domingo, 16 de outubro de 2016

As pessoas parecem flores finalmente


"que cantoria prossegue nas
ruas –
as pessoas parecem flores
finalmente

a polícia guardou suas
insígnias
o exército rasgou seus uniformes e
destroçou suas armas. não há mais necessidade de
cadeias ou jornais ou hospícios ou
trancas nas portas.

uma mulher vem correndo até minha porta
ME COMA! ME AME!
ela grita.

ela é bela como um charuto
depois de jantar um bom filé. eu
a possuo.

mas depois de sua partida
eu me sinto esquisito
tranco a porta
vou à escrivaninha e pego a pistola
da gaveta. ela tem seu próprio senso de
amor.
AMOR! AMOR! AMOR! a multidão canta nas
ruas.

eu atiro pela janela
o vidro corta meu rosto e
braços. acerto um garoto de 12 anos
um velho de barba
e uma adorável moça algo parecida a uma
violeta.

a multidão para de cantar para
me olhar.
estou parado na janela quebrada
o sangue em meu
rosto.

'isso', eu grito para eles, 'é em defesa da
pobreza de si mesmo e em defesa da liberdade
de não amar!'

'deixe-o em paz', alguém diz,
'ele está louco, viveu uma vida ruim por
tempo demais.'

entro na cozinha
sento-me e encho um
copo de uísque.

resolvo que a única definição da
Verdade (que muda)
é ela ser a única coisa ou ato ou
crença que a multidão
rejeita.

estão socando minha
porta. é a mesma mulher de novo.
ela é tão bela como encontrar um
sapo verde e gordo no
jardim.

eu tenho 2 balas restantes e
uso
ambas.

nada no ar a não ser
nuvens. nada no ar a não ser
chuva. a vida de cada homem é curta demais para
encontrar sentido e
todos os livros quase um
desperdício.

sento e os ouço
a cantar.
sento e os
ouço."

Charles Bukowski (1920-1994). As pessoas parecem flores finalmente. Porto Alegre: L&PM, 2015, p. 25, 26 e 27

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Mediocridade

"Toda a vida bem vivida, harmoniosamente vivida, vivida sem faltas, sem manchas, com felicidade, com serenidade, é uma vida medíocre. Tudo o que passe do medíocre tem em si o excesso e o erro."

Agostinho da Silva (1906-1994), poeta português

Insane

"...psychotherapists may become the new spiritual leaders of mankind. A disaster. Goethe was afraid the modern world might turn into a hospital. Every citizen unwell. The same point in 'Knock' by Jules Romains. Is hypochondria a creation of the medical profession? According to this author, when culture fails to deal with the feeling of emptiness [...] other agents come forward to put us together with therapy, with glue, or slogans, or spit, or as that fellow Gumbein the art critic says, poor wretches are recycled on the couch. This view is even more pessimistic than the one held by Dostoievski's Grand Inquisitor who said: mankind is frail, needs bread, cannot bear freedom but requires miracle, mystery, and authority. A natural disposition to feelings of emptiness and panic is worse than that. Much worse. What it really means is that we human beings are insane."

Saul Bellow (1915-2005). Humboldt's Gift (1975). London: Penguin Books, 2008, p. 177

Light

"...I speak as a person who had lately received or experienced light. I don't mean 'The light'. I mean a kind of light-in-the-being, a thing difficult to be precise about [...]. And this light, however it is to be described, was now a real element in me, like the breath of life itself. I had experienced it briefly, but it had lasted long enough to be convincing and also to cause an altogether unreasonable kind of joy. Furthermore, the hysterical, the grotesque about me, the abusive, the unjust, that madness in which I had often been a willing and active participant, the grieving, now had found a contrast. I say 'now' but I knew long ago what this light was. Only I seemed to have forgotten that in the first decade of life I knew this light and even knew how to breathe it in. But this early talent or gift or inspiration, given up for the sake of maturity or realism (practicality, self-preservation, the fight for survival), was now edging back. Perhaps the vain nature of ordinary self-preservation had finally become too plain for denial. Preservation for what?".

