quarta-feira, 22 de julho de 2015

Minha querência

“Lá você vai encontrar a minha querência. O lugar que eu amei. Onde os meus sonhos emagreceram. Meu povoado, levantado sobre a planície. Cheio de árvores e de folhas, como um cofre onde guardamos nossas memórias. Você vai sentir que ali a gente gostaria de viver para a eternidade. O amanhecer; a manhã; o meio-dia e a noite, sempre os mesmos; mas com a diferença do ar. Lá, onde o ar muda a cor das coisas; onde a vida se ventila como se fosse um murmúrio; como se fosse um puro murmúrio da vida...”

Juan Rulfo (1917-1986). Pedro Páramo (1955). Rio de Janeiro: BestBolso, 2008, p. 70

Damiana Cisneros

“– Esta cidade está cheia de ecos. Parece até que estão trancados no oco das paredes ou debaixo das pedras. Quando você caminha, sente que vão pisando seus passos. Ouve rangidos. Risos. Umas risadas já muito velhas, como cansadas de rir. E vozes já desgastadas pelo uso. Você ouve tudo isso. Acho que vai chegar o dia em que esses sons se apagarão.

Isso era o que Damiana Cisneros vinha me dizendo, enquanto atravessávamos a cidade.

– Teve um tempo em que andei ouvindo durante muitas noites o barulho de uma festa. Os ruídos chegavam até a Media Luna. Cheguei perto para ver aquela animação e vi isto: o que estamos vendo agora. Nada. Ninguém. As ruas tão solitárias como estão agora.” 

Juan Rulfo (1917-1986). Pedro Páramo (1955). Rio de Janeiro: BestBolso, 2008, p. 53

Susana e o padre

"– Sim, padre.
– Não diga: 'Sim, padre.' Repete o que eu for dizendo.
– O que o senhor vai me dizer? Vai pegar a minha confissão outra vez? Por que outra vez?
– Esta não vai ser uma confissão, Susana. Só vim conversar com você. Preparar você para a morte.
– Eu já vou morrer?
– Vai, filha.
– Então por que não me deixa em paz? Estou com vontade de descansar. Devem ter pedido ao senhor que viesse tirar meu sono. Que ficasse aqui comigo até meu sono ir embora. E o que eu vou fazer depois para encontrar meu sono? Nada, padre. Então por que o senhor não vai embora de uma vez e me deixa tranquila?
– Vou deixar você em paz, Susana. Conforme você for repetindo as palavras que eu disser, irá adormecendo. Vai sentir como se você mesma se ninasse. E vai ver que quando você dormir, ninguém mais irá despertá-la... Você não vai voltar a despertar nunca mais.
– Está bem, padre. Vou fazer o que o senhor disser."

Juan Rulfo (1917-1986). Pedro Páramo (1955). Rio de Janeiro: BestBolso, 2008, p. 125-6

Sozinho

"Pedro Páramo viu como os homens iam embora. Sentiu desfilar na sua frente o trote de cavalos escuros, confundidos com a noite. O suor e o pó; o tremor da terra. Quando viu os pirilampos cruzando outra vez suas luzes, percebeu que todos os homens tinham ido. Só restava ele, sozinho, como um tronco duro começando a se despedaçar por dentro."

Juan Rulfo (1917-1986). Pedro Páramo (1955). Rio de Janeiro: BestBolso, 2008, p. 121

Pedro Páramo

"– Sou eu, dom Pedro – disse Damiana. – Não quer que traga seu almoço?

Pedro Páramo respondeu:

– Vou até lá. Estou indo.

Apoiou-se nos braços de Damiana Cisneros e fez a tentativa de caminhar. Depois de alguns tantos passos caiu, suplicando por dentro; mas sem dizer uma única palavra. Deu uma batida seca contra a terra e foi se desmoronando como se fosse um montão de pedras."

Juan Rulfo (1917-1986). Pedro Páramo (1955). Rio de Janeiro: BestBolso, 2008, p. 137

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O culto das aparências

“A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre mas quem cria pobreza.

Vivemos hoje uma atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de riqueza. Criou-se a ideia que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferenciam dos mais pobres.

