domingo, 27 de junho de 2010

A man saw a ball of gold in the sky

A man saw a ball of gold in the sky;
He climbed for it,
And eventually he achieved it --
It was clay.

Now this is the strange part:
When the man went to the earth
And looked again,
Lo, there was the ball of gold.
Now this is the strange part:
It was a ball of gold.
Aye, by the heavens, it was a ball of gold.

Stephen Crane (1871-1900)

Clay = barro

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Um Sopro de Destruição

"As consequências sociais, econômicas e políticas da devastação das florestas, erosão e esgotamento dos solos, degradação do clima, extinção das espécies animais e vegetais. Pauta do dia? Sim - desde 1786.

Muito antes do que se costuma imaginar, já se discutia no Brasil, de forma consistente e criativa, a destruição do meio ambiente. Analisando cerca de 150 textos de época, produzidos por mais de 50 autores, este livro reconstitui pela primeira vez, de maneira lúcida e abrangente, um capítulo fascinante e praticamente esquecido na história do pensamento social brasileiro: a crítica ambiental nos séculos XVIII e XIX.

Nomes como José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Baltasar da Silva Lisboa e Francisco Freire Alemão, entre vários outros, dedicaram-se ao debate ambiental. E - ainda mais espantoso - muitos perceberam que a superação das práticas devastadoras, a partir de um esforço consciente de modernização tecnológica, passava necessariamente pela implementação de reformas socioeconômicas profundas, que rompessem com o legado do colonialismo: o tripé escravidão-latifúndio-monocultura.

Destruir matos virgens, ... e sem causa, como até agora se tem praticado no Brasil, é extravagância insofrível, crime horrendo e grande insulto feito à natureza. Que defesa produziremos no Tribunal da Razão, quando os nossos netos nos acusarem de fatos tão culposos?

A pergunta que José Bonifácio se fez em 1821 vale ainda hoje. Um sopro de destruição nos permite identificar a origem de inúmeros problemas que persistem no país, funcionando como um alerta para a profundidade e urgência da questão ambiental no Brasil". (Orelha do livro).

José Augusto Pádua, Um Sopro de Destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786-1888). 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Solenidade de (des)formatura


Jorge Ferreira S. Filho

Em recente artigo, publicado no jornal “Hoje em Dia”, o ex-reitor da UFMG, Aloísio Pimenta, teceu considerações sobre a banalização que tomou conta das solenidades de colação de grau. Indistintamente, atos públicos de formatura de engenheiros, médicos, arquitetos e até de advogados, estão se transformando em algo que mais parece um ensaio de escola de samba que uma solenidade. Apitos, cornetas, conversas, gritos e tambores dominam o espaço e o tempo do evento de formaturas.

Ao que parece, não se trata de casos isolados, pois excetuando-se as solenidades de formatura nas escolas militares (IME, ITA, Academia Naval, Agulhas Negras, CFO, etc.) e nas instituições eclesiásticas, a “bagunça” se generalizou.

Paraninfos, homenageados, patronos e autoridades discursam sabendo que ninguém presta ou pode prestar atenção às suas palavras. O barulho é ensurdecedor e não raras são as deseducadas manifestações da platéia – “kabou”, “chega”, “cala a boca” – no sentido de abafar ou inibir aquele que, ingenuamente, pretende transmitir uma mensagem, ensinar, contribuir, formar uma pessoa, por meio do conteúdo de seu discurso.

O total desprezo pela forma tradicional que se adotava para a colação de grau no Brasil, se configura hoje, como diria Émile Durkhein, um “fato social”. Isso significa a constatação da existência de “maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo”, caracterizadas por um forte poder coercitivo, da massa de pessoas presentes na solenidade, sobre o comportamento de cada pessoa isoladamente considerada.

Instiga-me perguntar: o fenômeno seria universal ou meramente brasileiro? Aloísio Pimenta, no artigo supra referido, comenta que seus quatro filhos graduaram-se em universidades norte-americanas e suas formaturas foram atos solenes. Disse ainda o ilustre ex-reitor que a responsabilidade pela banalização do ato de colação de grau recai também sobre a autoridade universitária. “Solenidades de formatura representam uma marca da mais alta importância cívica, ética e, inclusive, legal, para todos que participam destes eventos, do mais alto nível social e cultural”, lembra.

Concordo totalmente com Aloísio Pimenta, mas não acredito que este nosso posicionamento – ou manifestação de inconformismo – seja compartilhado pela maioria da sociedade. Fenômenos sociais merecem variadas leituras e interpretações. Por isso, lanço-me numa incursão para verificar como a Antropologia percebe o fenômeno “rito”.

Mariza Peirano, pesquisando sob a tutela da David Rockfeller Center for Latin American Studies, concluiu que, independentemente do tempo e do lugar, a vida social sempre foi marcada por rituais. Trata-se de uma ilusão pensar que o rito seja um fenômeno do passado e que dele estejamos, hoje, liberados. Rituais são instrumentos válidos, eficazes e eficientes para transmitir valores e conhecimentos. São adequados também para reproduzir as relações sociais. Ritual, na concepção do antropólogo Stanley Tambiah, “é um sistema cultural de comunicação simbólica”. Por isso, quando o rito passa a ser a dessacralização do próprio rito – o anti-rito – o fenômeno sinaliza que caminhamos para uma sociedade sem valores, ou seja, sem uma referência ou discussão sobre como nossa sociedade é ou gostaria de ser.

Perder referências aos valores significa também dizer que não há mais o certo ou o errado; tudo pode. O político pode mentir; o aluno pode colar grau, ainda que nada saiba ou que tenha conseguido terminar seu curso sistematicamente “colando”.

As Faculdades, instituições tradicionalmente havidas como responsáveis pela transmissão do legado cultural da humanidade às novas gerações, ou seja, instrumentos de formação das pessoas como cidadãos aptos à moderna sociedade democrática de direito, capitulam-se diante da difícil tarefa de formar – construir uma pessoa – e se transformam em meros transmissores de informações; informam, mas não formam.

Talvez, quando familiares, convidados, professores e colegas passam a admitir como normal o “carnaval” que se verifica nas “solenidades” de formatura, estejam, também, declarando que: não acreditam em nada relacionado com a finalidade da cerimônia; meu filho, que hoje forma, nada sabe; meu colega, que ora cola grau, passou colando; qualquer um hoje pode obter um diploma, sem nunca ter comprado ou lido um livro didático.

