Roberto Bolaño (1953-2003). Nocturno de Chile (2000). Barcelona: Anagrama, 2014, p. 83
terça-feira, 28 de abril de 2015
ser lo que de verdad somos
Roberto Bolaño (1953-2003). Nocturno de Chile (2000). Barcelona: Anagrama, 2014, p. 83
Silencios
"Hay que ser responsable. Eso lo he dicho toda mi vida. Uno tiene la obligación moral de ser responsable de sus actos y también de sus palabras e incluso de sus silencios, sí, de sus silencios, porque también los silencios ascienden al cielo y los oye Dios y sólo Dios los comprende y los juzga, así que mucho cuidado con los silencios. Yo soy responsable de todo. Mis silencios son inmaculados. Que quede claro. Pero sobre todo que le quede claro a Dios. Lo demás es prescindible. Dios no."
Roberto Bolaño (1953-2003). Nocturno de Chile (2000). Barcelona: Anagrama, 2014, p. 11-12
Ajoelhado ao meu sofrimento
"O
meu pai ajoelhou-se perante o meu corpo aviltante e chorou. Acalentava o
desejo claro de que todas as coisas se corrigissem. Rezava pela
correção de todas as tropelias, surpresas más, erros de pressa ou
enganada decisão. O meu pai fora feliz, anos antes, jovem, apaixonado
pela minha mãe, no tempo do piano, quando ela tocava e se vestia melhor,
achava-se bonita, tinha futuro. Um futuro a definir. Ajoelhado ao meu
sofrimento, era agora um homem encurralado, impotente. Com os nervos a
toldarem-lhe as ideias. Ainda generoso, mas confuso. Não escapava de si
mesmo. Andava singular, e singular se predava, se abatia. Sozinho, o meu
pai seria suficiente para se consumir. Para se acabar."
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 73
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 73
sábado, 25 de abril de 2015
Amanhã foi muito bonito
"A
Sigridur, quando muito pequena, confundia o ontem, o hoje e o amanhã.
Dizia: amanhã foi muito bonito. O meu pai achava que era uma forma de
ter visões. A Sigridur só o dizia quando se referia a coisas positivas,
alegrias e contentamentos que recolhia. Era uma forma de prever que o
dia seguinte seria tão bom quanto o anterior. Como se fosse uma
capacidade de sonhar. Das duas, a Sigridur era a sonhadora. Se a morte
não a tivesse traído, esperá-la-ia uma vida de maravilhas por diante.
Mas a vida não pertencia aos sonhadores, ainda que talhados para o
sucesso. A vida era dos que sobravam. Em sobrar estava a oportunidade de
prosseguir e de alguma vez se ser feliz."
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 102
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 102
Serás amado
"Serás amado apenas quando puderes mostrar a tua fraqueza, sem provocar nenhuma força."
Theodor W. Adorno. Minima Moralia
Theodor W. Adorno. Minima Moralia
sexta-feira, 24 de abril de 2015
O dentro de tudo
"Andava de mãos na barriga. Queria o meu filho. Carregava-o com cada
pensamento. Não correria risco algum de o perder. Explicaram-me que,
naquela idade quase nenhuma, a possibilidade de perder um filho era
muito comum. O esqueleto da mãe podia partir-se. Podia vergar como as
velhas que apodreciam as rodinhas da coluna. Podia vomitar o filho como
um troço de carneiro que não fora capaz de digerir. Era tão criança que
me dava susto pensar que com um sopro o corpo se me esvaziaria
da gravidez. Como se eu não fosse um ovo, com se fosse apenas um balão.
Dava-me medo pensar que a alma dele escapasse no exercício de respirar.
Tinha um filho tão novo na barriga que talvez o seu conteúdo fosse
ainda indeciso. Dividido entre completar-se ou desistir. E eu levava
sempre as mãos à barriga e adorava sentir aquele peso e sentir-me
pesada, e esperava todos os ínfimos sinais de movimento. Vivia ansiosa.
Ansiava pelo meu filho como quem fizesse o próprio mundo nascer. Depois
que nascesse, ele ocuparia o lugar inteiro do mundo. Seria o tamanho
inteiro de cada coisa e tudo se justificaria pela sua existência.
