sexta-feira, 29 de julho de 2011

The severed garden

Wow, I’m sick of doubt
Live in the light of certain
South
Cruel bindings.
The servants have the power
Dog-men and their mean women
Pulling poor blankets over
Our sailors

I’m sick of dour faces
Staring at me from the tv
Tower, I want roses in
My garden bower; dig?
Royal babies, rubies
Must now replace aborted
Strangers in the mud
These mutants, blood-meal
For the plant that’s plowed.

They are waiting to take us into
The severed garden
Do you know how pale and wanton thrillful
Comes death on a strange hour
Unannounced, unplanned for
Like a scaring over-friendly guest you’ve
Brought to bed
Death makes angels of us all
And gives us wings
Where we had shoulders
Smooth as raven’s
Claws

No more money, no more fancy dress
This other kingdom seems by far the best
Until it’s other jaw reveals incest
And loose obedience to a vegetable law.

I will not go
Prefer a feast of friends
To the giant family.

Jim Morrison (1943-1971)

Se te queres matar

Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?

Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

Fernando Pessoa [Álvaro de Campos] (1926)

terça-feira, 26 de julho de 2011

Uma Aprendizagem

Lóri, pela primeira vez na sua vida, sentiu uma força que mais parecia uma ameaça contra o que ela fora até então. Ela então falou sua alma para Ulisses:

- Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus minha extrema individualidade de pessoa mas seremos um só.

Olhou para Ulisses com a humildade que de repente sentia e viu com surpresa a surpresa dele. Só então ela se surpreendeu consigo própria. Os dois se olharam em silêncio. Ela parecia pedir socorro contra o que de algum modo involuntariamente dissera. E ele com os olhos miúdos quis que ela não fugisse e falou:

- Repita o que você disse, Lóri.

- Não sei mais.

- Mas eu sei, eu vou saber sempre. Você literalmente disse: um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha extrema individualidade de pessoa mas seremos um só.

- Sim.

Lóri estava suavemente espantada. Então isso era a felicidade. De início se sentiu vazia. Depois seus olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me trascende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio de espaços? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta. Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade. Ela se despediu de Ulisses quase correndo: ele era o perigo.

Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou O livro dos Prazeres (1969). 18ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991, p. 84-86.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A paixão segundo G.H. (II)

Mas sei que ao mesmo tempo quero e não quero mais me conter. É como na agonia da morte: alguma coisa na morte quer se libertar e tem ao mesmo tempo medo de largar a segurança do corpo. Sei que é perigoso falar na falta de esperança, mas ouve - está havendo em mim uma alquimia profunda, e foi no fogo do inferno que ela se forjou. E isso me dá o direito maior: o de errar.

Escuta sem susto e sem sofrimento: o neutro do Deus é tão grande e vital que eu, não aguentando a célula do Deus, eu a tinha humanizado. Sei que é horrivelmente perigoso descobrir agora que o Deus tem a força do impessoal - porque sei, oh eu sei! que é como se isso significasse a destruição do pedido!

E é como se o futuro parasse de vir a existir. E nós não podemos, nós somos carentes.

Mas ouve um instante: não estou falando do futuro, estou falando de uma atualidade permanente. E isto quer dizer que a esperança não existe porque ela não é mais um futuro adiado, é hoje. Porque Deus não promete. Ele é muito maior que isso: Ele é, e nunca para de ser. Somos nós que não aguentamos esta luz sempre atual, e então a prometemos para depois, somente para não senti-la hoje mesmo e já. O presente é a face hoje do Deus. O horror é que sabemos que é em vida mesmo que vemos Deus. É com os olhos abertos mesmo que vemos Deus. E se adio a face da realidade para depois de minha morte - é por astúcia, porque prefiro estar morta na hora de vê-Lo e assim penso que não O verei realmente, assim como só tenho coragem de verdadeiramente sonhar quando estou dormindo.

Sei que o que estou sentindo é grave e pode me destruir. Porque - porque é como se eu estivesse me dando a notícia de que o reino dos céus já é.

E eu não quero o reino dos céus, eu não o quero, só aguento a sua promessa! A notícia que estou recebendo de mim mesma me soa cataclísmica, e de novo perto do demoníaco. Mas é só por medo. É medo. Pois prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou.

E seu reino, meu amor, também é deste mundo. Eu não tinha coragem de deixar de ser uma promessa, e eu me prometia, assim como um adulto que não tem coragem de ver que já é adulto e continua a se prometer a maturidade.

E eis que eu estava sabendo que a promessa divina de vida já está se cumprindo, e que sempre se cumpriu. Anteriormente, só de vez em quando, eu era lembrada, numa visão instantânea e logo afastada, de que a promessa não é somente para o futuro, é ontem e é permanentemente hoje: mas isso me era chocante. Eu preferia continuar pedindo, sem ter a coragem de já ter.

(...)

Não é para nós que o leite da vaca brota, mas nós o bebemos. A flor não foi feita para ser olhada por nós nem para que sintamos o seu cheiro, e nós a olhamos e cheiramos. A Via Láctea não existe para que saibamos da existência dela, mas nós sabemos. E nós sabemos Deus. E o que precisamos Dele, extraímos. (Não sei o que chamo de Deus, mas assim pode ser chamado.) Se só sabemos muito pouco de Deus, é porque precisamos pouco: só temos Dele o que fatalmente nos basta, só temos de Deus o que cabe em nós. (A nostalgia não é do Deus que nos falta, é a nostalgia de nós mesmos que não somos bastante; sentimos falta de nossa grandeza impossível - minha atualidade inalcançável é o meu paraíso perdido.)

Sofremos por ter tão pouca fome, embora nossa pequena fome já dê para sentirmos uma profunda falta do prazer que teríamos se fôssemos de fome maior. O leite a gente só bebe o quanto basta ao corpo, e da flor só vemos até onde vão os olhos e a sua saciedade rasa. Quanto mais precisarmos, mais Deus existe. Quanto mais pudermos, mais Deus teremos.

Clarice Lispector, A paixão segundo G.H. (1964). Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p. 147-150.

terça-feira, 19 de julho de 2011

A paixão segundo G.H.

E não me esquecer, ao começar o trabalho, de me preparar para errar. Não esquecer que o erro muitas vezes se havia tornado o meu caminho. Todas as vezes em que não dava certo o que eu pensava ou sentia - é que se fazia enfim uma brecha, e, se antes eu tivesse tido coragem, já teria entrado por ela. Mas eu sempre tivera medo de delírio e erro. Meu erro, no entanto, devia ser o caminho de uma verdade: pois só quando erro é que saio do que conheço e do que entendo. Se a "verdade" fosse aquilo que posso entender - terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu tamanho.

A verdade tem que estar exatamente no que não poderei jamais compreender. E, mais tarde, seria capaz de posteriormente me entender? Não sei. O homem do futuro nos entenderá como somos hoje? Ele distraidamente, com alguma ternura distraída, afagará nossa cabeça como nós fazemos com o cão que se aproxima de nós e nos olha de dentro de sua escuridão, com olhos mudos e aflitos. Ele, o homem futuro, nos afagaria, remotamente nos compreendendo, como eu remotamente ia depois me entender, sob a memória da memória da memória já perdida de um tempo de dor, mas sabendo que nosso tempo de dor ia passar assim como a criança não é uma criança estática, é um ser crescente. (...)

Clarice Lispector, A paixão segundo G.H. (1964). Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p. 110.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O Morto Prazenteiro

Onde haja caracóis, n'um fecundo torrão,
Uma grandiosa cova eu mesmo quero abrir,
Onde repouse em paz, onde possa dormir,
Como dorme no oceano o livre tubarão.

Detesto os mausoléus, odeio os monumentos,
E, a ter de suplicar as lágrimas do mundo,
Prefiro oferecer o meu carcaz imundo,
Qual precioso manjar, aos corvos agoirentos.

Verme, larva brutal, tenebroso mineiro,
Vai entregar-se a vós um morto prazenteiro,
Que livremente busca a treva, a podridão!

Sem piedade, minai a minha carne impura,
E dizei-me depois se existe uma tortura
Que não tenha sofrido este meu coração!