Saul Bellow (1915-2005). Humboldt's Gift (1975). London: Penguin Books, 2008, p. 179

Pesadillas


"Por las noches me costaba dormir. Tenía pesadillas. Antes de meterme en la cama me aseguraba de que las puertas y las ventanas de mi habitación estuvieran herméticamente cerradas. Se me secaba la boca y la única solución era beber agua. Me levantaba continuamente e iba al baño a llenarme el vaso con agua. Ya que estaba levantado aprovechaba para comprobar una vez más si había cerrado bien la puerta y las ventanas. A veces me olvidaba de mis aprensiones y me quedaba junto a la ventana observando el desierto de noche. Luego volvía a la cama y cerraba los ojos, pero como había bebido tanta agua no tardaba en levantarme de nuevo, esta vez para orinar. Y ya que me había levantado volvía a comprobar las cerraduras de la habitación y volvía a quedarme quieto escuchando los ruidos lejanos del desierto (motores en sordina, coches que iban hacia el norte o hacia el sur) o mirando la noche a través de la ventana. Hasta que amanecía y entonces por fin podía dormir algunas horas seguidas, dos o tres como mucho."

Roberto Bolaño (1953-2003). Putas asesinas (2001), Barcelona: Anagrama, 2001, p. 29

Ler

"Leituras que arrastam leituras, páginas que se desdobram, em um desfiladeiro sem fim. Nenhum método, nenhuma teoria, nenhum 'projeto'. Tudo muito distante de qualquer rigor. Nenhuma direção fixa, nenhum 'objetivo'. Nada parecido. Só o prazer de ler sem parar e, sem parar, entregando-me ao sabor das palavras, misturando, até que se dissolvam uma na outra, literatura e vida. É como gosto de ler."

José Castello. Orgulho e vaidade. In: Pernambuco - Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado

Sobre Educação


"Ninguém mais tem a liberdade de dar uma educação nobre aos seus filhos na Alemanha atual: nossas escolas 'superiores', com seus professores, com seus planos e metas de ensino, estão todas orientadas para a mediocridade mais ambígua. E por toda parte reina uma pressa indecorosa, como se alguma coisa houvesse se perdido se o jovem ainda não estivesse 'pronto' aos 23 anos, se ainda não soubesse responder à 'pergunta capital': qual profissão? - Homens de um tipo superior, se me permitem dizê-lo, não gostam de 'profissões', precisamente porque sabem que têm vocações... Eles têm tempo, tomam tempo para si, de modo algum pensam em ficar 'prontos' - com trinta anos, no sentido de uma cultura superior, se é um iniciante, uma criança - Nossos ginásios superlotados, nossos professores ginasiais sobrecarregados, estupidificados, são um escândalo: para defender essa situação, como fizeram recentemente os professores de Heidelberg, talvez haja causas - razões para tanto não há."

Friedrich Nietzsche (1844-1900). Crepúsculo dos ídolos. Porto Alegre: L&PM, 2015,´p. 71-72

I

"We turned into Forty-seventh Street, the boundary between rich man's Kenwood and poor man's Oakwood, passing the locked tavern which lost its license because a fellow had gotten twenty stab wounds there over a matter of eight dollars. This was what Cantabile meant by 'crazy buffaloes'. Where was the victm? He was buried. Who was he? Nobody could tell you. And now others, casually regardant, passed the place in automobiles still thinking of an 'I', and of the past and the prospects of this 'I'. If there was nothing in this but some funny egoism, some illusion that fate was being outwitted, avoidance of the reality of the grave, perhaps it was scarcely worth the trouble. But that remained to be seen."

Saul Bellow (1915-2005). Humboldt's Gift (1975). London: Penguin Books, 2008, p. 190-191

Naturaleza

“...la naturaleza es la naturaleza, Max, desengáñate, y estará siempre ahí, como un misterio irremediable, y no me refiero a los bosques que se queman sino a las neuronas que se queman y al lado izquierdo o al lado derecho del cerebro que se quema en un incendio de siglos y siglos.”