Pensei: será o dentro de tudo."
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 69
Quem sepulta um filho
"Quem sepulta um filho não tem idade. Está para lá das idades, para lá dos tempos, tem uma posse do mundo que independe de todas as limitações. A intensidade de quem sepulta um filho é semelhante à das forças inaugurais ou terminais. Pode fazer e desfazer tudo. Legitimamente lhe é conferido o poder moral de começar ou de acabar tudo."
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 83
O mapa de deus
"O
mapa de deus é infinito, é preciso que saibamos caber nele a nossa
terra, e isso não se faz com abrir para aqui caminhos nem aumentar o
tamanho ou o número das casas. No mapa de deus as coisas aparecem pelo
admirável do engenho, a candura, a aventura da inteligência ou da
intuição."
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 96
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 96
Mulher completa
"Eu percebi que o Steindór era tão boa pessoa que até gostava da minha tia. A pavorosa tia que gulosamente deglutia o mundo. Pensei que aquele homem era capaz de amar qualquer estafermo. Tive muita pena dele. Fomos o resto do percurso a fincar as botas no chão meio gelado, a esboroar como areia de vidro. Sob os pés tínhamos o futuro. Achei assim. Ia o futuro inteiro no trajeto que traçasse. A vida, agora, era a direção que eu lhe conferisse. Estava com doze anos, faltava pouco para fazer treze, não me via como uma criança. Era uma mulher tão completa quanto apenas a tristeza as sabia fazer."
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 89
Poemas
"Os
poemas são instintivos, eu disse. Uma natureza instintiva que quase nos
redime. Às vezes, um poema acende-se como um candeeiro dentro da
cabeça. Fica-se a ver muito bem o que até então nunca se vira. Pendurar
um poema e atravessar com ele a noite inteira sem sequer nos darmos
conta de que se fez noite."
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 104
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 104
Filho
"Nunca
se perde por inteiro um filho. Ele resta sempre como algo que temos a
infinita possibilidade de evocar. Evocamo-lo e ele é. (...) Dizemos
filho e ele é sempre algo. Nunca regressa ao tempo em que não existia."
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 105
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 105
terça-feira, 21 de abril de 2015
Aprender a solidão
"Aprender a solidão não é senão capacitarmo-nos do que representamos entre todos. Talvez não representemos nada, o que me parece impossível. Qualquer rasto que deixemos no eremitério é uma conversa com os homens que, cinco minutos ou cinco mil anos depois, nos descubram a presença. Dificilmente se concebe um homem não motivado para deixar rasto e, desse modo, conversar. E se houver um eremita assim, casmurro, seguro que terá pelo chão e pelo céu uma ideia de companhia, espiritualizando cada elemento como quem procura portas para chegar à conversa com deus. Estamos sempre à conversa com deus. A solidão não existe. É uma ficção das nossas cabeças.
Os homens sós percebem que há alguém na água, na pedra, no vento, no fogo. Há alguém na terra."
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 15
Quando for grande
"Quando
for grande, quero ser de outra maneira. Quero ser longe. Eu respondia:
ninguém é longe. As pessoas são sempre perto de alguma coisa e perto
delas mesmas. A minha irmã dizia: são. Algumas pessoas são longe. Quando
for grande quero ser longe."
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 22
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 22
O lado de dentro
"Estar morto deve ser inteligente. A morte deve ser pura inteligência. Não acredito que existam mortos burros. Deus não ia guardar paciência para ter com ele almas burras. O corpo é um traste. A alma deve ser incrível. Quando nos virmos ao espelho e só ali estiver a alma vamos pasmar de maravilha. Maravilhadas com o que somos ou sabemos ser. Viveremos apenas nas costas dos olhos. Entendes. Seremos apenas as costas dos olhos. O lado de dentro."
Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 25
O feitiço das palavras
"Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras."
Manoel de Barros (1916-2014). Poesia Completa. São Paulo: LeYa, 2013, p. 344
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sábado, 18 de abril de 2015
Alucinação
"Gately temia e desprezava agulhas e morria de medo do Vírus, que
naqueles dias estava derrubando picadores pra tudo quanto era lado.
