terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Anjo selvagem


"Viver, errar, cair, triunfar, recriar a vida a partir da vida! Um anjo selvagem tinha aparecido diante de seus olhos, o anjo da juventude e da beleza mortal, um emissário das belas cortes da vida, para descortinar-lhe em um instante de êxtase todos os caminhos do erro e da glória. Adiante e adiante e adiante e adiante!"

James Joyce (1882-1941).
Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 210

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Livros que li em 2014


Literatura Brasileira:

- Água Viva (Clarice Lispector) [releitura]
- A paixão segundo G.H. (Clarice Lispector) [releitura]
- Angústia (Graciliano Ramos)
- S. Bernardo (Graciliano Ramos)
- Nove noites (Bernardo Carvalho)
- Benjamim (Chico Buarque)
- O alienista (Machado de Assis)
- O Grande Mentecapto (Fernando Sabino)
- Amálgama (Rubem Fonseca)
- Fim (Fernanda Torres)
- Passageiro do fim do dia (Rubens Figueiredo)

Literatura em Língua Estrangeira (originais ou traduções em inglês, francês e espanhol):

- The Book of Illusions (Paul Auster)
- L'affaire Saint-Fiacre (Georges Simenon)
- Retrato en sepia (Isabel Allende)
- Leviathan (Paul Auster)
- Le tour d'écrou (Henry James)
- El astillero (Juan Carlos Onetti)
- Imperial Bedrooms (Bret Easton Ellis)
- La colère de Maigret (Georges Simenon)
- Maigret et la jeune morte (Georges Simenon)
- On s'habitue aux fins du monde (Martin Page)

Literatura Estrangeira (traduções em português, literatura portuguesa ou em língua portuguesa):

- Divórcio em Buda (Sándor Márai)
- Notas do subsolo (Dostoievski)
- Hollywood (Charles Bukowski)
- Fahrenheit 451 (Ray Bradbury)
- Van Gogh (David Haziot)
- O barão nas árvores (Italo Calvino)
- Antes de nascer o mundo (Mia Couto)
- Juventude (J. M. Coetzee)
- Viagem ao fim da noite (Louis-Ferdinand Céline)
- Abaixo de zero (Bret Easton Ellis)
- O jogo das contas de vidro (Hermann Hesse)
- A máquina de fazer espanhóis (Valter Hugo Mãe)
- A desobediência civil (Henry David Thoreau)
- Amuleto (Roberto Bolaño)
- A festa da insignificância (Milan Kundera)
- Um sonho americano (Norman Mailer)
- O pintassilgo (Donna Tartt)
- Contos do nascer da Terra (Mia Couto)

Retiro


"O reitor não pediu para ouvir a lição do catecismo. Simplesmente enlaçou as mãos em cima da escrivaninha e disse:
– O retiro vai começar na tarde de quarta-feira em honra a São Francisco Xavier, cujo dia é sábado. O retiro vai se estender de quarta-feira a sexta-feira. Na sexta-feira as confissões serão ouvidas durante a tarde inteira após os rosários. Se qualquer garoto tiver um confessor especial, o melhor é não mudar. A missa vai ser celebrada na manhã de sábado às nove horas, com comunhão geral para todo o colégio. O sábado vai ser um dia livre. O domingo também, claro. Mas com o sábado livre e o domingo livre talvez certos garotos estejam dispostos a pensar que a segunda-feira também seria um dia livre. Tomem cuidado para não incorrer nesse erro. Acho que você, Lawless, é um tanto propenso a incorrer nesse erro.
– Eu, senhor? Por quê, senhor?
Um rumor de alegria silenciosa espalhou-se entre os garotos quando o reitor abriu um sorriso lúgubre. O coração de Stephen aos poucos começou a encolher e a desbotar de medo como uma flor ao murchar."
James Joyce (1882-1941). Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 129

Palmatória


"O Padre Arnall entrou e a lição de latim começou e Stephen permaneceu sentado, escorado na carteira com os braços cruzados. O Padre Arnall entregou os livros de temas e disse que aquilo era um escândalo e que todos deveriam ser reescritos de imediato com as correções necessárias. (...)
A porta se abriu em silêncio e se fechou. Um sussurro discreto percorreu a classe: era o prefeito de estudos. Fez-se um instante de silêncio sepulcral e então veio o sonoro baque de uma palmatória na última carteira. O coração de Stephen deu um salto por conta do medo.
– Tem algum garoto querendo levar uma surra por aqui, Padre Arnall?, bradou o prefeito de estudos. – Tem algum vagabundo preguiçoso e desleixado querendo levar uma surra nessa classe?"