Roberto Bolaño (1953-2003). Putas asesinas (2001), Barcelona: Anagrama, 2001, p. 119

Reino del futuro

“...algo en ti me llamó la atención, tu cara, tus ojos que miraban hacia el lugar en donde estaba la cámara (probablemente sin saber que te estaban grabando y que en nuestras casas te veíamos), unos ojos sin profundidad, distintos de los ojos que tienes ahora, infinitamente distintos de los ojos que tendrás dentro de un rato, que miraban la gloria y la felicidad, los deseos saciados y la victoria, esas cosas que sólo existen en el reino del futuro y que más vale no esperar pues nunca llegan.”

Roberto Bolaño (1953-2003). Putas asesinas (2001), Barcelona: Anagrama, 2001, p. 113

Talent

“Suppose then that you began with the proposition that boredom was a kind of pain caused by unused powers, the pain of wasted possibilities or talents, and was accompanied by expectations of the optimun utilization of capacities. […] Modern French literature is especially preoccupied with the theme of boredom. Stendhal mentioned it on every page, Flaubert devoted books to it, and Baudelaire was its chief poet. What is the reason for this peculiar French sensitivity? Can it be because the ‘ancien régime’, fearing another Fronde, created a court that emptied the provinces of talent?”

Saul Bellow (1915-2005). Humboldt's Gift (1975). London: Penguin Books, 2008, p. 201

Desmesura

"Me sobrevino la muerte en una discoteca de París a las cuatro de la mañana. Mi médico me lo había advertido pero hay cosas que son superiores a la razón. Erróneamente creí (algo de lo que aún ahora me arrepiento) que el baile y la bebida no constituían la más peligrosa de mis pasiones. Además, mi rutina de cuadro medio en FRACSA contribuía a que cada noche buscara en los locales de moda de París aquello que no encontraba en mi trabajo ni en lo que la gente llama vida interior: el calor de una cierta desmesura."

Roberto Bolaño (1953-2003). Putas asesinas (2001), Barcelona: Anagrama, 2001, p. 129

Barcelona

"...salimos a cenar a uno de los mejores restaurantes de la ciudad, y un fotógrafo de prensa que había allí nos hizo una foto, es esa que tengo colgada en el comedor, con Herrera y Buba y yo sonriendo, bien vestidos, delante de una mesa exquisita, si me permiten la expresión (pero es que otra no hay), dispuestos a comernos el mundo aunque en nuestro fuero interno teníamos bastantes dudas (sobretodo Herrera y yo) de que efectivamente fuéramos a comernos nada. [...] hablamos de películas, de viajes, pero no de viajes de trabajo sino de viajes de placer, y de poco más. Y cuando salimos del restaurante, no sin antes haberle firmado autógrafos a los camareros y al cocinero y a los pinches de cocina, nos pusimos a caminar durante un rato por las calles vacías de la ciudad, esa ciudad tan bonita, la ciudad de la sensatez y del sentido común como la llamaban algunos exaltados, pero que también era la ciudad del resplandor en donde uno se sentía bien consigo mismo, y que para mí ahora es la ciudad de mi juventud, bueno, como decía, nos pusimos a caminar por las calles de Barcelona..."

Roberto Bolaño (1953-2003). Putas asesinas (2001), Barcelona: Anagrama, 2001, p. 165

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Reconhecimento II

"...reconhecimento não é só pecuniário, financeiro, é autoral. É necessário que a empresa exalte, mostre quem colaborou com aquilo. À medida que você tem reconhecimento, comemoração, celebração, isso dá energia vital para continuar fazendo. Não se entende aquilo como sendo apenas uma tarefa. O reconhecimento ultrapassa a ideia de tarefa. Não sei se seu pai fazia isso, mas eu chegava em casa com o boletim da escola, altas notas, e ele dizia: 'não fez mais que a obrigação' - isto é altamente desestimulador. É preciso reconhecer, dizer que é bacana, comemorar. Aquilo que estimula a continuar naquela rota. Reconhecimento é a principal forma de estímulo que alguém pode ter."

