Mostrando postagens com marcador Escrever. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Escrever. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Archimboldi

"O quarto livro de Archimboldi não demorou a chegar à editora. Se chamava 'Rios da Europa', embora falasse basicamente de um só rio, o Dnieper. Digamos que o Dnieper era o protagonista do livro e os demais rios nomeados faziam parte do coro. O senhor Bubis o leu numa sentada, em sua sala, e os risos que lhe provocou a leitura foram ouvidos por toda a editora. Desta vez o adiantamento que mandou a Archimboldi foi maior do que todos os anteriores, a tal ponto que Martha, a secretária, antes de enviar o cheque para Colônia, entrou na sala do senhor Bubis e, mostrando o cheque, perguntou (não uma mas duas vezes) se o valor estava correto, ao que o senhor Bubis respondeu que sim, que era a cifra correta, ou incorreta, tanto fazia, um valor, um número, pensou ele quando tornou a ficar sozinho, sempre é aproximado, não existe número correto, só os nazistas acreditavam no número correto e os professores de matemática elementar, só os sectários, os loucos das pirâmides, os coletores de impostos (que Deus acabe com eles), os numerologistas que liam o destino por três vinténs acreditavam no número correto. Os cientistas, pelo contrário, sabiam que todo número é apenas aproximado. Os grandes físicos, os grandes matemáticos, os grandes químicos e os editores sabiam que a gente sempre transita no escuro."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 783

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

La sociedad de la ignorancia


"El crecimiento y mejora en las posibilidades de los humanos reales para hacerse cargo de la información que producen en conjunto es básicamente aritmético o, en todo caso, está muy lejos del crecimiento exponencial de la información que hay que considerar, recopilar, conocer, analizar, sintetizar, comprender, reflexionar, someter a la adecuada crítica, o incorporar a la visión personal y general del mundo.
Por todo ello, orientarse con criterio y sentido personal dentro de la cultura o conocimiento colectivos resulta cada vez más difícil, costoso y problemático. [...]

No olvidemos que, en último término, la base neuronal y biológica humana prácticamente no ha cambiado en los últimos milenios de evolución. En última instancia, la capacidad cerebral es la misma y el día continúa teniendo veintecuatro horas. En cambio, ha aumentado muchísimo la cantidad de la información y la complejidad del conocimiento necesarios para hacerse cargo del propio mundo y de las vitales decisiones futuras."

Gonçal Mayos & Antoni Brey (orgs.). La sociedad de la ignorancia. Barcelona: Ediciones Península, 2011, p. 33

Las nuevas generaciones...

"Las nuevas generaciones dedican cada vez más tiempo a utilizar nuevas formas de comunicación en red que les permiten dejar de ser espectadores pasivos para convertirse en nodos activos, en emisores y receptores simultáneamente, y en consumidores, pero también en productores de todo tipo de contenidos. Se trata, sin duda, de un mundo de posibilidades inagotables, pero para la discusión que aquí nos ocupa debemos preguntarnos si dicho medio es el adecuado para fomentar, en último término, la elaboración de conocimiento en la mente de las personas. 

[...] además de niños prodigio o eficientes ejecutivos también están proliferando a nuestro alrededor individuos incapaces de concentrarse en un texto de más de cuatro páginas, personas que solo pueden asimilar conceptos predigeridos en formatos multimedia, estudiantes que confunden aprender con recopilar, cortar y pegar fragmentos de información hallados en Internet, o un número creciente de analfabetos funcionales. Si bien es cierto que el nuevo medio pone a nuestro alcance todo el saber disponible, eso no implica necesariamente que seamos capaces de sacar provecho de él. [...]

Es difícil focalizar y centrarse, y esa necesidad de cambiar de manera constante el foco de nuestra atención acaba por modelar nuestra forma de razonar hasta ubicarnos en un estado de dispersión que, en términos conceptuales, es incompatible con la concentración que requiere cualquier reflexión de cierta consistencia."

Antoni Brey. La sociedad de la ignorancia. Una reflexión sobre la relación del individuo con el conocimiento en el mundo hiperconectado. In: Gonçal Mayos & Antoni Brey (orgs.). La sociedad de la ignorancia. Barcelona: Ediciones Península, 2011, p. 66-68

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Leer y viajar

"¿Y qué fue lo que aprendieron los alumnos de Amalfitano? Aprendieron a recitar en voz alta. Memorizaron los dos o tres poemas que más amaban para recordarlos y recitarlos en los momentos oportunos: funerales, bodas, soledades. Comprendieron que un libro era um laberinto y un desierto. Que lo más importante del mundo era leer y viajar, tal vez la misma cosa, sin detenerse nunca. [...] Que leyendo se aprendía a dudar y a recordar. Que la memoria era el amor."

