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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Confidência



"Tudo o que existe em mim de grave e carinhoso
Te digo aqui como se fosse ao teu ouvido...
Só tu mesma ouvirás o que aos outros não ouso
Contar do meu tormento obscuro e impressentido.

Em tuas mãos de morte, ó minha Noite escura!
Aperta as minhas mãos geladas. E em repouso
Eu te direi no ouvido a minha desventura
E tudo o que em mim há de grave e carinhoso."

Manuel Bandeira (1886-1968). Confidência (1913). In: Os melhores poemas de Manuel Bandeira. 5ª ed. São Paulo: Global, 1988, p. 55

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

manhã


"Não aprofundes o teu tédio.
Não te entregues à mágoa vã.
O próprio tempo é o bom remédio:
Bebe a delícia da manhã."

Manuel Bandeira (1886-1968). Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970. p. 19

Foto: Manuel Bandeira e Cecília Meireles

A doce tarde morre



"A doce tarde morre. E tão mansa
Ela esmorece,
Tão lentamente no céu de prece,
Que assim parece, toda repouso,
Como um suspiro de extinto gozo
De uma profunda, longa esperança
Que, enfim cumprida, morre, descansa...

E enquanto a mansa tarde agoniza,
Por entre a névoa fria do mar
Toda a minh'alma foge na brisa:
Tenho vontade de me matar!

Oh, ter vontade de se matar...
Bem sei é cousa que não se diz.
Que mais a vida me pode dar?
Sou tão feliz!

– Vem, noite mansa..."

Manuel Bandeira (1886-1968). Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970. p. 83

Morada terrestre



"Habito um castelo de cartas,
Uma casa de areia, um edifício no ar,
E passo os minutos esperando
O desmoronamento do muro, a chegada do raio,
O correio celeste com a última notícia,
A sentença que voa numa vespa,
A ordem como um látego de sangue
Dispersando ao vento uma cinza de anjos.
Então perderei minha morada terrestre
E me encontrarei nu novamente.
Os peixes, os astros,
Remontarão o curso de seus céus inversos.
Tudo o que é cor, pássaro ou nome,
Volverá a ser apenas um punhado de noite, 
E sobre os despojos de cifras e plumas
E o corpo do amor, feito de fruta e música,
Baixará por fim, como o sonho ou a sombra,
O pó sem memória."

Jorge Carrera Andrade (poeta equatoriano, 1903-1978). Morada terrestre. Tradução: Manuel Bandeira. In: Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970. p. 417

Outrora e hoje



"Meu dia outrora principiava alegre;
No entanto à noite eu chorava. Hoje, mais velho, 
Nascem-me em dúvida os dias, mas
Findam sagrada, serenamente."

Friedrich Hölderlin (poeta alemão, 1770-1843). Outrora e hoje. Tradução: Manuel Bandeira. In: Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970. p. 444

sábado, 14 de setembro de 2013

Noite morta



"Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.

Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.

No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.

Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.

O córrego chora.
A voz da noite...

(Não desta noite, mas de outra maior.)"

Manuel Bandeira (1886-1968). Meus poemas preferidos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p. 49

Um bicho



“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.”

Manuel Bandeira (1886-1968). Meus poemas preferidos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p. 90

O major morreu



"O major morreu.
Reformado.
Veterano da guerra do Paraguai.
Herói da ponte do Itororó.
Não quis honras militares.
Não quis discursos.

Apenas
À hora do enterro
O corneteiro de um batalhão de linha
Deu à boca do túmulo
O toque de silêncio."

Manuel Bandeira (1886-1968). Meus poemas preferidos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p. 54

Chovia



"Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei
pensando...
– Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei."

Manuel Bandeira (1886-1968). Meus poemas preferidos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p. 85

Foto: Manuel Bandeira (à esq.) e Carlos Drummond de Andrade

profundidades tranquilas


"Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas."

Manuel Bandeira (1886-1968). Meus poemas preferidos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p. 90

Foto: Manuel Bandeira (sentado, ao centro)

Belo


"Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo – que foi? passou! – de tantas
estrelas cadentes

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia a dentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

– Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples."

Manuel Bandeira (1886-1968). Meus poemas preferidos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p. 80

Dia dos mortos


"Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali."

Manuel Bandeira. Meus poemas preferidos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p. 60-1

Foto: da esquerda para a direita: Manuel Bandeira (1886-1968), Chico Buarque (1944-), Tom Jobim (1927-1994) e Vinicius de Moraes (1913-1980)

Quando eu tinha seis anos



"Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João 
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues 
Tomásia
Rosa 
Onde estão todos eles?

– Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente."

Manuel Bandeira. Meus poemas preferidos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p. 58

Foto: à esquerda, Clarice Lispector (1920-1977), e à direita, Manuel Bandeira (1886-1968), no casamento da poetisa Marly Oliveira (1935-2007)