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sábado, 12 de novembro de 2016

Velhice

"Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: 'Quanto é que ele deixou?'. O advogado respondeu: 'Deixou tudo.' Ninguém é mais pobre do que os mortos."

António Lobo Antunes, escritor português. In: Diário de Notícias (2004)

sexta-feira, 6 de março de 2015

Cansaço da alma



"Este longo cansaço se fará maior um dia,
e a alma dirá ao corpo que não quer seguir
arrastando sua massa pela rosada via,
por onde vão os homens, contentes de viver…"


Gabriela Mistral (1889-1957), poeta chilena

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

velhice


"...a posição deles era já a de iguais, ligados uns aos outros pelos destinos tão inevitáveis e equiparados que agora cumpriam. que paisagem de velhos tão nítida era aquela. pouco importava que o orgulho lhes trouxesse ao de cima o passado profissional, mais ou menos brilhante, mais verdadeiro ou mentiroso, porque muitos mentem sem pudor para não se deixarem humilhar, pouco importava tudo isso porque tão na extremidade da vida eram todos a mesma coisa..."

Valter Hugo Mãe (1971-), escritor angolano. a máquina de fazer espanhóis (2010). São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 28.

violência na terceira idade



"isto é violência na terceira idade. sabem por quê, porque o nosso inimigo é o corpo. porque o corpo é que nos ataca. estamos finalmente perante o mais terrível dos animais, o nosso próprio bicho, o bicho que somos. que decide que é chegado o momento de começar a desligar-nos os sentidos e decide como e quando devemos padecer de que tipo de dor ou loucura. pois eu que tenho cem anos e podia quase ser vosso pai quero dizer-vos que ser-se velho é viver contra o corpo. o estupor do bicho que nós somos e que já não nos suporta mais. a violência na terceira idade."

valter hugo mãe (1971-), escritor angolano. a máquina de fazer espanhóis (2010). São Paulo: Cosac Naify, 2013. p. 126

sexo nos corpos



"...estamos muito calados hoje. estamos calados, colega silva. e o doutor bernardo respondeu-lhe, estamos a comer, é da fome. e eu disse, o anísio anda a namorar. o esperto do anísio anda a ver raparigas enquanto nós nos pomos para aqui a pensar que já não há nada para fazer com esta idade. e o silva da europa animou-se todo e comentou, bem que me parecia que aquela conversa do sexo nos corpos, e a máquina querer sexo, e as hormonas ou sei lá o quê, tinha de ser explicada de um modo menos intelectual. não é que o diabo anda a ver se ainda põe ovos com o rabinho comido de supositórios."

valter hugo mãe (1971-), escritor angolano. a máquina de fazer espanhóis (2010). São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 213

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Poema a meu pai


"Meu pai morreu longe de mim
(eu é que estava longe dele).
Tantos anos se passaram
e ainda não lhe vi a sepultura.
Continuo longe.
Mas sua presença me sacode
como um choque elétrico,
uma bebida forte que me arde
por dentro.
Está vivo nos meus dedos,
nos cabelos ralos
— a nuca dá arrepios de se ver.
Está cada vez mais perto de mim
(eu é que estou mais perto dele)."

Ivo Barroso (1929). Poema a meu pai. In: Moacyr Félix. 41 Poetas do Rio. Rio de Janeiro: Funarte, 1998

Retrato



"Eu não tinha este rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios, 
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força, 
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança, 
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?"

Cecília Meireles (1901-1964). Retrato. In: Antologia Poética

sábado, 15 de março de 2014

Cinquenta anos!



"Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida paraos filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria!"

Graciliano Ramos (1892-1953). S. Bernardo (1934). 87ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2008. p. 216

Foto: Graciliano Ramos, jan. de 1953 (Acervo Família Graciliano Ramos)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Outrora e hoje



"Meu dia outrora principiava alegre;
No entanto à noite eu chorava. Hoje, mais velho, 
Nascem-me em dúvida os dias, mas
Findam sagrada, serenamente."

Friedrich Hölderlin (poeta alemão, 1770-1843). Outrora e hoje. Tradução: Manuel Bandeira. In: Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970. p. 444

sábado, 16 de novembro de 2013

Fazer 70 anos



"Fazer 70 anos não é simples.
A vida exige, para o conseguirmos,
perdas e perdas no íntimo do ser,
como, em volta do ser, mil outras perdas.

Fazer 70 anos é fazer
catálogo de esquecimentos e ruínas.
Viajar entre o já-foi e o não-será.
É, sobretudo, fazer 70 anos,
alegria pojada de tristeza.

Ó José Carlos, irmão-em-Escorpião!
Nós o conseguimos...
E sorrimos
de uma vitória comprada por que preço?
Quem jamais o saberá?