James Joyce (1882-1941). Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 56-7

noite escura de um segredo


"Seria a noite escura de um segredo. Quando a noite caísse ainda cedo as lâmpadas iluminariam, aqui e acolá, o sórdido bairro dos bordéis. Ele seguiria um curso errante para cima e para baixo das ruas, andando em círculos cada vez mais próximos em um tremor de medo e alegria, até que os pés de repente o levassem a dobrar em uma esquina escura. As putas estariam saindo das casas e se aprontando para a noite, bocejando preguiçosamente depois de tirar um cochilo e de ajeitar os alfinetes nos cabelos. Ele passaria por elas calmamente enquanto aguardava um movimento repentino da própria vontade ou um chamado repentino à própria alma pecaminosa vindo daquelas carnes perfumadas. Porém, enquanto perambulava em busca desse chamado, os sentidos, embotados por esse único desejo, percebiam de maneira aguda tudo o que os feria ou os envergonhava". 

James Joyce (1882-1941). Retrato do artista quando jovem (1916). Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 123

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Olhar para o futuro


"...o que mais ameaçava Rosane era uma dúvida: será que, no fundo, o jeito de Rosane, sua opção, era de fato melhor? Rosane queria estudar, queria aprender, queria ter educação, queria uma profissão mais qualificada, poder ganhar mais, poder comprar mais coisas, queria ser respeitada por eles, os outros, aquela gente toda – queria poder morar em outro lugar, melhorar de vida, ser outra pessoa, ser alguém, alguém – isso era o certo, era o que todos diziam, era sabido e apregoado em toda parte – ali estava o que era bom fazer, o que era bom ter sempre na cabeça e não desistir nunca.

Dali, daquele ângulo bem definido e cada vez mais estreito, é que se devia olhar para o mundo em redor. Era dali que se devia lançar o olhar para o futuro. Mas a cada dia as dificuldades se mostravam tão flagrantes, os obstáculos eram tão descarados em seu poder e se levantavam tão desproporcionais às forças de Rosane que ela às vezes parava com um susto, uma surpresa, e de repente topava com um imenso vazio à sua volta."


Rubens Figueiredo (1956-). Passageiro do fim do dia (2010). São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 63-4

Novamente em casa


"Eu estava novamente em casa. Era ótimo. Recurvei-me sobre minha barriga. No Vietnã, os exércitos estavam lutando. Nos becos, os vagabundos mamavam em suas garrafas de vinho. Vi uma aranha escalando o peitoril da janela. Vi um jornal velho no chão. Havia uma foto de três garotas pulando uma cerca e mostrando muito das pernas. O lugar todo se parecia comigo e tinha meu cheiro. O papel de parede me conhecia. Era perfeito. Estava consciente de meus pés e meus cotovelos e meus cabelos. Não me sentia como se tivesse 45 anos de idade. Sentia-me como um maldito monge que recém houvesse recebido uma revelação. Sentia-me como se estivesse apaixonado por algo que fosse muito bom, mas não sabia exatamente o quê, exceto que estava ali, bem perto. Escutei todos os sons, os ruídos das motocicletas e dos carros. Ouvi os cães latindo. Pessoas rindo. Então dormi. Dormi e dormi e dormi. Enquanto uma planta olhava através da minha janela, enquanto velava meu sono. O sol seguia sua labuta e a aranha ficou a rastejar por ali."

Charles Bukowski (1920-1994). Ao sul de lugar nenhum - Histórias da vida subterrânea (1973). Porto Alegre: L&PM, 2011.

