quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Dia da Mentira


Assim que foi demitido, no final de uma tarde fria de segunda-feira, o jovem economista pegou suas coisas (um porta-retratos com a foto da filha e uma mochila), despediu-se de alguns amigos e foi direto para o clube onde nadava três vezes por semana.

A piscina estava vazia, mas aquecida. Sentou-se numa das bordas, de sunga, touca e óculos já postos, com as pernas cruzadas, e deixou-se levar pelo turbilhão de imagens que se sucediam em sua cabeça, provocando sensações ao mesmo tempo de alívio e medo, alegria e angústia.

Entrou na piscina e iniciou um perfeito crawl, com respiração, braçadas e pernadas lentas, bem sincronizadas, resultado de dez anos de dedicação a uma de suas maiores paixões: a natação. Enquanto sentia o agradável calor da água percorrendo o seu corpo, reviveu a horrível experiência de ter sido demitido de mentira durante uma brincadeira de primeiro de abril, havia dois anos, quando chegou a se humilhar para o funcionário encarregado de fazer a encenação, dizendo: "Pelo amor de Deus, minha esposa está desempregada e a gente tem uma filha de um ano que precisa de tratamento médico especializado pelo resto da vida, por causa de uma doença genética que ela tem". O diretor e três outros funcionários da empresa estavam escondidos atrás de uma porta, no fundo da sala, divertindo-se com o seu desespero. Quando saíram, rindo e gritando "Primeiro de abril! Primeiro de abril!", a única coisa que fizeram foi elogiar o desempenho do funcionário do RH, que riu, sem graça, perturbado e arrependido pelo que acabara de fazer.

Naquela fria tarde de segunda-feira, ao ser chamado pelo mesmo funcionário que fizera a encenação de dois anos atrás, sentiu seu coração disparar. Mas quando entrou na sala em que havia sido humilhado e vilipendiado da outra vez e recebeu o rápido comunicado de sua demissão, estava calmo e sereno. Os dois se cumprimentaram. O funcionário renovou as desculpas pela brincadeira de mau gosto que fora obrigado a fazer havia dois anos, e, meia hora depois, com uma mochila nas costas e um futuro incerto pela frente, mais um economista desempregado caminhava pelas ruas da capital do país.

Ao passar em frente à Faculdade de Filosofia, no centro da cidade, lembrou-se de uma piada que ouvira de um amigo professor de História: O repórter percorreu a longa fila de desempregados, parou bem próximo a um grupo de engravatados e disse, olhando para a câmera: 'Não são só filósofos, historiadores, sociólogos e economistas que engrossam as filas do desemprego. Pessoas úteis também procuram desesperadamente uma vaga no mercado de trabalho'.

Ao mudar seus movimentos para um harmonioso nado de peito, o jovem se viu na casa de seus pais, após o tradicional almoço de domingo, pedindo dinheiro ao velho para pagar o aluguel do apartamento e comprar os remédios da filha, enquanto seus dois irmãos bem sucedidos mostravam para a mãe as fotos das últimas viagens que haviam feito ao exterior.

Saiu do clube ao final da tarde, depois de um demorado banho. Caminhou tranquilamente pelas ruas da cidade, parando em uma livraria – onde comprou um exemplar do mais novo livro de P. D. James –, e em um Café – onde experimentou um delicioso expresso do Cerrado –, até chegar ao apartamento onde morava com a esposa (ainda desempregada) e a filha de três anos.

Às onze da noite, desligou a televisão, cobriu a filha já adormecida e deitou-se, beijando com carinho a testa de sua companheira, como sempre fazia, sem contar para ela que, a partir daquele dia, ele também estava desempregado.

De manhã, acordou assustado com o barulho do telefone. Atendeu-o no primeiro toque e disse, segundos depois: "Já estou indo, fica calmo". A esposa perguntou quem era. "Era o vizinho do 402", respondeu o marido, enquanto vestia uma calça às pressas. "Parece que teve um acidente. Bateu a cabeça na quina de um móvel e não consegue andar. Disse que eu posso arrombar a porta".

"Cuidado, amor".

Flávio Marcus da Silva

Perfume

Diante de um enorme espelho retangular (com moldura esculpida em granito Blue Pearl importado), no banheiro de um luxuoso Shopping da capital, o jovem estudante de Direito levou as duas mãos à cabeça e, com movimentos rápidos, ajeitou sua vasta e bem cuidada cabeleira. Em seguida abriu um sorriso perfeito de rapaz sedutor e observou, com orgulho, seus impecáveis dentes brancos (trinta e duas estruturas bem alinhadas que nunca tinham entrado em contato com café, Coca-Cola ou nicotina).

Enquanto se admirava no espelho, ouviu um empregado da limpeza dizer para o seu colega: “Quando eu tiver dinheiro, eu quero abrir um negocinho para trabalhar para mim mesmo, sabe?”. O outro respondeu com um grunhido zombeteiro que, mesmo abafado pelo irritante barulho da escova no vaso sanitário, parecia querer dizer em alto e bom som: “Vai sonhando, meu amigo, vai sonhando”.

O jovem estudante terminou de se ajeitar e sem qualquer preocupação com os destinos daqueles dois pobres miseráveis saiu do banheiro para se encontrar com duas colegas de faculdade em frente a uma loja de CDs importados, de onde partiriam para mais uma corrida na praça.

Todos os dias os três se encontravam ali e subiam a avenida em direção à bela praça centenária, onde, no início de cada noite, homens e mulheres de várias idades, sobretudo jovens preocupados com a beleza e velhos tentando evitar a decadência do corpo, reuniam-se para dar voltas e mais voltas ao redor de seus lindos jardins e fontes.

Na subida da avenida, o assunto dos três estudantes naquele início de noite era um professor recém contratado que, com medo de ser rejeitado pela turma, preparava as aulas com tanto esmero e organização, que ninguém saía da sala com dúvida. “Eu não gosto dele”, disse o jovem com voz firme. “Prefiro os professores anárquicos", continuou, "que deixam os pensamentos e reflexões fluírem livremente, conduzindo as discussões de maneira mais solta, sem muita ordem... Aquele cara é muito certinho”. As duas colegas concordaram. “Ele é ridículo”, disse uma delas, encostando de leve a coxa esquerda na perna do rapaz e pensando em como seria maravilhoso levá-lo para um motel naquela noite, depois da corrida. A outra comentou, tentando impressioná-lo: “Ontem eu fiquei a tarde inteira lendo o Tratado de Direito Penal do Martins e percebi que ele tira todas as aulas dali. É a mesma coisa! Não tem nada de original, nenhuma reflexão crítica que seja dele! Mas a turma baba no cara, só porque ele domina o conteúdo, fala bem e faz aquele teatro todo para parecer interessante e amigo de todos".

Chegaram à praça e começaram a correr. Era sexta-feira. No dia seguinte, pela manhã, o jovem estudante teria quatro aulas de inglês e logo depois pegaria a estrada em direção à sua cidade natal, onde moravam seus pais: um rico empresário, dono de uma rede de escolas de Ensino Fundamental e Médio, e uma bem sucedida advogada, especialista em Direito Tributário.

Todo sábado era a mesma coisa: depois de uma hora e meia de viagem, ele chegava em casa por volta de duas da tarde, almoçava, estudava um pouco, tomava um banho, jantava, e à noite saía com os amigos para dançar e ficar com as meninas bem nascidas do lugar.

O final de semana terminou para o jovem estudante quando, voltando para a capital no domingo à noite, com um enorme livro de Direito Penal jogado no banco de trás do seu carro e o porta-malas cheio de comida e roupas limpas, ele ouviu o som de uma buzina e sentiu um misterioso perfume de rosas no ar.

Depois disso não sentiu mais nada.

Flávio Marcus da Silva

A Flauta mágica

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Vinte por treze

Às cinco da manhã, o jovem assessor parlamentar acordou com o início do que seria, ao final da tarde, uma forte dor de cabeça, já pensando na agenda do seu chefe para aquela terça-feira, cheia de reuniões inúteis e compromissos banais. Mas ao tentar colocar o pé no chão, não conseguiu. Levantou a cabeça lentamente e levou um susto ao ver que, além de enrijecido, o seu joelho direito parecia uma batata gigante, de tão inchado. Deu um giro na cama e, apoiando-se no joelho esquerdo, que funcionava, dirigiu-se até o computador, para uma rápida consulta ao seu médico de plantão, o Dr. Google.

Em menos de um minuto vasculhava sites sobre reumatismo, artrite, artrose, e em menos de quinze já havia chegado à assustadora conclusão de que a súbita inflamação do seu joelho indicava uma única coisa: artrite reumatóide, a pior doença reumática conhecida, por ser crônica, incurável, degenerativa, acometer todas as articulações do corpo e ter alto poder de destruição.

Parado diante do computador, o rapaz pensava em seu futuro sombrio: nas deformidades que transformariam seu corpo após vários processos inflamatórios descontrolados; nas bengalas, muletas e coletes que teria que usar; nos efeitos colaterais causados pelos antiinflamatórios hormonais, não-hormonais e outras drogas de controle da doença, que teria que suportar, até chegar à cadeira de rodas, deformado pelos inúmeros nós e calombos nas articulações, com o corpo todo inchado por causa dos corticóides e dependente de doses cada vez mais fortes de analgésicos, para aliviar as dores insuportáveis.

