sábado, 24 de abril de 2010

Lagos profundos

Eu queria ir para o norte da Europa ou para o Canadá explorar lagos misteriosos e profundos com câmeras, sonares e iscas de arenque em gaiolas, para encontrar monstros.

Mas se eu pelo menos me encontrasse, já ficaria satisfeito.

A Pesquisa nas Instituições de Ensino Superior

Trechos de uma entrevista concedida à Revista Veja pelo sociólogo Simon Schwartzman (Editora ABRIL, edição 2059 - ano 41 - n. 18 - 07 de maio de 2008):

Veja - O governo distribui corretamente seus investimentos em pesquisa?

Schwartzman - Esse é outro problema. O governo pulveriza muito os recursos. E os projetos contemplados não conseguem crescer. O CNPq (responsável pelo financiamento de pesquisas universitárias) criou o Instituto do Milênio, cuja idéia inicial era fortalecer alguns centros. Mas isso foi sendo pulverizado. Em vez de concentrar o dinheiro em centros de excelência, a estratégia foi diluir. É um critério democrático, mas com isso você não cria densidade. Dessa forma é impossível dar um salto de qualidade. A atividade científica é cara e concentrada. Não é para qualquer grupo. Hoje, a legislação brasileira exige que todas as universidades façam pesquisa. Isso só estimula uma mimetização. O professor participa de um congresso qualquer ou publica um artigo numa revista que ninguém lê. É algo que tem aparência de pesquisa, mas não produz conhecimento. Fazer pesquisa significa participar de um grupo seleto e muito exigente de pessoas que estão produzindo conhecimento de fronteira. É uma atividade que pouca gente faz. Por isso o investimento deveria ser concentrado, como acontece em países desenvolvidos (p. 15).

Veja - A economia brasileira está vivendo um período notável. A pesquisa acadêmica não tem se beneficiado disso?

Schwartzman - Não o bastante. O Brasil está perdendo o bonde. O volume de investimento em pesquisa tem crescido a uma velocidade bem maior nos países desenvolvidos do que aqui. A distância está aumentando muito. O país não tem capacidade para atrair um investimento de qualidade porque não tem massa crítica. O atual governo fala muito sobre a questão da inclusão. Seu tema principal é o acesso à universidade. Acho isso um equívoco. Você não tem tanta gente para colocar na universidade porque o ensino médio está muito ruim. Essa política dá acesso a gente que não vai conseguir muita coisa. Não acho que o problema da desigualdade social passe pela inclusão na universidade. Seria melhor oferecer uma educação básica de qualidade. A função da universidade é produzir competência, gente bem formada e pesquisa de qualidade. A universidade tem de ter liberdade e estímulo para eleger prioridades. Hoje ela não tem nem uma coisa nem outra. O que devemos discutir é se essa universidade tem bons engenheiros, bons cientistas e se tem capacidade para oferecer serviços. O resto é secundário (p. 15).

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Onde a gente está

Uma música brasileira realmente muito bonita. Mexeu comigo.

Onde a gente está (Lô Borges e Márcio Borges)

Vejo a lua
No fim da estrada
Onde eu vou chegar
Ela clareia
E acompanha
Tudo que a noite traz

Quantas palavras
E madrugadas
Para você dizer
Que vem comigo
Nesta viagem longa
A hora vai passar
E temos que nos conhecer

Tudo acontece
Neste caminho
Por onde a gente vai
Sigo meu rumo
Canto ao redor do fogo

Luzes da alma
Jogam sementes
Nesta canção de amor
Bem cultivadas
Para nascer de novo

Dentro do peito
Abro a janela
Deixo o sol entrar
Nosso lugar
É onde a gente está

OUÇA AQUI

sábado, 17 de abril de 2010

Professores

Era uma vez três professores:

O primeiro chegava à sala atrasado, liberava a turma mais cedo, enrolava as aulas, mas dava nota boa para todo mundo no final (e, detalhe: o aluno podia faltar, que levava presença mesmo assim).

O segundo chegava e liberava a turma na hora certa, mas era um perfeito enrolador, batia papo demais (para ficar amigo dos alunos) e, quando dava aula, era um blá blá blá interminável de informações (cobradas na prova exatamente da forma como eram explicadas); não fazia chamada e, como o primeiro, dava notão para todo mundo.

O terceiro colocava os alunos para pensar, não dava nada mastigado, cobrava reflexão, fazia chamada todos os dias e corrigia as provas com muito rigor (provas difíceis, que cobravam raciocínio, análise), o que geralmente tinha como resultado um número significativo de notas baixas.

Agora vem a pergunta: os alunos normalmente iam à Coordenação para reclamar de qual professor?

quinta-feira, 8 de abril de 2010

On the Road

"Oh, cara! cara! cara!", balbuciou Dean. "E isso não é nem o começo - e agora finalmente estamos juntos indo para o Leste, nunca tínhamos ido para o Leste juntos, Sal, pensa nisso, vamos curtir Denver juntos e ver o que todos estão fazendo, mesmo que isso não nos interesse muito, a questão é que nós sabemos o que AQUILO significa e sacamos a VIDA e sabemos que tudo está ÓTIMO." Depois, me puxando pela manga, e suando horrores, ele me segredou: "Agora saca só esse pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir essa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão onde pretendem - e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles têm que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos puramente angustiados e angustiantes, suas almas realmente não terão paz a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles e eles sabem disso, e isso também os preocupa num círculo vicioso que não tem fim. Escuta só: 'Bem, agora'", imitou ele, "'não sei, talvez devêssemos parar para encher o tanque de gasolina ali naquele posto. Li recentemente no National Petroffious Petroleum News que esse tipo de gasolina tem grande quantidade de O-Octane e alguém já me falou que ela até possui um aditivo semi-oficial de alta potência e quem sabe... bem, não sei se deveríamos, acho que talvez...'. Cara, você também saca tudo isso". (p. 257-58)

(...)

