segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Fugir de casa

"Overdose de realidade é a ruína do ser humano. Há que se ter uma janela, uma porta, uma escada para o imaginário, para o idílico – ou para o tormento, que seja. Ninguém é uma coisa só, ninguém é tão único, tão encerrado em si próprio, tão refém do que lhe foi ensinado. Desde cedo fica evidente que nosso potencial é múltiplo, que há um deus e um diabo morando no mesmo corpo. Como segurar a onda? Fugindo de casa, mas fugindo com sabedoria, sem droga, sem violência – fugindo para se reencontrar através da arte, através do espetáculo da criação, mesmo que sejamos nossa única plateia. Cada um de nós tem obrigação de buscar uma maneira menos burocrática de existir."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 26

Suicídio


"O suicídio
não é algo pessoal.
Todo suicida
nos leva
ao nosso funeral.

O suicida
não é só cruel consigo.
É cruel, como cruel
só sabe ser
– o melhor amigo.

O suicida
é aquele que pensa
matar seu corpo a sós.
Mas o seu eu se enforca
num cordão de muitos nós.

O suicida
não se mata em nossas costas.
Mata-se em nossa frente,
usando seu próprio corpo
dentro de nossa mente.
[...]
Mais que o espectador
que saiu no entreato,
o suicida
é um ator
que questionou o teatro.
[...]
O suicida, enfim,
é um poeta perverso
e original
que interrompeu seu poema
antes do ponto final."

Affonso Romano de Sant'Anna (1937-). Poesia Reunida (1965-1999). Volume 2. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 45-46

Michelangelo


"Perhaps I have not mentioned having once underlined a sentence by Michelangelo.

I once underlined a sentence by Michelangelo.

This was a sentence that Michelangelo once wrote in a letter, when he had lived almost seventy-five years.

You will say that I am old and mad, was what Michelangelo wrote, but I answer that there is no better way of being sane and free from anxiety than by being mad."

David Markson (1927-2010). Wittgenstein's Mistress (1988). London: Dalkey Archive Press, 2015, p. 192

Imagem: Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simon (1475-1564), pintor, escultor, poeta e arquiteto italiano, considerado um dos maiores criadores da história da arte

Dinheiro

"Mulheres sonham engravidar de sujeitos que elas conhecem de ouvir falar – um tal de Romário, um tal de Ronaldinho, um tal de Diego. Homens, da mesma forma, procuram aproximar-se de quem possa lhes abrir portas – de preferência, do cofre. Pessoas ostentam. Pessoas vivem em desacordo com sua realidade. Pessoas fazem trambiques. Pessoas mantêm relações de interesse. Pessoas se humilham, se vendem, se prostituem das mais diversas formas. Por quê? Porque nada mais faz sentido nesta vida senão o dinheiro. E quanto mais vivemos em função dele, mais miseráveis ficamos."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 72

Escolhas

"...em vez de assumir que estamos cansados, frustrados, derrubados por uma desilusão, optamos por fingir que está tudo na mais perfeita ordem e, para não passar pelo estresse de romper um casamento/pedir demissão/trocar de cidade/ou o que for, a gente simplifica: se divorcia do que está sentindo – ou seja, de nós mesmos. E botamos um farsante pra existir no nosso lugar. [...]

Quando fazemos uma escolha, qualquer escolha, estamos dizendo sim para um lado e dizendo não para o outro. Então, algum sofrimento sempre vai haver. Não adianta se autoproclamar o herói da resistência contra o fracasso. Todo mundo fracassa em alguma coisa."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 80-81

Malucos e geniais

"Se fôssemos admirar apenas o trabalho dos bons moços, teríamos que ignorar Oscar Wilde, Chet Baker, Cole Porter, Janis Joplin, Ray Charles, Eric Clapton, Billie Holiday, Pablo Picasso, Jack Kerouac, Ernest Hemingway, pra citar apenas alguns nomes de uma longa lista de alcoolistas, viciados em drogas, egocêntricos, petulantes, malucos e geniais.

