segunda-feira, 18 de agosto de 2014

a mais sublime energia do desejo



"O que tu chamas de paixão não é nenhuma energia psíquica, mas um atrito entre a alma e o mundo exterior. Onde reinam os sentimentos apaixonados não existe um plus de energéticos desejos e aspirações, mas esses sentimentos se dirigem a uma meta solitária e falsa, e por essa razão a atmosfera se torna tensa e pesada. Quem centralizar a mais sublime energia do desejo, quem a dirigir ao verdadeiro ser, à perfeição, terá uma aparência mais calma do que a pessoa apaixonada, porque a labareda do seu ardor não é sempre visível, e porque, por exemplo, ao discutir, essa pessoa não grita nem gesticula. Mas eu te digo: esse homem arde, queima!"

Hermann Hesse (1877-1962). O jogo das contas de vidro (1943). 4ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, p. 102

sábado, 9 de agosto de 2014

Educação



Rubem Alves, no seu livro PINÓQUIO ÀS AVESSAS "aponta para o perigo que correm nossas crianças ao ingressarem em escolas que não consideram seu potencial e suas capacidades individuais e criativas, antes tentam enquadrá-las num sistema educacional rígido, conservador, anacrônico e sufocante.

Felipe, o personagem principal da história, um menino que adora pássaros e sonha se tornar um cuidador de pássaros quando crescer, descobre, indo para a escola, que os adultos são aquilo que fazem para ganhar dinheiro e que ser cuidador de pássaros não dá dinheiro, que ser cuidador de passarinhos não é uma atividade produtiva. Não se faz vestibular para ser cuidador de passarinhos.

Quando dormia, Felipe sempre sonhava. E sonhava que professores eram pássaros que ensinavam a voar, que cada um ensinava a voar de um jeito e que havia vários jeitos de voar. (...)

E na escola, o menino vai descobrindo e aprendendo coisas. Aprendendo que na escola há horas certas para pensar as coisas, como na TV, a gente aperta um botão e faz mudar o canal; que na escola é a campainha que faz mudar o canal do pensamento; que cada professor sabe apenas de uma coisa, e que nenhum sabe o nome do pássaro azul que ele viu voando quando vinha para a escola; que a escola é uma grande corrida, onde uns ganham e outros perdem; que os conhecimentos não valem pela sua utilidade, mas porque vão cair na prova e no vestibular; e que quando se pensa sobre coisas que a gente gosta e não sobre o assunto que a professora está falando as crianças podem ser diagnosticadas como crianças com distúrbio de atenção. Distúrbio de atenção é quando a atenção está no lugar que o coração deseja e não no lugar onde o professor manda."

Elis Zampieri, no blog "Sobre Educação", a respeito do livro "Pinóquio às avessas: uma estória sobre crianças e escolas para pais e professores", de Rubem Alves

Dom Quixote



"Em suma, ele engolfou-se tanto em sua leitura, que lendo passava as noites em claro, e os dias em turvo; e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro de maneira que veio a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo aquilo que lia nos livros, tanto de encantamentos como pelejas, batalhas, duelos, ferimentos, galanteios, amores, desgraças e disparates impossíveis; e assegurou-se-lhe de tal modo na imaginação que era verdade toda aquela máquina daquelas sonhadas invenções que lia, que para ele não havia outra história mais certa no mundo. [...]

Então, consumido já seu juízo, veio a dar no mais estranho pensamento em que jamais deu louco algum no mundo, e foi que lhe pareceu conveniente e necessário, tanto para o aumento de sua honra como para serviço de sua república, fazer-se cavaleiro andante, e ir pelo mundo afora com suas armas e cavalo a buscar aventuras e a exercitar-se em tudo aquilo em que ele lera."

Miguel de Cervantes (1547-1616). Dom Quixote (1605)

Ofensas



"As ofensas, que na verdade consistem sempre na exteriorização da falta de consideração, colocar-nos-iam bem menos fora de nós mesmos se, por um lado, não nutríssimos uma representação tão exagerada do nosso elevado valor e da nossa dignidade – portanto, um orgulho desmesurado – e, por outro, se estivéssemos bastante cientes daquilo que, via de regra, no fundo do coração, cada um crê e pensa dos outros. 

