sexta-feira, 13 de março de 2015

O Porco Medonho


"Geoffrey Day percebeu que a maioria dos residentes homens da Ennet tem cognomezinhos especiais para a genitália. P. ex. 'Bruno', 'Jake', 'Presa' (Minty), 'O Monge Caolho', 'Fritz', 'Nicanor o Músculo do Amor'. Ele especula que pode ser uma coisa de classe social: nem ele nem Ewell nem Ken Erdedy deram nome para suas Unidades. Como Ewell, Day registra uma certa quantidade de dados de natureza comparativa no seu diário. Doony Glynn chamava o pênis de 'Pobre Ricardinho'; Chandler Foss confessou adotar o apelido 'Bam-Bam'. Lenz se referia à própria Unidade como 'O Porco Medonho'. Day ia morrer antes de admitir que sentia falta ou de Lenz ou de seus solilóquios sobre o Porco, que eram frequentes. O pênis em questão era aqueles curiosos dois ou três tons mais escuro que o resto de Lenz que os pênis das pessoas às vezes são. Lenz brandia aquilo para os colegas de quarto sempre que queria enfatizar algo que dizia. Era curto, grosso e rombudo, e Lenz descrevia o Porco como um exemplo cabal do que ele chamava de Praga Polonesa, a saber, comprimento medíocre mas circunferência considerável: 'Não machuca o fundo mas detona com as laterais, mano'. Era essa a descrição dele da Praga Polonesa."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 708

Anedonia

"Alguns pacientes psiquiátricos – fora uma certa percentagem de pessoas que ficaram tão dependentes de químicos para obter sensações de bem-estar que quando é necessário abandonar os químicos elas passam por um trauma-de-perda que cala bem fundo nos sistemas centrais da alma – essas pessoas sabem de primeira mão que há mais de um tipo da dita 'depressão'. Um tipo é coisa-pouca e às vezes é chamado de 'anedonia' ou 'melancolia simples'. É uma espécie de torpor espiritual em que você perde a capacidade de sentir prazer ou afeição por coisas anteriormente importantes. O ávido jogador de boliche larga o campeonato e fica em casa à noite encarando inerte uns cartuchos de kick-boxe. O comilão perde o apetite. O sexual descobre que sua amada Unidade de repente é só um pedaço de cartilagem sem sensações, só pendurado ali. A esposa e mãe devotada acha a ideia da família dela tão comovente, de repente, quanto um teorema de Euclides. É um tipo de xilocaína emocional, essa forma de depressão, e por mais que não seja francamente doloroso esse amortecimento é desconcertante e... enfim, deprimente. Kate Gombert sempre pensou nesse estado anedônico como uma espécie de abstração radical de todas as coisas, um ocamento das coisas que antes tinham conteúdo afetivo. Termos que os não deprimidos soltam a três por quatro e dão de barato como coisas plenas e carnudas – 'felicidade', 'joie de vivre', 'preferência', 'amor' – são despidos até virarem apenas esqueletos e reduzidos a ideias abstratas. Eles têm, por assim dizer, denotação mas não conotação. A pessoa anedônica ainda consegue falar de felicidade e sentido e tal, mas se tornou incapaz de sentir qualquer coisa nessas palavras, de entender algo nelas, de ter alguma esperança em relação a elas ou de acreditar que elas existem como qualquer outra coisa além de conceitos. Tudo se torna um contorno da coisa. Objetos viram esquemas. O mundo vira um mapa do mundo. Uma pessoa anedônica navega, mas não tem localização."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 708

sexta-feira, 6 de março de 2015

Cansaço da alma



"Este longo cansaço se fará maior um dia,
e a alma dirá ao corpo que não quer seguir
arrastando sua massa pela rosada via,
por onde vão os homens, contentes de viver…"


Gabriela Mistral (1889-1957), poeta chilena

Lenz e o gato

"Na tarde de hoje antes de agora coisa de 1610h Lenz tinha espirrado spray de cabelo masculino marca RIJID na cara de um gato vira-latas caolho da Casa Ennet que tinha entrado por azar dele no banheiro masculino do primeiro andar, mas o resultado: insatisfatório. O gato simplesmente tinha corrido para o térreo, e só deu uma topada na balaustrada. Lenz aí ficou com diarreia, coisa que sempre deixa ele com nojo, e teve que ficar no banheiro, abrir a janelinha empenada de vidro jateado e ligar o chuveiro no F até eliminar os indícios do cheiro, com o merda do Glynn esmurrando a porta e atraindo a atenção berrando tipo quem que estava afogando ganso ali aquele tempo todo e se por acaso não é o Lenz."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 567