Charles Baudelaire (1821-1867). In: "As Flores do Mal"

Spleen

Quando o cinzento céu, como pesada tampa,
Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta,
E a sua fria cor sobre a terra se estampa,
O dia transformado em noite pardacenta;

Quando se muda a terra em húmida enxovia
D'onde a Esperança, qual morcego espavorido,
Foge, roçando ao muro a sua asa sombria,
Com a cabeça a dar no tecto apodrecido;

Quando a chuva, caindo a cântaros, parece
D'uma prisão enorme os sinistros varões,
E em nossa mente em frebre a aranha fia e tece,
Com paciente labor, fantásticas visões,

- Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes,
Lançando para os céus um brado furibundo,
Como os doridos ais de espíritos errantes
Que a chorrar e a carpir se arrastam pelo mundo;

Soturnos funerais deslizam tristemente
Em minh'alma sombria. A sucumbida Esp'rança,
Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente,
Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!

Charles Baudelaire (1821-1867). In: "As Flores do Mal"

Sepultura d'un poeta maudito

Se, em noite horrorosa, escura,
Um cristão, por piedade,
te conceder sepultura
Nas ruínas d'alguma herdade,

As aranhas hão-de armar
No teu coval suas teias,
E nele irão procriar
Víboras e centopeias.

E sobre a tua cabeça,
A impedi-la que adormeça.
- Em constantes comoções,

Hás-de ouvir lobos uivar,
Das bruxas o praguejar,
E os conluios dos ladrões.

Charles Baudelaire (1821-1867). In: "As Flores do Mal"

Baudelaire

Sua admiração por Baudelaire não conhecia limites. A seu ver, em literatura, os escritores tinham se limitado até então a explorar as superfícies da alma ou a penetrar-lhe os subterrâneos acessíveis e iluminados, assinalando, aqui e ali, as jazidas dos pecados capitais, estudando os seus filões, estudando o seu crescimento, anotando, como o fizera Balzac por exemplo, as estratificações da alma possuída da monomania de uma paixão, da ambição, da avareza, da estupidez paterna, do amor senil.

Tratava-se, de resto, da excelente saúde das virtudes e dos vícios, da tranquila atuação de cérebros de conformação vulgar, da realidade prática das ideias correntes, sem ideal de depravação malsã, sem nenhum além; em suma, as descobertas dos analistas se detinham nas especulações más ou boas, classificadas pela Igreja; era a investigação simples, a vigilância rotineira de um botânico que acompanha de perto o desenvolvimento previsto das florações normais plantadas em terra natural.

Baudelaire havia ido mais longe; descera até as profundezas da mina inesgotável, enfiara-se por galerias abandonadas ou desconhecidas, alcançara aqueles distritos da alma onde se ramificam as vegetações monstruosas do pensamento.

Lá, perto desses confins onde habitam as aberrações e as doenças, os tétanos místicos, a ardente febre da luxúria, os tifos e os vômitos do crime, descobrira ele, incubando sob a morna redoma do tédio, o pavoroso retorno da idade dos sentimentos e das ideias.

Havia ele revelado a psicologia mórbida do espírito que atingiu o outubro das suas sensações; narrado os sintomas das almas solicitadas pela dor, privilegiadas pelo spleen; mostrado a cárie crescente das impressões, quando os entusiasmos, as crenças da juventude já se calaram, quando não resta mais que a árida recordação das misérias suportadas, das intolerâncias sofridas, das contusões padecidas por inteligências a quem oprime um destino absurdo.

Acompanhara ele todas as fases desse lamentável outono, observando a criatura humana dócil em irritar-se, hábil em defraudar-se, obrigando seus pensamentos a trapacear entre si, para melhor sofrer, estragando de antemão, graças à análise e à observação, toda a alegria possível. (...).

Em páginas magníficas, ele tinha exposto os amores híbridos, exasperados pela impotência em que estão de satisfazer-se, as perigosas mentiras dos estupefacientes e dos tóxicos cujo auxílio é requerido para entorpecer a dor e enganar o tédio. Numa época em que a literatura atribuía quase exclusivamente a dor de viver à má sorte de um amor desprezado ou aos ciúmes do adultério, havia ele negligenciado tais moléstias infantis e sondado as chagas mais incuráveis, mais duradouras, mais profundas que são cavadas pela saciedade, pela desilusão, pelo desprezo, nas almas em ruínas a quem o presente tortura, o passado repugna, e o porvir atemoriza e desespera.

E quanto mais Des Esseintes relia Baudelaire, mais reconhecia um indizível encanto nesse escritor que, num tempo em que o verso servia apenas para pintar o aspecto exterior dos seres e das coisas, alcançara exprimir o inexprimível, graças a uma linguagem musculosa e carnuda que, mais do que qualquer outra, possuía o maravilhoso poder de fixar, com uma estranha saúde de expressão, os estados mórbidos mais fugazes, mais tremidos, dos espíritos esgotados e das almas tristes.

Depois de Baudelaire, era assaz restrito o número de livros franceses alinhados nas suas estantes. Des Esseintes mostrava-se seguramente insensível às obras ante as quais é de bom gosto a pessoa pasmar-se.

Joris-Karl Huysmans, Às avessas (1884). São Paulo: Penguin, 2011, pp. 208-210.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

I hold no grudge

I hold no grudge
There's no resentment und'neath
I'll extend the laurel wreath and we'll be friends
But right there is where it ends

I hold no grudge
And I'll forgive you your mistake
But forgive me if I take it all to heart
And make sure that it doesn't start again

Yes I'm the kind of people
You can step on for a little while
But when I call it quits
Baby that's it
I'm the kind of people
You can hurt once in a while
But crawling just ain't my style

I hold no grudge
Deep inside me there's no regrets
But a gal who's been forgotten may forgive
But never once forget

Ouça aqui essa bela canção de Angelo Badalamenti e John Clifford na inesquecível voz de Nina Simone (1933-2003)

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturas.

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral. “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade…

Só há que caminhar perto de coisas e pessoas de verdade. O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!

Mário Coelho Pinto de Andrade (1928/1990), poeta, ensaísta e escritor angolano

Fonte: paraensedeminas (Blog do Luiz David)

terça-feira, 12 de julho de 2011

Francisco de Goya

Para distrair-se e matar as horas intérminas, recorreu às pastas de estampas e arrumou os seus Goyas; os primeiros estados de certas pranchas dos Caprichos, provas reconhecíveis pelo seu tom avermelhado, outrora adquiridas a peso de ouro, alegraram-no e ele se abismou nelas, acompanhando as fantasias do pintor, enamorado de suas cenas vertiginosas, de suas feiticeiras cavalgando gatos, de suas mulheres forcejando por arrancar os dentes de um enforcado, de seus bandidos, de seus súcubos, de seus demônios e anões.

Depois, percorreu-lhe todas as outras séries de águas-fortes e aquatintas, os Provérbios de um horror tão macabro, os temas de guerra de uma ira tão feroz, a prancha do Garrote finalmente, de que acarinhava uma maravilhosa prova de ensaio, impressa em papel espesso, sem cola, com linhas claras visíveis atravessando a pasta.

A selvagem inspiração, o talento áspero, desvairado de Goya, o prendiam; todavia, a universal admiração conquistada por suas obras afastavam-no um tanto delas, e ele havia renunciado, fazia anos, a enquadrá-las, receoso de, pondo-as em evidência, o primeiro imbecil que o viesse visitar se julgasse obrigado a proferir asnices e a extasiar-se, por cortesia, diante delas.

Joris-Karl Huysmans, Às avessas (1884), São Paulo: Penguin, 2011, p. 166.

Imagem: Caprichos (70), de Francisco de Goya (1746-1828)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Pedro, meu filho

Acordei pela manhã com uma estranha sensação de leveza, como se em poucas horas eu tivesse emagrecido vários quilos. Lembrava-me de ter ido para a cama por volta de onze da noite, entorpecido pelo vinho e sentindo a refeição pesar no estômago, enquanto o coração bombeava com dificuldade o sangue necessário para uma digestão que, ao que tudo indicava, transformaria meu sono em uma travessia angustiosa pelas longas horas da madrugada.

Minha mulher roncava quando eu coloquei a cabeça no travesseiro, tateando o lençol à procura do controle remoto da televisão e pensando, com tristeza, em como seria minha noite depois de tanta comida e bebida.

No entanto, dormi maravilhosamente bem.

Mas não acordei apenas com uma sensação de leveza no corpo, como se em cinco ou seis horas eu tivesse passado por uma dieta de desintoxicação e emagrecimento que normalmente só traria resultados depois de cinco ou seis meses de sacrifícios terríveis. Não. Acordei também com o espírito mais leve, como se o peso de sentimentos negativos, que até à minha entrada pacífica no misterioso território do sono eu carregava dentro de mim, tivesse desaparecido junto com o peso corporal.

