domingo, 22 de junho de 2014

Orai


"enquanto os vermes te dissolvem no Nada
entras gloriosa nos Campos da Paz Celestial
enquanto tuas moléculas se reúnem desintegradas 
para decidir se te mutam em violino ou máquina de costura
as sete trombetas te anunciam na nave dourada do Sol
enquanto tua carne cansada se mineraliza
tua alma liberta encara a fila para o Juízo Final

ouço o ranger de dentes na sala de espera desse SUS cristão
onde a alta é o passe livre para o paraíso
e o castigo é permanecer ad eternum no limbo
onde ninguém sabe o que foi, o que é, o que será
onde mesmo as moléculas não sabem no que se transmutarão
e seus átomos desorientados, apenas tramam"

Chacal (1951-). orai. Blog: Modo de usar & Co. Editores: Angélica Freitas, Marília Garcia e Ricardo Domeneck

Morreu



"– Para começar, como é que ele morreu, o sujeito?
– Pegou uma granada bem no meio da fuça, meu chapa, e para completar uma imensa, lá em Garance, era o nome do lugar... na Meuse, na beira de um rio... Não se encontrou nem 'isso' do cara, meu velho! Ficou só a lembrança, sabe... E pensar que era alto e parrudo, o sujeito, forte, e esportivo, mas contra uma granada, hein? Não há quem resista!
– É verdade!
– Mortinho da Silva, foi como ele ficou... A mãe dele ainda se nega a acreditar nisso, até hoje! Por mais que eu diga e repita... Quer que ele esteja só desaparecido... É completamente cretina uma ideia dessas... Desaparecido! Não é culpa dela, coitada, nunca viu uma granada, não pode entender que a gente some pelos ares assim, que nem um peido, e que depois tudo acaba, sobretudo porque é o filho dela..."

Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Viagem ao fim da noite (1932). São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 117

Singrávamos para a África



"Nosso navio tinha nome: Amiral-Bragueton. Só devia se manter em cima daquelas águas mortas graças à sua pintura. Tantas demãos acumuladas tinham acabado por lhe formar uma espécie de segundo casco para o Amiral-Bragueton, que nem uma cebola. Singrávamos para a África, a verdadeira, a grande; essa das insondáveis florestas, dos miasmas deletérios, das solidões invioladas, rumo aos grandes tiranos negros aboletados nos cruzamentos de rios que nunca mais que acabam. Em troca de um pacote de lâminas Pilett eu ia contrabandear com eles marfins do tamanho de um bonde, pássaros flamejantes, escravas menores de idade. Juro que ia. Isso é que é vida, ora se é!" 

Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Viagem ao fim da noite (1932). São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 123

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Sobre um tema de Confúcio



"Que fique pelo menos um homem
sozinho num bar deserto pensando
em nada de especial e curtindo
pessoas atarefadas que passam.

Que a ele pelo menos aquilo
tudo — a pressa das tarefas e os carros —
pareça uma paisagem vazia
e até certo ponto sem cabimento.

Que esse homem sentado, soterrado
talvez em decepções amargas, se oriente
para ouvir a canção além dos passos
e além de sua própria pessoa

que assim no delírio urbano ressoa
sem função social senão deixar
que a boca filosofe assobiando
e o ouvido obediente perceba."

Leonardo Fróes (1941-). Sobre um tema de Confúcio. Fonte: Blog: Modo de usar & Co. Editores: Angélica Freitas, Marília Garcia e Ricardo Domeneck

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Proprietário!



"A International Computers se dispõe a adiantar aos novos empregados o pagamento da entrada de uma casa adequadamente modesta. Em outras palavras, com uma assinatura pode se tornar proprietário (ele! proprietário!) e ao mesmo tempo comprometer-se com os pagamentos da hipoteca, que o ligarão a esse emprego pelos próximos dez ou quinze anos. Em quinze anos, será um velho. Uma única decisão precipitada, e terá renunciado à sua vida, renunciado a todas as chances de se tornar um artista. Com uma pequena casa própria numa fileira de casas de tijolo vermelho, será absorvido na classe média britânica, sem deixar traço. Todo o necessário para completar o quadro será uma esposa e um carro."

