sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Instantes


Que antes de partir sentemo-nos ao lado do cão dormindo na soleira da porta e deixemo-nos tomar pela ausência de seu olhar e pela imobilidade de suas patas sobre o tapete de retalhos, e sintamos, junto com ele, o mais profundo dos silêncios.

Que antes de partir façamos um café bem forte, com pouco açúcar, e bebendo-o, admiremos pela última vez a orquídea fantasmagórica que aos poucos definha sobre a mesa da sala de jantar, ao lado de Goethe, Poe e Clarice.

Que antes de partir coloquemos em caixas de papelão todos os cadernos de memórias, cartas e fotos antigas, e também os vários livros de contos e crônicas que escrevemos na juventude, quando acreditávamos que a palavra pudesse nos salvar do abismo do esquecimento.

Que antes de partir ouçamos pela última vez os concertos de Brandenburgo, de Bach, e tomemos a última taça de vinho, sentindo a música e a bebida nos elevar o espírito às alturas do insondável.

Que antes de partir possamos viver cada instante de cada momento sem esperar nada da vida, e que o instante seja tudo para nós, no Tempo-Morte que lentamente nos devora.

Que a dor dos que nos amam não nos doa, e não dure; e que de tudo que fomos e fizemos nesta vida reste apenas um cheiro doce de rosas amarelas colhidas com o nascer do sol, ou uma brisa de outono a soprar lembranças sobre um túmulo esquecido, ou um luar prateado numa fria noite de inverno.

Eu e todos os meus eus agora reunidos neste aconchego de instantes sem esperança – nesta sala a que chamamos Liberdade – damo-nos as mãos e aguardamos serenos, pensando:

Que antes de partir saibamos viver o que há de mais precioso no mundo: o que somos.

E que a um sono de paz finalmente nos entreguemos, sem medo, sem dor...

Para sempre.

Flávio Marcus da Silva

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