O ex-juiz e sua esposa

"...os amigos do juiz tinham morrido nos melhores hospitais, tinham mudado para outro país, mais de um foi assassinado, outros estavam de cama, inválidos, outros não queriam saber de mais nada a não ser prostitutas, filmes pornográficos e doses cada vez maiores de remédios estimulantes. Por sua vez, a esposa do juiz, depois que os filhos foram estudar no exterior e lá ficaram de uma vez, passou primeiro por uma fase de apatia: não arrumava mais nada em casa nem exigia das empregadas os cuidados a que o ex-juiz estava habituado.

Depois deu início a uma série de tratamentos de beleza e cirurgias plásticas. Aderiu a variadas crenças esotéricas e, em seu apartamento, era comum o juiz ter de abrir os janelões na tentativa de atenuar o cheiro dos incensos. Objetos em feitio de animais fantásticos, ou formados só por arabescos que se multiplicavam em serpentes e em penachos de muitas pontas, objetos feitos de pedra, de cristal, de metais dourados, verdes, apareciam em todo canto da casa em vários tamanhos. E a esposa, com adereços ciganos, hindus, africanos espalhados pela roupa e pelo corpo, empolgada a cada trimestre por uma nova redescoberta de si mesma, parecia ignorar quem era ou tinha sido um dia o seu marido, o juiz, o ex-juiz."

Rubens Figueiredo (1956-). Passageiro do fim do dia (2010). São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 130-1

No trabalho II


"O cimento até então era o seu trabalho, era o seu dia – obediente na mistura, dócil no tempo de dar a liga, o cimento era sempre o mesmo, não mudava, era o seu salário, o seu patrão. Estava por trás de tudo, por baixo de tudo, e era na direção do cimento que seus braços compridos se moviam: armar o pequeno lago de água limpa no alto do montinho de cimento e areia, depois misturar tudo com aquela água, em golpes medidos de uma enxada ou pá, e por último, com a ajuda da pá, encher os baldes ou os carrinhos de mão com a massa úmida, pesada – às vezes, numa sombra de irritação, num cansaço antecipado, ele já acordava pensando naquilo, sentia até o cheiro: na hora em que pegava o açúcar na colher para pôr dentro da caneca de café com leite, adivinhava no ouvido o chiado da lâmina da pá ao ser enfiada no monte de areia."

Rubens Figueiredo (1956-). Passageiro do fim do dia (2010). São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 101

No trabalho


"Rosane ficava o dia inteiro para lá e para cá, dentro e fora do escritório, em troca de um salário que era pouco mais do que nada, quase que só o suficiente para pagar a comida, o transporte e alguma roupa. Mesmo assim – Pedro percebia –, os patrões ainda se lamentavam, achavam que era muito, que tinham muita despesa com os empregados, deixavam claro que cumpriam um papel social oneroso ao dar emprego às pessoas, ao pagar salários e reconhecer alguns direitos. Nada de especial tinha acontecido, a situação era a mesma de antes. Mas só ultimamente Pedro começou a ter a sensação de que os patrões, se precisassem, sem sequer notar o que estavam fazendo, seriam capazes de retirar até a última gota de energia de Rosane e deixá-la exaurida."

Rubens Figueiredo (1956-). Passageiro do fim do dia (2010). São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 183

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

micro

"Fazer pactos com o nada
renegociar o vazio
palavrear carências
aliar-se ao pouquíssimo"

Ajo (poeta espanhola). In: modo de usar & co (blog)

Na biblioteca


"Na biblioteca de paredes altas e mofadas do prédio quase centenário da faculdade, Pedro tentava ler os livros e os capítulos pedidos pelos professores. Mas sua atenção morria sem fôlego no amontoado de palavras estranhas, alheias. Adormecia nas marteladas sem ritmo de frases cada vez mais distantes. Os títulos e subtítulos começaram a soar estridentes, hostis, como uns latidos. Seus olhos se desviavam espontaneamente para as imensas árvores de mais de cem anos no parque em frente, emolduradas pelas janelas muito altas. Ele se demorava ali à toa num torpor, observando a folhagem densa, a profusão dos galhos, a leve transformação das cores e das sombras à medida que o sol baixava."