J. M. Coetzee (1940-). Juventude (2002). São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 138

Princípio de realidade


"É um mundo do qual pode escapar – não é tarde demais para isso. Por outro lado, pode fazer as pazes com esse mundo, como vê os homens à sua volta fazerem, um a um: contentando-se com o casamento, com uma casa e um carro, contentando-se com o que a vida tem de realista para oferecer, mergulhando as energias no trabalho. Fica mortificado de ver como o princípio de realidade funciona bem (...)."

J. M. Coetzee (1940-). Juventude (2002). São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 146

O que é a verdade afinal?



"Não gosta de más notícias. Acima de tudo não gosta de más notícias a respeito de si mesmo. 'Já sou bastante duro comigo mesmo', diz consigo; 'não preciso da ajuda de ninguém'. É um sofisma a que recorre uma vez ou outra para fechar os ouvidos às críticas: aprendeu seu uso quando Jacqueline, da perspectiva de uma mulher de trinta anos, lhe deu sua opinião sobre ele como amante. Agora, assim que um relacionamento começa a ficar sem gás, ele se retira. Abomina cenas, explosões de raiva, verdades íntimas ('Quer saber a verdade sobre você?'), e faz tudo o que pode para escapar disso. O que é a verdade afinal? Se ele é um mistério para si mesmo, como pode ser algo diferente de um mistério para os outros?".

J. M. Coetzee (1940-). Juventude (Youth). São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 130-1

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Solidez



"Solidez é uma coisa que sempre lhe fez falta. Solidez é seu calcanhar de aquiles. Inteligência tem o bastante (embora não tanto quanto sua mãe acha e ele próprio um dia achou); sólido, nunca foi. Rothamsted lhe daria se não solidez, imediatamente, pelo menos um título, um trabalho, uma concha. Técnico Experimental Júnior, depois, um dia, Técnico Experimental, Técnico Experimental Sênior: sem dúvida, por trás de um escudo tão eminentemente respeitável, em particular, em segredo, poderia continuar com o trabalho de transmutar experiência em arte, o trabalho para o qual foi trazido ao mundo."

J. M. Coetzee (1940-). Juventude (2002). São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 46-7

Está na Inglaterra



"Está na Inglaterra, em Londres; tem um emprego, um emprego de verdade, melhor que meramente lecionar, pelo qual recebe um salário. Conseguiu escapar da África do Sul. Está tudo bem, atingiu seu primeiro objetivo, devia estar contente. Na verdade, com o passar das semanas, vai se sentindo mais e mais abatido. Tem ataques de pânico, que combate com dificuldade. No escritório, não há nada em que pousar os olhos além de superfícies metálicas planas. Debaixo do brilho sem sombras da luz de neon, sente que sua alma está sob ataque. O prédio, um bloco de concreto e vidro sem particularidades, parece emanar um gás, sem cheiro, sem cor, que consegue penetrar seu sangue e o amortece. A IBM, é capaz de jurar, o está matando, transformando-o num zumbi."

J. M. Coetzee (1940-). Juventude (2002). São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 49-50

Depressão



"Houve um tempo, quando ainda era uma criança inocente, em que acreditou que a inteligência era a única coisa que importava, que, se fosse bastante inteligente, obteria tudo o que desejasse. Ir para a universidade o pôs em seu lugar. A universidade demonstrou que não era o mais inteligente, nem de longe. E agora se vê diante da vida real, onde não pode contar nem com os exames. Na vida real tudo o que sabe fazer bem, ao que parece, é ficar deprimido. Na depressão ele ainda é o melhor da classe. Parece não haver limite para a depressão que consegue atrair para si e suportar. Nem quando se arrasta pelas ruas frias dessa cidade estranha, indo para parte nenhuma, andando apenas para se cansar, para, ao voltar a seu quarto, poder ao menos dormir, não sente dentro de si a menor disposição de se deixar esmagar pelo peso da depressão. A depressão é o seu elemento. Na depressão sente-se em casa, como um peixe dentro da água. Se a depressão for abolida, não saberá o que fazer consigo."