Raramente se nota um efetivo compromisso com o ensinar (formar e transmitir valores) nas escolas de ensino superior. Diretores e coordenadores de cursos, com raras exceções, apresentam-se hoje como simples instrumentos de viabilização do negócio – atividade econômica – em que se tornou o ensino superior. O aluno passou a ser um consumidor – um centro de direitos. O professor transformado num “Sílvio Santos” – aquele que deve agradar a platéia; dar à platéia o que ela quer e não o que ela precisa receber.

Não se pode, entretanto, permitir que essa leitura dos fatos nos mergulhe no mar do pessimismo. Ao contrário, o fato serve de alerta e sinalização à sociedade para envidar esforços no sentido de corrigir estes rumos, sob pena de se “desconstruir” a sociedade democrática de direito que almejamos alcançar.

Jorge Ferreira S. Filho é advogado, Mestre em Direito pela Universidade Gama Filho /RJ e membro do Instituto Brasileiro de Direito de Família - IBDFAM; Integrante do Instituto dos Advogados de Minas Gerais – IAMG e Secretário Geral da 72ª Subseção da OAB – Seção Minas Gerais.

Richelieu and Olivares

Leitura fascinante! Um estudo biográfico comparativo de dois dos maiores estadistas europeus do século XVII, grandes defensores do Absolutismo Monárquico:

Armand Jean du Plessis, Cardeal Richelieu (1585-1642): primeiro-ministro do rei francês Luís XIII de 1628 a 1642.

Gazpar de Guzmán y Pimentel Ribera Velasco e Tovar, Conde-duque de Olivares (1587-1645): primeiro-ministro do rei espanhol Filipe IV de 1621 a 1643.

It was in their fierce determination to control and reshape the world to their image through every instrument at their disposal, including that of language, that Richelieu and Olivares - in many respects so different - came together as one. But there is something paradoxical about this determination. Living, as Richelieu said, in a corrupt age when men were unwilling to be led by reason; sharing an instinctive pessimism about men and events; aware that some sudden contingency could make the best-laid plans go awry; they fought for power with a tenacity born of the optimistic conviction that they could somehow use it to transform the world. Dangerous men, perhaps, but these were dangerous times. (p.31)

J. H. Elliot, Richelieu and Olivares. NY: Canto edition, 1991.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A queda de José Bonifácio

"(...) podemos vislumbrar o espírito que prevalecia na mente daquele estadista-filósofo, tantas vezes comparado aos founding fathers norte-americanos, nos gloriosos anos de 1821 e 1822, quando os horizontes que se abriam para a construção de um Brasil independente e próspero pareciam vastos e luminosos. As dinâmicas políticas posteriores, no entanto, abortaram todos os seus projetos. Em julho de 1823 ele foi forçado a abandonar o ministério. Em novembro do mesmo ano foi preso e exilado na França, onde permaneceu até 1829. A elite dos grandes proprietários, que constituía a base do poder econômico e político, não estava disposta a acompanhá-lo em seus propósitos de extinguir a escravidão, dividir as propriedades e combater a rotina predatória e lucrativa da monocultura exportadora. Esse foi o motivo profundo da sua queda, muito mais do que os conflitos conjunturais e intrigas políticas em que se envolveu. É verdade que a sua prepotência no exercício do poder, somada à incapacidade para estabelecer acordos e alianças, contribuiu para sua derrota política. Bonifácio era fundamentalmente um intelectual, que tentou exercer o governo com a mesma impetuosidade com que participava dos debates acadêmicos. O seu desprezo por ostentações de riqueza, títulos de nobreza e artificialismos de etiqueta, além disso, provocou desavenças com a elite da monarquia emergente. Mas tudo isso é relativamente secundário diante da ameaça que o seu projeto quase revolucionário de mudança social e ambiental colocava para essa mesma elite". (p. 158)

José Augusto Pádua, Um Sopro de Destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista (1786-1888). 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.

sábado, 12 de junho de 2010

A Morte

A morte aparece
sem fazer ruído.

Senta-se num canto
fica indiferente
com seu ar de calma
absoluta.
Mira longamente
o quarto o retrato
a cama os remédios
postos entre os livros
sobre a mesa escura.

Depois se levanta
sem nenhuma pressa
sem impaciência
retorna ao seu mundo
a morte, de gestos
claros e serenos.

H. Dobal (1927-)

Imagem: "O Leito da Morte", de Edvard Munch

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Liderança não é gerência

Gosto de começar meus seminários de liderança com a seguinte declaração: "Sempre parto do pressuposto que todos vocês são excelentes gerentes, possuem uma sólida competência técnica e são eficientes na realização de suas tarefas. Por isso, antes mesmo de começarmos, vou dar nota dez em habilidades gerenciais para cada um de vocês. Tudo indica que vocês possuem todas as chances de assumir posições de liderança. Mas, se virem até aqui para ouvir sugestões para serem gerentes melhores, devo dizer que estão na sala errada. Nós estamos aqui para falar sobre liderança, não sobre gerência".

Planejamento, orçamento, organização, solução de problemas, controle, manutenção da ordem, desenvolvimento de estratégias e várias outras coisas - gerência é o que fazemos, liderança é quem somos.

Conheço ótimos gerentes que naufragaram quando se viram diante da tarefa de liderar pessoas, inspirando-as a fazerem grandes coisas. O inverso é verdadeiro. Muitos líderes eficientes são gerentes sofríveis, como o provam Winston Churchill, Franklin Delano Roosevelt e Ronald Reagan. Eles não entraram para a história por serem considerados "bons gerentes".

O estilo que caracteriza o "bom gerente" é, em geral, autoritário e centralizador. Sim, muitos acreditam erroneamente que um gerente eficiente deve ter todas as respostas, resolver todos os problemas e, acima de tudo, manter o controle.

Quando recebem algum treinamento de liderança, o foco é sempre voltado para o lado operacional. Ou seja: tem o objetivo de tornar as pessoas capazes de administrar coisas, não o de fazer com que liderem e inspirem as outras à ação.

As habilidades técnicas orientadas para o resultado que levaram muitos gerentes a posições de liderança não são exatamente as melhores ferramentas para inspirar os outros a fazerem um bom trabalho.

Liderar significa conquistar as pessoas, envolvê-las de forma que colquem seu coração, mente, espírito, criatividade e excelência a serviço de um objetivo. É preciso fazer com que se empenhem ao máximo na missão, dando tudo pela equipe.

Você não gerencia pessoas. Você lidera pessoas. (p. 19-20)

(...)