Saímos de Sacramento com o sol raiando e na hora do almoço já estávamos cruzando o deserto de Nevada, depois de uma vertiginosa passagem pelas Sierras que obrigou a bichona e os turistas a se agarrarem uns aos outros no banco de trás. Agora íamos na frente, estávamos no comando. Dean estava feliz outra vez. Tudo o que ele precisava era de uma roda na mão e quatro na estrada. Falava de quão mal Old Bull Lee dirigia e fez umas demonstrações: "Sempre que aparece algum caminhão gigantesco e sobrecarregado como aquele que vem vindo ali, Old Bull leva um tempo interminável para percebê-lo porque não consegue enxergar direito. Ele simplesmente não vê". Apertou furiosamente os olhos para imitar a cara de Old Bull ao volante. "E eu dizia a ele: 'Ei, cuidado Bull, um caminhão'. E ele respondia: 'O quê? O que foi que você disse, Dean?' 'Caminhão, caminhão.' E no último segundo ele jogava o carro contra o caminhão, assim." E Dean se jogou com o Plymouth de encontro ao caminhão que avançava na direção oposta, dançando e rebolando à sua frente por um instante, dando tempo de ver a fúria na cara do caminhoneiro crescendo rapidamente à nossa frente, e o pessoal do banco de trás se encolhendo ofegante, arfando, todos horrorizados, e no último segundo Dean desviou. "Era bem assim, sabe, exatamente assim, oh, como ele dirigia mal." Eu não estava nem um pouco assustado; conhecia Dean. Mas o povo no banco de trás perdeu a voz. Na verdade, tinham medo de reclamar. Sabe-se lá Deus o que o Dean seria capaz de fazer se eles tivessem a audácia de reclamar, pensavam. Ele tocou o pé na tábua cruzando todo o deserto dessa maneira, fazendo várias demonstrações de como não dirigir, de como seu pai guiava seus calhambeques, como os grandes motoristas se lançam rápido demais no começo e acabam derrapando no fim da curva, e assim por diante." (p. 259)

(...)

"Oh, esses caipiras burros, estúpidos, tapados, jamais mudarão, são completa e absolutamente estúpidos. Chega o momento de agir e eles ficam paralisados, histéricos, assustados - nada os amedronta mais do que aquilo que querem (...)." (p. 265)

Jack Kerouac (1922-1969), On the Road (1957); tradução de Eduardo Bueno, Porto Alegre: L&PM, 2009

terça-feira, 6 de abril de 2010

Jack Kerouac

Perambulei catando baganas nas calçadas. Cruzei por um boteco na rua Market e a mulher que estava lá dentro me lançou um olhar terrível enquanto eu passava; era a proprietária, aparentemente ela pensou que eu fosse entrar ali armado de pistola e assaltar o botequim. Caminhei um pouco mais. Subitamente me ocorreu que ela tinha sido minha mãe uns duzentos anos atrás na Inglaterra e eu, seu filho salteador, retornando do cárcere para assombrar seu honesto ganha-pão na taverna. Enregelado pelo êxtase, estanquei na calçada. Olhei para a rua. Não conseguia saber se era mesmo a Market ou a rua do Canal em Nova Orleans; afinal ela ia dar na água, água ambígua e universal, exatamente como a rua 42 em Nova York, que também leva em direção à água, de modo que você nunca sabe bem onde está. Pensei no fantasma de Ed Dunkel se arrastando pela Times Square. Eu delirava. Quis voltar e dar uma espiada na minha estranha mãe dickensiana no boteco. Eu tremia da cabeça aos pés. Era como se um pelotão inteiro de memórias me conduzisse de volta a 1750, na Inglaterra, só que agora eu estava em São Francisco, em outra vida, noutro corpo. "Não", parecia gritar aquela mulher, com seu olhar aterrorizado, "não volte para atormentar sua mãe honesta e trabalhadora. Você já não é mais meu filho, assim como seu pai, meu primeiro marido. Aqui, esse grego generoso se apiedou de mim" (o proprietário era um grego de braços peludos). "Você é mau, com tendências à baderna e à bebedeira e, o que é pior, ao roubo infame dos frutos do meu humilde trabalho nesta taverna. Oh, filho! Você jamais se ajoelhou e rezou pela remissão de todos os seus pecados e más ações? Pobre menino! Suma daqui! Não amedronte mais meu espírito; eu fiz bem em te esquecer. Não reabra velhas feridas; que seja como você nunca tivesse voltado e me encarado - jamais houvesse visto minha humilde labuta, meus parcos centavos penosamente batalhados - os quais está sempre ávido para agarrar, sempre pronto para roubar, oh, desalmado, maldoso e sombrio filho da minha própria carne. Meu filho! Meu filho!" (...) E por um instante alcancei o estágio do êxtase que sempre quis atingir, que é a passagem completa através do tempo cronológico num mergulhar em direção às sombras intemporais, e iluminação na completa desolação do reino mortal e a sensação de morte mordiscando meus calcanhares e me impelindo para frente como um fantasma perseguindo seus próprios calcanhares, e eu mesmo correndo em busca de uma tábua de salvação de onde todos os anjos alçaram vôo em direção ao vácuo sagrado do vazio primordial, o fulgor potente e inconcebível reluzindo na radiante Essência da Mente, incontáveis terras-lótus desabrochando na mágica tepidez do céu. Eu podia ouvir um farfalhar indescritível que não estava apenas nos meus ouvidos, mas em todos os lugares, e não tinha nada a ver com sons. Percebi ter morrido e renascido incontáveis vezes, mas simplesmente não me lembrava justamente porque as transições da vida para a morte e de volta à vida são tão fantasmagoricamente fáceis, uma ação mágica para o nada, como adormecer e despertar um milhão de vezes na profunda ignorância, e em completa naturalidade. Compreendi que somente devido à estabilidade da Mente essencial é que essas ondulações de nascimento e morte aconteciam, como se fosse a ação do vento sobre uma lâmina de água pura e serena como um espelho. Senti uma satisfação suave, serpenteante como um tremendo pico de heroína numa veia principal; como aquele gole de vinho que te traz um arrepio de satisfação num fim de tarde; meus pés se arrepiaram. Pensei que ia morrer naquele exato instante. Mas não morri e caminhei uns sete quilômetros, catei dez longas baganas e as levei para o quarto de Marylou no hotel e derramei os restos de tabaco no meu velho cachimbo e o acendi (p. 215-17).

