quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Perto de Vjosa


"Num raro dia de sol, perto de uma cidadezinha no vale do Vjosa, ele e Yash se permitiram relaxar por um momento para apreciar a vista.

'Eu ficava aqui a vida toda.'

'Isso não me parece conversa de nômade.'

'Mas olha só.' Uma bela paisagem, pensava Reef, uma dúzia de minaretes erguendo-se ao sol por entre as árvores, um riozinho cujo fundo dava para se ver atravessando a cidade, a luz amarela de um café ao pôr do sol que talvez eles viessem a frequentar regularmente, os cheiros e os murmúrios e a certeza antiquíssima de que a vida, por mais que de vez em quando se reduzisse à arte de agir como uma presa inteligente, era preferível à praga de águias que começava a tomar conta da terra.

'Isso é que é o pior de tudo', disse Yashmeen. 'É tão belo.'

'Espera só até você ver o Colorado.'

Ela olhou para ele, e após uma ou duas batidas de coração ele olhou para ela. Ljubica, que naquele momento estava nos braços de Reef, apertou o rostinho contra o peito do pai e ficou olhando para a mãe como sempre fazia quando percebia que Yash estava prestes a começar a chorar."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 976

Dinamite

"A explosão foi tremenda, estilhaços e pedaços de homens e animais voando para todos os lados, jorros de vapor superaquecido a fluir por milhões de fumeiros irregulares surgidos por entre os fragmentos em movimento, um imenso hemisfério indistinto de poeira cinzenta, com laivos rosados de sangue, elevou-se e espalhou-se, e os sobreviventes andavam às cegas no meio do pó, tossindo desesperadamente. Alguns atiravam no vazio, outros já não lembravam onde ficavam os ferrolhos e os gatilhos, ou mesmo o que eram tais coisas. Mais tardes calculou-se que sessenta 'federales' haviam morrido instantaneamente, e os outros ficaram ao menos fora de combate. Durante dias, até os abutres tinham medo de se aproximar do local. O Vigésimo Batalhão amotinou-se e matou dois de seus oficiais, optou-se pela retirada, e todos voltaram correndo, cada um a seu modo, para Torreón. O general González, ferido e desonrado, suicidou-se."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 989

Mãe Jones

"Fazendo o reconhecimento de terreno, julgaram uma vez ver de relance ninguém menos que a 'Mãe' Jones, sendo empurrada para dentro de um vagão de trem e expulsa da cidade, uma atitude que na época chegava a ser cômica, pois ela logo dava meia-volta e retornava, tendo amigos entre os ferroviários ao longo de toda a rede, os quais a deixavam tomar qualquer trem e saltar onde ela bem entendesse. O que Frank percebeu naquela senhora de cabelos brancos era sua atitude de que-se-fodam, um desejo de aprontar que ela conseguira conservar em si, protegido da idade, dos plutocratas e daquilo que seus defensores contratados denominavam 'vida', como se soubessem o que era tal coisa – protegido como uma criança, a criança que ela fora um dia..."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 1007

Fantasmas

"Em campos de batalha, após o conflito, balas de canhão espalhadas por toda parte, ele havia convivido com milhares de fantasmas, todos eles cheios de ressentimentos, a zanzar, ou plantados nos portões dos cemitérios e em casas de fazendas abandonadas onde sobreviventes semienlouquecidos eram os que mais costumavam vê-los, se bem que alguns deles nem sabiam direito de que lado estavam daquela fronteira quase invisível..."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 1005

domingo, 7 de agosto de 2016

Desaparecer


EVANESCENCE

[substantivo]

o evento de desfazer-se e gradualmente sumir. desaparecer; dissipar-se ou desaparecer como vapor; a condição de ser transitório.

Etimologia: do Latim ēvānēscere “desaparecer”.

