terça-feira, 12 de abril de 2016

The Fiend of Athens

"...the plot of 'The Fiend of Athens' [O Demônio/Maníaco de Atenas] concerned a mild-mannered Athenian accountant with horn-rimmed glasses who is walking to work one morning when he sees his own picture on the front page of a newspaper, with the headline FIEND OF ATHENS STILL AT LARGE [Demônio/Maníaco de Atenas ainda à solta]. Athenians in the street immediately start pointing at him and chasing him, and he's on the brink of being apprehended when he's rescued by a gang of terrorists or criminals who mistake him for their fiendish leader. The gang has a bold plan to do something like blow up the Parthenon, and the hero keeps trying to explain to them that he's just a mild-mannered accountant, not the Fiend, but the gang is so counting on his help, and the rest of the city is so intent on killing him, that there finally comes an amazing moment when he whips off his glasses 'and becomes their fearless leader' - the Fiend of Athens! He says, 'OK, men, this is how the plan is going to work'."

Jonathan Franzen (1959-). Freedom (2010). New York: Picador, 2010, p. 121-2

Moço do elevador



"Com muita frequência no Brasil, mas às vezes também na Itália, sobretudo nos hotéis ou nas diretorias empresariais, vejo rapazes que, para ganhar o pão de cada dia, passam o dia inteiro dentro de um elevador, apertando os botões correspondentes aos andares onde os clientes desejam sair. Eu me pergunto: como é possível depreciar a este ponto a vida e a inteligência de um rapaz, mantendo-o fechado, mofando, oito horas por dia num elevador, para fazer um trabalho completamente idiota e inútil?"

Domenico De Masi (1938-). O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000, p. 277-8

Educar para a criatividade

"Muitas empresas, depois de terem selecionado pessoas medíocres, pelo fato de serem dóceis e portanto manobráveis, e depois de terem sufocado todo e qualquer vislumbre de iniciativa por parte delas com um amontoado de procedimentos e controles, sentem agora a necessidade de revitalizar a criatividade e submetem essas mesmas criaturas a pseudoformadores, especialistas no assunto. É como se eu preferisse as mulheres louras, mas me casasse com uma morena e depois a obrigasse a ir ao cabeleireiro oxigenar os cabelos. Esses formadores de criatividade, quase sempre americanos ou franceses, frequentemente desprovidos de qualquer fundamento científico, assim como do conhecimento do resultado de pesquisas sérias, submetem os alunos pagantes, ou melhor, 'bem' pagantes, a exercícios psicofísicos 'fantásticos', uma salada feita de ioga, banalizada, e joguinhos de charadas, palavras-cruzadas e por aí vai. Desconfio instintivamente de todas essas técnicas istriônicas que sabe-se lá onde vão dar e que transformam a criatividade, ou seja, a expressão mais misteriosa e preciosa da espécie humana, numa espécie de gincana.

Educar um jovem ou um executivo para a criatividade hoje significa ajudá-lo a identificar sua vocação autêntica, ensiná-lo a escolher os parceiros adequados, a encontrar ou criar um contexto mais propício à criatividade, a descobrir formas de explorar os vários aspectos do problema que o preocupa, de fazer com que sua mente fique relaxada e de como estimulá-la até que ela dê à luz uma ideia justa."

Domenico De Masi (1938-). O ócio criativo (2000). Rio de Janeiro: Sextante, 2000, p. 303-4 [Domenico de Masi é um dos mais importantes sociólogos italianos, conhecido pelo conceito de "ócio criativo", título de um dos seus livros mais vendidos no Brasil. É professor de Sociologia na Universidade La Sapienza de Roma, onde atua como diretor da faculdade de Ciências da Comunicação].

Taste of eternity

"Patty felt like she'd taken some powerful drug that wasn't wearing off, or like she'd fallen into an incredibly vivid dream that she wasn't waking up from, except that she was fully aware, from second to second to second, that it wasn't a drug or a dream but just life happening to her, a life with only a present and no past [...]. And she was 21 and could feel her 21ness in the young, clean, strong wind that was blowing down from Canada. Her little taste of eternity."