Jack Kerouac (1922-1969), On the Road (1957), trad. Eduardo Bueno, Porto Alegre: L&PM, 2009

segunda-feira, 5 de abril de 2010

George Michael e companhia

Eu tento (eu juro que eu tento!) mas não consigo gostar de música brasileira. MPB é pura depressão (e para quem tem tendência ao suicídio, é um perigo). O resto, com raras exceções, é porcaria, lixo comercial, mais nada.

Agora, os americanos, vamos respeitar, são mestres em fazer porcaria. São merdas dançantes, bem feitas, muito boas mesmo! Olha esta aqui, do George Michael: It's Amazing!

Os ingleses também não ficam atrás. Dê uma olhada nesta aqui, de uma bandinha inglesa de quinta categoria: Chain Reaction

E agora, de volta aos EUA, a mesma música na versão gay de Diana Ross: Chain Reaction

A gente não tem que tirar o chapéu para esse povo?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

On the Road

Aquela noite em Harrisburg tive de dormir num banco da estação ferroviária; ao amanhecer os bilheteiros me enxotaram. Não é verdade que você começa a vida como uma criancinha crédula sob a proteção paterna? E então chega o dia da indiferença, em que o cara descobre que é um desgraçado, um miserável, fraco, cego e nu, e com a aparência de um fantasma fatigado e fatídico avança trêmulo por uma vida de pesadelo. Me arrastei para fora da estação, desfigurado. Estava fora de mim. Daquela manhã tudo o que eu podia perceber era sua própria palidez, como a palidez de um túmulo. Eu estava morto de fome, tudo que me restava em termos calóricos eram as últimas pastilhas para a garganta que eu tinha comprado meses atrás em Shelton, Nebraska; chupei-as por causa do açúcar. Eu não sabia esmolar. Arrastei-me para fora da cidade com uma força que mal me permitiu chegar aos seus limites. Sabia que seria preso se passasse mais uma noite em Harrisburg (p. 139).

(...)

De repente, lá estava eu na Times Square. Tinha viajado doze mil quilômetros pelo continente americano e estava de volta à Times Square; e ainda por cima bem na hora do rush, observando com os meus inocentes olhos de estradeiro a loucura completa e o zunido fantástico de Nova York com seus milhões e milhões de habitantes atropelando uns aos outros sem cessar em troca de uns tostões, um sonho maluco - pegando, agarrando, entregando, suspirando, morrendo, e assim poderiam ser enterrados naquelas horrendas cidades-cemitério que ficam além de Long Island (p. 139-40).

(...)

Certa vez, Carlo Marx e eu nos sentamos frente a frente em duas cadeiras, joelho contra joelho, e eu lhe contei um sonho que tivera, com uma estranha figura árabe que me perseguia através do deserto; uma figura da qual eu tentava escapar mas que finalmente me alcançava pouco antes de chegar à Cidade Protetora. "Quem era"?, perguntou Carlo. Refletimos. Sugeri que talvez fosse eu mesmo vestindo um manto. Não era isso. Algo, alguém, algum espírito nos perseguia, a todos nós, através do deserto da vida, e estava determinado a nos apanhar antes que alcançássemos o paraíso. Naturalmente, agora que reflito sobre isso, trata-se apenas da morte: a morte vai nos surpreender antes do paraíso. A única coisa pela qual ansiamos em nossos dias de vida, e que nos faz gemer e suspirar e nos submetermos a todos os tipos de náuseas singelas, é a lembrança de uma alegria perdida que provavelmente foi experimentada no útero e que somente poderá ser reproduzida (apesar de odiarmos admitir isso) na morte (p. 159).

Jack Kerouac, On the Road - Pé na Estrada, Porto Alegre: L&PM, 2009 (Primeira edição em inglês: 1957)

segunda-feira, 29 de março de 2010

ON THE ROAD

Hoje, em Belo Horizonte, comprei o livro On the Road, de Jack Kerouac. Comecei a ler no ônibus, ainda na Via Expressa, e quando acordei do "transe" - depois de um intervalo que não me pareceu durar mais do que alguns minutos -, eu já chegava em Pará de Minas.

Que loucura foi essa?