Quando se está numa posição de liderança, a medida do sucesso muda. Os esforços realizados para agir da forma certa, os depósitos em contas bancárias emocionais, o empenho em ensinar, treinar e estimular as pessoas - tudo isso pode demorar a dar frutos.

Essa é uma situação que pode ser muito frustrante para quem está acostumado a ter uma gratificação imediata, com direito a resultados quantificáveis no final do dia. (p. 36).

(...)

Minha mãe podia me pedir para fazer qualquer coisa, e eu não pensava duas vezes a respeito. Lembro que ela não tinha mais poder algum sobre mim - eu podia correr mais depressa do que ela, agora que era adulto. Mas mamãe tinha muita autoridade. De onde ela tirou sua autoridade? Que seminário sobre habilidades de supervisão ela cursou? A verdade é que mamãe sempre serviu. Eu faria qualquer coisa por ela. (p.38).

(...)

Poder é a capacidade de obrigar, por causa de sua posição ou força, os outros a obedecerem à sua vontade, mesmo que eles preferissem não fazê-lo. Weber, em sua definição básica de poder, diria: "Faça isso, senão vai ver!"

O raciocínio é o seguinte: se eu tenho a habilidade de derrotá-lo, bombardeá-lo, espancá-lo ou despedi-lo, posso forçá-lo a obedecer à minha vontade.

Autoridade é muito diferente de poder, já que ela envolve a habilidade de levar os outros a fazerem - de bom grado - sua vontade. Na visão de Weber, a definição de autoridade seria: "Farei isso por você".

Outra maneira de observar a diferença entre autoridade e poder é a seguinte: O poder pode ser comprado e vendido, dado e tirado. Ou seja: laços de parentesco ou amizade realmente conseguem colocar uma pessoa numa posição de poder, mas isso já não acontece com a autoridade - ela é a essência da pessoa, está ligada a seu caráter. (p.32).

James C. Hunter, Como se tornar um líder servidor: os princípios de liderança de O Monge e o Executivo. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.


quarta-feira, 26 de maio de 2010

As vidas de Chico Xavier

Chico precisava ter cuidado. A tal "harpa melodiosa" citada por sua mãe [referindo-se à sua mediunidade] poderia enferrujar-se se ele cedesse à ambição ou ao orgulho. Para evitar o perigo, começou a castigar o próprio ego com golpes diários e contundentes. A autoflagelação partia de um pressuposto simples: ele não era nada, os benfeitores espirituais eram tudo e um pouco mais.

O segredo do sucesso: abrir mão de si mesmo. "Aquele que quiser ser o maior que se faça o servidor de todos", lia no Evangelho. E acatava.

Em sua campanha antivaidade, Chico criou, ao longo da vida, alguns slogans para se defender dos elogios. "Sou apenas Cisco Xavier" era um deles. Ele fazia questão de proclamar a própria "absoluta insignificância". Afinal de contas, era um "servidor quase inútil da doutrina espírita", "o mais pequenino de todos", "um nada", "mais imperfeito que os outros". A lista de metáforas autodepreciativas cresceria a cada ano. Chico se apresentaria como um graveto que se confunde com o pó, um animal em serviço, uma besta encarregada de transportar documentos dos espíritos, uma tomada entre dois mundos. Nenhuma das frases de efeito afastava os devotos e os bajuladores.

Um dia, diante de uma mulher quase de joelhos a seus pés, ele apelou:

- Não me elogie assim. É desconcertante. Não passo de um verme no mundo.

No mesmo instante, ouviu a voz de Emmanuel [seu guia espiritual]:

- Não insulte o verme. Ele funciona, ativo, na transmutação dos detritos da terra, com extrema fidelidade ao papel de humilde e valioso servidor da natureza. Ainda nos falta muito para sermos fiéis a Deus em nossa missão.

Daí em diante, Chico preferiu se definir, de vez em quando, como subverme. (p. 70-71)


O padre Júlio Maria, da cidade mineira de Manhumirim, estava disposto a providenciar uma camisa-de-força para o espírita de Pedro Leopoldo. Todo mês, ele escrevia artigos no jornal local, O Lutador, e fazia o favor de enviar suas opiniões pelo correio ao autor de Parnaso de Além-Túmulo. Em nome de Jesus Cristo, os textos excomungavam o espiritismo, reduziam a pó a reencarnação e à piada o porta-voz dos poetas mortos no Brasil. "Francisco Cândido Xavier deve ter pele de rinoceronte para suportar tantos espíritos", escreveu num de seus manifestos.

Chico ficou engasgado e precisou da ajuda de Emmanuel para engolir o comentário.

- Se você não tem pele de rinoceronte, precisa ter, porque, se cultivar uma pele muito frágil, cairá sempre com qualquer alfinetada.

O padre Júlio Maria espetou Chico Xavier durante treze anos. Só parou quando morreu. E, nesse dia, Chico ouviu o vozeirão de seu guia:

- Vamos orar pelo nosso irmão Júlio Maria. Com ele sempre tivemos um cooperador maravilhoso. Dava-nos coragem na luta e concitava-nos a trabalhar.

A cada ataque dos céticos, Chico escutava Emmanuel bater na mesma tecla:

- Não te aflijas com os que te atacam. O martelo que atormenta o prego com pancadas o faz mais seguro e mais firme.

O conselheiro invisível esquecia que martelos também entortam pregos.

Chico sentia os golpes e andava pela cidade arqueado, sob o peso da desconfiança alheia. (p. 54-55)

Marcel Souto Maior, As vidas de Chico Xavier. 2. ed. rev. e ampl. - São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2003 (p. 54-55; p. 70-71)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Uma reunião de médicos na Idade Média

O interrogatório foi interrompido pela chegada da comida, galinha grelhada muito passada com nabos assados, e cerveja que Rob bebeu com cuidado, pois não queria fazer papel de tolo. Depois do jantar foi informado que Bruce faria a palestra naquela noite. Falou sobre ventosas, aconselhando os colegas a aquecer convenientemente as ventosas de vidro, pois era o calor que puxava os venenos do sangue para a superfície da pele, onde podiam ser eliminados por meio da sangria.

- Devem demonstrar aos pacientes sua confiança na cura com aplicações repetidas de ventosas e sangrias para que compartilhem do seu otimismo - recomendava Bruce.

A palestra foi mal preparada, e pelas conversas Rob chegou à conclusão de que quando tinha onze anos aprendera mais com Barber sobre ventosas e sangrias do que aqueles médicos sabiam.

