quinta-feira, 17 de março de 2016

Olhos imperfeitos

"...não temos uma ideia clara de nós mesmos; nosso reflexo no espelho reflete apenas o que desejamos ver, ou o que suportamos ver [...] Tampouco podemos confiar nos outros para nos ver. Porque eles também só veem o que desejam ver, com os seus olhos imperfeitos."

Joyce Carol Oates (1938-). Levo você até lá (2002). São Paulo: Globo, 2004, p. 281

No oeste

"As imensas distâncias silenciosas do oeste. Onde a morte das pessoas não tem importância. A morte de espécies inteiras não tem importância. A única realidade é o Tempo: o drama natural da terra é o Tempo. Na civilização, essa verdade tão simples é obscurecida. No oeste, não se pode escapar disso. Todas as coisas estão mudando, afundando, sofrendo erosão. Na minha vida, um simples dia (uma simples hora!, quando eu estive doente de amor por Vernor Matheius) era percebido como algo profundo. No oeste, um simples dia não era nada. Um ano, uma vida inteira – nada. O piscar de um olho. Tampouco havia qualquer coisa a dizer da beleza terrivelmente selvagem das formações de rochas avermelhadas pelas quais passei dirigindo, e assim eu nada diria sobre elas. A morte do meu pai não faria sombra ali. Tudo ali era tragado numa superexposição de luz."

Joyce Carol Oates (1938-). Levo você até lá (2002). São Paulo: Globo, 2004, p. 310

Visões de Outsider



Rui segue seu caminho pelo rio da vida. Na superfície, sozinho, respira serenamente o ar puro da manhã e observa os balões vermelhos brilhantes dos homens que se arrastam no fundo e se entorpecem de felicidadezinhas e presunçõezinhas, produzindo bolhas, cheios de certezas. Rui não tem certeza de nada. Só quer se manter à tona, ver e sentir claramente, sem turvações. De dentro, os homens olham para cima e o observam através da água. A imagem que percebem é a de um louco, um ser vago e monstruoso, que a maioria ignora, mas que um ou outro ataca quando pode, com mordidas e arranhões. Rui não se importa. Segue seu caminho, observando os balões e as bolhas, ouvindo o burburinho das diversões efêmeras, dos negócios e empreendimentos, das vitórias e derrotas. Não está nem aí. Seu projeto é não ter projeto. Quer a vida viva, que não é boa nem ruim. Não busca a felicidade, não quer chegar a lugar nenhum, nem conquistar nada. Quer ser. Por isso segue assim, indiferente aos balões e às bolhas. Às vezes cruza com outros de sua espécie – seres estranhos, à tona como ele – e do fundo de si lhe vem uma paz que é quase uma certeza, uma luz que ele não entende – e nem quer entender. Trocam impressões, dicas de livros e filmes, quase todos marginais: visões de outsider... E seguem seus caminhos. 

Às vezes Rui mergulha no rio, para ver de perto o que se passa no fundo, os afazeres e conexões dos que são felizes e querem chegar a algum lugar, possuir alguma coisa, e buscam e conquistam; mistura-se com eles, planeja, faz, negocia, corre atrás e, feliz da vida, alcança o que, sem querer, quer. Porque é assim. É a água turva incontestável, poderosa, sempre molhada. Ela é o que é: real, verdadeira, única matéria de vida possível – quem pensa diferente é louco. E ainda por cima dá aos homens balões vermelhos e brilhantes, que eles fazem subir e descer, subir e descer... – distraçõezinhas que os tornam felizes e lhes dão a impressão de serem importantes...

Felizes e importantes...

Quando mergulha e se mistura ao imenso cardume, Rui vê dinheiro em tudo – “Isso aqui dá dinheiro”, diz para si, inebriado de água turva, segurando firme seu balão; mas chega uma hora que se assusta com o que diz. E com o susto acorda, solta o balão e volta para a superfície, ofegante, como se no fundo não pudesse respirar. Ao chegar, enche de novo os pulmões com o ar puro do dia ou da noite, sozinho, sozinho... E ainda cheio de susto, percebe que está de terno e gravata, todo engomado, no estilo padrão que tem que ser. Nunca conseguiu entender... Por que usam isso lá embaixo? Para quê? E arranca a vestimenta que o aprisiona e sufoca, sente o ar fresco selvagem em seu peito nu, respira melhor, sente a vida melhor... E não é feliz nem triste. É.