Malucos de estrada



"Eu gosto de viajar sozinha. Acho que todo mundo tem que pelo menos uma vez em sua vida viajar sozinho. Porque é uma experiência única PARA VOCÊ, que você não tem que compartilhar, é algo muito pessoal. Se você consegue fazer isso, cresce, de uma maneira ou outra, cresce...".

"Se você não tiver a vocação, velho, e a segurança individual, você se adapta. Você vai agir como todo mundo age. E se você tiver a índole de agir de maneira própria, você fica angustiado, cara, e não vai entender a sua angústia. 'Pô, tô exercendo minha profissão, tô ganhando dinheiro, mas eu sinto uma angústia...'. Você não localiza, porque você se submeteu ao que não é você, não é da sua índole, você só tá fazendo porque todo mundo faz. Isso é um sacrifício, velho, é um sofrimento. Aí nêgo vai pro antidepressivo, vai no psicólogo, que dá a ele um mecanismo pra ele se adequar. O psicólogo nunca vai dizer 'Não, essa estrutura em que você tá vivendo, da sociedade, violenta você de tal maneira que você entra nesse desequilíbrio, você tem que se livrar dessa estrutura', não, ele faz o contrário: 'Você tá com dificuldade de se adequar à estrutura vigente, então vou te dar um exercício mental, um exercício respiratório, e um remedinho, pra você se adequar e entrar na fila'. O problema todo tá na estrutura da sociedade e no que ela nos impõe."

Uma ideia a cada sessenta segundos



"Depois da fase inicial tipo hamster-alucinado-dentro-do-cérebro do começo da Abstinência e da desintoxicação, Bruce Green agora voltou a seu estado cerebral psicorreprimido normal em que tem cerca de uma ideia plenamente desenvolvida a cada sessenta segundos, e só uma de cada vez, uma ideia, cada uma delas se materializando totalmente desenvolvida e ficando ali paradinha e aí sumindo como num lânguido monitor de cristal líquido. O conselheiro dele na Ennet, o extremamente ríspido Calvin T., reclama que ficar ouvindo o Green é como ouvir uma torneira que pinga muito lentamente. O resumo da ópera dele é que Green não parece sereno ou desconectado da realidade mas totalmente desligado, desassociado, e Calvin T. tenta semanalmente fazer Green se ligar deixando ele puto."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 595

terça-feira, 3 de março de 2015

Dor sóbria



"...rola uma dor pesada na sobriedade, você descobre, depois de um tempo. Aí agora que você está limpo e nem tem mais muita vontade de ingerir Substâncias e está querendo chorar e pisotear alguém até fazer patê, por causa da dor, esses AAs de Boston começam a te dizer que você está exatamente onde devia estar e a te dizer pra lembrar da dor sem sentido do vício ativo e a te dizer que pelo menos essa dor sóbria agora serve pra alguma coisa. Pelo menos essa dor significa que você está indo a algum lugar, eles dizem, em vez da repetitiva rodinha-de-hamster da dor do vício."


David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 457

Chef Gately



"Gately é uma escolha imprevista para chef de cozinha da Casa Ennet, já que viveu os últimos doze anos quase exclusivamente de sandubas de segunda e de comidas prontas consumidas sempre em movimento. Ele tem 188 centímetros, 128 quilos e nunca tinha comido brócolis ou uma pera até o ano passado. Cheficamente, ele oferece sem exceção uma rotina de: salsicha cozida; um bolo de carne denso e úmido com pedacinhos de queijo de supermercado e meia caixa de flocos de milho em cima, para dar aquela textura; sopa de creme de galinha sobre macarrõezinhos em formato de espiroqueta; coxas de galinha pré-temperadas ominosamente escuras e ressecadas; hambúrgueres nojentinhamente malpassados; e espaguete com molho de hambúrguer cuja massa ele ferve por quase uma hora. Só os mais safos residentes da Ennet arriscariam uma gracinha declarada sobre a comida que aparece toda noite em cima da longa mesa de jantar ainda nas imensas panelas fumacentas em que foi feita, com o rostão de Gately pairando lunar sobre elas, vermelho e molhado sob o chapéu moloide de chef que Annie Parrot tinha lhe dado como uma piada cruel que ele não havia entendido, com os olhos cheios de ansiedade e da esperança de que todos gostassem bastante, basicamente parecendo uma noiva nervosa que serve seu primeiro prato ao marido, só que as mãos dessa noiva são do mesmo tamanho dos pratos da Casa e têm tatuagens de presidiário, e essa noiva ao que parece não precisa de luvas de forno quando coloca as panelas imensas sobre os panos que precisam ser estendidos para evitar que o tampo de plástico da mesa derreta. Quaisquer comentários culinários têm sempre que ser extremamente oblíquos."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 480