Recordo-me que certa vez entendi comprar uma viatura em Maputo. Quando o vendedor reparou no carro que eu tinha escolhido quase lhe deu um ataque. 'Mas esse, senhor Mia, o senhor necessita de uma viatura compatível'. O termo é curioso: 'compatível'.

Estamos vivendo num palco de teatro e de representações: uma viatura já é não um objecto funcional. É um passaporte para um estatuto de importância, uma fonte de vaidades. O carro converteu-se num motivo de idolatria, numa espécie de santuário, numa verdadeira obsessão promocional.

Esta doença, esta religião que se podia chamar viaturolatria atacou desde o dirigente do Estado ao menino da rua. Um miúdo que não sabe ler é capaz de conhecer a marca e os detalhes todos dos modelos de viaturas. É triste que o horizonte de ambições seja tão vazio e se reduza ao brilho de uma marca de automóvel.

É urgente que as nossas escolas exaltem a humildade e a simplicidade como valores positivos.

A arrogância e o exibicionismo não são, como se pretende, emanações de alguma essência da cultura africana do poder. São emanações de quem toma a embalagem pelo conteúdo.”

Mia Couto, escritor moçambicano. Os sete sapatos sujos [Quinto sapato: A vergonha de ser pobre e o culto das aparências]. In: contioutra.com

Tudo pó

"(...) Arquiteto, artista,
doutor,
profissões de mercado. Mas até os mercados passam. Tudo se esboroa, se
desfaz e volta
ao pó,

tudo isso é pó e volta ao pó. Se o teu filho realizar feitos
incríveis, encher toda
Bat Yam de orgulho e sua casa de fortuna,
fama e tudo o mais, e uma Mercedes também, e for ungido no
melhor dos
óleos, com o passar dos anos o pó tudo cobrirá.
O nome se apagará, o óleo secará e restará apenas o pó da
ferrugem, e também
esta vai se dispersar, afinal,

aos quatro ventos. Uma poeira esquecida, mãe, a poeira do
nada, invisível,
imperceptível, a poeira das casas
esquecidas, que existiram e desmoronaram, dunas de areia
varridas pelo vento,
pó voltando ao pó,
de um punhado de poeira cósmica se formou essa estrela, e para
um buraco
negro ela retorna.

Médico, arquiteto, a casa dos sonhos e tapetes luxuosos na
melhor área de Bat
Yam. Tudo pó.
Volte, descanse, minha mãe, depois das montanhas eu volto, e
você e eu nos esconderemos,
Não nos alcançará nem mesmo a nuvem, que existiu antes de
todo ser, e que
só ela, afinal, restará."

Amós Oz (1939-). O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 108-9

Prague


"The office was becoming unbearable (...). He went through the motions of his work in a kind of numbness: 'And most of the time in the office I do what I am supposed to, am quite calm when I can be sure that my boss is satisfied, and do not feel that my condition is dreadful.' At night the demons – 'the great agitation in me' – returned to torment him in his lonely room in a house where he felt no one understood him, and where he watched in the middle of the night the lights and shadows thrown on the walls and ceilings by the electric lights of Niklasstrasse and the Cech Bridge. Kafka's Prague was sometimes reduced to this: a tight domestic web wrapped around him as if he were a trapped insect."

Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 93

capable of anything

"...after a conversation with his mother about marriage and children towards the end of the year he was convinced 'how untrue and childish is the conception of me that my mother builds up for herself'. She considered that if he were to get married and have children, all his hypochondria and anxiety would vanish, his interest in literature would decline to a professional man's sideline or hobby, and he would find himself concentrating on his career, like any normal person.

Needless to say, Kafka did not see it that way. Whatever the difficulties and obstacles he was currently experiencing, his intuition that he was capable of great things continued to possess him. One night he lay on his bed 'and again became aware of all my abilities as though I were holding them in my hand... capable of anything...'."

Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 101

Kafka

"Kafka was now moving steadily towards a total commitment to writing in order, in some sense, to define his whole existence. The obvious constraints on such an absolute dedication remained unchanged – work, family, the uncooperative physical body – but he now began to believe that his incapacity in other directions demanded a retrenchment to the one activity he knew he could do well. 'It is easy to recognize a concentration in me of all my forces on writing,' he wrote in his journal at the beginning of January 1912. 'When it became clear in my organism that writing was the most productive direction for my being to take, everything rushed in that direction...'."

Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 105

Writing



"Shouldn't I stake all I have on the one thing I can do? What a hopeless fool I should be if I didn't! My writing may be worthless; in which case, I am definitely and without doubt utterly worthless. If I spare myself in this respect, I am no really sparing myself, I am committing suicide."

Franz Kafka (1883-1924). Citado por Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 131

Maria também está perdida



"Maria também está perdida, vagueia entre mosteiros,
dorme, levanta, se arruma, às vezes com algum homem,
vão e vêm. Sua beleza fenece. No rosto,
rugas do sol, do vento e da geada. A terra prometida
desapareceu, ou foi somente uma miragem. O que ela deu
já tomaram, e o que restou se perderá.

A terra prometida é uma mentira. Não existe nenhum
Homem das Neves nos vales mágicos.
Só o mar ainda a espera, e o que não houve
se foi. Esta noite, com o jovem.
Amanhã, sozinha."

Amós Oz (1939-). O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 126

A vida é um incêndio

"A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida..."


Mario Quintana (1906-1994)

domingo, 5 de julho de 2015

Seu estilo de vida foi previamente projetado

“Aqui no Ocidente, um estilo de vida baseado em gastos desnecessários foi propositalmente cultivado e encorajado no público pelos grandes negócios. Empresas de todos os tipos apostam alto na tendência do público em ser descuidado com o seu dinheiro. (...)

As grandes empresas não ganharam seus milhões promovendo seriamente as qualidades dos seus produtos, mas criando uma cultura de centenas de milhões de pessoas que compram bem mais do que precisam e tentam afastar a insatisfação com dinheiro. (...)

A ferramenta definitiva das empresas para sustentar esse tipo de cultura é desenvolver as 40 horas de trabalho por semana como o estilo de vida normal. Com essas condições de trabalho, as pessoas precisam ‘viver’ à noite e nos fins de semana. Esta configuração nos deixa naturalmente mais propensos a gastar muito com entretenimento e conveniências [concentrados em ‘pacotes’, tudo muito prático – e caro], já que o nosso tempo livre é tão escasso. (...)

Faz poucos dias que eu voltei a trabalhar e já percebi que as atividades mais saudáveis que eu realizava estão rapidamente desaparecendo da minha vida: caminhar, me exercitar, ler, meditar e escrever.

A similaridade evidente entre essas atividades é que elas custam muito pouco ou nenhum dinheiro, mas exigem tempo. (...)

A última coisa que eu quero fazer quando chego em casa é me exercitar. Também é a última coisa que eu quero fazer depois do jantar ou antes de dormir ou assim que eu acordo, e esses seriam os únicos momentos possíveis para fazer isso num dia de semana.

Esse parece ser um problema simples com uma solução simples: trabalhar menos para ter mais tempo livre. Eu já provei para mim mesmo que posso ter um estilo de vida que me satisfaz com menos dinheiro do que eu ganho hoje. Infelizmente, isso é praticamente impossível na empresa onde trabalho, e em muitas outras. Ou você trabalha as suas oito horas por dia, ou não trabalha. (...)

(...) o dia de trabalho com oito horas é muito lucrativo para as grandes empresas, não graças à quantidade de trabalho realizado nessas oito horas (o trabalhador médio de escritório trabalha de fato menos de três dessas oito horas), mas porque faz com que as pessoas se tornem mais propensas a comprar. Fazer com que as pessoas tenham pouco tempo livre significa que elas vão pagar bem mais por conveniência, prazer e qualquer outro alívio que possam comprar. (...)

Fomos conduzidos a uma cultura projetada para nos deixar cansados, famintos por complacência, dispostos a pagar muito por conveniência e entretenimento e, o mais importante, vagamente insatisfeitos com as nossas vidas, a ponto de continuarmos querendo coisas que não temos. Nós compramos tanto porque sempre parece que tem alguma coisa faltando na nossa vida. (...)