Fui pesquisar, e entre outras coisas descobri que a versão original de On the Road foi escrita quando o autor tinha 29 anos, entre 9 e 27 de abril de 1951, "num rolo de papel para telex, num total de quarenta metros ininterruptos de prosa em espaço um sem parágrafo, com Kerouac aditivado por doses colossais de benzedrina, suando uma camiseta atrás da outra, datilografando como um alucinado doze mil palavras quatorze horas por dia, movido por aquilo que o poeta Lawrence Ferlinghetti certa vez chamou de febre onívora de observação" (Eduardo Bueno, tradutor da obra de Kerouac).

Mensagem aos professores

A memória não carrega conhecimentos que não fazem sentido e não podem ser usados. Ela funciona como um escorredor de macarrão. Um escorredor de macarrão tem a função de deixar passar o inútil e guardar o útil e prazeroso. Se foi esquecido é porque não fazia sentido. Por isso acho inúteis os exames oficiais (inclusive os vestibulares) que se fazem para avaliar a qualidade do ensino. Eles produzem resultados mentirosos por serem realizados no momento em que a água ainda não escorreu. Eles só diriam a verdade se fossem feitos muito tempo depois, depois do esquecimento haver feito o seu trabalho. O aprendido é aquilo que fica depois que tudo foi esquecido... Vestibulares: tanto esforço, tanto sofrimento, tanto dinheiro, tanta violência à inteligência... O que sobra no escorredor de macarrão, depois de transcorridos dois meses? O que restou no seu escorredor de macarrão de tudo o que você teve de aprender? Duvido que os professores de cursinhos passem nos vestibulares. Duvido que um professor de português se saia bem em matemática, física, química e biologia... Eles também esqueceram. Duvido que os professores universitários passem nos vestibulares. Eu não passaria. Então, por que essa violência que se faz sobre os estudantes? (...)

Freqüentei escolas por dezessete anos: quatro anos no curso primário, um no curso de admissão, quatro no ginásio, três no curso científico e cinco no curso superior. Multipliquei o número de meses, pelo número de dias, pelo número de horas, pelo número de anos: cheguei ao número 16.320 – o número de horas que passei assentado em carteiras ouvindo as coisas que os professores tentavam me ensinar. É claro que esse número deve estar errado. Seja. De qualquer forma, é muito tempo o tempo de vida que se passa assentado nos bancos escolares. O que sobrou? (...)

Não me lembro das classificações das rochas. Lembro-me dos nomes “dolomitas” e “piroclásticas”, mas não sei o que significam. Esqueci-me do “crivo de Erastóstenes”. Não sei fazer raiz quadrada. Não sei onde se encontra a serra da Mata da Corda. Também me esqueci das dinastias dos faraós e dos nomes dos imperadores romanos. Lembro-me do princípio de Arquimedes, mas não sei a lei de Avogadro. Não aprendi Latim, o que me causa grande dor porque Latim é música. Sei pouquíssimo de análise sintática, o que não me faz falta para escrever. Escrevo com meu ouvido. Acho que dos 100% de saberes que as escolas tentaram enfiar dentro de mim só sobrariam uns 10%. Você depositaria suas economias mensalmente, num fundo de investimento, por dezessete anos, se você soubesse que depois desses dezessete anos você iria receber só 10% do que você depositou?

Rubem Alves

Fonte: A casa de Rubem Alves

quarta-feira, 24 de março de 2010

Dreamer

Quando eu ouvia tocar nas rádios aquele monte de porcarias comerciais descartáveis que se enquadravam nas rubricas Axé, Sertanejo ou Pagode, com aquelas vozes que pareciam uma só, de tão comuns, eu me lembrava da voz única, inigualável, mágica e arrebatadora de Roger Hodgson, vocalista do Supertramp. Que diferença!

Mas gosto não se discute.

terça-feira, 23 de março de 2010

Re-animator

Um dos filmes de terror mais arrepiantes que eu já assisti em minha vida. Não sei qual impacto ele teria sobre mim hoje, mas quando o vi pela primeira vez, em 1986, foi simplesmente ATERRORIZANTE!

A música de abertura é claramente inspirada na trilha de Psicose, de Bernard Herrmann: OUÇA AQUI

Re-animator Original trailer: AQUI

segunda-feira, 22 de março de 2010

Crepúsculo

O espetáculo acima eu assisto todos os dias da sacada dos fundos da minha casa. Essa foto eu tirei às 18:30.

Sob as luzes do crepúsculo, Pará de Minas.

sábado, 13 de março de 2010

Gaiolas

Somos assim: sonhamos o vôo, mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o vôo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.

É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que eles voariam se as portas estivessem abertas. A verdade é o oposto. Não há carcereiros. Os homens preferem as gaiolas aos vôos. São eles mesmos que constroem as gaiolas em que se aprisionam.

Rubem Alves, Correio Popular, 22/05/2005

domingo, 7 de março de 2010

O poder das imagens

O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo. Meu amigo Lisâneas Maciel, no meio de uma campanha eleitoral, me dizia que estava difícil porque o outro candidato a deputado estadual estava comprando votos a troco de franguinhos da Sadia. E a democracia se faz com os votos do povo. Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Na verdade, quem decide as eleições são os produtores de imagens. Os partidos tratam de comprar, a preço de ouro, os melhores produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o melhor produtor de imagens... O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos, isto é, aqueles que, em meio à irracionalidade coletiva, continuam a pensar. Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo. Outra coisa são as práticas de engano pelas quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

Rubem Alves

Fonte: A casa de Rubem Alves

sábado, 6 de março de 2010

Poema esquisito

Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa. Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros
porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia.

Adélia Prado

sexta-feira, 5 de março de 2010

Reconciliation

WORD over all, beautiful as the sky!
Beautiful that war, and all its deeds of carnage, must in time be utterly lost;
That the hands of the sisters Death and Night, incessantly softly wash again, and ever
again,
this
soil’d world:
...For my enemy is dead — a man divine as myself is dead;
I look where he lies, white-faced and still, in the coffin—I draw near;
I bend down, and touch lightly with my lips the white face in the coffin.