Flávio Marcus da Silva (1975-)

Coiote

"Fomos para o jardim e paramos sob uma árvore frondosa e florida de onde dava para ver Coiote, através dos vidros da estufa. Rosário me explicou que só pessoas muito especiais, dotadas de talentos e sensibilidade diferentes das demais é que enlouquecem, é que se tornam esquizofrênicas na juventude. Estudando as relações familiares doentias que, segundo os antipsiquiatras, produzem a esquizofrenia, ela estava chegando à seguinte conclusão: essas pessoas especiais, quando têm seus talentos e sensibilidade impedidos de se exercitar, por causa dos diversos tipos de repressão familiar, sobretudo pelas chantagens afetivas típicas nas relações entre pais e filhos, acabam por se alienar, desistem de viver suas vidas, tornam-se esquizofrênicas.

E Rosário tentava libertá-los morando com eles, procurando criar para esses jovens outro tipo de família, protegendo-os das repressões. Estava observando que, quando conseguia essa liberação, os clientes revelavam e expressavam talentos geniais para algumas coisas e, sempre, uma quase total impossibilidade de aceitar a vida burguesa; não apresentavam o menor pragmatismo (escolha de profissão, perseverança, hábitos sociais higiênicos, disciplina, método) e sofriam tremenda dificuldade para o relacionamento afetivo e sexual.

Porém, não se podia mais classificá-los como loucos. A personalidade deles não estava mais dividida, fragmentada. Viviam o real como todo mundo. Apenas não se adaptavam à vida social convencional. Não eram mais doentes e, sim, problemas. E a doutora Rosário afirmava serem eles problemas políticos e éticos, não médicos, o que quer dizer, patológicos. Mas, para completar a tese, precisava encontrar um esquizofrênico sadio.

– Quando eu o vi, senti que Coiote era uma dessas pessoas especiais, que nascera diferente dos outros. Vinha dele, mesmo dormindo, uma energia muito livre, forte, algo que eu só percebia, às vezes, nos meus clientes ao fim do tratamento e, assim mesmo, numa intensidade e quantidade bem menores. O que me causa espanto e muito encanto, claro, é que Coiote revela nitidamente nunca ter sido vitimado pela repressão. A energia que vinha dele parecia pura e direta... louca, mas terrivelmente fascinante e perturbadora. Teoricamente, eu sabia que era possível existirem pessoas assim... esquizofrênicas em estado puro, entende?"

Roberto Freire (1927-2008). Coiote (1986). 4ª ed., Rio de Janeiro: Guanabara, pp. 135-137

quarta-feira, 9 de março de 2016

Ser invisible



"Con la visión de la nieve le entran a Andréi Petróvich Petrescov deseos de evasión que le vienen de muy lejos, de la infancia, de los días en que deseaba ser invisible. Son sueños muy precisos de invisibilidad que le acompañan desde que tiene memoria, son anhelos de ser invisible y moverse entre otros seres que también resulten ser etéreos.

El ideal: un sueño preciso, piensa Andréi Petróvich Petrescov. Y acto seguido se pregunta a sí mismo: ¿Y qué mejor ideal que la invisibilidad, que es mi sueño más preciso? Ahora bien, ¿cómo hacerse invisible teniendo seis hijos, una fiscalía, una presidencia de fiestas, una salud quebradiza, un imponente caserón en el centro de la ciudad?"

Enrique Vila-Matas (1948-). Exploradores del abismo. Barcelona: Anagrama, 2007, p. 127

Fora daqui

"Mientras avanza por el largo pasillo del ala occidental del caserón, siente su soledad con más intensidad pero también con más placer que nunca. Lo del placer es absolutamente nuevo para él y le parece que está estrechamente ligado al dolor de avanzar a solas por el pasillo familiar. Mientras sigue caminando por ese corredor se adentra con tanta profundidad en el análisis de ese placer novedoso que acaba teniendo la sensación de entrar en tierra desconocida, en el espacio donde se encuentran los límites de su capacidad de pensar. Es como si hubiera llegado al sitio donde ya no puede ir más allá pensando. Siente un breve vértigo, como si estuviera andando ya por el corredor que conduce al espacio vacío que hay fuera de toda familia humana, empezando por la suya propia."

Enrique Vila-Matas (1948-). Exploradores del abismo. Barcelona: Anagrama, 2007, p. 130

domingo, 6 de março de 2016

Vernor Matheius

“O HOMEM DORMINDO. Não com o rosto de alguém em repouso, mas atormentado, angustiado. Sua testa vincada, sua boca torcida numa careta. Os globos oculares movendo-se por baixo das pálpebras fechadas. Um estremecimento de sua lustrosa pele escura como uma ondulação na superfície da água. ‘Se eu pudesse achar que ele é feio, sem atrativos. Se eu pudesse vê-lo como não-o-amando’. Eu era uma criança aproximando da chama as pontas dos dedos, pedindo a dor, desafiando a dor, não acreditando na dor. Tentando imaginar a minha vida sem Vernor Matheius no seu centro. Minha vida sem amá-lo.