Uma cama que range


"Meu pai girou no eixo dos joelhos, impulsionou o corpo, saiu do colchão, pôs a mão na lombar e se endireitou, continuando a olhar para o colchão.

'Essa porra dessa cama do caralho que sua mãe achou que tinha que manter e trazer com a gente pra cá pelo entre aspas valor sentimental começou a ranger', meu pai disse. O fato dele dizer 'sua mãe' indicava que ele estava se dirigindo a mim. Ele estendeu a mão para pedir o copo de suco de tomate sem precisar me olhar. Ele encarava sombriamente a cama. 'A gente está ficando louco com essa merda.'

Minha mãe equilibrou o cigarro no cinzeiro estreito, largou o cinzeiro no parapeito da janela, se curvou sobre o pé da cama, comprimiu o ponto que meu pai tinha isolado, que rangeu de novo. 

'E de noite esse único pontinho que nós isolamos e identificamos parece que se espalha e se metastatiza até a porra da cama inteira ficar entupida de rangidos.' Ele bebeu um pouco de seu suco de tomate. 'Áreas que tagarelam e rangem', meu pai disse, 'até nós dois acharmos que estamos sendo comidos por ratos.' Ele passou a mão pela linha do queixo. 'Hordas fervilhantes de ratos de rapina ruidosos rangentes e tagarelantes', ele disse, quase tremendo de irritação."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 504

Tavis

"Para Hal, a questão geral com o seu tio materno é que Tavis é terrivelmente tímido perto dos outros e tenta esconder esse fato sendo muito aberto, expansivo, palavroso e áspero, e que é torturante ver isso de perto. A visão de Mario é que Tavis é muito aberto, expansivo e palavroso, mas tão claramente emprega essas qualidades como uma espécie de escudo protetor que isso acaba traindo uma vulnerabilidade amedrontada de que é quase impossível não ter pena."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 529

Randy Lenz



"Randy Lenz descobriu que se conseguir chegar perto o bastante de um gato urbano com um pouco de atum estendido na mão ele consegue meter o saco por cima do bicho e catar aquilo tudo por baixo para o gato ficar no ar e no fundo do saco, e aí conseguia amarrar bem direitinho o saco com o araminho de torcer que vinha junto com cada saco. Ele podia colocar o saco fechado perto do muro ou cerca ou da lixeira mais setentrionais da vizinhança e acender um careta e se agachar perto do muro para ficar assistindo à variedade de formas mutáveis que o saco assumia enquanto o gato agitado ia ficando com menos ar. As formas ficavam cada vez mais violentas e retorcidas e em-pleno-ar com a passagem de um minuto. Depois que ele parava de assumir formas Lenz punha um dedo salivado na ponta da bituca para guardar o resto para mais tarde, levantava, soltava o araminho, olhava para dentro do saco e dizia: 'Isso'. O 'Isso' acabou se revelando crucial para a sensação de estilhaçamento, resolução e finalização de problemas de fúria impotente e medo ineficaz que tipo iam crescendo em Lenz o dia inteiro por ficar preso nas porções nordeste de uma casa de recuperação miserável o dia inteiro com a vida em risco, Lenz se sentia."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 553