Levantei-me da cama e me dirigi à sacada do quarto, cuja porta de vidro se abria para uma bela vista do bairro, sem sentir o inchaço e as dores nas juntas que me atacavam todas as manhãs; com o corpo leve, a respiração fácil, o coração sereno e calmo, e, ao mesmo tempo, sem as preocupações e angústias que, de costume, não me davam trégua desde as primeiras luzes do dia até altas horas da noite: sobretudo aquela vontade de poder, que vinha sempre acompanhada de um desejo incontrolável de acumular riquezas e me apresentar ao mundo com todos os artificialismos que exigiam minhas ambições e sonhos de grandeza.

Acordei sentindo-me livre dessas vontades – ou pelo menos não as senti consumindo minha alma com suas línguas de fogo, obrigando meu corpo a reagir contra tudo que se colocasse como obstáculo às estratégias e planos por mim traçados para alcançar o que, na minha visão, era o sucesso. Aquele dia não foi assim; embora eu sentisse os demônios do poder e da ambição me espreitando pelos cantos do quarto, dispostos a reconquistar o meu ser, ainda não completamente livre das forças sombrias que cercam muitas de nossas vontades mundanas.

Porém, naquela manhã, nenhum peso me pareceu tão ausente de mim quanto a culpa que eu carregava há vários anos por ter sido o responsável pela desgraça que se abateu sobre o meu filho.

Sempre fui muito exigente com ele. Na escola, tirar o segundo lugar, para mim, era inaceitável. Ele tinha que ser sempre o primeiro, o melhor, o mais inteligente, o mais perspicaz, o mais invejado pelos colegas. Sempre cultivei nele o que eu acreditava ser a fórmula perfeita para o sucesso: ambição, orgulho, coragem, determinação e força, atributos que, com a dose certa de inteligência, sagacidade, dissimulação e estratégia, poderiam levá-lo aos cumes mais altos do sucesso profissional, da glória, da riqueza e do poder. E, para ajudá-lo nessa empreitada em direção aos picos do insuperável, haveria sempre o enorme patrimônio da família, acrescido cada vez mais com novas fazendas, casas, apartamentos e aluguéis.

Diante disso, certamente não deverá surpreender ao leitor a minha decepção amarga quando percebi que meu filho gostava mais de poesia e filosofia do que de matemática, química e biologia. Eu queria que ele fosse médico, um renomado cirurgião, respeitado no país inteiro e até mesmo no exterior, mas o que ele demonstrava aos quinze anos, contrariando todas as minhas expectativas, era uma paixão avassaladora pelo teatro, que ele praticava às escondidas depois das aulas, interpretando figuras grotescas, cantando e dançando como uma mocinha. E, como eu soube depois, ele gostava também de escrever poemas, que lia em recitais aos sábados, nos quais muitas vezes vestia-se de mulher, usando quase sempre uma peruca escura e uma enorme bata branca cheia de detalhes dourados.

Aquilo dilacerava minha alma, mas consegui conter minha indignação nos limites de um aconselhamento pacífico e de poucas palavras, até o dia em que, aos dezessete anos, ele entrou em meu escritório para me dizer que havia decidido prestar vestibular para Filosofia. Tentei fazê-lo mudar de idéia, dizendo que tal decisão era um completo desatino. “Você vai viver de quê, meu filho? O que faz um filósofo? Ele trabalha com o quê? Quanto ganha alguém para filosofar?”. Não adiantou. Ele me olhou nos olhos e disse que sua decisão estava tomada, e que se eu quisesse aproveitar aquela chance para agir como um pai de verdade (pelo menos uma vez na vida), que eu o apoiasse.

Eu não o apoiei. Eu o ameacei de todas as maneiras que pude: corte de mesada, expulsão de casa e outras bobagens do gênero, entremeadas com frases não menos estúpidas como: “O que os outros vão pensar?”. Ao que ele me respondeu, perguntando: “Por que você se preocupa tanto com os outros? Quem são esses outros? Por que eles precisam achar que nós somos felizes, que você se casou com a minha mãe por amor, que eu sou o melhor aluno da escola, que o meu futuro está garantido graças ao meu talento e ao patrimônio de merda que você herdou, construiu e fez crescer com a cobiça e a ambição que traz dentro de sua alma desde a infância?”.

Aquelas perguntas foram lançadas com uma fúria que eu jamais tinha visto naquele garoto meigo, que raramente se dirigia a mim, e que, quando o fazia, era só para trocar uma e outra palavra sobre uma bobagem qualquer, com o único propósito de quebrar, por um momento, o gelo glacial que cercava a nossa relação.

Imediatamente fui tomado por um ódio terrível e avancei em sua direção disposto a matá-lo se fosse preciso. Ele tentou correr, mas puxei-o pelos cabelos e joguei-o com toda a força contra a parede. Peguei-o pelo braço e levei-o até o banheiro do corredor, onde enfiei sua cabeça no vaso umas dez vezes, enquanto gritava: “É na merda que você quer viver, sua bicha? Então experimenta esta merda aqui e veja se você gosta”. E ele se debatia, tentava chamar a mãe – que já devia estar dormindo, dopada com seus remédios para depressão –, e lutava para respirar, com o rosto todo molhado com a urina que eu tinha despejado ali alguns minutos antes. Quando ele conseguiu escapar de minhas mãos, pegou a chave do carro e saiu em disparada pela avenida.

Mas, como eu dizia, ao acordar naquela manhã, não senti mais a culpa me corroendo o espírito; somente uma lembrança distante a me apertar de leve o peito e a maravilhosa sensação de que o futuro se encontrava aberto para o perdão e a consolação sem dor, sem medo e angústia.

Olhando o céu que brilhava com as primeiras luzes da manhã, senti a presença do meu filho ao meu lado na sacada, e o vi, com seu olhar perdido no horizonte, vestindo a mesma roupa que ele usava quando saiu de carro naquela fatídica noite.

“Pedro, meu filho...”, eu disse, sorrindo, e estendi a mão para tocá-lo. Em seu rosto jovial e alegre percebi, aliviado, que ele tinha me perdoado, e uma felicidade muito maior que a soma de todas as alegrias que eu tinha vivido em toda a minha vida me invadiu naquele exato momento, tornando meu corpo e meu espírito ainda mais leves, como se eu fosse capaz de saltar e alcançar, sem o menor esforço, a plenitude dos céus.

“Pedro, meu filho... Como é possível... você... aqui?”, perguntei, com lágrimas nos olhos, mas ele não respondeu.

O acidente. Aquele terrível acidente do qual, sem dúvida, eu tinha sido o único culpado... Cheguei no local às duas da madrugada. O carro estava completamente destruído, abraçado a um poste na avenida deserta. Preso às ferragens, sem vida, estava o corpo do meu filho. Tentei abrir com as mãos a carcaça confusa de ferros retorcidos, dizendo para ele, desesperado: “Vou tirar você daí, meu filho. Não se preocupe. Vou tirar você daí e vamos começar uma vida nova. Você vai fazer o que gosta e eu vou te apoiar, não se preocupe...”. Mas já não havia mais o que fazer.

“Pedro, meu filho... Como é possível?”, perguntei de novo, enquanto a manhã ganhava vida sobre os telhados marrons das casas do bairro. Ele se virou novamente para mim e apontou para a minha cama, dizendo: “Veja”. Ao me virar, levei um susto. Ao lado de minha esposa adormecida estava o que parecia ser eu, deitado de barriga pra cima, com o rosto contorcido e as mãos crispadas: um corpo pálido e sem vida. Pedro respondeu ao meu espanto com um novo sorriso e disse: “Aquilo ali nada mais é do que o envoltório carnal que você abandonou durante a noite. Chegou o momento, para você, de se dirigir a outros planos de aperfeiçoamento espiritual e, talvez, conforme os desígnios de Deus, um dia voltar à crosta terrestre para uma nova etapa de vida junto aos homens. Recebi autorização de meus guias espirituais para vir buscá-lo e auxiliá-lo na sua nova jornada de aperfeiçoamento. Informo-lhe, ademais, que a sensação de leveza que você sente agora se intensificará ainda mais, na medida em que for deixando para trás aquilo que lhe servira de motor no plano físico e que, para nós, no plano espiritual, são pesos inúteis: o orgulho, a ambição, o egoísmo, o desejo de poder e riqueza, a prepotência, a dissimulação, a cupidez, a mentira, o ódio, a vingança...”.

Eu não conseguia dizer nada. Só o olhava, assustado, sem entender aquilo tudo, sem acreditar.

“Venha comigo, meu pai...”, disse ele, e me estendeu a mão. Agarrei-a com força, puxei meu filho para junto de mim e abracei-o, chorando e repetindo, com lágrimas nos olhos: “Pedro... meu filho... Pedro... meu filho...”.