Walt Whitman (1819-1892)

terça-feira, 2 de março de 2010

Ninguém morre antes da hora

Ninguém morre antes da hora. O que deixais de tempo não era mais vosso do que o tempo que se passou antes do vosso nascimento; e tampouco vos importa. Termine a vossa vida quando terminar, ela aí está inteira. A utilidade do viver não está no espaço de tempo, está no uso. Uma pessoa viveu longo tempo e no entanto pouco viveu; atentai para isso enquanto estais aqui. Terdes vivido o bastante depende da vossa vontade, não do número de anos. Pensáveis nunca chegar aonde estáveis indo incessantemente? E no entanto não há caminho que não tenha o seu fim. E, se a companhia vos pode consolar, não vai o mundo no mesmo passo em que ides? Todas as coisas seguir-vos-ão na morte (Lucrécio). Tudo não dança a vossa dança? Há coisa que não envelheça convosco? Mil homens, mil animais e mil outras criaturas morrem nesse mesmo instante em que morreis: Pois nunca a noite sucedeu ao dia, nem a aurora à noite, sem ouvir, mesclados aos vagidos da criança, os gritos de dor que acompanham a morte e os negros funerais (Lucrécio).

Michel de Montaigne (1533-1592), Ensaios

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Livros tristes

É diferente a impressão que nos produzem os livros tristes; a ti entristecem-te e a mim alegram-me. Para os verdadeiros desgraçados, é sempre motivo de felicidade a desgraça dos outros; só os livros alegres e cheios de vida e de sol é que me entristecem, como tudo que é feliz. Eu odeio os felizes, sabes? Odeio-os do fundo da minha alma, tenho por eles o desprezo e o horror que se tem por um réptil que dorme sossegadamente. Eu não sou feliz mas nem ao menos te sei dizer porquê. Nasci num berço de rendas rodeada de afectos, cresci despreocupada e feliz, rindo de tudo, contente da vida que não conhecia, e de repente, amiga, no alvorecer dos meus 16 anos, compreendi muita coisa que até ali não tinha compreendido e parece-me que desde esse instante cá dentro se fez noite. Fizeram-se ruínas todas as minhas ilusões, e, como todos os corações verdadeiramente sinceros e meigos, despedaçou-se o meu para sempre. Podiam hoje sentar-me num trono, canonizar-me, dar-me tudo quanto na vida representa para todos a felicidade, que eu não me sentiria mais feliz do que sou hoje. Falta-me o meu castelo cheio de sol entrelaçado de madressilvas em flor; falta-me tudo que eu tinha dantes e que eu nem sei dizer-te o que era... É esta a história da minha tristeza. História banal como quase toda a história dos tristes. Mesmo que a quisessem pôr em romance, não dava para duas páginas; para folhetim também não serve porque lhe falta o enredo, serve só para te maçar, minha querida, não é verdade? Tu ainda tens medo dos livros que te fazem chorar... Pois, olha, dizem que a felicidade dos tristes são as lágrimas; eu creio-o bem... (1916).

A morte, talvez... esse infinito, esse total e profundo repouso; não me queira tirar a certeza de que ela é tudo isto: seria uma maldade, quase um crime. Pense bem: eu, que não sei o que é dormir uma noite inteira, dormir muitas, dormir todas e todos os dias e todos os anos, pelos séculos dos séculos! Só esta ideia me faz sorrir. Deve ser tão bom! (1930).

Florbela Espanca (1894-1930), Correspondência

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Stupeur et Tremblements

Récapitulons, petite je voulais devenir Dieu. Très vite, je compris que c’était trop demander et je mis un peu d’eau bénite dans mon vin de messe: je serais Jésus. J’eus rapidement conscience de mon excès d’ambition et acceptai de « faire » martyre quand je serais grande. Adulte, je me résolus à être moins mégalomane et à travailler comme interprète dans une société japonaise. Hélas, c’était trop bien pour moi et je dus descendre un échelon pour devenir comptable. Mais il n’y avait pas de frein à ma foudroyante chute sociale. Je fus mutée au poste de rien du tout. Malheureusement - j’aurais dû m'en douter - rien du tout, c’était encore trop bien pour moi. Et ce fus alors que je reçus mon affectation ultime: nettoyeuse de chiottes.

Amélie Nothomb, Stupeur et tremblements, Albin Michel, 1999

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O exílio

Estados Unidos, década de 80

Numa das minhas primeiras declarações, logo depois de sair de Cuba, afirmei: "A diferença entre o sistema comunista e o capitalista é que, embora os dois nos deem um chute na bunda, no sistema comunista a gente leva o chute e tem que bater palmas; no capitalista, a gente também leva, mas pode gritar. E vim aqui para gritar". (p. 342)

Nos poucos meses que passei em Miami, não consegui encontrar um só instante de tranquilidade. Vivi cercado de fofocas constantes e confusões, e de uma infinita sucessão de coquetéis, festas e convites. Era como viver num mostruário, uma estranha criatura que precisava ser convidada antes de perder o brilho, antes de chegar um novo personagem que me desbancasse. Não tinha paz para trabalhar e muito menos para escrever. Quanto à cidade - aliás, não é uma cidade e sim um amontoado de casas espalhadas, um povoado de cowboys, onde o cavalo fora substituído pelo automóvel -, ela me assustava. Estava acostumado com uma cidade com ruas e calçadas, uma cidade deteriorada, mas onde era possível andar e entender seu mistério, até mesmo desfrutar esse encanto. Agora, encontrava-me num mundo plástico, carente de mistério, e cuja solidão acabava sendo mais agressiva. Por isso mesmo, comecei logo a sentir saudades de Cuba, da cidade velha de Havana, mas minhas lembranças ruins foram mais poderosas que qualquer saudade. (p. 347)