Ficou mais de uma hora parado, sofrendo por antecipação e vasculhando seu passado à procura de alguma coisa que ele tivesse feito para merecer castigo tão terrível e cruel: “Uma vez minha mãe me disse que, na infância, eu era muito egoísta e malvado: que eu pulava da gangorra só para ver meu amiguinho cair; que eu apagava a luz do quarto e fechava a porta, deixando meu primo de três anos sozinho lá dentro; que eu só emprestava meus brinquedos depois que o meu pai me obrigava; que eu batia sem dó em qualquer pessoa que me ameaçasse; que eu mentia olhando nos olhos; que eu era respondão, gritava e esperneava quando desapontado, e estava sempre pronto para humilhar e diminuir as crianças que me causavam inveja...”. O homem enxugou uma lágrima que escorria em seu rosto e continuou: “Mas ninguém é perfeito (meus primos e amiguinhos também não eram santos) e Deus sempre perdoou as crianças”. Passou a mão direita no joelho inchado e sentiu que a enorme batata estava quente e latejava. “Não, não pode ser na infância”, disse para si mesmo. “Com certeza foi depois”. E lembrou-se das vezes que puxou o tapete de colegas de trabalho para subir na vida; que aceitou dinheiro público como pagamento extra por serviços de caráter privado; que mentiu para salvar seu chefe da fogueira. “Será?”.

Retorceu as mãos em desespero, e ao se apoiar no joelho esquerdo para se levantar, sentiu que ele também começava a perder flexibilidade. “Meu Deus!”, gritou alto. Ao ficar de pé, com muito custo (suando frio e com o coração acelerado), perdeu o equilíbrio e caiu, batendo a cabeça na quina da escrivaninha. Apoiou-se com a mão esquerda no chão e com a outra sentiu o sangue que escorria em abundância pela sua testa, até o pescoço. Arrastou-se até o telefone e ligou para um vizinho, que chegou cinco minutos depois, arrombando a porta para entrar no apartamento.

No hospital, levou alguns pontos na cabeça, tomou um analgésico e, mais calmo, exigiu a presença de um médico reumatologista, que após examiná-lo longa e calmamente (pois a consulta era particular), tranqüilizou-o, dizendo que aquele processo inflamatório tinha sido provavelmente uma manifestação psicossomática, devido ao estresse e às preocupações, mas que, por via das dúvidas, pediria alguns exames e acompanharia o seu caso de perto.

Dez dias depois, medicado e recuperado, o jovem assessor riu de si mesmo ao se lembrar do seu desespero irracional. “Vou seguir o conselho do médico e procurar ajuda psicológica”, pensou.

No domingo, saiu bem cedo para uma caminhada ao redor da lagoa, mas antes de começar o percurso, resolveu parar no quiosque de uma farmácia para medir a pressão. Puf, puf, puf, puf, puf... ssssssssssssss...: Treze por oito. “Meça de novo, por favor”, pediu ele à moça da farmácia. Puf, puf, puf, puf, puf, puf... sssssssssssssssss...: Quatorze por oito. “Mas o que é isso?”, perguntou ele, desesperado. “O senhor ficou nervoso”, tentou explicar a moça, “e a pressão subiu um pouco, é normal”. Ele pediu para repetir, mas a moça tentou acalmá-lo, dizendo que treze por oito já era uma boa medida para a idade dele, e que se ela medisse novamente, provavelmente o resultado seria um número maior que quatorze por oito. “Meça de novo”, insistiu ele. Ela mediu. Dito e feito: Dezesseis por nove. Saiu dali desesperado, esquecendo-se da caminhada. Foi à farmácia mais próxima e comprou um aparelho digital para medição da pressão arterial.

Em seu apartamento, passou o domingo inteiro medindo a pressão e anotando os números obtidos em uma folha de papel, para no dia seguinte poder apresentá-los a um cardiologista.

Às dez da noite, com os dois braços latejando e doloridos de tanto puf, puf, puf, o jovem assessor parlamentar obteve o último resultado das centenas de medições realizadas naquele domingo, poucos segundos antes de um vaso sanguíneo arrebentar em seu cérebro:

Vinte por treze.

Flávio Marcus da Silva

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O Lobo da Estepe

"Vi a mim mesmo arrastando-me pelo deserto do além, como um peregrino morto de cansaço, carregado com os inúmeros livros inúteis que havia escrito, com todos os artigos e opúsculos que havia publicado, seguido de um exército de leitores que se viram obrigados a tragar tudo aquilo. Meu Deus! E além disso, ali estavam também Adão e a maçã, e toda a restante culpa hereditária. Tinha de purgar tudo aquilo e só então poder-se-ia levantar a questão se havia algo pessoal, algo próprio que considerar, ou se todos os meus atos e suas conseqüências não seriam mais que espumas boiando no mar, ondulação sem sentido na torrente dos acontecimentos".

Hermann Hesse (1927)

domingo, 16 de agosto de 2009

Rosas marrons

O professor se olhou no espelho e o que viu foi um rosto pálido, desfigurado pelo ódio. Por mais que tentasse afastar o desejo de vingança recorrendo a livros de auto-ajuda e a orações, não conseguia evitar os maus pensamentos, que o assombravam dia e noite com cenas assustadoras de sofrimento e morte.

O culpado de toda a sua desgraça era um empresário de cinqüenta e oito anos, casado com uma advogada tributarista, com quem tinha um único filho, que estudava na capital.

Quinze anos haviam se passado desde que foram apresentados em uma festa, na casa de uma amiga. Naquela época, embora fosse professor recém-formado, estava bem de vida, pois tinha acabado de receber a herança do pai, um rico criador de gado na região. Resolveu, então, atender ao pedido da amiga e emprestar ao empresário uma enorme quantia em dinheiro, para um “investimento infalível” no ramo da telefonia móvel. O negócio não deu certo, a loja fechou as portas e a dívida que o empresário tinha com ele não foi paga.

Mas o empresário prometeu pagar tudo, com juros, se o jovem professor entrasse de sócio com ele em uma empresa de importação, que daria “lucros fabulosos” em menos de dois anos. Como era inexperiente, investiu muito dinheiro na empresa, acreditando nas conversas do empresário e da sua esposa advogada que, em segredo, organizaram e mantiveram em funcionamento durante oito anos um complicado esquema de importações fraudulentas envolvendo notas fiscais falsas e propinas a funcionários da Receita Federal.

Quando o esquema foi descoberto pela Polícia, tudo o que ele possuía havia sido investido na empresa. Seu nome foi publicado em todos os jornais do país e divulgado em programas de rádio e TV em escala nacional. Sua esposa o abandonou, levando com ela o filho de dez anos para viver em Goiânia, onde moravam os pais dela, dois velhos e pobres comerciantes aposentados.

O esquema havia sido planejado de forma que, se fosse descoberto, um excelente bode expiatório estaria pronto para ser apresentado à Justiça: ele. Foi o que aconteceu. As provas que o casal de criminosos havia preparado eram irrefutáveis, e com base nelas seus advogados conseguiram facilmente convencer o juiz de que aquele tímido professor de trinta e sete anos havia sido o único responsável pelos crimes.

Ao sair da prisão, quatro anos depois, numa fria tarde de julho, o amargurado professor descobriu que seu filho tinha se tornado um viciado em crack, com poucas chances de recuperação, e que sua ex-esposa havia falecido após tomar uma overdose de remédios para dormir, seis meses após a morte dos pais em um acidente de carro, na estrada de Caldas Novas.

Continuava olhando seu rosto no espelho, perdido em pensamentos sombrios, quando ouviu o barulho de um avião que cortava o céu, despertando-o do seu torpor. Saiu do banheiro e sentou-se no sofá da sala. Vivia sozinho em um apartamento alugado no centro da cidade, de onde só saía para fazer alguns bicos como desentupidor de pias e lavador de carros. De vez em quando via o empresário e sua esposa desfilando pela rua principal da cidade em carros e caminhonetes que mais pareciam veículos lunares ou tanques de guerra futuristas, de tão grandes, imponentes e sofisticados. Outras vezes via os dois no noticiário da TV local ou nas colunas sociais, recebendo prêmios de honra ao mérito, de reconhecimento profissional, de glamour, ou participando de festas VIPs, sempre muito alinhados e bem vestidos. O filho deles vinha todo final de semana para visitar os pais, curtir com os amigos as noites de sábado numa das melhores danceterias do estado e ficar com as meninas ricas da City, que se orgulhavam de estar na companhia dele - um estudante de Direito com futuro promissor, filho de uma renomada advogada tributarista e de um poderoso e rico empresário do ramo educacional: era assim que costumavam destacar os jornais locais.

Naquele dia, o professor foi mais uma vez à igreja pedir perdão pelo seu ódio e desejo de vingança, mas assim que voltou para casa e se deitou na cama, foi novamente tomado pelos maus pensamentos.

À noite, sonhou que caminhava por uma estrada deserta, cercada de árvores enormes, e que à sua frente seguia uma figura esguia, vestida de negro, carregando um lampião aceso em uma das mãos e uma rosa marrom na outra. Ao chegarem a uma velha casa de madeira, na beira da estrada, a misteriosa figura indicou com um movimento do lampião que eles deveriam entrar. Seus olhares se cruzaram por um instante, mas o professor não soube dizer se era um homem ou uma mulher. Só notou os cabelos curtos e pretos, os olhos escuros e as mãos magras, de gestos delicados. Entraram, e, para sua surpresa, a mesma figura esguia de cabelos curtos e escuros aparecia em vários lugares ao mesmo tempo, como réplicas ou clones de um mesmo fantasma, sempre ao lado de um homem ou de uma mulher. Numa das paredes da enorme sala havia uma foto do rico empresário, de paletó, camisa social e gravata, ao lado de sua bela esposa advogada. Ao redor da foto, como uma moldura, havia um arranjo de aspecto funesto, feito de pregos enferrujados e dezenas de rosas marrons. A misteriosa figura que o acompanhava dirigiu-se lentamente até a foto, espetou a rosa marrom que trazia na moldura, junto com as outras, e chamou-o para junto de si. O professor se posicionou ao seu lado, fechou os olhos e, sem qualquer resistência, deixou-se guiar pelos labirintos sombrios do inconsciente, onde uma seqüência de imagens era projetada repetidamente, numa velocidade assustadora: um carro em alta velocidade, um livro no banco de trás; um rio de águas barrentas; uma carreta desgovernada; sangue e membros mutilados em meio a ferros retorcidos.