Flávio Marcus da Silva

domingo, 10 de julho de 2011

Misericórdia

Saio do café; e descubro logo como é fácil apiedar-se dos outros. A gente chega, dá corda aos bons sentimentos, e depois vai-se embora. É assim que se visitam os doentes. Cumpre-se o dever, tem-se pena, e vai-se embora. O doente fica. O doente vê o mundo numa perspectiva diferente do visitante. Ele vê um mundo que chega, que se debruça com fácil misericórdia de dez minutos, e que depois se despede. O doente fica. É, por definição, alguém que fica. Da cama ele vê o visitante voltar-se ainda uma vez, na porta, com votos de melhora; depois vê o visitante de costas, lampeiro, ágil; ouve seus passos na escada, alguma frase de último conforto jovial para a pessoa da família, que agradece; por fim, range o portão, bate a porta do automóvel, arranca o motor... e foi-se embora a misericórdia!

Gustavo Corção, Lições de abismo (1950), 15ª edição, Rio de janeiro: Agir, 2004, p. 143-4.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Carta ao Zézim


Porto Alegre, 22 de dezembro de 1979

Zézim,

Cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tua carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quieto e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portanto, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.

Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace ai, anda”.

Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz "Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.

Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentemente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.

Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tudo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.

Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida". Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.

É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.

Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.

E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.

Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido.

Pausa.

Quanto a mim, te falava desses dias na praia. Pois olha, acordava às seis, sete da manhã, ia pra praia, corria uns quatro quilômetros, fazia exercícios, lá pelas dez voltava, ia cozinhar meu arroz. Comia, descansava um pouco, depois sentava e escrevia. Ficava exausto. Fiquei exausto. Passei os dias falando sozinho, mergulhado num texto, consegui arrancá-lo. Era um farrapo que tinha me nascido em setembro, em Sampa. Aí nasceu, sem que eu planejasse. Estava pronto na minha cabeça. Chama-se Morangos mofados, vai levar uma epígrafe de Lennon & McCartney, tô aqui com a letra de Strawberry fields forever pra traduzir. Zézim, eu acho que tá tão bom. Fiquei completamente cego enquanto escrevia, a personagem (um publicitário, ex-hippie, que cisma que tem câncer na alma, ou uma lesão no cérebro provocada por excessos de drogas, em velhos carnavais, e o sintoma — real — é um persistente gosto de morangos mofados na boca) tomou o freio nos dentes e se recusou a morrer ou a enlouquecer no fim. Tem um fim lindo, positivo, alegre. Eu fiquei besta. O fim se meteu no texto e não admitiu que eu interferisse. Tão estranho. Às vezes penso que, quando escrevo, sou apenas um canal transmissor, digamos assim, entre duas coisas totalmente alheias a mim, não sei se você entende. Um canal transmissor com um certo poder, ou capacidade, seletivo, sei lá. Hoje pela manhã não fui à praia e dei o conto por concluído, já acho que na quarta versão. Mas vou deixá-lo dormir pelo menos um mês, aí releio — porque sempre posso estar enganado, e os meus olhos de agora serem incapazes de verem certas coisas.

Aí tomei notas, muitas notas, pra outras coisas. A cabeça ferve. Que bom, Zézim, que bom, a coisa não morreu, e é só isso que eu quero, vou pedir demissão de todos os empregos pela vida afora quando sentir que isso, a literatura, que é só o que tenho, estiver sendo ameaçada como estava, na Nova.

E li. Descobri que ADORO DALTON TREVISAN. Menino, fiquei dando gritos enquanto lia A faca no coração, tem uns contos incríveis, e tão absolutamente lapidados, reduzidos ao essencial cintilante, sobretudo um, chamado "Mulher em chamas". Li quase todo o Ivan Ângelo, também gosto muito, principalmente de O verdadeiro filho da puta, mas aí o conto-título começou a me dar sono e parei. Mas ele tem um texto, ah se tem. E como. Mas o melhor que li nesses dias não foi ficção. Foi um pequeno artigo de Nirlando Beirão na última IstoÉ (do dia 19 de dezembro, please, leia), chamado "O recomeço do sonho". Li várias vezes. Na primeira, chorei de pura emoção - porque ele reabilita todas as vivências que eu tive nesta década. Claro que ele fala de uma geração inteira, mas daí saquei, meu Deus, como sou típico, como sou estereótipo da minha geração. Termina com uma alegria total: reinstaurando o sonho. É lindo demais. É atrevido demais. É novo, sadio. Deu uma luz na minha cabeça, sabe quando a coisa te ilumina? Assim como se ele formulasse o que eu, confusamente, estava apenas tateando. Leia, me diga o que acha. Eu não me segurei e escrevi uma carta a ele dizendo isso. Não sou amigo dele, só conhecido, mas acho que a gente deve dizer.

Escrevendo, eu falo pra caralho, não é?

Aqui em casa tá bom. É sempre um grande astral, não adianta eu criticar. O astral ótimo deles independe da opinião que eu possa ter a respeito, não é fantástico? A casa tá meio em obras, Nair mandou construir uma espécie de jardim de inverno nos fundos, vai ligar com a sala. Hoje estava puta porque o Felipe não vai mais fazer vestibular: foi reprovado novamente no 3º colegial. Minha irmã Cláudia ganhou uma Caloi 10 de Natal do noivo (Jorge, lembra?), e eu me apossei dela e hoje mesmo dei voltas incríveis pelo Menino Deus(?). Márcia tá bonita, mais adultinha, assim com um ar meio da Mila. Zaél cozinhando, hoje faz arroz com passas para o jantar.

Povos outros, nem vi. Soube que A comunidade está em cartaz ainda e tenho grana pra receber. Amanhã acho que vou lá.

Tô tão só, Zézim. Tão eu-eu-comigo, porque o meu eu com a família é meio de raspão. Tá bom assim, não tenho mais medo nenhum de nenhuma emoção ou fantasia minha, sabe como? Os dias de solidão total na praia foram principalmente sadios.

Ocê viu a Nova? Tá lá o seu Chico, tartamudeante, e uma foto muito engraçada de toda a redação — eu com cara de "não me comprometam, não tenho nada a ver com isso". Dê uma olhada. Falar nisso, Juan passou por aqui, eu tava na praia, falou com Nair por telefone, estava descendo de um ônibus e subindo no outro. Deixou dito que volta dia três de janeiro ou fevereiro, Nair não lembra, pra ficar uns dias. Ficará? E nada acontecerá. Uma vez me disseram que eu jamais amaria dum jeito que "desse certo", caso contrário deixaria de escrever. Pode ser. Pequenas magias. Quando terminei Morangos mofados, escrevi embaixo, sem querer, "criação é coisa sagrada". É mais ou menos o que diz o Chico no fim daquela matéria. É misterioso, sagrado, maravilhoso

Zézim, me dê notícias, muitas, e rápido. Eu não pensei que ia sentir tanta falta docê. Não sei quanto tempo ainda fico, mas vou ficando. Quero escrever mais, voltar à praia, fazer os documentos todos. Até pensei: mais adiante, quando já estivesse chegando a hora de eu voltar, você não queria vir? A gente faria o mesmo esquema de novo, voltaríamos juntos. A família te ama perdidamente, hoje pintaram até uns salseirinhos rápidos porque todo mundo queria ler a matéria do Chico ao mesmo tempo.

Let me take you down cause I’m going to strawberry fields nothing is real, and nothing to get hung about strawberry fields forever strawberry fields forever strawberry fields forever

Isso é o que te desejo na nova década. Zézim, vamos lá. Sem últimas esperanças. Temos esperanças novinhas em folha, todos os dias. E nenhuma, fora de viver cada vez mais plenamente, mais confortáveis dentro do que a gente, sem culpa, é. Let me take you: I’m going to strawberry fields.

Me conta da Adélia.

E te cuida, por favor, te cuida bem. Qualquer poço mais escuro, disque 0512-33-41-97. Eu posso pelo menos ouvir. Não leve a mal alguma dureza dita. É porque te quero claro. Citando Arantes, pra terminar: "Eu quero te ver com saúde / sempre de bom humor / e de boa vontade".

Um beijo do

Caio

PS — Abraço pro Nello. Pra Ana Matos, e Nino também.

Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu no dia 12 de setembro de 1948, em Santiago (RS). Jovem ainda mudou-se para Porto Alegre onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou ambos para dedicar-se ao trabalho jornalístico no Centro e Sul do país, em revistas como Pop, Nova, Veja e Manchete, foi editor de Leia Livros e colaborou nos jornais Correio do Povo, Zero Hora, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo. No ano de 1968 — em plena ditadura militar — foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), tendo se refugiado no sítio da escritora e amiga Hilda Hilst, na periferia de Campinas (SP). Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos de qualquer ordem, evidenciando uma temática própria, juntamente com uma linguagem fora dos padrões normais. Em 1973, querendo deixar tudo para trás, viajou para a Europa. Primeiro andou pela Espanha, transferiu-se para Estocolmo, depois Amsterdã, Londres — onde escreveu Ovelhas Negras — e Paris. Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, sem parecer caber mais na rotina do Brasil dos militares: tinha os cabelos pintados de vermelho, usava brincos imensos nas duas orelhas e se vestia com batas de veludo cobertas de pequenos espelhos. Assim andava calmamente pela Rua da Praia, centro nervoso da capital gaúcha. Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo.

Volta à França em 1994, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros. Lá escreveu Bien Loin de Marienbad. Ao saber-se portador do vírus da AIDS, em setembro de 1994, Caio Fernando Abreu retorna a Porto Alegre, onde volta a viver com seus pais. Põe-se a cuidar de roseiras, encontrando um sentido mais delicado para a vida. Foi internado no Hospital Menino Deus, onde faleceu no dia 25 de fevereiro de 1996.

Bibliografia:

- Inventário do Irremediável, contos. Prêmio Fernando Chinaglia da UBE (União Brasileira de Escritores); Rio Grande do Sul: Movimento, 1970; 2ª ed. Sulina, 1995 (com o título alterado para Inventário do Ir-remediável).

- Limite Branco, romance. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1971; 2ª ed. Salamandra, 1984; São Paulo: 3ª ed., Siciliano, 1992.

- O Ovo Apunhalado, contos. Rio Grande do Sul: Globo, 1975; Rio de Janeiro: 2ª edição, Salamandra, 1984; São Paulo: 3ª edição, Siciliano, 1992.

- Pedras de Calcutá, contos. São Paulo: Alfa-Omega, 1977; 2 ed., Cia. das Letras, 1995.

- Morangos Mofados, contos. São Paulo: Brasiliense, 1982; 9 ed. Cia. das Letras, 1995. Reeditado pela Agir - Rio, 2005.

- Triângulo das Águas, novelas. Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro para melhor livro de contos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983; São Paulo: 2 edição Siciliano, 1993.

- As Frangas, novela infanto-juvenil. Medalha Altamente Recomendável Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil. Rio de Janeiro: Globo, 1988.

- Os Dragões não Conhecem o Paraíso, contos. Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro para melhor livro de contos. São Paulo: Cia. das Letras, 1988.

- A Maldição do Vale Negro, peça teatral. Prêmio Molière de Air France para dramaturgia nacional. Rio Grande do Sul: IEL/RS (Instituto Estadual do Livro), 1988.

- Onde Andará Dulce Veiga?, romance. Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) para romance. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.

- Bien Loin de Marienbad, novela. Paris, França Arcane 17, 1994.

- Ovelhas Negras, contos. Rio Grande do Sul: 2 ed. Sulina, 1995.

- Mel & Girassóis (Antologia)

- Estranhos Estrangeiros, contos. São Paulo: Cia. das Letras, 1996.

- Teatro Completo, 1997

Teatro:

- O Homem e a Mancha

- Zona Contaminada

Tradução:

- A Arte da Guerra, de Sun Tzu, 1995 (com Miriam Paglia).

A carta acima foi enviada pelo autor a seu grande amigo, o jornalista José Márcio Penido, e nela relata a criação do livro "Morangos mofados", fala de sua admiração por Clarice Lispector e Dalton Trevisan e estimula o amigo a escrever.

Extraído do livro citado, Editora Agir - Rio de Janeiro, 2005, pág. 152.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

La médiocrité dans L'Idiot, de Dostoïevski

Il n'y a rien de plus vexant que d'être, par exemple, riche, de bonne famille, d'extérieur avenant, passablement instruit, pas sot, même bon, et de n'avoir néanmoins aucun talent, aucun trait personnel, voire aucune singularité, de ne rien penser en propre; enfin, d'être positivement "comme tout le monde". On est riche, mais pas autant que Rothschild; on a un nom honorable, mais sans lustre; on se présente bien, mais sans produire aucune impression; on a reçu une éducation convenable, mais qui ne trouve pas son emploi; on n'est pas dénué d'intelligence, mais on n'a pas d'idées à soi; on a du coeur, mais aucune grandeur d'âme; et ainsi de suite sous tous les rapports. (p. 561)

Il y a, de par le monde, une foule de gens de cet acabit, plus même qu'on ne le saurait croire. Ils se divisent, comme tous les hommes, en deux catégories principales: ceux qui sont bornés et ceux qui sont "plus intelligents". Ce sont les premiers les plus heureux. Un homme "ordinaire" d'esprit borné peut fort aisément se croire extraordinaire et original, et se complaire sans retenue dans cette pensée. Il a suffi à certaines de nos demoiselles de se couper les cheveux, de porter des lunettes bleues et de se dire nihilistes pour se persuader aussitôt que ces lunettes leur conféraient des "convictions" personnelles. Il a suffi à tel homme de découvrir dans son coeur un atome de sentiment humanitaire et de bonté pour s'assurer incontinent que personne n'éprouve un sentiment pareil et qu'il est un pionnier du progrès social. Il a suffi à un autre de s'assimiler une pensée qu'il a entendu formuler ou lue dans un livre sans commencement ni fin, pour s'imaginer que cette pensée lui est propre et qu'elle a germé dans son cerveau. C'est un cas étonnant d'impudence dans la naïveté, s'il est permis de s'exprimer ainsi; pour invraisemblable qu'il paraisse, on le rencontre constamment. (...). (p. 561)

Gavrila Ardalionovitch Ivolguine, qui est un des héros de notre roman, appartenait à la seconde catégorie, celle des médiocres "plus intelligents", encore que, de la tête aux pieds, il fût travaillé du désir d'être original. Nous avons observé plus haut que cette seconde catégorie est beaucoup plus malheureuse que la première. Cela tient à ce qu'un homme "ordinaire" mais intelligent, même s'il se croit à l'occasion (voire pendant toute sa vie) doué de génie et d'originalité, n'en garde pas moins dans son coeur le ver du doute qui le ronge au point de finir parfois par le jeter dans un complet désespoir. (...). (p. 562)

Voici un des ces malheureux qui est un homme honnête et même bon, qui est la providence de sa famille, qui entretient et fait vivre avec son travail non seulement les siens, mais encore des étrangers. Que lui advient-il? Il n'a pas de tranquillité pendant toute sa vie! La conscience d'avoir si bien rempli ses devoirs d'homme n'arrive pas à le rasséréner; au contraire, cette pensée l'irrite: "Voilà, dit-il, à quoi j'ai gâché mon existence; voilá ce qui m'a lié bras et jambes; voilà ce qui m'a empêché d'inventer la poudre! Sans ces obligations, j'aurais peut-être découvert la poudre ou l'Ámerique; je ne sais pas au juste quoi, mais j'aurais sûrement découvert quelque chose!" (p. 563)

Le plus caractéristique chez ces gens-là, c'est qu'ils passent en effet leur vie sans parvenir à savoir exactement ce qu'ils doivent découvrir et qu'ils sont toujours à la veille de découvrir: la poudre ou l'Ámerique? (p. 563)

(...)

"Je vous hais, Gavrila Ardalionovitch, et - ceci vous surprendra peut-être - uniquement parce que vou êtes le type, l'incarnation, la personnification et la très parfaite expression de la médiocrité la plus impudente, la plus infatuée, la plus plate et la plus repoussante! Vou êtes la médiocrité gonflée, celle qui ne doute de rien et se drape dans une sérénité olympienne; vous êtes la routine des routines! Jamais l'ombre d'une idée personnelle ne germera dans votre esprit ou dans votre coeur. Mais votre envie ne connaît point de bornes; vous êtes fermement convaincu que vous êtes un génie de premier ordre. Toutefois, le doute vous hante dans vos moments de mélancolie et vous éprouvez alors des accès de colère et d'envie". (p. 583)

Fédor Dostoïevski, L'Idiot. Éditions Gallimard, 1994.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Solidão

A solidão é uma tragada (crônica de Rogério Pereira):

Gosto da solidão. Não bebo. Não fumo. Agora, por azar, descubro que estou muito perto da morte. Parei de fumar e beber por motivos distintos. O cigarro consumia-me as últimas golfadas de ar ao arriscar risíveis dribles nos campinhos de pelada. A bebida cozinhava-me as vísceras e sapecava-me o pouco juízo. Não fumo há 15 anos. Não bebo há 115 meses e 14 dias. No entanto, a abstinência etílica e de tragadas longas e saborosas não me possibilitará algumas horas a mais de vida. Estou com os dias contados. Maldição. Há uma saída, mas reluto em tomar um caminho que me parece assustador. Talvez a companhia da escuridão, a exalar o adocicado aroma dos crisântemos, seja uma alternativa mais honrosa e menos traumática.