Tomás

"Ora, Tomás era livre, ao passo que nós – todos nós, os amigos dele – vivíamos restritivamente. Éramos pessoas organizadas, titulares de contas bancárias e cartões de crédito, adquiríamos bens e pagávamos nossas dívidas. Éramos pessoas de bem. E das grades dessa prisão, vigiados pelos mil olhos da moral, víamos com inveja, frustração e até com ódio o fluxo da vida em liberdade: o desejo, as aventuras, os atos irresponsáveis e prazerosos."

Sergio Faraco. A Dama do Bar Nevada, p. 34

Contra o dia


"'Que horas são, Yashmeen, não é possível que ainda seja tão cedo.'

'Talvez o tempo esteja mais lento, como dizem lá em Zurique. No meu relógio são onze.'

'Mas olha o céu.' De fato, era estranho. As estrelas não haviam aparecido, havia uma luminescência esquisita no céu, aquela luz obstruída de um dia de tempestade.

Isso durou um mês. Aqueles que julgavam ser um sinal cósmico estremeciam ao olhar para o céu a cada entardecer, imaginando catástrofes cada vez mais extravagantes. Outros, para quem o laranja não parecia um tom adequado ao apocalipse, ficavam sentados em bancos de praça, lendo tranquilos, acostumando-se com aquele curioso brilho pálido. À medida que as noites foram se sucedendo e nada acontecia e o fenômeno em pouco tempo foi se reduzindo aos tons habituais de violeta, a maioria das pessoas já não se lembrava da tensão, da sensação de aberturas e possibilidades, que haviam experimentado antes, e mais uma vez voltaram a pensar apenas no próximo orgasmo, alucinação, estupor, sono, para que pudessem atravessar a noite e proteger-se contra o dia."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 809-810

Entre o fogo e a treva

"Se o Limbo é uma espécie de subúrbio do Inferno, então é precisamente o lugar que me cabe. Entre o fogo e a treva exterior, onde posso desfrutar o equilíbrio."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 819

Bois de canga


"Ela era apenas um dígito no universo binário da entidade que a controlava, desde os esconsos de um longínquo mainframe. Ela e todos que ali trabalhavam. E para consolidar a excelência de seus serviços, para obstar mensagens de erro ou de obsolescência que os expusessem às razias da tecla punitiva, já renegavam seus sentidos, já não reconheciam sentimentos, já eram soldados da era do silício e até prefeririam que lhes substituíssem as células nervosas por plaquetas de transistores, diodos e circuitos integrados. Já não eram integralmente humanos e, ao invés de algozes, eles também eram as vítimas, marchando como marcham os bois de canga, a pontaços de picana."

Sergio Faraco. A Dama do Bar Nevada, p. 81

coisa preta

"E foi assim que Cyprian, fazendo-se passar pelo Magro de Gabrovo, passou a morar num teké chamado Pérola do Bara, e de imediato percebeu uma melhora no seu orçamento semanal, com a diminuição dos gastos com a 'coisa preta', nome dado ao haxixe pelos rapazes dervixes, pois bastava ficar parado um ou dois minutos no corredor e respirar fundo para que padrões de tapetes orientais começassem a brotar em seu campo de visão em tons luminosos de laranja e azul-celeste."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 851

Gente de dar lucro

“...as escolhas foram programadas, são impostas. A partir do condicionamento escolar, quando a criança entra na escola, vão dizer para ela: ‘Você não pode se divertir enquanto aprende’. Porra, aprender é divertido, cara! Tem que ser divertido. Tem que ser com prazer. Mas a criança já vai sendo enquadrada para encarar o trabalho como sacrifício. Você vai se divertir na hora do RECREIO. Setoriza sua alegria. Você vai se divertir nas horas vagas. No fundo, você vai viver nas horas vagas. Você vai fazer o que você gosta nas horas vagas. Você está sendo programado para odiar o seu trabalho, para adorar a sexta-feira, para você, quando for se divertir, estar tão pressionado, que você não vai se divertir, você vai descarregar. E nesse descarrego, você vai consumir. E nesse consumo, você vai dar lucro. Até o seu prazer vai ser controlado, vai ser induzido.”