Que contraste flagrante entre a susceptibilidade da maioria das pessoas à mais tênue alusão de censura a seu respeito, e aquilo que ouviriam de si, caso surpreendessem as conversas dos seus conhecidos! Deveríamos, antes, ter em mente que a polidez habitual é apenas uma máscara burlesca; desse modo, não gritaríamos tão alto todas as vezes que esta fosse deslocada ou retirada por um breve instante."

Arthur Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão. Aforismos para a Sabedoria de Vida

Os mortos não estão mortos



"Atente os seus ouvidos
Mais às coisas que aos Seres
À voz do Fogo, fique atento, 
Ouça a voz das Águas.
Ouça através do Vento
A Savana a soluçar 
É o Sopro dos ancestrais

Os que faleceram jamais se foram
Eles estão na Sombra que se ilumina
E na sombra que se enegrece.
Os Mortos não estão sob a Terra
Eles estão na Árvore que freme,
Estão na Madeira que geme,
Estão na Água que dorme, 
Estão na Cabana, estão na Massa
Os mortos não estão mortos."
...
Birago Diop (1906-1989), poeta senegalês. Sopro. In: modo de usar & co (blog)

Eu sou triste



"Eu sou triste como um prático de farmácia,
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.

Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos pra não fazerem nada com eles.

Também se o Diretor tivesse a minha imaginação
O Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar."

Murilo Mendes (1901-1975). Poemas (1925-1929) e Bumba-meu-Poeta (1930-1931). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p. 37

O inventor das máquinas



"O inventor das máquinas que mudam a vida da terra

trabalha na bruta sala de cimento armado.
Tantos dínamos, êmbolos, cilindros mexem naquela cabeça
que ele não escuta o barulho macio
das almas penadas
esbarrando nos móveis."

Murilo Mendes (1901-1975). Poemas (1925-1929) e Bumba-meu-Poeta (1930-1931). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p. 38

Imagem: "Murilo Mendes" (1930), por Alberto da Veiga Guignard (1896-1962)

Abaixo de zero



"Manhã de Natal e estou doidão devido ao pó, e uma de minhas irmãs me deu uma agenda encadernada em couro, bem cara, com páginas grandes e brancas e datas impressas elegantemente ao alto das folhas, em filigranas douradas e prateadas. Agradeço-lhe e a beijo, todas essas coisas que se costuma fazer, e ela sorri e se serve de outra taça de champanhe. Tentei manter uma agenda durante um verão, mas não deu certo. Ficava confuso e anotava as coisas à toa e cheguei à conclusão de que eu não tinha atividades o suficiente para manter uma agenda. Sei que não vou usar esta e, provavelmente, vou levá-la comigo para New Hampshire e ela vai ficar jogada na minha escrivaninha por três ou quatro meses, sem ser usada, em branco. Minha mãe nos observa, sentada no sofá da sala, tomando champanhe. Minhas irmãs abrem os presentes displicentemente, indiferentes. Meu pai parece elegante e firme e está preenchendo cheques para mim e minhas irmãs, e eu me pergunto por que ele não preencheu todos antes, mas esqueço e olho pela janela, para o vento quente soprando pelo terreno. A água ondula na piscina."

Bret Easton Ellis (1964-). Abaixo de zero (1985). Porto Alegre: L&PM, 2011, p. 61-2

Poema em linha reta


"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."

Fernando Pessoa [Álvaro de Campos] (1888-1935). Poema em linha reta.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Fui ao rio...



"Fui ao rio e o sentia
próximo de mim, diante de mim.
Os ramos tinham vozes
que não chegavam a mim.
A corrente dizia
coisas que eu não entendia.
Quase me angustiava.
Queria compreendê-lo,
sentir o que nele o céu pálido e vago dizia
com suas primeiras sílabas alargadas,
mas não conseguia.