Tenho poucos, pouquíssimos amigos. Minha vida social está envolta de poucas palavras, nenhuma festa e demonstrações tímidas de carinho. Alguns dizem que sou misantropo. Longe disso. Apenas abomino a aglomeração de afetos e manifestações exasperantes de amor coletivo. Não sirvo para sindicalista, piqueteiro ou swinger. Agora, se eu quiser viver mais alguns segundos do que o previsto (quanto?), terei de rever toda a minha vida. Pelo menos é isso que me alerta um dos poucos amigos. Abro o e-mail e leio a matéria enviada, cujo título causa-me certo incômodo: “Não ter amigos é tão perigoso quanto fumar ou beber em excesso”. Penso de imediato: não é comigo. Tenho amigos. Poucos, é verdade. Muito poucos. Pouquíssimos. Caramba! Logo abaixo do título, uma informação infiltra-se pelo meu abdome, aloja-se em alguma parte do corpo, uma parte desconhecida, e espeta-me as costelas: “Estudos revelam que pessoas com menos relações sociais morrem até 50% antes das que convivem mais”. A frase, confusa e mal escrita, tenta me alertar para a necessidade de aumentar minhas relações sociais. O que isso significa?

A reportagem começa de maneira amedrontadora: “Não ter amigos pode ser tão perigoso para a saúde como fumar ou consumir álcool em excesso, diz um estudo de cientistas americanos publicado no site da revista PLoS Medicine”. A coisa parece séria. Especialistas da Universidade Brigham Young, em Utah, e do Departamento de Epidemiologia da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, analisaram como o isolamento excessivo pode afetar a saúde. E provam em números. A morte é um número. Os pesquisadores recorreram a 148 estudos prévios com dados sobre a mortalidade de indivíduos em função de suas relações sociais, diz o texto.

Eu, com certeza, revestido de uma carcaça falsamente normal, devo me encaixar em algum exemplo analisado. Ao todo, foram acompanhadas quase 309 mil pessoas por cerca de 7 anos e meio. Convenhamos: pesquisador americano tem tempo à beça. Aí, chegaram à fatídica (pelos menos para mim) conclusão de que “as pessoas com mais relações sociais têm 50% mais chances de sobrevivência do que quem se relaciona menos com outros”. Mas quem seriam estes outros? Humanos? Vale animal? Pônei, cachorro, cobra ou minhoca? As relações homem-animal são válidas para a longevidade? Pouco importa. Nunca tive animal de estimação. Tampouco minha iniciação sexual ocorreu com as galinhas que ciscavam no terreiro da vizinha.

Nada me traz esperança. O estudo mostra que “a importância de ter uma boa rede de amigos e boas relações familiares é comparável a deixar de fumar e supera muitos fatores de risco como a obesidade e a inatividade física”. Mas o que é uma boa rede de amigos? Quantidade? Não serve uma rede de três ou quatro? Com quantos amigos se faz uma rede? De relações familiares, melhor não falar. Há um abismo entre as convenções assustadoras, alimentadas por ruidosos almoços aos domingos, regados a sorrisos, abraços e lágrimas, e aquilo que considero uma família.

Mas do que morrem os solitários, os misantropos, os reclusos, os tímidos, os estranhos? Infarto, câncer, tédio ou suicídio? O estudo, ao que parece, não indica as principais causas. Isso não importa. O que importa é que você, sujeito recluso, de poucos amigos, vai pra cova com mais rapidez. Não adianta largar o cigarro e a bebida. Não adianta corridinhas no parque, pedaladas na esteira. Abdominais diários não te salvarão. Não se matricule na melhor academia. A não ser que tenha o objetivo de fazer amigos. Não contrate um personal trainer. Não. Contrate um personal stylist. Ou contrate ambos. E se matricule na melhor academia. Melhore sua aparência. Compre roupas bacanas. Borrife um perfume importado nas ancas do pescoço, no peito, na virilha, sei lá. E vá à luta. Busque amigos. Seja simpático. Faça um clareamento dentário. Deixe os molares, os incisivos brilhando. Corte o cabelo. Faça as unhas. Decore boas frases de efeito. Leia um livro do Augusto Cury e outro do Machado de Assis. Pareça inteligente. E descolado. Tente impressionar muitas pessoas. Seja querido. Seja querida. Seja bacana. Não faça cara feia. Não fique deprimido, nem nostálgico, nem melancólico. Um botox aqui, um silicone ali. Alegria, sempre. Afinal, é a sua vida, a sua longa vida, que está em jogo. Entre no Facebook, no Twitter, no Orkut, em tudo. Aumente a sua rede. Pesque peixes gigantes. Grandes amigos. Amigos para sempre. Amigos instantâneos feito miojo. Faça as pazes com mãe, pai, irmãos, cunhados, tios, tias, cachorro, papagaio. Muita maionese e coca-cola no domingo. Só não vale aquele arrotinho camuflado na coxa do frango assado. Em paz com a família toda. Vamos lá. Bola pra frente. Xô, caixão. Pra lá, crisântemos. A vida é bela. Eu mereço uma vida longa. Você também. Uma vida feliz, com muitos e muitos anos de vida.

Mas não esqueça: não exagere na bebida, abandone o cigarro, pratique esportes, faça check-up periódico (coração, seios e próstata, principalmente), não abuse dos doces, do sal, das drogas, do glúten, não engorde, não se estresse, não tenha um trabalho deprimente, faça yoga (se possível), pilates (se possível), respire ar puro, evite o excesso de café, coma só produtos orgânicos, beije na boca (parece que ativa dezenas de músculos), brinque com os filhos, não discuta com o vizinho, sorria bastante, faça sexo com muita frequência, tome vitaminas, hidrate o corpo, proteja a pele do sol, evite se afogar no mar, olhe para os dois lados da rua ao atravessá-la, pegue avião somente quando inevitável, não fale com estranhos, proteja-se de bala perdida, não dê mole para sequestradores, evite os pedófilos, tenha momentos de lazer, reze para que um piano não caia na sua cabeça, reze para Deus e similares, não coma pastel de rodoviária, não tome café em aeroportos, torça para não se deparar com um cão raivoso, evite encontrar torcedores adversários na saída do estádio… Acredite na sorte.

E, se possível, tenha alguns minutos de solidão.

Fonte: A solidão é uma tragada, de Rogério Pereira (crônica publicada no site vidabreve.com, reproduzida aqui na íntegra)

domingo, 29 de maio de 2011

Lições de abismo

Deixara para trás, pendurados em invisíveis cabides, os meus títulos exteriores. Que me importava a mim, nessa expedição decisiva, ser professor da Faculdade de Filosofia, padrão O? Que me importava toda a série de pequenas conquistas e de grandes malogros que fazem a fisionomia exterior de minha vida? Sou brasileiro, eleitor, vacinado, autor de um trabalho sobre as integrais de Bessel, membro do clube de Engenharia, proprietário, meio poeta, e agora canceroso. Todos esses predicados juntos não dão um sujeito. Cercam-no, penduram-se nele, ou melhor, realizam-se nele. Mas o sujeito oculto, o sujeito que se procura, e que às vezes inventaria suas exterioridades com um olhar melancólico de velho fidalgo meio desmemoriado, que percorresse de uma sacada do solar os seus domínios invadidos pela erva e desfigurados pelo abandono - onde está ele, esse sujeito? Machuquei ontem o meu dedo. Mas o meu dedo, com todas as suas ligações vivas, parece-me distante, exterior, como um pau-de-cerca derrubado, que o triste dono deste solar arruinado calcula como e quando consertará.

Recuando, descendo cada vez mais fundo, abrindo caminho entre as disparatadas coisas exteriores, pergunto em voz alta: "Onde está a sala do trono no castelo encantado de mim mesmo?". De escuridão em escuridão, de silêncio em silêncio, atravesso com medo os meus recessos. (p.212-213).