Não é preciso ser doidão pra realizar uma grande obra, há inúmeras pessoas talentosas que vivem de forma regrada, mas há que se respeitar aqueles que necessitam extravasar-se e que não estão prejudicando ninguém. A liberdade total sempre foi politicamente incorreta. É pouco provável que Cazuza tivesse criado as belas e viscerais canções que criou caso fosse um menino temente a Deus com um emprego burocrático de segunda a sexta. Nada contra os tementes a Deus com empregos burocráticos, eles dão bons pais de família, bons médicos, bons carteiros e bons maridos, mas que não se queira exigir de um artista esse tipo de enquadramento.

[...] não podemos fingir que o mundo é composto apenas de super-heróis imunes a fraquezas, a curiosidades e a ímpetos que nem sempre estão dentro dos padrões."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 64-65

Felicidade

"No mais recente livro de Carlos Moraes, o ótimo 'Agora Deus vai te pegar lá fora', há um trecho em que uma mulher ouve a seguinte pergunta de um major: 'Por que você não é feliz como todo mundo?'. A que ela responde mais ou menos assim: 'Como o senhor ousa dizer que não sou feliz? O que o senhor sabe do que eu digo para o meu marido depois do amor? E do que eu sinto quando ouço Vivaldi? E do que eu rio com meu filho? E por que mundos viajo quando leio Murilo Mendes? A sua felicidade, que eu respeito, não é a minha, major'."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 94

Cace a liberdade


"Cace a liberdade que anda tão rara, liberdade de pensamento, de atitudes, vá ao encontro de tudo que não tem regras, patrulha, horários. Cace o amanhã, o novo, o que ainda não foi contaminado por críticas, modismos, conceitos, vá atrás do que é surpreendente, o que se expande na sua frente, o que lhe provoca prazer de olhar, sentir, sorver. Entre numa galeria de arte. Vá assistir a um filme de um diretor que não conhece. Olhe para sua cidade com olhos de estrangeiro, como se você fosse um turista. Abra portas. E páginas."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 118

Livros salvam

"...eu acho mesmo que os livros nos salvam, de alguma maneira. Salvam a gente de levar uma vida besta, doutrinada pela tevê. Salvam a gente de ficar olhando só pra fora, só para o que acontece na vida dos outros, sem nos dedicar a alguns momentos de introspecção. Salvam a gente de ser preconceituoso. Salvam a gente do desconhecimento, do embrutecimento, do mau-humor, da solidão, salvam a gente de escrever errado. Se existe salvador da pátria, não conheço outro.

Quando me refiro a alguém que lê, estou me referindo a alguém que lê bastante, que lê com paixão, que lê compulsivamente. Porque ler dois ou três livros por ano, apesar de estar dentro da média brasileira, está longe de ser comemorado. Vira um programinha excêntrico: 'Vou aproveitar que hoje está nevando e ler um livro'. Nada disso. Livro salva quem nele se vicia. Salva quem não consegue se saciar. Quem quer saber mais, conhecer mais, se aprofundar mais. É imersão. Mergulho. Salva a gente da secura da vida."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 130

Todo mundo?

"Abro revistas e encontro fórmulas prontas de comportamento: como ser feliz no casamento, como ter uma trajetória de sucesso, como manter-se jovem. Resolve-se a questão com meia dúzia de conselhos rápidos. Para ser feliz no casamento, todo mundo deve reinventar a relação diariamente. Para ter uma trajetória de sucesso, todo mundo deve ser comunicativo e saber inglês. Para manter-se jovem, todo mundo deve parar de fumar e beber. Todo mundo quem, cara pálida?

'Todo mundo' é um conceito abstrato, uma generalização. Ninguém pode saber o que é melhor para 'cada um'. Fórmulas e tendências servem apenas como sinalizadores de comportamento, mas para conquistar satisfação pessoal pra valer, só vivendo do jeito que a gente acha que deve, estejamos ou não enquadrados no que se convencionou chamar de normal. [...]