Fackelmann cozinhava o pó para Gately, lhe atava o cinto e deixava
Gately olhar atentamente enquanto ele rasgava a embalagem de uma seringa
novinha e o cartucho da agulha que Fackelmann conseguia com um RG falso
para comprar Iletin na saúde pública para diabetes mellitus. A pior
coisa do Dilaudid para Gately era que a passagem da hidromorfona pela
barreira hematoencefálica criava uma terrível alucinação mnemônica de
cinco segundos em que ele era um bebezão pantagruélico dentro de um
bercinho Fisher-Price XXG num campo de areia sob um céu com nuvens de
tempestade que se inflava e retrocedia como um grande pulmão cinzento.
Fackelmann afrouxava o cinto, se afastava e ficava vendo os olhos de
Gately revirarem enquanto ele começava a suar malariamente e encarava o
céu respirítico imaginário ao mesmo tempo que suas manzorras esganavam o
ar à frente exatamente como um bebê sacode as barras do berço. Aí
depois de coisa de cinco segundos o Dilaudid atravessava e batia, e o
céu parava de respirar e ficava azul. Um sono de Dilaudid deixava Gately
mudo e empapado por três horas."
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 934
Nimitz
"Gately
acorda abruptamente quando sente a linguinha áspera na sua testa – não
muito diferente da língua hesitante de Nimitz, a gatinha de estimação do
PN, quando o PN ainda tinha a gatinha, antes do misterioso período em
que a gatinha desapareceu e o triturador de lixo não funcionou direito
vários dias seguidos e o PN ficou sentado de ressaca com o seu
caderninho na mesa da cozinha com a cabeça loura nas mãos, só ficou ali
sentado vários dias, e a Mãe de Gately ficava andando por ali pálida
como o diabo e se recusou a chegar perto da pia da cozinha por dias a
fio, e foi correndo para o banheiro quando Gately finalmente perguntou o
que estava acontecendo com o triturador de lixo e cadê a Nimitz."
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 954
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 954
sexta-feira, 20 de março de 2015
Kate Gombert
"E
o cara velhusco estendia uma trêmula mão espalmada bem embaixo da cara
de Kate Gombert, como se quisesse que ela vomitasse ali. A palma era
violeta, com manchas de algum tipo de podridão quiçá micótica, e com
negras linhas ramificadas onde as róseas linhas da palma das mãos das
pessoas que não moram numa lixeira normalmente estão, e Kate ficou
examinando distraída aquela palma..."
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 731
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 731
Um homem catava pregos no chão
"Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais – o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter."
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais – o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter."
Manoel de Barros (1916-2014). Poesia Completa. São Paulo: LeYa, 2013, p. 381
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A loucura do vício
"(...) o negócio é que ele tinha mulher e uma filhinha em casa no
Conjunto Habitacional de Perry Hill em Mattapan, e outro bebê por
chegar. Ele tinha dado um jeito de não perder o seu empreguinho ancilar
de assistente de rebitador nas Arquibancadas Universal logo ali na
esquina em Enfield porque o vício dele em cocaína tipo crank não era
coisa de todo dia; ele fumava tipo aos montes, mas basicamente só no fim
de semana. Mas fumava que nem um psicopata endiabrado que quisesse detonar
toda a conta bancária. Era que nem se amarrar num míssil da Raytheon e
aí você só para quando o míssil parar, Jim. Ele diz que a mulher dele
quebrava um galho de faxineira, mas quando ela trabalhava eles tinham
que pôr a menininha numa creche que praticamente comia o salário dela.