Gustavo Corção, Lições de abismo. 15ª ed., Rio de Janeiro: Agir, 2004. (1ª ed.: 1950).

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sobre a bajulação

É dia de festa em casa do general. Explicou Jandira, a cozinheira, que sua excelência faz anos; e concluo eu que os mimos e as flores que incessantemente chegam ao portão do general-ministro vêm dos empreiteiros em dificuldades e dos fornecedores esperançosos.

Logo pela manhã, vi chegar o primeiro portador com uma vistosa cesta de flores. Havia para mais de cinquenta rosas. Depois, no correr do dia, chegaram dálias, gladíolas, estrelícias, gérberas e agapantos. Ao anoitecer, chegou ainda uma comionete carregada de rosas. (...)

O general, quando chegar, dirá com prazer: "Bonita cesta"; mas não verá as rosas, não saberá que têm nomes, (...) e muito menos saberá que elas dançam, lentissimamente, dentro da noite. Sua excelência, vendo o cesto, o conjunto, o aglomerado, não vê as rosas; como também não vê os rostos, não adivinha os nomes, não suspeita as aflições, os segredos, quando vê a praça apinhada de gente, nos dias de vibração cívica, do alto do palanque presidencial. A praça cheia de gente é também uma cesta, um mimo para seus olhos de ministro.

Agora, na intimidade, o general é um demagogo de rosas. Recebe-as aos montes, em comissões, em manifestações coletivas. E a impudicícia das flores ainda me parece mais chocante do que a dos míseros papalvos que se apinham em torno do palanque. Vejam aquelas estrelícias, complicadas e pedantes, como se alçam, como se torcem, para agradar ao homem de Estado! Vejam os agapantos: parece que empurram um deles, magricela, espevitado e melancólico, para saudar o homem de prestígio. É o orador da turma. "Nós, os agapantos desta cidade maravilhosa..." E as dálias? Oferecidas, inchadas, pavoneiam-se nas cestas para que a mão gorda do ministro vá buscar, no colo delas, o cartão do galante empreiteiro. E as próprias rosas, as pérfidas! Enchem o ar de perfume. Qual é a relação que pode existir entre a lisonja de um fornecedor e o perfume das rosas?

Disse eu que o general, não vendo as rosas, via a cesta? Disse mal. Ele não vê a cesta, como não vê as rosas. O próprio conjunto arrumado na cesta não tem existência própria, significação própria. É um sinal. Pertence à categoria dos telegramas, dos distintivos e das condecorações. É um mero sinal. Poderiam os áulicos enviar o recibo estampilhado com o preço das flores, e o efeito seria o mesmo. Porque não é a flor, nem o monte, nem o arranjo, nem a combinação de cores nem o capricho das pétalas que o general apreende quando lhe trazem o presente. Não. O que ele vê, na transparência do sinal, é a subserviência. Atrás da rosa estão as espinhas encurvadas, os sorrisos subalternos. No perfume das flores, o incenso da lisonja interesseira e abjeta. É isso que o ministro vê naquele luxo de pétalas e de cores. É a esperteza, a hipocrisia, a elementar astúcia do bajulador.

Mas se assim é, como se explica a satisfação do homem de Estado diante de tão feio espetáculo? Ele sabe, evidentemente, e até por experiência própria, que a bajulação é uma coisa feia, uma coisa abjeta. Melhor do que ninguém o homem de Estado conhece o exato valor da lisonja. Como se pode então compreender seu gordo sorriso satisfeito diante de tão repugnante significação que as rosas escondem?

Creio que poderei explicar o fenômeno com mais uma retificação. Disse há pouco que o ministro vê atrás das flores os sorrisos da subserviência. Corrijo agora. Não. Ainda não é aí, nas figuras dos empreiteiros e fornecedores que se detém o olhar satisfeito do aniversariante poderoso. A bajulação é também um sinal. Sinal em segunda instância, ainda não é aí que descansa o olhar do general. Não. O que ele vê nesse jogo de espelhos, rosas aqui, fornecedores acolá, é a sua própria importância, a sua própria face, a grande, a única realidade, em torno da qual o mundo inteiro é uma enorme moldura.

Gustavo Corção, Lições de abismo. Rio de Janeiro, Agir, 2004, p. 85-86. (1ª ed.: 1950).

domingo, 1 de maio de 2011

Kerouac

Sobre o livro Big Sur e seu autor, Jack Kerouac (1922-1969):

Fiel a seu modo de escrita paroxístico, chegará ao final do relato de seu apocalipse em Big Sur em dez dias, em Orlando, em outubro de 1961. Em nenhum momento se permitirá fazer papel bonito. Restituirá sem artifícios aqueles dias sem alegria exaltados por bebidas ordinárias, pelo abuso de tokay, um vinho açucarado, a bebida assassina dos pobres, naqueles dias anunciadores da separação dos "irmãos de sangue": Neal e ele, nos dias de miséria sexual e esterelidade. É o livro da coragem e da autenticidade (de uma rara autenticidade) de Kerouac, o não-herói. O fato de não sair engrandecido o faz grande, justamente. Ele descreve sua sordidez, seus embates medíocres, sua dependência. A descrição do delirium é de uma exatidão clínica notável, sob um fundo de memória que sabemos ser fenomenal e de um lirismo contido. Não se esqueceu de nada, não faltou sequer um detalhe. Precisou de um ano de decantação.

Quando sai o livro, em setembro de 1962, a crítica é, paradoxalmente, como sublinha Gerald Nicosia, menos rude, talvez porque diga sem rodeios, tanto a Saturday Review quanto o New York Times, que o beatnik Kerouac, como era de se esperar, terminou enlouquecendo. (p. 209).

(...)

Com Big Sur terminado no outono de 1961, Kerouac pensa nessa ocasião ter concluído sua obra. Aproxima-se dos quarenta anos e não terá mais do que dois livros em preparação - a última parte de Desolation Angels foi escrita no verão precedente na Cidade do México -, Vanity of Duluoz, que acabamos de citar, e Pic, que ele completará pouco antes de morrer. Por hora, ele entra numa longa fase de esterelidade e de relativa sobrevida de aproximadamente dez anos. Será para ele como o percurso em uma terra de desolação, com todos os estigmas de retirada do mundo doloroso, marcado de invectivas, de mal-entendidos, de encolhimento do espaço social e da comunicação. Kerouac estará cada vez mais sozinho, acentuando o vazio à sua volta e o desgosto do isolamento, tentando desajeitadamente remediá-los. Todos os traços de sua personalidade, que ele chama de paranóica, e de seu "comportamento esquizo", segundo sua expressão, que o tornam insuportável agravam-se somados ao alcoolismo inveterado e debilitante. Então ele vitupera, acusa, se insurge, interpela ou tenta infelizes e lacrimosas efusões. Progressivamente, vai se desligando de todos os elos históricos e passa a gravitar em uma solidão total na qual é um injustiçado, uma vítima eletiva. Está imerso na incompreensão de um mundo que o elouquece. (p. 234-235)

Kerouac, de Yves Buin. Porto Alegre: L&PM, 2007.

quarta-feira, 16 de março de 2011

O que há

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), 1934

Fonte: Jornal de Poesia

terça-feira, 8 de março de 2011

A Pomba

E depois, uma vez, em meados dos anos sessenta, no outono, quando jonathan foi à agência dos correios na Rue Dupin e quase tropeçou numa garrafa de vinho na entrada, colocada em cima do pedacinho de papelão, entre uma bolsa de plástico e a boina bem conhecida com algumas moedas dentro, e quando procurou, sem querer, o clochard [mendigo] durante alguns momentos, não porque estivesse sentindo sua falta como pessoa, mas sim porque faltava o ponto central da natureza-morta composta de garrafa, bolsa e papelão..., então Jonathan o viu agachado entre dois carros estacionados do outro lado da rua e viu como ele fazia suas necessidades: o clochard agachara-se ao lado do meio-fio, com as calças arriadas até os joelhos, o traseiro virado na direção de Jonathan, as nádegas totalmente desnudas, os transeuntes passavam, todos podiam vê-lo: um traseiro branco-farinha, com manchas azuis e lugares com crostas avermelhadas, de aparência tão esfolada como as nádegas de um ancião mantido num leito - em contrapartida, o homem não era mais velho do que Jonathan nessa época, tinha talvez trinta, no máximo trinta e cinco anos de idade. E desse traseiro esfolado saiu então um jorro de líquido marrom, caindo no calçamento com tremenda violência e em grande quantidade, formando um charco, um mar que circundou os sapatos, e os salpicos lançados para cima e para os lados mancharam meias, coxas, calças, camisa, tudo...