Fazer do seu jeito – amores, moda, horários, viagens, trabalho, ócio – é uma maneira de ficar em paz consigo mesmo e, de lambuja, firmar sua personalidade, destacar-se da paisagem. Claro que não se deve lutar insanamente contra as convenções só por serem convenções – muitas delas nos servem, e se nos servem, nada há de errado com elas. Estão aí para facilitar nossa vida. Mas se não facilitam, outro jeito há de ter. Um jeito próprio de ser alguém, em vez de simplesmente reproduzir os diversos jeitos coletivos de ser mais um."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 169-170

Festa no outro apartamento

"Anos atrás, a cantora Marina Lima compôs com o seu irmão, o poeta Antônio Cícero, uma música que dizia: 'Eu espero/acontecimentos/só que quando anoitece/é festa no outro apartamento'. Passei minha adolescência com esta sensação: a de que algo muito animado estava acontecendo em algum lugar para o qual eu não tinha sido convidada. É uma das características da juventude: considerar-se deslocado e impedido de ser feliz como os outros são – ou aparentam ser. Só que chega uma hora em que é preciso deixar de ficar tão ligada na grama do vizinho.

As 'festas em outros apartamentos' são fruto da nossa imaginação, que é infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias. Os notáveis alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas fraquezas, então fica parecendo que todos estão comemorando grandes paixões e fortunas, quando na verdade a festa lá fora não está tão animada assim."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 185

Arrogantes


"...os arrogantes não são poucos. Façamos aqui um retrato falado: são aqueles que andam de nariz em pé, certos de que são o último copo d'água do deserto. Aqueles que são grosseiros com subalternos, que se empolgam ao falar de atributos que imaginam ser exclusivos deles, os que furam a fila do restaurante e tomam como ofensa pessoal caso sejam instalados numa mesa mal localizada. São os que ostentam, que dão carteiraço e que sentem um prazer mórbido em humilhar aqueles que sabem menos – ou que podem menos. São os preconceituosos e os que olham o mundo de cima pra baixo. Será que eles acreditam que são assim tão superiores? Lógico que não, e isso é que é patético.

Os arrogantes são os primeiros a reconhecer sua própria mediocridade, e é por isso que precisam levantar a voz e se autopromover constantemente. Eles não toleram a porção de fragilidade que coube a todos nós, seres humanos, e não se acostumam com a ideia de que são exatamente iguais aos seus semelhantes, sejam estes garçons, porteiros de boate ou executivos de multinacionais. Dão a maior bandeira da sua insegurança.

O arrogante acredita que todos estão a falar (mal) dele, lê entrelinhas que não existem, escuta seu nome mesmo quando não foi pronunciado, e ao descobrir que não é mesmo dele que estão falando, aí é que morre de desgosto. Todo arrogante traz um complexo de inferioridade que salta aos olhos. [...]

Repare bem: quase todos os atos de violência são protagonizados por um arrogante que entra em pânico com a palavra não."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 189-190

Perdidos

"Era um sábado à tarde. Eu estava num bairro onde nunca tinha colocado os pés, com um endereço anotado num pedaço de papel, dirigindo meu carro e ao mesmo tempo observando as placas de sinalização. Parecia uma barata tonta, não encontrava a rua que queria. Nisso o sinal fechou e eu parei atrás de um caminhão, em cujo para-choque estava escrito: 'Não me siga que eu também estou perdido'.

Comecei a rir da coincidência, tive vontade de descer e ir até a boleia abraçar meu companheiro de infortúnio. Somos dois, meu irmão. Aliás, somos mais do que dois. Somos muitos. Somos todos."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 197

The Descent from the Cross


"Would it have made any sense whatsoever if I had said that the woman in my novel would have one day actually gotten more accustomed to a world without any people in it than she ever could have gotten to a world without such a thing as 'The Descent from the Cross', by Rogier van der Weyden, by the way?