Então o ordenado dele era tipo a grana toda que eles tinham e esses
surtos de fim de semana com o cachimbo de vidro lhes causavam tudo
quanto era Insegurança Financeira, que ele pronuncia errado. O que o
leva ao seu último surto, o Fundo, que, previsivelmente, ocorreu no dia
de receber o salário. O cheque dele simplesmente 'tinha' que ir para
compras e aluguel. Eles estavam dois meses atrasados, e não tinha porra
nenhuma para comer na casa. Numa pausa para um cigarrinho na
Arquibancadas Universal ele tinha cautelosamente comprado só uma dose,
só dez paus, pra um consolinho de domingo à noite depois de um fim de
semana de abstinência, compras e de tempo passado com a esposa grávida e
a filhinha. A esposa e a filhinha iriam encontrá-lo depois do trabalho
bem no ponto de ônibus do Brighton Best Savings, bem embaixo do
relogião, para 'ajudar' ele a depositar o salário ali mesmo. Ele tinha
deixado a esposa combinar o encontro no banco porque sabia de um modo
autoenojado mesmo naqueles dias que havia esse risco de incidentes que
envolviam o salário graças a surtos de consumo em que ele tinha
mergulhado no passado, e a Insegurança Financeira deles agora já era sei
lá uma palavra que seja pior que 'fodida', e ele sabia bem pra
'caralho' que não podia ferrar com tudo dessa vez.
Ele diz que era assim que ele pensava nisso quando pensava sozinho: ferrar com as coisas.
Ele nem chegou ao ônibus depois de bater cartão, ele disse. Dois outros Chagados da rebitagem tinham três doses cada um, doses essas que eles ficaram 'sacudindo' na cara dele. (...) Em resumo foi a loucura de sempre de dinheiro no bolso e nenhuma defesa contra as pulsões, e a ideia da mulher dele com a menininha deles com aquele gorrinho e aquelas luvinhas de crochê paradas embaixo do relogião no gélido crepúsculo de março não foi nem empurrada de lado mas como que encolheu até virar um retrato tamanho-camafeu no centro da parte dele que ele e os Chagados estavam aplicadíssimos em matar com o cachimbo."
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 724
Ele nem chegou ao ônibus depois de bater cartão, ele disse. Dois outros Chagados da rebitagem tinham três doses cada um, doses essas que eles ficaram 'sacudindo' na cara dele. (...) Em resumo foi a loucura de sempre de dinheiro no bolso e nenhuma defesa contra as pulsões, e a ideia da mulher dele com a menininha deles com aquele gorrinho e aquelas luvinhas de crochê paradas embaixo do relogião no gélido crepúsculo de março não foi nem empurrada de lado mas como que encolheu até virar um retrato tamanho-camafeu no centro da parte dele que ele e os Chagados estavam aplicadíssimos em matar com o cachimbo."
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 724
Codeína
"Ninguém
tinha lhe oferecido comida, mas ele não estava com fome. Havia tubos de
soro entrando nas costas das mãos dele e na dobra do cotovelo esquerdo.
Outra tubulação lhe saía de um ponto mais lá embaixo. Ele não queria
saber. Ficava tentando perguntar ao seu coração se só uma codeína seria
uma recaída, na opinião do coração, mas o coração dele estava se negando
a responder."
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 836
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 836
Míni Ewell
"Gately
queria dizer pro Míni Ewell que ele se Identificava total, pra caralho,
com os sentimentos de Ewell, e que se ele, o Míni, pudesse só segurar a
onda, puxar esse fardo e colocar um sapatinho bem engraxado na frente
do outro tudo ia acabar superbem, que o Deus conforme Ewell o
Compreendia ia dar um jeito de Ewell ajeitar as coisas, e aí ele ia
abandonar esses sentimentos desprezíveis em vez de ficar submergindo
tudo com uísque, mas Gately não conseguia ligar o impulso de falar à
fala propriamente dita, ainda. Ele achou melhor só tentar estender a mão
esquerda e dar uns tapinhas na mão de Ewell sobre a grade."
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 834
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 834
aquela coisa negra da minha personalidade
"Eu forjei elaborados extratos bancários pra mostrar pro clube no
banco de reservas. Fiquei mais loquaz e mais imperioso com eles. Nenhum
dos caras pensou em me questionar o pincel atômico roxo com que os
extratos vinham escritos. Eu não estava lidando com gigantes
intelectuais aqui, eu sabia. Eles eram só malícia e músculos, a fina
flor da ralé da escola. E eu mandava geral. Vassalos. Eles confiavam
totalmente em mim, e no talento retórico. Pensando bem eles
provavelmente não conseguiam nem
imaginar que um aluno sensato da terceira série, de oclinhos e gravata,
ia tentar passar a perna neles, dadas as consequências inevitavelmente
violentas. Um aluninho 'sensato' de terceira série. Mas eu não era mais
um aluninho sensato de terceira série. Eu vivia só pra alimentar aquela
coisa negra da minha personalidade, que me dizia que toda e qualquer
consequência poderia ser evitada pelo meu dom e pela minha aura pessoal
grandiosa."