Rubens Figueiredo (1956-).
Passageiro do fim do dia (2010). São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 44

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Bibliotecas e cemitérios


“Havia dois lugares em todo o Universo onde ela estava certa de não ser incomodada: as bibliotecas e os cemitérios. O silêncio dos mortos e dos livros não tinha nada de embaraçoso. (...) Ela sabia que era aceita e amada nesses lugares sem nenhuma condição. Pode-se confiar nos mortos e nos livros. Anos antes, quando, na escola, lhe pediam para escrever na sua ficha de apresentação o que ela queria fazer mais tarde, ela pensava nos cemitérios e nas bibliotecas. Ou ela seria morta, ou escreveria.”

[« Il y avait deux lieux dans tout l’Univers où elle était sûre de ne pas être dérangée : les bibliothèques et les cimetières. Le silence des morts et des livres n’a rien d’embarrassant. (...) Elle savait que, sans condition, elle était acceptée et aimée dans ces lieux. On peut faire confiance aux morts et aux livres. Des années plus tôt, quand, à l’école, on lui demandait de noter sur sa fiche de présentation ce qu’elle voudrait faire plus tard, elle pensait aux cimetières et aux bibliothèques. Soit elle serait morte, soit elle écrirait. »]


Martin Page (1975-). On s’habitue aux fins du monde (2005). Paris : J’ai lu, p. 123

domingo, 21 de dezembro de 2014

Não me interessa ter razão


"Não me interessa ter razão, não tenho apetência para esse tipo de poder, de marcar uma posição, dar um murro na mesa. Se entro numa discussão é à maneira chinesa, simplesmente para sugerir que pode haver outra maneira de olhar para as coisas."

"...se nos colocarmos no território de ganhar, vamos suscitar no outro apetites enormes numa vida onde se perdeu quase sempre, e as pessoas agarram-se a esses pequenos triunfos. Se conseguirmos retirar o assunto do território da disput
a é mais fácil convencer as pessoas de que há outros modos de olhar. Dou-me bem com esta forma de fazer guerras. O provérbio chinês 'o general que ganhou a guerra sem fazer nenhuma batalha' é um lema da minha vida."

Mia Couto, em entrevista à RA - Rede Angolana

A arte de parar


"Não se deve confundir ficar sem fazer nada com uma falta total de atividade. Não fazer nada é de fato fazer algo muito importante. É permitir que a vida aconteça – a sua vida. Não fazer nada é algo muito profundo."

David Kundtz.
A essencial arte de parar, p. 23

domingo, 14 de dezembro de 2014

A arte e a ciência de não fazer nada


"Colocar a cabeça constantemente num estado de vigilância é muito perigoso a longo prazo. Só como exemplo, uma recente revisão sistemática de todos os estudos clínicos sobre horas de trabalho e doença cardíaca coronária mostrou que as pessoas que trabalham mais horas têm 40% de risco extra de doença do coração. Isso é quase tão grave quanto fumar. Acho que quando realmente podemos ficar ociosos sem culpa ou vergonha, nosso cérebro pode processar toda a energia emocional – e a princípio isso pode parecer estranho, mas é certamente benéfico para nossa saúde física e mental a longo prazo." (p. 47)
"Acredito que coisas como a desigualdade de riquezas e o tipo de economia de privilégios que temos impedem as pessoas de realmente descobrirem o que gostam de fazer – ou não fazer, conforme o caso." (p. 48)
"Não estou certo sobre o que deveria vir antes: a luta por melhores salários ou por menos trabalho. Isso porque incrementar marginalmente seu salário parece sempre levar a muito mais trabalho em proporção à remuneração, já que as empresas precisam a todo momento maximizar os lucros..." (p. 49)

Entrevista com Andrew Smart, sobre seu livro "Autopilot: The Art and Science of Doing Nothing". OR Books. In: Revista
Vida Simples, jun. 2014

Ação e reação


"...toda ação executada deixa uma semente na área mental da mesma natureza da ação cometida. Portanto, tal semente irá amadurecer gerando um efeito similar à ação realizada. Ou seja, se trapacearmos alguém para nos beneficiar momentaneamente, estaremos criando causas para sermos trapaceados. Já se formos generosos, criamos causas para recebermos generosidade."
"Buda ensina que é um autoengano considerar que é possível se beneficiar prejudicando alguém."