Or without the 'Iliad'? Or Antonio Vivaldi?

I was just asking, really.

As a matter of fact it was at least seven or eight weeks ago, when I asked that.

It now being early November, at a guess.

Let me think.

Yes."

David Markson (1927-2010). Wittgenstein's Mistress (1988). London: Dalkey Archive Press, 2015, p. 232-233

Imagem: 'The Descent from the Cross' (1438), by Rogier van der Weyden (1400-1464)

Tempo perdido

"Quanto tempo a gente perde na vida? Se somarmos todos os minutos jogados fora, perdemos anos inteiros. Depois de nascer, a gente demora pra falar, demora pra caminhar, aí mais tarde demora pra entender certas coisas, demora pra dar o braço a torcer. Viramos adolescentes teimosos e dramáticos. Levamos um século para aceitar o fim de uma relação, e outro século para abrir a guarda para um novo amor, e já adultos demoramos para dizer a alguém o que sentimos, demoramos para perdoar um amigo, demoramos para tomar uma decisão. Até que um dia a gente faz aniversário. 37 anos. Ou 41. Talvez 48. Uma idade qualquer que esteja no meio do trajeto. E a gente descobre que o tempo não pode continuar sendo desperdiçado. Fazendo uma analogia com o futebol, é como se a gente estivesse com o jogo empatado no segundo tempo e ainda se desse ao luxo de atrasar a bola pro goleiro ou fazer tabelas desnecessárias. Que esbanjamento. Não falta muito pro jogo acabar. É preciso encontrar logo o caminho do gol. [...]

Pessoas experientes já não cozinham em fogo brando, não esperam sentados, não ficam dando voltas e voltas, não necessitam percorrer todos os estágios. Queimam etapas. Não desperdiçam mais nada.

Uma pessoa é sempre bruta com você? Não é preciso conviver com ela.

O cara está enrolando muito? Beije-o primeiro.

A resposta do emprego ainda não veio? Procure outro enquanto espera.

Paciência só para o que importa de verdade. Paciência para ver a tarde cair. Paciência para sorver um cálice de vinho. Paciência para a música e para os livros. Paciência para escutar um amigo. Paciência para aquilo que vale nossa dedicação. Pra enrolação, atalho."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 215-216

Vida

"Vida. A única coisa que a gente realmente tem – viemos do nada e para o nada voltaremos. Sempre que me dou conta disso, fico boba com a quantidade de tempo que desperdiçamos fazendo coisas das quais não gostamos, dizendo amém para o que não concordamos e aceitando regras pré-estabelecidas em nome da ordem social. No fundo, malucos somos nós, os que não arriscam, os que vivem entre quatro paredes, os que mantêm pouco contato com a natureza, os que se protegem contra emoções vertiginosas."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 219

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Vive melhor quem sabe a hora de se afastar

"Teremos que perceber quando não formos mais parte de certos lugares, quando não mais precisarem de nós ali, quando nossa presença não for requisitada, quando nosso amor não mais encontrar terreno afetivo ao lado de quem foge ao nosso olhar. Porque haverá ambientes que ficarão melhor sem nossa presença, haverá pessoas que desejarão nossa distância, haverá vidas correndo com tranquilidade longe de nós. Ainda que não seja fácil, será preciso nos afastar do que e de quem já caminha longe da gente.

Na verdade, mesmo que leve um tempo, acabaremos chegando à conclusão de que tudo o que não nos requer e todos que não nos chamam mais não nos farão falta alguma, pois o que não carrega reciprocidade não vinga, não floresce, nada oferta nem acrescenta. Ficaremos bem melhor longe do que não nos recebia com verdade."

Marcel Camargo. In: Obvious

Poetry

"The other book in Spanish was not a translation, but had been written in that language. This was a volume of poems by Sor Juana Inés de la Cruz.

Well, Sor Juana Inés de la Cruz being still another person I suspect I have mentioned.