Patrick Süskind, A Pomba. Rio de Janeiro: Record, 1987, p. 59-60.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

E a vida continua...

Irmãos da Terra, em meio às vicissitudes da experiência humana, aprendei a tolerar e perdoar!... Por mais se vos fira ou calunie, injurie ou amaldiçoe, olvidai o mal, fazendo o bem!... Vós que tivestes a confiança traída ou o espírito dilacerado nas armadilhas da sombra, acendei a luz do amor onde estiverdes!... Companheiros que fostes vilipendiados ou insultados em vossas intenções mais sublimes, apagai as ofensas recebidas e bendizei os ultrajes que vos burilam o coração para a Vida Maior!... Irmãs que padecestes indescritíveis agravos na própria carne, desprezadas pelos carrascos risonhos que vos enlouqueceram de angústia, depois de vos acenarem com mentirosas promessas, abençoai aqueles que vos destruíram os sonhos!... Mães solteiras que fostes banidas do lar e batidas até a queda na prostituição, por haverdes tido suficiente coragem de não assassinar no próprio ventre os filhos de vossa desventura, com a insânia do aborto provocado, mães agoniadas às quais tantas vezes se nega até mesmo o direito de defesa, conferido aos nossos irmãos criminosos nas cadeias públicas, perdoai os vossos algozes!... Pais que trazeis nos ombros escalavrados de sofrimento a carga dolorosa dos filhos ingratos, filhos que aguentais na carne e na alma o despotismo e a brutalidade de pais insensíveis e cônjuges flechados entre as paredes domésticas pelos estiletes da incompreensão e da crueldade, absolvei-vos uns aos outros!... Obsidiados de todos os climas, tecei véus de piedade e esperança sobre os seres infelizes, encarnados ou desencarnados, que vos torturam as horas! Criaturas prejudicadas ou perseguidas de todos os recantos do mundo, perdoai a quantos se fizeram instrumentos de vossas aflições e de vossas lágrimas!... Quando sentirdes a tentação de revidar, lembrai-vos daquele que nos concitou a "amar os inimigos" e a "orar pelos que nos perseguem e caluniam"! Recordai o Cristo de Deus, preferindo ser condenado, a condenar, porque, em verdade, quantos praticam o mal não sabem o que fazem!... Convencei-vos de que as leis da morte não excetuam ninguém e não vos esqueçais de que, no dia do vosso grande adeus aos que ficarem na estância das provas, somente pela benção da paz e do amor na consciência tranquila é que podereis alcançar a suspirada libertação!...

Francisco Cândido Xavier (pelo espírito André Luiz), E a vida continua. Federação Espírita Brasileira, 1968, p. 206-207.

domingo, 30 de janeiro de 2011

O emblema vermelho da coragem

O jovem deu-se conta de uma notável mudança no comportamento de seu companheiro desde os tempos do acampamento à beira do rio. Ele já não parecia estar a todo momento medindo sua bravura. Não mais se enfurecia com pequenas palavras que lhe espetassem a autoestima. Já não era um jovem praça gritalhão. Envolto numa perfeita segurança, demonstrava agora uma fé serena em seus propósitos e habilidades. Essa firmeza interior lhe permitia, naturalmente, ficar indiferente às pequenas alfinetadas que os outros lhe dirigiam.

O jovem refletia. Estava acostumado a pensar no companheiro como em um meninote espalhafatoso, dono de uma audácia advinda da inexperiência, impulsivo, teimoso, ciumento e cheio de uma coragem de latão. Um bebê cambaleante acostumado a marchar com autoridade em seu próprio jardim. O jovem se perguntava de onde teria surgido esse novo olhar, em que momento o colega fizera a grande descoberta de que muita gente se recusaria a se submeter a ele. Agora, aparentemente, o outro tinha chegado ao pico da sabedoria, onde se via como algo muito pequeno. E o jovem percebeu que dali em diante, e para sempre, seria mais fácil viver pelas cercanias do amigo. [p.142-3]

(...)

Lembrou-se do modo como alguns tinham corrido da batalha. Recordando suas expressões contorcidas de terror, sentiu desprezo. Era evidente que se tinham portado de modo muito mais espaventado e frenético do que o absolutamente necessário. Eram frágeis mortais. Quanto a ele, soubera fugir com dignidade e discrição. [p.148]

(...)

Após esse incidente, passando em revista as cenas de batalha que presenciara, sentia-se perfeitamente apto a voltar para casa e aquecer corações com suas histórias de guerra. Via-se numa sala em tons cálidos, contando casos para uma plateia atenta. Teria lauréis para mostrar. Eram insignificantes, talvez, mas num lugarejo em que as glórias eram raridade, era bem possível que brilhassem. [p.149]

Stephen Crane, O emblema vermelho da coragem. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Stephen Crane

Stephen Crane (1871-1900) foi uma supernova no firmamento literário americano da década de 1890, irrompendo no cenário e brilhando com energia intensa durante vários anos até a morte prematura. No entanto, foi tão prolífico durante sua breve carreira, que a edição standard de sua obra completa contém nada menos que dez grossos volumes de ficção, poesia e jornalismo. Como outros autores de contos realistas, Crane foi treinado no jornalismo. Mas, em seus melhores escritos, transpôs o realismo para chegar à ironia, à paródia e ao impressionismo. Era tanto aprendiz quanto pioneiro, aprendendo seu ofício ao mesmo tempo que alterava o curso da história da literatura americana. Quem sabe quanto ainda teria realizado se não fosse colhido pela morte?

Fragmento da Introdução de Gary Scharnhorst ao livro O emblema vermelho da coragem (The red badge of courage), de Stephen Crane, publicado em 1895. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010, p. 15.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A vida como ela é

Durante dez anos, de 1951 a 1961, Nel­son Rodrigues escreveu sua coluna A vida como ela é… para o jornal Última Hora, de Samuel Wainer. Seis dias por sema­na, chovesse ou fizesse sol. A chuva podia ser como “a do quinto ato do Rigoletto” e o sol, daqueles “de derreter catedrais”, se­gundo ele. Todo dia, com uma paciência chinesa e uma imaginação demoníaca, Nelson escrevia uma história diferente. E quase sempre sobre o mesmo assunto: adultério. Desse tema tão simples e tão eterno, ele extraiu quase 2 mil histórias. Os ficcionistas que fingem se levar a sé­rio precisam de toda uma aura de misté­rio para criar. Nelson dispensava esse mis­tério. Chegava cedinho à redação, acendia um cigarro e, na frente dos colegas, entre miríades de cafezinhos, escrevia A vida como ela é… As histórias saíam de casos que lhe contavam, da sua própria obser­vação dos subúrbios cariocas ou das cabe­ludas paixões de que ele ouvira falar em criança. Mas principalmente da sua me­ditação sobre o casamento, o amor e o desejo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

As Aventuras da Virtude

(...) a república nascida da derrota dos jacobinos era, do ponto de vista político, um regime anêmico e dividido. Na ausência dos grandes homens que haviam criado o extraordinário movimento de ideias do século XVIII e que tinham contribuído para a convergência dos ideais ilumistas da filosofia de Rousseau, das lições da Revolução Americana e das energias liberadas pela Revolução na França, sobrou um país dividido, com um Exército poderoso e uma classe política incapaz. A república do ano III já nasceu condenada ao fracasso. Em que pesem a generosidade e a lucidez de Madame de Staël, e até mesmo de Benjamin Constant, faltavam ao regime republicano a força dos ideais e a determinação das instituições. A forma sonhada por muitos estava lá, mas vazia dos conteúdos que haviam sido atribuídos a ela nos sonhos e projetos de tantos homens e mulheres ao longo das décadas anteriores. Naquelas circunstâncias, era uma república impossível, fadada a perecer sob o peso da história que havia presidido seu nascimento. Mas o fracasso republicano, o fechamento do longo e frutuoso período de constituição do republicanismo francês, foi também o momento inaugural de uma herança que até hoje é um dos pilares da cultura democrática e republicana da modernidade. Pouco importa se o século XIX será uma longa luta pela consolidação de muitos dos ideais formulados ao longo do século XVIII. O nascimento de uma matriz republicana francesa foi a criação de uma nova forma de ver e fazer política, a qual será decisiva para os caminhos e aventuras que marcaram as nações que, a partir de então, se confrontaram com o sonho e as dificuldades de se construir um regime baseado na liberdade, na igualdade e na fraternidade.

Newton Bignotto, As Aventuras da Virtude: As ideias republicanas na França do século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 366-7.