Estava descobrindo uma fauna que nunca vira em Cuba: os comunistas de luxo. Lembro-me que, no meio de um banquete na Universidade de Harvard, um professor alemão me disse: "De certa forma, entendo que você possa ter sofrido, mas sou um grande admirador de Fidel Castro e estou muito satisfeito com tudo o que fez em Cuba". Enquanto dizia isso, o professor alemão tinha um prato cheio de comida à sua frente. Respondi: "Acho ótimo que admire Fidel Castro, mas, nesse caso, não pode continuar comendo todo esse prato, porque nenhum cubano, exceto o alto comando, pode comer tanto assim". Peguei o prato e o atirei contra a parede. (p. 343)

Sabia que não poderia viver em Miami. Assim, hoje, passados dez anos, percebo que para um exilado não existe nenhum lugar onde possa viver; não existe nenhum lugar, porque aquele lugar com o qual sonhamos, onde descobrimos uma paisagem, lemos nosso primeiro livro, tivemos a primeira aventura amorosa, continua sendo o lugar sonhado. No exílio, ele não passa de um fantasma, a sombra de alguém que nunca consegue alcançar sua completa realidade. Deixei de existir desde que cheguei no exílio; a partir de então, comecei a fugir de mim mesmo. (p. 348)

(...) nunca me considerei nem de esquerda nem de direita; também não quero ser rotulado de político oportunista; sempre digo a minha verdade, assim como um judeu que tenha sofrido com o racismo ou um russo que tenha ficado no Gulag, ou qualquer ser humano que tenha olhos para enxergar as coisas exatamente como são: grito, logo existo. (p. 357)


Reinaldo Arenas, Antes que anoiteça, Edições BestBolso, Rio de janeiro: 2009.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Reinaldo Arenas

Escritor cubano nacido cerca de Holguín (Aguas Claras), donde creció comiendo tierra junto a su abandonada madre y su abuela que orinaba de pie. Empezó a escribir a los 13 años, aunque la llegada de la Revolución, a la que se sumó como guerrillero, retrasó su vocación hasta 1963, cuando ingresó en la Biblioteca Nacional y redactó Celestino antes del alba. Conoció y entabló amistad con Piñera y Lezama Lima. Su libro El mundo alucinante fue prohibido por contrarrevolucionario, y a partir de ese momento y en adelante tuvo que esconder sus manuscritos. Otra vez el mar, que ocultó bajo tierra y en el tejado, fue hallado y destruido, pero lo rehizo tres veces. El ambiente en Cuba se enrarecía: la campaña de la Zafra de los Diez Millones, en la que el escritor fue obligado a contribuir cortando caña en una plantación, y las torturas al poeta disidente Heberto Padilla fueron para Arenas síntomas de su arriesgada situación, que trató de paliar al casarse con la actriz Ingrávida González. En 1973 lo detuvieron por contrarrevolucionario y traicionado en su huida por su amigo Coco Salá, fue conducido al cuartel de Miramar, desde donde trató de salir de la isla en un neumático. Fracasó, como cuando quiso huir por Guantánamo, donde estuvo a punto de ser ametrallado. Durante dos meses se refugió entre la vegetación del Parque Lenin, hasta que la policía lo encerró en el castillo del Morro: dos años entre palizas e intentos de suicidio. Tras perder dos dientes, trabajar como forzado y confesar por escrito para evitar torturas, obtuvo la libertad. En los cinco años siguientes asistió a las muertes de sus amigos Lezama Lima y Piñera, se enamoró del joven Lázaro Gómez y saqueó un convento para sobrevivir. Hasta que se unió a los marielitos y falsificó a mano su pasaporte para convertirse en Reinaldo Arinas y eludir la lista de los que no podían salir del país. En 1980 consiguió huir de Cuba y se trasladó a Miami. Muchos intelectuales le dieron la espalda, y aprendió que un exiliado sin dinero no era nadie. Arenas paseó 10 años su grito por Venezuela, Francia, Portugal, Suecia, Dinamarca y España. En Estados Unidos, donde colaboró en la revista Mariel desde su fundación en 1983 hasta su cierre en 1987, acabó el repaso a su vida que había iniciado 17 años antes en el Parque Lenin. Reynaldo Arenas se suicidó el 7 de diciembre de 1990.