My reason for suspecting this is that Sor Juana Inés de la Cruz was Mexican, and I am quite positive I have spoken of having once lived in Mexico.

Living in Mexico one would naturally have become familiar with the names of certain Mexican poets, even if one did not read the language they wrote in very well.

If one does not read a language very well, one generally reads poetry in that language even less well than that, as a matter of fact.

Although I do believe I once did make an effort to read certain poems by Marco Antonio Montes de Oca, even if the chief reason I did so may have been because of how taken I was with his name.
Certainly it has a memorable resonance, when one says it out loud.

Marco Antonio Montes de Oca."

David Markson (1927-2010). Wittgenstein's Mistress (1988). London: Dalkey Archive Press, 2015, p. 165-166

Sonhos


“Com a minha experiência aprendi pelo menos isso: que se uma pessoa avançar confiantemente na direção de seus sonhos, e se esforçar por viver a vida que imaginou, há de se encontrar com um sucesso inesperado nas horas rotineiras. Há de deixar para trás uma porção de coisas e atravessar uma fronteira invisível; leis novas, universais e mais abertas começarão por se estabelecer ao redor e dentro dela; ou as leis velhas hão de ser expandidas e interpretadas a seu favor num sentido mais liberal, e ela há de viver com a aquiescência de uma ordem superior de seres. A medida que ela simplificar a sua vida, as leis do universo hão de lhe parecer menos complexas, e a solidão não será mais solidão, nem a pobreza será pobreza, nem a fraqueza, fraqueza.”

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014

Archimboldi

"O quarto livro de Archimboldi não demorou a chegar à editora. Se chamava 'Rios da Europa', embora falasse basicamente de um só rio, o Dnieper. Digamos que o Dnieper era o protagonista do livro e os demais rios nomeados faziam parte do coro. O senhor Bubis o leu numa sentada, em sua sala, e os risos que lhe provocou a leitura foram ouvidos por toda a editora. Desta vez o adiantamento que mandou a Archimboldi foi maior do que todos os anteriores, a tal ponto que Martha, a secretária, antes de enviar o cheque para Colônia, entrou na sala do senhor Bubis e, mostrando o cheque, perguntou (não uma mas duas vezes) se o valor estava correto, ao que o senhor Bubis respondeu que sim, que era a cifra correta, ou incorreta, tanto fazia, um valor, um número, pensou ele quando tornou a ficar sozinho, sempre é aproximado, não existe número correto, só os nazistas acreditavam no número correto e os professores de matemática elementar, só os sectários, os loucos das pirâmides, os coletores de impostos (que Deus acabe com eles), os numerologistas que liam o destino por três vinténs acreditavam no número correto. Os cientistas, pelo contrário, sabiam que todo número é apenas aproximado. Os grandes físicos, os grandes matemáticos, os grandes químicos e os editores sabiam que a gente sempre transita no escuro."

Roberto Bolaño (1953-2003). 2666. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 783

Certo e errado


"Certo e errado são convenções que se confirmam com meia dúzia de atitudes. Certo é ser gentil, respeitar os mais velhos, seguir uma dieta balanceada, dormir oito horas por dia, lembrar dos aniversários, trabalhar, estudar, casar e ter filhos, certo é morrer bem velho e com o dever cumprido. Errado é dar calote, repetir o ano, beber demais, fumar, se drogar, não programar um futuro decente, dar saltos sem rede. Todo mundo de acordo?

Todo mundo teoricamente de acordo, porém a vida não é feita de teorias. E o resto? E tudo aquilo que a gente mal consegue verbalizar, de tão intenso? Desejos, impulsos, fantasias, emoções. Ora, meia dúzia de normas preestabelecidas não dão conta do recado. Impossível enquadrar o que lateja, o que arde, o que grita dentro de nós. [...]

O amor é certo, o ódio é errado, e o resto é uma montanha de outros sentimentos, uma solidão gigantesca, muita confusão, desassossego, saudades cortantes, necessidade de afeto e urgências sexuais que não se adaptam às regras do bom comportamento. [...]

