Mostrando postagens com marcador Cora Coralina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cora Coralina. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Criança pobre


"Criança pobre
de pé no chão.
Suja, rasgada, despenteada.
Desmazelada.
Criada à toa, de roldão.
Cria de casebre,
enxerto de galpão.

Não faz anos.
Não tem bolo de velinhas.
Não tem Natal.
Não tem escola.
Não tem banheiro.
Não tem cuidados.
Não tem carinho.
Só tem milhões de vermes
de amarelão...

Assim vive um pedaço de tempo.
Depois, morre.
No cemitério da cidade,
a quadra de crianças
se enche logo
de comorozinhos
iguais, iguaisinhos –
de crianças pobres, desnutridas
(pasto de vermes na vida)
que vão morrendo
de desnutrição."

Cora Coralina (1889-1985). Meu Livro de Cordel. São Paulo: Global, 1987, p. 47-8

Humildade


"Senhor, fazei com que eu aceite
minha pobreza tal como sempre foi.
Que não sinta o que não tenho.
Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade
seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura,
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,
minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa."

Cora Coralina (1889-1985). Meu Livro de Cordel. São Paulo: Global, 1987, p. 55