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domingo, 20 de setembro de 2015

Daqui a algum tempo


"Não há por que a minha literatura ter prioridade, existem coisas mais imediatas. Daqui a algum tempo, talvez, quando as pessoas tiverem tempo e vontade de olhar o mundo, de refletir. Normalmente, elas não têm tempo de fazer isso."

Hilda Hilst (1930-2004), poeta brasileira

domingo, 13 de abril de 2014

Silêncio


"Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.

Os amantes no quarto.
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo o silêncio."

Hilda Hilst (1930-2004). Poesia: 1959-1979. São Paulo: Quíron, 1980.

sábado, 31 de agosto de 2013

Morte


"Durante o dia constrói
Seu muro de girassóis.
(Sei que pretende disfarce
E fantasia).
Durante a noite,
Fria de águas
Molhada de rosas negras
Me espia.
Que queres, morte,
Vestida de flor e fonte?

– Olhar a vida."

Hilda Hilst (1930-2004). Poesia. São Paulo: Quíron, 1980, p. 20

Agora


"Soergo meu passado e meu futuro
E digo à boca do Tempo que os devore.
E degustando o êxito do Agora
A cada instante me vejo renascendo"

Hilda Hilst (1930-2004). Poesia. São Paulo: Quíron, 1980, p. 73

Contempla o teu viver que corre


"Enquanto faço o verso, tu decerto vives.
Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.
Dirás que sangue é o não teres teu ouro
E o poeta te diz: compra o teu tempo

Contempla o teu viver que corre, escuta
O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.
Enquanto faço o verso, tu que não me lês
Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.
O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:
'Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas'.
Irmão do meu momento: quando eu morrer
Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:
Morre o amor de um poeta.
E isso é tanto, que o teu ouro não compra,
E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto

Não cabe no meu canto."

Hilda Hilst (1930-2004). Poesia. São Paulo: Quíron, 1980, p. 121

Ser terra


"Ser terra
E cantar livremente
O que é finitude
E o que perdura.

Unir numa só fonte
O que souber ser vale
Sendo altura."

Hilda Hilst (1930-2004). Poesia. São Paulo: Quíron, 1980, p. 166

Beleza tanta beleza


"Quero brincar meus amigos
De ver beleza nas coisas.
Beleza no desatino
No teu amor descuidado
Beleza tanta beleza
Na pobreza.
Quero brincar meus amigos

De ver beleza na moça
Que por amor não se dá.
Nem por nada. E se reserva
Ao homem que Deus dará.

Quero brincar meus amigos
De ver beleza na morte.
Mais que na morte, na vida.
Tão doce morrer em vida
Tão triste viver em vão.

Vamos brincar meus amigos
E de mãos dadas cantar
Minha feliz invenção:
Beleza tanta beleza
Em tudo que se não vê
Beleza."

Hilda Hilst (1930-2004). Poesia. São Paulo: Quíron, 1980, p. 267

Amar e destruir



"Em ti, terra, descansei a boca, a mesma que aos
outros deu de si o sopro da palavra e seu poder de 
amar e destruir."

Hilda Hilst (1930-2004). Poesia. São Paulo: Quíron, 1980, p. 142