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 830
sexta-feira, 13 de março de 2015
Imortais
"Gately se tocou que gente de uma certa idade e de um certo nível de tipo experiência na vida acha que é imortal: universitários e alcoólicos/viciados são os piores: eles acreditam bem no fundo que estão isentos das leis da física e das estatísticas que ferreamente governam todas as outras pessoas. Eles resmungam e reclamam até você ficar enjoado se alguém foder com as regras, mas bem no fundo eles não se consideram sujeitos a elas, às mesmas regras. (...) É invariável e meio estraga-humor para um Funcionário ver que a única forma de um viciado um dia aprender alguma coisa é na porrada."
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 618
Objetivo
"...é que você atinge o objetivo e percebe a chocante percepção de que atingir o objetivo não completa nem redime você, não deixa tudo em sua vida 'OK' como, em sua cultura, você é educado para presumir que vai, o objetivo, fazer isso. E aí você enfrenta esse fato de que o que você tinha achado que ia ter o sentido não tem o sentido quando consegue, e você é empalado pelo choque. Nós vemos suicídios na história das pessoas nesses pináculos..."
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 696
Solidão
"O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança, quando os adultos passavam para lá e para cá, envolvidos com coisas que pareciam importantes e grandiosas, porque esses adultos davam a impressão de estarem tão ocupados e porque a criança não entendia nada de seus afazeres. E um dia, ao percebermos que suas ocupações são mesquinhas, que suas profissões são enrijecidas e não estão mais ligadas à vida, por que não olhar para eles como uma criança observa algo de estranho, partir da profundeza do próprio mundo, da amplitude da própria solidão, que é ela mesma um trabalho, um cargo e uma profissão?"
Rainer Maria Rilke (1875-1926). Cartas a um jovem poeta
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Ruth van Cleve
"Primeiro dia da srta. Ruth van Cleve fora da Restrição Doméstica de
três dias dos residentes novos. Agora com direito de ir a reuniões fora
de Enfield desde que acompanhada por algum residente mais veterano que
os Funcionários considerem seguro. Ruth van Cleve de salto agulha
caminhando ao lado de uma Kate Gombert psicoticamente deprimida na
Prospect logo ao sul da Inman Square, Cambridge, um pouco depois das
2200h, matraqueando sem parar.
Ruth van Cleve está se revelando um
puta pé-no-saco para Kate Gombert. Ruth van Cleve é de Braintree na
South Shore, está muitos quilos abaixo do peso, usa um batom cor de
latão e tem um cabelo seco que ela ergue segundo a moda do cabelão de
décadas atrás. O rosto dela tem a aparência insétil e côncava dos
viciados terminais em Ice. Seu cabelo é uma nuvem seca emaranhada, com
olhos e ossos minúsculos e um biquinho se projetando por baixo. Joelle
v. D. tinha dito que quase parecia que a cabeça de Ruth van Cleve é que
crescia no cabelo em vez do contrário. O cabelo de Kate Gombert parece
cortado a faca e tem uma cor reconhecível, pelo menos."
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 714
O Grande Tubarão Branco da dor
"...o vazio inerte não é o pior tipo de depressão. A anedonia de olhos mortos é apenas a rêmora do flanco central do verdadeiro predador, o Grande Tubarão Branco da dor. As autoridades chamam essa situação de 'depressão clínica' ou 'involucional', ou 'transtorno disfórico unipolar'. Ao contrário de apenas uma incapacidade de sentir, um amortecimento da alma, a depressão calibre-predador que Kate Gombert sempre sente quando entra em Abstinência da marijuana secreta é 'ela' própria uma sensação. Ela recebe muitos nomes – 'angústia', 'desespero', 'tormento', ou p. ex. a 'melancholia' de Burton ou a mais oficial 'depressão psicótica' de Yevtushenko – mas Kate Gombert, entrincheirada na batalha, a conhece apenas como 'Aquilo'.