Eduardo Marinho, artista de rua

Num café perto da Katunska Ulica

"As ameixeiras e romãzeiras estavam começando a florescer, tons incandescentes de branco e vermelho. As últimas manchas de neve já haviam quase desaparecido das sombras azul-anil dos muros de pedra voltados para o norte, porcas e porquinhos corriam alegres, guinchando, nas ruas lamacentas. Andorinhas com filhotes recém-nascidos atacavam seres humanos que elas consideravam intrusivos. Num café perto da Katunska Ulica, junto ao mercado, Cyprian, sentado em frente a uma mesa de um casal de namorados (a principal diferença entre os quais e os pombos, ele refletiu, era o fato de que os pombos eram mais diretos quando se tratava de cagar em cima das pessoas), fazendo um grande esforço para manter a expressão livre de sinais de aborrecimento, foi tomado por uma Revelação Cósmica, a qual caiu do céu como titica de pombo, a saber, que o Amor, o qual pessoas como Bevis e Jacintha sem dúvida imaginavam como uma única Força à solta no mundo, na verdade assemelhava-se mais às trezentas e trinta e três mil ou sabe-se lá quantas formas diferentes de Brama que são adoradas pelos hindus – a súmula, em qualquer momento dado, de todos os diversos subdeuses do amor que milhões de mortais apaixonados, numa dança ilimitada, por acaso estivessem cultuando. Sim, e boa sorte para todos eles.

Sentiu uma alegria sóbria e estranha diante da capacidade, que ele parecia ter adquirido apenas recentemente, de observar a si próprio se aborrecendo. Muito estranho."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 852-3

Ataque terrorista


"'Uma coisa é tentar cumprir as promessas feitas aos mortos da gente', era a posição de Reef, 'e outra é sair espalhando morte por aí a torto e a direito. Não vá me dizer que estou contaminado com valores burgueses. O fato é que aprendi a gostar desses cafés, de toda essa confusão da vida urbana – melhor estar aqui aproveitando isto do que ficar o tempo todo preocupado com a possibilidade de uma bomba explodir –' e, é claro, foi nesse exato momento que a coisa aconteceu, tão inesperada e tão ruidosa que muitos dias depois os sobreviventes não tinham certeza se a coisa de fato ocorrera, como também não conseguiam acreditar que alguém havia desejado lançar sobre uma civilidade tão antiga, conquistada a um preço tão alto, essa grande florescência de desintegração – uma densa e prolongada chuva de fragmentos de vidro, verde, incolor, âmbar, negro, de janelas, espelhos e copos, garrafas de água, vinho, absinto, xarope de frutas, uísque de muitas idades e origens, sangue humano por toda parte, arterial, venoso e capilar, fragmentos de ossos e cartilagem e tecidos macios, lascas de madeira de todos os tamanhos saídas de móveis, fragmentos de estanho, zinco e latão, desde grandes folhas rasgadas até os minúsculos pregos das molduras dos quadros, emanações nítricas, fluidas cortinas de fumaça, opacas de tão negras – um enorme túnel reluzente que subia ao céu e descia outra vez, para fora, para o outro lado da rua, descendo o quarteirão, atravessando os raios de um sol de meio-dia totalmente indiferente, como uma longa mensagem heliográfica enviada tão depressa que só conseguiam lê-la os anjos da destruição.