Jonathan Franzen (1959-). Freedom (2010). New York: Picador, 2010. p. 162

sábado, 2 de abril de 2016

La muerte


"La muerte me llevó a meditar sobre la vida. Pero ¿qué vida? Me dije que ya empezaba a ser hora, en una época tan confusa como la nuestra, de preguntarse qué era lo que realmente entendíamos por vida, es decir, de preguntarnos de qué hablábamos cuando hablábamos de ella y si no estábamos en el fondo hablando siempre de la muerte. Seguramente habría que empezar a matizar la definición de experiencia... Yo también tenía un recuerdo algo lejano, más bien confuso, de ella. ¿Quién vivía en total plenitud? ¿Vivía alguien? Y, por cierto, ¿qué clase de vida llevaba la vida?"

Enrique Vila-Matas (1948-). Exploradores del abismo. Barcelona: Anagrama, 2007, p. 270

Loucos

"Hamlet está dizendo: Quando todo mundo é normal, racional, equilibrado, poupa, tem plano de saúde, se veste equilibradamente, combina bege com marrom, azul marinho com azul celeste, usa sapato preto fechado; quando as mulheres vão para a entrevista com colar de pérolas e tailleur e os homens de terno escuro e gravata bordô; quando todos dizem que querem contribuir para a empresa, e querem dar tudo de si a nível de pessoa humana, enquanto gente, para que essa empresa cresça; quando todos publicam que são felizes, quando todos dizem sem cessar 'esta é minha vida e minha vida é legal, porque estou viajando, porque estou comendo este prato, VEJAM'; quando todos dizem a mesma coisa, eu preciso dizer que ser louco é a única possibilidade de ser sadio neste mundo doente." 

Leandro Karnal

Exploradores do nada

"Solitarios de gran coraje, ciertos genios atrincherados me traen siempre el recuerdo de esos deseos en Kafka de ser como un piel roja, siempre a caballo, pero sin ver ya la cabeza del caballo, a galope desenfrenado. Solitarios de sí mismos, exploradores de la nada más vacía que hay detrás de toda platea repleta de público..."

Enrique Vila-Matas (1948-). Exploradores del abismo. Barcelona: Anagrama, 2007, p. 282

Solitários de si mesmos

"Esconderse era el destino de todos esos amantes de la gloria solitaria, todos esos artistas que acabaron necesitando el aislamiento radical porque sabían que eso les aproximaba más al absurdo general de la existencia y a la soledad que tarde o temprano habría de llegarles a la hora de la muerte. Solitarios de sí mismos y tenaces exploradores del vacío, todos ellos, un buen día, se fueron en dirección a un horizonte helado, 'se fueron lejos para quedarse aquí', que diría Kafka. [...] Las tumbas de esos artistas son hoy en día sepulcros metafóricamente conectados, tumbas en las que ellos pueden ya descansar tranquilos, como si estuvieran debajo de sus antiguos y fastidiosos escenarios."

Enrique Vila-Matas (1948-). Exploradores del abismo. Barcelona: Anagrama, 2007, p. 283

sábado, 26 de março de 2016

Cozinhas


"...sujeito que mora sozinho [...]. Muitas vezes o aspecto da cozinha reflete o estado do espírito. Os sujeitos confusos, inseguros e maleáveis são pensadores. A cozinha deles se assemelha às ideias que têm: cheias de lixo, metal encardido, impurezas, mas eles sabem disso e até acham graça. Às vezes, com violenta erupção de fogo, desafiam as divindades eternas e surgem com o fulgor intenso que volta e meia chamamos de criação [...]. Mas quem mantém a cozinha sempre limpa é anormal. Cuidado com ele. O estado de sua cozinha equivale às ideias que tem: tudo em ordem, arrumado; permitiu que a vida o condicionasse rapidamente a um firme e resistente complexo de raciocínio defensivo e tranquilizador. É só se prestar atenção no que diz durante dez minutos pra se ter certeza de que tudo o que dirá pelo resto da vida será intrinsecamente inexpressivo e sempre sem graça. É um monolito. Existem mais criaturas desse tipo do que de qualquer outro. Portanto, quem estiver a fim de encontrar um homem vivo precisa, antes de mais nada, dar uma olhada na cozinha do cara – economiza tempo e dinheiro."