Todo o resto é o que nos assombra: as escolhas não feitas, os beijos não dados, as decisões não tomadas, os mandamentos que não obedecemos, ou que obedecemos bem demais – a troco de que fomos tão bonzinhos?"

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 11-12

Fugir de casa

"Overdose de realidade é a ruína do ser humano. Há que se ter uma janela, uma porta, uma escada para o imaginário, para o idílico – ou para o tormento, que seja. Ninguém é uma coisa só, ninguém é tão único, tão encerrado em si próprio, tão refém do que lhe foi ensinado. Desde cedo fica evidente que nosso potencial é múltiplo, que há um deus e um diabo morando no mesmo corpo. Como segurar a onda? Fugindo de casa, mas fugindo com sabedoria, sem droga, sem violência – fugindo para se reencontrar através da arte, através do espetáculo da criação, mesmo que sejamos nossa única plateia. Cada um de nós tem obrigação de buscar uma maneira menos burocrática de existir."

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 26

Michelangelo

"Perhaps I have not mentioned having once underlined a sentence by Michelangelo.

I once underlined a sentence by Michelangelo.

This was a sentence that Michelangelo once wrote in a letter, when he had lived almost seventy-five years.

You will say that I am old and mad, was what Michelangelo wrote, but I answer that there is no better way of being sane and free from anxiety than by being mad."

David Markson (1927-2010). Wittgenstein's Mistress (1988). London: Dalkey Archive Press, 2015, p. 192

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Revés

"Porque só conhece a vida quem já mergulhou nas profundezas. Só um revés confere ao homem sua força impetuosa integral. Principalmente o gênio criador precisa desta solidão temporária forçada para medir, das profundezas do desespero, do exílio distante, o horizonte e a extensão de sua verdadeira missão."

Joseph Fouché (1759-1820). Citado por Stefan Zweig. Retrato de um Homem Político: Joseph Fouché (1929)

Tédio

"Acordei hoje muito cedo, num repente embrulhado, e ergui-me logo da cama, sob o estrangulamento de um tédio incompreensível. Nenhum sonho o havia causado; nenhuma realidade o poderia ter feito. Era um tédio absoluto e completo, mas fundado em qualquer coisa. No fundo obscuro da minha alma, invisíveis, forças desconhecidas travavam uma batalha em que meu ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito. Uma náusea física da vida inteira nasceu com o meu despertar. Um horror a ter que viver ergueu-se comigo da cama. Tudo me pareceu oco e tive a impressão fria de que não há solução para problema algum. Uma inquietação enorme fazia-me estremecer os gestos mínimos. Tive receio de endoidecer, não de loucura, mas de ali mesmo. O meu corpo era um grito latente. O meu coração batia como se soluçasse."

Fernando Pessoa (1888-1935). Livro do desassossego. Porto: Assírio e Alvim, 2013, n. 98. Citado por Adriano Oliveira. O tédio no 'Livro do Desassossego'.

O pensamento fácil


"Na Babel em que todos podem falar ao mesmo tempo, irão se sobressair aqueles que se fizerem mais vistos, claro que por seus próprios meios. Todavia, como todos podem falar, o número de coisas a serem vistas e ouvidas é infindável, de tal modo que para que se possa tomar parte neste circuito que se quer infinito, tudo deve ser feito segundo o critério da facilidade. Tudo deve ser fácil de ver, de ouvir, de interagir.

A timeline da rede social será melhor vista, isto quer dizer, mais rapidamente vista, quanto mais fáceis forem as coisas que se apresentem. Nesta faceta, a internet mostra-se muito mais conformista que revolucionária. E todos aqueles que objetivam ganhar e aumentar visibilidade devem assim proceder, não importa a direção política que sigam. [...]