Retornava.
– Era eu o que retornava? –
na angústia vaga
de sentir-me só entre as coisas, últimas e secretas.
De repente senti o rio em mim,
corria em mim
com suas margens trêmulas de sinais,
com seus fundos reflexos apenas estrelados.
Corria em mim o rio com suas ramagens.
Eu era um rio ao anoitecer
e suspiravam em mim as árvores
e se apagavam em mim as veredas e o capim.
Me atravessava um rio, me atravessava um rio!"

Juan L. Ortiz (1896-1978), poeta argentino. Fui ao rio... In: modo de usar & co. (blog)

Canção da bebida



"Agora é a hora de deixar de beber.
Parar de uma vez, é preciso.
Foi com certeza o bastante.
Consola-me então, ó Espírito,
nesta noite de 20 para 21 de julho de 1965,
em desespero profundo, e cercado de Trevas."

Gerard Reve (1923-2006), poeta holandês. Canção da bebida. In: Canções espirituais (1966)

Ela


"Ela devora seus filhos
ela bebe o sangue de seus mortos
ela prega aos surdos
ela desconhece valores superiores

Ela perde o caminho
ela cambaleia de traição em traição
de erro em erro
ela dorme nas derrotas

Que ela é desnecessária
toda criança aprende na escola
que o povo não a deseja
finalmente percebeu o povo

Que ela não pode vencer
foi provado por a + b
Os que o provaram
não dormem muito bem

Os que nela creem
cansam-se às vezes com as dúvidas
alguns que a odeiam
sabem que ela está a caminho"

Erich Fried (1921-1988), poeta austríaco. Ela. In: modo de usar & co (blog)

céu azul



"Mãos brancas
cabelos ruivos
olhos azuis

Pedras brancas
sangue ruivo
lábios azuis

Ossos brancos
areia ruiva
céu azul"

Erich Fried (1921-1988), poeta austríaco. Naturalização. In: modo de usar & co (blog)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Confidência



"Tudo o que existe em mim de grave e carinhoso
Te digo aqui como se fosse ao teu ouvido...
Só tu mesma ouvirás o que aos outros não ouso
Contar do meu tormento obscuro e impressentido.

Em tuas mãos de morte, ó minha Noite escura!
Aperta as minhas mãos geladas. E em repouso
Eu te direi no ouvido a minha desventura
E tudo o que em mim há de grave e carinhoso."

Manuel Bandeira (1886-1968). Confidência (1913). In: Os melhores poemas de Manuel Bandeira. 5ª ed. São Paulo: Global, 1988, p. 55

Eu li nos olhos do meu filho



"Ontem vi em meu filho um olhar estranho
Que durou uma notícia trágica um comercial
Eu li nos olhos do meu filho
Que já viram coisas demais a pergunta
Se o mundo ainda vale o esforço que é a vida
Pelo instante que durou uma notícia trágica
Um comercial eu fiquei em dúvida
Se desejava a ele uma vida longa
Ou por amor uma morte prematura."

Heiner Müller (1929-1995), poeta alemão. Tristão 1993. In: modo de usar & co (blog)

De minha cela



"De minha cela perante a folha em branco
Na cabeça um drama para plateia nenhuma
Surdos os vencedores os vencidos mudos
Sobre a cidade estranha um olhar estranho
Cinza-amarelas passam as nuvens sobre mim
Branco-cinza cagam as pombas sobre Berlim"

Heiner Müller (1929-1995), poeta alemão. Olhar estranho: despedida de Berlim. In: modo de usar & co (blog)

en ninguna parte



"No volvían de un lugar determinado, según sus ojos; volvían de haber estado en ninguna parte, en una soledad absoluta y engañosamente poblada por símbolos: la ambición, la seguridad, el tiempo, el poder."

Juan Carlos Onetti (1909-1994), escritor uruguaio. El astillero (1961). Barcelona: Seix Barral, 2009, p. 115

São Paulo S/A



“Parece que construímos para isso, Luciana. O nosso trabalho é recompensado. Caminhamos para a tranquilidade. Agora você pode descansar nos fins de semana como sugeria a publicidade dos jornais. Não temos ainda o apartamento à beira mar, mas podemos fazer nosso filho respirar o ar puro do campo. 