Deixando aqueles burgueses tão abruptamente feridos, chorando como crianças, crianças outra vez, sem nenhuma obrigação senão a de parecer indefesos e dignos de pena a ponto de comover aqueles que tinham meios de defendê-los, protetores munidos de armas modernas e disciplina férrea, e por que eles estariam demorando tanto para chegar? Enquanto choravam, constatavam que eram capazes de se olhar nos olhos uns dos outros, como se libertados da maioria de suas necessidades de fingir que eram adultos, necessidades que estavam em vigor até poucos segundos antes."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 855-6

Trem vespertino de Trieste


"Durante uma semana, mais ou menos, Cyprian conseguiu enlouquecer um pouco, retomando, ainda que não em tempo integral, sua antiga carreira de sodomia remunerada. Naquela cidade não faltavam homens pálidos cujos gostos ele compreendia, e ele precisava de dinheiro, uma pilha de dinheiro de certa altura, para poder enfrentar Theign da maneira apropriada. Quando sua incursão na esbórnia já havia lhe proporcionado o suficiente, foi até o salão de Fabrizio para reduzir seus cachos a fim de assumir um ar mais guerreiro, e em seguida pegou o trem vespertino de Trieste.

Mais uma vez atravessando a ponte de Mestre, em direção a um pôr do sol com um tom fumacento de laranja, Cyprian sentia a tristeza característica da contemplação de um passado recente irrecuperável. As coisas muito anteriores, infância, adolescência, essas estavam encerradas, ele não precisava mais delas – o que ele queria outra vez era a semana passada, a semana retrasada."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 875

Trivialidades

"O que lhes parecia difícil não eram tanto as grandes questões – haviam descoberto que os três tendiam politicamente ao anarquismo e encaravam o destino humano com pessimismo, com incursões num humor que só era reconhecido por presidiários e caubóis de rodeios –, o que realmente tornava o dia a dia tão trabalhoso, prestes a dar em desastre a cada momento, eram as pequenas aporrinhações, as quais, por efeito de algum princípio homeopático do irritável, atuavam com mais força em proporção direta a seu grau de trivialidade."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 893

sábado, 30 de julho de 2016

Fantasmas


"Dizia-se que os grandes túneis, como o Simplon e o St. Gotthard, eram mal-assombrados, que quando o trem entrava e a luz do mundo, do dia ou da noite, tinha que ser deixada para trás durante o tempo necessário para atravessá-lo, por mais breve que fosse, e o ronco mineral tornava impossível a conversa, então certos espíritos que outrora haviam optado por entregar-se à feroz escuridão intestina da montanha apareciam entre os passageiros pagantes, ocupavam os lugares vazios, bebiam um pouco dos copos marcados com o monograma da ferrovia nos vagões-restaurantes, assumiam a forma da fumaça que subia dos cigarros, cochichavam uma propaganda de memória e redenção para os vendedores, turistas, profissionais do ócio, ricos além de qualquer redenção e outros praticantes do olvido, que eram incapazes de perceber a presença dos visitantes com a clareza dos fugitivos, exilados, sobreviventes e espiões – ou seja, todos aqueles que haviam entrado num acordo, e mesmo numa relação de intimidade, com o Tempo."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 665

A missão de Reef

"Reef estava sozinho no vagão para fumantes, em alguma hora de treva sem nome, quando uma presença não completamente opaca surgiu no banco estofado em frente ao seu.

'O que é que você tinha na cabeça?', perguntou. Era uma voz que Reef jamais ouvira, mas que ele reconheceu assim mesmo.

'Como assim?'

'Você tem mulher e filho pra cuidar, um pai pra vingar, e no entanto está aí, usando um terno que não foi você que pagou, fumando charutos cubanos que normalmente você nem saberia como encontrar, e muito menos teria como comprar, na companhia de uma mulher que nunca teve um pensamento que não se originasse entre as pernas dela.'

'Nada de rodeios, não é?'

'Porra, o que aconteceu com você? Você era um jovem dinamitador promissor, filho de seu pai, tinha jurado alterar a situação social, e agora você não é muito melhor que as pessoas que antes você queria explodir. Olhe para elas. Excesso de dinheiro e tempo de lazer, e falta de compaixão, Reef.'

'Eu fiz jus a isso. Já cumpri meu turno.'