Eu não acho que seja necessário afastar-se de todo desse mau sistema e ir viver na floresta fingindo ser um surdo-mudo, como Holden Caulfield sonhava. Mas com certeza seria bom que a gente tivesse plena consciência do que o grande comércio realmente deseja de nós. Eles vêm trabalhando há décadas para criar milhões de consumidores ideais, e eles conseguiram. A não ser que você seja uma verdadeira anomalia, o seu estilo de vida foi previamente projetado.”

David Cain. Trechos do artigo “Your Lifestyle Has Already Been Designed”. In: raptitude.com. Uma tradução completa do artigo pode ser encontrada no site papodehomem.com.br

Os ombros de meu pai

"A energia de meu pai não faz nenhum efeito. Energia de um
pobre coitado.
Cansada, mortiça,
impotente. O que há nele, em vez disso, é um toque de
tristeza. Um ar de
resignação. Um judeu de meia-idade. Humilde cidadão. O que
poderá fazer e
acrescentar,
com suas débeis opiniões. E às vezes meu pai cita o versículo:
Assim como as fagulhas voam para o alto, o homem nasceu
para o trabalho.
Mas o que ele quer
me dizer com isso? Que eu voe para o alto? Que arranje um
emprego? Ou que
não lute em batalhas perdidas? A severidade de meu pai. Seus
ombros
derrotados.
Por causa deles parti. Para eles estou voltando."

Amós Oz (1939-). O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 89

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Que mal eu te fiz?




"Dubi Dombrov – acorda às dez da manhã, suado, tonto e
sombrio,
vai ao banheiro dar uma mijada, as pálpebras ainda coladas,
depois abre a
torneira e lava-se em água fria.
Pensa em fazer a barba. Desiste. Veste a mesma camisa
cheirando a azedo do dia anterior e
vai aos trancos e apalpadelas até a cozinha fazer café.
Ao pegar no escorredor uma xícara limpa, uma aranha foge
rápida. Ora, por quê?
O que que há? O que foi que eu fiz? Que mal eu te fiz? Por que
até você foge
de mim?"

Amós Oz. O mesmo mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 65

Books


"I think we ought to read only the kind of books that wound and stab us. If the book we are reading doesn't wake us up with a blow on the head, what are we reading for?... we need the books that affect us like a disaster, that grieve us deeply, like the death of someone we loved more than ourselves, like being banished into forests far from everyone, like a suicide. A book must be the axe for the frozen sea inside us."

Franz Kafka (1883-1924). Citado por Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 51

Imagem: Franz Kafka, de Andy Warhol (1980)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Kafka



"Hugo Hecht, Kafka's primary-school friend who followed him to the Gymnasium, remembered Kafka as a very well-behaved pupil – 'always very pure' – who declined to take part in the normal ribald sexual talk of adolescent schoolboys. He was 'very nicely dressed' but also 'somewhat remote and distant from us'. He seemed to his contemporaries to live, as it were, behind 'a glass wall', not unfriendly or haughty, but reserved. He always responded to conversational approaches and wasn't a spoilsport, but he would never make the first move. He was, said Emil Utitz, 'quiet, shy and a little mysterious'."

Nicholas Murray. Kafka. London: Abacus, 2014, p. 28-9

Nasci

"Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, (...) reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Génio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu carácter nato quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser. (...)

O último rasto de influência dos outros no meu carácter cessou com isto.

Reconheci (...) a tranquila posse de mim.

Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci."

Fernando Pessoa (1888-1935). Páginas Íntimas e de Auto-interpretação

sábado, 27 de junho de 2015

The house was dark



"The house was dark. I stood looking at it in the darkness, just aware of its bulk in the feeble light of a broken moon, and I thought it looked even bigger than it really was, like a stone-giant's head, a huge moonlit skull full of shapes and memories, staring out to sea and attached to a vast, powerful body buried in the rock and sand beneath, ready to shrug itself free (...).

The house stared out to sea, out to the night, and I went into it."

Iain Banks (1954-2013). The Wasp Factory (1984). London: Abacus, 2013, p. 110

Desexplicar

"Escrever nem uma coisa
Nem outra –
A fim de dizer todas –
Ou, pelo menos, nenhumas.

Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar –
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes."

