segunda-feira, 4 de maio de 2015

Gozar a vida

"Essa coisa de gastar a melhor parte da vida ganhando dinheiro para gozar uma duvidosa liberdade em sua parte menos valiosa me faz lembrar aquele inglês que primeiro foi à Índia fazer fortuna para poder depois voltar à Inglaterra e levar uma vida de poeta. 'Mas como!', exclama um milhão de irlandeses erguendo-se de todos os barracos na terra, 'essa ferrovia que a gente construiu não é boa?'. Sim, respondo eu, relativamente boa, isto é, vocês poderiam ter feito pior; mas, como vocês são meus irmãos, eu preferiria que tivessem gastado o tempo melhor do que cavando nessa lama."

Henry David Thoreau (1817-1862). Walden (1854). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 62

terça-feira, 28 de abril de 2015

ser lo que de verdad somos

"...la felicidad, la felicidad, la alegría recuperada, el sentido real de la oración, mis plegarias que se elevaban hasta traspasar las nubes, allí donde sólo existe la música, aquello que llamamos el coro de los ángeles, un espacio no humano pero indudablemente el único espacio que podemos habitar, siquiera conjeturalmente, los humanos, un espacio inhabitable pero el único espacio que vale la pena habitar, un espacio donde dejaremos de ser pero el único espacio en donde podemos ser lo que de verdad somos...".

Roberto Bolaño (1953-2003). Nocturno de Chile (2000). Barcelona: Anagrama, 2014, p. 83

Silencios



"Hay que ser responsable. Eso lo he dicho toda mi vida. Uno tiene la obligación moral de ser responsable de sus actos y también de sus palabras e incluso de sus silencios, sí, de sus silencios, porque también los silencios ascienden al cielo y los oye Dios y sólo Dios los comprende y los juzga, así que mucho cuidado con los silencios. Yo soy responsable de todo. Mis silencios son inmaculados. Que quede claro. Pero sobre todo que le quede claro a Dios. Lo demás es prescindible. Dios no."

Roberto Bolaño (1953-2003). Nocturno de Chile (2000). Barcelona: Anagrama, 2014, p. 11-12

Ajoelhado ao meu sofrimento

"O meu pai ajoelhou-se perante o meu corpo aviltante e chorou. Acalentava o desejo claro de que todas as coisas se corrigissem. Rezava pela correção de todas as tropelias, surpresas más, erros de pressa ou enganada decisão. O meu pai fora feliz, anos antes, jovem, apaixonado pela minha mãe, no tempo do piano, quando ela tocava e se vestia melhor, achava-se bonita, tinha futuro. Um futuro a definir. Ajoelhado ao meu sofrimento, era agora um homem encurralado, impotente. Com os nervos a toldarem-lhe as ideias. Ainda generoso, mas confuso. Não escapava de si mesmo. Andava singular, e singular se predava, se abatia. Sozinho, o meu pai seria suficiente para se consumir. Para se acabar."

Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 73

sábado, 25 de abril de 2015

Amanhã foi muito bonito

"A Sigridur, quando muito pequena, confundia o ontem, o hoje e o amanhã. Dizia: amanhã foi muito bonito. O meu pai achava que era uma forma de ter visões. A Sigridur só o dizia quando se referia a coisas positivas, alegrias e contentamentos que recolhia. Era uma forma de prever que o dia seguinte seria tão bom quanto o anterior. Como se fosse uma capacidade de sonhar. Das duas, a Sigridur era a sonhadora. Se a morte não a tivesse traído, esperá-la-ia uma vida de maravilhas por diante. Mas a vida não pertencia aos sonhadores, ainda que talhados para o sucesso. A vida era dos que sobravam. Em sobrar estava a oportunidade de prosseguir e de alguma vez se ser feliz."

Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 102

Serás amado

"Serás amado apenas quando puderes mostrar a tua fraqueza, sem provocar nenhuma força."

Theodor W. Adorno. Minima Moralia

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O dentro de tudo



"Andava de mãos na barriga. Queria o meu filho. Carregava-o com cada pensamento. Não correria risco algum de o perder. Explicaram-me que, naquela idade quase nenhuma, a possibilidade de perder um filho era muito comum. O esqueleto da mãe podia partir-se. Podia vergar como as velhas que apodreciam as rodinhas da coluna. Podia vomitar o filho como um troço de carneiro que não fora capaz de digerir. Era tão criança que me dava susto pensar que com um sopro o corpo se me esvaziaria da gravidez. Como se eu não fosse um ovo, com se fosse apenas um balão. Dava-me medo pensar que a alma dele escapasse no exercício de respirar. Tinha um filho tão novo na barriga que talvez o seu conteúdo fosse ainda indeciso. Dividido entre completar-se ou desistir. E eu levava sempre as mãos à barriga e adorava sentir aquele peso e sentir-me pesada, e esperava todos os ínfimos sinais de movimento. Vivia ansiosa. Ansiava pelo meu filho como quem fizesse o próprio mundo nascer. Depois que nascesse, ele ocuparia o lugar inteiro do mundo. Seria o tamanho inteiro de cada coisa e tudo se justificaria pela sua existência. Pensei: será o dentro de tudo."

Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 69

Quem sepulta um filho




"Quem sepulta um filho não tem idade. Está para lá das idades, para lá dos tempos, tem uma posse do mundo que independe de todas as limitações. A intensidade de quem sepulta um filho é semelhante à das forças inaugurais ou terminais. Pode fazer e desfazer tudo. Legitimamente lhe é conferido o poder moral de começar ou de acabar tudo."

Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 83

O mapa de deus

"O mapa de deus é infinito, é preciso que saibamos caber nele a nossa terra, e isso não se faz com abrir para aqui caminhos nem aumentar o tamanho ou o número das casas. No mapa de deus as coisas aparecem pelo admirável do engenho, a candura, a aventura da inteligência ou da intuição."

Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 96

Mulher completa



"Eu percebi que o Steindór era tão boa pessoa que até gostava da minha tia. A pavorosa tia que gulosamente deglutia o mundo. Pensei que aquele homem era capaz de amar qualquer estafermo. Tive muita pena dele. Fomos o resto do percurso a fincar as botas no chão meio gelado, a esboroar como areia de vidro. Sob os pés tínhamos o futuro. Achei assim. Ia o futuro inteiro no trajeto que traçasse. A vida, agora, era a direção que eu lhe conferisse. Estava com doze anos, faltava pouco para fazer treze, não me via como uma criança. Era uma mulher tão completa quanto apenas a tristeza as sabia fazer."

Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 89

Poemas

"Os poemas são instintivos, eu disse. Uma natureza instintiva que quase nos redime. Às vezes, um poema acende-se como um candeeiro dentro da cabeça. Fica-se a ver muito bem o que até então nunca se vira. Pendurar um poema e atravessar com ele a noite inteira sem sequer nos darmos conta de que se fez noite."

Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 104

Filho

"Nunca se perde por inteiro um filho. Ele resta sempre como algo que temos a infinita possibilidade de evocar. Evocamo-lo e ele é. (...) Dizemos filho e ele é sempre algo. Nunca regressa ao tempo em que não existia."

Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 105

terça-feira, 21 de abril de 2015

Aprender a solidão



"Aprender a solidão não é senão capacitarmo-nos do que representamos entre todos. Talvez não representemos nada, o que me parece impossível. Qualquer rasto que deixemos no eremitério é uma conversa com os homens que, cinco minutos ou cinco mil anos depois, nos descubram a presença. Dificilmente se concebe um homem não motivado para deixar rasto e, desse modo, conversar. E se houver um eremita assim, casmurro, seguro que terá pelo chão e pelo céu uma ideia de companhia, espiritualizando cada elemento como quem procura portas para chegar à conversa com deus. Estamos sempre à conversa com deus. A solidão não existe. É uma ficção das nossas cabeças.


Os homens sós percebem que há alguém na água, na pedra, no vento, no fogo. Há alguém na terra."

Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 15

Quando for grande

"Quando for grande, quero ser de outra maneira. Quero ser longe. Eu respondia: ninguém é longe. As pessoas são sempre perto de alguma coisa e perto delas mesmas. A minha irmã dizia: são. Algumas pessoas são longe. Quando for grande quero ser longe."

Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 22

O lado de dentro



"Estar morto deve ser inteligente. A morte deve ser pura inteligência. Não acredito que existam mortos burros. Deus não ia guardar paciência para ter com ele almas burras. O corpo é um traste. A alma deve ser incrível. Quando nos virmos ao espelho e só ali estiver a alma vamos pasmar de maravilha. Maravilhadas com o que somos ou sabemos ser. Viveremos apenas nas costas dos olhos. Entendes. Seremos apenas as costas dos olhos. O lado de dentro."


Valter Hugo Mãe (1971-). A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014, p. 25

O feitiço das palavras



"Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras."