Juvenildo Carvalho. In: https://www.linkedin.com/pulse/reconhecimento-%C3%A9-melhor-forma-de-estimular-algu%C3%A9m-jovenildo-carvalho

Dueño de si

"Parecía dueño de sí mismo. Y a su manera y dentro de su ley, cualquiera que fuera, era más dueño de sí mismo que todos los que estábamos en aquel bar silencioso. Era más dueño de sí mismo que muchos de los que caminaban en ese momento por las calles de Lloret o trabajaban preparando la inminente temporada turística. Era duro y no tenía nada o tenía muy poco y no parecía darle demasiada importancia."

Roberto Bolaño (1953-2003). La literatura nazi en América (1993). Barcelona: Anagrama, 2015, p. 212

Reconhecimento

"Mesmo as pessoas mais altruístas querem ser reconhecidas e recompensadas por um trabalho bem feito. É a natureza humana. Quando você deixa de reconhecer o esforço de seus empregados, você não está só os desmotivando, mas também perdendo a maneira mais eficaz de gerar melhores resultados. Se seu orçamento é limitado para bônus e promoções, há muitas formas de baixo custo para fornecer o reconhecimento — uma palavra de apreço é gratuita. É bastante conveniente pedir que o funcionário 'vista a camisa da empresa' enquanto ela não veste a dele. Pense nisso."

Matheus de Souza. In: http://www.administradores.com.br/artigos/carreira/5-razoes-pelas-quais-os-melhores-colaboradores-se-demitem-mesmo-quando-gostam-do-seu-trabalho/97378/

Sorry

"Humboldt's big intelligent disordered face was white and hot with turbulent occult emotions and brainstorms. I felt sorry for us, for both, for all of us, such odd organisms under the sun."

Saul Bellow (1915-2005). Humboldt's Gift (1975). London: Penguin Books, 2008, p. 126

Ritual da leitura


"...nesse começo de insônia, aquele ritual da leitura, toda noite, à sua cabeceira, quando ele era pequeno – hora certa e gestos imutáveis –, tinha um pouco de prece. Aquele súbito armistício depois da barulhada do dia, aqueles reencontros fora de todas as contingências, o momento de recolhido silêncio antes das primeiras palavras do conto, nossa voz enfim igual a ela mesma, a liturgia dos episódios... Sim, a história lida cada noite preenchia a mais bela das funções da prece, a mais desinteressada, a menos especulativa e que não diz respeito senão aos homens: o perdão das ofensas. [...] Sem saber, descobríamos uma das funções essenciais do conto e, mais amplamente, da arte em geral, que é impor uma trégua ao combate entre os homens.

O amor ganhava pele nova.

Era gratuito.

Gratuito. Era bem assim que ele entendia. Um presente. Um momento fora dos momentos. Apesar de tudo. A história noturna o liberava do peso do dia. Largávamos as amarras. Ele ia com o vento, imensamente leve, e o vento era a nossa voz.

Como preço dessa viagem, não se exigia nada dele, nem um tostão, não se pedia a menor compensação. E não era nem mesmo uma recompensa. (Ah! as recompensas – como era preciso se mostrar digno de ter sido recompensado!). Aqui, tudo se passava no país da gratuidade.
A gratuidade, que é a única moeda da arte."

Daniel Pennac (1944-). Como um romance (1992). Porto Alegre: L± Rio de Janeiro: Rocco, 2008, p.31-32

Pensando fora da caixa

"Se você está absolutamente dentro de uma caixa, você acredita que aquilo é o mundo, é o todo; e, portanto, não pode imaginar a existência da própria caixa, o que dirá fora dela. Ora, para pensar fora da caixa é preciso dominar um repertório que seja alternativo ao dominante dentro da caixa, e isso não é uma coisa que se consegue com um conselho; isso pressupõe competência intelectual, pressupõe domínio de referenciais cognitivos. [...] O que acontece na verdade é que as empresas adoram falar em pensar fora da caixa, mas quando se deparam com alguém que de fato tem competência para pensar fora da caixa, excluem-no da caixa. [...] Um chefe adora alguém que pense fora da caixa, desde que as conclusões sejam as dele."

