sábado, 15 de novembro de 2008

Cultivador

Confesso que eu não sou um bom cultivador. Há alguns anos eu plantei muitas sementes no meu campo. Algumas delas germinaram e deram origem a uma vigorosa e farta vegetação; outras se transformaram em ervas daninhas, que logo lançaram suas ramas assassinas por entre as outras plantas e nelas introduziram seu veneno letal. Tive muito trabalho para livrar meu campo do poder destruidor dessas raízes, caules e folhas, que pareciam querer arruinar um espaço planejado para ser um lugar de descanso, reconforto e harmonia. Depois de muita luta, consegui fazer crescer mais uma vez nas minhas terras o belo manto verde que costumava cobri-las. Mas de repente resolvi me entregar de corpo e alma a uma outra planta, que crescia em outro lugar, e a um outro trabalho, o de historiador. Quando não estava lendo documentos do passado, desenterrando homens e mulheres que um dia viveram nestas Minas, eu cuidava da minha pequena companheira, como se ela fosse o bem mais precioso que eu tinha. Deixei um pouco de lado o meu campo e, como consequência, a maior parte das verdes folhas que o cobriam morreram. Para meu espanto, porém, umas duas ou três ramas permaneceram vivas, ainda que com poucas folhas e já bastante enfraquecidas pelo descaso. Não sei se elas vão agüentar, já que eu as deixo sem água e logo novas ervas daninhas podem aparecer. Eu não quero perdê-las, mas também não faço nada para que isso não aconteça, porque, como já disse, eu sou um mal cultivador. Mas ser um mal cultivador de plantas é uma característica minha, embora um amor muito forte me faça cuidar bem daquela outra que cresce não muito longe daqui. Eu amo todas as minhas plantas e não quero perdê-las, mas me nego a ser um bom cultivador; não porque dá trabalho, mas porque eu definitivamente não domino muito bem essa arte.

Belo Horizonte, 02 de outubro de 2000

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