segunda-feira, 30 de março de 2009

domingo, 29 de março de 2009

Quatro minutos

Filme espetacular! Para ver e rever.
Trailer: clique aqui

Hygiène de l'assassin

Or, une des caractéristiques de notre espèce est que notre cerveau se croit toujours obligé de fonctionner, même quand il ne sert à rien : ce déplorable inconvénient technique est à l'origine de toutes nos misères humaines. (p. 74)

Vicky Cristina Barcelona

Filme engraçado, inteligente, com diálogos bem escritos e interpretações brilhantes. Um genuíno Woody Allen.

quarta-feira, 25 de março de 2009

In the desert

In the desert
I saw a creature, naked, bestial,
Who, squatting upon the ground,
Held his heart in his hands,
And ate of it.
I said: "Is it good, friend?"
"It is bitter - bitter," he answered;
"But I like it
Because it is bitter,
And because it is my heart."

Stephen Crane (1871-1900)

domingo, 22 de março de 2009

Rifa-se um coração

Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade
está um pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado,
coração que acha que Tim Maia estava certo
quando escreveu... "não quero dinheiro,
eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece,
e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações
e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste
em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que,
abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado
indicado apenas para quem quer viver intensamente e,
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:
" O Senhor pode conferir", eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro
que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que,
ainda não foi adotado, provavelmente,
por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar, mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário
a publicar seus segredos e, a ter a petulância
de se aventurar como poeta.

Ricardo Labatt

quinta-feira, 19 de março de 2009

Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...

E não sou nada!...

Florbela Espanca (1894-1930)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Cinqüentenário

Hoje contei
cento e dezoito vidas diferentes,
todas possíveis em meu mesmo corpo.
Todas vivi um pouco ou quase nada,
e o que sobrou foi essa miscelânea
de indecisões e dúvidas crescentes.


Salete Aguiar (1949-)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Back to Black

Sensacional!

Confira:

Amy Winehouse canta "Back to Black"

He left no time to regret
Kept his dick wet
With his same old safe bet
Me and my head high
And my tears dry
Get on without my guy
You went back to what you knew
So far removed from all that we went through
And I tread a troubled track
My odds are stacked
I'll go back to black

We only said good-bye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to.....

I go back to us

I love you much
It's not enough
You love blow and I love puff
And life is like a pipe
And I'm a tiny penny rolling up the walls inside

We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to

We only said good-bye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to

Black, black, black, black, black, black, black,
I go back to
I go back to

We only said good-bye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to

We only said good-bye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to black

Valerie

A mulher é louca, mas canta DEMAIS!

Confira:


Amy Winehouse canta "Valerie"

Well sometimes I go out by myself, and I look across the water.
And I think of all the things, what you're doing, and in my head I paint a picture.
Cause since I've come home, well my body's been a mess, and I miss your ginger hair, and the way you like to dress.
Oh wont you come on over, stop making a fool out of me, why don't you come on over, Valerie.

Valerie
Valerie
Valerie

Did you have to go to jail, put your house out up for sale, did you get a good lawyer.
I hope you didn't catch a tan, I hope you find the right man, who'll fix it for you.
Are you shopping anywhere, change the color of your hair, and are you busy.
Did you have to pay that fine, that you were dodging all the time, are you still dizzy.
Well since I come home, well my body's been a mess, and I miss your ginger hair, and the way you like to dress.
Oh wont you come on over, stop making a fool out of me, oh why don't you come on over, Valerie.

Valerie
Valerie
Valerie

Well somtimes I go out, by myself, and I look across the water.
And I think of all the things, what you're doing, and in my head I paint a picture.
Cause since I've come home, well my body's been a mess, and I miss your ginger hair, and the way you like to dress.
Oh wont you come on over, stop making a fool out of me, oh why don't you come on over, Valerie.

Valerie
Valerie
Valerie
Valerie
Valerie
Valerie
Valerie
Valerie

Why don't you come on over Valerie...

sábado, 28 de fevereiro de 2009

A Baixa de Lisboa

Depois de tomar um café duplo na pastelaria da esquina, perto da pensão (e sempre que me batia aquela angústia terrível, que apertava o meu coração sem piedade, eu tomava um café forte, revigorante, numa chávena bem grande), embrulhado no sobretudo ridículo que eu havia comprado em uma loja de roupas usadas em Belo Horizonte (achando que era moda na Europa), peguei o Metro perto dali e desci na Estação Saldanha. Meu primeiro contato com a Baixa foi estranho. Não sei bem como descrever: eu olhava para os lados e via igrejas e prédios enormes dos séculos XVIII e XIX; sentia um cheiro diferente, de passado, de coisa boa, não sei explicar. Era como estar numa Ouro Preto gigante, diria eu, abestalhado, naquela ocasião, sem qualquer outra referência; mas hoje vejo que tudo aquilo era muito diferente da nossa antiga e pobre Vila Rica. A Metrópole era muito mais fria, mais dura, distante e triste.