Assim, o Liceu foi um desapontamento.

Pareciam obcecados com preços de consultas e rendas pessoais. Rufus chegou a brincar com o presidente da mesa, médico do rei, chamado Dryfield, dizendo que o invejava por receber pagamento anual e roupas de médico.

- É possível conseguir um ordenado sem servir ao rei - interrompeu Rob.

Agora todas as atenções voltaram-se para ele.

- Como isso pode acontecer? - perguntou Dryfield.

- O médico pode trabalhar num hospital, um centro de cura dedicado ao tratamento e ao estudo das doenças.

Alguns olharam para ele sem compreender, mas Dryfield assentiu com um gesto.

- Uma ideia do Oriente que começa a tomar vulto. Ouvi falar de um hospital recém-instalado em Salerno, e há muito tempo existe o Hôtel Dieu, em Paris. Mas prestem atenção, os doentes são mandados para o Hôtel Dieu para morrer e esquecidos, e é um lugar infernal.

- Hospitais não precisam ser como o Hôtel Dieu - disse Rob, sentindo não poder falar sobre o maristan.

Mas Hunne interrompeu.

- Talvez o sistema funcione para as raças inferiores, mas os médicos ingleses têm espírito mais independente e devem ter liberdade para conduzir seus negócios.

- Sem dúvida a medicina é mais do que um negócio - observou Rob delicadamente.

- É menos que um negócio - retrucou Hunne -, com o preço das consultas e com os borra-botas inexperientes que estão sempre chegando a Londres [referindo-se a Rob]. Por que acha que é mais do que um negócio?

- É uma vocação, Master Hunne -, como o chamado divino para os homens da igreja.

Brace deu uma gargalhada. Mas o presidente da mesa tossiu, farto da discussão.

Noah Gordon, O Físico: a epopéia de um médico medieval. Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p. 559-560.

Obs: A semelhança com os tempos atuais é mera coincidência.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Religiões

- Já pensou - perguntou Rob -, como cada religião reivindica a posse do coração e do ouvido de Deus? Nós [cristãos], vocês [judeus], e o islã - cada um diz que sua religião é a verdadeira. Será que nós todos estamos errados?

- Talvez estejamos todos certos - respondeu Mirdin.

Rob sentiu uma intensa afeição pelo amigo. Logo Mirdin seria médico e voltaria para sua família em Masqat e quando Rob chegasse a hakim também voltaria para casa. Sem dúvida nunca mais se veriam.

Entreolharam-se e Rob teve certeza de que Mirdin pensava a mesma coisa.

- Vamos nos encontrar no Paraíso?

Mirdin olhou para ele gravemente.

- Eu o encontrarei no Paraíso. Promessa solene?

Rob sorriu.

- Promessa solene.

Um apertou o pulso do outro.

- Vejo a separação entre a vida e o Paraíso como um rio - disse Mirdin. - Se muitas pontes cruzam o rio, será que Deus se importa qual delas escolhemos?

- Acho que não - respondeu Rob.

Os dois amigos separaram-se, cada um voltando aos seus afazeres.

Noah Gordon, O Físico: a epopéia de um médico medieval. Rio de Janeiro: Rocco, 1988, p. 426.

Crianças e adolescentes candidatos à psicopatia

Podemos observar características de psicopatia desde a infância até a vida adulta. Antes dos 18 anos, por uma questão de nomenclatura, o problema é chamado de Transtorno da Conduta. Crianças ou adolescentes que são francos candidatos à psicopatia possuem um padrão repetitivo e persistente que pode ser sintetizado pelas características comportamentais descritas a seguir:

- Mentiras frequentes (às vezes o tempo todo);
- Crueldade com animais, coleguinhas, irmãos, etc.;
- Condutas desafiadoras às figuras de autoridade (pais, professores, etc.);
- Impulsividade e irresponsabilidade;
- Baixíssima tolerância à frustração, com acessos de irritabilidade ou fúria quando são contrariados;
- Tendência a culpar os outros por erros cometidos por si mesmos;
- Preocupação excessiva com seus próprios interesses;
- Insensibilidade ou frieza emocional;
- Ausência de culpa ou remorso;
- Falta de empatia ou preocupação pelos sentimentos alheios;
- Falta de constrangimento ou vergonha quando pegos mentindo ou em flagrante;
- Dificuldades em manter amizades;
- Permanência fora de casa até tarde da noite, mesmo com a proibição dos pais. Muitas vezes podem fugir e levar dias sem aparecer em casa;
- Faltas constantes sem justificativas na escola ou no trabalho (quando mais velhos);
- Violação às regras sociais que se constituem em atos de vandalismo como destruição de propriedades alheias ou danos ao patrimônio público;
- Participação em fraudes (falsificação de documentos), roubos ou assaltos;
- Sexualidade exacerbada, muitas vezes levando outras crianças ao sexo forçado;
- Introdução precoce no mundo das drogas ou do álcool;
- Nos casos mais graves, podem cometer homicídio.

Vale ressaltar que essas características são apenas genéricas e que o diagnóstico exato só pode ser firmado por especialistas no assunto. Além do mais, o leitor deve atentar para a frequência e a intensidade com as quais essas características se manifestam.

Ana Beatriz Barbosa Silva, Mentes perigosas: o psicopata mora ao lado. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 170-172.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

As obras dos gênios

(...) as mais elevadas realizações do espírito humano, via de regra, foram acolhidas com desfavor e assim permaneceram até que espíritos de tipo mais elevado fossem por elas atraídos, reconhecessem o seu mérito e lhes conferissem prestígio, que elas conservaram com a autoridade assim obtida. No fundo, tudo isso consiste no fato de que cada um só pode propriamente compreender e avaliar apenas o que lhe é homogêneo. Desse modo, homogêneo para o homem limitado é tudo o que for limitado, para o homem comum, tudo o que for comum, para o confuso, a confusão e, para o insensato, o absurdo; o que mais agrada a cada um são as próprias obras que, como tais, lhes são inteiramente homogêneas.

O mais vigoroso dos braços, quando lança um corpo leve, não pode comunicar-lhe nenhum movimento que o faça voar longe e cair violentamente; pelo contrário, o corpo cairá inerte nas proximidades, visto que lhe falta massa material própria para absorver a força exterior. Do mesmo modo se passa com os belos e grandes pensamentos, com as obras-primas dos gênios, se, para absorvê-las, existirem apenas cabeças pequenas, fracas ou enviesdadas.