Roberto Bolaño (1953-2003). Los sinsabores del verdadero policía. Barcelona: Anagrama, 2011, p. 146

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Writing



"Shouldn't I stake all I have on the one thing I can do? What a hopeless fool I should be if I didn't! My writing may be worthless; in which case, I am definitely and without doubt utterly worthless. If I spare myself in this respect, I am no really sparing myself, I am committing suicide."

Franz Kafka (1883-1924). Citado por Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 131

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Fragmentos da História de Pará de Minas



Um livro pelo qual tenho muito carinho é "Fragmentos da História de Pará de Minas", resultado de inúmeros encontros aos sábados, no Museu Histórico da cidade, de um grupo de professores e alunos do curso de História da FAPAM - Faculdade de Pará de Minas, mais a funcionária do Museu, Ana Maria Campos, entre 2002 e 2007, para pesquisar no rico acervo documental do município (inventários, testamentos, processos-crime, jornais etc. do século XIX e início do XX). São mais de 60 textos ricamente documentados sobre o nosso passado, em diferentes aspectos: economia, religião, escravidão, educação, criminalidade, cultura. Infelizmente, a obra está esgotada, mas há exemplares disponíveis para empréstimo na Biblioteca da FAPAM, na Biblioteca Pública Municipal de Pará de Minas e em várias bibliotecas de escolas públicas da cidade.

Meu sonho



"Em uma casa no Batel, em Curitiba, a Arte & Letra é editora, livraria e café. Pertence aos irmãos Thiago e Frede Tizzot. Os verbos mais conjugados por ali são vaguear, ler, beber, comer (um pedaço de torta). Comprar. Esbarrar. Espantar-se (com o nascimento do livro). 'Outro dia, o Frede estava na varanda fazendo as matrizes das xilogravuras da nossa coleção artesanal', conta Thiago. 'Os clientes paravam, olhavam, perguntavam e começavam a entender o processo até a edição pronta. É um envolvimento diferente com o objeto.' Ao trabalhar títulos de literatura que acham bons e merecem ser conhecidos, os livreiros ignoram sem remorso o que não se enquadra no critério. Fogem do comum, das listas de mais vendidos. A laboriosa curadoria inclui a confecção de uma revista literária. Entre os achados, contos de autores fora de catálogo ou nunca traduzidos no Brasil."

Viviane Zandonadi. Viveiro de livros. In: revista Vida Simples. Maio 2015, p. 41

Your room

"You returned to your room, to the loneliness of your room, that smallest of small rooms that sometimes drove you out in search of prostitutes, but it would be wrong to say you were unhappy there, for you had no trouble adjusting to your reduced circumstances, you found it invigorating to learn that you could get by on almost nothing, and as long as you were able to write, it made no difference where or how you lived."

Paul Auster (1947-). Winter Journal. London: faber and faber, 2012, p. 76

Writing

"Spartan surroundings, yes, but surroundings have never been of any importance as far as your work is concerned, since the only space you occupy when you write your books is the page in front of your nose, and the room in which you are sitting, the various rooms in which you have sat these forty-plus years, are all but invisible to you as you push your pen across the page of your notebook or transcribe what you have written onto a clean page with your typewriter, the same machine you have been using since your return from France in 1974, an Olympia portable you bought secondhand from a friend for forty dollars – a still functioning relic that was built in a West German factory more than half a century ago and will no doubt go on functioning long after you are dead. The number of your studio apartment pleased you for its symbolic aptness. 1-I, meaning the single self, the lone person sequestered in that bunker of a room for seven or eight hours a day, a silent man cut off from the rest of the world, day after day sitting at his desk for no other purpose than to explore the interior of his own head."