Flávio Marcus da Silva, fevereiro de 2009.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Versos de Natal

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus sapatinhos atrás da porta.

Manoel Bandeira (1939)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Do Rossio à Rua da Madalena

Meu lugar favorito de Lisboa, naturalmente, é o Rossio, onde invariavelmente desemboco pela mesma saída do Metro, em cima da Suíça, uma pastelaria de dezenas de mesas na calçada, em que as pessoas passam o dia todo tomando um cafezinho (uma "bica”) mordiscando bolinhos e paquerando as nórdicas que ali vêm fazer a praça. Graves decisões: vou na direção do Café Nicola ou passo antes pela Praça da Figueira? Nós, vagabundos, temos problemas como quaisquer outros mortais. Pela Praça da Figueira, eu pego a rua da Madalena, onde se situa minha ervanária favorita. Julgo de bom alvitre passar pela ervanária, afinal há muito tempo que não vou lá, preciso saber das novidades. E, assim, imerso num incrível rebuliço de gente, cheiros, cores e ruídos, marcho para a Praça da Figueira. Há um camelô muito sério, demonstrando um fantástico cortador de vidro. Pega lâminas de vidro de uma caixa e, conversando em alta velocidade, corta fatias de vidro como alguém tiraria rodelas de uma cenoura. "Quanto é o cortador aí?" pergunto eu, subitamente, achando que não posso passar sem um cortador de vidro — não há coisa mais indispensável para um escritor. São 150 escudos, pago sem discutir e vou de cortador em punho para a ervanária, cujo cheiro indescritível já começo a sentir desde a esquina. Lembro os prospectos: há chás e tisanas para tudo, inclusive para duas doenças que pretendo divulgar bastante, quando voltar ao Brasil: a fraqueza nervosa (da qual já padeço, esporadicamente) e o afrontamento de senhoras. Ainda não consegui informações precisas a respeito do que é o afrontamento de senhoras e tive vergonha de perguntar ao caixeiro meu amigo, na ervanária. Mas qualquer um concordará que se trata de uma enfermidade a ser gravemente considerada. Resolvo levar alguns sacos de chá para afrontamento de senhoras, quando voltar ao Brasil, em meio a minha bagagem de ervas milagrosas, com as quais pretendo receitar todo mundo. Na ervanária, não muitas novidades, a não ser umas pílulas de alho de fabricação revolucionária, que o caixeiro me recomenda com ênfase. Mas, as antigas? — pergunto eu, hesitante. Continuam boas, responde ele, mas nestas cá vê-se o óleo através das cápsulas. De fato, vê-se o óleo. É um argumento irresistível. Compro duas caixas, umas certas pílulas de pau d'arco, uma garrafinha de extrato de ginseng, mais umas miudezas e, com meu saquinho, volto pausadamente à Praça da Figueira, parando para olhar as vitrinas (as montras, perdão) de comida, arrumadas das maneiras mais caleidoscópicas pelas ruelas em volta do Castelo de São Jorge: sapatas, amêijoas, santolas, chamuças, carapaus, fiambres, chouriços, ginjinhas. De vez em quando, eu entro num desses estabelecimentos, só para ver a exposição das comilanças. Eles vêm ver o que eu quero e, quando explico que estou ali somente para uma espécie de fruir estético, eles até me oferecem, de vez em quando, uma excursão turística pela despensa e pela cozinha. Marco mentalmente o meu almoço: vou ao restaurante de Mimi, no Parque Meyer, comer na varanda, entre as plantas e alguns velhos atores de teatro de revista, conversando com os gatos e tomando o vinho da casa.

João Ubaldo Ribeiro

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Pedido de Adoção

Estou com muita saudade
de ter mãe,
pele vincada,
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
— não fosse tão pecadora.
Mas esta velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.