Kelsang Mudita. O budismo e a disciplina moral (entrevista). In: Revista Vida Simples, jun. 2014, p. 191

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Um momento


"Um momento.
E devagar, shhhh...
Que o gato não desperte.
Que os pardais na laranjeira
não se espantem.
Ferve a água, fecho o livro,
maio voltou à janela.
Alguém quer uma xícara de chá?
Algum de vocês deseja
uma xícara de chá?
Na segunda prateleira,
à esquerda, há duas latas
uma vermelha e outra branca.
150 milhões de km
percorreu este raio de sol
que transluz o vidro
e as cortinas
e se fixa na madeira do chão.
Dentro do raio, na não-gravidade,
a poeira cinza enlouquecida
formigando.
A branca não, a vermelha."
Daniel García Helder (1961-), poeta argentino. Intranscendência. In: modo de usar & co (blog)

A vida virou uma carreira

"A vida virou uma carreira. As pessoas estão focadas o tempo todo no seu sucesso profissional. É preciso ganhar o máximo de dinheiro, ter uma família, casa grande – tudo junto. Consumismo, individualismo, carreirismo. A vida contemporânea, apesar dos avanços materiais, é mais pobre."
"As pessoas gastam tempo nenhum em reflexão. Raramente se vê pessoas sozinhas andando sem estar com fones de ouvido, telefones. Vejo isso da janela do meu escritório no campus. Conto quantos estão sozinhos sem falar ao telefone. O número é muito pequeno."
"Minha filha trabalhou numa empresa de desenvolvimento de programas de computador. Muitos de seus colegas têm em torno de 20 anos e ganham muito dinheiro. Perguntei a ela o que eles fazem com tanto dinheiro. Ela me disse: apenas compram brinquedos. Mas brinquedos grandes: carros, barcos, sem falar nas traquitanas tecnológicas. Trabalham muito; não têm tempo para viajar. São apenas crianças grandes com a chance de fazer o que quiserem. E o que eles fazem é comprar objetos. É uma vida superficial."
Barry Stroud, filósofo, professor da Universidade da Califórnia - Berkeley

apocalipse zumbi


"Hey sweetheart, não vá
a piquenique em cemitério:
não vá
bebericar no cemitério:
não vá cheirar pó no cemitério:
não faça a gótica
esta noite.
Porque as coisas
andam meio esquisitas; porque foi encontrado
um braço
e o resto desse corpo é um mistério;
porque foi encontrada
a orelha
de outro mistério
e os dentes só o diabo sabe que sorriso;
porque as coisas estão ficando hardcore:
hey, honey, escute
essa cançãozinha idiota: não vá
dançar no cemitério:
não vá dançar
no cemitério: não vá
dançar no cemitério: fique comigo
esta noite."

Luis Felipe Fabre (1974-), poeta mexicano. Notas em torno do apocalipse zumbi. In: modo de usar & co (blog)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

estranhas névoas me afastaram de mim


"Quer que eu lhe fale de mim, quer saber de um velho asilado que nem sequer é capaz de se mexer da cama? Sobre mim sou o menos indicado para falar. E sabe por quê? Porque estranhas névoas me afastaram de mim. E agora, que estou no final de mim, não recordo ter nunca vivido."

Mia Couto. Contos do nascer da Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 111

Não podemos escapar de quem somos


"Não podemos escolher o que queremos e o que não queremos, e essa é a dura e solitária verdade. Às vezes queremos o que queremos mesmo sabendo que isso vai nos matar. Não podemos escapar de quem somos. (Uma coisa tenho que admitir sobre meu pai: pelo menos ele tentou querer a coisa sensata – minha mãe, a pasta executiva, eu – antes de enlouquecer de vez e fugir disso.)"