Arturo é o grande exemplo que você toma. Tudo que você deseja na vida é que eu seja como ele, não é mesmo? Arturo é bom, Arturo é rico, massacra seus operários, rouba quanto pode, tem grandes e desonestas ambições. Mas Arturo é um exemplo. Veja como trata seus filhos. Só quer o bem para eles. Fazer sua família feliz é tudo que Arturo deseja.” 

Do filme “São Paulo S/A” (1965), de Luís Sérgio Person (1936-1976). [Uma surpresa para mim, esse filme. Descobri por acaso. Muito bom!]

sábado, 19 de julho de 2014

El astillero


"(...) se tanteó distraído para buscar cigarillos y encendió uno. Podía enumerar lo que no le importaba: fumar, comer, abrigarse, el respeto ajeno, el futuro. (...)

Ésta es la desgracia  – pensó  –, no la mala suerte que llega, insiste, infiel y se va, sino la desgracia, vieja, fría, verdosa. No es que venga y se quede, es una cosa distinta, nada tiene que ver con los sucesos, aunque los use para mostrarse; la desgracia está, a veces. Y esta vez está, no sé desde cuándo; anduve dando vueltas para no enterarme, la ayudé a engordar con el sueño de la Gerencia General, de los treinta millones (...). Y ahora, cualquier cosa que haga serviría para que se me pegue con más fuerza. Lo único que queda para hacer es precisamente eso: cualquier cosa, hacer una cosa detrás de otra, sin interés, sin sentido, como si otro (o mejor otros, un amo para cada acto) le pagara a uno para hacerlas y uno se limitara a cumplir en la mejor forma posible, despreocupado del resultado final de lo que hace. Una cosa y otra y otra cosa, ajenas, sin que importe que salgan bien o mal, sin que importe qué quieren decir. Siempre fue así; cuando la desgracia se entera de que es inútil, empieza a secarse, se desprende y cae."

(...) Larsen sintió el espanto de la lucidez. Fuera de la farsa que había aceptado literalmente como un empleo, na había más que el invierno, la vejez, el no tener dónde ir, la misma posibilidad de la muerte.

(...) No volvían de un lugar determinado, según sus ojos; volvían de haber estado en ninguna parte, en una soledad absoluta y engañosamente poblada por símbolos: la ambición, la seguridad, el tiempo, el poder.

Juan Carlos Onetti (1909-1994). El astillero (1961). Barcelona: Seix Barral, 2009, p. 85; 86; 99; 115

Liberté


"J'ai certainement vite appris quelque chose qui n'avait pas fait partie des enseignements de ma petite vie étouffante; j'ai appris à m'amuser, et même à être amusante, et à ne pas penser au lendemain. D'une certaine manière, c'était la première fois que je connaissais la liberté en plein air, la musique de l'été et le mystère de la nature."

Henry James (1843-1916). Le tour d'écrou (1898). [Tradução do inglês]. Paris: Librio, 1998, p. 35

domingo, 6 de julho de 2014

Modéstia


"O que nos aproxima realmente do divino não é a negação de nossa humanidade, mas o mergulho consciente nela - foi o que afirmou Michel de Montaigne, o mais modesto dos pensadores, em seus 'Ensaios', do século 16. Para Montaigne, é colocando os pés no chão que nos impulsionamos em direção aos céus: nos tornamos grandiosos quando aceitamos o que há de pequeno e ridículo em nós mesmos, saboreando nossa insignificância, acariciando o Nada que somos e que temos, inevitavelmente, de ser.

Ao nos afastar da ilusão, a humildade nos aproxima do Universo. 'É uma perfeição absoluta, e como que divina, saber desfrutar honestamente de seu próprio ser', escreveu Montaigne. 'Procuramos outros atributos por não sabermos utilizar corretamente os nossos, e saímos de nós mesmos por não sabermos o que em nós se passa. No entanto, pouco adianta subir em pernas de pau, pois mesmo em pernas de pau ainda teremos de caminhar com nossos próprios pés. E mesmo no trono mais elevado do mundo ainda estamos sentados sobre o nosso traseiro'."