Acordou assustado às duas da madrugada e correu para o banheiro, onde vomitou um líquido escuro, de odor nauseabundo. Voltou para o quarto, ligou a televisão num canal evangélico, deitou-se na cama e permaneceu imóvel, sem dormir. Levantou-se às seis da manhã, lavou o rosto e saiu para ir ao bar da esquina comer alguma coisa. Ali, pediu um café bem forte, um pão de queijo com lingüiça, e foi para uma mesa afastada, próximo aos banheiros. Ao sorver o primeiro gole do café, viu que um freguês encostado no balcão encarava-o, espantado. Imediatamente o professor reconheceu-o como uma das pessoas do sonho, que se encontrava de pé na sala da casa de madeira, ao lado de um dos clones da misteriosa figura vestida de negro. O homem pareceu indeciso por alguns segundos, mas logo veio em sua direção, e ao se aproximar, disse: “O filho deles morreu em um acidente de carro ontem à noite, às vinte e três horas, quando voltava para a capital”.

Ao ouvir aquilo, o professor levantou-se num salto e saiu correndo em direção à igreja.

Flávio Marcus da Silva

sábado, 15 de agosto de 2009

Fragmentos

O historiador solicitou os documentos, fechou os olhos e se preparou para mais um encontro com os seus mortos.

Todos os dias, após o almoço, ele se dirigia ao belo prédio do século dezenove, onde se localizava o Arquivo Público, para ler alguns documentos manuscritos da Seção Colonial: leis, editais, testamentos, inventários e processos-crime do século dezoito, produzidos, em sua maior parte, em Ouro Preto, Mariana, Sabará e São João Del Rei, quando o Brasil ainda era colônia de Portugal.

Sua preparação consistia em se imaginar no ano de 1725 (exatamente duzentos e cinqüenta anos antes do seu nascimento), na praça principal de uma vila mineira, repleta de escravos, roceiros, mineradores, negociantes, prostitutas e negras vendendo quitutes em tabuleiros. Procurava esquecer o presente e suas interferências: desde visões de mundo e idéias sobre o certo, o errado, o justo e o injusto, até o irritante barulho dos notebooks pertencentes a três outros pesquisadores que, todas as tardes, como ele, marcavam presença no Arquivo - cada um ouvindo, à sua maneira, as vozes do passado.

Ao receber os documentos, o historiador colocou as luvas de borracha, ajustou os óculos e a máscara de proteção com cuidado, pegou o primeiro manuscrito e começou a leitura. Era um processo-crime contra um minerador de vinte e cinco anos acusado de assassinar um fazendeiro na cidade de Mariana em 1748. O rapaz era descrito como um faiscador de ouro, solteiro, sem escravos, que vivia em Mariana desde 1745, quando havia chegado de Lisboa com o tio, um comerciante do Algarve, assassinado por um bando de salteadores no Caminho do Sertão quatro meses após o seu desembarque no porto do Rio de Janeiro.

O advogado responsável pela defesa do rapaz era um nobre português formado na Universidade de Coimbra, já conhecido do historiador, pois aparecia em outros processos, sempre defendendo autoridades do governo, mineradores poderosos e negociantes abastados. Mas por que estaria ele atuando na defesa de um minerador pobre, que vivia de faiscar ouro nos morros, mal conseguindo o suficiente para sobreviver?

Continuou a leitura do documento e pouco a pouco foi sendo apresentado aos personagens daquele complexo drama humano: uma viúva desequilibrada, que havia acertado um tiro na perna do marido dois dias antes dele ser assassinado; um ex-escravo, que jurava estar na companhia do acusado na hora do crime; um atravessador de mantimentos, que comprava milho, feijão e azeite de mamona do falecido; uma prostituta que, ao voltar para casa, na noite do crime, teria visto o acusado rondando a fazenda do morto; um fiscal da câmara acusado de contrabando de ouro, amigo do acusado desde a infância, em Lisboa; uma negra forra que afirmava serem o fiscal da câmara e o fazendeiro assassinado inimigos mortais; e uma velha bruxa, acusada de ter jogado um feitiço no fazendeiro alguns dias antes dele ser morto.

Por trás da incômoda máscara de proteção, o historiador conversava com o documento, pedindo mais detalhes, mais informações que lhe permitissem visualizar melhor todo aquele quadro, mas faltavam páginas e, o mais importante, o desfecho do processo. Não encontrou qualquer resposta para as suas perguntas: Quem havia assassinado o fazendeiro? Qual o motivo do crime? Por que o ilustre advogado havia atuado naquele caso, quando não era seu costume defender gente pobre?

O historiador saiu do Arquivo decepcionado. Havia ficado quase cinco horas debruçado sobre aquele processo sem conseguir transcrever qualquer informação útil para a sua tese, e o que era pior: sem desvendar o instigante mistério.

Subiu lentamente a avenida em direção à bela praça centenária, pensando nos milhares de homens e mulheres do século dezoito cujas vidas tinham se perdido na noite dos tempos.

A praça estava em movimento. Dezenas de pessoas caminhavam ou corriam ao redor dos jardins e fontes que, certamente, naquele início de noite, proporcionavam perfume e frescor a muitas almas em sofrimento, obcecadas com o sucesso profissional, a posição social, a riqueza e o poder. “Será que daqui a duzentos anos algum historiador vai se interessar pelos registros deixados por essas pessoas?”, perguntou a si mesmo, ao se sentar em um banco da praça, observando um rapaz e duas moças que corriam juntos, tão sérios e cheios de si que ele quase acreditou estar testemunhando a passagem de três deuses e não de simples mortais.

Levantou-se e caminhou lentamente até o pequeno cinema localizado um quarteirão abaixo da praça. Comprou ingresso para o último filme do Almodóvar, e, como tinha tempo, tomou um café expresso e entrou na livraria, ao lado da entrada principal. Passou vinte minutos folheando os livros, pensando se um dia teria seu trabalho publicado por alguma editora. Tinha quase certeza que sim. Só não sabia se um público não especializado se interessaria pelos fragmentos da vida de tantas pessoas mortas, quando, em pleno século vinte e um, o que o homem cultuava, acima de tudo, era o AGORA, com todas as suas promessas de prosperidade e felicidade para o futuro. "É quase certo que ficarei restrito à Academia", pensou, enquanto se dirigia à sala de exibição para um reencontro fascinante com o universo almodovariano.

Flávio Marcus da Silva

Nelson Rodrigues

"Ah, os nossos libertários! Bem os conheço, bem os conheço. Querem a própria liberdade! A dos outros, não. Que se dane a liberdade alheia. Berram contra todos os regimes de força, mas cada qual tem no bolso a sua ditadura".

"As feministas querem reduzir a mulher a um macho mal-acabado".

"Antigamente, o defunto tinha domicílio. Ninguém o vestia às pressas, ninguém o despachava às escondidas. Permanecia em casa, dentro de um ambiente em que até os móveis eram cordiais e solidários. Armava-se a câmara-ardente numa doce sala de jantar ou numa cálida sala de visitas, debaixo dos retratos dos outros mortos. Escancaravam-se todas as portas, todas as janelas; e esta casa iluminada podia sugerir, à distância, a idéia de um aniversário, de um casamento ou de um velório mesmo".

Nelson Rodrigues (1912-1980)

Otto Lara Resende (1922-1992) entrevista seu amigo Nelson Rodrigues, na TV Globo, em 1977:

Parte 1
Parte 2
Parte 3

Zbigniew Preisner

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Tempestade

No dia seguinte ao enterro de sua esposa, o jovem escritor retomou o trabalho com ânimo revigorado. Já não precisava mais interromper a difícil arte de criar cenas e diálogos para receber a mulher em casa, quando ela voltava do consultório ou dos plantões de final de semana, mal-humorada, cansada e triste, sentindo o peso da idade e a desconfiança (cada vez mais próxima da certeza) de que o marido, vinte anos mais jovem que ela, só a recebia com um beijo todos os dias e a levava para a cama uma vez por semana por ela o sustentar, garantindo-lhe casa, comida, roupa lavada e ainda alguns luxos, como jantares requintados e viagens ao exterior, enquanto ele se dedicava à escrita do seu primeiro romance, que não acabava nunca.

Naquele dia, sentou-se diante do computador e escreveu um capítulo inteiro. Ao terminar, olhou para a janela do escritório e viu que o céu estava escuro, iluminado apenas por alguns relâmpagos, que indicavam a aproximação de uma tempestade. Estava exausto. Nunca havia escrito um trecho tão longo em tão pouco tempo. Fechou os olhos por alguns segundos e disse para si mesmo que sua única preocupação, a partir daquele dia, seria com o seu livro. Sua sobrevivência e extravagâncias estariam garantidas pelo dinheiro que receberia do seguro de vida da esposa, pelos dez imóveis alugados que ela possuía (todos em bairros nobres) e pelas aplicações milionárias que ela mantinha em três bancos na cidade. Isso, porque, além de ser uma renomada cardiologista, a defunta era de família rica, e, por incrível que parecesse aos parentes e amigos à época, o seu casamento com o jovem intelectual desempregado, que se dizia escritor, havia sido com comunhão total de bens.

Sorte dele.

O jovem escritor tirou a camisa, a bermuda e os chinelos, levantou os braços, como se espreguiçasse, e, só de cueca, começou a andar pelo enorme apartamento de luxo que, a partir daquele dia, passava a ser só seu. Ao chegar à cozinha, abriu a geladeira e pegou uma garrafa de vinho francês, aberto na tarde anterior durante uma longa pausa entre dois parágrafos do seu romance, pouco antes de receber o telefonema do hospital comunicando a morte da esposa. Olhou para a garrafa e disse sorrindo: “Que pena”. Pegou uma taça e encheu-a até a borda. “Podia ter vivido pelo menos mais vinte anos”, pensou, bebendo um enorme gole do vinho, “mas quis o destino que ela morresse justamente do mal que tentava evitar, a todo custo, em seus pacientes”. Mais um gole.