Paul Auster (1947-). Winter Journal. London: faber and faber, 2012, p. 106-7

sábado, 9 de maio de 2015

A escrita

"Por mais que possamos admirar os ocasionais rompantes de eloquência do orador, as mais nobres palavras escritas geralmente estão muito além ou acima da linguagem oral fugidia, tal como o firmamento com suas estrelas está além das nuvens. Lá estão as estrelas, e os que sabem, podem lê-las. Desde sempre os astrônomos observam e comentam os astros. Não são exalações como nossas conversas diárias e o hálito que se evapora. (...) O orador se entrega à inspiração de uma ocasião passageira, e fala à multidão diante dele, fala aos que podem ouvi-lo; mas o escritor, que tem como ocasião sua vida mais constante, e que se distrairia com o momento e a multidão que inspiram o orador, fala ao intelecto e ao coração da humanidade, a todos em qualquer época que podem entendê-lo."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 105

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

No chão agora


Ainda dá tempo. Dar fim à vida.  Um tiro nos miolos. Pular de cabeça num precipício. Ficar exposto à força da natureza em meio a uma grande tempestade. Ou deixar a vida fluir. Acontece que Miguel não suporta o viver. Está no seu limite. No limiar do nada. Ou da loucura. Pesadelos, sonhos, terror. Assim se revela a maior parte dos personagens de Flávio Marcus da Silva nos contos, crônicas, poemas de seu último livro “No chão agora”. Literatura de primeira grandeza! Se eu fosse especialista na teoria da literatura até faria um comentário teórico, dentro de todas as regras. Entretanto ainda não sou capaz de fazer isso...  O que posso dizer é que gosto dos escritos de Flávio Marcus porque gosto. Ponto. Entretanto, quero apontar alguns fatos que me chamaram mais atenção na leitura de seu livro: 
1 - A perspicácia de Flávio Marcus em desenhar o pensamento do outro. (Serão os seres humanos tão semelhantes em si no pensar? Indago.) No conto “Fogo de palha” ele deixa isso bem nítido: “Na cabeça de Rita o pai consentiu, a menina levou o cãozinho e cuidou muito bem dele, amou-o como se ama a um filho. Que lindo! Só que isso não aconteceu. O cãozinho continuou abandonado, perdido, triste, morrendo de fome. Rita foi embora por outro caminho, sem olhar para trás, com a consciência tranquila, feliz pelo desfecho que imaginou e que, na sua cabeça, era o real. ‘Que bom que deu tudo certo para ele’, pensou.” (p. 12)
2 - Poderia dizer que o livro é um registro histórico. Os cenários descritos nos 32 textos reproduzem de modo primoroso o viver do povo da nossa cidade, do nosso país, neste ano de 2014. Na cidade, a falta de água. As dificuldades pelas quais as pessoas estão passando, a mudança na rotina diária na casa e no trabalho. Não há em nossa lembrança tempo de tanta escassez de água e de falta de chuvas na região de Pará de Minas. E os pernilongos que não permitem que as pessoas durmam em paz? Pernilongos não chegam a ser novidade. Surgem a cada ano e nos incomodam, no entanto, por períodos mais curtos. Mas incômodos juntados deixam as pessoas ao limiar da desesperança: “Três e meia da madrugada./ Atento, escuto:/ Duas bombas vizinhas levam água das caixas reserva para/ as principais, /meu filho ronca, /Os pernilongos infernizam, sibilantes, /implacáveis,/ E essas vozes, que eu não sei... / não sei... Acho que enlouqueci.”/ (No poema “Insônia e pernilongos’) (p.65).
3 - A crítica social se faz presente em cada texto que compõe “No chão agora”. Arrisco a dizer que também faz parte do que ouso chamar de registro histórico. Seja de modo explícito, seja de maneira irônica: a Copa do Mundo realizada neste ano; a situação política e social do país; as diferenças de classe, as injustiças, a deficiência da Educação, o uso excessivo e fútil das redes sociais virtuais. A hipotética “liberdade” da imprensa, que até hoje impõe ao povo a voz do poder dominante. 
4 - A multiplicidade de vozes que se contrastam. Percebo que narradores e personagens têm opinião própria. Cada um diz o que quer, sem deixar claro a interferência do ponto de vista do autor. Notei que o autor até deixa uma dica no poema “Dois modos”: “dois modos de ver dois modos de viver/ há outros/ felizmente”/. (p.36) Em outros textos também encontro exemplos desse fato: em “Sucesso é ser feliz” (p.41) vemos a diferença dos quereres dos pais em relação à educação tecnológica e futurística que almejam para o filho e a simplicidade do desejo do filho, que apenas quer ser feliz. No texto “Caminhos”, a voz do pai que fala do filho é de compreensão: “Hoje sei que meu filho é um vencedor. Venceu preconceitos e seguiu seu caminho, impulsionado pelo destino, fiel a si mesmo. Poucos podem dizer que venceram na vida como ele. Eu não posso. Mas estou feliz por ele.” (p.81). Já no conto “Meu filho não deu em nada”, o pai lamenta que o filho “não prestou para futebol judô coisas de macho não prestou para advogado médico engenheiro administrador – pra nada” (p.19). Na verdade, no decorrer da leitura do conto ficamos sabendo que o moço trabalha e muito naquilo que ama: “livros poesias contos peças de teatro esculturas enfeites”. E mais: tem uma namorada e dinheiro suficiente para comprar uma casa do jeitinho que querem e para a viagem que planejam a Amsterdã.
5 - O texto que encerra o livro e também lhe serve de título “No chão agora” traz em sua última linha um suspiro de gratidão: “Obrigado Deus por eu me saber e amar ser tão pequeno.” Seria a redenção do homem após tantas agruras sofridas pelo narrador ou personagens dos outros escritos...
E então? É ler para ter o prazer da literatura em “No chão agora”, de Flávio Marcus da Silva, publicado pela Virtual Books, Pará de Minas, em setembro de 2014.