Donna Tartt (1963-). O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 718

Glória perversa

"Kitsey tem razão? Se seu eu mais profundo está cantando e te atraindo direto para a fogueira, o melhor é se afastar? Tapar os ouvidos com cera? Ignorar toda a glória perversa que seu coração está gritando pra você? Pôr-se no rumo que vai te levar devidamente à norma, expediente razoável e checkups médicos regulares, relacionamentos estáveis e progressão fixa na carreira, 'New York Times' e brunch no domingo, tudo com a promessa de ser de alguma forma uma pessoa melhor?"

Donna Tartt (1963-). O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 710

arte


"Porque, entre realidade, de um lado, e o ponto onde a mente toca a realidade, de outro, há uma zona intermediária, uma borda de arco-íris onde a beleza ganha vida, onde duas superfícies muito diferentes se misturam e se confundem para suprir o que a vida não oferece; e esse é o espaço onde toda arte existe, e toda mágica."

Donna Tartt (1963-). O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 718

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Olhando fotos de Anne Sexton


"Na primeira foto, Anne Sexton olha o mar.
Sabemos que é uma praia em Virgínia,
Carolina do Norte, e que é o ano
de 48, um dia
de sua lua de mel.
...........................Tem os olhos
semifechados, enquanto ouve o rumor
das ondas, o vento que desfaz
e volta a erguer as dunas,
a água que se move com lentidão,
que traça
linhas,
curvas,
esferas.
A água que se move como a mão
de alguém que escreve a palavra oceano.
Na segunda imagem
— agora já estamos em mil novecentos e
setenta e quatro —, fuma um cigarro
perto de uma janela — por alguma razão
creio que do outro lado do vidro há um bosque —
e observa as figuras
formadas pela fumaça: peixes,
um iceberg,
.................uma sereia,
....................................um anjo
gravemente ferido na neve.
Nesta foto
tem um aspecto estranho,
parecido ao de alguém que corre para um vulcão
ou ao de alguém que acaba de largar uma faca.
Poucos
dias
depois
Anne Sexton vai se matar
nesta mesma casa;
vai deixar
seus anéis
sobre uma mesa, na cozinha,
e em seguida
entrará na garagem
com um copo
de vodka
na mão,
ligará o motor
do carro — um Cougar vermelho — e o rádio
— você imagina o que ela pôde ter ouvido? James Taylor?
Grateful Dead? Pink Floyd?—
E aguardará a morte.
Fecho o livro
Você me olha.
Sei o que está pensando:
— A vida é muito difícil.
Uma mulher é um relógio de areia."
Benjamín Prado (1961-), poeta espanhol. Olhando fotos de Anne Sexton (1928 - 1974). In: modo de usar & co (blog)

Nunca esqueça que você não é um deles


"...fiquei agarrando taças de champanhe dos garçons que às vezes passavam por perto, de vez em quando um canapé, minúsculos quiches, blinis em miniatura com caviar, estranhos indo e vindo, preso e assentindo educadamente em meio à multidão de bem-nascidos, ricos e poderosos...
('Nunca esqueça que você não é um deles', meu colega viciado do departamento de contabilidade tinha sussurrado no meu ouvido quando me viu socializando entre clientes importantes num leilão de arte impressionista e moderna.)
...paralisando e me virando para sorrir com grupos aleatórios quando o fotógrafo passava, detido em fragmentos de conversas extremamente tediosas à minha volta sobre jogos de golfe, política, esportes das crianças, escolas das crianças, terceira, quarta e quinta casa em Hyères, Hyannis, Paris, Londres, Jackson Hole e Júpiter (...).
Teria ficado feliz em sair daquela sala e continuar andando durante dias e meses até chegar a alguma praia do México, talvez alguma costa isolada onde poderia vagar sozinho e usar as mesmas roupas até se desintegrarem e ser o gringo doido com óculos de armação de tartaruga que vivia de consertar cadeiras e mesas."
Donna Tartt (1963-). O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 590; 594

