ed. São Paulo: Global, 2000. p. 59

O pássaro


"Não tenteis interromper o pássaro que voa em linha reta
de leste a oeste. Alto e só.

Não lhe pergunteis se avista cidades, mares, pessoas
ou se tudo é um liso deserto. Vasto e só.

Ele não passa para contemplar essas coisas do mundo.
Ele vem de leste, ele vai para oeste. Alto e só.

Ele vai com sua música dentro dos olhos fechados.
Quando chegar ao fim, abrirá os olhos e cantará sua música.
Vasta e só." (1964)

Cecília Meireles (1901-1964). Melhores poemas. 12ª ed. São Paulo: Global, 2000. p. 179

Sei que canto


"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada."

Cecília Meireles (1901-1964). Melhores poemas. 12ª ed. São Paulo: Global, 2000. p. 11

Andar


"Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... — enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar — somente.
Não necessita de nada."

Cecília Meireles (1901-1964). Melhores poemas. 12ª ed. São Paulo: Global, 2000. p. 39

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Meus companheiros amados


"Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados. 
Mas é certo que vos amo. 

Nem sempre os que estão mais perto 
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia."

Cecília Meireles (1901-1964)