Foi para a sala e ligou a TV no canal francês. “Preciso encomendar alguns livros na Livraria Francesa”, pensou antes de se virar para o lado e dormir.

Sonhou que estava no colégio, aos quatorze anos de idade, durante a cerimônia de entrega das medalhas aos melhores alunos do ano. Eles eram chamados pela diretora, que prendia com alfinetes as peças de metal dourado e prateado em seus peitos estufados de orgulho, com direito a fotos, abraços e aplausos por terem se destacado na difícil arte de memorizar questionários, datas, fórmulas, nomes de rios, de cordilheiras, de montanhas.

Além das melhores notas - que ele nunca tirava -, disputava-se também, naquele colégio, a admiração dos colegas mais populares, para o que ele também era um péssimo competidor, por ser tímido, pobre e esquisito, ficando sempre de fora das rodinhas de amigos e a quilômetros de distância das meninas ricas e importantes da sociedade local. Uma vez, no intervalo, uma norte-americana gordinha, intercambista do Rotary, ao passar perto dele, virou para a sua colega brasileira (que adorava exibir seu inglês medíocre, de quem nunca leu um bom livro, nem em português) e disse: He’s so weird! E elas riram, jogando as cabeças para trás, sem disfarçar.

Na seqüência do sonho, logo após a entrega das medalhas, ele estava sentado sozinho em um canto afastado do pátio do colégio, lendo um conto de Poe, quando, de repente, levantou-se, foi até sua sala, abriu a mochila, tirou um fuzil automático de uso exclusivo do Exército e saiu disparando para todo lado.

O massacre foi noticiado no mundo inteiro.

Quando um casal de americanos se aproximou de uma bancada de cimento, no necrotério do hospital, para reconhecer o corpo da filha cravado de balas, o jovem escritor acordou assustado com o barulho ensurdecedor da tempestade que desabava sobre a cidade às três horas da madrugada.

Flávio Marcus da Silva

domingo, 9 de agosto de 2009

Bullying

Crueldade entre crianças e adolescentes é mais comum do que a gente imagina. O Bullying começa na infância e, muitas vezes, na própria família.

Vídeo educativo para crianças
Depoimento
Reportagem

É IMPORTANTE QUE TODOS OS PAIS E EDUCADORES SE UNAM CONTRA ESSE PROBLEMA!

sábado, 8 de agosto de 2009

Teatro

Ao chegar à fazenda, o professor de alemão foi recepcionado pela elegante dona da casa, uma socialite de cinqüenta e seis anos, casada com um dos homens mais ricos do estado. O filho mais velho do casal acabara de chegar da Alemanha com a namorada e mais dois amigos, e a mãe resolveu convidar um grupo seleto de pessoas da High Society para um final de semana na fazenda. Ali, a presença dos recém chegados seria festejada com muita música, bebida, comida e corpos esculturais desfilando de biquíni e sunga pra todo lado.

Junto com os mais destacados colunistas sociais da City (que fariam o registro da festa), o professor de alemão havia recebido um convite especial para o final de semana; não pela sua aparência – era magro demais e tinha o rosto todo deformado por cicatrizes de espinha –, nem pelo seu dinheiro – pois era pobre como qualquer outro professor da cidade –, mas pela sua vasta cultura e refinada educação. A dona da festa esperava que ele animasse os bate-papos, conversando com os visitantes em alemão e traduzindo o que eles dissessem, já que os três não falavam muito bem o inglês e nem arranhavam o português.

A sede da fazenda era uma mansão de três andares cercada de grama verde bem cuidada, jardins exuberantes, piscina aquecida, quadras de futebol, vôlei e peteca, e uma enorme área coberta – com banheiros, sauna, cozinha e churrasqueira –, tudo perto da casa, para facilitar o vai-e-vem das pessoas.

Era sábado de manhã e a mansão estava cheia de convidados.

Conduzindo o professor até a entrada principal, a socialite parou no caminho para chamar o filho, que conversava com a namorada junto ao portão que dava acesso à quadra de peteca. Quando o casal se aproximou, o professor foi imediatamente hipnotizado pela beleza encantadora da jovem alemã – mas não deixou de notar também o olhar triste e inteligente do rapaz que chegava de mãos dadas com ela. A moça era realmente linda, e quando o professor perguntou em alemão se ela estava gostando do Brasil, o sorriso que se abriu em seu rosto antes de responder que “nunca tinha visto gente tão simpática e bonita” tornou sua beleza ainda mais estonteante.

Ao chegarem à porta da sala, que se encontrava aberta, a socialite arregalou os olhos de espanto, esperou alguns segundos, e, tomada de um súbito impulso, tocou a campainha três vezes para chamar a atenção do jovem alemão que, sem camisa e com a bermuda toda amarrotada, beijava ardentemente a boca de uma linda brasileira de seios exuberantes e parcialmente à mostra no sofá. O filho da dona da casa olhou furioso para o amigo que, sem graça, levantou-se e pediu desculpas a todos em alemão. Um pouco constrangido com a situação, o professor foi apresentado ao casal, que saiu imediatamente em direção à piscina. Logo em seguida, a outra alemã (uma linda loira de olhos azuis) saiu de um quarto de mãos dadas com um rapaz brasileiro de pele escura e corpo sarado, ambos em trajes de banho sensuais. “Wir gehen ins Schwimmbad”, disse a jovem, enquanto puxava seu par em direção à porta.

Aproveitando a oportunidade, o filho da socialite e sua namorada pediram licença e seguiram os outros casais até a piscina.

O professor foi conduzido pela sua anfitriã a um luxuoso quarto de hóspedes no segundo andar. Colocou a mala no chão, tirou a roupa e se deitou na cama para descansar.

O almoço foi servido na área da churrasqueira, próximo à piscina. O velho fazendeiro, sentado na ponta da mesa, mantinha um silêncio sepulcral. A esposa, ao contrário, não parava de falar. Contava que o filho havia conseguido uma bolsa de doutorado em Ciência da Informação na Universidade de Berlim com apenas 25 anos de idade, “e hoje trabalha em uma empresa de softwares em Frankfurt, onde ocupa um dos cargos mais importantes e mais bem remunerados do primeiro escalão dos executivos”; que ele morava em um apartamento enorme, no centro da cidade, para onde levaria a esposa, “essa linda moça que vocês estão vendo aqui”, quando se casassem; que ele conhecia toda a Europa e os Estados Unidos, e que estava planejando passar a Lua de Mel em Istambul, “uma das cidades mais lindas do mundo”; que além do alemão, falava inglês, francês e espanhol [pausa].

“Vocês estão gravando tudo?”, perguntou a socialite aos três colunistas sentados à mesa. “É claro que sim, querida”, responderam os três ao mesmo tempo. E ela continuou debulhando o rosário de qualidades do filho que, aos trinta e dois anos, parecia não ter mais para onde subir na vida. Até os colunistas, acostumados com esse tipo de gente, acharam o almoço cansativo. Os únicos que se divertiram de verdade e comeram de tudo várias vezes, se deliciando com as iguarias exóticas de uma farta mesa brasileira, foram os três alemães, que, para felicidade deles, não entenderam nada do que a mulher havia falado.

O filho manteve-se silencioso o almoço inteiro, como o pai, que às vezes dirigia ao rapaz um olhar sério e pensativo.

À tarde, todos se dispersaram, a maioria indo para o interior da casa, para uma soneca. O professor, ao contrário, resolveu dar uma volta a pé pela fazenda, para respirar um pouco de ar fresco e pensar na vida.

Ao se aproximar de um pequeno bosque, distante da casa uns trezentos metros, ouviu dois homens conversando em alemão. Eram o filho da socialite e o rapaz alemão que havia sido surpreendido beijando a brasileira de seios fartos no sofá da sala.

Sorrateiramente, o professor se escondeu atrás de uma árvore para ouvir a conversa.

O brasileiro estava tendo uma crise de ciúmes. O alemão tentava explicar, dizendo que só queria se divertir um pouco, que já não transava com mulheres havia um bom tempo, que aquilo não iria se repetir, etc. O outro parecia não acreditar, e andava de um lado para o outro, arrastando os pés sobre as folhas secas que cobriam o chão. Depois de uma pausa, o brasileiro falou, com voz firme: - Já sei o que eu vou fazer. Vou contar tudo para a minha mãe e para os colunistas amigos dela. Vou dizer toda a verdade: que a minha vida na Alemanha é uma merda; que morar na Europa ou nos Estados Unidos, depois de um tempo, é a mesma coisa que morar em qualquer outro lugar do mundo (é a mesma rotina, o mesmo tédio asfixiante); que eu fui demitido da empresa onde trabalhava por incompetência e não arrumo emprego em lugar nenhum; que o meu pai me sustenta até hoje, sem ninguém saber; que aquela linda moça com quem minha mãe acha que eu vou me casar é uma prostituta de luxo, estudante universitária, paga com o dinheiro do meu pai para vir ao Brasil fingir ser minha namorada; que a outra vagabunda ‘é a irmã desse meu amigo aqui’, uma chantagista sem vergonha que, para vir conosco sem pagar nada, ameaçou encontrar um tradutor em Frankfurt e escrever uma carta para a minha mãe contando que, além de idiota e fracassado, eu sou gay e tenho um caso com o irmão dela, um puto que até hoje não sabe se gosta de homem ou de mulher.