Terezinha Pereira

terça-feira, 2 de setembro de 2014

muito longo, não li



"A regra na internet hoje é dois ou três parágrafos (...). Criaram uma sigla para isso: tldr, 'too long, didn't read' (muito longo, não li). Acho sintomático e triste porque não é a questão de ser mal escrito ou enfadonho, mas simplesmente porque é longo. Aqueles artigos e entrevistas com aprofundamento que líamos antigamente hoje estão cada vez mais raros. O que importa é a fofoca, o imediatismo sem edição, cheio de erros de português e de apuração. É o estado do jornalismo, e não só da crítica cultural, cuja tendência é mesmo acabar."

Pablo Villaça, crítico, professor e criador do site Cinema em Cena, para o Jornal O TEMPO, 31 de agosto de 2014

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O poder da literatura



"A literatura não é um divertimento; tampouco é um saber especializado. Ela é um instrumento, precário e sutil, de interrogar a vida. Desloca nossas certezas, transformando-as em incertezas. Em vez de nos oferecer respostas, nos faz novas perguntas – desagradáveis e perturbadoras. Leia 'Crime e castigo', 'O castelo', o 'Livro do desassossego', ou 'A paixão segundo GH'. Se você ler para valer, se neles mergulhar como quem se lança em um abismo, e a literatura é um abismo, sairá da leitura transformado e atordoado, sairá um outro homem, ainda que no corpo do mesmo homem. 

A literatura é, antes de tudo, uma máquina de transformação. Se você não deseja se modificar; se não pretende correr riscos; se teme as perguntas que não comportam respostas – então, eu aconselho, afaste-se da literatura. A literatura é, sim, perigosa, porque tem o poder de nos desestabilizar e desassossegar. Se você aprecia sua vida banal e rotineira, fuja! Ao contrário, se você sente um grande incômodo com o mundo, se você se incomoda com o tédio das imagens e da repetição, se você deseja se modificar e modificar o pequeno mundo que o cerca, então leia. (...)

Não é preciso ser um especialista para ler uma ficção. Não é preciso ostentar títulos, apresentar currículos, ou credenciais. A literatura é para todos. Dizendo melhor: é para os corajosos ou, pelo menos, para aqueles que ainda valorizam a coragem. Se você deseja sair de si e experimentar novas possibilidades do existir, então leia. Se deseja correr riscos e perder-se um pouco no instável e no precário, leia. Se você acha a vida insuficiente e deseja o inesperado, leia. Este é o pequeno, mas também precioso, poder da literatura."

José Castello. O poder da literatura. Coluna: "A literatura na poltrona". O Globo - Cultura 

Imagem: "Novel reader" (1888), de Vincent Van Gogh (1853-1890)

sábado, 15 de março de 2014

Escrever nunca foi trabalho para mim



"Escrever nunca foi trabalho para mim. Sempre fora assim, desde quando me lembrava: ligar o rádio numa estação de música clássica, acender um cigarro ou charuto, abrir a garrafa. A máquina fazia o resto. Eu só precisava estar ali. Todo o processo me permitia seguir em frente quando a vida oferecia tão pouco, quando a própria vida era um espetáculo de horror. Sempre havia a máquina para me acalmar, conversar comigo, me entreter, salvar meu rabo. Basicamente, era por isso que eu escrevia: para salvar meu rabo, salvar meu rabo do asilo de doidos, das ruas, de mim mesmo."