À sombra dos 70 anos, dois mineiros
em silêncio se abraçam, conferindo
a estranha felicidade da velhice."

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 1288

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Tudo comporta o seu prazer


"Tudo, mesmo a velhice, mesmo a doença,
Tudo comporta o seu prazer...
E até o pobre moribundo pensa
Na maneira mais suave de morrer..."

Mario Quintana (1906-1994). Poesias. Editora Globo, p. 111

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Vou para o outono


"Vou para o outono, e - ai de mim! - já ouço
o vento a desgrenhar as pobres árvores.
Vou para o outono, para o doce outono,
E em breve o inverno é que virá, e o escuro.

Que fiz, Deus meu, de tudo o que me deste,
Da alegria, das cores e da flama
Que desfrutei na clara mocidade
E tão vil dispersei ingloriamente?

Vou para o outono, para o instante triste,
Para esse tempo que precede ao frio.
Vou para o outono, e sinto a alma vazia...

Ah! Não guardei, do meu verão perdido,
Esse calor, que mesmo à própria morte
Olhar nos faz sem medos nem cuidados."

Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Sonetos. Rio de Janeiro: Rio Gráfica e Editora, 1965, p. 125

sábado, 13 de julho de 2013

Stoner (II)


"Remembering his father's failure, or betrayal, he stayed with his first job in a small St. Louis bank; and in his late thirties, secure in a minor vice-presidency, he married a local girl of good family. From the marriage had come only one child; he wanted a son and had a girl, and that was another disappointment he hardly bothered to conceal. Like many men who consider their success incomplete, he was extraordinarily vain and consumed with a sense of his own importance. Every ten or fifteen minutes he removed a large gold watch from his vest pocket, looked at it, and nodded to himself."

John Williams (1922-1994). Stoner (1965). London: Vintage Books, p. 58

quarta-feira, 1 de maio de 2013

São duas velhas



"São duas velhas, lado a lado, no café.
Não se olham: certezas em cada uma.
A da direita: dedos no ar ao ritmo das queixas.
O ar, dócil, percebe estas velhas: em poucos anos
serão suas companheiras.
Chama-lhes irmãs pequenas, ingênuas.
As velhas prosseguem vivas e a falar de dinheiro.
Deus é interrompido pelo preço do arroz, nas conversas.
Descrevem a doença, a fraqueza e, logo a seguir, acusam
de impiedade quem ainda não é tão doente quanto elas.
Alguém as enganou.
Provavelmente sacrificam a vida pelos filhos;
esperaram pelo futuro.
Agora ele chegou e a única novidade que traz é o cansaço;
a dificuldade de movimentos,
a maneira como facilmente se esquecem do que ainda ontem
consideravam imprescindível.
Não vão morrer, hoje, já, porque não trouxeram o coração.
Voltarão, mais tarde, a casa e às orações,
depois de desejarem intimamente que os filhos se tornem ricos
e que a amiga morra primeiro."

Gonçalo M. Tavares (poeta angolano, 1970-). Poema extraído da revista "Poesia Sempre", n. 26, ano 14, 2007. Edição da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

domingo, 5 de agosto de 2012

O tempo sob o sol


Vi uns poucos amigos meus, gente a beirar os quarenta, todos eles com os tórax começando a se aplastar em distensões abdominais mais ou menos consideráveis: essas irremediáveis deformações que o tempo impõe ao corpo humano que prefere viver a se conservar; as mesmas que noto em mim mesmo diariamente e cuja eliminação exige uma força de vontade que não tenho e nem quero ter. Negócio pau, com que a gente sofre a princípio, depois acostuma-se porque não há nada a fazer. Vem tão rápido que mal se percebe. Um dia se é um rapazinho esguio, de perna forte e peito dividido, a dar "paradas" nos bancos da praia para as meninas verem; depois, súbito - um aborrecimento, um período duro, uma paixão, uma viagem - e se é um homem com cabelos começando a embranquecer, os músculos docemente cobertos por uma leve camada de gordura, o fígado inchado, milhões de responsabilidades e uma missão a cumprir na vida.

Tudo isso vem de repente, quando menos se espera. E chega para todo mundo, menos para os reservados, os que preferem se guardar para os vermes da terra. Essa dor do tempo, de que nenhum poeta falou direito ainda.

Mas é isso mesmo. Hoje somos nós, amanhã são eles, depois de amanhã são os filhos deles, nossos possíveis netos. Esta joça toda caminha para a constelação de Órion desde há alguns milhares de séculos. Em vista do quê, preparemo-nos para os pileques de fim de ano, que vêm aí. Mais um ano, meus amigos. Estamos fritos.