Arthur Schopenhauer (1788-1860), Aforismos para a Sabedoria de Vida

terça-feira, 4 de maio de 2010

Mentes perigosas

A ideologia sobre a qual se alicerça a cultura dos nossos tempos é baseada em três princípios básicos: 1) o individualismo; 2) o relativismo; 3) o instrumentalismo.

De forma compreensível e sem, contudo, aprofundar-me na esfera da filosofia, os três princípios podem ser avaliados da seguinte maneira:

1) O individualismo prega a busca do melhor tipo de vida a se usufruir. Entende-se como o melhor tipo de vida aquele que abrange o autodesenvolvimento, a auto-realização e a auto-satisfação. De acordo com essa concepção, o indivíduo tem a obrigação moral de buscar sua felicidade em detrimento de qualquer outra obrigação com os demais.

2) Segundo o relativismo todas as escolhas são igualmente importantes, pois não há um padrão de valor objetivo que nos permita estabelecer uma hierarquia de condutas. Assim, qualquer ação que leva o indivíduo a atingir a auto-satisfação é válida e não pode ser questionada.

3) O instrumentalismo afirma que o valor de qualquer coisa fora de nós é apenas um valor instrumental, ou seja, o valor das pessoas e das coisas se resume no que elas podem fazer por nós.

Na verdade, tudo está implícito no primeiro e principal componente da cultura moderna: o individualismo. Assim, o nosso principal objetivo é a realização e a satisfação pessoais. As obrigações que temos com as demais pessoas são meramente secundárias, prevalecendo a obrigação de desfrutarmos a vida da maneira que escolhermos. Dessa forma, as outras pessoas se transformam em simples meios para chegarmos a um fim.

O objetivo maior da ideologia moderna era preservar a liberdade individual. No entanto, essa ênfase sobre a liberdade criou a grande contradição de nossos tempos: como estabelecer valores morais e éticos num mundo que prioriza as escolhas individuais?

A modernidade foi responsável por uma série de mudanças na nossa forma de ver e sentir o mundo. A revolução tecnológica inundou de conforto nossas vidas. Dispomos de uma imensa variedade de coisas que facilitam nosso dia-a-dia, porém não encontramos tempo disponível para cultivarmos nosso lado afetivo. O convívio reconfortante com a família, os amigos e o amor romântico parecem ser coisas do passado, algo lembrado com nostalgia, mas avaliado como utopia nos dias atuais. O desenvolvimento econômico nos tempos modernos fundamenta-se na crença cega de que não podemos parar nunca: há sempre o que aprender, conquistar, possuir, descobrir, experimentar... Nada nem ninguém é capaz de nos satisfazer plenamente, pois sempre há novas possibilidades para serem testadas na conquista da realização pessoal.

A realização proposta por nossa sociedade só pode ser de aspecto material, pois afetos verdadeiros não podem ser adquiridos nem substituídos na velocidade que nossos tempos preconizam. A cultura do individualismo e o desejo de conseguir bem-estar material a qualquer custo têm provocado erosão dos laços afetivos dentro da nossa sociedade. Com isso, virtudes como a honestidade, a reciprocidade e a responsabilidade com os demais caem em total descrédito. E assim, repletos de conforto e tecnologia, acabamos por nos tornar cada vez mais sozinhos e menos comprometidos com os nossos semelhantes.

Ana Beatriz Barbosa Silva. Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p. 190-191.

sábado, 24 de abril de 2010

Lagos profundos

Eu queria ir para o norte da Europa ou para o Canadá explorar lagos misteriosos e profundos com câmeras, sonares e iscas de arenque em gaiolas, para encontrar monstros.

Mas se eu pelo menos me encontrasse, já ficaria satisfeito.

A Pesquisa nas Instituições de Ensino Superior

Trechos de uma entrevista concedida à Revista Veja pelo sociólogo Simon Schwartzman (Editora ABRIL, edição 2059 - ano 41 - n. 18 - 07 de maio de 2008):

Veja - O governo distribui corretamente seus investimentos em pesquisa?

Schwartzman - Esse é outro problema. O governo pulveriza muito os recursos. E os projetos contemplados não conseguem crescer. O CNPq (responsável pelo financiamento de pesquisas universitárias) criou o Instituto do Milênio, cuja idéia inicial era fortalecer alguns centros. Mas isso foi sendo pulverizado. Em vez de concentrar o dinheiro em centros de excelência, a estratégia foi diluir. É um critério democrático, mas com isso você não cria densidade. Dessa forma é impossível dar um salto de qualidade. A atividade científica é cara e concentrada. Não é para qualquer grupo. Hoje, a legislação brasileira exige que todas as universidades façam pesquisa. Isso só estimula uma mimetização. O professor participa de um congresso qualquer ou publica um artigo numa revista que ninguém lê. É algo que tem aparência de pesquisa, mas não produz conhecimento. Fazer pesquisa significa participar de um grupo seleto e muito exigente de pessoas que estão produzindo conhecimento de fronteira. É uma atividade que pouca gente faz. Por isso o investimento deveria ser concentrado, como acontece em países desenvolvidos (p. 15).

Veja - A economia brasileira está vivendo um período notável. A pesquisa acadêmica não tem se beneficiado disso?

Schwartzman - Não o bastante. O Brasil está perdendo o bonde. O volume de investimento em pesquisa tem crescido a uma velocidade bem maior nos países desenvolvidos do que aqui. A distância está aumentando muito. O país não tem capacidade para atrair um investimento de qualidade porque não tem massa crítica. O atual governo fala muito sobre a questão da inclusão. Seu tema principal é o acesso à universidade. Acho isso um equívoco. Você não tem tanta gente para colocar na universidade porque o ensino médio está muito ruim. Essa política dá acesso a gente que não vai conseguir muita coisa. Não acho que o problema da desigualdade social passe pela inclusão na universidade. Seria melhor oferecer uma educação básica de qualidade. A função da universidade é produzir competência, gente bem formada e pesquisa de qualidade. A universidade tem de ter liberdade e estímulo para eleger prioridades. Hoje ela não tem nem uma coisa nem outra. O que devemos discutir é se essa universidade tem bons engenheiros, bons cientistas e se tem capacidade para oferecer serviços. O resto é secundário (p. 15).

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Onde a gente está

Uma música brasileira realmente muito bonita. Mexeu comigo.