O alemão começou a rir. “Você vai matar a sua mãe; é isso que você quer?”, perguntou. O outro colocou as mãos na cabeça, em desespero, e respondeu: “Não, de jeito nenhum, eu... eu só estou confuso. Confuso e puto com você. Só isso”. Com as duas mãos o alemão segurou o companheiro pelos ombros e disse: “Olha para mim e me escuta. Primeiro nós curtimos o Brasil. Depois nós voltamos para Frankfurt e damos um jeito na nossa vida: você pára de cheirar cocaína, eu paro de beber e de ficar com mulheres, arrumamos empregos decentes e vamos morar juntos. Não vai ser legal?”. Depois de alguns segundos, o brasileiro acabou se deixando levar pela tranqüilidade do outro: “É, vai ser legal... vai ser muito legal, pode ter certeza”, disse.

Depois que os dois saíram, o professor ficou ainda meia hora atrás da árvore pensando no que acabara de ouvir.

Na sexta-feira de manhã, antes de ir para a academia, o professor abriu um dos jornais locais, que tinha acabado de chegar. No caderno Sociedade, viu uma página inteira com fotos do fim de semana na fazenda da rica socialite. Numa delas, viu os três alemães se divertindo na beira da piscina; noutra, a socialite beijando o filho no rosto; noutra, alguns jovens de biquíni e sunga jogando peteca; e noutra, a linda alemã de mãos dadas com o jovem brasileiro, doutor em Ciência da Informação, executivo de uma importante empresa alemã, que acaba de anunciar, para o próximo mês, o seu noivado com uma linda estudante universitária de Frankfurt.


Flávio Marcus da Silva

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Felicidade clandestina

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruiva­dos. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implo­rar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, na­dava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tran­qüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquan­to o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhe­ra para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Clarice Lispector, 1971

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Viúva na praia

Ivo viu a uva; eu vi a viúva. Ia passando na praia, vi a viúva, a viúva na praia me fascinou. Deitei-me na areia, fiquei a contemplar a viúva.

0 enterro passara sob a minha janela; o morto eu o conhecera vagamente; no café da esquina. A gente se cumprimentava às vezes, murmurando "bom dia"; era um homem forte, de cara vermelha; as poucas vezes que o encontrei com a mulher ele não me cumprimentou, fazia que não me via; e eu também. Lembro-me de que uma vez perguntei as horas ao garçom, e foi aquele homem que respondeu; agradeci; este foi nosso maior diálogo. Só ia à praia aos domingos, mas ia de carro, um "Citroen", com a mulher, o filho e a barraca, para outra praia mais longe. A mulher ia às vezes à praia com o menino, em frente à minha esquina, mas só no verão. Eu passava de longe; sabia quem era, que era casada, que talvez me conhecesse de vista; eu não a olhava de frente.

A morte do homem foi comentada no café; eu soube, assim, que ele passara muitos meses doente, sofrera muito, morrera muito magro e sem cor. Eu não dera por sua falta, nem soubera de sua doença.

E agora estou deitado na areia, vendo a sua viúva. Deve uma viúva vir à praia? Nossa praia não é nenhuma festa; tem pouca gente; além disso, vamos supor que ela precise trazer o menino, pois nunca a vi sozinha na praia. E seu maiô é preto. Não que o tenha comprado por luto; já era preto. E ela tem, como sempre, um ar decente; não olha para ninguém, a não ser para o menino, que deve ter uns dois anos.

Se eu fosse casado, e morresse, gostaria de saber que alguns dias depois minha viúva iria à praia com meu filho — foi isso o que pensei, vendo a viúva. É bem bonita, a viúva. Não é dessas que chamam a atenção; é discreta, de curvas discretas, mas certas. Imagino que deve ter 27 anos; talvez menos, talvez mais, até 30. Os cabelos são bem negros; os olhos são um pouco amendoados, o nariz direito, a boca um pouco dentucinha, só um pouco; a linha do queixo muito nítida.

Ergueu-se, porque, contra suas ordens, o garoto voltou a entrar n'água. Se eu fosse casado, e morresse, talvez ficasse um pouco ressentido ao pensar que, alguns dias depois, um homem — um estranho, que mal conheço de vista, do café — estaria olhando o corpo de minha mulher na praia. Mesmo que olhasse sem impertinência, antes de maneira discreta, como que distraído.

Mas eu não morri; e eu sou o outro homem. E a idéia de que o defunto ficaria ressentido se acaso imaginasse que eu estaria aqui a reparar no corpo de sua viúva, essa idéia me faz achá-lo um tolo, embora, a rigor, eu não possa lhe imputar essa idéia, que é minha. Eu estou vivo, e isso me dá uma grande superioridade sobre ele.

Vivo! Vivo como esse menino que ri, jogando água no corpo da mãe que vai buscá-lo. Vivo como essa mulher que pisa a espuma e agora traz ao colo o garoto já bem crescido. 0 esforço faz-lhe tensos os músculos dos braços e das coxas; é bela assim, marchando com a sua carga querida.

Agora o garoto fica brincando junto à barraca e é ela que vai dar um mergulho rápido, para se limpar da areia. Volta. Não, a viúva não está de luto, a viúva está brilhando de sol, está vestida de água e de luz. Respira fundo o vento do mar, tão diferente daquele ar triste do quarto fechado do doente, em que viveu meses. Vendo seu homem se finar; vendo-o decair de sua glória de homem fortão de cara vermelha e de seu império de homem da mulher e pai do filho, vendo-o fraco e lamentável, impertinente e lamurioso como um menino, às vezes até ridículo, às vezes até nojento...

Ah, não quero pensar nisso. Respiro também profundamente o ar limpo e livre. Ondas espoucam ao sol. O sol brilha nos cabelos e na curva de ombro da viúva. Ela está sentada, quieta, séria, uma perna estendida, outra em ângulo. 0 sol brilha também em seu joelho. O sol ama a viúva. Eu vejo a viúva.

Rubem Braga, 1958

Trinta e três

De todos os lugares que freqüentava, seus preferidos eram as padarias e as farmácias.

Na melhor padaria da cidade ele adorava jogar conversa fora com as funcionárias e experimentar os maravilhosos quitutes que eram preparados todos os dias para o deleite de uma clientela assídua e exigente: bolos recheados com goiabada e doce de leite; tortas de frango e palmito com creme de milho; bolachas de limão, laranja e nozes com cobertura de chocolate; pudins de pão com canela; biscoitos de queijo e polvilho temperados com pimenta e ervas; rosquinhas de nata, e vários tipos de pães e salgados.

Era jovem, bonito, de aspecto saudável, mas seu índice de massa corporal indicava um excesso de vinte quilos de gordura, concentrados principalmente na barriga e na bunda.

Sua profissão: dentista. Odiava. Só trabalhava no turno da manhã para mostrar aos parentes e amigos que ele não era apenas um gordo inútil que vivia de mesada. O pai havia sido um grande empresário do setor metalúrgico. Morreu em um acidente de helicóptero aos setenta e sete anos, deixando as duas siderúrgicas que possuía para os três filhos homens. Os dois mais velhos, porém, não queriam que “o gordo” se metesse nos negócios da família e propuseram a ele uma boa mesada, desde que ficasse longe das empresas. Ele concordou com a proposta e continuou exercendo sua profissão de dentista pela manhã, sem se preocupar com a renda irrisória que aqueles poucos pacientes lhe proporcionavam.

Às vezes, nos enormes intervalos entre um paciente e outro, ele entrava no banheiro do consultório e se masturbava loucamente, folheando algumas das dezenas de revistas pornográficas que mantinha escondidas no armário, atrás da caixa de luvas descartáveis. Por volta das dez da manhã, saía para comer alguma coisa na lanchonete da esquina, quase sempre uma coxinha de frango ou uma empada de queijo com refrigerante. No almoço, por volta de meio-dia, saciava seu apetite de elefante no melhor restaurante de comida a quilo da cidade, onde ingeria o suficiente para sustentar uma pessoa franzina por duas semanas. Ao sair do restaurante, com os gases do estômago se preparando para forçar passagem pelo esôfago, pensava no que iria comer às três da tarde, sozinho, em seu apartamento.

Na farmácia, seu maior passatempo era ler e estudar a composição dos remédios.

Toda vez que renovava seu estoque de medicamentos contra gripes e resfriados, selecionava várias cartelas de comprimidos, comparava uma marca com a outra, analisando a composição química, a posologia e as contra-indicações, mas quase sempre levava a que tivesse maior concentração de cloridrato de fenilefrina – pois a experiência o havia mostrado que quanto maior a quantidade desse componente no comprimido, mais rápido o seu nariz se desobstruía. Gostava também de analisar os medicamentos contra flatulência, azia e dor de cabeça, levando sempre aqueles que tivessem maior concentração deste ou daquele componente, pela sua ação mais eficaz, já comprovada.

Quase todas as noites ele tomava um ou dois comprimidos contra flatulência, tirava a roupa, deitava-se na enorme cama King Size do seu quarto e expelia com força os gases do seu intestino. Em alguns meses do ano, costumava fazer testes com diversas marcas desse tipo de medicamento, durante uma semana inteira, contando o número de peidos por hora e registrando com cruzinhas em uma folha de papel a intensidade e a duração de cada um. No sábado, quando ia à farmácia, comprava o remédio que tivesse em seu currículo maior número de peidos de alta potência, o que, para ele, indicava maior eficácia do medicamento.

Para a insônia, tomava um comprimido por dia, receitado por sua psiquiatra, que o aconselhava ao final de cada consulta a procurar um analista para “um tratamento sério”, pois “você precisa de outro tipo de ajuda, urgentemente”. Ele dizia que seguiria o conselho, pegava a receita e ia embora.

Nunca procurou um analista.

Aos domingos, procurava a mãe de sessenta e oito anos, que além de deitar a cabeça dele no colo, afagar seus cabelos e lhe dar conselhos, deixava que ele trouxesse a roupa suja para ser lavada junto com a dela toda semana.