Vinicius de Moraes (1913-1980). Para viver um grande amor. São Paulo: Cia das Letras, 1991, p. 81-2.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Memória

Se me perguntarem, não sei dizer o que comi ontem no almoço. Mas sou capaz de reproduzir diálogos inteiros da minha juventude, quando esta fazenda ainda era do senhor Avelino e eu ainda morava na casa lá de baixo, com Tia Palma, meus pais e meus irmãos. Gozado, isso. Vai entender. Memórias antigas? Nítidas, perfeitas, cheias de mínimos detalhes, cheiros e sons até. Inclusive as experiências ancestrais que não vivi, as histórias lá de Portugal que me foram contadas: todas aqui dentro, de cor e salteado. Fatos recentes? Coitados. Vão se segurando em mim como podem. Parecem aqueles personagens de cinema, cara de terror, agarrados no alto do edifício só pelas pontinhas dos dedos. Quase todos despencam. E pior: diante do olhar de alguém que os vê de cima sem pingo de misericórdia. Uma coisa ou outra fica, é verdade. Meio desbotada, imprecisa, extremamente grata à mão do cérebro que a resgata. Nenhum critério de seleção. A bobagem, o cérebro retém. O notável, ele descarta. O recado é direto: chega de colecionar lembrancinhas da viagem terrena. Fazer o que com toda a tralha? Além do mais, com o correr ou o arrastar dos anos, não há fortuna que pague tal excesso de bagagem. Eu, Antonio, entendo perfeitamente os argumentos. Aceito sem queixumes. Só levo comigo o que a alfândega da mente deixa passar.

Aos 88 anos posso delirar à vontade. Delírio, o cérebro deixa. E até estimula. O Deus do azul acha graça. Imaginação fértil, realismo fantástico: preciosidades de velho e criança. Bom ser criança vetusta, reaprender a inventar histórias e a esquecê-las com facilidade, alimentar sonhos, não guardar raivas nem condecorações, não se deter em nada que dure mais de um dia. (p.143-4)

(...)

Vejo-me aos 10, aos 20, aos 40 e poucos anos com alegre saudade. Claro que é possível. Há sempre algo engraçado na dor da lembrança. Quando cheguei aos 70 anos, chorei muito, choro acumulado. "Quanto tempo me resta? E no pouquinho de vida antes do fim, serei lúcido, serei lúcido? Esses riscos todos aí no rosto e no pescoço, tantos e tão fundos... Tia Palma, você está por perto? Me ensina alguma coisa nova, por favor, me ensina." E o choro vinha. E vinha. Incontido. Até que a voz - era a dela, tenho certeza - não fez drama, fez comédia: "Brinque de dar nome de rio às suas rugas, Antonio." Comecei a rir e a chorar ao mesmo tempo. "Que história é essa, Tia Palma?" Só fui entender quando, de imediato, identifiquei o Ganges, o Nilo e o Amazonas caudalosos em minha testa. E depois, o Tigre e o Eufrates - irmãos antiquíssimos - descendo à direita e à esquerda do nariz. E também o Paraná, e o São Francisco. No pescoço, altivos, o Tejo, o Tibre, o Tâmisa, o Volga e o Reno. Exultei ao reconhecer o Sena, o Prata e todos os seus afluentes em volta dos olhos. Era uma bela e estranha geografia. E chorei feito bobo ao ver aquele manancial de água me correndo pelo rosto. Água doce.

Hoje, a caminho dos 90, faço a barba sem medo do escanhoar, a afiada navalha mais uma vez a contrapelo. O apuro possível, a melhor aparência para os que estão perto. Não importam os eventuais cortes aqui e ali, os arranhões passageiros, a inesperada irritação da pele. Confio na velha pedra-ume. E o rosto já não mudará tanto. Ninguém perceberá as novas rugas, os novos rios. Pelo menos por fora, sei perfeitamente como me verei amanhã. O espelho não me intimida faz tempo. Eu já fui tantos! (p. 65-66)

Francisco Azevedo, O arroz de Palma. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2011.

domingo, 4 de março de 2012

O arroz de Palma

Papai possuía inúmeras qualidades, mas era homem orgulhoso e enfezado. Tia Palma tinha uma teoria que explicava perfeitamente o mau humor de meu pai: a prisão de ventre. É verdade. Papai sofria horrores com prisão de ventre. Tia Palma me ensinou que "enfezado" vem de "fezes". Uma pessoa com o intestino preso se enfeza com facilidade. E não é que, na prática, a teoria dava certo? Sempre que papai era feliz no banheiro, a família inteira notava. Ele ficava, literalmente, mais leve. Se alguém tivesse que pedir algo a ele, ficava atento à sua ida à privada: este poderia ser o momento ideal. Quando bem sucedido, papai saía do banheiro em verdadeiro estado de graça. Um homem purificado.