Textro extraído do site El Poder de la Palabra

Nos posts a seguir, dois trechos do livro Antes que anoiteça, de Reinaldo Arenas

Antes que anoiteça

Cuba, década de 70

Felizmente, durante todos esses anos, minha amizade com Jorge e Margarita Camacho foi indestrutível. Eles sempre deram um jeito para que eu recebesse uma carta de consolo e, muitas vezes, através de algum turista francês, mandavam-me uma camisa, um par de sapatos, um lenço ou um perfume. Esses presentes se tornaram um símbolo de vida para mim, só pelo fato de terem chegado de uma região livre; tinham até um cheiro diferente; até certo ponto isso me tornava um pouco mais livre também, me colocando em contato com um mundo onde ainda era possível respirar. O mais impressionante de tudo, porém, era quando um daqueles turistas, a quem tínhamos contado nossos horrores, voltava para casa. Aquela pessoa transformava-se, para nós, numa espécie de ser mágico pelo único fato de poder pegar um avião e sair de Cuba, sair daquela cadeia. Com que inveja víamos Olga atravessando a barreira de vidro, só possível de ser transposta por quem tivesse uma licença especial de saída, ou pelos estrangeiros que vinham visitar o país. Olga se perdia por trás daquelas vidraças, e corríamos todos até o terraço, de onde podíamos vê-la subindo a escada do avião. Era um prazer imenso poder pensar em subir no avião e deixar aquele inferno para trás. Quando o avião começava a subir, nós o víamos desaparecer entre as nuvens, lotado de gente que podia ir embora, não ligar para tudo o que se passava aqui, dizer o que bem quisesse, comprar um par de sapatos novos. Mas nós ficávamos ali mesmo, formando uma imensa fila para pegar a condução que nos levaria para Havana, olhando para nossas calças de tecido grosseiro e nossa pele ressecada pelo sol e falta de vitaminas.

Trecho extraído do livro Antes que anoiteça, autobiografia escrita pelo escritor cubano Reinaldo Arenas, que se matou no exílio em 1990. [Editora BestBolso, Rio de Janeiro, 2009. p. 178].

O caso Padilla

Cuba, 1971

A Segurança do Estado escolheu Heberto Padilla como bode expiatório. Padilla tinha sido o poeta irreverente que se atrevera a apresentar, para um concurso oficial, um livro crítico intitulado Fuera del juego.

No exterior já se tornara uma atração internacional, e era necessário portanto destruí-lo, assim como todos os outros intelectuais cubanos que tivessem atitudes semelhantes.

Em 1971, Padilla foi preso com sua esposa, Belkis Cuza Malé. Foi trancado numa cela, ameaçado e surrado; trinta dias depois, saiu daquela cela transformado em farrapo humano. Quase todos os intelectuais cubanos foram convidados pela Segurança do Estado, por intermédio da UNEAC, a ouvir Padilla. Sabíamos que estava preso, e ficamos surpresos com sua aparição. Lembro-me de que a UNEAC estava rigorosamente vigiada por policiais em trajes civis; só podiam entrar para ouvir Padilla as pessoas que constassem de uma lista, minuciosamente checada. A noite em que Padilla fez sua confissão foi uma noite sinistra e inesquecível. Aquele homem vital, que escrevera lindos poemas, arrependia-se de tudo o que havia feito, de toda a sua obra anterior, renegando a si próprio, intitulando-se de covarde, miserável e traidor. Dizia que durante o tempo em que estivera preso pela Segurança do Estado entendera a beleza da revolução e escrevera poemas dedicados à primavera. Padilla não apenas se retratava de toda a sua obra anterior, como também delatava publicamente todos os seus amigos e até sua esposa, os quais, segundo ele, também tiveram uma atitude contrarrevolucionária. Padilla dava o nome de todas essas pessoas, uma por uma: José Yanes, Norberto Fuentes, Lezama Lima. Mas Lezama recusou-se a assistir àquela retratação. Enquanto Padilla continuava citando os escritores "contrarrevolucionários", Virgilio Piñera levantou-se da cadeira e sentou-se no chão para que não o vissem. Todas as pessoas citadas como contrarrevolucionárias por Padilla, entre socos no peito e lágrimas nos olhos, tinham que ir até o microfone perto de Padilla, assumir sua culpa e reconhecer que eram abjetos traidores do sistema. Tudo foi filmado pela Segurança do Estado e o filme percorreu todos os meios intelectuais do mundo, sendo exibido especialmente a todos aqueles que haviam assinado uma carta em protesto contra a prisão injusta de Padilla. Entre esses estavam Mario Vargas Llosa, Octavio Paz, Juan Rulfo e inclusive o próprio García Márquez, hoje transformado numa das estrelas mais importantes de Fidel Castro.

Trecho extraído do livro Antes que anoiteça, do escritor cubano Reinaldo Arenas, que se matou no exílio em 1990. [Editora BestBolso, Rio de Janeiro, 2009. p. 172-174].

Reinaldo Arenas nasceu em Cuba, em 1943, e faleceu nos Estados Unidos, em 1990.

Heberto Padilla nasceu em Cuba, em 1932, e faleceu nos Estados Unidos, em 2000.

Filhos

Hoje meu filho de um ano estava deitado em meu colo, preparando-se para dormir. Com seus olhinhos pretos e brilhantes, me encarava com atenção, enquanto explorava meu rosto, meus lábios, minha orelha e meus óculos com dedinhos ávidos de conhecimento. Ele me olhava, tranqüilo e sereno, chupando seu biquinho com enorme prazer. Aos poucos seus olhinhos foram se fechando e eu pude sentir seu corpo se aconchegar em meus braços e em meu peito. Foi então que eu pensei: o que significam as noites sem dormir, o cansaço, os choros, as birras, o trabalho e toda a despesa que temos que suportar para criar e educar nossos filhos diante desse amor inigualável?

Flávio Marcus da Silva, fevereiro de 2010

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Saúde Mental

Excelente texto de Rubem Alves:

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se. Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é uma coisa muito perigosa... Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente “equipamento duro”, e a outra denomina-se software, “equipamento macio”. O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades “espirituais” - símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo “espirituais”, sendo que o programa mais importante é a linguagem. Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.

Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou.

Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias. Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o rock pode ser tomado à vontade. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento.

Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato. Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram.

Rubem Alves

Na imagem acima, o auto-retrato de Van Gogh

domingo, 31 de janeiro de 2010

O que eu queria era uma caverna...