Charles Bukowski (1920-1994). Fabulário geral do delírio cotidiano - Parte II. Porto Alegre: L&PM, 2015, p. 124-5

Hacia la nada

"Nuestra cultura era penosa, no tenía ligazón alguna con la trascendencia, ni siquiera con los dioses que decía adorar. Nuestra cultura se basaba en conquistarlo todo, hasta el universo. Pura actividad sin fin. Una carrera enloquecida hacia la nada."

Enrique Vila-Matas (1948-). Exploradores del abismo. Barcelona: Anagrama, 2007, p. 185

Horizontalidade

"Eu fiquei deitado no meu pequeno sarcófago de espaço. A horizontalidade se derramava à minha volta. Eu era a carne do sanduíche da sala. Eu me senti desperto para uma dimensão básica que tinha negligenciado durante anos de movimento ereto, de estar de pé, correr, parar, saltar, de caminhar infinitamente ereto de um lado da quadra para o outro. Eu tinha me concebido durante anos como algo basicamente vertical, estranho caule aforquilhado com matéria e sangue. Agora eu me sentia mais denso; mais solidamente composto, agora que era horizontal. Impossível alguma coisa me derrubar."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 920

quinta-feira, 24 de março de 2016

Campo e cidade

"O poeta [William Wordsworth] acusava as cidades de fomentarem uma família de emoções contrárias à vida: angústia quanto à nossa posição na hierarquia social, inveja do sucesso alheio, orgulho e desejo de brilhar aos olhos de estranhos. Os cidadãos urbanos não tinham perspectiva, afirmava o autor; eram joguetes do que se comentava nas ruas e nas salas de jantar. Por mais que fossem abastados, tinham um desejo incessante por coisas novas que não lhes faziam falta e das quais não dependia a felicidade."

Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 136

Água Viva (1973), de Clarice Lispector


papo furado

"Não existe ninguém vitorioso na vida, é pura cascata, papo furado. Não há santos nem gênios, tudo não passa de conversa mole pra boi dormir, conto da carochinha, só pro jogo continuar. Cada homem se esforça pra sobreviver e ter sorte, se puder, o resto não dá pra engolir.”

Charles Bukowski (1920-1994). Crônica de um amor louco

Paisagens sublimes (II)

"A humilhação é um risco constante no mundo dos homens. Não é raro que nossa vontade seja desafiada e nossos desejos, frustrados. Paisagens sublimes, portanto, não nos confrontam com nossa inadequação. [...] As paisagens sublimes repetem, em termos solenes, uma lição que a vida cotidiana nos ensina cruelmente: o Universo é mais poderoso do que nós; somos frágeis e transitórios; não temos alternativa senão aceitar limitações à nossa vontade e precisamos nos dobrar a necessidades maiores do que nós mesmos."

Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 167

Paisagens sublimes

"As paisagens sublimes, através de sua grandeza e força, desempenham um papel simbólico em nos fazer aceitar, sem amargor nem queixas, os obstáculos que não conseguimos superar e os acontecimentos que não entendemos. Como bem sabia o Antigo Testamento, pode ser proveitoso armazenar dados relativos à pequenez da humanidade junto aos elementos da natureza que fisicamente a superam – as montanhas, o cinturão da terra, os desertos.

Se o mundo é injusto ou está além de nosso entendimento, os lugares sublimes sugerem que não surpreende que as coisas sejam assim. Somos joguetes das forças que criaram os oceanos e moldaram as montanhas. Lugares sublimes nos levam gentilmente a reconhecer as limitações que, de outra forma, poderiam nos causar ansiedade ou raiva no curso comum dos acontecimentos. Não é apenas a natureza que nos desafia. A vida humana não é menos devastadora, mas são os vastos espaços naturais que talvez nos ofereçam o melhor e mais respeitoso lembrete de tudo o que nos transcende. Se passarmos algum tempo com eles, talvez nos ajudem a aceitar com mais elegância os grandes e inconcebíveis acontecimentos que molestam nossa vida e nos retornarão, inevitavelmente, ao pó."

Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 175

Prazer em viajar

"...o prazer que extraímos das viagens talvez dependa mais do estado de espírito em que viajamos do que do destino. Se pudéssemos aplicar o estado de espírito de quem viaja aos nossos lugares, constataríamos que esses lugares não são menos interessantes do que os desfiladeiros em montanhas altas e as florestas cheias de borboletas da América do Sul vista por Humboldt."

Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 238

Muito com pouco

"Quando observamos como certas pessoas sabem conduzir suas experiências – suas experiências insignificantes e cotidianas – de tal maneira que se transformam em solo arável, dando frutos três vezes por ano, ao passo que outras – e quantas não são! – são empurradas por ondas avassaladoras do destino, as mais diversas correntes do tempo e das nações, e ainda assim continuam no topo, balançando como uma rolha, somos tentados a dividir a humanidade entre uma minoria (realmente mínima) daqueles que sabem fazer muito com pouco e uma maioria que sabe fazer pouco com muito."

Friedrich Nietzsche (1844-1900). Citado por Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 245

domingo, 20 de março de 2016

Lei do retorno


Não seja grosseiro e arrogante com o próximo, não humilhe ninguém, pois isso cria uma energia negativa que volta para você um dia, tenha certeza disso, volta mesmo, mais cedo ou mais tarde. Plante coisas boas, gentilezas, compreensão, carinho... Ouça o próximo, seja generoso, que isso volta também, para você, para seus filhos, para a sua vida... Antes de falar e agir por impulso, coloque-se no lugar do outro. Isso se chama compaixão. Tenha compaixão. Tenha paciência. Não se coloque acima de ninguém. Trate o próximo como você quer ser tratado.

De mim para mim e para quem mais quiser e/ou precisar

Nota de suicídio

"[...] Eu tenho uma deusa como esposa que transpira ambição e empatia e uma filha que me lembra demais como eu costumava ser, cheia de amor e alegria, beijando cada pessoa que ela encontra porque todos são bons e ninguém lhe fará mal nenhum. E isso me apavora ao ponto de eu mal conseguir funcionar. Eu não posso suportar a ideia de Frances se tornar o triste, autodestrutivo e mórbido roqueiro que eu me tornei.

Eu tive muito, muito mesmo, e eu sou grato por isso, mas desde os sete anos passei a ter ódio de todos os humanos em geral. Apenas porque parece tão fácil para as pessoas que têm empatia se darem bem. Apenas porque eu amo e sinto demais por todas as pessoas, eu acho.

Obrigado do fundo do meu ardente e nauseado estômago por suas cartas e preocupação nestes últimos anos. Eu sou um bebê errático e triste! Eu não tenho mais paixão, e por isso, lembre-se, é melhor queimar de vez do que se apagar aos poucos.

Paz, amor, empatia.

Kurt Cobain

Frances e Courtney, eu estarei em seus altares.
Por favor, siga em frente, Courtney, pela Frances.
Pela vida dela, que será muito mais feliz sem mim.
EU AMO VOCÊS, EU AMO VOCÊS!"

Trecho final da carta de despedida que Kurt Cobain escreveu pouco antes de cometer suicídio no dia 5 de abril de 1994, aos 27 anos

Sertão é isto:




Sertão é o imprevisível. A morte na tocaia, indiferente, mansa, só esperando. Apeia-se aqui e ali, nas beiras dos rios, nos bambuzais, nas matas, nos ranchos de pousada. Come-se paçoca de carne, pequi, torresmo. Bebe-se cachaça. O destino é seguir sempre, buscando: o de comer, o de beber... viver... Vida solta indomada, e a gente no lombo dela, sem arreio, sem peias. No pelo.

“Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados”, diz Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas. Meu sertão é minha alma: meus rios, pastos e montanhas, minha verdade: vastidão desolada e rica onde sou eu mesmo, sem cabresto: cavalo solto, livre, pronto para morrer, satisfeito. Meu sertão... Ele também me rodeia dos lados, sai de dentro de mim e me protege, que nem escudo, das certezas desse mundão aí fora. É guerra encarniçada, difícil.

Meu sertão me salva do previsível da vida, dos modelos de razão, que fecham a gente em grades, que nem prisão. Porque no sertão, como diz Riobaldo, “o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo!”. É o que eu penso.