Manoel de Barros. Poesia Completa. LeYa, 2013, p. 242

Sheeps

"I remember I used to despise sheep for being so profoundly stupid. I'd seen them eat and eat, I'd watched dogs outsmart whole flocks of them, I'd chased them and laughed at the way they ran, watched them get themselves into all sorts of stupid, tangled situations (...). It was years, and a long slow process, before I eventually realised what sheep really represented: not their own stupidity, but our power, our avarice and egotism.

After I'd come to understand evolution and know a little about history and farming, I saw that the thick white animals I laughed at for following each other around and getting caught in bushes were the product of generations of farmers as much as generations of sheeps; we made them, we moulded them from the wild, smart survivors that were their ancestors so that they would become docile, frightened, stupid, tasty wool-producers."

Iain Banks (1954-2013). The Wasp Factory (1984). London: Abacus, 2013, p. 192-3

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Indiferença

"[...] ocorrera-me a convicção de que no mundo, em qualquer canto, tudo tanto faz. Fazia muito tempo que eu vinha pressentindo isso, mas a plena convicção surgiu no último ano, assim, de repente. Senti de repente que para mim dava no mesmo que existisse um mundo ou que nada houvesse em lugar nenhum. Passei a perceber e a sentir com todo o meu ser que diante de mim não havia nada. No começo me parecia sempre que, em compensação, tinha havido muita coisa antes, mas depois intuí que antes também não tinha havido nada, apenas parecia haver, não sei por quê. Pouco a pouco me convenci de que também não vai haver nada jamais. Então de repente parei de me zangar com as pessoas e passei a quase nem notá-las. De fato, isso se manifestava até nas mínimas ninharias: estou, por exemplo, andando na rua e vou dando encontrões nas pessoas. E não era por andar mergulhado em pensamentos: sobre aquilo que eu tinha para pensar, já então cessara completamente de pensar: tudo me era indiferente. E se ao menos eu tivesse resolvido as questões; ah, não resolvi nenhuma, e quantas havia? Mas para mim tudo ficou indiferente, e as questões todas se afastaram."

Fiódor Dostoiévski (1821-1881). O Sonho de um Homem Ridículo (1877)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Fragmentos da História de Pará de Minas



Um livro pelo qual tenho muito carinho é "Fragmentos da História de Pará de Minas", resultado de inúmeros encontros aos sábados, no Museu Histórico da cidade, de um grupo de professores e alunos do curso de História da FAPAM - Faculdade de Pará de Minas, mais a funcionária do Museu, Ana Maria Campos, entre 2002 e 2007, para pesquisar no rico acervo documental do município (inventários, testamentos, processos-crime, jornais etc. do século XIX e início do XX). São mais de 60 textos ricamente documentados sobre o nosso passado, em diferentes aspectos: economia, religião, escravidão, educação, criminalidade, cultura. Infelizmente, a obra está esgotada, mas há exemplares disponíveis para empréstimo na Biblioteca da FAPAM, na Biblioteca Pública Municipal de Pará de Minas e em várias bibliotecas de escolas públicas da cidade.

Meu sonho



"Em uma casa no Batel, em Curitiba, a Arte & Letra é editora, livraria e café. Pertence aos irmãos Thiago e Frede Tizzot. Os verbos mais conjugados por ali são vaguear, ler, beber, comer (um pedaço de torta). Comprar. Esbarrar. Espantar-se (com o nascimento do livro). 'Outro dia, o Frede estava na varanda fazendo as matrizes das xilogravuras da nossa coleção artesanal', conta Thiago. 'Os clientes paravam, olhavam, perguntavam e começavam a entender o processo até a edição pronta. É um envolvimento diferente com o objeto.' Ao trabalhar títulos de literatura que acham bons e merecem ser conhecidos, os livreiros ignoram sem remorso o que não se enquadra no critério. Fogem do comum, das listas de mais vendidos. A laboriosa curadoria inclui a confecção de uma revista literária. Entre os achados, contos de autores fora de catálogo ou nunca traduzidos no Brasil."

Viviane Zandonadi. Viveiro de livros. In: revista Vida Simples. Maio 2015, p. 41

Your room

"You returned to your room, to the loneliness of your room, that smallest of small rooms that sometimes drove you out in search of prostitutes, but it would be wrong to say you were unhappy there, for you had no trouble adjusting to your reduced circumstances, you found it invigorating to learn that you could get by on almost nothing, and as long as you were able to write, it made no difference where or how you lived."