Um buraco no coração através do qual o frio árido do universo poderia passar, assobiando.

Estranho para mim, que observava Vernor Matheius enquanto ele dormia, nas raras ocasiões em que tinha o privilégio de vê-lo dormir, que houvesse outros, caucasianos, uma categoria de indivíduos à qual teoricamente eu pertencia, que podia observar Vernor Matheius na sua insondável complexidade e pensar simplesmente ‘negro’. E rejeitá-lo, porque ‘negro’. Que loucura!

Cheguei a acreditar que a vida sem questionamentos, a vida que é conduzida sem uma contínua inquirição, e sem dúvidas quanto a todas as discriminações herdadas, os preconceitos, era loucura. Em nossas vidas civilizadas estamos rodeados pela loucura, enquanto nos acreditamos iluminados.”

Joyce Carol Oates (1938-). Levo você até lá (2002). São Paulo: Globo, 2004, p. 206-7

A mosca na garrafa

"Mostrar à mosca como escapar de dentro da garrafa era a esperança da vida de Ludwig Wittgenstein, mas a verdade é que o ser humano não quer escapar da garrafa; estamos sempre encantados, subjugados pelo interior da garrafa; suas paredes de vidro nos acariciam e nos consolam; suas paredes de vidro são o perímetro de nossa experiência e da nossa aspiração; a garrafa é a nossa pele, nossa alma; estamos acostumados às distorções visuais do vidro; não desejaríamos ver claramente, sem a barreira do vidro; não poderíamos respirar um ar mais fresco; não poderíamos sobreviver fora da garrafa."

Joyce Carol Oates (1938-). Levo você até lá (2002). São Paulo: Globo, 2004, p. 215

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Death

 

"The patient had certainly fought well; a difficult patient, a demanding patient, but a good fighter. He had been a wealthy business man whose meticulous plans for his future certainly didn't include dying at forty two. She recalled the look of wild surprise, almost of outrage, with which he had greeted the realization that death was something neither he nor his accountant could fix."

P. D. James (1920-2014). Shroud for a Nightingale (1971). New York: Warner Books, 1996, p. 147

Creative thinking

"Orderly surroundings force us to think in an orderly way. Creative thinking is unconvencional thinking and it flourishes in a disorderly environment. [...] a chaotic office or studio is more productive. Chaotic organisations are more creative than well-organised ones. Distrust the idea that we should strive for order. Order restricts and limits us."

Rod Judkins. The art of creative thinking. London: Sceptre, 2015, p. 194

I was happy

"...after a while, I had my face in my hands and was sobbing my guts out. I don't know how long I carried on like that, but even as the tears poured out of me, I was happy, happier to be alive than I had ever been before. It was a happiness beyond consolation, beyond misery, beyond all the ugliness and beauty of the world. Eventually, the tears subside, and I went into the bedroom to put on a fresh set of clothes."

Paul Auster (1947-). Oracle Night (2003). New York: Picador, 2004, p. 216

Vida simples


"Acredito piamente na vida simples, livre de certas mordomias e de estúpidos luxos. Considero o fetiche das grifes uma degenerescência do ser humano. Abomino certas veleidades da mulherada, que é capaz de torrar milhões para ficar 'um pouquinho' mais bonita. Também acho que amor, carinho e respeito não se compram com presentes caros. Nunca compensei as horas em que ficava fora trabalhando trazendo presentes para meu filho. Quando voltava para casa, lhe oferecia amor e dedicação totais. Até hoje, os únicos presentes que ele me pede são livros, viagens e aulas de violão, coisas que estão na minha lista de necessidades essenciais."

Claudia Giudice. A vida sem crachá. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2015, p. 92

Insatisfação

"'É você! É sua culpa. Sua eterna insatisfeita.'

Era a minha maldição. Teria de carregá-la por toda a vida. Como se um troll cruel tivesse me batizado, ainda pequena, enquanto minha mãe, sem ter consciência disso, já começava a ser exaurida pela Morte. Os dedos do troll borrifando água envenenada em minha testa. 'Eu te batizo em nome da ansiedade eterna, da busca eterna e da insatisfação eterna. Amém!'"

Joyce Carol Oates (1938-). Levo você até lá (2002). São Paulo: Globo, 2004, p. 20

A morte




"O cemitério não passava de um descampado nos fundos da igreja, pontilhado de pequenas elevações de pedra e canteiros, que na época das chuvas empoçavam a água; no inverno, impertinentes dunas de neve cobriam metade das lápides. [...] Já me intrigou o fato de que ninguém, na verdade, possa aceitar seu futuro, ninguém verdadeiramente acredite que isso possa acontecer. Tudo o que existe é agora. A modesta lápide de granito cinzento onde está gravado o nome da minha mãe, com sua data de nascimento e morte, estava no extremo final de uma fileira; nas proximidades de um campo não cultivado; quão terrena é a morte, que Spinoza jamais soube explicar; nenhum dos filósofos falou dos cheiros da simples terra úmida e de folhas murchas misturados à fumaça de lenha (à distância um fazendeiro estava queimando tocos de árvores; o pior fedor de fumaça que você poderia imaginar). Deslizei os dedos pela pedra áspera. Pedra congelada."