O Green

"Ele diz que foi derrubado pela vida, e só vai dizer isso, pessoalmente. O Green. A vida encheu ele de porrada, e ele está reagrupando as tropas. Lenz gosta dele, e é sempre como se o medo que ele sente quando gosta de alguém fosse uma lasca de unha pendurada, que não cai. É como se alguma coisa terrível fosse acontecer a qualquer momento. Menos medo que um tipo de tensão na região da barriga e da bunda, um aperto no corpo todo. Decidir ir em frente de uma vez e decidir que alguém é boa gente: é como se você derrubasse alguma coisa, você desiste de todo o seu poder sobre aquilo: tem que ficar ali impotente esperando que ela venha ao chão: a única coisa que dá pra você fazer é se segurar e sentir o aperto. Lenz meio que fica puto por gostar de alguém."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 567

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Ainda estás aqui

"Lança teu medo
aos ares

Em breve
acaba teu tempo
em breve
cresce o céu
sob a grama
despencam teus sonhos
nenhures

Ainda
cheira o cravo
canta o melro
ainda tens um amante
e palavras para doar
ainda estás aqui

Sê o que és
Dá o que tens"


Rose Ausländer (1901-1988). Ainda estás aqui. In: modo de usar & co. (blog)

seu desejo de vencer

"Ele provavelmente hoje descreveria o seu desejo de vencer como apenas uma preferência, nada mais. O curioso é que o seu jogo parece ter melhorado um pouquinho nos dois anos depois que ele deixou de ligar tanto. É como se o seu estilo duro e seco não tivesse mais nenhum outro objetivo além de si próprio e tivesse começado a se alimentar de si próprio e ficado mais cheio, mais livre, com arestas menos ásperas (...). 

Como quase todos os homens muito grandes, ele está ficando confortável cedo com o fato de que o seu lugar no mundo é bem pequeno e o seu real impacto nas pessoas é ainda menor."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 274; 276

Perda

"Gately vive sentindo uma terrível noção de perda, narcoticamente falando, de manhã, ainda, mesmo depois de tanto tempo limpo. O padrinho dele lá no Grupo Bandeira Branca diz que tem gente que nunca se recupera da perda daquilo que eles achavam que era o seu único melhor amigo e amante; eles simplesmente têm que rezar diariamente pedindo aceitação e colhões de aço pra seguir adiante e passar pela dor e pela perda, pra esperar até que o tempo endureça bem a casca da ferida. O padrinho, Francis Furibundo G., não enche nem por um átimo o saco de Gately por ele sentir uns sentimentos negativos sobre isso tudo: pelo contrário, ele elogia Gately pela sua sinceridade ao desmontar e chorar que nem um bebê e falar tudo numa manhã bem cedo no telefone público, da sensação de perda. É um mito isso de que ninguém sente falta. Da Substância particular de cada um. Caralho, você não ia precisar de ajuda se não sentisse falta."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 280-1

algo diferente de fracasso



"Até onde Schacht vê, a postura filosófica de Schitt é que para ganhar um número suficiente de vezes para ser considerado um sucesso você tem tanto que ligar muito para aquilo tudo quanto não ligar nada. Schacht não liga o bastante, provavelmente, não mais, e encarou o seu gradual afastamento da equipe A de simples da ATE com uma equanimidade que alguns dos ATEs acharam espiritual e outros o mais claro sinal de bunda-molice e de fim-de-linha. (...) Hal de um jeito esquisito e interno quase meio que admira e inveja Schacht ter se entregado estoicamente às profissões orais e parado de sonhar com chegar ao Circuito depois de se formar – um ar de algo diferente de fracasso no desligamento de Schacht, algo que não se pode definir direito, como você não consegue lembrar direito uma palavra que você sabe que sabe, por dentro – Hal não consegue sentir direito o desprezo pela queda competitiva de Teddy Schacht que seria um desprezo basicamente natural em alguém que ligasse tão tremendissimamente tanto, e assim os dois tendem a se decidir por não falar do assunto (...)".