J. M. Coetzee (1940-). Juventude (2002). São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 66

No grande mundo



"Ele se inquieta por ver que ainda está escrevendo sobre a África do Sul. Preferiria deixar para trás seu eu sul-africano, como deixou para trás a própria África do Sul. A África do Sul foi um mau começo, uma desvantagem. Uma família rural sem distinção, má formação escolar, a língua africâner: desses componentes de sua desvantagem, conseguiu, mais ou menos, escapar. Está no grande mundo, ganhando a própria vida, e não está se dando tão mal, ou pelo menos não está fracassando, não obviamente. Não precisa relembrar a África do Sul. Se um vagalhão viesse do Atlântico amanhã e varresse da existência o extremo sul do continente africano, não derramaria uma única lágrima. Estaria entre os que se salvaram."

J. M. Coetzee (1940-). Juventude (2002). São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 63-4

domingo, 25 de maio de 2014

Essência do sentir



"Cada um de nós tem, a sós consigo no seu silêncio de ser um ser, uma personalidade inexprimível, que nenhuma palavra pode dar, nenhum gesto interpreta, que o mais expressivo dos olhares não interpreta (...). Por essa personalidade extra-social, extra-humana mesmo, cada qual é um eterno isolado, crucificado eternamente no seu próprio não-ser-os-outros. A própria essência íntima do sentir é não poder exprimir, salvo em si e só por si, adentro do indivíduo para si mesmo."

Fernando Pessoa (1888-1935). Teoria do Paganismo (1915)

Senso comum



"(...) outras pessoas podem estar erradas, mesmo quando ocupam posições importantes, mesmo quando estão advogando crenças adquiridas durante séculos por uma vasta maioria. (...) Aquilo que é rotulado de óbvio ou 'natural' raramente o é. O reconhecimento desse fato deveria nos ensinar a achar que o mundo é mais flexível do que parece, pois as opiniões consagradas frequentemente não surgem de um processo de raciocínio irrepreensível e sim de séculos de desordem intelectual. Talvez não existam bons motivos para que as coisas permaneçam como estão."

Alain de Botton (1969-). As consolações da filosofia. Porto Alegre: L&PM, 2013, p. 28-30

Piratas



"Ah, os piratas! os piratas!
A ânsia do ilegal unido ao feroz,
A ânsia das coisas absolutamente cruéis e abomináveis,
Que rói como um cio abstrato os nossos corpos franzinos,
Os nossos nervos femininos e delicados,
E põe grandes febres loucas nos nossos olhares vazios!

Obrigai-me a ajoelhar diante de vós!
Humilhai-me e batei-me!
Fazei de mim o vosso escravo e a vossa cousa!
E que o vosso desprezo por mim nunca me abandone,
Ó meus senhores! ó meus senhores!"

Fernando Pessoa (1888-1930).Ode Marítima (Álvaro de Campos). Poemas escolhidos. São Paulo: Klick editora, p. 101

domingo, 18 de maio de 2014

Um sorriso para lembrar



"Minha mãe, pobre peixinha,
querendo ser feliz, apanhando duas ou três vezes
por semana, me dizendo para ser feliz:
'Henry, sorria! Por que você nunca sorri?'
E então ela sorria, para me mostrar como se fazia, e era o
sorriso mais triste que eu jamais vira."

Charles Bukowski (1920-1994). Um sorriso para lembrar

Leviathan



"Beyond reading the papers and watching the television news, he did almost nothing. He slept. He stared out the window. He thought about the immensity of fear."

Paul Auster (1947-). Leviathan. London: Faber and Faber, 1992, p.168

Josefine, a cantora



"(...) Josefine, livre da faina terrena, a seu ver pronta para juntar-se aos escolhidos, perder-se-á com alegria entre as multidões incontáveis de heróis do nosso povo, e logo, uma vez que não cultivamos a história, será esquecida em uma redenção altiva como todos os seus irmãos."