Onde a gente está (Lô Borges e Márcio Borges)

Vejo a lua
No fim da estrada
Onde eu vou chegar
Ela clareia
E acompanha
Tudo que a noite traz

Quantas palavras
E madrugadas
Para você dizer
Que vem comigo
Nesta viagem longa
A hora vai passar
E temos que nos conhecer

Tudo acontece
Neste caminho
Por onde a gente vai
Sigo meu rumo
Canto ao redor do fogo

Luzes da alma
Jogam sementes
Nesta canção de amor
Bem cultivadas
Para nascer de novo

Dentro do peito
Abro a janela
Deixo o sol entrar
Nosso lugar
É onde a gente está

OUÇA AQUI

sábado, 17 de abril de 2010

Professores

Era uma vez três professores:

O primeiro chegava à sala atrasado, liberava a turma mais cedo, enrolava as aulas, mas dava nota boa para todo mundo no final (e, detalhe: o aluno podia faltar, que levava presença mesmo assim).

O segundo chegava e liberava a turma na hora certa, mas era um perfeito enrolador, batia papo demais (para ficar amigo dos alunos) e, quando dava aula, era um blá blá blá interminável de informações (cobradas na prova exatamente da forma como eram explicadas); não fazia chamada e, como o primeiro, dava notão para todo mundo.

O terceiro colocava os alunos para pensar, não dava nada mastigado, cobrava reflexão, fazia chamada todos os dias e corrigia as provas com muito rigor (provas difíceis, que cobravam raciocínio, análise), o que geralmente tinha como resultado um número significativo de notas baixas.

Agora vem a pergunta: os alunos normalmente iam à Coordenação para reclamar de qual professor?

quinta-feira, 8 de abril de 2010

On the Road

"Oh, cara! cara! cara!", balbuciou Dean. "E isso não é nem o começo - e agora finalmente estamos juntos indo para o Leste, nunca tínhamos ido para o Leste juntos, Sal, pensa nisso, vamos curtir Denver juntos e ver o que todos estão fazendo, mesmo que isso não nos interesse muito, a questão é que nós sabemos o que AQUILO significa e sacamos a VIDA e sabemos que tudo está ÓTIMO." Depois, me puxando pela manga, e suando horrores, ele me segredou: "Agora saca só esse pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir essa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão onde pretendem - e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles têm que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos puramente angustiados e angustiantes, suas almas realmente não terão paz a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles e eles sabem disso, e isso também os preocupa num círculo vicioso que não tem fim. Escuta só: 'Bem, agora'", imitou ele, "'não sei, talvez devêssemos parar para encher o tanque de gasolina ali naquele posto. Li recentemente no National Petroffious Petroleum News que esse tipo de gasolina tem grande quantidade de O-Octane e alguém já me falou que ela até possui um aditivo semi-oficial de alta potência e quem sabe... bem, não sei se deveríamos, acho que talvez...'. Cara, você também saca tudo isso". (p. 257-58)

(...)

Saímos de Sacramento com o sol raiando e na hora do almoço já estávamos cruzando o deserto de Nevada, depois de uma vertiginosa passagem pelas Sierras que obrigou a bichona e os turistas a se agarrarem uns aos outros no banco de trás. Agora íamos na frente, estávamos no comando. Dean estava feliz outra vez. Tudo o que ele precisava era de uma roda na mão e quatro na estrada. Falava de quão mal Old Bull Lee dirigia e fez umas demonstrações: "Sempre que aparece algum caminhão gigantesco e sobrecarregado como aquele que vem vindo ali, Old Bull leva um tempo interminável para percebê-lo porque não consegue enxergar direito. Ele simplesmente não vê". Apertou furiosamente os olhos para imitar a cara de Old Bull ao volante. "E eu dizia a ele: 'Ei, cuidado Bull, um caminhão'. E ele respondia: 'O quê? O que foi que você disse, Dean?' 'Caminhão, caminhão.' E no último segundo ele jogava o carro contra o caminhão, assim." E Dean se jogou com o Plymouth de encontro ao caminhão que avançava na direção oposta, dançando e rebolando à sua frente por um instante, dando tempo de ver a fúria na cara do caminhoneiro crescendo rapidamente à nossa frente, e o pessoal do banco de trás se encolhendo ofegante, arfando, todos horrorizados, e no último segundo Dean desviou. "Era bem assim, sabe, exatamente assim, oh, como ele dirigia mal." Eu não estava nem um pouco assustado; conhecia Dean. Mas o povo no banco de trás perdeu a voz. Na verdade, tinham medo de reclamar. Sabe-se lá Deus o que o Dean seria capaz de fazer se eles tivessem a audácia de reclamar, pensavam. Ele tocou o pé na tábua cruzando todo o deserto dessa maneira, fazendo várias demonstrações de como não dirigir, de como seu pai guiava seus calhambeques, como os grandes motoristas se lançam rápido demais no começo e acabam derrapando no fim da curva, e assim por diante." (p. 259)

(...)

"Oh, esses caipiras burros, estúpidos, tapados, jamais mudarão, são completa e absolutamente estúpidos. Chega o momento de agir e eles ficam paralisados, histéricos, assustados - nada os amedronta mais do que aquilo que querem (...)." (p. 265)

Jack Kerouac (1922-1969), On the Road (1957); tradução de Eduardo Bueno, Porto Alegre: L&PM, 2009