'Mas você nunca vai merecer o respeito dessas pessoas, elas não vão sequer lhe conceder credibilidade. Vai ser só desprezo, mesmo. Tire da sua cabeça todas essas babaquices alegres e tente se lembrar pelo menos de como o Webb era. Depois volte seus pensamentos pro homem que mandou assassiná-lo. Scarsdale Vibe é um alvo fácil no momento. Scarsdale Vibe, o homem do <>. Vá atrás dele quando você estiver em Veneza. Melhor ainda, faça pontaria nele. Pare com essa fodelança vazia, dê meia-volta e volte a ser quem você era.'"

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 666

Noites de Cloral

"Entre os alunos de matemática, o hidrato de cloral era a droga predileta. Mais cedo ou mais tarde, fosse qual fosse o problema enfrentado, tendo sido levados por suas obsessões a sofrer de insônia todas as noites, eles começavam a tomar remédios fortes para dormir – o próprio Geheimrat Klein era um grande defensor da substância – e quando davam por si haviam se tornado habitués, que se reconheciam mutuamente através dos efeitos colaterais, em particular as erupções de espinhas vermelhas, conhecidas como 'cicatrizes de duelo da cloralomania'. Nas noites de sábado em Göttingen, havia sempre pelo menos uma festa de cloral, ou Mickifest.

Era uma reunião estranha, que só de vez em quando ficava, digamos, animada. As pessoas falavam descontroladamente, muitas vezes com seus próprios botões e sem fazer qualquer pausa perceptível para respirar, ou então ficavam largadas numa paralisia agradável por cima dos móveis, ou então, à medida que se prolongava a noitada, no assoalho, numa narcose profunda."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 627

Cardenal

"Eu caminhava, suado e com o cabelo grudado
na cara
quando vi Ernesto Cardenal que vinha
em direção contrária
e à guisa de saudação eu lhe disse:
padre, no Reino dos Céus
que é o comunismo,
tem lugar para os homossexuais?
Sim, ele disse.
E para os masturbadores impenitentes?
Os escravos do sexo?
Os brincalhões do sexo?
Os sado-masoquistas, as putas, os fanáticos
dos inimigos,
os que não podem mais, os que de verdade
já não podem mais?
E Cardenal disse que sim
E ergui os olhos
E as nuvens pareciam
sorrisos de gato levemente róseos
e as árvores que despontavam a colina
(a colina que havemos de subir)
agitavam os galhos.
As árvores selvagens, como se dissessem
um dia, mais cedo do que tarde, há de vir
a meus braços mirrados, a meus braços ossudos,
a meus braços frios. Um frio vegetal
que te arrepiará os cabelos."


Roberto Bolaño (1953-2003). Poesia de Roberto Bolaño. Organizado por Letras in.verso e re.verso, p. 9

Viagem


"Depois, as pessoas perguntariam a Kit por que ele não levara uma câmera fotográfica portátil. Àquela altura, já havia reparado que muitos europeus começavam a definir a si próprios em termos das viagens que tinham condições financeiras de fazer, e parte do processo consistia em matar de tédio todas as pessoas dispostas a examinar aquelas fotografias instantâneas mal enquadradas e fora de foco.

Ele guardara alguns dos canhotos de passagens, e assim sabia de modo geral que sua trajetória passara por Bucareste, chegando a Constança, onde tomara um vapor pequeno e decrépito, costeara o litoral do mar Negro até chegar a Batumi, onde dava para sentir o cheiro dos limoeiros antes mesmo de vê-los, e lá tomara um trem, atravessando o Cáucaso, onde russos parados à porta das dukháni ficavam a vê-los passar, levantando os copos de vodca num brinde simpático. Campos de rododendros derramavam-se pelas encostas, e gigantescos troncos de nogueira flutuavam rio abaixo, tendo como destino saloons semelhantes àqueles do Colorado onde outrora, ainda menino, Kit ficara a matar o tempo. A última parada da linha era Baku, à margem do mar Cáspio, onde ele teve a impressão, ainda que não uma prova fotográfica, de um porto de petróleo muito remoto, varrido pelo vento cheio de areia, noite em pleno dia, céus infernais, a ferver em vermelho e negro, tons de negro, não havia como escapar daquele cheiro, ruas que não davam em lugar algum, onde se estava sempre a um passo de um estupor narcótico ou da lâmina de um árabe, onde a vida era não apenas barata, mas por vezes tinha mesmo valor negativo."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 756