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 277-8

No AA de Boston



"O Bandeira Branca é uma das reuniões do AA da região que a Ennet exige que seus residentes frequentem. Você tem que ser visto numa reunião do AA ou do NA todas as noites da semana ou tchau, sem mais. Um funcionário da Casa tem que acompanhar os residentes quando eles vão às reuniões determinadas, para eles poderem ser oficialmente vistos lá. Os conselheiros dos residentes da Casa sugerem que eles sentem bem na frente do salão onde possam ver os poros do nariz do orador e tentar se Identificar em vez de Comparar. De novo, 'Identificação' significa empatia. Identificar-se, a não ser que você esteja decidido a se Comparar, não é uma coisa muito difícil, aqui. Porque se você senta bem na frente e presta bastante atenção, todas as estórias de declínio, queda e rendição dos oradores são essencialmente iguais, e iguais à sua: prazer com a Substância, aí muito gradualmente menos prazer, aí um prazer significativamente menor por causa dos pequenos apagões em que você de repente acorda no meio da estrada andando a 145 Km/h acompanhado de pessoas que não conhece, noites em que você acorda numa roupa de cama estranha ao lado de alguém que nem se assemelha a qualquer espécie conhecida de mamífero, apagões de três dias de que você sai e precisa comprar um jornal até para saber em que dia está; sim aos poucos um prazer cada vez menor mas com certa necessidade física da Substância agora, em vez do antigo prazer voluntário; aí num dado momento de repente simplesmente pouquíssimo prazer, combinado com uma terrível necessidade cotidiana que te põe as mãos tremendo, aí o pavor, a angústia, fobias irracionais, vagas lembranças de prazer que parecem sirenes, problemas com vários tipos de autoridades, dores de cabeça de agarrar os joelhos, leves convulsões e a litania do que o AA de Boston chama de Perdas... (...) – aí mais Perdas, com a Substância parecendo ser o único consolo para a dor das Perdas que se acumulam, e claro que você fecha os olhos para o fato de que é a Substância que está causando essas mesmas Perdas de que ela te consola –".

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 355-6

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Vício

"...um paradoxo pouco mencionado do vício em Substâncias é: que assim que você fica suficientemente escravizado por uma Substância para precisar largar a Substância para salvar sua vida, a Substância escravizadora se tornou algo tão profundamente importante para você que você vai praticamente enlouquecer quando ela for tirada de você. Ou que algum tempo depois que a sua Substância escolhida foi simplesmente tirada de você para salvar a sua vida, enquanto você se abaixa para as orações matutinas e vespertinas exigidas, você vai se perceber começando a rezar para literalmente perder a cabeça, ser capaz de embrulhar a sua cabeça num jornal velho ou alguma coisa assim e deixá-la num beco para se virar sozinha, sem você."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 208

Atormentado amor


"Molly Notkin vive se abrindo ao telefone com Joelle van Dyne sobre o único e atormentado amor de toda a vida de Notkin até aqui, um eroticamente circunscrito estudioso de G. W. Pabst da New York University, torturado pela neurótica convicção de que há um número finito de ereções possíveis no mundo num dado momento e de que a tumescência dele representa p. ex. a detumescência de algum fazendeiro de sorgo do Terceiro Mundo, quiçá mais merecedor ou torturado, ou coisa assim, de modo que sempre que ele tumesce ele sofre a mesma espécie de culpa que uma pessoinha doutorada menos excentricamente torturada sofre diante da ideia de, digamos, usar um casaco de pele de bebê-foca. Molly ainda pega o trem de alta velocidade para visitá-lo a cada quinze dias, para estar ao lado dele caso por algum acaso egoísta ele calhe de endurecer, o que gera nele ondas negras de repulsa por si próprio e uma extrema carência de compreensão e amor tolerante."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 227

Debilitantemente Fóbica


"Os seguranças explicam que a senhorinha não é catatônica no sentido estrito de 'catatônico' mas sim 'DF', que é gíria de instituição de saúde mental para 'Debilitantemente Fóbica'. O barato dela aparentemente é que ela está quase psicoticamente apavorada com a possibilidade de estar ou cega ou paralisada ou as duas coisas. Então p. ex. ela fica de olhos fechados 24 horas por dia 7 dias por semana 365 dias por ano por causa do raciocínio de que enquanto ela ficar de olhos bem fechados ela pode viver com a esperança de que se decidir abri-los vai conseguir enxergar, eles dizem; mas que se ela um dia decidisse abrir mesmo os olhos e não conseguisse ver mesmo, raciocina ela, ela teria perdido aquela preciosa tipo margem de esperança de que talvez ela não estivesse cega. Aí eles repassam o raciocínio similar dela de ficar absolutamente imóvel por causa de uma fobia de estar paralisada."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, nota 67, p. 1024

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Toque as coisas com consideração e elas serão suas