Manoel de Barros (1916-2014). Poesia Completa. São Paulo: LeYa, 2013, p. 344

sábado, 18 de abril de 2015

Alucinação



"Gately temia e desprezava agulhas e morria de medo do Vírus, que naqueles dias estava derrubando picadores pra tudo quanto era lado. Fackelmann cozinhava o pó para Gately, lhe atava o cinto e deixava Gately olhar atentamente enquanto ele rasgava a embalagem de uma seringa novinha e o cartucho da agulha que Fackelmann conseguia com um RG falso para comprar Iletin na saúde pública para diabetes mellitus. A pior coisa do Dilaudid para Gately era que a passagem da hidromorfona pela barreira hematoencefálica criava uma terrível alucinação mnemônica de cinco segundos em que ele era um bebezão pantagruélico dentro de um bercinho Fisher-Price XXG num campo de areia sob um céu com nuvens de tempestade que se inflava e retrocedia como um grande pulmão cinzento. Fackelmann afrouxava o cinto, se afastava e ficava vendo os olhos de Gately revirarem enquanto ele começava a suar malariamente e encarava o céu respirítico imaginário ao mesmo tempo que suas manzorras esganavam o ar à frente exatamente como um bebê sacode as barras do berço. Aí depois de coisa de cinco segundos o Dilaudid atravessava e batia, e o céu parava de respirar e ficava azul. Um sono de Dilaudid deixava Gately mudo e empapado por três horas."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 934

Nimitz

"Gately acorda abruptamente quando sente a linguinha áspera na sua testa – não muito diferente da língua hesitante de Nimitz, a gatinha de estimação do PN, quando o PN ainda tinha a gatinha, antes do misterioso período em que a gatinha desapareceu e o triturador de lixo não funcionou direito vários dias seguidos e o PN ficou sentado de ressaca com o seu caderninho na mesa da cozinha com a cabeça loura nas mãos, só ficou ali sentado vários dias, e a Mãe de Gately ficava andando por ali pálida como o diabo e se recusou a chegar perto da pia da cozinha por dias a fio, e foi correndo para o banheiro quando Gately finalmente perguntou o que estava acontecendo com o triturador de lixo e cadê a Nimitz."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 954

sexta-feira, 20 de março de 2015

Kate Gombert

"E o cara velhusco estendia uma trêmula mão espalmada bem embaixo da cara de Kate Gombert, como se quisesse que ela vomitasse ali. A palma era violeta, com manchas de algum tipo de podridão quiçá micótica, e com negras linhas ramificadas onde as róseas linhas da palma das mãos das pessoas que não moram numa lixeira normalmente estão, e Kate ficou examinando distraída aquela palma..."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 731

Um homem catava pregos no chão



"Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais – o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter."

Manoel de Barros (1916-2014). Poesia Completa. São Paulo: LeYa, 2013, p. 381

A loucura do vício



"(...) o negócio é que ele tinha mulher e uma filhinha em casa no Conjunto Habitacional de Perry Hill em Mattapan, e outro bebê por chegar. Ele tinha dado um jeito de não perder o seu empreguinho ancilar de assistente de rebitador nas Arquibancadas Universal logo ali na esquina em Enfield porque o vício dele em cocaína tipo crank não era coisa de todo dia; ele fumava tipo aos montes, mas basicamente só no fim de semana. Mas fumava que nem um psicopata endiabrado que quisesse detonar toda a conta bancária. Era que nem se amarrar num míssil da Raytheon e aí você só para quando o míssil parar, Jim. Ele diz que a mulher dele quebrava um galho de faxineira, mas quando ela trabalhava eles tinham que pôr a menininha numa creche que praticamente comia o salário dela. Então o ordenado dele era tipo a grana toda que eles tinham e esses surtos de fim de semana com o cachimbo de vidro lhes causavam tudo quanto era Insegurança Financeira, que ele pronuncia errado. O que o leva ao seu último surto, o Fundo, que, previsivelmente, ocorreu no dia de receber o salário. O cheque dele simplesmente 'tinha' que ir para compras e aluguel. Eles estavam dois meses atrasados, e não tinha porra nenhuma para comer na casa. Numa pausa para um cigarrinho na Arquibancadas Universal ele tinha cautelosamente comprado só uma dose, só dez paus, pra um consolinho de domingo à noite depois de um fim de semana de abstinência, compras e de tempo passado com a esposa grávida e a filhinha. A esposa e a filhinha iriam encontrá-lo depois do trabalho bem no ponto de ônibus do Brighton Best Savings, bem embaixo do relogião, para 'ajudar' ele a depositar o salário ali mesmo. Ele tinha deixado a esposa combinar o encontro no banco porque sabia de um modo autoenojado mesmo naqueles dias que havia esse risco de incidentes que envolviam o salário graças a surtos de consumo em que ele tinha mergulhado no passado, e a Insegurança Financeira deles agora já era sei lá uma palavra que seja pior que 'fodida', e ele sabia bem pra 'caralho' que não podia ferrar com tudo dessa vez.