terça-feira, 6 de abril de 2010

Jack Kerouac

Perambulei catando baganas nas calçadas. Cruzei por um boteco na rua Market e a mulher que estava lá dentro me lançou um olhar terrível enquanto eu passava; era a proprietária, aparentemente ela pensou que eu fosse entrar ali armado de pistola e assaltar o botequim. Caminhei um pouco mais. Subitamente me ocorreu que ela tinha sido minha mãe uns duzentos anos atrás na Inglaterra e eu, seu filho salteador, retornando do cárcere para assombrar seu honesto ganha-pão na taverna. Enregelado pelo êxtase, estanquei na calçada. Olhei para a rua. Não conseguia saber se era mesmo a Market ou a rua do Canal em Nova Orleans; afinal ela ia dar na água, água ambígua e universal, exatamente como a rua 42 em Nova York, que também leva em direção à água, de modo que você nunca sabe bem onde está. Pensei no fantasma de Ed Dunkel se arrastando pela Times Square. Eu delirava. Quis voltar e dar uma espiada na minha estranha mãe dickensiana no boteco. Eu tremia da cabeça aos pés. Era como se um pelotão inteiro de memórias me conduzisse de volta a 1750, na Inglaterra, só que agora eu estava em São Francisco, em outra vida, noutro corpo. "Não", parecia gritar aquela mulher, com seu olhar aterrorizado, "não volte para atormentar sua mãe honesta e trabalhadora. Você já não é mais meu filho, assim como seu pai, meu primeiro marido. Aqui, esse grego generoso se apiedou de mim" (o proprietário era um grego de braços peludos). "Você é mau, com tendências à baderna e à bebedeira e, o que é pior, ao roubo infame dos frutos do meu humilde trabalho nesta taverna. Oh, filho! Você jamais se ajoelhou e rezou pela remissão de todos os seus pecados e más ações? Pobre menino! Suma daqui! Não amedronte mais meu espírito; eu fiz bem em te esquecer. Não reabra velhas feridas; que seja como você nunca tivesse voltado e me encarado - jamais houvesse visto minha humilde labuta, meus parcos centavos penosamente batalhados - os quais está sempre ávido para agarrar, sempre pronto para roubar, oh, desalmado, maldoso e sombrio filho da minha própria carne. Meu filho! Meu filho!" (...) E por um instante alcancei o estágio do êxtase que sempre quis atingir, que é a passagem completa através do tempo cronológico num mergulhar em direção às sombras intemporais, e iluminação na completa desolação do reino mortal e a sensação de morte mordiscando meus calcanhares e me impelindo para frente como um fantasma perseguindo seus próprios calcanhares, e eu mesmo correndo em busca de uma tábua de salvação de onde todos os anjos alçaram vôo em direção ao vácuo sagrado do vazio primordial, o fulgor potente e inconcebível reluzindo na radiante Essência da Mente, incontáveis terras-lótus desabrochando na mágica tepidez do céu. Eu podia ouvir um farfalhar indescritível que não estava apenas nos meus ouvidos, mas em todos os lugares, e não tinha nada a ver com sons. Percebi ter morrido e renascido incontáveis vezes, mas simplesmente não me lembrava justamente porque as transições da vida para a morte e de volta à vida são tão fantasmagoricamente fáceis, uma ação mágica para o nada, como adormecer e despertar um milhão de vezes na profunda ignorância, e em completa naturalidade. Compreendi que somente devido à estabilidade da Mente essencial é que essas ondulações de nascimento e morte aconteciam, como se fosse a ação do vento sobre uma lâmina de água pura e serena como um espelho. Senti uma satisfação suave, serpenteante como um tremendo pico de heroína numa veia principal; como aquele gole de vinho que te traz um arrepio de satisfação num fim de tarde; meus pés se arrepiaram. Pensei que ia morrer naquele exato instante. Mas não morri e caminhei uns sete quilômetros, catei dez longas baganas e as levei para o quarto de Marylou no hotel e derramei os restos de tabaco no meu velho cachimbo e o acendi (p. 215-17).

Jack Kerouac (1922-1969), On the Road (1957), trad. Eduardo Bueno, Porto Alegre: L&PM, 2009

segunda-feira, 5 de abril de 2010

George Michael e companhia

Eu tento (eu juro que eu tento!) mas não consigo gostar de música brasileira. MPB é pura depressão (e para quem tem tendência ao suicídio, é um perigo). O resto, com raras exceções, é porcaria, lixo comercial, mais nada.

Agora, os americanos, vamos respeitar, são mestres em fazer porcaria. São merdas dançantes, bem feitas, muito boas mesmo! Olha esta aqui, do George Michael: It's Amazing!

Os ingleses também não ficam atrás. Dê uma olhada nesta aqui, de uma bandinha inglesa de quinta categoria: Chain Reaction

E agora, de volta aos EUA, a mesma música na versão gay de Diana Ross: Chain Reaction

A gente não tem que tirar o chapéu para esse povo?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

On the Road

Aquela noite em Harrisburg tive de dormir num banco da estação ferroviária; ao amanhecer os bilheteiros me enxotaram. Não é verdade que você começa a vida como uma criancinha crédula sob a proteção paterna? E então chega o dia da indiferença, em que o cara descobre que é um desgraçado, um miserável, fraco, cego e nu, e com a aparência de um fantasma fatigado e fatídico avança trêmulo por uma vida de pesadelo. Me arrastei para fora da estação, desfigurado. Estava fora de mim. Daquela manhã tudo o que eu podia perceber era sua própria palidez, como a palidez de um túmulo. Eu estava morto de fome, tudo que me restava em termos calóricos eram as últimas pastilhas para a garganta que eu tinha comprado meses atrás em Shelton, Nebraska; chupei-as por causa do açúcar. Eu não sabia esmolar. Arrastei-me para fora da cidade com uma força que mal me permitiu chegar aos seus limites. Sabia que seria preso se passasse mais uma noite em Harrisburg (p. 139).

(...)

De repente, lá estava eu na Times Square. Tinha viajado doze mil quilômetros pelo continente americano e estava de volta à Times Square; e ainda por cima bem na hora do rush, observando com os meus inocentes olhos de estradeiro a loucura completa e o zunido fantástico de Nova York com seus milhões e milhões de habitantes atropelando uns aos outros sem cessar em troca de uns tostões, um sonho maluco - pegando, agarrando, entregando, suspirando, morrendo, e assim poderiam ser enterrados naquelas horrendas cidades-cemitério que ficam além de Long Island (p. 139-40).

(...)

Certa vez, Carlo Marx e eu nos sentamos frente a frente em duas cadeiras, joelho contra joelho, e eu lhe contei um sonho que tivera, com uma estranha figura árabe que me perseguia através do deserto; uma figura da qual eu tentava escapar mas que finalmente me alcançava pouco antes de chegar à Cidade Protetora. "Quem era"?, perguntou Carlo. Refletimos. Sugeri que talvez fosse eu mesmo vestindo um manto. Não era isso. Algo, alguém, algum espírito nos perseguia, a todos nós, através do deserto da vida, e estava determinado a nos apanhar antes que alcançássemos o paraíso. Naturalmente, agora que reflito sobre isso, trata-se apenas da morte: a morte vai nos surpreender antes do paraíso. A única coisa pela qual ansiamos em nossos dias de vida, e que nos faz gemer e suspirar e nos submetermos a todos os tipos de náuseas singelas, é a lembrança de uma alegria perdida que provavelmente foi experimentada no útero e que somente poderá ser reproduzida (apesar de odiarmos admitir isso) na morte (p. 159).