Qualquer ato que possa demandar um maior tempo e esforço é, de imediato, rechaçado, posto que se identifica com a encarnação da chatice. Assim, são os nossos desejos, afetos e pensamentos que também devem se acomodar ao critério da rapidez e da facilidade. [...]

O ‘pensamento fácil’ é o modo difuso como raciocina o indivíduo deste começo de século. É a renúncia antecipada a qualquer resquício de complexidade. Pois esta última implica demora, esforço, e tais coisas são abominadas como sendo os antônimos absolutos da facilidade. Conformando-se aos tempos informacionais, o 'pensamento fácil' abole a barreira entre o simples e o simplório. Trabalha com definições curtas, como na lógica do estabelecimento do número máximo de caracteres. [...]

Desse modo, também a linguagem, as capacidades expressivas são alteradas pelo critério da brevidade, que é a regra linguística do 'pensamento fácil'. [...]

Se também nós nos acomodarmos ao ‘pensamento fácil’, cada vez mais perderemos a capacidade de realizar a crítica do presente, pois enquanto nos dão a facilidade como regra, o mundo se complexifica, nos pedindo cada vez mais o forjar de alternativas novas. Estas demandam sempre esforço, pertinácia e tempo. Um tempo que não é o das facilidades e um pensamento que não se contenta com simplismos. O desafio é, então, atuar no virtual sem se deixar seduzir pelo ‘pensamento fácil’, nem endossá-lo.”

Fran Alavina. A internet e as artimanhas do pensamento fácil. In: Carta Capital, 17/08/2016

Prefiro a derrota

"Prefiro a derrota com o conhecimento da beleza das flores que a vitória no meio dos desertos, cheia de cegueira da alma a sós com a sua nulidade separada."

Fernando Pessoa (1888-1935). Livro do Desassossego, p. 209

Como escapar?

"Eu não tinha interesses. Eu não tinha interesse por nada. Não fazia a mínima ideia de como iria escapar. Os outros, ao menos, tinham algum gosto pela vida. Pareciam entender algo que me era inacessível. Talvez eu fosse retardado. Era possível. Frequentemente me sentia inferior. Queria apenas encontrar um jeito de me afastar de todo mundo. Mas não havia lugar para ir. Suicídio? Jesus Cristo, apenas mais trabalho. Sentia que o ideal era poder dormir por uns cinco anos, mas isso eles não permitiriam."

Charles Bukowski (1920-1994). Misto-quente (1982). Porto Alegre: L&PM.

sábado, 20 de agosto de 2016

O poder do dinheiro


"Scarsdale Vibe discursava para a delegação de Las Animas-Huerfano do Fórum pela União e Defesa da Indústria (F.U.D.I.), reunida no cassino de um exclusivo resort de águas termais perto do Divisor de Águas. [...]

'Isso mesmo, nós os usamos', Scarsdale já no meio daquele discurso que se tornara sua obra-prima oratória costumeira, 'nós os arreamos e sodomizamos, fotografamos sua degradação, nós os obrigamos a subir em estruturas de ferro elevadas e penetrar em minas, esgotos e abatedouros, a carregar pesos desumanos, colhemos deles os músculos, a visão, a saúde, e temos a bondade de lhes deixar uns poucos anos de vida miserável. É claro que fazemos isso. E por que não? Eles não servem para mais nada, mesmo. Pode-se esperar deles que atinjam a condição humana integral, adquirindo educação, formando famílias, promovendo a cultura ou a raça? Nós pegamos o que podemos pegar enquanto nos deixam pegar. Olhem só para eles - a marca de seu destino absurdo salta aos olhos. A música vai parar de tocar de repente, e são eles que vão ficar de fora, apalermados, quase todos desafinados, jamais inteiramente conscientes, se tivessem bom senso já teriam pulado fora do jogo há muito tempo para procurar um refúgio antes que fosse tarde demais. Talvez, mesmo se tivessem feito isso, não teriam encontrado nenhum refúgio.