José Francisco Botelho. Modéstia. Revista Vida Simples, julho 2014, n. 147, p.22

Não aguentamos mais



"Das coisas às quais você era mais apegado você resolve um belo dia falar cada vez menos, se esforçando, quando não tem escapatória. Não aguentamos mais nos escutarmos sempre falando... Resumimos... Desistimos... Faz trinta anos que conversamos... Não fazemos mais questão de ter razão. Até a vontade de guardar o lugarzinho que você reservou entre os prazeres o abandona... Nos enfastiamos... Doravante basta comer um pouco, criar um pouco de calor em torno de si e dormir o mais possível no caminho para lugar nenhum. Precisaríamos, para recobrar interesse, descobrir novas caretas a fazer diante dos outros... Mas já não temos força para mudar o repertório. Empacamos. Ainda procuramos uns assuntos e uns pretextos para permanecer ali com eles, os companheiros, mas a morte também está ali, fedorenta, ao nosso lado, o tempo todo agora e menos misteriosa do que uma partida de bisca."

Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Viagem ao fim da noite (1932). São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 482

A nora Henrouille


"Que tipa! Havíamos simpatizado, ao nosso jeito... Nos entendido bem, no passado, eu e a nora Henrouille... Por muito tempo... Mas agora, ela já não estava baixo o suficiente para mim, não podia descer... Me encontrar... Não tinha a instrução nem a força. A gente não sobe na vida, desce. Ela não podia mais. Não podia mais descer até ali onde eu estava... Havia noite demais para ela ao redor de mim."


Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Viagem ao fim da noite (1932). São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 487

sábado, 5 de julho de 2014

Uma mudança de hábito


"Shirley chegou à cidade com uma perna quebrada
e conheceu o chicano que fumava
longos charutos slim
e eles foram morar juntos
na Beacon Street
5º andar;
a perna não atrapalhava
muito e
eles assistiam televisão juntos
e Shirley cozinhava, de
muletas e tudo;
havia um gato, Bogey,
e eles tinham alguns amigos
e falavam sobre esportes e Richard Nixon
e de como era difícil tocar
as coisas.
funcionou por alguns meses,
Shirley se livrou até do gesso,
e o chicano, Manuel,
conseguiu um emprego no Biltmore,
Shirley costurava todos os botões caídos
das camisas de Manuel, remendava e emparelhava as meias
dele, então
um dia Manuel retornou para casa, e
ela havia sumido -
sem discussão, sem bilhete, apenas
sumira, levando todas as roupas
e pertences, e
Manuel sentou-se juto à janela e olhou para a rua
e não foi ao trabalho
na manhã seguinte nem
na outra e nem
na outra, sequer ligou para avisar,
perdeu o emprego,
recebeu uma multa por estacionamento proibido, fumou
quatrocentos e sessenta cigarros, foi
preso por embriaguez, saiu por
fiança, foi
a julgamento e se confessou
culpado.

quando o aluguel venceu ele
se mudou da Beacon Street,
deixou o gato e foi viver com
seu irmão e
os dois enchiam a cara
todas as noites
e falavam sobre o quão
terrível
era a vida.

Manuel jamais voltou a fumar
aqueles longos charutos slim
porque Shirley sempre dizia
como
ele ficava bonito
com eles na boca."

Charles Bukowski (1920-1994). Uma mudança de hábito. In: O amor é um cão dos diabos (1977). Porto Alegre: L&PM, 2011, p. 238

Suas mãos no meu rosto...


"Suas mãos no meu rosto,
toda a pele de suas mãos em toda a pele do meu rosto, como ar.
Seus carros enferrujados,
seus sonhos aos gritos,
seus uniformes,
seu lixo em chamas,
seus doces de amêndoa,
seu pó.
Seu dó.
Seus joelhos pálidos
e seus pés com calos.
Suas facas,
suas veias,
suas barricadas.
Sua menta,
seu chá,
sua maconha com as janelas todas fechadas,
seus olhos cerrados,
seus cães envenenados,
suas romãs e suas joias
amassadas até o sumo.
O tremor da sua chegada
como outra espécie de perda subordinada,
outra espécie
de uma indivisível,
implacável e
momentânea graça."