Joyce Carol Oates (1938-). Levo você até lá (2002). São Paulo: Globo, 2004, p. 60

A vida


"Havia concluído que a vida é, provavelmente, em sua grande parte, uma questão de memorizar uma sequência de palavras; palavras, gestos, sorrisos, apertos de mãos, numa sequência correta; a vida não é como os grandes filósofos ensinaram na sua solidão, não é uma questão de essências acopladas a teoremas, proposições, silogismos e conclusões, porém uma questão de pronunciar a palavra-fórmula no contexto também correto. Talvez não fosse nada tão sério, afinal de contas: vida? Talvez não valesse a pena morrer por ela."

Joyce Carol Oates (1938-). Levo você até lá (2002). São Paulo: Globo, 2004, p. 101-2

Sombras

"Era intrigante para mim que suas cortinas estivessem quase sempre abaixadas até os peitoris das janelas. Houve vezes em que vi uma sombra passando por detrás de uma das cortinas, a silhueta fugaz de um homem; contudo, era tão indistinta que eu tinha certeza de estar olhando para a ideia de V. Matheius e não para o homem propriamente dito; pensei na alegoria da caverna de Platão, e como a espécie humana se deixa iludir por sombras; a espécie humana engana a si mesma com as sombras, e, todavia, qual é o conforto que isso traz? 'E ele não sabendo que eu estou aqui, que eu existo. Eu sou invisível para ele'.
Minha face nua, puro anseio feminino."

Joyce Carol Oates (1938-). Levo você até lá (2002). São Paulo: Globo, 2004, p. 120

As personalidades


"...no colégio, eu fazia desesperados esforços para ser 'bem-educada' – 'normal' – 'bem-vista' – 'popular'. Quando fui eleita para um dos cargos da classe, vice-presidente de minha turma sênior, renunciei em pânico. Eu não seria capaz de explicar que a aparentemente cintilante, boa garota e cidadã que meus colegas haviam eleito para aquele cargo não era eu, mas uma experiência que eu não esperava que fosse bem-sucedida.

As personalidades que eu pude montar nunca duraram muito. Como os acolchoados descuidadamente costurados, eu periodicamente me desfazia. Havia vezes em que o colapso era breve, um surto de exaustão, náusea e insônia que me deixava atordoada, porém expurgada; noutras vezes, e tais vezes iam se tornando mais frequentes, o colapso era mais sério, envolvendo um período de comportamento maníaco, nervoso, colapso físico [...] Eu ficava enfraquecida demais para sair da cama, enfraquecida e abatida demais para ler, escrever ou pensar com coerência; meus intestinos agitavam-se e doíam, sofria de diarreia, apesar de quase não comer; todo o meu apetite para comer desaparecia; meu corpo queimava de febre e minha cabeça doía. Entretanto, havia um curioso alívio nesses colapsos, um prazer doloroso, amargo; pois me via compelida a pensar 'Agora você sabe quem é, agora você sabe'. Nítido, simples e belo como ossos brancos brilhando, limpos de toda carne. 'Agora você sabe'. Ainda assim, eu vivia aterrorizada de um dia cair completa e irrevogavelmente aos pedaços, sem forças, vontade, propósito e privada da fé para reafirmar-me outra vez."

Joyce Carol Oates (1938-). Levo você até lá (2002). São Paulo: Globo, 2004, p. 151-2

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

La vraie vie


“Sim, cada vez mais ela reclamava com ele da vida que levavam. Não era aquilo, dizia ela, a verdadeira vida. E quando ele lhe perguntava em que consistia ao certo a VERDADEIRA VIDA, ela dava de ombros sem responder, como se soubesse que ele não compreenderia nada de suas explicações. E depois ela reencontrava seu sorriso e sua gentileza e quase se desculpava por seu mau humor. Com ar resignado ela lhe dizia que no fundo tudo aquilo não era tão sério. Um dia, talvez, ele compreenderia o que era a VERDADEIRA VIDA.”