Capitalismo

“As pessoas dedicam toda a sua vida ao trabalho, a produzir riqueza, para poder consumir, para gerar esse crescimento econômico. Mas a vida não é só trabalho. É preciso viver, é preciso amar, é preciso ser feliz, precisa-se de tempo para viver, amar e ser feliz. Ninguém compra cinco anos de vida no supermercado.”

“A acumulação capitalista necessita que compremos, compremos e gastemos e gastemos. Vendem mentiras até que te tiram o último dinheiro. Essa é a nossa cultura e a única saída é a contracultura.”

Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai

Oriente

"Àquela hora a cidade já estava saturada de sombras, as mulheres deslizando com suas vestes soltas e véus de crina, cúpulas e minaretes silenciosos e inexpugnáveis destacando-se contra um fundo azul de uma profundidade indesejável, os mercados riscados pelo vento e vazios, todas as visões já experimentadas por viajantes enlouquecidos no deserto, por apenas um momento, tornadas plausíveis."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 772

O vento

"O vento, um ser vivo, consciente, que não simpatizava com viajantes, tinha o hábito de surgir no meio da noite. Os cabelos eram os primeiros a farejá-lo, depois lentamente todos os membros do grupo começavam a ouvi-lo, num crescendo irreversível, que não lhes dava tempo suficiente para improvisar um abrigo, e portanto muitas vezes a única saída era submeter-se a ele, apertar-se contra o chão como uma folha de relva e tentar não ser arrebatado para o céu."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 778

Lago Baikal

Há lugares que tememos, lugares com que sonhamos, lugares de que nos tornamos exilados e só ficamos sabendo disso, às vezes, quando é tarde demais.

Kit sempre imaginara que de algum modo haveria de voltar aos montes San Juan. Jamais lhe ocorrera a possibilidade de que seu destino estivesse ali, de que ali, na Ásia Central, ele haveria de escalar seus picos mais elevados e enfrentar as neves do deserto, cavaleiros aborígenes, estalagens à beira-trilha e mulheres totalmente incompreensíveis, que por algum motivo eram sempre mais desejáveis no momento em que havia outros assuntos, muitas vezes de vida ou morte, a ocupá-lo.

Foi só quando viu por fim o lago Baikal que Kit compreendeu por que fora necessário ir até ali, e por que, no decorrer desse percurso, a penitência, a loucura e os descaminhos eram inevitáveis. [...]

O lago tinha um quilômetro e meio de profundidade, segundo lhe dissera Auberon Halfcourt, e nele viviam criaturas que não existiam em nenhum outro lugar em toda a Criação. Tentar navegar naquele lago era perigoso e imprevisível – os ventos surgiam de repente, as ondas transformavam-se em pequenas montanhas. Uma viagem até ele não era um passeio de férias. Ele percebia com uma certeza não de todo compreendida que aquele lugar, tal como o monte Kailash ou o Tengri Khan, era um desses locais que fazem parte de uma ordem supraterrestre e apenas provisoriamente estão encerrados nesta nossa ordem, inferior e fracionada."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 773-774