Que me julguem, pois. Que me humilhem. Não me importo. Aí fora tudo é parcial. Ninguém vê total, puro. Vê só o que quer, o que pode. Não tem verdade.

Dentro de mim: verdade minha. Só. Sou o que sou, desamarrado, livre. Sei meu valor.

Que me espezinhem, pois. Que me torrem a paciência. Não me importo. Sou bicho do mato. Sou.

Riobaldo falou: “Sertão: é dentro da gente”. É isso.

Flávio Marcus da Silva (1975-)

Nós não passamos nas ferrovias


"A própria nação, com todas as suas ditas melhorias internas, que, aliás, são todas externas e superficiais, é uma instituição simplesmente tão pesada e hipertrofiada, tão entulhada de coisas e tropeçando na armadilha de seus bens, tão estragada pelo luxo e pelo esbanjamento, por falta de cálculo e de um objetivo digno, quanto os milhões de lares que existem na Terra; e o único remédio para isso, em ambos os casos, é uma economia rigorosa, uma simplicidade de vida inflexível e mais do que espartana, e a elevação de propósitos. Ela vive rápido demais. Os homens pensam que é essencial que a Nação tenha comércio, exporte gelo, fale por telégrafo, ande a 50 quilômetros por hora, sem qualquer hesitação [...]; já se devemos viver como símios ou como homens, é uma questão um pouco mais incerta. Pois, se não trazemos dormentes, se não forjamos trilhos, dedicando dias e noites a esse trabalho, mas ficamos consertando nossas vidas para melhorá-las, quem construirá as ferrovias? E se as ferrovias não forem construídas, como chegaremos ao céu em tempo? Mas, se ficarmos em casa e cuidarmos de nossos afazeres, quem vai querer ferrovias? Nós não passamos nas ferrovias; elas é que passam sobre nós."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 96-7

Livros de papel

“E ela está falando de livros. Do seu livro, o recém-lançado Words Onscreen: The Fate of Reading in a Digital World, e dos livros em geral, em papel ou não. As conclusões, que ela apurou de vários estudos realizados nos últimos anos em diversos países, são consistentes e fascinantes: os livros de papel, que deveriam ter morrido com a explosão digital, estão mais vivos do que nunca. A razão, Naomi diz, que todas pesquisas concluem é simples: para a aquisição rápida de informação, preferimos as telas de computadores, tablets, smartphones; para a leitura profunda, aquela que, nas palavras dela, ‘mudam vidas, que é o que os bons livros devem fazer’, optamos pelos livros.

Não pensem que essas são conclusões extraídas de pesquisas com gente de meia idade, da geração anterior à era digital. Muito pelo contrário: a pesquisa mais recente e mais vasta, que Naomi usou como coração da sua obra, envolveu adolescentes e jovens entre 17 e 26 anos. E não deixou a menor dúvida. O livro, segundo eles, oferece imersão, experiência individual, ‘sem interrupções’, diz um dos pesquisados, ‘sem barulhinhos na tela’, ‘obrigando a pensar’.

A entrevistadora pergunta a Naomi se isso não vai mudar no futuro, com a permanência das obras digitais e gerações com cérebros diferenciados, programados para as tarefas múltiplas e simultâneas. Ela diz que não. Mudanças substanciais na ‘fiação’ do cérebro humano demoram milênios, acrescenta. Estamos operando com a mesma fiação dos clássicos gregos — compreendemos a narrativa e a linguagem do mesmo modo, e é essa experiência, íntima e pessoal, que o livro traz.”

Ana Maria Bahiana, para o blog da Companhia das Letras, 19 de março de 2015. Jornada pelo coração da galáxia de Gutemberg: uma fábula. 

A utilidade do inútil

"Não é verdade - nem mesmo em tempos de crise - que só é útil o que produz lucro ou tem uma finalidade prática. Existem saberes considerados 'inúteis' que são indispensáveis para o crescimento da humanidade. Útil, portanto, é tudo aquilo que nos ajuda a termos uma vida mais plena e um mundo melhor."