Ele diz que era assim que ele pensava nisso quando pensava sozinho: ferrar com as coisas. 

Ele nem chegou ao ônibus depois de bater cartão, ele disse. Dois outros Chagados da rebitagem tinham três doses cada um, doses essas que eles ficaram 'sacudindo' na cara dele. (...) Em resumo foi a loucura de sempre de dinheiro no bolso e nenhuma defesa contra as pulsões, e a ideia da mulher dele com a menininha deles com aquele gorrinho e aquelas luvinhas de crochê paradas embaixo do relogião no gélido crepúsculo de março não foi nem empurrada de lado mas como que encolheu até virar um retrato tamanho-camafeu no centro da parte dele que ele e os Chagados estavam aplicadíssimos em matar com o cachimbo."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 724

Codeína

"Ninguém tinha lhe oferecido comida, mas ele não estava com fome. Havia tubos de soro entrando nas costas das mãos dele e na dobra do cotovelo esquerdo. Outra tubulação lhe saía de um ponto mais lá embaixo. Ele não queria saber. Ficava tentando perguntar ao seu coração se só uma codeína seria uma recaída, na opinião do coração, mas o coração dele estava se negando a responder."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 836

Míni Ewell

"Gately queria dizer pro Míni Ewell que ele se Identificava total, pra caralho, com os sentimentos de Ewell, e que se ele, o Míni, pudesse só segurar a onda, puxar esse fardo e colocar um sapatinho bem engraxado na frente do outro tudo ia acabar superbem, que o Deus conforme Ewell o Compreendia ia dar um jeito de Ewell ajeitar as coisas, e aí ele ia abandonar esses sentimentos desprezíveis em vez de ficar submergindo tudo com uísque, mas Gately não conseguia ligar o impulso de falar à fala propriamente dita, ainda. Ele achou melhor só tentar estender a mão esquerda e dar uns tapinhas na mão de Ewell sobre a grade."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 834

aquela coisa negra da minha personalidade



"Eu forjei elaborados extratos bancários pra mostrar pro clube no banco de reservas. Fiquei mais loquaz e mais imperioso com eles. Nenhum dos caras pensou em me questionar o pincel atômico roxo com que os extratos vinham escritos. Eu não estava lidando com gigantes intelectuais aqui, eu sabia. Eles eram só malícia e músculos, a fina flor da ralé da escola. E eu mandava geral. Vassalos. Eles confiavam totalmente em mim, e no talento retórico. Pensando bem eles provavelmente não conseguiam nem imaginar que um aluno sensato da terceira série, de oclinhos e gravata, ia tentar passar a perna neles, dadas as consequências inevitavelmente violentas. Um aluninho 'sensato' de terceira série. Mas eu não era mais um aluninho sensato de terceira série. Eu vivia só pra alimentar aquela coisa negra da minha personalidade, que me dizia que toda e qualquer consequência poderia ser evitada pelo meu dom e pela minha aura pessoal grandiosa."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 830

sexta-feira, 13 de março de 2015

Imortais



"Gately se tocou que gente de uma certa idade e de um certo nível de tipo experiência na vida acha que é imortal: universitários e alcoólicos/viciados são os piores: eles acreditam bem no fundo que estão isentos das leis da física e das estatísticas que ferreamente governam todas as outras pessoas. Eles resmungam e reclamam até você ficar enjoado se alguém foder com as regras, mas bem no fundo eles não se consideram sujeitos a elas, às mesmas regras. (...) É invariável e meio estraga-humor para um Funcionário ver que a única forma de um viciado um dia aprender alguma coisa é na porrada."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 618

Objetivo


"...é que você atinge o objetivo e percebe a chocante percepção de que atingir o objetivo não completa nem redime você, não deixa tudo em sua vida 'OK' como, em sua cultura, você é educado para presumir que vai, o objetivo, fazer isso. E aí você enfrenta esse fato de que o que você tinha achado que ia ter o sentido não tem o sentido quando consegue, e você é empalado pelo choque. Nós vemos suicídios na história das pessoas nesses pináculos..."


David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 696

Solidão


"O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança, quando os adultos passavam para lá e para cá, envolvidos com coisas que pareciam importantes e grandiosas, porque esses adultos davam a impressão de estarem tão ocupados e porque a criança não entendia nada de seus afazeres. E um dia, ao percebermos que suas ocupações são mesquinhas, que suas profissões são enrijecidas e não estão mais ligadas à vida, por que não olhar para eles como uma criança observa algo de estranho, partir da profundeza do próprio mundo, da amplitude da própria solidão, que é ela mesma um trabalho, um cargo e uma profissão?"