A Walk


"My eyes already touch the sunny hill.
going far ahead of the road I have begun.
So we are grasped by what we cannot grasp;
it has inner light, even from a distance –
and charges us, even if we do not reach it,
into something else, which, hardly sensing it,
we already are; a gesture waves us on
answering our own wave...
but what we feel is the wind in our faces."
Rainer Maria Rilke (1875-1926). A Walk. In: poemhunter.com

sábado, 29 de novembro de 2014

Na escola


"...a escola era solitária. Os alunos de dezoito e dezenove anos não socializavam com os mais novos e, embora houvesse muitos da minha idade e mais novos ainda (inclusive um de doze anos esguio cujos boatos diziam ter um QI de duzentos e sessenta), suas vidas eram tão enclausuradas e suas preocupações tão tolas e com cara de estrangeiras, que era como se falassem alguma língua perdida de ensino fundamental que eu tinha esquecido. Moravam em casa com os pais; preocupavam-se com coisas do tipo curvas de desempenho, italiano no exterior e estágios de verão na ONU; surtavam se você acendia um cigarro na frente deles; eram sérios, bem-intencionados, perfeitos, sem noção da vida. Considerando o que eu tinha em comum com qualquer um deles, dava na mesma sair com crianças de oito anos."
Donna Tartt (1963-). O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 382

Cadáveres

"...só o que eu via era morte: calçadas repletas de mortos, cadáveres saindo em massa de ônibus e correndo pra casa do trabalho, nada restando de qualquer um deles dali a cem anos além de obturações, marca-passos e talvez alguns fragmentos de pano e osso."

Donna Tartt (1963-). O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 418

depressão não era a palavra certa


"...depressão não era a palavra certa. Aquilo era um mergulho que encerrava tristeza e repulsa muito além do pessoal: uma náusea doentia e encharcada contra toda a humanidade e todo o esforço humano desde o princípio dos tempos. A repugnância sofredora da ordem biológica. Velhice, doença, morte. Ninguém escapava. Até os belos eram como frutas macias prestes a estragar. E mesmo assim de alguma forma as pessoas ainda continuavam fodendo e se reproduzindo e atirando nova forragem no túmulo, produzindo mais e mais novos seres para sofrer desse jeito como se fosse algo redentor, ou bom, ou até moralmente admirável: arrastando mais criaturas inocentes para o jogo em que se perde de um jeito ou de outro. Bebês se contorcendo e mamães complacentes e drogadas arrastando os pés. 'Ah, ele não é uma gracinha? Ohhh'. Crianças gritando e escorregando no parquinho sem a menor ideia de que infernos futuros as esperam: empregos maçantes, hipotecas desastrosas, casamentos ruins, perda de cabelo, prótese de quadril, xícaras solitárias de café numa casa vazia e uma bolsa de colostomia no hospital. A maioria das pessoas parecia satisfeita com o fino esmalte decorativo e a ardilosa iluminação de palco que, às vezes, fazia a atrocidade intrínseca da desagradável situação humana parecer de certa forma mais misteriosa ou menos repugnante. As pessoas apostavam, jogavam golfe, plantavam jardins, negociavam ações, faziam sexo, compravam carros novos, praticavam ioga, trabalhavam, rezavam, redecoravam a casa, ficavam abaladas pelas notícias, preocupavam-se à toa com os filhos, fofocavam sobre os vizinhos, debruçavam-se sobre críticas de restaurantes, fundavam instituições de caridade, apoiavam candidatos, iam ao U.S. Open, jantavam, viajavam, distraíam-se com todo tipo de dispositivo, atolando-se incessantemente com informações, textos, mensagens, entretenimento vindo de todas as direções para tentar se forçar a esquecer: onde estamos, o que somos. Mas sob a luz forte não havia como disfarçar as coisas. Aquilo estava podre da cabeça aos pés. Dedicar seu tempo ao escritório; gerar aposentadoria; mastigar os lençóis e sufocar com pêssego em calda no asilo."

Donna Tartt (1963-).
O pintassilgo (2013). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 444-5