Adélia Prado

A rotina perfeita é Deus

Recolhe do ninho os ovos
a mulher
nem jovem nem velha,
em estado de perfeito uso.
Não vem do sol indeciso
a claridade expandindo-se,
é dela que nasce a luz
de natureza velada,
é seu próprio gosto
em Ter uma família,
amar a aprazível rotina.
Ela não sabe que sabe,
a rotina perfeita é Deus:
as galinhas porão seus ovos,
ela porá a sua saia,
a árvore a seu tempo
dará suas flores rosadas.
A mulher não sabe que reza:
que nada mude, Senhor.

Adélia Prado

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Orgulho


Aniquilarei a altivez de sua numerosa população, e sua arrogância transformar-se-á em luto

Baruc, 4


Nunca permitas que o orgulho domine o teu espírito ou tuas palavras, porque ele é a origem de todo o mal

Tobias, 4, 14


Fazei, Senhor, que o orgulho desse homem seja cortado com sua própria espada

Judite, 9, 12


A soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda

Provérbios, 16


A zombaria e a ofensa são próprias dos orgulhosos; a vingança os espreita como um leão

Eclesiásticos, 27, 31


[...] para que todas as árvores junto às águas não se exaltem na sua estatura, nem levantem o seu topo no meio dos ramos espessos, nem as que bebem as águas venham a confiar em si, por causa da sua altura; porque todos os orgulhosos estão entregues à morte e se abismarão às profundezas da terra, no meio dos filhos dos homens, com os que descem à cova

Ezequiel, 31, 14


A soberba dos mortais será abatida, e o orgulho dos homens será humilhado. Só o Senhor será exaltado naquele tempo

Isaías, 2, 11

Eu quero

(...) Eu quero a dor do homem na festa de casamento,

seu passo guardado, quando pensou:

a vida é amarga e doce?

Eu quero o que ele viu e aceitou corajoso,

os olhos cheios d'água sob as lentes.


Adélia Prado

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Amar os outros

Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].

Clarice Lispector (1925-1977)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Eu levo o seu coração comigo

eu levo o seu coração comigo (eu o levo no
meu coração) eu nunca estou sem ele (a qualquer lugar
que eu vá, meu bem, e o que quer que seja feito
por mim somente é o que você faria, minha querida)

não tenho medo

da minha sina (pois você é a minha sina, minha doçura) eu não quero
nenhum mundo (pois linda você é meu mundo, minha verdade)
e é você que é o que quer que seja o que a lua signifique
e você é qualquer coisa que um sol vai sempre cantar

aqui está o mais profundo segredo que ninguém sabe
(aqui é a raiz da raiz e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida, que cresce
mais alto do que a alma possa esperar ou a mente possa esconder)
e isso é a maravilha que está mantendo as estrelas distantes

eu levo o seu coração (eu o levo no meu coração)

e. e. cummings (1894-1962)

Original em inglês:

i carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)

i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)

e. e. cummings (1894-1962)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Café

Ethiopian shepherds
discovered coffee
when they realized
their goats began
to dance.

Michelle Ramadan

domingo, 25 de janeiro de 2009

Amor

nos isolaremos
como se isola
o som
que sai do
sax
de Charlie Parker
como atingem
o alto-mar
alguns navios
como se perdem
datas cabelos
amigos como se consomem
laranjas doçuras
jornais
como se destroem
vidas
edifícios
motoristas

Fabrício Corsaletti (1978-)

My Blueberry Nights

How do you say goodbye to someone you can't imagine living without? I didn't say goodbye. [pause] I didn't say anything. I just walked away.

Aos românticos de plantão: Vejam "My Blueberry Nights" (2007), traduzido no Brasil com o título "Um beijo roubado". Muito bom!

sábado, 24 de janeiro de 2009

Moi, un écrivain?

J’ai envie d'être un écrivain de romans policiers. Je veux que mon détective soit un jeune homme silencieux, introspectif, mais qui aime toujours écouter les autres, analiser les comportements, les moeurs, observer attentivement les petites choses de la vie. Il sera aussi un amant de la littérature, de l’histoire, de la philosophie; il sera peut-être un historien, un académicien qui passe son temps libre en s’amusant avec les crimes des autres. Peut-être qu’il sera un investigateur de crimes passés, dont les suspects seront tous morts. Le problème c’est qu’on n’est pas en Angleterre, où il ya cette atmosphère de mystère raffinée qu’on retrouve toujours dans les aventures de Sherlock Holmes, Hercule Poirot et Adam Dalgliesh. Nous sommes au Brésil, un pays "grossier", avec des policiers grossiers, sans aucun charme, qui mangent mal dans des petits restaurants immondes avec des femmes du monde, des drogués, et qui sont parfois des bandits eux aussi, en participant des réseaux de traffic de drogues ou de mineurs prostituées; enfin, je veux devenir un écrivain de romans policiers, mais pas ici, au moins pas en utilisant un décor ou des personnages brésiliens. Mais comment pourrais-je écrire un livre avec un autre décor et d’autres acteurs? Je suis brésilien, peste! Mais l’idée d’écrire une histoire qui se passe à Minas au XVIIIe siècle reste encore dans ma tête. Mon détective sera peut-être un prêtre... Ça y est!! Mais il y aura encore le problème du language et du anachronisme... Il faut penser.