Ao chegar à casa da mãe, depois de abraçá-la calorosamente, ia direto para a geladeira, onde sempre encontrava um pudim de leite condensado ou um manjar branco com ameixas pretas e calda de caramelo. No último domingo, enquanto ele comia, a mãe contava que a filha de um conhecido deles ia fazer intercâmbio na França e que um rapaz francês chegaria em breve e ficaria na casa dos pais dela. “Grande coisa”, disse ele, com a boca cheia. “Imagina o tanto de gente metida se achando o máximo que vai ficar encima desse coitado, puxando o saco dele”. A mãe riu, e ele continuou: “E vão tirar fotos dele, exibi-lo nas colunas sociais, nas festas chiques e eventos VIPs da City..., a maior chatice do mundo, a senhora vai ver”.

Levantou-se da mesa e dirigiu-se até a sacada do apartamento. Ali, debruçou-se sobre o parapeito e observou o trânsito na rua. Era carro que não acabava mais. Na praça da igreja, o movimento de fiéis saindo da missa era intenso. Olhou para o céu escuro, sem estrelas, e pensou na sua trajetória de vida, desde 1976, quando nasceu, até aquele momento, na casa da mãe, às vésperas de completar trinta e três anos.

Não demorou muito. Enxugou com as mãos as lágrimas que escorriam pelo seu rosto e foi até a sala, onde a mãe assistia a um filme francês na TV a cabo: Le Scaphandre et le Papillon. "Você devia aprender francês", disse ela ao filho, concentrando-se na cena em que um tetraplégico era submetido à sua primeira sessão de fisioterapia. "É tão bonito!".

Flávio Marcus da Silva

Rotina

Todos os dias pela manhã o professor de alemão ia à academia para se exercitar. Enquanto caminhava na esteira, no mesmo horário de sempre, ele observava pela janela o jovem bancário que morava em frente sair, feliz da vida, para o trabalho. “Será que ele é tão feliz assim quanto parece?”, pensava o professor, cada dia mais interessado na vida daquele moço de trinta e poucos anos que, de segunda a sexta, exatamente às dez e trinta da manhã, dava um beijo na esposa e saía caminhando em direção ao banco onde trabalhava.

Ao sair da esteira, naquele dia, o professor notou que o rapaz barbudo que usava marca-passo já tinha chegado e conversava com a faxineira, próximo às bicicletas ergométricas, certamente tentando convencê-la, pela milésima vez, a parar de fumar. Por causa da doença no coração, esse rapaz era aposentado pelo INSS, mas não via qualquer problema em passar as manhãs se exercitando nos aparelhos e praticando luta livre com os amigos. Ele era muito popular. Conhecia todos os freqüentadores da academia e adorava se meter nas conversas dos outros, quase sempre com opiniões contrárias às da maioria e muito polêmicas. Era um jovem diferente. Gostava de música clássica e de rock alternativo; lia Nietzsche, Foucault e Sartre; estudava o uso das ervas medicinais e sabia tudo sobre alimentação natural, pois era vegetariano de carteirinha. Na academia, só usava roupa surrada e chinelo de dedo. Mantinha a barba e o cabelo grandes e ensebados de propósito, só para irritar os mais sensíveis. Adorava discussões, sobretudo com boyzinhos e filhinhos de papai, “a maioria escravos do dinheiro vivendo num mundo em que o homem, se não for rico, precisa pelo menos parecer sê-lo”, costumava dizer.

Um dia, o rapaz apareceu na academia com a barba feita e o cabelo cortado bem curto. “Hoje vou ao médico”, disse ele ao professor, que andava na esteira em trote acelerado, poucos minutos depois do jovem bancário ter saído para o trabalho. "Vai?", perguntou o professor, ofegante. O rapaz balançou a cabeça em sinal de afirmação, sorriu e continuou: "Você quer ver meus exames?”. O homem não queria ver nada, mas diminuiu a velocidade da esteira e, sem reclamar, começou a ler as folhas que o outro lhe entregava, uma a uma. “Excelente”, disse o professor ao devolver os papéis.

O rapaz tinha vinte e seis anos e parecia bastante saudável, a julgar pelos números que atestavam a qualidade do seu sangue e da sua urina. “Hoje o médico vai trocar a bateria do meu marca-passo”, disse ele, melancólico. “Pelo jeito”, continuou em tom de lamento, “não vou passar dos trinta”. O professor parou a esteira e olhou bem nos olhos do rapaz: “Não diga bobagem”.

Naquela noite, o professor ficou até tarde na internet investigando alguns sintomas de doenças cardíacas que poderiam levar à implantação de um marca-passo. Não sentia nenhum deles, mas precisava ter a certeza de que, às vésperas de completar quarenta anos, não tinha nada de errado com o seu coração. A estratégia seria descrever para o médico, com detalhes, sintomas bem específicos, para ele ficar na dúvida e pedir um exame mais sofisticado (“e os médicos quase sempre ficam na dúvida, pedindo exames e mais exames, só para descartar a hipótese de algo mais grave’”). Como sintoma principal, o professor escolheu as palpitações. “Vai ser fácil”, pensou. Contrações prematuras seguidas de uma pausa prolongada. “Tranqüilo”. Sentem-se sob a forma de agitação irregular ou batimentos no peito, às vezes acompanhados de uma sensação breve, mas alarmante, de que o coração deixa de bater. “É uma coisa esquisita, doutor”, começou a treinar, na frente do espelho. “Meu coração está batendo normalmente e de repente eu sinto como se ele engasgasse e parasse de bater”.

Desligou o computador e foi dormir. “Amanhã eu marco uma consulta”, disse para si mesmo, e apagou a luz.

Ao chegar à academia, no outro dia, o professor recebeu a notícia de que o rapaz com marca-passo tinha falecido no consultório do cardiologista, sem que nada pudesse ser feito para salvá-lo. O clima era de muita tristeza. “Dizem que o coração dele parou no momento em que o médico começava a trocar a bateria”, comentava uma amiga do rapaz que, com lágrimas nos olhos, esperava o pessoal que iria com ela ao velório. “Ele não tinha nem trinta anos”, disse um outro amigo, também consternado. “Tinha vinte e seis”, disse o professor em estado de choque. E sussurrou para si mesmo: “... eu vi nos exames dele, ontem...”. Ao dizer isso, foi para a calçada e presenciou, mais uma vez, a despedida do bancário de trinta e poucos anos. Fechou os olhos e recitou em voz alta o trecho de um poema de Adélia Prado: “é seu próprio gosto em Ter uma família, amar a aprazível rotina”.

Respirou fundo, pôs a mão direita sobre o lado esquerdo do peito e sentiu, pela primeira vez na vida, uma palpitação.

"Mein Gott!".

Flávio Marcus da Silva

Morte súbita

A médica cardiologista examinava uma senhora de cinqüenta e dois anos, professora de literatura na rede municipal de ensino, sem saber que as duas haviam sido colegas de colégio. A professora, no entanto, lembrava-se muito bem daquela mulher madura que, com olhar atento, examinava o resultado do eletrocardiograma, mas não se surpreendeu por não ter sido reconhecida. Pertenciam a mundos diferentes.

A professora havia sido uma adolescente pobre e feia. Seu pai, um caminhoneiro, e sua mãe, uma costureira, mal ganhavam o suficiente para dar de comer aos cinco filhos e pagar o aluguel do barracão onde moravam. Ela era a mais velha, adorava ler e escrever, e por caridade das freiras que administravam o colégio particular, havia conseguido uma bolsa de estudos integral por quatro anos.

Foi uma das piores épocas da sua vida, um verdadeiro martírio. Na sala de aula ou no pátio, ficava sempre sozinha, pois como não era popular entre os garotos, também era desprezada pelas meninas, que fugiam dela como de um cão sarnento, temendo que a sua feiúra espantasse o sexo oposto.

Ao contrário, a médica era de família rica, daquelas que têm sobrenomes importantes, que abrem portas só de serem pronunciados. Havia sido uma adolescente de beleza estonteante, disputada pelos rapazes mais bonitos, filhos dos clãs mais ricos e influentes da cidade. Chegava ao colégio sempre de carro, conduzido pelo motorista da família, uniformizado e elegante, que, com reverência e submissão, abria a porta para ela todos os dias.

Ao reviver esse passado, a professora ainda conseguia ouvir os gritinhos e risinhos estridentes daquele grupo de amigas ricas que, durante o recreio, andavam sempre de mãos dadas, lindas e cheirosas, enquanto ela ficava pelos cantos lendo contos de mistério ou poemas de amor e solidão.

Ao se sentar na confortável cadeira de couro marrom e olhar para o rosto sério da médica do outro lado da mesa, a professora deu um suspiro profundo e se preparou para ouvir, com satisfação, a confirmação do que ela já desconfiava. “Sua saúde não está nada boa”, disse a médica, folheando, mais uma vez, os inúmeros exames à sua frente: colesterol, triglicérides, glicose, teste ergométrico, ecocardiodoppler, eletrocardiograma, mapa, etc. “Se a senhora não se cuidar, não viverá mais do que dois ou três anos”.

É claro que ela não ia se cuidar, pois não agüentava mais viver. Quase perguntou para a médica se com um descuido extra ela não conseguiria reduzir aquela expectativa um pouco mais. "Um ano seria o ideal", pensou.

Educada na tradição católica, a professora sempre achou a idéia do suicídio odiosa, mas não via como pecado o simples desleixo em relação à sua saúde. “Os seus exames de sangue e de pressão estão péssimos”, continuou a médica, “e a senhora ainda tem um defeito congênito na valva mitral, o que certamente é a causa dessa horrível falta de ar”. A médica abriu mais uma vez a pasta com o resultado do ecocardiodoppler. “Seu coração não está bom”, afirmou baixinho, e acrescentou, olhando nos olhos da professora: “A senhora pode ter uma morte súbita a qualquer momento”.