Cedo também aprendi que o corpo conhece outras maneiras de se purificar. A urina, a menstruação, o vômito, as espinhas, o esperma, a coriza e o suor, tudo nos purifica. O que o corpo põe fora é sinal de purificação. Assim, as lágrimas seriam a forma mais elevada de nos purificarmos. E o nascimento de uma criança, a mais completa. (p. 21-22)

(...)

- Às vezes, é bom deixar correr o sangue. (p. 117)

(...)

- Nosso presente é feito de amor. Só amor. Mas sabe, Joaquim, que quando fores rico - se um dia fores - poderás comprar quantos sobrados tu quiseres. Agora, amor, não. Amor é artigo que não está à venda. Propriedades, sim. Automóveis, sim. Mas amor, meu filho, nem ao menos uns poucos gramas tu consegues encontrar no mercado. (p. 109)

(...)

Tento entender minha aflição. Sim, porque só procuramos entender o que é ruim. O que é bom simplesmente vivemos sem mistérios. Se estamos com saúde, se realizamos um bom negócio, se é um bom filho, achamos que tem de ser assim e pronto. Os porquês só para o que nos desgraça e incomoda - questionários sem-fins. Para o que nos alegra não há perguntas, só belas exclamações - vida que segue e nem nos damos conta. Na felicidade tudo faz sentido. O universo torna-se simples e fácil como número de mágica que fascina. Mas eu, neste exato momento, embora eternamente curioso, peço a Deus que não me tire mais nada da cartola. Quero é mergulhar de cabeça dentro desse vaso preto de abas que não quebra, conhecer a origem do caos e da ordem, aprender os truques... Deus coleciona universos, eu coleciono memórias e sonhos, Bernardo coleciona amigos no Orkut. Se não é o mais sábio, é sem dúvida o mais comunicativo dos três. (p. 90-91)

(...)

Quando conto ao meu neto casos vividos por mim, e por pessoas que me são queridas, ou que me foram passados por meus pais ou Tia Palma, não aspiro à posteridade. Bem ou mal falado, meu nome não irá além de umas poucas gerações. Pretendo apenas cuidar do meu jardim. Depois, será a vez de o mato tomar conta. Mas tudo a seu tempo. (p. 83)

Francisco Azevedo, O arroz de Palma. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2011.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A velhice do poeta

Década de 70:

Depois de se separar de Cristina Gurjão, uma longa viagem à Europa é vivida como uma iniciação. Vinicius, já acompanhado de Gesse Gessy, parte para uma temporada de rupturas que são tomadas como sinais de decadência, de isolamento tido como esquisitice, de revitalização vista como decrepitude. Nenhum desses enganos o impressiona, nem o faz mudar seu rumo. Vinicius desarruma todos os clichês a respeito da arte de envelhecer. Serenidade, introspecção, ponderação, equilíbrio, prudência, bom senso, enfim, atributos clássicos de um envelhecimento saudável, não o seduzem. Mais do que nunca, ele deseja agarrar a vida, enfrentá-la, e isso significa optar pelo inesperado, pelo estranho, pelo descabido. Isso choca - e muitos amigos conservadores se melindram. Gesse é estranha, aquele menino magrelo chamado Toquinho, montado num violão e posto ao seu lado, é estranhíssimo, aquela nova vida metida numa bata branca e envolvida por cordões místicos, sessões espíritas no candomblé de Mãe Menininha, a companhia de garotos mal saídos da adolescência, shows em diretórios acadêmicos perseguidos pela ditadura militar, e descaso, quase desprezo pela poesia erudita, tudo isso é extravagante e muito, muito estranho. Mas é justamente estranhamento, surpresa, espanto que ele passa a desejar.

José Castello, Vinicius de Moraes: o poeta da Paixão. Uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 320-21.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Poem for my 43rd Birthday

To end up alone
in a tomb of a room
without cigarettes
or wine--
just a lightbulb
and a potbelly,
grayhaired,
and glad to have
the room.
...in the morning
they're out there
making money:
judges, carpenters,
plumbers, doctors,
newsboys, policemen,
barbers, carwashers,
dentists, florists,
waitresses, cooks,
cabdrivers...
and you turn over
to your left side
to get the sun
on your back
and out
of your eyes.

Charles Bukowski (1920-1994)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Idades

Aos 45 do primeiro tempo,
que molde
toma
a vaidade?
Mais 1 minuto
e o jogo
pára
Mais 15, ele recomeça
Só que
então
já serão
os semifinais da morte

Decio Bar (1943-1991)