Belo Horizonte, le 19 octobre, 2000

Vagalumes no jardim

Here come real stars to fill the upper skies,
And here on earth come emulating flies,
That though they never equal stars in size,
(And they were never really stars at heart)
Achieve at times a very star-like start.
Only, of course, they can't sustain the part.

Robert Frost (1874-1963)

Recomendo o filme "Fireflies in the Garden" (Vagalumes no jardim), de 2008, traduzido no Brasil como "Um Segredo entre nós" (só não consegui descobrir que segredo é esse).

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Anaïs

“You live like this, sheltered, in a delicate world, and you believe you are living. Then you read a book (Lady Chatterley, for instance), or you take a trip, or you talk with Richard, and you discover that you are not living, that you are hibernating. The symptoms of hibernating are easily detectable: first, restlessness. The second symptom(when hibernating becomes dangerous and might degenerate into death): absence of pleasure. That is all. It appears like an innocuous illness. Monotony, boredom, death. Millions live like this (or die like this) without knowing it. They work in offices. They drive a car. They picnic with their families. They raise children. And then some shock treatment takes place, a person, a book, a song, and it awakens them and saves them from death. Some never awaken".

Anaïs Nin (1903-1977)

Liberty

"[...] last night during a concert I felt like Mary Rose in Barrie’s play, who hears music while visiting an island, walks away and disappears for twenty years. I felt that I could walk out of my house like a somnambulist, forgetting utterly all my connections and go forth into a new life. Each day there are more demands from me that deprive me of the liberty I need, Hugo growing demands of my body, Allendy’s demands on the noblest in me, Henry’s love, which makes me a submissive and faithful wife — all this, against the adventure I must constantly renounce and sublimate. When I am most deeply rooted, I feel the wildest desire to uproot myself".

Anaïs Nin (1903-1977) Henry and June

O Escafandro e a Borboleta

Filme fascinante, maravilhoso! É a história real de Jean-Dominique Bauby, o poderoso editor da revista francesa Elle (ver post a seguir).

Jean-Dominique Bauby

Em 1995, Jean-Dominique Bauby, jornalista francês e redator-chefe da famosa revista Elle, sofreu, aos 43 anos de idade, um grave acidente vascular cerebral. Vítima de anartria - perda da articulação das palavras - e de paralisia física total, causadas pela síndrome do encarceramento (locked-in syndrome), Bauby permaneceu literalmente preso dentro de si próprio durante 15 meses, num estado de mutismo, imobilizado e sem forças. A pálpebra do olho esquerdo era a única parte do seu corpo capaz de mover-se. Essa prisão (expressa na imagem do escafandro) não lhe impedia a plena consciência (simbolizada pela borboleta), terrível condição de quem sofre dessa raríssima síndrome. No hospital, dependente em todos os sentidos, Bauby tomou a decisão inesperada de escrever um livro. A única forma de realizar esse projeto consistia em ditar letra por letra, recorrendo a um código criado para a comunicação entre o "escafandrista" e o mundo exterior: o código da pálpebra. O resultado desse árduo trabalho foi o livro Le Scaphandre et le Papillon (publicado em 1997), do qual se originou o excelente filme dirigido por Julien Schnabel em 2007 (ganhador de 2 Globos de Ouro, além de um prêmio no Festival de Cannes e 4 indicações ao Oscar).
Jean-Dominique Bauby faleceu em 1997, alguns meses depois da publicação do livro.

Gabriel Perissé

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Herança paterna

Não nasci sem pai:
ele esperou até que eu nascesse.

Depois,
ao constatar o sexo frágil
de sua quarta frágil-filha-mulher,
ele, o homem forte,
se foi.

Como herança,
deixou-me esta aptidão
para vôos interrompidos:

eterno fugir
de onde nunca estivemos.

Sônia Barros (1968-)