Paul Auster (1947-). Winter Journal. London: faber and faber, 2012, p. 76

Aforismo

"Se possível, não devemos alimentar animosidade contra ninguém, mas observar bem e guardar na memória os procedimentos de cada pessoa, para então fixarmos o seu valor, pelo menos naquilo que nos concerne, regulando, assim, a nossa conduta e atitude em relação a ela, sempre convencidos da imutabilidade do caráter."

Arthur Schopenhauer (1788-1860). Aforismos para a sabedoria de vida

Writing

"Spartan surroundings, yes, but surroundings have never been of any importance as far as your work is concerned, since the only space you occupy when you write your books is the page in front of your nose, and the room in which you are sitting, the various rooms in which you have sat these forty-plus years, are all but invisible to you as you push your pen across the page of your notebook or transcribe what you have written onto a clean page with your typewriter, the same machine you have been using since your return from France in 1974, an Olympia portable you bought secondhand from a friend for forty dollars – a still functioning relic that was built in a West German factory more than half a century ago and will no doubt go on functioning long after you are dead. The number of your studio apartment pleased you for its symbolic aptness. 1-I, meaning the single self, the lone person sequestered in that bunker of a room for seven or eight hours a day, a silent man cut off from the rest of the world, day after day sitting at his desk for no other purpose than to explore the interior of his own head."

Paul Auster (1947-). Winter Journal. London: faber and faber, 2012, p. 106-7

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Sossego

"Demoro a aprender
que a linha reta é puro desconforto.
Sou curva, mista e quebrada,
sou humana. Como o doido,
bato a cabeça só pra gozar a delícia
de ver a dor sumir quando sossego."

Adélia Prado (1935-). Branca de neve. In: Miserere. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 10

Morangos mofados



"...é daquele emaranhado cheio de dor e angústia fria e solidão escura que ela arranca essa beleza que joga para fora." (p. 119)

"Mas sabes principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa. Por trás de todos os artifícios, só não saberás nunca que neste exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva." (p. 114)

"Quase a noite inteira, um podia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados." (p. 141)

"Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens do céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram." (p. 142)

"Um tranquilizante levinho levinho aí umas cinco miligramas, que o senhor tome três por dia, ao acordar, após o almoço, ao deitar-se, olhos vidrados, mente quieta, coração tranquilo, sístole, pausa, diástole, pausa, sístole, pausa, diástole, sem vãs taquicardias, freio químico nas emoções. Assim passaria a movimentar-se lépido entre malinhas 007, paletós cardin, etiquetas fiorucci, suavemente drogado, demônios suficientemente adormecidos para não incomodar os outros. Proibido sentimentos, passear sentimentos, passear sentimentos desesperados de cabeça para baixo, proibido emoções cálidas, angústias fúteis, fantasias mórbidas e memórias inúteis, um nirvana da bayer e se é bayer. Suspirou, suspirava muito ultimamente, apanhou a receita, assinou um cheque com fundos, naturalmente, e saiu antes de ouvir um delicado porque, afinal, o senhor ainda é tão jovem." (p. 146-7)

"Feito febre, baixava às vezes nele aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todos os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de alguma forma se modificaria. Mais que sensação, densa certeza viscosa impedindo qualquer movimento em direção à luz. E além da certeza, a premonição de um futuro onde não haveria o menor esboço de uma espécie qualquer não sabia se de esperança, fé, alegria, mas certamente qualquer coisa assim.

Eram dias parados, aqueles. Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos – acordar, comer, caminhar, dormir –, dentro dele algo permanecia imóvel. Como se seu corpo fosse apenas a moldura do desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos, olhos fixos na distância. Ausentou-se, diriam ao vê-lo, se o vissem. E não seria verdade. Nesses dias, estava presente como nunca, tão pleno e perto que estava dentro do que chamaria – tivesse palavras, mas não as tinha ou não queria tê-las – vaga e precisamente de: A Grande Falta." (p. 71)

Caio Fernando Abreu (1948-1996). Morangos mofados (1982). 9ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995