Franz Kafka (1883-1924). Um artista da fome e outras histórias. Porto Alegre: L&PM, 2013, p. 76

Uma pequena mulher



"Essa pequena mulher está muito insatisfeita comigo, tem sempre algo a criticar em mim, sempre uma injustiça a me imputar, irrito-a por tudo e por nada; se alguém pudesse separar a vida em suas menores partes e analisar cada uma das partezinhas isoladas, sem dúvida cada partezinha da minha vida seria motivo de irritação para ela. Muitas vezes perguntei-me por que a irrito tanto; pode ser que tudo em mim contrarie seu senso estético, seu sentimento de justiça, seus hábitos, suas tradições, suas esperanças, existem naturezas assim, contrárias, mas por que ela sofre tanto com isso? Não existe relação nenhuma entre nós que pudesse levá-la a sofrer por minha causa. Bastaria ela decidir me encarar como um estranho total, o que afinal sou, e eu sequer me oporia a essa decisão, pelo contrário, recebê-la-ia de braços abertos, bastaria ela decidir esquecer a minha existência, que eu jamais impus nem seria capaz de impor a ela – e todo o sofrimento desapareceria."

Franz Kafka (1883-1924). Um artista da fome e outras histórias. Porto Alegre: L&PM, 2013, p. 17-18

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O Cínico (III)


"O cínico diz o que pensa a todos, e até mesmo do modo mais cáustico, sem nenhuma discriminação, quer se trate de um simples homem comum, de um famoso filósofo, de um rei poderoso (...)". 

Giovanni Reale. História da Filosofia. Vol. III. São Paulo: Loyola, 1994. p. 27

Foto: cena da peça "O Cínico", de Rony Morais. Texto: Flávio Marcus da Silva

O Cínico (II)



"(...) procuro o homem que viva segundo a sua mais autêntica essência, procuro o homem que, além de toda exterioridade, de todas as convenções ou de todas as regras impostas pela sociedade, e além do capricho do destino e da fortuna, reencontre a sua natureza genuína, viva em conformidade com ela e assim seja feliz (...)". 

Giovanni Reale. Diógenes e a radicalização do cinismo. In: História da Filosofia. Vol. III. São Paulo: Loyola, 1994. p. 24

Foto: cena da peça "O Cínico", de Rony Morais. Texto: Flávio Marcus da Silva

O Cínico (I)



"(...) certa vez, quando Diógenes tomava sol, aproximou-se o grande Alexandre, o homem mais poderoso da terra, que lhe disse: 'Pede-me o que quiseres'; ao que Diógenes respondeu: 'Afasta-te do meu sol'. Diógenes não sabia o que fazer com o enorme poder de Alexandre; bastava-lhe, para estar contente, o sol, que é a coisa mais natural, à disposição de todos, ou melhor, bastava-lhe a profunda convicção da inutilidade de tal poder, já que a felicidade vem de dentro e não de fora do homem." 

Giovanni Reale/Dario Antiseri. O florescimento do cinismo. In: História da Filosofia. Volume I. 11ª ed. São Paulo: Paulus, 2012. p. 233

Foto: cena da peça "O Cínico", de Rony Morais. Texto: Flávio Marcus da Silva

Leviathan



"Accidents happen, after all. Every hour of every day, people are dying when they least expect it. They burn up in fires, they drown in lakes, they drive their cars into other cars, they fall out of windows. You read about it in the paper every morning, and you'd have to be a fool not to know that your life could end just as abruptly and pointlessly as any one of those poor bastards".

Paul Auster (1947-). Leviathan. London: Faber and Faber, 1992, p. 120

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Antes de nascer o mundo




"Obtivera emprego demitindo-se de si mesma. No fundo, dentro dela se havia formado uma decisão. Ela se separaria em duas como um fruto que se esgarça: o seu corpo era a polpa; o caroço era a alma. Entregaria a polpa aos apetites deste e de outros patrões. A sua própria semente, porém, seria preservada. De noite, depois de ter sido comido, lambuzado e cuspido, o corpo retornaria ao caroço e ela dormiria, enfim, inteira como um fruto. Mas esse sono reparador tardava a ponto de ela desesperar."