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Saloon


"Frank se deu conta de que não ia conseguir dormir, e seguiu para o saloon mais próximo. À porta do estabelecimento, onde outrora só havia cavalos amarrados, agora viam-se Silent Gray Fellows da Harley-Davidson e V-twins da Indian, adaptadas para uso naquela terra, com embreagens, correias, correntes e caixas de mudança reforçadas. Por toda a Main Street, nesses saloons misturavam-se motociclistas que faziam proezas no circuito de circos do interior, em busca de uma mudança de ares, e bandoleiros fedelhos cantando a várias vozes 'Pie in the sky' de Joe Hill para um público de velhos trabalhadores niilistas assumidos, em cujas palmas das mãos as linhas do amor e da vida, os montes de Vênus e tudo o mais haviam sido soterrados, com o passar dos anos, sob um mapa de inscrições lívidas e profundas que nenhuma cigana de parque de diversões ousaria ler, traçadas por incêndios, muros de pedra, arame farpado desenrolado depressa demais, baionetas nos xilindrós de Coeur d'Alene... Membros motorizados da famigerada Gangue de Four Corners, sediada em Cortez, pagavam doses duplas de uísque de milho para entusiastas que vinham de lugares tão distantes quanto Kansas, arrancados não de todo à força de alguma excursão de clube, e passavam a noite conversando sobre embreagens e cárteres até o sol surgir na janela."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 471

Clarice

"Clarice Lispector é traduzida e estudada no Brasil e fora dele. Seus livros tornaram-se universais porque é universal a sua angústia, a sua maneira de refletir o revés do espelho. Do livro de contos 'Laços de família': 'A vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver'. Qualquer um de nós, num exercício de livre pensar, concordará que as regras impostas pela sociedade, a obediência servil, a lobotomia autorizada com que conduzimos nossas vidas, tudo isso é muito mais demente do que seguir os seus próprios instintos e tentar iluminar o breu que há dentro de nós. [...]

Saber onde fica o norte e o sul, saber se amanhã vai chover, saber a parada do ônibus em que devemos saltar, tudo isso nos dá a falsa sensação de estarmos protegidos. No entanto, estaremos sempre em perigo enquanto soubermos tão pouco sobre nós mesmos. Clarice Lispector, em sua literatura de auto-investigação, entendeu-se dentro do possível e aceitou-se no impossível."

Martha Medeiros. Trem-bala. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 130-1

infinito

"Zangar-se com as pessoas significa que se considera os atos delas importantes. É necessário deixar de sentir assim. Os atos dos homens não podem ser bastante importantes para impedir nossa única alternativa viável: nosso imutável encontro com o infinito."

Carlos Castaneda (1925-1998). A roda do tempo (1998). Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 26

Caminhos


"Qualquer coisa é um entre um milhão de caminhos. Portanto, um guerreiro deve sempre manter em mente que um caminho é apenas um caminho; se achar que não deve segui-lo, não deve permanecer nele em nenhuma circunstância. Sua decisão de permanecer no caminho ou abandoná-lo deve estar livre de medo ou ambição. Ele deve olhar cada caminho, de perto e deliberadamente. Há uma pergunta obrigatória que o guerreiro tem de fazer: esse caminho tem coração?

Todos os caminhos são iguais: não levam a lugar algum. Entretanto, um caminho sem coração nunca é agradável. Por outro lado, um caminho com coração é fácil – ele não faz um guerreiro se esforçar para gostar dele; ele torna a viagem alegre; e, enquanto um homem o seguir, é um só com ele."

Carlos Castaneda (1925-1998). A roda do tempo (1998). Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 27

Leve e fluido

"Sentir-se importante faz a pessoa tornar-se pesada, desajeitada e vaidosa. Para ser um guerreiro, é preciso ser leve e fluido."

Carlos Castaneda (1925-1998). A roda do tempo (1998). Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 40

Vitória e derrota


"O homem comum é vitorioso ou derrotado e, dependendo disso, se torna um perseguidor ou uma vítima. Essas duas condições prevalecem enquanto a pessoa não 'vê'. 'Ver' desfaz a ilusão da vitória, ou da derrota, ou do sofrimento."

Carlos Castaneda (1925-1998). A roda do tempo (1998). Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 61