"Ela nunca... nunca viu que Marlon Brando se percebia tão agudamente enquanto corpo que 'não precisava' de modos. Ela nunca viu que daquele jeito entre aspas descuidado ele na verdade tocava de fato tudo que tocava como se fosse parte dele. Do seu próprio corpo. O mundo que ele só parecia tratar com rispidez era para ele uma entidade dotada de sentidos, sensibilidade. E ninguém... e ela nunca entendeu isso. (...). Ela nunca viu que o Brando estava jogando o equivalente de uma boa partida de tênis de alto nível em estúdios de costa a costa, Jim, era o que ele estava fazendo de verdade. Jim, ele se mexia que nem um alevino descuidado, um grande músculo, musculosamente naïf, mas sempre, veja bem, um alevino no centro de uma corrente límpida. Aquele tipo de graça animal. O filho da mãe não desperdiçava 'um' gesto, era isso que fazia aquilo virar arte, esse des-cuidado abrutalhado. O lema dele era o de um tenista: toque as coisas com consideração e elas serão suas; você vai mandar nelas; elas vão se mexer ou ficar paradas ou se mexer pra você; elas vão se recostar e abrir as pernas e entregar as suas suturas mais íntimas a você. Vão te ensinar todos os truques que elas conhecem. Ele sabia o que os beatniks sabem e o que o grande jogador de tênis sabe, filho: aprenda a fazer nada, com a tua cabeça inteira e com o corpo, e tudo vai ser feito pelo que está em volta de você. Eu sei que você não está entendendo. Ainda. Eu conheço essa cara boquiaberta. Eu sei muitíssimo bem o que isso quer dizer, filho. Não faz mal. Você vai entender. Jim, o que eu sei eu sei."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 163

Você é um corpo


"Filho, você está com dez anos, e isso não é uma notícia mole pra alguém de dez anos, mesmo que você tenha quase um metro e oitenta, uma possível aberração pituitária. Filho, você é um corpo, filho. Essa cabecinha rápida de prodígio-científico que deixa tua mãe tão orgulhosa que não para de matraquear: filho, são só espasmos neurais, essas ideias na tua cabeça são só o barulho do teu cérebro em ponto morto, e cabeça ainda é só corpo, Jim. Guarde isso de cor. Cabeça é corpo. Jim, se segure aqui no meu ombro pra esta notícia dura pros teus dez anos: você é uma máquina um corpo um objeto, Jim, tanto quanto esse rutilante Montclair, aquela mangueira enrolada ali ou aquele rastelo ali pras pedrinhas da entrada ou santo Deus aquela aranha horrível e gorda se esticando na teia mais ali bem pertinho do cabo do rastelo, está vendo? Está vendo? 'Latrodectus mactans', Jim. Viúva. Pegue essa raquete aqui e se mexa com graciosidade e consciência até ali e mate aquela viúva pra mim, meu jovem Jim. Anda. Faz ela abrir o bico. Não faça prisioneiros. Meu garoto. Um brinde a uma área desaranhificada da garagem comunitária. Ah. Corpos por todo canto. Uma bola de tênis é o corpo definitivo, garoto. A gente está chegando ao ponto crucial do que eu tenho que tentar te comunicar antes da gente ir lá fora e começar a dar vazão a esse teu potencial medonho. Jim, uma bola de tênis é o corpo definitivo. Perfeitamente redonda. Distribuição equilibrada de massa. Mas vazia por dentro, totalmente, um vácuo. Suscetível a caprichos, efeitos, a força – usada bem ou mal. Ela vai refletir o teu caráter. Pegue ali uma bolinha naquele cesto de roupa suja barato de plástico verde que eu deixo ali perto dos maçaricos de propano e uso pra treinar um saque de vez em quando, Jimbo. Maravilha. Agora olhe a bola. Sopese. Sinta o peso. Aqui, deixa eu... rasgar assim pra... abrir. Ufa. Viu? Nada além de um ar evacuado aqui dentro com o cheiro de algum inferno de látex. Vazio. Puro potencial. Perceba que eu rasguei aqui na sutura. É um corpo. Você vai aprender a tratar essa bola com consideração, filho, alguém até pode dizer um tipo de amor, que ela vai se abrir para você, fazer o que você pede, estar à tua doce disposição amorosa."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 165