Patrick Modiano (1945-). Dans le café de la jeunesse perdue. Paris: Gallimard (folio), 2007, p. 52

“Eh bien oui, elle lui faisait de plus en plus de reproches au sujet de leur vie quotidienne. Ce n’était pas cela, disait-elle, la vraie vie. Et quand il lui demandait en quoi consistait au juste la VRAIE VIE, elle haussait les épaules sans répondre, comme si elle savait qu’il ne comprendrait rien à ses explications. Et puis elle retrouvait son sourire et sa gentillesse et elle s’excusait presque de sa mauvaise humeur. Elle prenait un air résigné et elle lui disait qu’au fond tout cela n’était pas bien grave. Un jour, peut-être, il comprendrait ce qu’était la VRAIE VIE.”

A Escola da Vida


"Estive em Londres e soube que o escritor Alain de Botton está fazendo um certo barulho com sua mais nova empreitada cultural. Não é um novo livro, é algo mais ambicioso: um curso de ideias para se viver melhor, ou seja, para se aprender a lidar com o cotidiano de uma forma mais prática e inventiva. Contrapondo-se às escolas tradicionais, que ensinam coisas que, na maioria das vezes, jamais nos serão úteis, ele está implantando a sua The School of Life na capital inglesa.

O projeto é meio 'odara', mas interessante. A Escola da Vida procura educar para a existência, para o aqui e agora, privilegiando lições mais excitantes do que as que aprendemos sobre ácidos nucleicos ou química orgânica. Com arte, filosofia e bom humor, Alain de Botton montou uma equipe para ajudar os alunos a encontrarem respostas para perguntas tipo 'Preciso mesmo de um relacionamento amoroso?', 'Como aproveitar de forma mais inteligente e criativa o meu tempo livre?', 'Odeio meu trabalho: e agora?', 'De onde saem nossos conceitos sobre política?', 'Dá para extrair mais proveito de visitas a museus, cinemas e teatros?', 'Como conviver com o medo da morte?', 'Será que minha família é tão estranha como as outras?'.

Resumido dessa forma, dá ares de charlatanismo, mas quem conhece os livros de Alain de Botton (pelas minhas contas, há sete lançados no Brasil) sabe que ele é mestre em misturar todos os departamentos (viagens, amores, arquitetura: tudo tem a ver com tudo) e que se ampara nas obras de famosos intelectuais para explicar e valorizar o mundano. Enfim, ele encontrou um nicho e o está explorando com muito senso de oportunidade, porque estamos vivendo uma época em que ter um diploma, uma carreira e uma família bonitinha não tem bastado para preencher nossas almas inquietas. Queremos mais prazer, mais independência, mais beleza. Em que colégio se aprende isso, em que faculdade? Se você não tem talento para ser um autodidata, Alain de Botton convida a sentar num banco escolar e ter como professores Proust, Baudelaire, Churchill, Lao-Tse e mais uma turma da pesada, todos dispostos a desanuviar a sua mente.

Estive na pequena loja que ele abriu nos arredores da Russel Square, onde se pode encontrar cartazes que ilustram o espírito do projeto, informações sobre os cursos e, principalmente, vários livros que fazem parte da 'biblioterapia' que a The School of Life propõe – vive melhor quem lê a respeito das questões que lhe afligem, e não se trata aqui de livros de auto-ajuda, e sim romances de ficção, ensaios filosóficos, biografias. Isso tudo pode ser apenas uma jogada de autopromoção, mas eu simpatizei com a ideia, porque acredito mesmo que estamos precisando de um reforço extracurricular.

Para se formar um ser humano, não adianta apenas ensinar física, biologia, história, matemática e demais matérias convencionais. Precisamos também ser especialistas em viajar, em se relacionar melhor, em consumir cultura, em ter uma visão menos ortodoxa de tudo o que nos cerca. O material é farto e os resultados podem ser aplicados no dia-a-dia. Bem viver também faz parte da educação."

Martha Medeiros. A escola da vida. In: Feliz por nada. Porto Alegre: L&PM, 6ª edição, 2011, p. 21.

La cultura de los tres minutos

"Vivimos una intensidad no duradera, una intensidad efímera. ¿Cómo se experimenta? Michael Ignatieff mantiene que puede ser caracterizada como la 'cultura de los tres minutos'. La cultura de un lapso de atención corto, en la cual los políticos ya no se dirigen a nosotros por medio de discursos, sino a través de 'frases pegadizas' de treinta segundos, y a través de 'momentos fotográficos'. Es un mundo en el cual las noticias nos llegan en porciones de noventa segundos, cada una de ellas desconectada de la anterior. Es una cultura que nos induce a rozar solo los canales de televisión, haciendo zapping cada vez que llegamos a nuestro umbral de aburrimiento en lugar de ver un programa entero. Es una cultura en la cual raramente alguien hace una sola cosa a la vez, de manera concentrada y durante un período de tiempo largo. Es una cultura que de manera creciente se dedica a suministrar contenidos a personas que tienen una capacidad mínima para prestar atención. [...] Estamos ante una cultura 'amnésica' en la que cualquier cosa está mezclada en un pantano supercontaminado de imágenes y sensaciones. Es como un tipo de comida rápida para la mente, servida a trocitos cortados y fáciles de masticar, en la cual todo el mundo picotea constantemente pero nadie (o casi nadie) consume el equivalente intelectual a una comida entera."