Clóvis de Barros Filho. In: https://www.youtube.com/watch?v=JzUQ48preec&feature=share

Medíocres

“Vem aumentando o número de pesquisas psicológicas que indicam que características pessoais ligadas à superestima das próprias qualificações e conhecimentos privam as pessoas da capacidade de reconhecer sua própria incompetência em diversos aspectos da realidade. Ou seja: a maioria das pessoas não tem a menor noção de que sabem menos do que acham que sabem. [...]

[...] as pessoas que não são talentosas em uma determinada área tendem a não reconhecer os talentos e boas ideias dos outros, de colegas de trabalho a políticos. Isso pode impedir o processo democrático, que conta com cidadãos com capacidade de identificar e apoiar o melhor candidato ou a melhor política.

Conclusão: você deve se lembrar de que pode não ser tão bom quanto pensa que é. E pode não estar certo sobre as coisas que você acredita que está certo. E, além de tudo, se você tentar fazer piadas sobre isso, pode não ser tão engraçado quanto você pensa.”

Natalie Wolchover. In: http://www.contioutra.com/pessoas-ignoram-propria-ignorancia-e-isso-tem-um-preco/

Educação na Finlândia

Trechos de um documentário de Michael Moore sobre a educação na Finlândia (10 min.; legendado em português):

“Eles não têm dever de casa. [...] Eles devem ter mais tempo para serem crianças, para serem jovens, para aproveitarem a vida. [...] O nosso cérebro tem que relaxar de vez em quando. Se você apenas trabalha e trabalha constantemente, então para de aprender. [...]. ‘Quantas línguas vocês falam?’. Respostas de um grupo de estudantes: ‘Inglês, claro, Sueco, Espanhol’; ‘Finlandês e Sueco’; ‘Finlandês, Inglês e Alemão’; ‘Francês e Alemão’; ‘Finlandês e Inglês’; ‘Sueco, Francês e Espanhol’. [...] ‘Aqui não há exames de múltipla escolha?’. ‘...muito pouco, senão nenhum’. ‘Mas como é que você dá a resposta certa se ela não constar na lista com as quatro escolhas?’. ‘A gente escreve a nossa resposta. Temos que sabê-la’. [...] Na Finlândia, não há testes padronizados [como ENEM, ENADE, etc.]. Professora: ‘Nós tentamos ensinar-lhes tudo aquilo que necessitam, de modo que possam usar efetivamente seus cérebros o melhor que podem, incluindo educação física, artes, música, tudo que de fato possa fazer o cérebro trabalhar melhor’. [...] Professora: ‘Nos Estados Unidos a educação é um negócio. Existem corporações ganhando dinheiro. Aqui é tudo tão centrado no estudante, que quando temos que refazer o parque de recreio, eles mandam os arquitetos para falarem com as crianças’. Na Finlândia, todas as escolas são públicas e têm o mesmo padrão de qualidade.”

Humboldt

"Ah Humboldt had been great – handsome, high-spirited, buoyant, ingenious, electrical, noble. To be with him made you feel the sweetness of life. [...]. To talk to him was sustaining, nourishing. But I used to think, when he mentioned people who had been his friends, that it could be only a question of time before I too was dropped. He had no old friends, only ex-friends. He could become terrible, going into reverse without warning. When this happened, it was like being caught in a tunnel by the Express. You could only cling to the walls, or lie between the rails, praying."

Saul Bellow (1915-2005). Humboldt's Gift (1975). London: Penguin Books, 2008, p. 164

Efeito Dunning-Kruger

"No dia-a-dia profissional, o Efeito Dunning-Kruger acontece quando uma pessoa não consegue enxergar ou perceber suas próprias limitações e incompetências. A pessoa acredita que sabe mais do que aqueles que realmente conhecem de determinado assunto, tem dificuldade de reconhecer a qualidade de outras pessoas e não reconhece os próprios erros. O excesso de autoconfiança faz com que a pessoa cometa erros que poderiam ser evitados.