Luta insana



"Tá mas só que como é que eu posso responder só sim ou não se eu quero parar com a coca? Se eu acho que eu quero com certeza eu acho que eu quero. Eu não tenho mais septo. A coca tipo dissolveu a porra do meu septo. Ó. Dá pra ver algum septo quando eu ergo assim? Eu com certeza do fundo do meu coração eu achei que eu queria parar e tal e coisa. Desde isso do septo. Aí mas aí se eu queria parar esse tempo todo, por que é que eu não consegui parar? Está vendo o que eu estou te dizendo? Não é tudo uma questão de querer e coisa e tal? E tal e coisa? Como é que pode isso de morar aqui e ir nas reuniões e tudo isso não me fazer querer parar? Mas eu acho que eu já posso parar. Como é que eu ia estar aqui se eu não quisesse parar? Eu estar aqui já não é uma prova que eu quero parar? Mas aí então como é que pode que eu não consigo parar, se eu quero parar, aí é que está."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p.185

Eu não posso negar o que eu não entendo


"Eu não estou 'negando' nada. Eu só estou pedindo pra você definir 'alcoólico'. Como é que você pode pedir pra eu me atribuir uma palavra se você se recusa a definir o significado da palavra? Eu trabalho defendendo vítimas de danos morais, com um sucesso razoável há dezesseis anos, e a não ser por aquela ridícula suposta convulsão no jantar da Ordem dos Advogados esse ano e aquele besta daquele juiz me banir do tribunal quando ele estiver presidindo – e deixa só eu te dizer aqui que eu sustento a minha afirmação de que o sujeito se masturba por baixo da toga atrás da mesa com depoimentos 'detalhados' tanto de colegas quanto de empregados da lavanderia dos tribunais – exceto por uns poucos incidentes eu segurei a bebida e mantive a minha cabeça tão erguida quanto a de muito advogado mais graúdo que eu. Pode acreditar. E a senhora, minha jovem, tem quantos anos? Eu não estou 'em negação', pra falar de alguma coisa empírica e objetiva. Eu estou com problemas no pâncreas? Estou. Eu tenho dificuldade pra lembrar certos intervalos das administrações de Kemp e Limbaugh? Nem contesto. Existe uma pequena turbulência doméstica na questão da minha ingestão de álcool? Ora, sim, com certeza. Por acaso senti uma certa formigação na minha desintoxicação? Senti. Eu não tenho problemas em admitir sem rodeios as coisas que eu consigo entender. For'm'i'g'ação, com 'm' e 'g', isso mesmo. Mas que coisa é essa que você exige que eu admita? Será que é 'negação' postergar o momento da assinatura até que o vocabulário do contrato esteja claro para todas as partes ali comprometidas? Isso mesmo, isso mesmo, você não está entendendo o que eu estou dizendo aqui, muito bem! E você não pretende seguir em frente sem pedir esclarecimentos. Caso encerrado. Eu não posso negar o que eu não entendo. Essa é a minha posição."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p.183

É assim



"É assim que você recusa um encontro extramuros pra não ser mais convidado. Diga alguma coisa tipo Eu lamento muito não poder sair pra ver o relançamento de 8 e 1/2 ['Oito e meio', filme de Fellini] num monitor gigante no Festival do Celuloide de Cambridge nesta sexta, Kimberly, ou Daphne, mas é que, sabe, se eu pular corda duas horas e daí correr de ré por Newton até vomitar eles me deixam assistir cartuchos de jogos e aí a minha mãe lê o OED em voz alta pra mim até a hora de apagar as luzes às 2200, & c.; aí você pode ter certeza de que dali em diante Daphne/Kimberly/Jennifer vai esticar as suas anteninhas pra outro lado em busca de socialização-ritual-tipo-dança-e-namoro-adolescente. Fique alerta. A estrada se alarga e muitos desvios são sedutores. Esteja constantemente concentrado e atento: o talento selvagem é o seu próprio conjunto de expectativas e pode te abandonar em qualquer um dos desvios da chamada vida americana normal a qualquer momento, então fique 'alerta'. (...)

É assim que você passa pelo seu crescimento adolescente e sente cada membro do corpo doer como uma enxaqueca porque grupos escolhidos de músculos foram exercitados até ficarem espessos e intênseis e resistem no que o crescimento dos ossos tenta esticá-los, e eles doem o tempo todo. Existe medicação pra essa situação. (...)