Joan Campàs Montaner. La sociedad de la 'crisis de sentido'. In: Gonçal Mayos & Antoni Brey (orgs.). La sociedad de la ignorancia. Barcelona: Ediciones Península, 2011, p. 124-5

La partida

"Ordené traer mi caballo del establo. El criado no me entendió. Fui yo mismo al establo, ensillé el caballo y me monté en él. Oí una trompeta a lo lejos, pregunté al criado su significado. No sabía nada ni había oído nada. Me detuvo en el portón y preguntó: '¿Adónde cabalgas, señor?'. 'No lo sé', dije, 'fuera de aquí. Siempre fuera de aquí, sólo así podré llegar a mi meta.' '¿Así que conoces tu meta?', preguntó. 'Sí', respondí, 'acabo de decirlo. Fuera de aquí, tal es mi meta.'"

Franz Kafka (1883-1924). La partida. Citado por Enrique Vila-Matas. Exploradores del abismo. Barcelona: Anagrama, 2007, p. 19

Libre!


“No dia 24 de março de 1999, os passageiros que aguardavam a partida do voo para Barcelona assistiram a um espetáculo sem nome. Quando o avião se encontrava em sua terceira hora de atraso inexplicável, um dos viajantes deixou seu lugar e foi despedaçar o crânio várias vezes numa das paredes do saguão. Ele estava tomado de uma violência tão extraordinária que ninguém ousou interpor-se. Ele continuou até morrer. 

As testemunhas desse suicídio inqualificável foram precisas quanto a um detalhe. Cada vez que o homem batia a cabeça contra a parede, ele pontuava seu gesto com um berro. E o que ele gritava era:

– Livre! Livre! Livre!”

Amélie Nothomb. Cosmétique de l'ennemi. Paris: Albin Michel, 2001, p. 123

"Le 24 mars 1999, les passagers qui attendaient le départ du vol pour Barcelone assistèrent à un spectacle sans nom. Comme l'avion en était à sa troisième heure de retard inexpliqué, l'un des voyageurs quitta son siège et vint se fracasser le crâne à plusieurs reprises sur l'un des murs du hall. Il était animé d'une violence si extraordinaire que personne n'osa s'interposer. Il continua jusqu'à ce que mort s'ensuivît.

Les témoins de ce suicide inqualifiable précisèrent un détail. Chaque fois que l'homme venait se taper la tête contre la paroi, il ponctuait son geste d'un hurlement. Et ce qu'il criait, c'était:

- Libre! Libre! Libre!"

Childhood


"Once, in an early conversation I had with her about her childhood, she reminisced about a favorite doll her parents had given her when she was seven. She named her Pearl, carried her everywhere for the next four or five years, and considered her to be her best friend. The remarkable thing about Pearl was that she was able to talk and understand everything that was said to her. But Pearl never uttered a word in Grace's presence. Not because she couldn't speak, but because she chose not to."

Paul Auster (1947-). Oracle Night (2003). New York: Picador, 2004, p. 52

Literatura

"A literatura — a arte — não deixa de salvar. Trata-se, contudo, de uma redenção turbulenta. Se ela nos livra dos clichês e vícios de pensamento, se ela nos liberta do inferno da repetição, e isso é verdade, ao ampliar nossos horizontes ela nos lança em um mundo mais complexo e mais indecifrável ainda. A literatura não resolve nada — não 'cura' dor alguma. O que ela nos oferece são novas maneiras de observar e conviver com essa dor."

José Castello (1951-), escritor, jornalista e crítico literário brasileiro

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

La sociedad de la ignorancia


"El crecimiento y mejora en las posibilidades de los humanos reales para hacerse cargo de la información que producen en conjunto es básicamente aritmético o, en todo caso, está muy lejos del crecimiento exponencial de la información que hay que considerar, recopilar, conocer, analizar, sintetizar, comprender, reflexionar, someter a la adecuada crítica, o incorporar a la visión personal y general del mundo.
Por todo ello, orientarse con criterio y sentido personal dentro de la cultura o conocimiento colectivos resulta cada vez más difícil, costoso y problemático. [...]

No olvidemos que, en último término, la base neuronal y biológica humana prácticamente no ha cambiado en los últimos milenios de evolución. En última instancia, la capacidad cerebral es la misma y el día continúa teniendo veintecuatro horas. En cambio, ha aumentado muchísimo la cantidad de la información y la complejidad del conocimiento necesarios para hacerse cargo del propio mundo y de las vitales decisiones futuras."