Rainer Maria Rilke (1875-1926). Cartas a um jovem poeta

Ruth van Cleve

"Primeiro dia da srta. Ruth van Cleve fora da Restrição Doméstica de três dias dos residentes novos. Agora com direito de ir a reuniões fora de Enfield desde que acompanhada por algum residente mais veterano que os Funcionários considerem seguro. Ruth van Cleve de salto agulha caminhando ao lado de uma Kate Gombert psicoticamente deprimida na Prospect logo ao sul da Inman Square, Cambridge, um pouco depois das 2200h, matraqueando sem parar.

Ruth van Cleve está se revelando um puta pé-no-saco para Kate Gombert. Ruth van Cleve é de Braintree na South Shore, está muitos quilos abaixo do peso, usa um batom cor de latão e tem um cabelo seco que ela ergue segundo a moda do cabelão de décadas atrás. O rosto dela tem a aparência insétil e côncava dos viciados terminais em Ice. Seu cabelo é uma nuvem seca emaranhada, com olhos e ossos minúsculos e um biquinho se projetando por baixo. Joelle v. D. tinha dito que quase parecia que a cabeça de Ruth van Cleve é que crescia no cabelo em vez do contrário. O cabelo de Kate Gombert parece cortado a faca e tem uma cor reconhecível, pelo menos."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 714

O Grande Tubarão Branco da dor


"...o vazio inerte não é o pior tipo de depressão. A anedonia de olhos mortos é apenas a rêmora do flanco central do verdadeiro predador, o Grande Tubarão Branco da dor. As autoridades chamam essa situação de 'depressão clínica' ou 'involucional', ou 'transtorno disfórico unipolar'. Ao contrário de apenas uma incapacidade de sentir, um amortecimento da alma, a depressão calibre-predador que Kate Gombert sempre sente quando entra em Abstinência da marijuana secreta é 'ela' própria uma sensação. Ela recebe muitos nomes – 'angústia', 'desespero', 'tormento', ou p. ex. a 'melancholia' de Burton ou a mais oficial 'depressão psicótica' de Yevtushenko – mas Kate Gombert, entrincheirada na batalha, a conhece apenas como 'Aquilo'.

'Aquilo' é um nível de dor psíquica totalmente incompatível com a vida humana como a concebemos. 'Aquilo' é uma sensação de um mal radical e onipresente não só como característica mas como a essência da existência consciente. 'Aquilo' é uma sensação de envenenamento que toma todo o eu nos seus níveis mais elementares. 'Aquilo' é uma náusea das células da alma. 'Aquilo' é uma intuição ininerte em que o mundo é plenamente rico e dotado de ânimo e não mapístico e também completamente doloroso, maligno e antagônico ao eu, eu deprimido este em torno do qual 'Aquilo' se enfuna e se coagula e que envolve em suas pregas negras e absorve completamente, de modo que se atinge uma unidade quase mística com um mundo que em cada partícula sua deseja o mal e a dor do eu. O caráter emocional d''Aquilo', a sensação que Gombert descreve que 'Aquilo' é, é provavelmente praticamente indescritível a não ser como uma espécie de beco-sem-saída lógico em que qualquer/todas as alternativas que associamos à ação humana – sentar ou ficar de pé, fazer ou repousar, falar ou ficar calado, viver ou morrer – são não apenas desagradáveis mas literalmente horríveis."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 711

A queda



"A pessoa dita 'psicoticamente deprimida' que tenta se matar não o faz por entre aspas 'desesperança' ou por qualquer convicção abstrata de que os ativos e os débitos da vida não batem. E certamente não porque a morte pareça subitamente atraente. A pessoa em que a agonia d''Aquilo' atinge um certo nível insustentável vai se matar exatamente como uma pessoa encurralada vai acabar pulando da janela de um arranha-céu em chamas. Não se iluda sobre as pessoas que pulam de janelas em chamas. O pavor que elas têm de cair de grandes alturas ainda é tão grande quanto seria para você ou para mim ali parados especulativamente na mesma janela só dando uma olhada na vista; ou seja, o medo de cair é uma constante. A variável aqui é o outro terror, as chamas do incêndio: quando as chamas chegam perto demais, cair para a morte se torna um terror algo menos terrível que o outro. Não é desejar a queda; é o pavor das chamas. No entanto ninguém que esteja lá na calçada, olhando para cima e gritando 'Não faça isso!' e 'Força!' entende o salto. No fundo. Você teria que ter estado pessoalmente acuado e sentindo as chamas para entender de verdade um terror bem maior que a queda."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 712