É assim que você lê os rankings mensais da ATE e da ATEU e da ATONAN (...). A ideia dos rankings é ajudar a determinar onde você está, não quem você é. Decore os seus rankings mensais, depois esqueça. É assim, ó: nunca diga a ninguém onde você está. 

E também é desse jeito que você deixa de ter medo de dormir ou de sonhar. Nunca diga a ninguém onde você está. Por favor aprenda a pragmática da manifestação do medo: às vezes palavras que parecem exprimir na verdade 'invocam'."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p.181

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Esperando a maconha



"Ler enquanto esperava a maconha estava fora de cogitação. Ele considerou a ideia de se masturbar, mas não se masturbou. Nem chegou tanto a rejeitar a ideia, foi mais que não reagiu a ela e ficou olhando ela ir embora boiando. Ele pensou muito generalizadamente em desejos e ideias que eram observados, mas que não levavam à ação, pensou em impulsos que morriam de fome por falta de expressão e secavam e saíam boiando secos...".


David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 31

Cair de novo



"São as manhãs depois dos sonhos com aranhas e alturas que doem mais, quando às vezes são necessários três cafés e dois banhos e às vezes uma corrida para afrouxar a mão que lhe aperta a garganta da alma; (...) essas manhãs mais negras abrem dias em que Orin por horas a fio mal consegue imaginar como é que ele há de chegar ao fim do dia. (...) – a certeza que a alma tem de que o dia terá não que ser atravessado mas como que escalado, verticalmente, e de que ir dormir de novo no fim do dia vai ser como cair, de novo, de algum lugar alto e íngreme."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 51

cacos e beleza


"...Schtitt lidava com o tênis competitivo mais como um matemático puro do que como um engenheiro. A maioria dos técnicos de tênis juvenil é basicamente de engenheiros, uns nerdzinhos práticos mão-na-massa, resolvedores-de-problemas tipo-trator, obcecados por dados estatísticos, com de repente uma quedinha a mais por psicologia de curto prazo e discursos motivacionais. (...) Schtitt sabia que o tênis de verdade não era a mistura de organização estatística e potencial expansivo que os engenheiros do jogo reverenciavam, mas na verdade o contrário – 'não' organização, 'limite', os lugares em que as coisas se rompem em cacos e beleza. (...) infinidade de infinidades de escolha e execução, limitada pelo talento e pela imaginação do eu e do adversário, recurvada sobre si própria pelas fronteiras delimitadoras da habilidade e da imaginação que derrubavam finalmente um dos jogadores, que evitavam que ambos vencessem, que faziam daquilo, finalmente, um jogo, essas fronteiras do eu."

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 86-7

Impulso estranho

"Olhei pela janela. O sol brilhava e os lojistas tinham saído para se aquecer na calçada e ver o movimento. Mas por que estavam cobrindo os ouvidos com as mãos? E por que os passantes corriam pela rua como se perseguidos por um espectro monstruoso? Logo tudo voltou ao normal: o incidente foi apenas um momento de loucura em que as pessoas não suportaram mais as frustrações de suas vidas e cederam a um impulso estranho."

Lydia Davis. Tipos de perturbação - Ficções. São Paulo: Companhia das Letras

Talento ilimitado



"A Fragata Millicent Kent contou ao Mario que embora reconhecesse ser uma grande jogadora, c/ um atordoante estilo arraste-o-caveirão-para-a-rede-e-cresça-como-um-titã-pra-cima-da-adversária na tradição do jogo de força de Betty Stove/Venus Williams, e destinada a um futuro quase ilimitado no Circuito, ela ia confiar a ele aqui em segredo que ela nunca gostou de verdade do tênis competitivo, que o seu verdadeiro amor e paixão era a dança interpretativa moderna, atividade para a qual ela admitia ter dons e talentos menos inconscientemente naturais a empregar, mas que adorava, e que tinha passado praticamente cada minuto seu fora de quadra quando menininha treinando de malha justa na frente de um espelho extralargo no quarto dela em casa na pacata Montclair, NJ, mas que o tênis era onde ela tinha um talento ilimitado e ganhava afagos psíquicos e ofertas de bolsas em internatos...".

David Foster Wallace (1962-2008). Graça infinita (1996). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 128-9