Os impactos deste efeito na carreira de um indivíduo podem ser desastrosos. Agora, imagine os impactos em uma equipe: líderes e colaboradores arrogantes, que não escutam e não sabem valorizar outras pessoas e equipes (impacto no clima e relacionamentos), decisões não embasadas, resultados desastrosos, perda de credibilidade, etc. Todas as relações de confiança são abaladas."

Bruna Tokunaga. In: http://revista.administradores.com.br/previewadm45/gestaoecarreira/

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Inveja

"O que fazer da inveja
desabrida
de repente
desferida?
O que fazer da inveja
malgerida
ferida entreaberta
no olho voluptuoso
do invejoso
que quanto mais cobiça
a pele alheia
mais se sente leproso?


Sou pobre de tudo,
de espírito muito.
Cobiçar o que em mim?
A paisagem que persigo?
A esperança que rumino?
O meu trabalho no eito?
O leite da mulher amada
na palha onde me deito?

Não mereço a glória
de vossa fúria.
Advirto, é desperdício.
Deve haver para vossa inveja
melhor alvo e exercício.

De qualquer jeito,
como quem não quer nada,
saio meio de esguelha
pondo um dente de alho na janela
e um ramo de arruda na orelha."

Affonso Romano de Sant'Anna (1937-). Poesia Reunida (1965-1999). Volume 2. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 139

Wives and husbands

"'You're not getting enough air with that woman. You look as if you're suffocating. Your tissues aren't getting any oxygen. She'll give you cancer.'

'Oh', I said. 'She may think she's offering me the blessings of an American marriage. Real Americans are supposed to suffer with their wives, and wives with husbands. Like Mr. and Mrs. Abraham Lincoln. It's the classic US grief, and a child of immigrants like me ought to be grateful. For a Jew it's a step up.'"

Saul Bellow (1915-2005). Humboldt's Gift (1975). London: Penguin Books, 2008, p. 43

Jogo cruzado

“Uma mente dominada por sentimentos inferiores é capaz de obrigar a própria consciência a pactuar com eles, forçando-a, ardilosamente, a pôr as piores ações em harmonia com as melhores razões e a justificá-las umas pelas outras, numa espécie de jogo cruzado."

José Saramago (1922-2010). O homem duplicado (2002). São Paulo: Companhia das Letras

Luz Mendiluce


"El fracaso matrimonial sume a Luz en la desesperación. Se dedica a la bebida, a frecuentar antros y a tener aventuras con los personajes de peor catadura de Buenos Aires. De esa fecha data su famoso poema 'Con Hitler fui feliz', texto incomprendido tanto por la derecha como por la izquierda. Su madre intenta enviarla a Europa, pero Luz se niega. Por entonces pesa más de noventa kilos (apenas mide 1,58) y acostumbra a beber una botella de whisky al día.

En 1953, coincidiendo con la muerte de Stalin y de Dylan Thomas, publica el poemario 'Tangos de Buenos Aires', en donde, además de una versión corregida y aumentada de 'Con Hitler fui feliz', se incluyen algunos de sus mejores poemas: 'Stalin', una fábula caótica que transcurre entre botellas de vodka y alaridos incomprensibles, 'Autorretrato', posiblemente uno de los poemas más crueles que se hayan escrito en la Argentina en la década de los cincuenta, pródiga en poemas de este tipo, 'Luz Mendiluce y el Amor', en la línea del anterior pero con algunas dosis de ironía y de humor negro que lo hacen más respirable, y 'Apocalipsis a los cincuenta años', una promesa de suicidio llegada a esa edad que quienes la conocen tachan de optimista: con el ritmo de vida que lleva, Luz Mendiluce es una firme candidata a morir antes de los treinta."