Os três ou quatro primeiros dias na Mears-Starbuck transcorreram de maneira idêntica. De fato, rotina era uma coisa da qual dependia todo o funcionamento da loja. O sistema de castas era universalmente aceito. Não havia um vendedor sequer que falasse com um funcionário do estoque mais do que uma ou duas palavras superficiais. E isso me afetava. Pensava nisso enquanto empurrava meu carrinho. Era possível que os vendedores fossem mais inteligentes que o pessoal do estoque? Eles certamente se vestiam melhor. Incomodava-me o fato de que considerassem que suas posições valessem tanto assim. Talvez, se eu fosse um vendedor, me sentisse da mesma maneira. Eu não dava muita bola para os funcionários do estoque. Nem para os vendedores.

Agora, pensei, empurrando meu carrinho, tenho esse emprego. É assim que as coisas devem ser? Não é de espantar que homens assaltem bancos. Há muitos trabalhos por demais aviltantes. Por que, diabos, eu não era um juiz de uma corte superior ou um pianista de concerto? Porque isso exigia treinamento e treinamento custava dinheiro. Mas, de qualquer forma, eu não queria ser nada na vida. E nisso, certamente, eu estava sendo bem sucedido.

Empurrei meu carrinho até o elevador e apertei o botão.

As mulheres queriam homens que ganhassem dinheiro, as mulheres queriam homens de estirpe. Quantas mulheres de classe viviam com vagabundos de cortiço? Bem, eu não queria uma mulher mesmo. Não para viver junto comigo. Como os homens podiam viver com mulheres? O que isso significava? O que eu queria era uma caverna no Colorado com um estoque de comida e bebida para três anos. Limparia minha bunda com areia. Qualquer coisa, qualquer coisa que me salvasse do afogamento desta existência trivial, covarde e estúpida (p. 231-32).

Trecho extraído do livro Misto-quente, de Charles Bukowski (Porto Alegre: L&PM, 2009)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Misto-quente

Podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisas simples, participar de piqueniques em família, festas de Natal, 4 de julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães...afinal, é para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia de sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidão de um cubículo e beber até dormir. (p. 212)


Durante o jantar naquela noite, minha mãe disse:
- Henry, estou tão orgulhosa por você ter conseguido um emprego!
Não respondi.
Meu pai disse:
- Bem, você não está feliz de ter conseguido um emprego?
- É.
- É? É isso que tem a dizer? Você tem noção de quantos homens estão desempregados no país neste momento?
- Um monte, eu acho.
- Então você deveria estar agradecido.
- Escute, será que não podíamos apenas comer em paz?
- Você deveria ser grato por esta comida também. Tem idéia de quanto custa esta refeição?
Afastei meu prato.
- Merda! Não consigo comer esta coisa!
Levantei-me e fui para o meu quarto.
- Estou pensando em aparecer lá depois para lhe dar uma lição!
Parei.
- Estarei esperando, velho.
Então me afastei. Entrei no quarto e esperei. Mas sabia que ele não ia vir. Ajustei o despertador para chegar à Mears-Starbuck na hora certa. Ainda eram sete e meia, mas tirei a roupa e fui para a cama. Apaguei a luz e fiquei no escuro. Não havia nada mais a ser feito, nenhum lugar para ir. Meus pais logo estariam na cama, as luzes apagadas.
Meu pai gostava do ditado: "Dormir cedo e levantar cedo faz um homem ter saúde, dinheiro e bom senso".
Este hábito, contudo, não lhe havia trazido nenhum desses benefícios. Decidi que eu deveria tentar reverter o processo.
Não conseguia dormir.
Talvez se me masturbasse pensando na srta. Meadows?
Vulgar demais.
Fiquei ali, chafurdando na escuridão, esperando que algo acontecesse. (p. 230-31)


Reunidos ao meu redor estavam os fracos em vez dos fortes, os feios em vez dos belos, os perdedores em vez dos vencedores. Era como se meu destino fosse cruzar a vida em companhia deles. Isto não me incomodava tanto quanto o fato de que para esses cretinos, para esses companheiros idiotas, eu era um cara irresistível. Eu era como um monte de bosta que atraía moscas em vez de ser uma flor desejada por borboletas e abelhas. Eu queria viver sozinho, me sentia melhor assim, mais limpo; no entanto, eu não era esperto o suficiente para me livrar deles. Talvez eles fossem meus mestres: pais de outra maneira. De qualquer forma, era duro agüentá-los ao meu redor enquanto comia meus sanduíches à bolonhesa. (p. 169)

Trechos extraídos do livro Misto-quente, de Charles Bukowski. Porto Alegre: L&PM, 2009.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A magia das palavras

Eu lia um livro por dia. Li todo o D. H. Lawrence disponível na biblioteca (...) E então veio Hemingway. Que emoção! Ele sabia como escrever uma frase. Era um prazer. As palavras não eram tolas, as palavras eram coisas que podiam fazer sua mente zunir. Se você as lesse e deixasse que sua mágica operasse, era possível viver sem dor, sem esperança, independente do que pudesse lhe acontecer.

Charles Bukowski, Misto-quente (1982). Porto Alegre: L&PM, 2009, p. 166.
Na foto acima, o escritor americano Ernst Hemingway (1899-1961)

Confissão

esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama

sinto muita pena de
minha mulher

ela vai ver este
corpo
rijo e
branco

vai sacudi-lo e
talvez
sacudi-lo de novo:

“Henry!”

e Henry não vai
responder.

não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.

no entanto,
eu quero que ela
saiba
que dormir
todas as noites
a seu lado

e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas

e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora
ser ditas:

eu
te amo.

Charles Bukowski (1920-1994)