Gonçal Mayos & Antoni Brey (orgs.). La sociedad de la ignorancia. Barcelona: Ediciones Península, 2011, p. 33

Las nuevas generaciones...

"Las nuevas generaciones dedican cada vez más tiempo a utilizar nuevas formas de comunicación en red que les permiten dejar de ser espectadores pasivos para convertirse en nodos activos, en emisores y receptores simultáneamente, y en consumidores, pero también en productores de todo tipo de contenidos. Se trata, sin duda, de un mundo de posibilidades inagotables, pero para la discusión que aquí nos ocupa debemos preguntarnos si dicho medio es el adecuado para fomentar, en último término, la elaboración de conocimiento en la mente de las personas. 

[...] además de niños prodigio o eficientes ejecutivos también están proliferando a nuestro alrededor individuos incapaces de concentrarse en un texto de más de cuatro páginas, personas que solo pueden asimilar conceptos predigeridos en formatos multimedia, estudiantes que confunden aprender con recopilar, cortar y pegar fragmentos de información hallados en Internet, o un número creciente de analfabetos funcionales. Si bien es cierto que el nuevo medio pone a nuestro alcance todo el saber disponible, eso no implica necesariamente que seamos capaces de sacar provecho de él. [...]

Es difícil focalizar y centrarse, y esa necesidad de cambiar de manera constante el foco de nuestra atención acaba por modelar nuestra forma de razonar hasta ubicarnos en un estado de dispersión que, en términos conceptuales, es incompatible con la concentración que requiere cualquier reflexión de cierta consistencia."

Antoni Brey. La sociedad de la ignorancia. Una reflexión sobre la relación del individuo con el conocimiento en el mundo hiperconectado. In: Gonçal Mayos & Antoni Brey (orgs.). La sociedad de la ignorancia. Barcelona: Ediciones Península, 2011, p. 66-68

Expertos


"En definitiva, pues, el experto, gran especialista en una franja cada vez más estrecha del saber es, lógicamente, cada vez más ignorante en el saber de otros campos. Además, sus conocimientos únicamente tienen sentido en el entramado económico que los ha motivado. Son productivos y funcionales, saberes instrumentales que tanto en su forma como en su fondo encajan mejor en la 'techné' griega, el saber de los esclavos productivos, que en el 'logos' que nos muestra el ser de las cosas. En la naturaleza del experto no existe necesariamente una tendencia a convertirse en sabio y, de hecho, todos los mecanismos que hoy operan a su alrededor le empujan en la dirección contraria. Cuando el experto cierra la puerta de su despacho y se va a casa se convierte en uno más. Fuera de sua especialidad, pasa a formar parte de la siguiente categoría: la masa."

Antoni Brey. La sociedad de la ignorancia. Una reflexión sobre la relación del individuo con el conocimiento en el mundo hiperconectado. In: Gonçal Mayos & Antoni Brey (orgs.). La sociedad de la ignorancia. Barcelona: Ediciones Península, 2011, p. 74

El conocimiento en el mundo hiperconectado


"Persiste una lógica errónea que nos lleva a pensar que el uso de herramientas cada vez más sofisticadas implica necesariamente un mayor conocimiento, y confundimos la destreza para utilizar un complejo programa informático que nos permite escribir con el hecho de escribir algo interesante, o incluso con saber escribir. [...]

La sociedad de la ignorancia es, a fin de cuentas, el estado más avanzado de un sistema capitalista que basa la estabilidad de la sociedad en el progreso, entendido básicamente como crecimiento económico, pero que, una vez satisfechas las necesidades básicas, solo es posible mantener gracias a la existencia de unas masas ahitas, fascinadas y esencialmente ignorantes [sumidas en la inmediatez compulsiva de un consumismo alienante]". 

Antoni Brey. La sociedad de la ignorancia. Una reflexión sobre la relación del individuo con el conocimiento en el mundo hiperconectado. In: Gonçal Mayos & Antoni Brey (orgs.). La sociedad de la ignorancia. Barcelona: Ediciones Península, 2011, p. 79-80

INNOVACIÓN

"¡Creamos en la innovación, en el cambio, porque hasta aquí parece darnos excelentes resultados!

Y sin embargo, nada progresa indefinidamente en línea recta, en la vida social. De modo que volver la vista atrás, de vez en quando, y pararse a considerar si hemos olvidado algo fundamental en los viejos recodos, incorporarlo para seguir adelante, parece un ejercicio mínimo de sentido común, que podría, tal vez, ayudarnos a establecer nuevos equilibrios."