Era isso que ela queria ouvir. Morte súbita. A melhor morte. Vem de uma vez, numa ceifada só. E enquanto a médica dava todas as recomendações possíveis e receitava remédios que jamais seriam comprados, a mente da professora vagava por campos de trigo distantes, perdidos no tempo e no espaço, em épocas de colheita. Conseguia até ouvir o som das foices e a respiração ofegante dos trabalhadores. “De uma vez só”, pensava a moribunda, com um leve sorriso nos lábios.

Saiu do consultório com a certeza de que nunca mais veria aquela médica.

E assim foi.

Dois anos depois, ao ligar o rádio no noticiário local, a professora ouviu estarrecida a notícia da morte da renomada médica cardiologista. Morte súbita, saindo do consultório, aos cinqüenta e quatro anos de idade. Não dava para acreditar. “Ela foi primeiro que eu, a bandida!”, gritou a professora, desligando o rádio com um safanão.

Ao caminhar pela avenida em direção à escola municipal, onde daria duas aulas sobre Adélia Prado para as turmas do 3º ano, a professora viu o luxuoso cortejo fúnebre de carros importados subindo, lentamente, a rua do cemitério. “Vá com Deus, querida”, disse em voz alta. “Espero que nos encontremos em breve”.

Vinte anos depois, com setenta e quatro anos, a velha professora de literatura aposentada caminhava entre os túmulos do antigo cemitério, com a mesma falta de ar de sempre. De repente, viu-se diante do mausoléu onde estava enterrada sua ex-colega de colégio, ex-renomada médica cardiologista, pertencente à ex-família rica e influente da cidade. Olhou com inveja para o nome e o sobrenome gravados em metal dourado sobre o mármore preto, e chorou muito, até soluçar, pensando no seu próprio sofrimento, na sua própria dor.

Flávio Marcus da Silva

Álbum de fotos

O homem folheava o velho álbum de fotos da avó, enquanto sorvia goles de um café bem forte, passado na hora, em coador de pano, especialmente para ele. Estava feliz naquela tarde fria de sábado, com o coração cheio de gratidão pelo irmão mais velho, que lhe havia trazido, pela manhã, aquela relíquia fotográfica (de que ele tanto gostava) e uma caixa de bombons amargos suíços, um dos poucos vícios saudáveis que tinha.

Ao virar uma das folhas do álbum, deparou-se com a única foto que conhecia de sua velha e corcunda bisavó, mãe de seu avô. Ela estava sentada em uma cadeira de balanço, em um quarto de assoalho de madeira e teto sem forro da antiga “Casa da rua”, onde havia passado os cinqüenta e cinco anos de casada e os vinte de melancólica e triste viuvez. Ela segurava um pequeno oratório de madeira do século XIX, que mostrava, em seu interior, uma bela imagem de Nossa Senhora da Conceição, também dos Oitocentos.

Naquela casa, o piso era todo de madeira. O homem se lembrava que, quando era criança, costumava se deitar no chão de um dos quartos e observar, por um buraco aberto no assoalho, o irmão mais velho e o primo brincarem no porão. Via-os misturarem diversos tipos de folhas com água e querosene, para jogar nos formigueiros; fazerem bolos e pães com barro e esterco de cavalo, para brincar de venda; amarrarem barbante em pardais e rolinhas, para soltar e depois puxar; urinarem em latinhas, para jogar nas meninas que brincavam de casinha no quintal; brigarem, como faziam os lutadores da TV, para ver quem sangrava o outro primeiro.

O bisavô era comerciante e tocava uma venda de secos e molhados na frente da casa. Mas disso ele não se lembrava, pois quando nasceu, o velho já tinha morrido. Só se recordava dos casos que o avô e os tios contavam dele: de como era carrancudo e mal-humorado, mas excelente negociante; de como abria as portas da casa para famílias pobres inteiras poderem pernoitar antes de seguirem viagem, sem cobrar nada; de como havia fundado uma associação de caridade, para ajudar os mais necessitados; de como foi aos poucos perdendo o juízo; e de como morreu, aos 92 anos, sem se lembrar do próprio nome.

Em outra folha do álbum, o homem se viu em uma foto, tirada quando tinha sete anos, junto com seu irmão mais velho, de dez anos. Estavam em pé, do lado de fora da casa da bisavó. A mãe deles aparecia na janela, com o rosto virado para o interior e uma das mãos levantada, aparentemente conversando com alguém. Na foto, ele vestia uma camisa branca de algodão e uma bermuda escura, muito larga, amarrada com barbante, para não cair. Usava também um par de congas amarelas que, brilhando ao sol, pareciam esconder dois pés pequenos e frágeis. O irmão mais velho vestia a mesma coisa, só que com uma diferença: estava todo sujo. A camisa tinha manchas de barro e sangue; na bermuda, em meio à sujeira que se notava sobre o pano escuro, havia manchas claras, amarronzadas ou esverdeadas, que tanto podiam ser de catarro seco quanto de lama; e o par de congas nem se via direito, de tanta imundície. “Aqui estão o príncipe e o mendigo”, já disseram no passado algumas pessoas, ao abrirem o velho álbum da avó naquela mesma página.

O “príncipe” era o xodó da família, mas não podia ser diferente: pedia a benção ao papai e à mamãe, ao vovô e à vovó, ao padrinho e à madrinha. Quando ganhava um presente, agradecia, com um aperto de mão para os homens, ou com um abraço e um beijo para as mulheres. Conversava educadamente, sem gritar, e ao sair de qualquer lugar, despedia-se de todos os presentes, um por um. Brincava e depois guardava os brinquedos nas caixas, com muito cuidado, para não quebrar nada. Ao começar a ler, passou a colecionar livrinhos com as mais diversas historinhas. Lia todos os dias. Na escola, em quase todos os bimestres ele ganhava medalha de primeiro lugar pelas suas notas. Na adolescência, nunca ia a festas, nem saía com os colegas nos finais de semana. Só pensava nos estudos e na carreira de juiz que queria seguir depois de formado.

O irmão mais velho era o contrário. Não cumprimentava ninguém, vivia sujo, gritava o tempo todo, quebrava todos os brinquedos que ganhava, detestava ler e estudar. Na infância, só se preocupava com as brincadeiras e maldades que inventava, junto com o primo; e na adolescência, com festas, garotas, bebidas e carros. Não queria fazer faculdade. Dizia que, quando tivesse condições, montaria um lava-jato e viveria disso o resto da vida.

O homem fechou o álbum pensando no irmão mais velho, que fazia 39 anos naquele sábado. Sua esposa e os três filhos dariam uma festa para ele no sítio, onde receberiam a família, os amigos e todos os funcionários dos três lava-jatos que possuía na cidade.

De repente, o homem ficou melancólico. Precisava tomar o seu remédio.

Levantou-se, com o álbum de fotos e a caixa de bombons nas mãos, e atravessou o pátio, à procura da enfermeira. Encontrou-a assistindo televisão na sala de estar, ao lado de dois outros jovens viciados, recém-chegados ao estabelecimento. Os dois estavam péssimos, tremendo dos pés à cabeça, com os olhos esbugalhados e vermelhos, mas podiam se considerar de sorte, pois não era qualquer um que tinha condições de pagar uma fortuna por mês na melhor clínica de desintoxicação para viciados em drogas do país.

O homem se sentou em uma das poltronas da sala, em frente à TV, e gritou: “Enfermeira”. Todos na sala olharam para ele. “Preciso do meu remédio AGORA”. A enfermeira olhou o relógio. “Ainda não está na hora, doutor”, disse ela, calmamente. “Ah, dessa vez a vadia se lembrou do doutor”, pensou o homem, satisfeito. “Muito bem”, murmurou para si mesmo e continuou: “Essas pessoas têm que entender que não é porque a minha vida é uma desgraça que eu deixei de ser doutor”.

E, de repente, o homem se levantou num salto, gritando: “E que ninguém se esqueça disso, entenderam?”. Jogou a caixa de bombons na parede com toda a força e apontou o dedo para um grupo de pacientes à sua direita: “Você, você e você, desgraçados, quem vocês pensam que são?”. Deixou o álbum cair no chão, enquanto um forte tremor tomava conta de todo o seu corpo. “Que ninguém se esqueça de quem eu sou! Malditos! Desgraçados! Onde estão vocês? Onde estão vocês?”.

A enfermeira se levantou e foi correndo buscar o médico. “Acho que vamos precisar da injeção de novo, doutor".

Flávio Marcus da Silva

Espasmos

O marido se olhava no espelho, ajeitando com uma escovinha os pêlos escuros do seu cavanhaque recém-aparado. Sorriu para si mesmo, feliz e confiante diante da imagem de um homem jovem, bonito, bem vestido e bem sucedido.

A esposa o olhava de longe, sem que ele percebesse, pensando na sorte que dera ao se casar com um dos homens mais ricos da cidade. Vivia em um bairro chique, de gente muito rica e importante, em uma enorme mansão, onde uma governanta e três empregadas cuidavam de todos os afazeres domésticos, e duas babás ficavam por conta dos dois filhos pequenos do casal: o mais velho, com dois anos, e o caçula, com oito meses.

Era quinta-feira à noite e as babás já tinham chegado. O casal ia se encontrar com alguns amigos em um sofisticado restaurante italiano, a última novidade no seleto mundo dos ricos da cidade. Para ela não passava de mais uma noite, de mais um encontro enfadonho com o mesmo grupo de gente fingida e invejosa que a cercava e a sufocava desde o dia do seu casamento, quando passou a fazer parte oficialmente do fechadíssimo círculo de amizades do marido. Eram empresários, médicos, engenheiros, advogados, promotores e políticos, mas também pessoas que, embora não fossem nada disso, eram consideradas da High Society pelos colunistas sociais da City: frequentavam os mesmos ambientes, tinham as mesmas roupas, os mesmos carros, os mesmos perfumes, os mesmos celulares, os mesmos ares de importância...