Jack Kerouac, On the Road - Pé na Estrada, Porto Alegre: L&PM, 2009 (Primeira edição em inglês: 1957)

segunda-feira, 29 de março de 2010

ON THE ROAD

Hoje, em Belo Horizonte, comprei o livro On the Road, de Jack Kerouac. Comecei a ler no ônibus, ainda na Via Expressa, e quando acordei do "transe" - depois de um intervalo que não me pareceu durar mais do que alguns minutos -, eu já chegava em Pará de Minas.

Que loucura foi essa?

Fui pesquisar, e entre outras coisas descobri que a versão original de On the Road foi escrita quando o autor tinha 29 anos, entre 9 e 27 de abril de 1951, "num rolo de papel para telex, num total de quarenta metros ininterruptos de prosa em espaço um sem parágrafo, com Kerouac aditivado por doses colossais de benzedrina, suando uma camiseta atrás da outra, datilografando como um alucinado doze mil palavras quatorze horas por dia, movido por aquilo que o poeta Lawrence Ferlinghetti certa vez chamou de febre onívora de observação" (Eduardo Bueno, tradutor da obra de Kerouac).

Mensagem aos professores

A memória não carrega conhecimentos que não fazem sentido e não podem ser usados. Ela funciona como um escorredor de macarrão. Um escorredor de macarrão tem a função de deixar passar o inútil e guardar o útil e prazeroso. Se foi esquecido é porque não fazia sentido. Por isso acho inúteis os exames oficiais (inclusive os vestibulares) que se fazem para avaliar a qualidade do ensino. Eles produzem resultados mentirosos por serem realizados no momento em que a água ainda não escorreu. Eles só diriam a verdade se fossem feitos muito tempo depois, depois do esquecimento haver feito o seu trabalho. O aprendido é aquilo que fica depois que tudo foi esquecido... Vestibulares: tanto esforço, tanto sofrimento, tanto dinheiro, tanta violência à inteligência... O que sobra no escorredor de macarrão, depois de transcorridos dois meses? O que restou no seu escorredor de macarrão de tudo o que você teve de aprender? Duvido que os professores de cursinhos passem nos vestibulares. Duvido que um professor de português se saia bem em matemática, física, química e biologia... Eles também esqueceram. Duvido que os professores universitários passem nos vestibulares. Eu não passaria. Então, por que essa violência que se faz sobre os estudantes? (...)

Freqüentei escolas por dezessete anos: quatro anos no curso primário, um no curso de admissão, quatro no ginásio, três no curso científico e cinco no curso superior. Multipliquei o número de meses, pelo número de dias, pelo número de horas, pelo número de anos: cheguei ao número 16.320 – o número de horas que passei assentado em carteiras ouvindo as coisas que os professores tentavam me ensinar. É claro que esse número deve estar errado. Seja. De qualquer forma, é muito tempo o tempo de vida que se passa assentado nos bancos escolares. O que sobrou? (...)

Não me lembro das classificações das rochas. Lembro-me dos nomes “dolomitas” e “piroclásticas”, mas não sei o que significam. Esqueci-me do “crivo de Erastóstenes”. Não sei fazer raiz quadrada. Não sei onde se encontra a serra da Mata da Corda. Também me esqueci das dinastias dos faraós e dos nomes dos imperadores romanos. Lembro-me do princípio de Arquimedes, mas não sei a lei de Avogadro. Não aprendi Latim, o que me causa grande dor porque Latim é música. Sei pouquíssimo de análise sintática, o que não me faz falta para escrever. Escrevo com meu ouvido. Acho que dos 100% de saberes que as escolas tentaram enfiar dentro de mim só sobrariam uns 10%. Você depositaria suas economias mensalmente, num fundo de investimento, por dezessete anos, se você soubesse que depois desses dezessete anos você iria receber só 10% do que você depositou?

Rubem Alves

Fonte: A casa de Rubem Alves

quarta-feira, 24 de março de 2010

Dreamer

Quando eu ouvia tocar nas rádios aquele monte de porcarias comerciais descartáveis que se enquadravam nas rubricas Axé, Sertanejo ou Pagode, com aquelas vozes que pareciam uma só, de tão comuns, eu me lembrava da voz única, inigualável, mágica e arrebatadora de Roger Hodgson, vocalista do Supertramp. Que diferença!

Mas gosto não se discute.

terça-feira, 23 de março de 2010

Re-animator

Um dos filmes de terror mais arrepiantes que eu já assisti em minha vida. Não sei qual impacto ele teria sobre mim hoje, mas quando o vi pela primeira vez, em 1986, foi simplesmente ATERRORIZANTE!

A música de abertura é claramente inspirada na trilha de Psicose, de Bernard Herrmann: OUÇA AQUI

Re-animator Original trailer: AQUI

segunda-feira, 22 de março de 2010

Crepúsculo

O espetáculo acima eu assisto todos os dias da sacada dos fundos da minha casa. Essa foto eu tirei às 18:30.

Sob as luzes do crepúsculo, Pará de Minas.

sábado, 13 de março de 2010

Gaiolas

Somos assim: sonhamos o vôo, mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o vôo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.

É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que eles voariam se as portas estivessem abertas. A verdade é o oposto. Não há carcereiros. Os homens preferem as gaiolas aos vôos. São eles mesmos que constroem as gaiolas em que se aprisionam.

Rubem Alves, Correio Popular, 22/05/2005

domingo, 7 de março de 2010

O poder das imagens

O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo. Meu amigo Lisâneas Maciel, no meio de uma campanha eleitoral, me dizia que estava difícil porque o outro candidato a deputado estadual estava comprando votos a troco de franguinhos da Sadia. E a democracia se faz com os votos do povo. Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Na verdade, quem decide as eleições são os produtores de imagens. Os partidos tratam de comprar, a preço de ouro, os melhores produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o melhor produtor de imagens... O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos, isto é, aqueles que, em meio à irracionalidade coletiva, continuam a pensar. Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo. Outra coisa são as práticas de engano pelas quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Rubem Alves

Fonte: A casa de Rubem Alves

sábado, 6 de março de 2010

Poema esquisito

Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa. Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros
porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia.

Adélia Prado

sexta-feira, 5 de março de 2010

Reconciliation

WORD over all, beautiful as the sky!
Beautiful that war, and all its deeds of carnage, must in time be utterly lost;
That the hands of the sisters Death and Night, incessantly softly wash again, and ever
again,
this
soil’d world:
...For my enemy is dead — a man divine as myself is dead;
I look where he lies, white-faced and still, in the coffin—I draw near;
I bend down, and touch lightly with my lips the white face in the coffin.

Walt Whitman (1819-1892)