Charles Bukowski (1920-1994). Hollywood (1989). Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 84

Uma forma de lamento



"Escrever era estranho. Eu precisava escrever, era como uma doença, uma droga, uma forte compulsão, mas não me agradava pensar em mim mesmo como um escritor. Talvez tivesse conhecido escritores demais. Eles levavam mais tempo falando mal uns dos outros do que fazendo seu trabalho. Eram nervosos, fofoqueiros, velhas solteironas; viviam se lamentando, dando facadas, inchados de vaidade. Eram esses os nossos criadores? Sempre fora assim? Provavelmente sim. Talvez escrever fosse uma forma de lamento. Alguns simplesmente se lamentavam melhor que os outros."

Charles Bukowski (1920-1994). Hollywood (1989). Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 91

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Um jovem escritor



"Quando eu era jovem, era um escritor que passava fome. O fato de que a fome poderia me levar à morte não me incomodava muito, uma vez que a vida não me parecia interessante, e morrer não parecia uma má perspectiva — talvez uma nova embaralhada nas cartas? Laborei, de tempos em tempos, como um trabalhador comum, mas por curtos períodos. Um ou dois contracheques e eu pulava fora, mantendo-me afastado de empregos o quanto fosse possível. Tudo o que eu precisava era de dinheiro para o aluguel e para comprar bebidas, e também para os selos, os envelopes e uma máquina de escrever. Escrevia de dois a seis contos por semana e todos eram recusados pela Atlantic Monthly, Harper's e The New Yorker. Para mim isso era difícil de entender porque os contos que eu lia nessas revistas eram escritos com cuidado, 'bem-trabalhados' talvez fosse o termo. Mas, em essência, os contos era inermes e chatos, e o pior de tudo: não tinham humor. Era como se tudo não passasse de uma mentira e quanto mais trabalhada fosse essa mentira mais você era aceito."

Charles Bukowski (1920-1994). Pedaços de um caderno manchado de vinho. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 274

domingo, 29 de dezembro de 2013

Poesia



"Nossos dias nas cadeias e nos manicômios e nos albergues fazem com que possamos saber melhor onde nasce o sol do que qualquer conhecimento prático de Shakespeare, Keats, Shelley... Fomos contratados e demitidos, pedimos demissão, levamos tiros e apanhamos; fomos arrastados enquanto estávamos bêbados; cuspiram em nós porque não jogamos de acordo com a história deles e porque esperávamos por um momento em nossos cubículos com uma máquina de escrever ou até mesmo sem ela, apenas o papel de nossas peles, claro, e o que havia por baixo, e assim, é claro, quando sentávamos para escrever - espancados e combalidos mas sobreviventes - não escrevíamos com exatidão, como uma poesia pensada deveria ser escrita ou como se qualquer pensamento devesse ser escrito. Não cabíamos, é claro, na forma agradável e entorpecida de suas mortes. Não há nada que provoque maior ódio nos mortos do que ver algo vivo."

Charles Bukowski (1920-1994). Pedaços de um caderno manchado de vinho. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 78-9

domingo, 24 de novembro de 2013

Escrever


"Santidade de escrever,
insanidade de escrever
equivalem-se. O sábio
equilibra-se no caos."

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 1404

Imagem: Retrato de Erasmo de Rotterdam, de Quentin Metsys (1466-1530)

domingo, 3 de novembro de 2013

A insônia é um dom



"Mas quantas vezes a insônia é um dom. De repente acordar no meio da noite e ter essa coisa rara: solidão. Quase nenhum ruído. Só o das ondas do mar batendo na praia. E tomo café com gosto, toda sozinha no mundo. Ninguém me interrompe o nada. É um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo, sem aquele toque súbito que sobressalta. Depois vai amanhecendo. As nuvens se clareando sob um sol às vezes pálido como uma lua, às vezes de fogo puro. Vou ao terraço e sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar. O mar é meu, o sol é meu, a terra é minha. E sinto-me feliz por nada, por tudo."

Clarice Lispector (1920-1977). A descoberta do mundo (crônicas - 1967/1973). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 82

Escrever é uma maldição



"Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva. 

Não estou me referindo muito a escrever para jornal. Mas escrever aquilo que eventualmente pode se transformar num conto ou num romance. É uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação.

Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada."

Clarice Lispector (1920-1977). A descoberta do mundo (crônicas - 1967/1973). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 191