Ela adorava ler as colunas sociais dos três jornais locais, para se divertir com as mentiras e exageros dos colunistas que, muitas vezes, com seus superlativos, mascaravam realidades verdadeiramente sombrias: depressão, solidão, pânico, violência e medo. "Por trás de um sorriso de estrela de cinema, de um penteado que levou horas para ficar pronto e de uma maquiagem caríssima, podem se esconder dores terríveis", pensava. Ela bem sabia disso, pois sempre analisava suas próprias fotos nos jornais. Notava, com interesse, que na maioria das vezes em que era retratada como a mulher mais feliz do mundo, em fotos belíssimas, em que aparecia jovem e linda, abrindo para as câmeras sorrisos encantadores, sua alma era a dor mais pura que podia existir, e sua vontade, naquelas ocasiões, era de se esconder em um canto escuro do salão e chorar bem alto, até ficar sem voz. Ela sabia fingir. Ninguém parecia notar.

Naquela quinta-feira, porém, a esposa de um jovem e rico engenheiro, sentada bem à sua frente no restaurante, notou em seu olhar um leve traço de amargura e tristeza. No fundo, era uma sensação de desamparo e solidão, um vazio que ela tentava inutilmente preencher no dia-a-dia cuidando do corpo em academias, salões de beleza e clínicas de estética; fazendo compras no Shopping; tendo aulas de pintura, bordado, música, teatro... Ao fim do dia, seu marido chegava em casa e a encontrava linda e perfumada, pronta para recebê-lo na cama com seu membro em riste (pelo menos quando não voltava muito cansado e estressado do trabalho, desculpa habitual para as cada vez mais freqüentes broxadas).

Os assuntos no restaurante eram os mesmos de sempre: viagens ao exterior, filhos inteligentíssimos, carros possantes, empresas e negócios em ascensão, reformas de mansões e apartamentos, jantares e festas espetaculares, casamentos cinematográficos e, é claro, as desgraças dos outros (sempre dos outros).

A jovem esposa sentiu um leve mal-estar, notado apenas pela mulher do engenheiro, que não tirava os olhos dela e pensava: “Ela não vai agüentar”. Ninguém percebeu, mas o mal-estar aumentou, suas mãos começaram a tremer e uma gota de suor frio percorreu sua testa, passou pelo nariz e caiu bem dentro do prato, onde os restos de uma massa italiana de aspecto estranhíssimo permaneciam ainda quentes após três ou quatro garfadas.

Um ou dois minutos depois, a mulher do engenheiro perguntou: “Você está bem?”. Ao ouvir a pergunta, a jovem e bela esposa do também jovem e belo empresário colocou ambas as mãos sobre a borda da mesa e, com pernas trêmulas, inclinou levemente o corpo para frente, como se preparasse um salto. Porém, antes de conseguir completar o movimento, sentiu dois violentos espasmos percorrerem suas entranhas, paralizando-a. Nesse mesmo instante, trancou os dentes - uma última tentativa de evitar a tragédia -, mas não adiantou: a mulher aspergiu o repugnante conteúdo de seu ventre em agonia sobre toda a platéia. Até o promotor sentado à sua direita e a advogada à sua esquerda receberam sua parte, atônitos, estarrecidos.

Na semana seguinte, nenhum jornal da cidade comentou o fato.

Flávio Marcus da Silva

Qualquer um

O homem de meia-idade saiu da reunião enfurecido, com os olhos cheios de ódio. “Como ousam?”, pensou em voz alta, ao colocar a pasta repleta de documentos no banco de couro do seu luxuoso carro importado.

Com a luz do carro acesa, fitou pelo retrovisor seus enormes olhos avermelhados. Sentiu que algo pulsava em seu crânio, fazendo tremer a imagem das duas esferas injetadas de sangue refletidas no pequeno espelho à sua frente. “Minha pressão”, pensou, respirando fundo, e instintivamente procurou no bolso do paletó uma cartela de comprimidos que não estava ali.

Passou a mão direita pelo rosto suado até chegar ao pescoço, também molhado. Deslizou-a lentamente pelo peito, até sentir com as pontas dos dedos a enorme barriga, inflada por anos de dieta desregrada e sedentarismo. “Quem eles pensam que são?”, gritou alto, olhando para o prédio à sua frente. O homem estava indignado. Não conseguia entender por que o tratavam como se fosse qualquer um, quando todos lá fora o reverenciavam como a um Deus, pelo cargo que ocupava, pelo patrimônio que ostentava e pelo poder que exercia sobre políticos, empresários, jornalistas e outras pessoas influentes na cidade. Não podia tolerar mais o mesmo tratamento que era dado aos seus colegas inferiores, aliado a uma insuportável indiferença em relação às críticas e deboches que ele lançava (de forma cada vez mais agressiva) contra a empresa e seus dirigentes.

Bateu a porta do carro com a fúria de um rinoceronte velho acuado e arrancou em alta velocidade. Ao chegar em casa, preparou uma dose de whisky sem gelo, ligou a televisão da sala e desabou sobre o sofá.

Dormiu, mas não acordou.

No velório, angustiosas coroas de flores lotaram a sala onde estava o caixão (e muitas outras foram depositadas do lado de fora). Até o passeio público ficou repleto de funestos e maciços arranjos de pano roxo e fitas negras, obrigando os pedestres a se desviarem, indiferentes ao corpo que, lá dentro, ao final da tarde, em pleno verão, já começava a cheirar mal.

Políticos, executivos, advogados, juízes, médicos e empresários entraram e saíram do velório o dia todo. Muitos ficaram para o enterro e prestaram ao morto uma contida e reverente homenagem, quase sem lágrimas.

Terminada a cerimônia, poucos minutos depois da última pá de terra cair sobre o caixão, todas as pessoas que haviam permanecido até a hora do enterro, por respeito, educação, interesse ou genuíno sentimento de perda, já se encontravam de volta à sua rotina, preocupadas com o dia seguinte, com seus próprios problemas...

...como qualquer um.

Flávio Marcus da Silva

Vulcão

O rapaz tinha pouco mais de vinte anos. A mulher acabava de passar dos trinta, mas com o frescor e a sensualidade dos vinte, apesar da experiência de um casamento mal-sucedido com um empresário do ramo de transportes.

Para o rapaz, aquele era o namoro ideal. Ela tinha recebido a metade dos bens do casal, que eram a casa em que morava com a filha de cinco anos, e seis caminhões, mantidos sempre na estrada, o que lhe garantia uma boa renda. Ela pagava as contas nos restaurantes, bares, danceterias e motéis; era no carro dela que os dois saíam todo final de semana, enquanto a filha ficava com o pai, com a ex-sogra ou com a babá; ela tinha um corpo maravilhoso e fazia sexo melhor que qualquer outra menina com quem ele já tinha saído. Estava no paraíso.

Um dia, porém, o rapaz percebeu que o ex-marido de sua namorada o perseguia. No início pensou que fosse apenas uma sucessão de coincidências; mas logo viu que aquele tipo robusto de trinta e poucos anos o encarava demais, sempre com ar ameaçador, toda vez que se sentava em uma mesa próxima à deles nos restaurantes, ou cruzava com os dois na porta de uma danceteria. Achava aquilo estranho. Às vezes o homem estava sozinho; outras vezes, via-o acompanhado de mocinhas recém-saídas da adolescência, muito bonitas e bem vestidas; mas para o rapaz não havia a menor dúvida: o alvo principal das atenções do empresário, enquanto se divertia com as meninas, era ele.

Em uma noite quente de verão, quando estava na casa da namorada esperando-a terminar de se arrumar para saírem, o rapaz resolveu quebrar o silêncio e confessar a ela os seus temores. “E se ele me matar?”, gritou desesperado, enquanto a mulher secava os cabelos ouvindo uma velha coletânea de músicas sertanejas no banheiro da suíte. “Não se preocupe”, disse ela sorrindo. “Meu ex-marido é um doce”.

O rapaz ficou sem entender, mas não protestou nem exigiu explicação. Ficou parado na porta, vendo-a desligar o secador, aumentar o volume do som, segurá-lo pela gola da camisa e puxá-lo de encontro ao seu corpo nu. “Vamos para a cama”, disse ela, empurrando-o em direção ao quarto.

Ao entrar no aposento, feliz com a perspectiva de uma transa rápida antes de sair, o rapaz tremeu dos pés à cabeça ao ver que os dois não estavam sozinhos. Com as costas apoiadas na porta fechada, descalço, sem camisa e usando uma calça jeans surrada, lá estava ele: o ex-marido da namorada.

Porém, o pânico do rapaz durou apenas alguns segundos, pois ao encarar o homem nos olhos, percebeu imediatamente que ele não queria matar ninguém. Viu também que a mulher estava tranqüila, mas com um brilho diferente no olhar, o que parecia indicar uma excitação fora do comum.

Em poucos segundos, o rapaz entendeu o que estava acontecendo. Nunca havia experimentado aquilo antes, mas resolveu se entregar.

Enquanto o ex-marido se aproximava lentamente e a mulher empurrava o corpo submisso do rapaz pelo quarto, em direção à cama, uma forte chuva desabava sobre a cidade, em meio a raios e trovões assustadores.

Durante o resto da sua vida, casado com outra mulher e vivendo na capital, o marido exemplar que aquele rapaz havia se tornado, ao se lembrar daquela noite de loucuras, era sempre tomado pela imagem de um vulcão expelindo lavas incandescentes. No seu leito de morte, cercado pelas atenções da esposa e dos filhos, ele ainda sentia um forte calor a lhe percorrer a espinha toda vez que se lembrava daquele casal de desejos insaciáveis. Sempre que lhe vinham à mente as cenas daquela inesquecível experiência de juventude, ele sussurrava para as paredes, como que procurando algo que sustentasse o peso da sua culpa: “Perdão meu Pai, perdão”.

Flávio Marcus da Silva