Sobre o livro A Utilidade do Inútil, de Nuccio Ordine

Luta pelo prazer

"– Numa sociedade toda organizada em torno da luta pelo poder, quando a vida social se transforma em luta pelo prazer... já pensou, querido? Veja se me entende: para que a vida seja luta pelo poder, é preciso que todo mundo faça isso, porque assim os mais poderosos sempre ganham, com dinheiro, violência, armas, etc., entende? Agora, se um grupo grande, como a juventude, por exemplo, não vai nessa, quando descobre que não há prazer algum no trabalho, na guerra, na burocracia, na submissão, no uso da força bruta, nas armas, no dinheiro, no consumo... É uma ousadia imensa, imperdoável! Mas é essa a nossa guerra... a juventude e o prazer são as nossas armas! Faltavam os coiotes... os mutantes..."

Roberto Freire (1927-2008). Coiote (1986). Rio de Janeiro: Guanabara, p. 395

essa questão do deslocamento

"A vida é um hospital em que cada paciente está obcecado com a ideia de mudar de cama. Este quer sofrer em frente ao radiador, e aquele imagina que melhoraria se estivesse junto à janela. [...]

Sempre me parece que estarei bem onde não estou, e essa questão sobre o deslocamento ocupa perenemente minha alma."

Charles Baudelaire (1821-1867). Citado por Alain de Botton. A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 40

Arranca-me daqui!

"As nuvens passam tranquilamente. Abaixo de nós, estão inimigos e colegas, os lugares de nosso terror e de nossa dor; todos eles infinitesimais, meros rabiscos na terra. Podemos conhecer suficientemente a perspectiva dessa velha lição, mas ela raras vezes parece tão verdadeira quanto no momento em que estamos sentados junto à janela fria de um avião, quando a aeronave se torna mestre de uma profunda filosofia – e discípula fiel da exortação de Baudelaire:

'Carruagem, leva-me contigo! Navio, arranca-me daqui!
Leva-me para longe, muito longe. Aqui, a lama é feita de nossas lágrimas!'"

Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 40

Um olhar para baixo

"Aprendo mais com abelhas do que com aeroplanos.
É um olhar para baixo que eu nasci tendo.
É um olhar para o ser menor, para o
insignificante que eu me criei tendo.
O ser que na sociedade é chutado como uma
barata – cresce de importância para o meu
olho.
Ainda não entendi por que herdei esse olhar
para baixo.
Sempre imagino que venha de ancestralidades
machucadas.
Fui criado no mato e aprendi a gostar das
coisinhas do chão –
Antes que das coisas celestiais.
Pessoas pertencidas de abandono me comovem:
tanto quanto as soberbas coisas ínfimas."

Manoel de Barros (1916-2014). Poesia Completa. São Paulo: LeYa, 2013, p. 335

Viajar

"Não é necessariamente em casa que melhor encontramos nosso verdadeiro eu. A mobília insiste que não podemos mudar porque ela não muda; o ambiente doméstico nos mantém amarrados à pessoa que somos na vida comum, mas que talvez não sejamos essencialmente."

Alain de Botton (1969-). A arte de viajar. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012, p. 62

Os "sem noção" das redes sociais

"Os historiadores do futuro terão que se debruçar também sobre aquela categoria dos "sem noção". Categoria antropológica das mais curiosas, reúne indivíduos que ouviram o galo cantar, mas não sabem exatamente onde. Trazem sempre um arsenal de chavões, frases feitas, palavras de ordem, extraídos do lugar comum propagado pela mídia. Quando questionados, costumam assumir uma postura ofensiva, como se as verdades mais universais tivessem sido feridas. Retrucam com o mesmo repertório de sempre, como se a repetição pudesse conferir o estatuto de verdade às próprias opiniões. O mais divertido é ver o susto que tomam quando percebem a fragilidade dessas opiniões, quando confrontados com dados irrefutáveis... Abandonam o debate como crianças emburradas que, quando perdem o jogo, atiram o tabuleiro no chão. Fica evidente que, para os "sem noção", o ato de pensar, raciocinar e refletir é ainda extremamente inusual e, por isso, doloroso. Em razão disso, preferem terceirizar, abdicando do exercício daquilo que, desde Sócrates e Platão, é o que nos constitui como seres humanos. O resultado é o mal banal de que fala Hannah Arendt: esse fungo viscoso e rasteiro que se prolifera insidiosamente pelas redes sociais..."

Adriana Romeiro