Marina Subirats. La sociedad del conocimiento y las dificultades de su producción. In: Gonçal Mayos & Antoni Brey (orgs.). La sociedad de la ignorancia. Barcelona: Ediciones Península, 2011, p. 89

David Foster Wallace



"Eres especial – eso, OK –, pero también lo es el tío que tienes enfrente de ti en la mesa, que está sobrio, sacando adelante a dos niños y reconstruyendo un Mustang del 73. Es algo mágico que tiene 4.000.000.000 de formas. Te corta la respiración." (p. 377) DFW

"...si de verdad habéis aprendido a pensar, a prestar atención, entonces sabréis que también podéis elegir otras opciones." (p. 378) DFW

"El pelo sucio con bandana, las botas de trabajo desatadas y las viejas camisas de cuadros que Wallace llevaba vistiendo desde la época de Arizona eran también ahora prácticamente el uniforme de qualquiera que sintiera algún desencanto hacia la cultura consumista y acumuladora americana de la era post-Reagan. La tendencia de Wallace a 'desconfiar de cada pensamiento o proposición' se había convertido, como señala Howard, 'en algo así como un estilo generacional'. 'Cuando era más joven – afirmó Wallace en una entrevista para el Boston Phoenix –, veía mi relación con el lector en cierto sentido como una relación sexual. Pero ahora se me parece más a una de esas conversaciones con buenos amigos a altas horas de la noche, cuando se acaban las tonterías y se caen las máscaras'." (p. 298-9)

"Mira, tío, probablemente la mayoría de nosotros estamos de acuerdo en que vivimos en tiempos oscuros, y además estúpidos, pero ¿de verdad necesitamos un tipo de ficción que no haga sino dramatizar lo oscuro y lo estúpido que es todo? En épocas oscuras, la definición del buen arte debería ser: aquel que se dedica a localizar y aplicar técnicas de reanimación cardiopulmonar a aquellos elementos de lo que es humano y mágico que aún sobreviven y resplandecen a pesar de la oscuridad de los tiempos." (p. 289) DFW

"...me sentí desesperar. La palabra se ha banalizado ahora por el exceso de uso, 'desesperar', pero es una palabra seria y la estoy usando en serio. Tal vez se parezca a lo que la gente llama terror o angustia. Pero no acaba de ser como estas cosas. Se parece más a querer morirse a fin de evitar la sensación insoportable de darse cuenta de que uno es pequeño, débil, egoísta y de que, sin ninguna duda posible, se va a morir. Es querer tirarse por la borda." (p. 278) DFW

"En marzo de 1995, Colin Harrison pidió a Wallace que hiciera un crucero por el Caribe y escribiera sobre la experiencia en 'Harper's'. [...] Las vacaciones de primavera se acercaban y cuando se le ofreció la posibilidad de escapar del frío y de las inacabables revisiones de 'La broma infinita' ['Graça infinita'], aceptó. Una vez más, volvería a unirse a esas hordas americanas que se inoculaban sus dosis de diversiones manufacturadas. [...]

'Triste' se convirtió en la voz de alarma presente en todo el texto, una tristeza que es consecuencia de la plenitud exceciva: camareros tristes, tristes viajeros del crucero que enfocan con sus videocámaras a otras personas tristes que a su vez les enfocan con sus videocámaras desde otro crucero, y tristes, sin sentido, los esfuerzos de los americanos por divertirse en ausencia de una ideia espiritual de mayor alcance. 'Elige con cuidado – advierte Marathe en La broma infinita –. Tú eres lo que amas. ¿No?'. El artículo de Wallace sobre el crucero hablaba del precio de ser incapaz de elegir correctamente."(p. 274 e 278)

"...era consciente de que la relación profesor-alumno era como la de un 'showman' con un espectador. El profesor estaba sometido a la exigencia constante de 'entretener' si quería gustarle a sus alumnos – y nadie tenía más deseos de gustar que Wallace –. El problema no era tanto que dudara de si podía conseguirlo, sino el dilema de si, al hacerlo, estaría haciendo algo por lo que después podría sentir admiración." (p. 120)

"La familia dirige la Academia Enfield de Tenis, donde el objetivo es la perfección y donde se entrena a los mejores jugadores para que, por medio de sus partidos de tenis y de los espónsores comerciales, sean capaces de satisfacer los apetitos de la cultura de consumo de la que proceden. Por otro lado, están los residentes de Ennet House, liderados por Gately. A los adictos de Ennet House no se les entrena para alimentar las obsesiones de América; son las personas que ya han padecido una sobredosis de ellas. Como en la vida real, ambos mundos discurren en paralelo e interactúan únicamente cuando tienen que hacerlo, con solo una 'alta y más o menos desnuda colina' como separación." (p. 222)

D. T. Max. Todas las historias de amor son historias de fantasmas - David Foster Wallace, una biografia. Barcelona: Debate, 2013