'Aquilo' é um nível de dor psíquica totalmente incompatível com a vida
humana como a concebemos. 'Aquilo' é uma sensação de um mal radical e
onipresente não só como característica mas como a essência da existência
consciente. 'Aquilo' é uma sensação de envenenamento que toma todo o eu
nos seus níveis mais elementares. 'Aquilo' é uma náusea das células da
alma. 'Aquilo' é uma intuição ininerte em que o mundo é plenamente rico e
dotado de ânimo e não mapístico e também completamente doloroso,
maligno e antagônico ao eu, eu deprimido este em torno do qual 'Aquilo'
se enfuna e se coagula e que envolve em suas pregas negras e absorve
completamente, de modo que se atinge uma unidade quase mística com um
mundo que em cada partícula sua deseja o mal e a dor do eu. O caráter
emocional d''Aquilo', a sensação que Gombert descreve que 'Aquilo' é, é
provavelmente praticamente indescritível a não ser como uma espécie de
beco-sem-saída lógico em que qualquer/todas as alternativas que
associamos à ação humana – sentar ou ficar de pé, fazer ou repousar,
falar ou ficar calado, viver ou morrer – são não apenas desagradáveis
mas literalmente horríveis."
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 711
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 711
A queda
"A pessoa dita 'psicoticamente deprimida' que tenta se matar não o
faz por entre aspas 'desesperança' ou por qualquer convicção abstrata de
que os ativos e os débitos da vida não batem. E certamente não porque a
morte pareça subitamente atraente. A pessoa em que a agonia d''Aquilo'
atinge um certo nível insustentável vai se matar exatamente como uma
pessoa encurralada vai acabar pulando da janela de um arranha-céu em
chamas. Não se iluda sobre as pessoas que pulam de janelas em
chamas. O pavor que elas têm de cair de grandes alturas ainda é tão
grande quanto seria para você ou para mim ali parados especulativamente
na mesma janela só dando uma olhada na vista; ou seja, o medo de cair é
uma constante. A variável aqui é o outro terror, as chamas do incêndio:
quando as chamas chegam perto demais, cair para a morte se torna um
terror algo menos terrível que o outro. Não é desejar a queda; é o pavor
das chamas. No entanto ninguém que esteja lá na calçada, olhando para
cima e gritando 'Não faça isso!' e 'Força!' entende o salto. No fundo.
Você teria que ter estado pessoalmente acuado e sentindo as chamas para
entender de verdade um terror bem maior que a queda."
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 712
O Porco Medonho
"Geoffrey Day percebeu que a maioria dos residentes homens da Ennet tem cognomezinhos especiais para a genitália. P. ex. 'Bruno', 'Jake', 'Presa' (Minty), 'O Monge Caolho', 'Fritz', 'Nicanor o Músculo do Amor'. Ele especula que pode ser uma coisa de classe social: nem ele nem Ewell nem Ken Erdedy deram nome para suas Unidades. Como Ewell, Day registra uma certa quantidade de dados de natureza comparativa no seu diário. Doony Glynn chamava o pênis de 'Pobre Ricardinho'; Chandler Foss confessou adotar o apelido 'Bam-Bam'. Lenz se referia à própria Unidade como 'O Porco Medonho'. Day ia morrer antes de admitir que sentia falta ou de Lenz ou de seus solilóquios sobre o Porco, que eram frequentes. O pênis em questão era aqueles curiosos dois ou três tons mais escuro que o resto de Lenz que os pênis das pessoas às vezes são. Lenz brandia aquilo para os colegas de quarto sempre que queria enfatizar algo que dizia. Era curto, grosso e rombudo, e Lenz descrevia o Porco como um exemplo cabal do que ele chamava de Praga Polonesa, a saber, comprimento medíocre mas circunferência considerável: 'Não machuca o fundo mas detona com as laterais, mano'. Era essa a descrição dele da Praga Polonesa."
David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 708
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