Mia Couto. Antes de nascer o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 169

Deserto



"Pela primeira vez confessei o que havia muito me apertava no peito: eu herdara a loucura de meu pai. Por longos períodos era atacado de uma cegueira seletiva. O deserto se transferia para dentro de mim, convertendo a vizinhança num povoado de ausências."

Mia Couto. Antes de nascer o mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 275

sábado, 19 de abril de 2014

O lugar da necrópole



"Há quem tendo cantado e batido os dentes no copo
já morreu.
Há quem tendo falado suas dores secretas
está hoje selado sob lápides,
excrescendo sobre mim o seu fantasma
de pessoa verdadeira, rebelada,
de pessoa poética.
Na juventude me comprazia o fúnebre,
as faces lívidas dos poetas doentes.
Hoje, só preciso da vida pra morrer.
Nas metrópoles,
o campo-santo acaba confundido,
rodeado de bares.
E por causa disso iludem-se as pessoas
de ter nas mãos a indomesticável.
O cemitério quer ladeira e montes
para os quais se olha ao entardecer:
um dia estarei lá,
lá longe,
no incontestável lugar."

Adélia Prado (1936-). O lugar da necrópole. In: Terra de Santa Cruz (1981). Poesia reunida. São Paulo: Arx, 1991. p. 269

tudo é pó


"No dia do meu casamento eu fiquei muito aflita.
Tomamos cerveja quente com empadas de capa grossa.
Tive filhos com dores.
Ontem, imprecisamente às nove e meia da noite,
eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
Não luto mais daquele modo histérico,
entendi que tudo é pó que sobre tudo pousa e recobre
e a seu modo pacifica.
...
Que importam as cinzas,
se há convertidos em sua matéria ingrata,
até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
Este vale é de lágrimas.
Se disser de outra forma, mentirei.
Hoje parece maio, um dia esplêndido,
os que vamos morrer iremos aos mercados."
...

Adélia Prado (1936-). Cinzas. In: O coração disparado (1978). Poesia reunida. São Paulo: Arx, 1991. p. 195

domingo, 13 de abril de 2014

Um abraço para Manoel



Poema que o escritor moçambicano Mia Couto escreveu para o nosso grande poeta Manoel de Barros: 

Um abraço para Manoel 

Dizem que entre nós
há oceanos e terras com peso de distância.
Talvez. Quem sabe de certezas não é o poeta.
O mundo que é nosso
é sempre tão pequeno e tão infindo
que só cabe em olhar de menino.

Contra essa distância
tu me deste uma sabedora desgeografia
e engravidando palavra africana
tornei-me tão vizinho
que ganhei intimidades
com a barriga do teu chão brasileiro.

E é sempre o mesmo chão,
a mesma poeira nos versos,
a mesma peneira separando os grãos,
a mesma infância nos devolvendo a palavra
a mesma palavra devolvendo a infância.

E assim,
sem lonjura,
na mesma água
riscaremos a palavra
que incendeia a nuvem.

Mia Couto, 19/12/2013

Silêncio


"Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.

Os amantes no quarto.
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo o silêncio."

Hilda Hilst (1930-2004). Poesia: 1959-1979. São Paulo: Quíron, 1980.

Tenacidade



"– Sabe que ainda não desci das árvores desde aquele dia?

As tarefas que se baseiam numa tenacidade interior devem permanecer mudas e obscuras; por pouco que alguém as anuncie ou delas se vanglorie, tudo parece supérfluo, sem sentido ou até mesquinho. Assim, tão logo meu irmão pronunciou aquelas palavras, arrependeu-se de tê-las dito, e não lhe importava mais nada, e teve até vontade de descer e acabar com aquilo. Ainda mais quando Viola afastou lentamente o chicote da boca e disse, em tom gentil:

– É mesmo?... Que tonto!"

Italo Calvino (1923-1985). O barão nas árvores (1957). São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 48

sentir-se cansada



"Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e soubesse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam, teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente falir; só os iniciados compreenderiam essa nuance de vício e esse refinamento de vida."

Clarice Lispector (1920-1977). Laços de família (1960). 25ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993. p. 51