'Nós vamos comprar tudo', fazendo o gesto óbvio com o braço, 'todo este país. O dinheiro fala, a terra escuta, onde o anarquista se escondia, onde o ladrão de cavalos exercia seu ofício, nós, os pescadores de americanos, havemos de lançar nossas redes com grades perfeitamente retas, com quadrados de quatro hectares terraplenados, protegidos contra pragas, prontos para serem edificados. Onde alienígenas catavam lenha e caçavam ratos em nome de seus míseros sonhos comunistas, a boa gente das pradarias virá em multidões para povoar estas serras, gente limpa, trabalhadeira, cristã, enquanto nós, contemplando seus pequenos bangalôs de férias, habitaremos palácios milionários dignos de nossos status, que serão financiados pelo dinheiro das hipotecas dessa gente. Quando as cicatrizes dessas batalhas já tiverem secado há muito tempo, e os montes de escória estiverem cobertos por capim e flores silvestres, e a chegada da neve não for mais uma maldição e sim uma promessa, ansiosamente aguardada por trazer um influxo de gente com dinheiro para gastar em diversões hibernais, quando os fios reluzentes dos teleféricos costurarem todas as encostas, e tudo se reduzir a festivais, esportes salutares e corpos selecionados pela eugenia, quem ainda haverá de se lembrar dessa gentalha sindicalizada, cadáveres congelados cujos nomes, aliás falsos, jamais foram registrados? Quem vai querer saber que outrora os homens brigavam como se uma jornada de trabalho de oito horas, e umas poucas moedas a mais ao final da semana, fossem da maior importância, e compensassem o vento implacável a penetrar o telhado furado, as lágrimas a congelar num rosto de mulher tão gasto quanto o de uma índia envelhecida antes do tempo, o choramingar de crianças cujas barrigas nunca se sentem satisfeitas, cujo futuro, o daquelas que sobreviveram, sempre foi trabalhar para nós, levar e trazer, dar de comer e amamentar, vigiar as cercas das extensões de nossas propriedades, velar pelo nosso sono e nos proteger de intrusos e questionadores?'."

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 1003-1004

Príncipe do Mal

"Ao cruzar o continente europeu, os rapazes manifestaram seu assombro ao constatar quão mais infectado de luz se haviam tornado os terrenos noturnos que passavam lá embaixo – ninguém jamais os vira tão claros, pois as lanternas isoladas e redes esparsas de luz de gás haviam sido substituídas pela iluminação de rua eletrificada, como se pelotões avançados do dia estivessem progressivamente invadindo e colonizando os confins desarmados da noite. Agora porém, finalmente, sobrevoando o sul da Califórnia e contemplando a incandescência que jorrava dos subúrbios residenciais e praças urbanas, quadras esportivas, cinemas, pátios de manobras e estações ferroviárias, claraboias de fábricas, antenas, ruas e avenidas com filas de faróis de automóveis constantemente a se arrastar para além do horizonte, sentiam-se na posição de testemunhas inquietas de alguma conquista final, um triunfo sobre a noite cuja razão de ser nenhum deles compreendia de todo.

'Deve ter a ver com turnos de trabalho extras', arriscou Randolph, 'cada vez mais frequentes, avançando pela noite adentro.'

'Tantos empregos adicionais', entusiasmou-se Lindsay, 'devem indicar uma expansão ainda maior da já prodigiosa economia norte-americana, o que sem dúvida é uma boa notícia para nós, levando-se em conta a fração considerável do nosso capital que lá está investida.'

'Isso mesmo, trabalham como mouros pra viver na miséria e morrer cedo', Darby rosnou, 'é graças a isso que nós podemos ficar aqui voando, no bem-bom.' [...]

Como se fortificado pela absorção de uma quantidade crítica daquela luz implacável, Miles falou, sua voz quase falhando sob o peso de uma emoção difícil de discernir. 'Lúcifer, filho da manhã, portador da luz... Príncipe do Mal.'"

Thomas Pynchon (1937-). Contra o dia (2006). São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 1035