Roberto Bolaño (1953-2003). La literatura nazi en América (1993). Barcelona: Anagrama, 2015, p. 30

Clarice

"Só outra coisa eu conheci tão total e cega e forte como esta minha vontade de me espojar na violência: a doçura da compaixão. Só isto ainda posso tentar pôr no outro prato da balança – pois no primeiro prato está o sangue e o ódio ao sangue que dói."

Clarice Lispector (1920-1977). A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 594

Fui fechando as doçuras de minha natureza a cada golpe que recebia e as doçuras negadas foram se enegrecendo como nuvens simples que vão se fechando em escuridão e eu abaixo a cabeça à tempestade."

Clarice Lispector (1920-1977). A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 595

"Estou à procura de um livro para ler. É um livro todo especial. Eu o imagino como a um rosto sem traços. Não lhe sei o nome nem o autor. Quem sabe, às vezes penso que estou à procura de um livro que eu mesma escreveria. Não sei. Mas faço tantas fantasias a respeito desse livro desconhecido e já tão profundamente amado. Uma das fantasias é assim: eu o estaria lendo e de súbito, a uma frase lida, com lágrimas nos olhos diria em êxtase de dor e de enfim libertação: 'Mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus!'."

Clarice Lispector (1920-1977). A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 354

"Será que vou ter que viver a vida inteira à espera de que o domingo passe? E ela, a faxineira, que mora na Raiz da Serra e acorda às quatro da madrugada para começar o trabalho da manhã na Zona Sul, de onde volta tarde para a Raiz da Serra, a tempo de dormir para acordar às quatro da manhã e começar o trabalho na Zona Sul, de onde – Eu vou te dar o meu segredo mortal: viver não é uma arte."

Clarice Lispector (1920-1977). A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 353

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Wittgenstein

"Possibly I have not mentioned that Wittgenstein had a pet seagull which came to his window each morning to be fed.

Or even that he ever lived in Ireland.

Or rather what occurs to me is that I may have said it was somebody else who had the pet seagull. And in another place altogether.

On my honor, it was Wittgenstein who had it. At Galway Bay.

Wittgenstein also played an instrument, incidentally.

And sometimes did some sculpture.

I enjoy knowing both of those things about Wittgenstein.

In fact I also enjoy knowing that he once worked as a gardener, in a monastery.

And inherited a good deal of money, but gave it all away.

In fact I believe I would have liked Wittgenstein.

Especially since what he did with the money, once he did decide to give it away, was to arrange to have it be used to help other writers who did not have any.

Such as Rainer Maria Rilke.

Actually, the next time I am in a town where there is a bookstore to let myself into, perhaps I will try to find something to read by Wittgenstein after all."

David Markson (1927-2010). Wittgenstein's Mistress (1988). London: Dalkey Archive Press, 2015, p. 174-175

Certo e errado

"Certo e errado são convenções que se confirmam com meia dúzia de atitudes. Certo é ser gentil, respeitar os mais velhos, seguir uma dieta balanceada, dormir oito horas por dia, lembrar dos aniversários, trabalhar, estudar, casar e ter filhos, certo é morrer bem velho e com o dever cumprido. Errado é dar calote, repetir o ano, beber demais, fumar, se drogar, não programar um futuro decente, dar saltos sem rede. Todo mundo de acordo?

Todo mundo teoricamente de acordo, porém a vida não é feita de teorias. E o resto? E tudo aquilo que a gente mal consegue verbalizar, de tão intenso? Desejos, impulsos, fantasias, emoções. Ora, meia dúzia de normas preestabelecidas não dão conta do recado. Impossível enquadrar o que lateja, o que arde, o que grita dentro de nós. [...]

O amor é certo, o ódio é errado, e o resto é uma montanha de outros sentimentos, uma solidão gigantesca, muita confusão, desassossego, saudades cortantes, necessidade de afeto e urgências sexuais que não se adaptam às regras do bom comportamento. [...]

Todo o resto é o que nos assombra: as escolhas não feitas, os beijos não dados, as decisões não tomadas, os mandamentos que não obedecemos, ou que obedecemos bem demais – a troco de que fomos tão bonzinhos?"

Martha Medeiros (1961-). Coisas da vida. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 11-12