Robin Myers (1987-), poeta norte-americana. In: Modo de usar & Co. (Blog)

a mesma coisa


 

"Com meu diploma eu podia me estabelecer em outro lugar, lá isso era verdade... Mas não seria outra parte nem mais agradável nem pior... Um pouco melhor o lugar no início, fatalmente, porque as pessoas sempre precisam de algum tempo para chegarem a conhecer você e porem mãos à obra e descobrirem a maneira de prejudicá-lo. Enquanto ainda estão procurando o detalhe que o faz sofrer de maneira mais fácil, você tem um pouco de sossego, mas assim que descobrem o segredo, aí tudo volta a ser a mesma coisa, em qualquer lugar. (...)

Quanto aos pacientes, aos clientes, eu não tinha a menor ilusão... Não seriam num outro bairro nem menos ávidos, nem menos broncos, nem menos covardes do que os daqui. O mesmo vinho, o mesmo cinema, as mesmas futricas esportivas, a mesma submissão entusiasta às necessidades naturais, da boca e do cu, refariam deles lá como cá a mesma horda pesada, abrutalhada, titubeando de uma potoca à outra, linguaruda, sempre, tramoieira, maldosa, agressiva entre um pânico e outro."

Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Viagem ao fim da noite (1932). São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 367

Amor em estoque



"Quando passávamos juntos pelas ruas movimentadas, as pessoas se viravam para trás e ficavam com pena dele, do cego. Elas têm muita pena, as pessoas, dos inválidos e dos cegos e pode-se dizer que têm amor em estoque. Diversas vezes senti o que era o amor em estoque. Há enormemente. Não se pode dizer que não. Só que é triste que elas continuem a ser tão ruins com tanto amor em estoque, as pessoas. A coisa não sai, é isso. Agarra-se lá dentro, permanece dentro, não lhes serve para nada. Elas morrem por dentro, de amor."

Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Viagem ao fim da noite (1932). São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 416

quarta-feira, 2 de julho de 2014

no fim da noite



"– Está bem –, me acompanhe até em casa e lá vou lhe dar um pouco de dinheiro, e depois você vai para onde quiser.

Queria se livrar de mim na noite, o quanto antes. Era sempre assim. De tanto ser empurrado desse jeito na noite, a gente deve acabar chegando em algum lugar, eu pensava cá comigo. Era um consolo. 'Coragem, Ferdinand', eu repetia, para me aguentar, 'de tanto ser posto no olho da rua em todo lugar você certamente há de acabar descobrindo o troço que lhes dá tanto medo, a todos eles, a todos esses filhos da puta, sejam quantos forem, e que deve estar no fim da noite. É por isso que eles não vão até lá, até o fim da noite!'."

Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Viagem ao fim da noite (1932). São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 236

Quase todos os desejos do pobre são punidos com a prisão



"Vesti-me e, mal ou bem, cheguei ao elevador, mas um pouco cambaleante. Ainda tive de passar no vestíbulo diante de outras fileiras, de outros encantadores enigmas de pernas tão tentadoras, de rostos delicados e severos. Umas deusas, resumindo, deusas aliciadoras. Poderíamos tentar nos entender. Mas eu tinha medo de ser preso. Complicações. Quase todos os desejos do pobre são punidos com a prisão. E a rua me pegou novamente. Não era mais a mesma multidão de ainda agora. Esta manifestava um pouco mais de audácia se bem que andando como carneiros pelas calçadas, como se tivesse chegado, essa multidão, num país menos árido, este da distração, o país da noite."

Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Viagem ao fim da noite (1932). São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 217

Leitura



"Agora que lês os contos de Isaac Babel, 
pensei em convidar-te a vir comigo
visitar em pensamento os que, como ele, morreram
em insuportável sofrimento corpóreo,
e cuja voz, entretanto, através do tempo, dos 
campos e das águas,
das montanhas e das estepes,
nos faz companhia e nos ajuda a viver,
com histórias e poemas,
na travessia das noites de insônia."

Odylo Costa Filho (1914-1979). Poesia completa. Rio de Janeiro: Aeroplano: Fundação Biblioteca Nacional, 2010, p. 161